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SANTOS E SEU MUSEU VIVO DE BONDES o reencontro da cidade com uma antiga paix達o

2011


SANTOS E SEU MUSEU VIVO DE BONDES 1ª edição Santos/SP Editora

PREFEITURA DE SANTOS

o reencontro da cidade com uma antiga paixão

2011




Prefeito Municipal de Santos João Paulo Tavares Papa Secretária Municipal de Comunicação Social Rosana Cristina Major Textos Luciana Reda Claro Revisão de Textos Marcos Leomil Projeto Gráfico, Direção de Arte e Diagramação David Cardoso Fotografias Anderson Bianchi

SANTOS E SEU MUSEU VIVO DE BONDES

o reencontro da cidade com uma antiga paixão

Cândido Gonzalez



Francisco Arrais José Dias Herrera (in memorian) Marcelo Martins Tadeu Nascimento Vagner Dantas Vanessa Rodrigues Fotografia (capa) Stefan Lambauer Fotografia (quarta-capa) Anderson Bianchi Fotografias Antigas (acervo FAMS)


APRESENTAÇÃO

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INTRODUÇÃO

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Primórdios do transporte Público

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Elétricos impulsionaram progresso e expansão urbana

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Mudanças no transporte municipal: bondes param de circular

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Na Praia do Embaré, um passeio turístico

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Tudo começou com um desenho em um guardanapo...

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UM Museu Vivo, COM BONDES DE VÁRIOS PAÍSES CIRCULANDO NALINHA TURÍSTICA

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ACERVO

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Técnica, trabalho duro, paixão e criatividade: a receita para recuperar veículos antigos

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Ampliação da linha triplicou o roteiro

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PONTOS DE INTERESSE

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REURBANIZAÇÃO ACOMPANHOU O TRAJETO AMPLIADO

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Obras revelaram sítios arqueológicos e relíquias do passado santista

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O impacto no Alegra Centro

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Marca turística de Santos retrata um elétrico

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Charme dos bondinhos atrai produções audiovisuais

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CARNABONDE RESGATA FOLIAS DE ANTIGAMENTE

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PELAS RAMPAS, ACESSO GARANTIDO PARA TODOS

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ANTIGOS MOTORNEIROS CONTAM HISTÓRIAS CURIOSAS

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DEPOIMENTOS

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CIDADE CELEBRA SEUS BONDES

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SERVIÇO

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REFERÊNCIAS PESQUISADAS

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ÍNDICE






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APRESENTAÇÃO

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antos tem hoje uma atração turística sem precedentes: o Museu Vivo Internacional de Bondes, que mantém em circulação no nosso Centro Histórico veículos exemplarmente restaurados, vindos de diferentes países. A cidade também ampliou o trajeto da Linha Turística dos bondes, que tem agora cinco quilômetros de extensão e recebe um número significativo de passageiros, muitos dos quais turistas estrangeiros. Prova disso é que a Linha alcançou recentemente a marca de um milhão de pessoas. Uma realidade que, além de qualificar a cidade como destino turístico, promove a revitalização urbana e estimula a preservação patrimonial na área central, tão importante para a história do país. Mostrar como tudo aconteceu é a proposta desta publicação, desde a concepção de uma ideia aparentemente utópica até o surpreendente papel que os bondes passaram a representar na vida atual da cidade. Os fatos que compõem tal parte da memória santista são compartilhados com o leitor e ilustrados por expressivas imagens do passado e do presente. Depoimentos de pessoas que tiveram desempenho relevante na reativação do sistema e na criação do Museu Vivo enriquecem a obra, que também resgata as origens da relação afetiva e emocionada dos santistas com os nossos bondes. O fato é que os exemplares da Linha Turística acabaram assumindo funções de verdadeiros ‘relações-públicas’ de Santos, passando também a representar o elemento agregador e humanizador no processo de revitalização do Centro Histórico. Carregado de simbolismo, o resgate do bonde funcionou como ligação entre o passado, o presente e o futuro da cidade. Sua reativação foi como uma reparação histórica contra tudo o que Santos sofreu após a perda de sua autonomia política, em 1969. Afinal, menos de dois anos após a intervenção federal no município, o sistema de bondes - que durante décadas era motivo de orgulho para os santistas - foi desativado, para tristeza da população. Era uma época em que não existia democracia, e o povo santista, sempre tão participativo, não tinha mais a oportunidade de exercer a cidadania. Em poucos meses, um sistema completo, construído durante mais de 60 anos, foi destruído, com os veículos dizimados a machadadas. A volta dos bonde significou a preservação da memória de um tempo em que tal transporte público era sinômino de grande conquista coletiva. Simbolizou ainda o resgate de um dívida histórica e da autoestima dos santistas. Tudo o que aconteceu após a reativação, cercada de uma energia muito positiva, resultou na expansão da linha e na busca por exemplares em outros países para a composição do acervo do Museu Vivo. Como cidadão e também como profissional há anos atuando no serviço público, me sinto honrado de ter participado desse processo, que teve a imprescindível parceria e apoio da iniciativa privada local e do governo do Estado de São Paulo. João Paulo Tavares Papa Prefeito Municipal de Santos






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INTRODUÇÃO A Linha Turística do Centro Histórico representa um poderoso e qualificado atrativo turístico para Santos, recebendo cerca de 100 mil passageiros ao ano. Mais que isso, é um dos principais indutores do processo de revitalização do Centro, que se consolida ano a ano graças aos incentivos e investimentos públicos e privados, gerando desenvolvimento. Para contar um pouco do que o bonde representa para Santos, muitas pesquisas, entrevistas, tudo com o apoio de inúmeras pessoas apaixonadas pela rica nossa história, que contribuíram de forma entusiasmada com documentos, fotos e depoimentos. A todos, um sincero e profundo agradecimento. Esta obra registra algumas das passagens mais relevantes do reencontro da cidade com os seus bondes e da implementação do Museu. Um caminho para compreender melhor porque os bondes fazem de Santos uma cidade mais feliz. PREFEITURA DE SANTOS

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construção da identidade de um município ao longo do tempo mescla entre inúmeros componentes fatos, vocações econômicas, cultura popular, movimentos políticos e características determinadas pela geografia. Em Santos, a história que envolve a reativação dos bondes que agora circulam na Linha Turística do Centro revelou uma característica marcante na formação social e cultural da cidade: a paixão do santista por este meio de transporte. Paixão que se fortaleceu com a criação do Museu Vivo Internacional de Bondes, iniciativa única no pais. São veículos antigos perfeitamente restaurados, originários de outros países, que transitam num circuito de cinco quilômetros, mostrando aos passageiros as principais atrações do Centro Histórico. O passeio é uma verdadeira viagem ao passado, que permite vislumbrar edificações seculares, igrejas, teatros, monumentos, ruas e praças. O passageiro tem a oportunidade de conhecer a importância de Santos na história do Brasil, num trajeto que encanta visitantes e também santistas de todas as idades, os quais passam a ver a cidade com maior admiração e respeito.




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Prim贸rdios do transporte P煤blico

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Segunda metade do século 19

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Brasil vivia sob o regime imperial, e Santos, impulsionada pelo crescente movimento em seu porto, ganhava importância no processo de desenvolvimento econômico da Província de São Paulo. As pessoas se deslocavam pela cidade em carroças, charretes, tílburis e carruagens, ou em cavalos e burros. O transporte público começava a se tornar necessário, e ficava por conta de carros de boi e diligências.

Um italiano, Luis Massoja, montou em Santos, no ano de 1864, a primeira empresa organizada de transporte de passageiros: o Serviço Regular de Gôndolas, uma espécie de diligência sobre trilhos puxada por animais, que ligava o Centro à Ponta da Praia. A população gostou, mas o preço da passagem era alto - mil réis por viagem - e o proprietário foi à falência. O pioneirismo e o espírito de vanguarda do povo santista já

se manifestava, e o empreendedor Domingos Moutinho obteve uma concessão para explorar o serviço de bondes movidos por tração animal, constituindo a sociedade anônima Companhia de Melhoramentos de Santos. Na época, a única cidade brasileira que contava com este tipo de novidade era o Rio de Janeiro. Assim, no dia 9 de outubro de 1871, um ano antes da capital da Província de São Paulo, Santos inaugurou sua primeira linha de bondes, a segunda do Brasil. Tinha início uma história de profunda e sincera identidade entre a população e este sistema de transporte público. Puxados por burros, os veículos ligavam o Centro à Barra do Boqueirão, seguindo pelo eixo da atual Avenida Conselheiro

Nébias - que não passava de uma picada aberta no meio do mato. E não eram só passageiros que os bondes levavam: também transportavam cargas e encomendas, uma proposta em que Santos também saiu à frente das demais cidades brasileiras. A primeira linha para São Vicente, via praia, começou a funcionar em 7 de julho de 1873. Dois anos depois, a firma Emmerich e Ablas implantava no trajeto um sistema novo, com bitola larga, que permitia que os bondes fossem puxados por burros até determinado ponto, seguindo depois engatados a uma máquina a vapor.

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Bondes puxados por animais movimentavam o Centro santista no final do século 19

Santos teve bondes antes que São Paulo!

PRIMÓRDIOS DO TRANSPORTE PÚBLICO

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EXPANSÃO

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Os bondes faziam sucesso e se incorporavam ao cotidiano da população. Comerciante visionário, Mathias Casimiro Alberto da Costa decidiu estabelecer uma linha que servisse a região onde hoje está o bairro que passou depois a levar o seu nome, a Vila Mathias. Ele firmou um contrato com a Municipalidade para instalação dos trilhos entre o Centro e a praia do José Menino, pela Avenida Ana Costa, que também estava sendo construída - cujo nome era uma homenagem à esposa de Mathias. E em 4 de abril de 1889 começou a funcionar a nova linha, no mesmo dia da inauguração da avenida.

Começava o século 20. Em 1900, já existiam linhas também em outras vias movimentadas, como a General Câmara, XV de Novembro e Santo Antônio (atual Rua do Comércio). Os trajetos mais longos eram o do José Menino e da Ponta da Praia, via Boqueirão. Na Conselheiro Nébias havia uma estação de bondes intermediária, na altura da Avenida Epitácio Pessoa, onde acontecia a troca das parelhas de burros. O serviço foi absorvido em 1904 pela empresa The City of Santos Improvements Company, que também era concessionária dos serviços de luz, força e gás na cidade.

ORIGEM DO NOME Inicialmente conhecidos como carris urbanos, os veículos acabaram mudando de nome devido a uma situação que acontecia no Rio de Janeiro. A Botanical Garden Rail Road Company, de propriedade do Barão de Mauá, explorava o serviço na então capital brasileira, e enfrentava dificuldades na cobrança da passagem. Isso porque cada uma custava 200 réis, e as moedas neste valor eram raras.

Para facilitar, a empresa passou a emitir cartelas com cinco passagens cada, custando mil réis, pois as moedas com tal valor tinham maior circulação. Em cada cartela, estava impresso o timbre do carril urbano e a palavra inglesa ‘bond’, que significa cupom, já que a impressão do material era feita nos Estados Unidos. Com o tempo, os usuários passaram a chamar este meio de transporte de bonde, uma versão aportuguesada da palavra inglesa.

O novo tipo de transporte público era um sucesso

PRIMÓRDIOS DO TRANSPORTE PÚBLICO


Elétricos impulsionaram progresso e expansão urbana

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Elétricos impulsionaram progresso e expansão urbana

Em 1909, uma revolução com a chegada dos elétricos

A necessidade de um sistema mais moderno de transporte urbano era urgente. A resposta veio com os bondes elétricos. A Companhia City inaugurou em 28 de abril de 1909 a primeira linha com a novíssima tecnologia, em meio a uma grande festa, que teve a presença de todas as autoridades regionais. Ela ligava Santos a São Vicente, partindo da Rua São Leopoldo, e seguindo pela Praça dos Andradas, rua Amador Bueno, avenidas Senador Feijó, Rangel Pestana e Ana Costa, praias do Gonzaga, José Menino e Itararé, Rua Frei Gaspar até o ponto final vicentino, na Estação da City, onde hoje é a Praça Barão do Rio Branco. Ao longo do trajeto, a população enfeitou residências e casas comerciais, e acenou para os seis bondes que cumpriram o percurso. A usina de força ficava na Vila Mathias, ao lado da cocheira onde a empresa mantinha os burros que puxavam os bondes antigos e também onde ficavam as máquinas movidas a vapor.

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antos registrava um crescimento sem precedentes no início do século 20. O café produzia riquezas, era o ‘ouro negro’ do Brasil, que saía das plantações e chegava a todos os cantos do mundo pelo porto local. Centro das exportações do país, a cidade passou a sediar empresas especializadas em todas as fases do processo de comercialização do café, desde o transporte, acondicionamento e demais etapas antes do embarque nos navios, até as cotações internacionais dos preços e avaliação da sua qualidade. Saneada pelos canais projetados e construídos pelo engenheiro Saturnino de Brito, a área urbana se expandia rapidamente e a população crescia. Novos bairros se formavam ao longo das linhas dos bondes, ampliando a urbanização do município. O dinheiro do comércio cafeeiro atraía mais investimentos, incentivava a construção de escritórios, residências, escolas, serviços e prédios públicos.

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Com a criação de mais linhas, foi necessário maior volume de força elétrica, e a empresa começou a adquirir energia da usina de Itatinga, da Companhia Docas de Santos. Em 1916, a City passa a ser denominada Companhia de Melhoramentos da Cidade de Santos. Foi nesta época que ela se firmou como grande incentivadora do progresso da cidade, investindo na melhoria dos serviços e realizando ao longo das linhas obras que contribuíram até mesmo para tornar a cidade mais bonita e aconchegante, como coretos, praças e abrigos.

Os bondes eram utilizados de forma inusitada: levavam noivos à igreja, transportavam visitantes em excursões até a praia e outros locais do município, faziam mudanças e ainda funcionavam como carros fúnebres.

elétrica foi ali montada - fato inédito no Brasil. A população santista crescia, e na década de 1930 foram construídos bondes maiores, com capacidade para 60 passageiros. Seus motores tinham maior potência, e permitiram o aproveitamento dos primitivos carros de tração animal, os quais foram transformados em reboques. Nas linhas e horários de maior movimento, os

reboques eram engatados aos elétricos, atendendo a um maior número de passageiros. Os bondes articulados representaram mais uma grande inovação em 1940. Resultantes da junção de dois pequenos bondes antigos, eram fechados e unidos da mesma forma que os vagões dos trens.

FABRICAÇÃO PRÓPRIA Novo impulso ao transporte urbano aconteceu a partir de 1912, quando a concessionária começou a fabricar seus próprios bondes em Santos, nas oficinas da Vila Mathias. Até uma locomotiva

Canais tinham pontes exclusivas para bondes

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Elétricos impulsionaram progresso e expansão urbana


A proposta era conseguir um veículo de maior capacidade de transporte, com um único motorneiro. Outro avanço foi representado pelos carros fechados, ideais para os dias de chuvas. O primeiro entrou em funcionamento no dia 1º de setembro de 1954, sendo que o processo de fechamento dos veículos abertos teve início em agosto de 1953, já sob a administração da SMTC (Serviço Municipal de Transportes Coletivos), que assumiu o serviço público em 1 de janeiro de 1952. A medida foi tomada por questões de conforto e segurança, em

razão de quedas de passageiros, e também para evitar a evasão de receita, já que muitos passageiros desembarcavam sem pagar a passagem.

por habitante do Continente: em 1917, era 1 km por 1.350 habitantes. Posteriormente, já na década de 1950, a cidade dispunha de 27 linhas, com 128 bondes trafegando. Os santistas tinham orgulho do seu sistema de transporte por trilhos. Era eficiente,

limpo, seguro e pontual, e também sinônimo de cordialidade e congraçamento - afinal, as pessoas que os utilizavam regularmente acabavam fazendo amizades com demais passageiros, e também com os motorneiros e condutores.

DESTAQUE NA AMÉRICA LATINA O serviço santista de bondes foi considerado um dos melhores sistemas de transporte público urbano da América Latina. Santos chegou a possuir a maior quilometragem de linhas

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Articulados foram a solução para os horários de maior movimento

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Mudanรงas no transporte municipal: bondes param de circular

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om a implementação das linhas de ônibus pela empresa Expresso Brasileiro Viação Ltda, em setembro de 1944, o movimento de passageiros nos bondes foi diminuindo pouco a pouco. A operadora do serviço sobre trilhos passou a reduzir a frequência das linhas, e deixou de realizar a conservação de parte da frota. Em 1950, um ano antes do término do contrato de concessão, a empresa comunicou à administração municipal que não tinha a intenção de renová-lo. Uma comissão especial foi instituída com o propósito de efetivar a transferência da operação do transporte coletivo para a Prefeitura. A Lei nº 1.297, de 20 de dezembro de 1951, criou o Serviço Municipal de Transportes Coletivos (SMTC), que assumiu a operação dos bondes a partir de janeiro de 1952. A autarquia absorveu também veículos, imóveis e outros bens da City.

O crescimento da frota de automóveis e as dificuldades na manutenção dos bondes promoveram mudanças no sistema de transporte público nas cidades brasileiras. E em Santos não foi diferente. Em 1963, a população passou a contar com o serviço de trólebus. Estes veículos ofereciam maior mobilidade a um custo mais baixo, e ganhavam a preferência dos passageiros. Paralelamente, a indústria automobilística produzia cada vez mais automóveis, que circulavam pela cidade em grande quantidade. Tais mudanças tiveram como resultado a desativação gradual do sistema sobre trilhos. Até que no dia 28 de fevereiro de 1971 o carro de prefixo 258, que trafegava na linha 42, foi definitivamente recolhido. Era o fim de uma era nos transportes municipais, que começara 100 anos anos antes, com a primeira linha de bonde movida à tração animal.

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Mudanças no transporte municipal: bondes param de circular

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Muitas pessoas choraram neste dia, lembrando de tudo o que os bondes representaram em suas vidas: amizades e namoros entre passageiros, a pontualidade exemplar, as comemorações. A população santista, já abalada com a perda da autonomia política municipal em 1969, lamentou profundamente a desativação de um serviço tão importante para todos. A grande frota acabou sendo desmontada. Em muitos casos, bondes inteiros foram destruídos e vendidos como sucata.

Os dois sistemas conviveram durante mais de duas décadas

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Na Praia do Embaré, um passeio turístico

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orla de Santos, especificamente na praia do Embaré, contou com uma linha turística de bonde em meados da década da 1980. Um exemplar fechado, do tipo ‘camarão’, salvo do processo de sucateamento da frota, foi recuperado pela CSTC (Companhia Santista de Transportes Coletivos). Assim, o então prefeito Paulo Gomes Barbosa inaugurou a linha em 19 de junho de 1984, em meio a uma grande festa, quando milhares de pessoas comemoraram a volta do bonde. O elétrico fechado de prefixo 46 fazia o trajeto. Era um veículo inglês, com 64 anos de fabricação, que circulava pela Avenida Bartolomeu de Gusmão, entre a Basílica Santo Antônio do Embaré e o Canal 5. O percurso de 1.800 metros durava cerca de 10 minutos.

Recursos públicos e de empresas locais foram aplicados para viabilizar as intervenções necessárias à implementação da linha e à reforma do veículo. Pintado com as cores da Empresa Brasileira de Transportes Urbanos, o bonde tinha o logotipo da CSTC . Após dois anos e oito meses de existência, em fevereiro de 1987, a linha foi desativada. A Prefeitura implementou então um passeio ao longo de toda a orla em ônibus turístico, o chamado ‘Margaridão’, que ia da Ponta da Praia ao José Menino. O bonde 46 seguiu para a garagem da CSTC, e posteriormente recebeu as adaptações necessárias para ser transformado no Posto de Informações Turísticas, instalado na Praça das Bandeiras, no Gonzaga.

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Bonde circulou na praia do Embaré

NA PRAIA DO EMBARÉ, UM PASSEIO TURÍSTICO

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NA PRAIA DO EMBARÉ, UM PASSEIO TURÍSTICO

Depoimento do ex-prefeito, advogado Paulo Gomes Barbosa* “Em 1984, quando, como prefeito, decidi reativar o bonde em Santos, o sistema estava paralisado havia 13 anos. A intenção, naquele momento, era atender ao desejo dos santistas, saudosistas do antigo bonde, oferecendo ao mesmo tempo um novo atrativo ao turista que vinha para a cidade. A linha do bonde camarão seguia, inicialmente, do bairro do Embaré ao Canal 5, em um percurso de 1.800 metros. Mas o desejo era estendê-la até o José Menino, posteriormente, aproveitando os trilhos ainda existentes na orla. O sonho de resgatar esta antiga tradição santista fez do município o primeiro do Brasil a implantar uma linha de bonde elétrico voltada para o turismo. Recordo com enorme emoção o dia em que o sistema voltou a operar. Era a manhã de 10 de junho de 1984 e quase 30 mil pessoas já lotavam a orla, esperando pela viagem inaugural. Olhando para os prédios da orla, víamos as janelas coalhadas de moradores, desejosos de acompanhar, do alto, o retorno do bonde. Atraídas pela iniciativa pioneira, autoridades de todo o país vieram a Santos para participar do evento. Não posso deixar de registrar que aquele momento memorável somente foi possível graças a participação de diversos segmentos da sociedade, inclusive, de empresas entusiastas, que acreditaram na

nossa iniciativa. O empenho dos diretores da antiga CSTC, Milton Moraes, Haroldo Damato e Társio Jordão, e a abnegação dos funcionários foram essenciais para a concretização deste sonho, assim como o incentivo do engenheiro da Cosipa José Geraldo Barbosa – grande admirador do sistema não-poluente. Infelizmente, cerca de dois anos e meio depois de sua festejada inauguração, o bonde da orla deixou de funcionar, para tristeza dos santistas. Por isso, foi com grande alegria e entusiasmo renovado que tive o prazer de assistir nos últimos anos a volta triunfal do sistema na cidade. Hoje em funcionamento no Centro Histórico de Santos, os bondes são sinônimo de sucesso, atraindo anualmente milhares de visitantes de todo o Brasil e também do exterior, projetando o nome da cidade nacional e internacionalmente. Neste sentido, parabenizo, em especial, o prefeito João Paulo Tavares Papa, que vem trabalhando com paixão pela ampliação das linhas e para a aquisição de diversos modelos vindos de várias partes do mundo; ação que está contribuindo também para a revitalização do Centro da cidade. Espero que os próximos administradores municipais venham a manter e engrandecer ainda mais este formidável sistema, que tantas emoções despertam nos corações dos santistas e dos visitantes.”

*In memorian - depoimento colhido em 2009

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Tudo comeรงou com um desenho em um guardanapo...

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ma ideia inspirada, um desenho num guardanapo de papel esboçado na mesa de um restaurante... assim surgiu, em 1998, a proposta que faria os bondes circularem novamente em Santos. O jornalista Luiz Dias Guimarães era secretário municipal de Turismo e o engenheiro João Paulo Tavares Papa presidia a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), na primeira gestão do prefeito Beto Mansur. O bonde fechado, do tipo ‘camarão’, fixado na Praça das Bandeiras para servir de posto de informações turísticas, precisava ser recuperado. Guimarães consultou Papa sobre a possibilidade da reforma ser realizada pela CET, pois era um serviço que exigia especialização. A resposta foi afirmativa, desde que não houvesse extrema urgência no prazo para a conclusão.

Afinal, não se tratava de uma simples reforma, mas de minucioso trabalho de restauração. A missão ficou por conta dos funcionários que já haviam trabalhado na fábrica de bondes da antiga SMTC. De imediato, um profundo entusiasmo contagiou o grupo - e o resultado foi primoroso. Quando o veículo retornou à praça, muitas pessoas se encantaram, saudosas, demonstrando o quanto os bondes significavam para grande parte dos santistas, mesmo tantos anos após a desativação do serviço. Guimarães conta o momento em que foi aventada pela primeira vez a ideia de recuperar um bonde para circular:“Fomos fazer uma visita ao bonde restaurado, na Praça das Bandeiras, eu e o então presidente da CET. Empolgados com o resultado do

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Bonde transformado em posto de informações turísticas inspirou criação da linha

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trabalho de restauração, seguimos para jantar num restaurante. Foi quando fiz a pergunta: “Você acha que a equipe teria condições de recuperar um bonde para circular no Centro?” E ele respondeu que sim, que seria um enorme desafio, mas que existia condição de ser feito”. Os dois desenharam então o esboço do trajeto da linha em um guardanapo de papel. Na época, a revitalização do Centro Histórico começava a se desencadear, e o governo municipal consolidava um embrião do programa Alegra Centro. Na visão de Luiz Guimarães e João Paulo Papa, o bonde circulando na área seria um importante incentivo ao processo de recuperação de imóveis de interesse cultural e turístico. A proposta foi apresentada ao prefeito Beto Mansur, que também se entusiasmou com o desafio, compondo uma equipe técnica para trabalhar no projeto.

Jogo de quebra-cabeça O primeiro bonde da Linha Turística - um aberto de número 32, fabricado na Escócia em 1911 - foi montado como num jogo de quebra-cabeça. A carroceria do veículo escolhido para circular estava no Orquidário Municipal. Só que o truck (sistema de rodas, eixos e motores elétricos) que poderia ser recuperado estava no bonde da Praça das Bandeiras. Assim, foi necessário levar as duas estruturas para as garagens da CET, para dar início ao restauro. Outra grande dificuldade foi fazer o motor voltar a funcionar. Alguns de seus componentes não tinham como ser recuperados e nem existiam no mercado. A solução veio a partir de um contato do então diretor da CET, Eduardo Di Gregório, com o engenheiro Bernardo Stille Neto, na época responsável pelo

Montar o bonde, verdadeiro jogo de quebra-cabeça

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serviços de bondes do bairro de Santa Tereza no Rio de Janeiro, mantido pela CTC (Companhia de Transporte Coletivo), empresa do governo estadual carioca. Um convênio foi firmado entre a empresa e a CET. Além de viabilizar o fornecimento das peças necessárias, a parceria garantiu a colaboração técnica fundamental para o sucesso do projeto santista, com informações sobre as instalações elétricas e mecânicas e indicação de fornecedores de peças e componentes. Feliz com o trabalho realizado em Santos, hoje consolidado e em ampliação, Bernardo Stille conta: “É muito bom ver os resultados e principalmente a continuidade do processo, tornando Santos uma referência em bondes para o Brasil”. Ele é o autor do estudo de viabilidade técnica da linha original e da ampliada, e veio a Santos inúmeras vezes para acompanhar o trabalho de instalação dos trilhos e de restauração dos bondes.

A população também contribuiu no processo de restauração, cedendo à Fundação Arquivo e Memória de Santos fotos, documentos, postais e outras imagens dos bondes, que permitiram reproduzir com fidelidade os detalhes originais do veículo. Emoção na praça A volta do bonde foi festejada com muita emoção no dia 23 de setembro de 2000. A visão do veículo impecavelmente restaurado, o som familiar das rodas deslizando sobres os trilhos, o tilintar da sineta, o grupo de atores vestidos com roupas da década de 1930... Diversas pessoas choraram de alegria, tocadas pelas lembranças dos ‘bons tempos’. Muitas delas já haviam chorado de tristeza em 1971, no dia da desativação do serviço. Os mais novos, que nunca tinham visto um bonde circulando, também se encantaram, especialmente as crianças.

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População festejou a volta do bonde ao Centro

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O passeio atraiu no primeiro dia mais de 3 mil pessoas, de várias idades. A partida da Estação Buck Jones, instalada na Praça Mauá, era o começo de uma viagem pela história de Santos. Pela importância do seu apoio, Bernardo Stille foi convidado a dirigir o bonde na viagem inaugural. Turistas e santistas que raramente vinham ao Centro, passaram a incluir o passeio no bonde na sua programação de lazer, trazendo família e amigos. Até o final daquele ano, 37.056 passageiros fizeram o percurso. O sucesso impulsionou a Prefeitura a restaurar mais veículos.

O reboque que estava em exposição na área externa do Teatro Municipal Braz Cubas - uma réplica do bonde de tração animal do século 19 - foi recuperado pela equipe da CET e passou a circular um mês depois, em outubro, atrelado ao bonde 32. Um exemplar fechado, prefixo 40, conhecido popularmente como ‘camarão’, se encontrava no pátio da creche municipal “Candinha Ribeiro de Mendonça”. Restaurado, voltou a circular em 26 de janeiro de 2002. Era o início de uma frota, hoje composta por doze veículos.

Exemplar restaurado se incorporou á paisagem do Centro

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UM Museu Vivo, COM BONDES DE VÁRIOS PAÍSES CIRCULANDO NA LINHA TURÍSTICA

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Componentes do Museu Vivo circulam pelo Centro

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grande sucesso da Linha Turística do Centro incentivou o governo municipal a levar adiante a proposta de criar em Santos um atrativo inédito: um Museu Vivo Internacional de Bondes, composto por veículos antigos em pleno funcionamento, circulando pela região histórica da cidade. Um dos idealizadores da Linha Turística e de todo o programa de revitalização do Centro Histórico, o engenheiro João Paulo Tavares Papa foi eleito prefeito de Santos em novembro de

2004, depois de já ter participado do governo municipal nos oito anos anteriores em diferentes funções: vice-prefeito, presidente da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), secretário de Planejamento e de Meio Ambiente. Logo que assumiu o Executivo, iniciou a busca por outros bondes para Santos. Ao mesmo tempo, a equipe técnica da Prefeitura começou a trabalhar no projeto de ampliação da linha.

O projeto do Museu Vivo ganhou corpo e se tornou realidade. A cidade conta hoje com exemplares fabricados em diversos países, doados por instituições de Portugal e Itália, e também de outros municípios brasileiros. Este acervo singular consolidou e agregou valor ao grande atrativo que os bondes representam para o turismo e também para o processo de revitalização do Centro. A linha de Santos é

hoje amplamente divulgada na mídia do País e no exterior. Jornais, emissoras de TV e rádio, revistas e sites mostram o passeio não apenas como simpática atração turística - e sim como verdadeira viagem ao passado,uma aula da história do Brasil contada por meio de prédios, igrejas, ruas e monumentos exemplarmente preservados.

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GARIMPANDO O ACERVO As providências da Prefeitura para implementar o Museu Vivo começaram em 2005, a partir de uma conversa entre o prefeito e o engenheiro Bernardo Stille, que atuava como parceiro no processo de recuperação dos primeiros bondes restaurados e na construção da linha do Centro. “Contagiado pelo entusiasmo do prefeito Papa e de Luiz Guimarães, eu me propus a procurar bondes antigos que pudessem ser doados a Santos, e encontrei tal possibilidade da cidade do Porto”, contou Stille.

A Sociedade de Transportes Colectivos do Porto S/A (STCP), que mantém o Museu do Carro Eléctrico na cidade portuguesa, realizava desde 2004 um processo de desafetação de nove bondes desativados. A diretora do Museu, Cristina Pimentel, esclareceu: “Era nossa intenção doar os veículos a museus para exposição. O objetivo era que fossem restaurados e preservados mantendo as suas características originais. Consideramos que deveríamos, numa primeira fase, privilegiar o contato com museus de todo o mundo”.

Depois de conhecer o projeto de Santos, a empresa portuguesa oficializou a doação de três bondes de seu acervo a Santos em 27 de maio de 2005, tendo destinado na mesma época um para Londres (Inglaterra), e outro para a La Coruña (Espanha). O ato aconteceu na cidade do Porto, com a presença do prefeito santista, do presidente da STCP, Juvenal Silva Peneda, e da diretora

Cristina Pimentel. Na ocasião, Peneda declarou-se satisfeito pela destinação que seria dada aos bondes e ressaltou uma coincidência: eles viriam para a cidade fundada por Braz Cubas, fidalgo português nascido justamente na cidade do Porto.

Cidade do Porto doou três bondes a Santos

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COOPERAÇÃO GARANTE TRANSPORTE Eles são informalmente conhecidos como os ‘amigos do bonde’. Trata-se de um grupo de santistas que viabilizaram a vinda dos bondes da Europa para Santos, dando apoio operacional, financeiro e institucional à empreitada. Convictos do enorme potencial que representava o projeto do Museu Vivo Internacional, eles se uniram à Prefeitura e trabalharam para providenciar o necessário para trazer os veículos: transporte marítimo e

terrestre, embarque e desembarque, acondicionamento, custos de despacho e diversas outras providências, sem gerar qualquer despesa para o município. Os bondes provenientes de Portugal tiveram que ser transportados por terra da cidade do Porto até Leixões, onde embarcaram para Santos no navio ‘Aliança Europa’, em contêineres abertos. Já os italianos de Turim foram acondicionados em contêineres abertos e fechados. Seguiram então até o porto de Livorno, partindo para o Brasil no ‘MSC Carolina’.

O grupo que abraçou a proposta é composto pelas empresas Rodrimar, MSC, Hamburg Süd/Aliança, Orey/Alemoa, Riviera Group, Meliá Palácio Lousã e o Sistema A Tribuna de Comunicação, além do empresário Geraldo Pierotti. O idealizador e grande líder da iniciativa foi o advogado Roberto Mehanna Khamis, falecido em janeiro de 2011.

OS PORTUGUESES Os veículos portugueses chegaram a Santos em 20 de setembro de 2005. Quatro meses depois, em 24 de janeiro de 2006, o primeiro deles começou a circular na linha, restaurado pela CET: era amarelo, de prefixo 193. O segundo, número 224, na cor verde claro, passou a rodar em 2008. A presença desses exemplares

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Empresários viabilizaram a vinda dos exemplares europeus

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nas ruas do Centro Histórico emocionou os cerca de 90 mil integrantes da comunidade lusitana da Baixada Santista. E sem dúvida contribuiu para o fortalecimento dos laços de amizade entre os dois países. O modelo dos exemplares vindos do Porto são do tipo semiconvertible, conceito desenvolvido pelo fabricante americano J. G. Brill em 1899, caracterizado por um engenhoso sistema de janelas que permite a abertura completa, permitindo ampla ventilação em dias quentes. Na época, a preocupação com a

passagem do ar dentro dos veículos visava evitar contágio pelo bacilo da tuberculose. O restauro preservou as características originais dos bondes, tanto internas quanto externas. enquanto o prefixo 137 encontra-se em recuperação.

Ao saber da disposição da empresa GTT (Gruppo Torinese de Transporti) de Turim em fazer a doação, o projeto do Museu Vivo santista foi exposto aos potenciais doadores. E a resposta foi positiva: mais dois exemplares, das décadas de 1930 e 1940, foram cedidos a Santos. O contrato de doação aconteceu no dia 7 julho de 2008, em Turim, firmado entre o prefeito João Paulo Tavares Papa e o diretor da empresa italiana Giovanni Battista Razelli.

Os italianos chegaram a Santos em 19 de fevereiro de 2009, com uma novidade que promete ser grande atrativo para a Linha Turística do Centro Histórico: um dos veículos é um restaurante sobre trilhos, composto por dois módulos articulados. Um deles foi restaurado e entrou em circulação da Linha Turística em setembro de 2010, festejado pelos italianos e descendentes que vivem na região. Em tons de verde, o modelo se destaca pela suavidade com

OS ITALIANOS Santos também foi presenteada pela cidade italiana de Turim. Depois de conseguir os portugueses, a Prefeitura intensificou os contatos com outras cidades que possuem bondes antigos.

Um presente também para a comunidade portuguesa

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Dois vieram da italiana Turim

OS AMERICANOS Considerado um dos veículos mais importantes e raros do acervo santista, o bonde norte-americano popularmente identificado como ‘Gilda’ chegou a Santos em 12 junho de 2007, doado pelo

Sesc de Bertioga. O modelo ganhou o apelido popular devido à personagem protagonizada pela atriz de Hollywood Rita Hayworth no filme ‘Gilda’, um grande sucesso da época em que os exemplares começaram a circular em São Paulo, “virando a cabeça dos paulistanos”. Em 28 de fevereiro de 1947, a CMTC (Companhia Municipal de Transportes Coletivos de São Paulo) comprou 75 bondes da fábrica Third Avenue Railway, de Nova York, conhecidos nos Estados Unidos como “Huffliners”. Alguns eram de alumínio - como o que está em Santos - e outros em aço. O ‘Gilda’ do acervo santista rodou na capital paulista até 1966, sendo então desativado dentro do processo de extinção do serviço de bondes. Foi doado ao Sesc de Bertioga em 1968, onde teve a estrutura restaurada em 2000, e permaneceu em exposição na colônia de férias da instituição até vir para Santos. Outro exemplar norte-americano foi doado a Santos pelo Projeto Memória Votorantim, do Grupo Votorantim. O veículo transportava até 1986 trabalhadores da empresa, e está na Fábrica de Cimento Santa Helena, no município paulista de Votorantim. Fechado, foi fabricado em 1920 nos Estados Unidos

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que se desloca, tendo seu design elegante imortalizado no clássico do cinema italiano ‘Roma’, de Fellini. Os exemplares vindos de Turim atendem a um conceito idealizado em 1914 pelo designer norte-americano Peter Witt, sendo conhecidos como Centex - sigla em inglês para o sistema de portas centrais, adotado até hoje na maior parte dos veículos de transporte urbano. Junto às portas, ficava o condutor (cobrador), o que representava uma maneira eficiente para os passageiros efetuarem o pagamento mais rapidamente. Isso além de facilitar o embarque e desembarque, o que exigia menos veículos em cada linha. O Centex é um veículo diferenciado, pois conta com dois conjuntos de tração, conhecidos como trucks. Por isso, eles são mais longos que os demais da frota: o simples tem 14 metros de comprimento e o articulado, que funcionará como restaurante, chega a 20 metros.

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DE VOLTA PARA CASA Depois de circular em Santos entre 1912 e 1971, o bonde prefixo 38 retornou à cidade em 2011, após 40 anos, e agora integra a Linha Turística do Centro Histórico. Em bom estado de conservação, o veículo estava anteriormente em exposição no Memorial do Imigrante, em São Paulo, e foi cedido ao município

em regime de comodato pela ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária). Para o diretor administrativo da entidade, Carlos Alberto Rollo, “a proposta foi dar um final feliz para um bonde que por muitos anos fez a alegria de turistas e principalmente crianças naquele local”. Trata-se de um exemplar misto, com carroçaria nacional e truck escocês. Com capacidade para 42 passageiros sentados, originalmente era idêntico ao bonde fechado ‘camarão’, mas ao longo do tempo recebeu adaptações, e agora é aberto.

UMA SEDE PARA O MUSEU A sede do Museu Vivo Internacional dos Bondes será implementada no bairro do Valongo, ao lado da Estação Ferroviária e do Santuário de Santo Antônio, bem em frente ao Museu Pelé, no Largo Marquês de Monte Alegre. Ele está sendo montado no antigo ‘armazém de bagagens’ 12-A do porto

de Santos, originalmente localizado no cais do Paquetá. Em iniciativa inédita e devidamente autorizada pelo Condepasa (Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos), os grupos empresariais Noble e Itamaraty o desmontaram e removeram para o espaço municipal no Valongo. O imóvel histórico passou para a Prefeitura graças a um Termo de Ajustamento de Conduta. Com isso, as empresas puderam

O famoso ‘Gilda’, um presente do Sesc

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pela J.G.Brill. Inicialmente, era um bonde aberto, fechado anos depois, como ocorreu em Santos.


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SITES INTERNACIONAIS Sites de outros países destacam o trabalho de recuperação do sistema de bondes elétricos desenvolvido pela Prefeitura de Santos. É o caso do www.tramz.com, dos Estados Unidos, e o www.tramditorino.it , da Itália. O site americano relaciona todos os sistemas de bondes da América Latina, e destaca o novo trajeto da Linha do Centro Histórico de Santos em um mapa, além de veicular mais de 30 fotos e postais dos bondes santistas, inclusive diversos que não existem mais. O responsável pela página é o jornalista Allen Morrison - um morador de Nova York apaixonado por bondes. Ele afirma: “Não conheço um trabalho mais interessante de revitalização do que o realizado em Santos”. Já o site italiano do GTT mantém no link ‘Tram a Santos’ fotos dos dois exemplares doados pela empresa. O texto de abertura diz o seguinte: “História de dois bondes doados por Turim a Santos, Brasil - A cidade de Turim doou à cidade de Santos, Brasil, duas motrizes tranviárias para integrar a linha histórica local. Como antecipado pela Tramditorino.it, as duas motrizes

Veículo do acervo funciona como posto de informações turísticas

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instalar um terminal graneleiro no espaço liberado do Paquetá, e o imóvel histórico foi devidamente preservado. O museu reunirá os objetos, filmes, fotos e documentos que contam a história do bonde. O trabalho feito na oficina de restauro da CET será demonstrado em forma de exposição, e os bondes antigos deverão ficar no local enquanto não estiverem circulando. Assim, os visitantes poderão conhecer detalhes de cada exemplar. O espaço também vai funcionar como garagem para os exemplares da Linha Turística. Peças e equipamentos antigos preservados, originários do tempo em que os bondes faziam o transporte público também comporão o acervo, assim como miniaturas e réplicas dos veículos e livros. A proposta é utilizar modernos recursos de museologia.

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presenteadas são: uma 3100, a 3265, e uma 2800, a 2840. Patrocinadores subvencionaram a transferência integral, iniciada nas oficinas centrais da GTT no dia 20 de janeiro de 2009, e que tiveram prosseguimento a bordo de um navio porta-contêiner que partiu de Livorno, o MSC Carolina, finalizando em 19 de fevereiro, quando uma festa acolheu os trens turinenses”. Inúmeras outras referências sobre os bondes de Santos são encontradas em sites e blogs de aficcionados em diversos países.

Depoimento do advogado Roberto Mehanna Khamis* “A minha história de vida, assim como a de milhares de outros santistas, foi marcada pelos bondes de Santos. Era neles que eu ia à faculdade, ao Gonzaga, era onde pobres e ricos sentavam lado a lado. Tem um episódio curioso: quando eu tinha 3 anos de idade, fui atropelado e arrastado por um bonde e por milagre não sofri um arranhão. Por isso tudo batalhei para que o serviço não fosse desativado. Afinal, Santos tinha na época um serviço de bondes completo, de qualidade superior a de muitas cidades da Europa. Fiquei muito feliz com a Linha Turística e me envolvi no projeto de trazer bondes antigos para a cidade. Como cidadão santista, auxiliei nos contatos com as empresas que trouxeram os exemplares da Europa. Ao ver os diversos bondes circulando, o sentimento é de gratidão pela oportunidade de participar do processo que resultou no nosso Museu Vivo”. *In memorian - depoimento colhido em 2009

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Museu Vivo é destaque em sites internacionais

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ACERVO

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ACERVO

Bonde reboque 1- brasileiro Reboque- permite acesso a pessoas em cadeiras de rodas Em circulação desde 27 de outubro de 2000 Época estimada de fabricação: década de 1930 Cor: verde Número de assentos: 30 Tipo: réplica de bonde de tração animal de 1871, adaptado para reboque Fabricante: SMTC Local de operação de origem: Santos Última operadora: SMTC - Santos Acervo da CSTC

Bonde aberto 32 - escocês

Bonde fechado 40 Parte brasileiro, parte escocês Conhecido como ‘camarão’ Em circulação desde 26 de janeiro de 2002 Época estimada de fabricação: carroceria anos 1950, ‘truck’ anos 1930 Cor: verde Número de assentos: 28 Tipo: bidirecional Fabricantes: SMTC (carroceria) e Hurst Nelson/Escócia (truck) Local de operação de origem: Santos Última operadora – SMTC - Santos Acervo da CSTC

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Em circulação desde 23 de setembro de 2008 Época estimada de fabricação: 1911 Cor: verde Número de assentos: 45 Tipo: bidirecional Fabricante: Hurst Nelson - Escócia (carroceria e truck), com patente J. G. Brill Local de operação de origem – Santos Última operadora – SMTC - Santos Acervo da CSTC

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ACERVO

Bonde fechado 46 - brasileiro/escocês Em exposição permanente, funciona como Posto de Informações Turísticas na Praça das Bandeiras (praia do Gonzaga) Cor predominante: verde Número de assentos: 28 Ano estimado de fabricação: truck 1910 e carroceria década de 1950 Tipo: birecional Fabricante: SMTC (carroceria) e Hurst Nelson (truck) Local de operação de origem: Santos Última operadora: SMTC Acervo da CSTC

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Bonde 137 - português

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Em restauração nas oficinas da CET-Santos Cores: caramelo e amarelo-claro Número de assentos- 23 Época estimada de fabricação: década de 1920 Fabricante: J.G. Brill, Estados Unidos da América Local de operação de origem – Porto/Portugal Última Operadora – STCP/Porto/Portugal Doado a Santos pela STCP

Bonde 193 - português Em circulação desde de 24 de janeiro de 2006 Cores: amarelo e branco Numero de assentos: 23 Época estimada de fabricação: década de 1920 Tipo: bidirecional Fabricante: J.G. Brill - Estados Unidos da América Local de operação de origem: Porto - Portugal Última operadora: STCP - Porto Doado a Santos pela STCP


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Bonde Articulado 2840 - italiano Como em Turim, funcionará como um restaurante sobre trilhos Em restauração nas oficinas da CET-Santos Cor: laranja Ano de fabricação: 1933 - série 2800 Fabricante: Officine Moncenisio, Itália Tipo: unidirecional Local de operação de origem: Turim, Italia Última operadora: GTT (Turim) Doado a Santos pelo GTT

Bonde 3265 - italiano

Bonde 1799 - norte-americano Conhecido como ‘Gilda’, em referência à personagem do filme de 1946, estrelado pela atriz Rita Hayworth Em restauração nas oficinas da CET-Santos Cores: vermelho e creme Número de assentos: 55 Ano de fabricação -1938 Fabricante: 3rd Av. Railway (EUA) Locais anteriores de operação: Nova Iorque (EUA), até 1946, e São Paulo, até 1966 Última operadora – CMTC/São Paulo Doado a Santos pelo Sesc SP

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Circula na Linha desde setembro de 2010 Cores: dois tons de verde Ano de fabricação: 1958 - série 3200 Tipo: unidirecional Número de assentos: 29 Fabricante carroceria: Fiat, Itália Local de operação de origem – Turim Última operadora – GTT

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Bonde 224 - português

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Bonde Fechado 3 – norte-americano

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Operou até 1986 no transporte de funcionários da fábrica de cimento Pronto para ser transportado de Votorantim (SP) para Santos Cor: verde escuro Número de assentos: 44 Ano estimado de fabricação: 1920 Fabricante: J. G. Brill - Estado Unidos Tipo: bidirecional - era aberto, mas foi fechado após reforma Local de operação de origem – Votorantim/Brasil Última operadora – E.F.E.V. (Estrada de Ferro Elétrica Votorantim) Doado a Santos pelo Grupo Votorantim

Em circulação desde 23 de setembro de 2008 Cores: verde e branco Número de assentos: 23 Época estimada de fabricação: década de 1920 Tipo: birecional Fabricante: J. G. Brill, Estados Unidos da América Local de operação de origem: Porto/Portugal Última operadora - STCP - Porto l Doado a Santos pela STCP

Bonde Aberto 38, originalmente fechado Cor: verde Época estimada de fabricação: carroçaria da década de 1950, trucks de 1910 Tipo de veículo: Bidirecional Carroçaria: fabricante SMTC/Santos/Brasil Trucks modelo 21-E Hurst Nelson com patente J.G. Brill Sistema tração: Motor a gasolina Fiat/Tempra, com motor hidráulico Bitola original: 1350 mm Numero de assentos: 40 Local de operação de origem: até 1971- Santos/Brasil; entre 1999 e 2009 - São Paulo Condição atual: em circulação na linha


Técnica, trabalho duro, paixão e criatividade: a receita para recuperar veículos antigos

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52 Equipe da CET responsรกvel pelo restauro dos bondes

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perfeita restauração dos antigos bondes de Santos é resultado de um trabalho que envolve não apenas conhecimento, mas muita criatividade e também boa dose de paixão. A equipe de profissionais que realiza o serviço, formada por mecânicos, eletricistas, carpinteiros, funileiros, pintores e engenheiros, precisou fabricar peças e ferramentas, resgatar técnicas utilizadas no passado e montar verdadeiros ‘quebra-cabeças’ para deixar os veículos prontos para rodar. Tanto que a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego de Santos)

se consolidou como verdadeira fábrica de bondes, resgatando um trabalho que era desenvolvido no século passado pela extinta SMTC . Cada veículo que volta a circular é uma conquista, vista como prêmio pelas centenas de horas de dedicação, suor e inspiração. O desafio é sempre inusitado, pois os exemplares do Museu Vivo Internacional de Bondes de Santos têm diferentes características e foram incorporados ao acervo em variadas condições de conservação.

A partir destas providências iniciais, o trabalho propriamente dito começa. E boa parte do sucesso da empreitada se deve às antigas máquinas e ferramentas remanescentes da SMTC. O engenheiro Marcos Rogério Nascimento, que coordena o trabalho de restauração dos bondes e também a manutenção da linha, afirma categoricamente: “Se não fossem a serra-de-fita

- que tem uns 100 anos, a desempenadeira, a desengrossadeira, o torno, enfim, a estrutura básica de carpintaria e mecânica que estava preservada, não teríamos condições de fazer. Afinal, muitas das máquinas e ferramentas modernas não se adequam aos bondes antigos”.

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TÉCNICA, TRABALHO DURO, PAIXÃO E CRIATIVIDADE: A RECEITA PARA RECUPERAR VEÍCULOS ANTIGOS

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TÉCNICA, TRABALHO DURO, PAIXÃO E CRIATIVIDADE: A RECEITA PARA RECUPERAR VEÍCULOS ANTIGOS

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PARA CADA PROBLEMA, UMA SOLUÇÃO CRIATIVA Um dos desafios da turma da carpintaria é a dificuldade em encontrar no mercado peças em madeira da grossura e largura necessárias para montar a estrutura dos bondes. Para desbastar as toras que vão ser usadas como chassis dos veículos, modelando pouco a pouco, manualmente, até o padrão desejado, eles concluíram que era preciso um enxó - ferramenta utilizada séculos atrás. Isso porque as modernas não se adequam a tal tipo de serviço.

As madeiras utilizadas nos bondes antigos eram nobres, adequadas para resistir por muito tempo, como a oliveira, o paubrasil e a peroba rosa. Mas mesmo assim algumas partes não resistiram à ação do tempo. O carpinteiro Vander Raitz conta: “Muitas vezes, quando temos de remodelar novas peças, as originais estão tão apodrecidas que precisam ser envolvidas com adesivos para não esfarelarem. E na hora de montar, os ajustes são feitos no próprio local, como um jogo de ‘quebra-cabeças’, onde uma peça segura a outra.

Por isso precisamos usar madeiras também nobres, como ipê, cedro ou cambará”. Além dos chassis e das peças estruturais, bancos, janelas, assoalhos, forros e acabamentos em geral são confeccionados na carpintaria da empresa.

No caso dos bondes bidirecionais, que são simétricos e têm a frente e a traseira iguais, a equipe desmonta um lado primeiro, recupera, e depois repete o procedimento do outro lado. Isso, depois de ser realizado o travamento da estrutura, de modo a impedir a perda dos parâmetros e do referencial.


TÉCNICA, TRABALHO DURO, PAIXÃO E CRIATIVIDADE: A RECEITA PARA RECUPERAR VEÍCULOS ANTIGOS

ADEQUAÇÃO PARA A SEGURANÇA A ampliação da Linha Turística do Centro Histórico gerou maiores cuidados quanto ao compartilhamento do espaço das vias públicas entre os bondes e os demais veículos. Por isso, algumas adequações foram implementadas nos veículos, como espelhos retrovisores, luzes de freio e setas, garantindo maior segurança. Tudo confeccionado com materiais e design compatível ao estilo dos bondess.

Oferecer maior conforto para os motorneiros também foi uma preocupação após a extensão do percurso. A equipe da CET desenhou um banco redondo de madeira, para que os profissionais que dirigem os bondes possam sentar.

Outra providência foi a mudança do sistema de captação da corrente elétrica, para que não ocorra conflito operacional com os trólebus que também circulam no Centro Histórico.

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A recuperação dos motores e a usinagem de estruturas complexas são realizadas fora da CET, por empresas especializadas com o apoio do Senai. As peças mais simples são fabricadas internamente, assim como as instalações elétricas. “É no dia a dia que aprendemos a solucionar cada dificuldade que surge, e assim a equipe acumula experiência e se aprimora”, completa Nascimento.

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Ampliação da linha triplicou o roteiro

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AMPLIAÇÃO DA LINHA TRIPLICOU ROTEIRO

Passageiro pode embarcar e desembarcar em diferentes paradas

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riquezas arquitetônicas, históricas e culturais de uma das mais cidades mais antigas do Brasil, vislumbradas em 40 pontos de interesse situados às margens do trajeto ampliado.

Com a ampliação, existem duas diferentes paradas ao longo da linha, formada por dois anéis, com ponto inicial na Praça Visconde de Mauá. Um trajeto segue para a região do Valongo e Porto, com paradas na Estação Ferroviária do Valongo, no Pantheon dos Andradas e no Outeiro de Santa Catarina, retornando à

praça. O outro segue em direção oposta, com paradas defronte ao Palácio Saturnino de Brito (sede da Sabesp), Monte Serrat e Catedral. O passageiro pode desembarcar caso queira visitar os atrativos ao longo do itinerário, e prosseguir usufruindo o roteiro.

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passeio de bonde pelo Centro Histórico de Santos tem agora cinco quilômetros de extensão, quase o triplo do trajeto inicial, que era de 1.700 metros. A bordo dos veículos restaurados, é possível conhecer e se encantar com as

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AMPLIAÇÃO DA LINHA TRIPLICOU ROTEIRO

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OBRAS DE AMPLIAÇÃO As obras necessárias para a ampliação da linha envolveram a instalação dos trilhos e da rede aérea, nivelamentos e realinhamentos das vias permanentes, repavimentação das pistas e das calçadas, transferência de postes e sinalização viária. Uma faixa segregada foi construída na Rua Bittencourt, entre a Braz Cubas e a Senador Feijó, e na Rua Augusto Severo (atrás do

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Paço Municipal) para que o bonde pudesse circular no contrafluxo. O projeto contou com recursos do governo do Estado de São Paulo, por meio do Fundo das Estâncias, e do município.


AMPLIAÇÃO DA LINHA TRIPLICOU ROTEIRO

Branco, da Constituição e General Câmara e Praça Mauá. E o terceiro anel passa pela Praça Rui Barbosa, ruas Vasconcellos Tavares, Amador Bueno, Frei Gaspar, Avenida São Francisco, Praça Correia de Mello, ruas Bittencourt, Braz Cubas, General Câmara e Praça Mauá.

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ANÉIS INTERLIGADOS A linha ampliada formou dois novos anéis, interligados ao que já existe. O primeiro anel, representado pela linha original de 1,7 km, inclui a Praça Mauá, ruas General Câmara e Comércio, Largo Marquês de Monte Alegre, Rua Tuiuti, Praça Barão do Rio Branco, Rua Augusto Severo e Praça Mauá. O segundo anel incluiu no trajeto a Rua Augusto Severo, praças Barão do Rio Branco e da República, ruas Visconde do Rio

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PONTOS DE INTERESSE

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Monumento a Bartholomeu de Gusmão (Praça Rui Barbosa) Conhecido como ‘Padre Voador’, o santista Bartholomeu de Gusmão, precursor da navegação aérea, é homenageado neste monumento em bronze, cercado por alegorias. A escultura, de Lorenzo Mazza, foi inaugurada em 7 de Setembro de 1922, durante as comemorações de centenário da Independência do Brasil.

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Igreja do Rosário (Praça Rui Barbosa, esquina com Rua Vasconcelos Tavares) Com sua nave em mármore, vitrais e e pinturas adornadas, a Igreja do Rosário é uma das mais belas e antigas de Santos, e revela histórias ligadas aos tempos da escravidão. Em estilo barroco, foi edificada em 1822 pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, tendo se originado de uma capela de 1758. Consta que escravos em fuga ali se escondiam, escapando pelo Beco do Rosário (Rua Vasconcelos Tavares), de onde seguiam até os morros e dali para os quilombos. A Igreja do Rosário foi a catedral de Santos entre 1907 e 1924.


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Associação Predial (Rua Amador Bueno, 22) A Associação Predial de Santos foi instituída em 10 de janeiro de 1904 com o objetivo de garantir o financiamento de moradias aos trabalhadores da cidade. No auge do ciclo do café, por volta de década de 1920, pelo menos um imóvel por dia era entregue por meio da entidade. Extinta em 1990, a Associação teve sua última sede na Amador Bueno, onde posteriormente funcionou a Biblioteca Municipal Alberto de Sousa. O prédio está sendo restaurado para receber a Fundação Arquivo e Memória de Santos.

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Teatro Guarany (Praça dos Andradas, 100, esquina com Rua Amador Bueno) Inaugurado em 7 de dezembro de 1882 e reaberto após restauro em 2008, o Teatro Guarany é hoje uma das mais belas casas de espetáculos do país. A recuperação foi realizada pela Prefeitura com recursos captados por meio da Lei Rouanet nas empresas Cosipa-Usiminas, Telefonica, MRS Logística, Cutrale, Petrobras, Fosfertil, Comgás, Bunge, Coopersucar e Carbocloro. O novo Guarany concentra a sala de espetáculos Carlos Soffredini, para 350 pessoas, e a Escola de Artes Cênicas Wilson Geraldo. As pinturas do teto e do foyer do segundo piso, de Paulo Von Poser, retratam cenas do romance ‘O Guarany’, de José de Alencar, e da

ópera de mesmo nome, de Carlos Gomes. A outra é uma releitura do artista para o quadro de Benedicto Calixto, que mostra Santos vista do alto do Monte Serrat. O teatro é remanescente de uma era de grande crescimento econômico da cidade, e recebeu personalidades como Sarah Bernhardt, Olavo Bilac e Júlio Dantas. Foi também palco de manifestações abolicionistas e republicanas no final do século 19, e de encontros de oposicionistas ao regime de Getúlio Vargas, na Revolução de 1932.


Palácio ‘Saturnino de Brito’ (Avenida São Francisco 128) O prédio de 1.050 m² foi inaugurado em 1910 para receber a antiga Repartição de Saneamento da Cidade, sendo atualmente sede da Unidade de Negócios Baixada Santista da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). Tombado pelo Condephaat em 2003, tem um saguão imponente, com piso e escadaria dupla em mármore. Em um patamar, após o primeiro lance dos degraus, se destaca o vitral Os Bandeirantes, com seis metros de altura, de autoria do artista

alemão Conrado Sorgenicht, que retrata a escalada da Serra do Mar por bandeirantes e indígenas. O palácio recebeu o nome de Saturnino de Brito, idealizador do sistema de canais de Santos, projeto que solucionou os problemas de drenagem, promovendo o desenvolvimento da cidade. A obra, então inédita no país, garantiu a Saturnino o título de Patrono da Engenharia Sanitária do Brasil.

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Escola Barnabé (Praça Corrêa de Mello s/nº) A ‘Barnabé’ é a primeira escola pública de Santos, fruto da vontade do comendador Barnabé Vaz de Carvalhais. Ele deixou em seu testamento recursos para a Câmara Municipal destinados ao empreendimento, assim como o terreno de 5.836 m². Com estilo eclético e escadarias em mármore de Carrara, a escola começou a funcionar em 1º de julho de 1902, com sete salas de aula e 216 alunos, sendo atualmente unidade estadual de ensino fundamental. Na Revolução de 1932, o prédio foi utilizado como quartel e posto de alistamento militar, além de abrigar ambu-

latório médico, dormitório e escritório. Apetrechos utilizados nos combates constitucionalistas e também na 1ª Guerra Mundial integram o acervo patrimonial da centenária ‘Barnabé’, que serviu também como ponto de referência para estrangeiros que desembarcavam no porto de Santos, no início do século passado. Na grande área verde que envolve a instituição de ensino está o único exemplar da cidade da espécie cedro do Líbano, doado na época da construção.


Monte Serrat (Praça Corrêa de Mello s/nº) O Monte Serrat é uma das principais atrações turísticas de Santos. E não faltam motivos para isso: em seu topo, de onde se tem uma completa vista da cidade, está o Santuário Nossa Senhora do Monte Serrat, a padroeira da cidade. O imóvel também abrigou um luxuoso cassino, hoje transformado em espaço para festas e eventos. Erguida com pedras e cal há cerca de 400 anos, a capela barroca guarda uma história muito especial para os santistas. Durante as invasões holandesas, em 1614, os habitantes da vila teriam ali se refugiado, se valendo da localização estratégica. Dali avistaram a chegada dos navios piratas e o desembarque dos invasores. Eles

rezaram com muita fé, pedindo a proteção da Virgem Maria, até que um deslizamento da encosta soterrou os inimigos, afugentando os holandeses da região. Tinha início a devoção santista à Nossa Senhora do Monte Serrat, celebrada anualmente em 8 de setembro com grande festa religiosa. O charmoso bondinho funicular, que leva ao topo do morro, é, por si, uma atração ímpar. Os passageiros embarcam na antiga estação, e lá no alto, a 150 metros acima do nível do mar, encontram os mirantes do antigo cassino, que funcionou entre 1927 e 1946, e o Santuário.

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Via Sacra do Monte Serrat (Ladeira Monsenhor Moreira) Quem tiver fôlego para subir os 417 degraus até o alto do Monte, terá a oportunidade de conhecer a Via Sacra completa, retratada nos nichos que representam a trajetória de Jesus Cristo desde sua condenação até o alto do Monte Calvário, em Jerusalém, onde foi crucificado, e terminando na estação 15, que simboliza a ressurreição. Esculpidos por Marino Fabero, os quadros em bronze de Meleto Benedetti possuem placas com indicação de cada passagem e estão incrustados em nichos de granito natural. A obra, construída entre 1939 e 1941, foi inspirada na via-crucis que existe no Monte Serrat da Espanha, próximo a Barcelona.

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Fonte do Itororó (Praça Corrêa de Mello s/n°) No sopé do Monte Serrat está a Fonte de Itororó, famosa por ser citada na antiga cantiga de roda. Ela já abastecia os moradores e os navios que aqui aportavam nos séculos 16 e 17. O Indicador Turístico Brasileiro, publicação de 1885, enaltecia sua água límpida e cristalina, e relatava ainda a lenda dos seus poderes especiais de “fixar na cidade quem a sorvesse”. A fonte recebeu o nome devido ao riozinho que atravessava as ruas do Rosário e XV de Novembro, cortando a região central e seguindo em direção ao mar. Seu entorno era conhecido como o Recanto do Itororó, e relatos o descrevem como um lugar aprazível, onde as pessoas passeavam atraídas pela temperatura amena que a mata proporcionava, e também pela água fresca que brotava da fonte.

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Companhia de Águas do Itororó (Praça Corrêa de Mello s/n°) O aproveitamento das águas da Fonte de Itororó ganhou caráter empresarial a partir da década de 1920, quando a Companhia das Águas de Itororó começou a engarrafar e comercializar o líquido. A qualidade era tão boa que a água também passou a ser utilizada na fabricação de refrigerantes, tônicas, xaropes e gelo. A companhia tinha sua sede junto à fonte, onde também funcionou durante anos o Bar Itororó, famoso pelo seu apetitoso churrasco. Ao ser revertido em 1945 para a municipalidade, o antigo prédio da empresa de água passou a abrigar instalações públicas.


‘Castelinho’ (Praça Tenente Mauro Batista de Miranda, 1) Inaugurado em 7 de setembro de 1909, o prédio que abrigou o Corpo de Bombeiros é conhecido pelos santistas como ‘Castelinho’, numa referência às duas torres que se unem por meio de um portal. Com estilo eclético, o prédio foi projetado por Maximiliano Emílio Hehl, o mesmo engenheiro responsável pela construção da Catedral de Santos. A pedra fundamental foi lançada em 9 de junho de 1907. Coube ao engenheiro Francisco Saturnino de Brito colocar sobre ela a primeira pá de cimento. Depois da completa restauração e da construção de um prédio anexo, o imóvel sedia agora a Câmara Municipal.

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Monumento aos Bombeiros (Praça Tenente Mauro Batista de Miranda) Em meados do século 20, a cidade queria prestar uma homenagem ao seu Corpo de Bombeiros. Uma campanha foi então promovida pelo jornal A Tribuna, arrecadando os recursos necessários para a confecção e instalação de um monumento. O local escolhido para receber o marco foi a praça Tenente Mauro Batista Miranda, em frente à sede da corporação, o famoso ‘Castelinho’. Sob a forma de uma pirâmide de granito encimada por uma tocha em bronze, a obra foi inaugurada nas comemorações do aniversário da cidade, em 26 de janeiro de 1963.

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Sociedade Humanitária (Praça José Bonifácio, 59) Pouca gente sabe que a cidade foi berço de uma iniciativa previndenciária inovadora. A Sociedade Humanitária dos Empregados do Comércio de Santos é a primeira instituição de auxílio mútuo do país, criada em 12 de outubro de 1879. Mediante o pagamento de pequena importância mensal, comerciários dispunham de assistência médica e hospitalar, medicamentos e ajuda pecuniária em caso de falecimento, além de cursos de francês, inglês e alemão. Em 1931, a entidade passou a funcionar no prédio de quatro

pavimentos na esquina da Praça José Bonifácio com Rua Braz Cubas, onde está até hoje, após completa restauração. A Humanitária criou a primeira biblioteca de Santos, que hoje tem o maior acervo do Estado, com 40 mil exemplares, muitos dos quais raros. O mais antigo é o Testamento Político de Richelieu, impresso na Holanda em 1688. A Prefeitura transferiu para lá em 2007 os acervos das Bibliotecas Municipais ‘Cândido Portinari’ e ‘Alberto Sousa’.

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Palácio da Justiça - Fórum (Praça José Bonifácio s/nº) Imponente com sua fachada em linhas retas, portas monumentais e escadarias em granito, o Palácio da Justiça compõe o conjunto de grandes edificações da Praça José Bonifácio. Inaugurado em 22 de outubro de 1962, o edifício representou um marco na história do Poder Judiciário da região, que na época era a segunda comarca mais movimentada do Estado, só ficando atrás da capital paulista. No andar térreo fica a sala de júri, com capacidade para 300 pessoas, toda revestida em madeira de lei, palco de julgamentos históricos.


Catedral (Praça José Bonifácio s/nº) Torreões e ogivas que remetem ao estilo gótico compõem a arquitetura da Catedral de Santos, sede da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário Aparecida. Projetado pelo engenheiro prussiano Maximilian Hehl - o mesmo que idealizou a Catedral de São Paulo - o templo começou a ser construído em 1909 e foi inaugurado em 1924. É considerado um dos mais belos da cidade, e veio substituir a antiga Igreja Matriz, que ficava na Praça da República, e foi interditada em 1907 por estar em ruínas. Entre os detalhes do templo, destaque para a sua torre em forma de agulha, onde se encontra um carrilhão com sete sinos. A cúpula renascentista confeccionada em cobre foi doada por um dos proprietários da extinta Companhia Docas de Santos, Cândido Gafrée. A fachada apresenta duas imagens em granito natural de São Pedro e São Paulo, e ladeando os ângulos da torre estão as figuras dos profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel e dos evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João. Raridades artísticas se destacam nas capelas laterais internas: a imagem de Nossa Senhora de Fátima, vinda de Portugal, e a do Santíssimo Sacramento, que ostenta três afrescos de Benedicto Calixto, enquanto vitrais coloridos mostram cenas da vida de Nossa Senhora. A igreja conta com uma cripta, onde estão os túmulos dos bispos e sacerdotes de Santos, além do ossuário com dois mil lóculos.

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Teatro Coliseu (Rua Amador Bueno, 237 - esquina com Praça José Bonifácio) Uma das joias da cultura santista, o Coliseu atrai atualmente cerca de 10 mil pessoas por mês, mantendo uma agenda repleta de espetáculos artísticos, eventos culturais e visitas monitoradas, representando parte fundamental no processo de revitalização do Centro Histórico. O trabalho de restauração ali realizado permite ao público ter a exata noção do luxo e riqueza dos tempos áureos da casa de espetáculos, tombada como patrimônio e reinaugurada em 25 janeiro de 2006. A história do Coliseu começou em 1897, com a inauguração de um ginásio de madeira, com velódromo, arquibancada

e botequim., que em 1909 foi substituído por um teatro de 1.500 lugares e excelente acústica. Mas foi em 1924 que o teatro ganhou sua configuração definitiva, com a plateia em formato de ferradura, pinturas e afrescos das paredes e do teto, fosso da orquestra em estilo wagneriano, hall e escadarias de mármore e materiais nobres. Artistas brasileiros e estrangeiros ali se apresentaram; o teatro também recebeu eventos políticos importantes para a história do país.


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Monumento aos Filhos de Bandeirantes (Praça José Bonifácio) Criado para homenagear os soldados constitucionalistas que morreram na Revolução de 1932, o monumento foi inaugurado pela Prefeitura em 26 de janeiro de 1956, tendo sido escolhido por meio de concorrência pública. O autor Antelo Del Debbio esculpiu um conjunto de figuras representativas do movimento revolucionário paulista. Numa grande lápide estão gravados nomes dos santistas mortos durante os combates.

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Poupatempo (Rua João Pessoa, 246) Antigos armazéns da Ceagesp funcionavam no imóvel de 5.800 m² de área construída, desapropriado pela Prefeitura em 2005 para se transformar em sede do Poupatempo. As obras de restauração da antiga construção, edificada em 1922, possibilitaram a instalação de serviços públicos com capacidade de atender cerca de 5 mil pessoas por dia. Durante a recuperação, foram revelados 15 painéis nas paredes internas, que guardam características da propaganda do início do século 20, já que ali também funcionou um cinema.

As ilustrações,restauradas por uma equipe especializada da Secretaria Municipal de Cultura, são propagandas de alfaiatarias e lojas de roupas. Elas não sofreram qualquer intervenção, mantendo o aspecto original. Segundo pesquisadores, os anúncios foram pintados à época em que no local funcionava o Cinema Central, uma sala de projeção popular do Centro. O imóvel abrigara anteriormente o Redondel de Touros, espécie de praça de touradas.


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Sede do Jornal A Tribuna (Rua General Câmara, 90) O prédio do início do século 20 é um símbolo para a cidade, sede do jornal A Tribuna há mais de 90 anos, um dos dez mais antigos do país. Criado pelo maranhense Olympio Lima, começou a circular, duas vezes por semana, a partir de 26 de março de 1894, com o nome ‘A Tribuna do Povo’. Em 1909, após o falecimento do fundador, o jornal foi adquirido por Manuel Nascimento Júnior, que iniciou o processo de modernização, marcado pela aquisição de nova impressora e linotipos, instalados em substituição ao sistema artesanal. Em 1919, as instalações do jornal saíram da antiga sede da Rua D. Pedro II e foram transferidas para a Rua General Câmara, dando início a uma era de crescimento e consolidação da empresa. Hoje o imóvel concentra setores administrativos e espaço de pesquisa.

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Outeiro de Santa Catarina (Rua Visconde do Rio Branco, 48) Cerca de 40 anos após a descoberta do Brasil, o fidalgo português Luis Góis e sua esposa Catarina de Aguillar começaram a erguer na base do pequeno outeiro a Capela de Santa Catarina de Alexandria a primeira da vila que começava a se formar, e por isso o local é tido como o marco da fundação de Santos. Junto à capela, Braz Cubas construiu em 1543 a Santa Casa de Misericórdia, primeira instituição do gênero implementada fora do continente europeu. A capela, no entanto, não durou muito tempo: em 1591, durante a invasão do pirata inglês Thomas Cavendish, foi completamente destruída e saqueada. A imagem da santa foi jogada ao mar, sendo resgatada 72 anos depois - e hoje pode ser admirada no Museu de Arte Sacra de Santos.

A capela foi reconstruída posteriormente pelo padre Alexandre de Gusmão. Entretanto, o desbaste do morro para obtenção de aterro e pedras para a construção do porto resultou na demolição definitiva do templo. Entre 1880 e 1884, o médico italiano João Éboli mandou construir uma casa acastelada sobre o bloco de pedra que restou do monte. Alicerçados sobre rocha, os três níveis do imóvel são ligados por escadarias, em estilo inspirado nas edificações medievais europeias. O imóvel e seu entorno foram recuperados pela Prefeitura, dentro do processo de evitalização do Centro Histórico, e atualmente é sede da Fundação Arquivo e Memória de Santos, que mantém acervos representativos da história local.


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Casa do Trem Bélico (Rua Tiro Onze) Apesar de sua existência só estar documentalmente comprovada em 1734, a construção da Casa do Trem Bélico aconteceu entre 1640 e 1646, conforme estimativa histórica, o que significa ser este o mais antigo prédio público de Santos. É ainda uma das raras edificações militares antigas preservadas no país, tendo passado por completa restauração. Servia como depósito do arsenal de armas e munições para a proteção da antiga vila, abastecendo as fortalezas militares e quartéis locais. Seu nome decorre do sentido popular da palavra ‘trem’, que generaliza diversos materiais. A arquitetura colonial está presente no imóvel, que em 1948 passou a abrigar o Tiro de Guerra 11, funcionando depois como escola, seção de alistamento eleitoral, Serviço de Subsistência do Exército e Centro da Juventude. Sua escadaria foi esculpida em rochas locais, dando acesso ao imóvel pela Rua Tiro Onze, também revitalizada.

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Casa de Frontaria Azulejada (Rua do Comércio, 96) Construída em 1865 para servir tanto como residência como para sede do armazém do comerciante português Joaquim Manoel Ferreira Neto, tem a fachada toda revestida por azulejos coloridos e decorados em relevo, com uma porta principal larga e alta o suficiente para permitir o acesso de carruagens ao pátio interno. A edificação tem a forma da letra ‘U’, com a abertura voltada para o mar, o que facilitava a carga e descarga de mercadorias. Em maio de 1973, o prédio de arquitetura inspirada no estilo neoclássico foi tombado pela União, e acabou sendo desapropriado pela Prefeitura, que restaurou sua fachada. A casa passou para a responsabilidade da Fundação Arquivo e Memória de Santos, e se transformou, a partir de dezembro de 2007, no Espaço Cultural Frontaria Azulejada, que promove exposições e outros eventos culturais. É também sede do Santos Film Comission, órgão da Prefeitura responsável por atrair e facilitar a realização de produções audiovisuais no município.


Santuário da Valongo (Largo Marquês de Monte Alegre s/nº) A pedra fundamental da Igreja de Santo Antônio do Valongo foi assentada em 1640, para atender a um anseio dos moradores mais abastados da vila, que residiam nas imediações. Em estilo barroco, o templo foi inaugurado em 1691, sendo sua fachada considerada uma das obras mais expressivas da arquitetura da época, importante exemplar das construções dos padres franciscanos. Ali estão importantes obras da arte sacra colonial brasileira, como a imagem do Cristo Místico de Seis Asas e de Nossa Senhora das Dores, São Pedro e São João, formando a figura giratória que representa a Santíssima Trindade. No pátio se encontra uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, de 1698, a Padroeira dos Enforcados, onde os escravos condenados à morte rezavam antes de serem executados. O Sino dos Enforcados foi arrancado pelo povo após a promulgação da Lei Áurea, e está guardado na sacristia. Um fato considerado milagroso impediu em 1859 o desaparecimento da igreja. O local foi desapropriado para fazer parte da área da estação da Estrada de Ferro São Paulo Santos-Jundiaí. Mas os operários não conseguiram retirar a imagem de Santo Antônio do altar, por mais força que fizessem. A população se comoveu, impedindo que o templo fosse demolido.

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Estação do Valongo (Largo Marquês de Monte Alegre s/nº) A Estação do Valongo foi inaugurada com a ferrovia da São Paulo Railway Company, em 1867, primeira estrada de ferro construída em território paulista. Por ali passaram os grandes carregamentos de café e demais riquezas que fizeram de São Paulo a principal potência econômica do Brasil, além de milhares de imigrantes que, após desembarcar no porto de Santos, seguiam para a capital.

O prédio é uma cópia reduzida da Victoria Station, de Londres, com telhados inclinados e um alpendre apoiado em colunas de ferro. No corpo central elevado, uma torre com relógio e quatro leões nos cantos símbolizam o poder do império britânico. Tombado pelo Condepasa em 1993, foi restaurado pela Prefeitura e desde janeiro de 2004 abriga a Secretaria de Turismo de Santos.


Casarões do Valongo - Museu Pelé (Largo Marquês de Monte Alegre s/nº) As fachadas dos dois casarões interligados, em estilo neoclássico, demonstram a grandiosidade do conjunto, tido como a maior edificação paulista em sua época. O primeiro bloco foi erguido em 1867 com pretensões de abrigar a sede do governo da Província de São Paulo para Santos, como era então pretendido, fato que acabou não acontecendo. O segundo foi construído cinco anos depois, em 1872, e em ambos foram utilizados materiais importados. Sem atender à finalidade inicial, os imóveis serviram ao longo dos anos para diversas finalidades, entre as quais residência e sede do Clube XV. Entre 1896 e 1939, foi sede da Prefeitura e Câmara até a inauguração do Paço Municipal, na Praça Mauá.

Depois disso, os casarões foram ocupados por escritórios, bares e hotéis. Tombados em 1983 como patrimônio histórico, foram parcialmente destruídos por incêndios. Suas fachadas receberam reforço, evitando que as poucas paredes remanescentes desmoronassem. O governo do Estado concedeu a cessão do imóvel à prefeitura em janeiro de 2008, para que seja restaurado e transformado no Museu Pelé .

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Armazéns do cais histórico Quando o bonde passa pela Rua Tuiuty, via paralela ao porto, o passageiro avista os armazéns do cais histórico santista, que serão restaurados para abrigar o projeto Porto Valongo Santos, um complexo náutico, turístico e cultural, que integrará fisicamente a cidade ao seu porto. O projeto inclui espaços para gastronomia e entretenimento, exposições artísticas e eventos culturais, além de novo terminal de cruzeiros marítimos, marina pública de nível internacional, museu marítimo, base oceanográfica, unidade do Corpo de Bombeiros e posto de informações turísticas.


Hard R‑and (Rua Frei Gaspar, 6) É a edificação residencial mais antiga de Santos, inaugurada em 1818. Também conhecida como Palacete Mauá ou Casarão da Tuiuti, foi habitada por tradicionais famílias da cidade. Ali se realizou em 1882 o maior e mais luxuoso baile santista do século 19, conhecido como a Festa dos Meteoros. Reformada várias vezes, manteve seus traços arquitetônicos, mas passou a ter uso comercial, tendo sediado bancos e, mais recentemente, a firma de café Hard Rand Exportadora e Importadora S.A. No início da década de 1980, serviu de cenário para as gravações da novela “Os Imigrantes” da TV Bandeirantes.

O prédio, em formato de ‘L’ , tem um pátio externo onde se destacam dez portas-balcões com gradis de ferro no andar superior, além das existentes no térreo. Seis portas-balcões e janelas repetem-se na fachada. Tantas aberturas eram um recurso arquitetônico utilizado para a melhor ventilação do imóvel, para amenizar o calor.

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Bolsa Oficial de Café (Rua XV de Novembro, 95 ) Também conhecida como Palácio do Café, é uma das construções que melhor traduzem o apogeu da economia santista. Inaugurada em 7 de setembro de 1922, nas comemorações do centenário da Independência do Brasil, a Bolsa foi implementada para centralizar, organizar e controlar o mercado cafeeiro, principal riqueza brasileira da época. Interna e externamente, o prédio arranca elogios de todos que o visitam, sendo um dos pontos turísticos mais visitados da cidade. As linhas renascentistas italianas inspiram o projeto, edificado com materiais importados. Tamanha suntuosidade está presente nas cúpulas de cobre, na torre do relógio, nas grandes esculturas, vitrais, mosaicos de mármore e colunas de granito. Obras de

arte adornam o seu interior, entre as quais os painéis do pintor Benedicto Calixto, que retratam momentos importantes da história de Santos, desde a fundação. Um vitral no teto representa a lenda do bandeirante Anhanguera. Na deslumbrante sala de pregões, os mínimos detalhes, do piso ao teto, traduzem o apogeu econômico do ciclo. Restaurado pelo Estado em 1998 e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional em 2009, o palácio abriga o Museu dos Cafés, Centro de Preparação de Café, que promove cursos para qualificação profissional, e uma charmosa cafeteria, inaugurada no mesmo dia da Linha Turística do Bonde.


Associação Comercial de Santos (Rua XV de Novembro, 137) Fundada em 22 de dezembro de 1870, a Associação Comercial de Santos é a mais antiga entidade de classe do Estado de São Paulo e uma das primeiras do Brasil. Sua importância era tanta que em 1878 recebeu a visita de D. Pedro II e da imperatriz Theresa Christina. Em sua sede atual, construída em estilo eclético e inaugurada em 1924, o visitante pode admirar telas de Benedicto Calixto, farta documentação e publicações sobre a evolução do ciclo cafeeiro em Santos e no país. Suas fachadas são ricas em detalhes, sacadas e grandes janelas e portas- balcões.

Chama a atenção um painel com grande caravela na esquina da Rua XV, no saguão nobre com piso de mármore de Carrara e grande pé direito que se estende por todo o pavimento térreo.

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Construtora Phoenix (Rua XV de Novembro, 141) A sede da Construtora Phoenix foi edificada na década de 1920 para receber o ‘Banco Italiano di Sconto’, institutição bancária europeia que tinha negócios no porto santista. Inspirado no palácio da família Médici Riccardi, de Florença, teve seus detalhes originais respeitados no processo de restauração, realizada a partir de 1995, quando a construtora o adquiriu. Seu salão de mármore recebeu três mil folhas de ouro, aplicadas no revestimento de 24 molduras com brasões, que representam as províncias da Itália. Um lustre de 95 anos, em estilo império e com cerca de 100 anos, ostenta uma armação em bronze e cristais tchecos. Depois de sediar o banco, o imóvel foi transferido ao patrimônio da Santa Casa de Misericórdia, que o alugou a uma empresa. Ali também funcionou a Bolsa de Valores e Mercadorias e uma agência dos Correios. Em 1988, foi entregue ao Banco do Brasil, e permaneceu sem uso até ser adquirido pela Phoenix num leilão público, em 1994.

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Casa da Inspetoria de Imigração (Rua Antônio Prado, esquina com Riachuelo) Neste imóvel próximo ao cais funcionava a Inspectoria de Immigração do Porto de Santos, repartição pública diretamente subordinada à Secretaria de Estado de Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado. Criada em 1907, tinha como missão fiscalizar a legalidade das imigrações, instruir e encaminhar os imigrantes desembarcados em Santos que desejassem se fixar no Estado, confeccionar a estatística da imigração e emigração por Santos e divulgar os principais atrativos do território paulista, por meio de fotografias, mapas, quadros estatísticos e amostras de produtos.

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Monumento a Braz Cubas (Praça da República) Primeira estátua da cidade, foi inaugurada em 26 de Janeiro de 1908, por iniciativa da Câmara Municipal em homenagem ao fundador da Vila de Santos. O artista Lorenzo Mazza esculpiu em mármore branco de Carrara a imagem do fidalgo português em trajes do século 16. Na mão esquerda, segura um bastão que identificava sua nobreza, e na direita, um rolo em forma de per-

gaminho com a inscrição ‘Planta da Vila de Santos 1545’, com uma carta topográfica. Nas laterais da estátua, o monumento ostenta três alegorias alusivas ao comércio, à navegação e ao gênio, além de coroa, placa, escudo e louro.


Alfândega (Praça da República s/nº) O edifício da Alfândega do Porto de Santos, com 12.350 m² distribuídos em cinco pavimentos, foi construído em 1934 pela Companhia Docas de Santos. Em estilo clássico com influência art-déco, passou por completa restauração, concluída em 2003. Suas 90 janelas são quase todas protegidas por grades em ferro batido, com desenhos de folhas e frutos de café estilizados, trabalho que se repete em portões e portais, concebido pelo serralheiro artístico Puccinelli há 75 anos.

Vitrais e afrescos das quatro salas do hall nobre foram recuperados nas suas formas originais. Mármores importados da Itália, Espanha e Portugal compõem o acabamento e detalhes da decoração do imóvel, entre os quais o desenho em forma de estrelas de oito pontas no mosaico do piso do saguão, pilastras, paredes, degraus, balaústres e patamares do conjunto de escadarias.

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Mesa da Rendas (Praça Antonio Teles, 28) Conhecida como Mesa de Rendas, a Delegacia Regional Tributária do Litoral, subordinada à Secretaria de Estado da Fazenda, ocupa um prédio inaugurado há quase 60 anos. Na época, os projetistas se preocuparam em construir uma edificação que não contrastasse arquietonicamente com as linhas da Alfândega, localizada bem ao lado. Sua inauguração aconteceu em 9 de julho de 1950, com a presença do então governador Ademar de Barros. Chama a atenção um grande vitral colorido no teto do vão central do prédio, que tem cinco pavimentos. A obra estava escondida por um forro de madeira, e foi revelada durante as obras de restauração do imóvel realizadas recentemente pelo governo estadual. Outra curiosidade é o enorme cofre no subsolo, identificado como ‘casa-forte’, que conta com um sistema de cinco fechaduras de segurança. Sua porta tem 60 centímetros, dois metros de altura e um de altura. Tudo isso porque os impostos eram pagos no passado em espécie, e era no cofre que se guardava todo o dinheiro arrecadado pelo Estado. Ali também ficavam os selos de certificação dos documentos oficiais.


Conjunto do Carmo (Praça Barão do Rio Branco, 16) Com duas igrejas seculares, o Conjunto do Carmo é considerado um dos mais antigos relicários do barroco brasileiro. Os templos são unidos por uma torre com campanário, criando uma fachada diferenciada, revestida por azulejos marianos originais. No convento da Ordem Terceira encontra-se a igreja dos freis carmelitas, originária de1599. Os altares dourados, em madeira, obedecem às linhas barrocas e são adornados por imagens devocionais do século 18. O presbitério possui cadeirais em jacarandá, utilizados para a celebração do ofício dos frades.

Também se destacam no templo telas de Benedicto Calixto e tocheiros. Todo segundo domingo de cada mês, a missa das 11 horas acontece ao som dos cantos gregorianos. A Igreja da Venerável Ordem Terceira do Carmo, associação religiosa leiga, existe desde 1760. Seus altares de madeira entalhada no estilo rococó, as telas do frei Jesuíno do Monte Carmelo (1764-1819) e a pia de água benta impressionam os visitantes. Os altares laterais possuem imagens de Cristo na Via Sacra e são considerados os mais importantes da Baixada Santista pela unidade de estilo. Por conta de reunir tais imagens, o templo é conhecido como Igreja da Paixão de Cristo.

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Pantheon dos Andradas (Praça Barão do Rio Branco s/nº) Especialmente construído para receber os restos mortais dos irmãos Andrada, o Pantheon foi inaugurado em 7 de setembro de 1923. Ali é o jazigo das cinzas dos santistas José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, e de seus irmãos Antônio Carlos, Martim Francisco e padre Patrício Manuel. Quadros em bronze adornam o local, e descrevem cenas da vida do Patriarca. No centro, uma escultura retrata o corpo de José Bonifácio da forma como foi velado. A arquitetura do edifício inspirou-se nos templos maçônicos, pois Bonifácio foi o primeiro grãomestre da maçonaria no Brasil. Sua importância para a História do Brasil foi mais uma vez reconhecida em 2007, quando o santista passou a integrar o Livro dos Heróis da Pátria.


Monumento aos fundadores da Companhia Docas de Santos (Praça Barão do Rio Branco) Erguido em 1928 na praça onde ficavam os antigos trapiches de embarque para os navios ancorados no primeiro trecho do cais santista, o monumento homenageia os fundadores da Companhia Docas de Santos, Cândido Gaffrée e Guilherme Guinle. Os dois empreendedores receberam a concessão para construir e explorar o porto santista por meio de decreto imperial assinado

pela princesa Isabel em 1888, o qual se estendeu por 90 anos. A empresa investiu continuamente no porto, que se tornou o maior da América Latina, e contribuiu para o desenvolvimento econômico e o bem-estar da comunidade local, construindo escolas e prédios públicos e apoiando projetos sociais.

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PONTOS DE INTERESSE

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PONTOS DE INTERESSE

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Edifício dos Correios (Rua Cidade de Toledo, 41) O prédio dos Correios e Telégraphos é um dos imponentes edifícios do Centro Histórico, inaugurado em 30 de novembro de 1924. Foi um presente para Santos da família Guinle, que aqui prosperou com as atividades portuárias. Trata-se da segunda sede do serviço na cidade, pois a primeira agência, que fazia o serviço de correio entre Santos e São Paulo, começou a funcionar em 1789, na Praça Rui Barbosa. As três portas da fachada principal são protegidas por grades de ferro fundido imitando folhas e grãos de café, trabalho repetido na proteção das vidraças do térreo. Antigamente, o último andar era utilizado como residência do diretor da agência.

Em 1988, o imóvel foi reformado, conservando o teto do saguão com ornamentação dourada e balaústres de ferro forjado das escadarias. O prédio tem curiosa escada de serviço que conduz ao telhado, com degraus específicos para os pés direito e esquerdo - sistema inventado por Santos Dumont, o Pai da Aviação, para sua casa em Petrópolis, no Rio de Janeiro.


Palácio José Bonifácio - Paço Municipal (Praça Visconde de Mauá s/nº) Destacando-se na Praça Mauá, o palácio-sede da administração municipal - projetado pelo arquiteto Plínio Botelho do Amaral - apresenta imponentes linhas clássicas. Suas escadarias externas são ladeadas por duas estátuas, ambas representativas de deuses romanos: Minerva, da sabedoria, ciências e artes, e Mercúrio, do comércio. Na construção e na decoração do prédio foram utilizados materiais nobres, muitos deles importados, como mármores de Carrara e cristais da Bohêmia, além de revestimentos em jacarandá.

O Salão Nobre ‘Esmeraldo Tarquínio’ e a e Sala ‘Princesa Isabel’ chamam a atenção pela riqueza dos detalhes, inspirados em palácio franceses. O prédio foi inaugurado em 26 de janeiro de 1939, nas comemorações do centenário da elevação da vila de Santos a categoria de cidade.

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Monumentos da Praça Visconde de Mauá Defronte ao Palácio José Bonifácio, a Praça Mauá reúne esculturas instaladas em seu belo jardim. Ali está a ‘Ninfa com a concha’, confeccionada em bronze, a qual representa uma das personagens da mitologia grega que vivem nas águas e fontes. É uma réplica da obra do artista Antonine Coysevox, que adorna um dos jardins mais famosos do mundo: o do Palácio de Versalhes, na França. Um busto em bronze simboliza a homenagem da cidade ao principal empresário brasileiro do século 19, Irineu Evangelista

de Sousa, o Visconde de Mauá, que construiu ferrovias, instalou indústrias e investiu em comunicações. Também na praça está o Marco Zero, uma peça em forma de trapézio, em granito preto, com 1,20 metro de altura, que desde 1940 identifica o Marco Distrital de Santos. É o ponto de referência geográfica do município, que orienta as medições topográficas e estudos geodésicos e planimétricos.


REURBANIZAÇÃO ACOMPANHOU O TRAJETO AMPLIADO

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A

s ruas que receberam os 3.300 metros de trilhos e de rede aérea para ampliação da Linha Turistica do Centro Histórico foram reurbanizadas, ganhando nova sinalização viária e calçadas revitalizadas. O projeto de reurbanização elaborado pela Prefeitura praticamente reconstruiu algumas vias, como a Vasconcelos Tavares e a General Câmara, e techos da Bittencourt, Augusto Severo e da Avenida São Francisco. Onde os trilhos passam, as pistas foram niveladas e realinhadas, com novas guias, sarjetas e pavimentação asfática. O sistema elétrico também recebeu melhoria, com a troca de fiações, transferência e instalação de postes. Ao longo do trajeto ampliado, todas as vias tiveram a pista repavimentada e as calçadas reconstruídas. Tais intervenções aconteceram em trechos das ruas Amador Bueno, Frei Gaspar,

Visconde do Rio Branco, da Constituição, Braz Cubas e praças Corrêa de Mello, José Bonifácio, Barão do Rio Branco, da República, Antônio Telles, Rui Barbosa e Mauá, além da reurbanização da General Câmara, Vasconcelos Tavares, Bittencourt, Augusto Severo e Avenida São Francisco. As novas calçadas foram pavimentadas com concreto desempenado, material antiderrapante e durável. As antigas grelhas de drenagem foram retiradas. O piso está agora nivelado e seguro para os pedestres. Intervenções de acordo com as normas de acessibilidade para pessoas com deficiência visual ou de mobilidade física foram implementadas, como rampas e marcações de solo.

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Linha expandiu raio da revitalização

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Obras revelaram sítios arqueológicos e relíquias do passado santista

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OBRAS REVELARAM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS E RELÍQUIAS DO PASSADO SANTISTA

escavações em locais históricos, da instituição credenciada Nupec/Cerpa (Núcleo de Pesquisas e Estudo em Chondrichthyes/ Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas), sob coordenação do arqueólogo professor doutor Manoel Gonzalez. O acompanhamento de obras em tais localizações é determinado pela portaria 230/2002 do Iphan (Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). O projeto deste monitoramento arqueológico foi licenciado pela portaria 10, publicada no Diário Oficial da União em 18 de março de 2008.

Foram identificados sítios arqueológicos importantes, o que possibilitou confirmar a localização exata de construções de destaque para a vida de quem habitava a cidade no passado. Um dos sítios mais antigos surgiu durante as obras na Praça Corrêa de Melo, a cerca de 1,5 m abaixo do solo, onde seria o

curtume de Braz Cubas, fundador da Vila de Santos, que funcionou por volta de 1560. Ali os pesquisadores também garimparam utensílios, como louças portuguesas, garrafas artesanais e pedaços de azulejos franceses.

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Nas escavações, descobertas de sítios arqueológicos

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respeito à rica história de Santos e ao que ela representa para a identidade cultural da cidade acompanhou todo o processo de ampliação da Linha Turística do bonde. Durante as escavações para a instalação dos trilhos, um minucioso trabalho de arqueologia preventiva revelou locais importantes do passado santista, onde foram encontrados cerca de 4 mil utensílios antigos, que ajudam a recompor a arquitetura e os costumes da época. O trabalho teve a supervisão de profissionais especializados em

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OBRAS REVELARAM SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS E RELÍQUIAS DO PASSADO SANTISTA

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EXPOSIÇÃO DE PEÇAS As peças encontradas nas escavações foram levadas à sede do Nupec/Cerpa, na Ponta da Praia, para limpeza e catalogação. Entre elas, faianças finas inglesas e portuguesas, garrafas de vidro e grés (barro), tijolos, ossos humanos e de animais e ferraduras.

A localização exata de dois antigos cemitérios também se confirmou com as escavações da Igreja do Rosário dos Homens Pretos, na área onde hoje é a Rua Vasconcelos Tavares, e da Igreja do Carmo, na Praça Barão do Rio Branco, que existiam nos séculos 18 e 19.

Peças foram selecionadas e catalogadas

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MAPA MILITAR A partir das indicações de um mapa militar antigo, ficou comprovada a exata localização da primeira cadeia de Santos, de um pelourinho da época da fundação (1546) e também da segunda sede da Igreja Nossa Senhora da Misericórdia, de 1652. A antiga cadeia ficava onde hoje é o cruzamento das ruas General Câmara e Martim Afonso, estendendo-se até a área das praças Barão do Rio Branco e da República. Já a igreja estava entre a Praça Mauá e Rua Riachuelo.


O impacto no Alegra Centro

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116 “Bonde comemorativo ao tricampeonato do Santos FC na copa Libertadores da América teve como passageiros os atletas veteranos Pepe, Mengálvio, Clodoaldo e Maneco”

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O IMPACTO NO ALEGRA CENTRO

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om diferença de mais de 100 anos, uma história se repete em Santos, com as devidas variações determinadas pelas grandes mudanças na vida urbana ocorridas ao longo das décadas. O processo registrado a partir de 1909 junto às margens dos trilhos dos bondes elétricos volta a ocorrer nas vias servidas pela Linha Turística do Centro Histórico, e também nas quadras próximas. Desta vez, sob a forma de recuperação e uso efetivo dos imóveis até então abandonados ou malconservados.

Enquanto no século passado o bonde incentivou o surgimento de novos bairros, atualmente empresas comerciais se instalam ao longo do trajeto. São restaurantes, casas noturnas, lojas, prestadores de serviços, escritórios ligados às atividades portuárias, turísticas e de tecnologia, além de fornecedores da cadeia de exploração e produção de petróleo e gás. A região também ganhou mais unidades de atendimento ao público, e se consolida como um polo de cultura e entretenimento.

A infraestrutura urbana disponível - redes de água, esgoto e drenagem, iluminação, pavimentação e transportes - é agora melhor aproveitada na área central da cidade. A região também recebe investimentos relacionados à instalação de moradias, além de sediar o núcleo central do Parque Tecnológico de Santos.

ALEGRA CENTRO

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Ao longo dos trilhos, a cidade ganha vida

O bonde é indutor fundamental do Programa de Revitalização e Desenvolvimento da Região Central Histórica de Santos, o Alegra Centro, que tem como foco o desenvolvimento socioeconômico, valorização da paisagem urbana, recuperação do patrimônio histórico e o consequente resgate da autoestima dos santistas.

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O IMPACTO NO ALEGRA CENTRO

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Em maio de 2011, a Linha Turística completou a marca de um milhão de passageiros, com muita festa e cortejo de bondes. De fevereiro de 2003 - quando o programa foi criado - a janeiro de 2011, o Escritório Técnico do Alegra Centro atendeu 2.654 empreendedores e incentivou o crescimento de 46% no total de empresas instaladas na sua área de abrangência. Das 5.648 atuais, 1.293 foram criadas nos últimos oito anos. Os valores investidos por meio do Alegra são significativos: entre públicos e privados, totalizam a R$ 158,3 milhões.

Foram realizadas 431 obras de restauração e conservação de imóveis, e a Prefeitura concedeu 287 isenções fiscais previstas no programa.

As fachadas das empresas instaladas ao longo dos trilhos também receberam melhorias. Os passageiros passaram a ser atraídos para compras ou refeições ao longo do trajeto. Além da implementação da Linha do Bonde, as obras de reurbanização nas vias que receberam os trilhos e nas suas calçadas, executadas pela Prefeitura, também estimularam a iniciativa privada a aprimorar o visual das empresas e serviços.

Entre alguns exemplos, desde que as obras de ampliação da linha tiveram início, restaurantes foram montados ou modernizados nas ruas Frei Gaspar, General Câmara e Augusto Severo, e também nas praças da República e Barão do Rio Branco. O mesmo aconteceu na Bittencourt e Senador Feijó, área que também vive a revitalização após a transferência da Câmara Municipal para o ‘Castelinho’ .

RAIO AMPLIADO Com a ampliação do trajeto da Linha Turística, também se expandiu o raio geográfico de interesse dos empreendedores e estimulou reformas e melhorias. Afinal, as milhares de pessoas que passeiam nos bondes visualizam as vitrines dos comércios.


ÂNCORAS Alguns empreendimentos funcionam como âncoras do Alegra Centro, irradiando o processo de revitalização em seu entorno.

Além da instalação da linha do bonde e da reurbanização das vias do trajeto, a Prefeitura executou e incentivou projetos que se enquadram em tal perfil. Entre eles, a restauração dos teatros Coliseu e Guarany, do Pantheon dos Andradas, da Estação do Valongo, do Outeiro e da Casa de Frontaria Azulejada. A transformação dos antigos armazéns do Ceagesp no Poupatempo, atraindo milhares de pessoas por dia, e a instalação da Câmara no ‘Castelinho’ constituem outros polos de intervenções que ancoram o processo.

A cidade também utiliza a estratégia de promover eventos culturais no Centro, para atrair tanto o público local quanto os turistas. Entre eles, a Virada Cultural Paulista, que a cada ano reúne um número maior de pessoas, além de apoiar realizações da iniciativa privada. Isso sem falar nas atrações promovidas pela iniciativa privada, que montou no Centro bares, restaurantes e casas noturnas de grande sucesso.

A instalação do escritório da Petrobras na área central foi uma conquista relevante. A sede, na esquina das Rua Dom Pedro II com a Praça Mauá, valorizou todo o entorno. Na quadra formada pelas ruas General Câmara, Riachuelo, João Pessoa e Dom Pedro II imóveis que abrigam pontos comerciais foram recuperados e ganharam lojas de roupas, calçados e acessórios, lanchonetes e cafés.

Nas proximidades do Outeiro de Santa Catarina, a Rua Visconde do Rio Branco teve imóveis restaurados, e ganhou novas empresas. A revitalização se evidencia também nas ruas Amador Bueno, Vasconcelos Tavares, da Constituição e Braz Cubas, Avenida São Francisco e em todas as praças do trajeto expandido.

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O IMPACTO NO ALEGRA CENTRO

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trecho histórico do cais (com espaços para atrações turísticas e culturais, terminal de cruzeiros, estaleiro e marina) são projetos decisivos na consolidação definitiva do processo de revitalização do Centro de Santos.

Bonde valoriza a paisagem do Valongo

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VALONGO A construção dos escritórios da Petrobras no Valongo, em área adquirida do município, resultará em movimentação sem precedentes na área, pois a a previsão é que mais de 6 mil funcionários trabalhem ali, injetando vida nova ao bairro. A instalação do Museu Pelé nos casarões do Largo Marquês de Monte Alegre e o complexo Porto Valongo Santos no


Marca turística de Santos retrata um elétrico

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A marca turística de Santos está na frota de transporte público

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econhecido como o principal agente de relações-públicas da cidade, responsável por atrair a atenção da mídia de todo o país e até do exterior, o bonde elétrico foi escolhido para ilustrar a marca institucional de turismo de Santos. A seleção aconteceu por meio de concurso de caráter nacional, promovido pela Prefeitura em 2006.

A marca está nos produtos turísticos e no material de divulgação de Santos distribuído no Brasil e em outros países. O Concurso Nacional para Criação da Marca Institucional de Turismo de Santos registrou a inscrição de 149 trabalhos, dos quais 79 foram selecionados. Mais de 20 propostas eram ilustradas pelo bonde.

LEI INSTITUTIU DIA DO BONDE A importância do bonde turístico para Santos é tanta, que a cidade oficializou em seu calendário de eventos um dia especialmente dedicado à marca turística da cidade.

É em 23 de setembro, data em que, no ano 2000, o bonde voltou a circular no Centro Histórico. A Lei Municipal 2.551, de 25 de junho de 2008, instituiu a celebração.

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MARCA TURÍSTICA DE SANTOS RETRATA UM ELÉTRICO

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MARCA TURÍSTICA DE SANTOS RETRATA UM ELÉTRICO

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ARTESÃOS CONFECCIONAM MINIATURAS Os bondes da Linha Turística do Centro Histórico inspiraram artesãos a confeccionarem miniaturas dos vários modelos em circulação. Detalhes como luzes internas e externas, bancos basculantes e molejo nas rodas conferem os atrativos das réplicas do bonde, como as confeccionadas por Marcos Antônio Ribeiro Júnior, o ‘Tola’, Vicente Marcelino Mascaro e Luis Casado.


Charme dos bondinhos atrai produções audiovisuais

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ondes antigos transitando em ruas de pedra, ladeadas por imóveis centenários preservados. Tais elementos compõem cenários perfeitos para a trama de novelas, filmes, minisséries, programas de TV e comerciais, e vem atraindo inúmeras produções audiovisuais para o Centro Histórico de Santos. Segundo os registros da Santos Film Commission - uma comissão instituída pela Prefeitura com o objetivo de assessorar e incentivar tais produções - o bonde aparece na maior parte das filmagens A TV Globo gravou a maior parte dos capítulos da minissérie Um Só Coração no Centro de Santos, e o bonde apareceu em inúmeras cenas. Artistas como Ana Paula Arósio, Maria Fernanda Cândido, Tarcisio Meira, Erick Marmo, Herson Capri e Leticia

Sabatella vieram à cidade para as gravações, realizadas entre 2003 e 2004. Outra minissérie, a JK, sobre a vida do presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, também registrou cenas no bonde, num trabalho cenográfico realizado na Rua do Comércio, entre a Casa da Frontaria Azulejada e o Largo Marquês de Monte Alegre. A via reproduziu uma rua de Belo Horizonte, na primeira metade do século 20. Na novela Ciranda de Pedra, que foi ao ar em 2008, em um dos primeiros capítulos o automóvel dos anos 50 dirigido pelo ator Marcelo Anthony bate no bonde e capota. As filmagens foram acompanhadas pela equipe do programa Videoshow, onde o bonde também foi destaque.

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Bonde atrai filmagens para a cidade

CHARME DOS BONDINHOS ATRAI PRODUÇÕES AUDIOVISUAIS

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CHARME DOS BONDINHOS ATRAI PRODUÇÕES AUDIOVISUAIS

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O louro do programa Mais Você foi passageiro da Linha Turística do Centro de Santos no quadro “Fantástica Viagem do Louro José”. O roteiro das gravações incluiu o Monte Serrat, Museu de Pesca, Aquário Municipal, Deck do Pescador, além das belezas do Centro Histórico. O bonde foi cenário também dos programas Domingo Legal, apresentado na SBT; Tudo é Possível , da Record; Band Bem Família , Cidade Nota Dez e A Noite é uma Criança, da Bandeirantes; e ‘Resto Del Mundo’, exibido pelo canal 13 da TV argentina. Entre os longas-metragens rodados no Centro Histórico, o ‘Boca do Lixo’ utilizou imagens do bonde na Rua do Comércio.


CARNABONDE RESGATA FOLIAS DE ANTIGAMENTE

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os antigos carnavais de Santos, os bondes abertos transportavam os foliões para os bailes e demais locais onde aconteciam os festejos de rua; os passageiros também aproveitavam a viagem para brincar com quem desfilava nos famosos corsos. A ideia do Carnabonde surgiu justamente com a proposta de resgatar essa tradição santista. Hoje, o evento se consolidou como o carnaval de rua da família santista, e representa uma das

iniciativas de maior sucesso no processo de revitalização do Centro Histórico. Mais do que isso, passou a representar uma atração turística de qualidade, que resgatou a alegria e o charme da folia de antigamente. A cada ano, atrai número maior de pessoas. Crianças, jovens, adultos e blocos da Melhor Idade transformam a Praça Mauá em enorme e alegre palco carnavalesco. Promovido pela Prefeitura sempre no sábado anterior à folia, o Carnabonde abre oficialmente os festejos na cidade.

O bonde chega na praça no meio da tarde, trazendo o Rei Momo, sua Corte e personagens que homenageiam tradicionais blocos santistas. As bandas garantem a alegria, e são as marchinhas antigas que fazem o maior sucesso, reunindo famílias inteiras. Um animado cortejo segue atrás do bonde, num clima de total tranquilidade e segurança.

O Carnabonde foi realizado pela primeira vez em 2001. Integrantes de grupos de teatro amador do município se caracterizaram como personagens dos antigos carnavais. A decoração e a produção das fantasias dos atores fica a cargo dos alunos da Escola Livre de Artes Cênicas, da Secretaria Municipal de Cultura.

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HOMENAGEM AOS BLOCOS A partir de 2002, o Carnabonde passou a homenagear a cada edição um bloco carnavalesco, iniciando com o ‘Agora Vai...’, que marcou época na cidade pela sátira política e de costumes. No ano seguinte, 2003, foi a vez do tradicional ‘Chineses do Mercado’. Criado por um grupo de amigos que trabalhava no mercado de peixe de Santos, o bloco desfilou durante 15 anos e conquistou 12 prêmios. O ‘Dengosas do Marapé’ teve sua história revivida nas ruas do Centro, durante o Carnabonde de 2004. O bloco homenageava a cultura de diferentes países, entre eles Japão, Índia e Cuba, e a maior parte dos homens desfilava com roupas de mulher. A edição de 2005 homenageou o bloco ‘Bola Alvinegra’, fundado em 1937 por sócios do Santos Futebol Clube. As glórias do time e da sua torcida foram relembradas pelos foliões. A colonia portuguesa de Santos fundou o ‘Cruz de Malta’, tema

do Carnabonde de 2006. O grupo representava o Clube de Regatas Vasco da Gama, e ficou conhecido por vencer vários concursos nas décadas de 1960 e 1970, se destacando pelas belas coreografias e fantasias luxuosas. Em 2007, o Carnabonde reverenciou o frevo e as cores verde e branco do ‘Bloco das Esmeraldas’ , vinculado ao Clube Atlético Santista, que agitava os santistas nos anos 1960. Acompanhando o percurso do bonde, a animação musical ficou por conta da Banda da Corte. O bloco desfilou por diversos bairros da cidade. O centenário da imigração japonesa no Brasil foi lembrado em 2008 com a homenagem ao bloco ‘Gueixas do Atlanta’, que foi sucesso em desfiles santistas da década de 1950. Nele, homens se vestiam com os tradicionais quimonos das gueixas, ostentando sombrinhas de papel de seda. Atores encantaram o público, apresentando performances com leques.


CARNABONDE RESGATA FOLIAS DE ANTIGAMENTE

Em 2011, o Carnabonde levou mais de 8 mil pessoas ao Centro Histórico, relembrando os festejos dos anos 40, ao homenagear o bloco ‘As Babys do Jardim da Infância’, que desfilava na região do Valongo, com seus membros vestidos de bebês. PREFEITURA DE SANTOS

O bonde e a Praça Mauá foram transformados em cenários do Oriente, para a homenagem ao ‘Favoritas do Sultão’, em 2009. O bloco surgiu na década de 1950, no Campo Grande, e foi muito premiado no Carnaval santista. Trinta atores relembraram duas épocas do bloco: a cômica, quando os homens desfilavam vestidos de mulher, e a luxuosa, quando os componentes vinham caracterizados como sultões. A décima edição do Carnabonde, em 2010, relembrou o bloco Taba (Turma Aliada do Boqueirão Amigo), que desfilou em Santos de 1971 a 1980. Formado por engenheiros, arquitetos e advogados, o grupo se encontrava no extinto restaurante Brasília, no Boqueirão. Suas fantasias eram inspiradas em temas de novelas e programa de TV.

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PELAS RAMPAS, ACESSO GARANTIDO PARA TODOS

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uem usa cadeiras de rodas também pode passear na Linha Turística do Centro Histórico. Um sistema de rampas foi especialmente montado para permitir o acesso das pessoas com limitações físicas, que antes precisavam ser carregadas para embarcar no bonde. A medida é parte de ampla estratégia do governo municipal que consolida

Santos como cidade acessível para os deficientes em diferentes segmentos, garantindo-lhes a oportunidade de participar deste passeio turístico e cultural. A Prefeitura solicitou e a CET projetou e construiu o sistema adaptado, que começou a funcionar em setembro de 2007. Montada no ponto final da linha, na Estação ´Buck Jones´, da

Praça Mauá, a rampa dispõe de corrimãos dos dois lados, e possibilita que as pessoas em cadeiras de rodas embarquem e desembarquem no reboque. Maria Aparecida Guerreiro é uma santista que só conhecia as inúmeras atrações do Centro por imagens. Depois que a rampa foi instalada, ela já passeou três vezes. “Poder embarcar no bonde e aproveitar o passeio, como qualquer outra pessoa, é

uma verdadeira realização. Me sinto uma cidadã respeitada. Do bonde, vejo lugares que antes não podia, porque fica difícil circular de cadeira pelas ruas antigas. É uma viagem ao passado, um momento de lazer muito especial, quando posso aprender mais sobre a história da minha cidade”, afirmou, entusiasmada.

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PELAS RAMPAS, ACESSO GARANTIDO PARA TODOS

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Ela lembrou que Santos recebe muitos visitantes que se locomovem em cadeiras de rodas, vindos de vários locais do país: “temos amigos que participam de encontros aqui, e quando sabem que podem andar no bonde e também ter acesso a diversos outros pontos turísticos, ficam encantados, porque isso é muito raro no Brasil. O deficiente é um turista como outro qualquer, que gosta de conhecer as principais atrações, por isso esta rampa é tão importante para quem vem de fora e para quem mora aqui e quer saber mais sobre a cidade”.


ANTIGOS MOTORNEIROS CONTAM HISTÓRIAS CURIOSAS

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ANTIGOS MOTORNEIROS CONTAM HISTÓRIAS CURIOSAS

José Soares Fontes, Aderbal de Godoy, Jessé Pereira da Silva e Josué Jerônimo de Campos, formam a equipe dos antigos motorneiros, que atuam nos bondes por meio do programa ‘Vovô Sabe Tudo’. Referência no país, o programa da Prefeitura promove a integração do idoso à comunidade, valorizando seu talento e propiciando a transmissão de conhecimentos aos mais jovens. Os vovôs são unânimes em afirmar que ganharam vida nova quando voltaram à ativa.

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uatro senhores muito simpáticos e educados, sempre impecavelmente vestidos, recepcionam os passageiros da Linha Turística do Bonde de Santos. São motorneiros aposentados, que trabalhavam na empresa operadora do sistema até 1971. Melhor do que ninguém, sabem contar histórias curiosas sobre os tempos em que os bondes eram o principal meio de transporte coletivo da cidade. Eles integram a memória do Museu Vivo, e transmitem com fidelidade o espírito que predominava no relacionamento entre funcionários e passageiros.

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ANTIGOS MOTORNEIROS CONTAM HISTÓRIAS CURIOSAS

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Uma das histórias que Aderbal gosta de contar é sobre as quedas de quem descia do bonde em movimento, só para não pagar passagem: “Eles economizavam, mas todo mundo ria dos tombos”. Ele lembra que os bondes eram usados para distribuir jornais nas primeiras horas da manhã, deixando uma pilha em cada banca ao longo do trajeto. “E ninguém roubava: se levava um jornal, deixava a moeda numa caixa de papelão do lado”, afirma. Um episódio virou notícia no ‘Repórter Esso’: foi quando Aderbal achou dentro de um bonde uma bolsa de dinheiro com valor equivalente ao preço de uma casa. “Entreguei no SMTC e o dinheiro ficou no cofre até aparecer o dono, que, aliás, eu conhecia”. E foi trabalhando no bonde que o antigo motorneiro conheceu uma passageira especial, com quem veio a se casar.

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‘Caçula’ da turma, Josué valoriza o contato com os passageiros da Linha Turística. “Fico com o coração satisfeito de poder contar para o público as histórias dos bondes, é um jeito de trazer de volta uma parte da nossa vida”. Feliz em estar de novo na ativa, ele garante: “As crianças ficam encantadas, os idosos gostam de relembrar os velhos tempos, e os turistas querem tirar fotos de tudo, inclusive com a gente junto”.


ANTIGOS MOTORNEIROS CONTAM HISTÓRIAS CURIOSAS

É com um amplo sorisso que José Fontes confessa: “Já apareci em reportagens até de outros países”. Entre as histórias que gosta de lembrar está a da senhora que deixou cair uma pulseira de ouro sob os trilhos, que ele resgatou e devolveu : “Ela nem tinha visto, e não sabia o que fazer para me agradecer”. História de um tempo em que a honra valia muito mais do que qualquer outra coisa. Lembra de um grande susto na linha 1, que ia até São Vicente por onde hoje é a Avenida Nossa de Fátima: “Em um dos desvios, o bonde que eu dirigia ficou frente a frente com outro, com os para-choques colados. Tivemos que dar ré com muita habilidade”.

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Nos velhos carnavais santista, os bondes desfilavam repletos de foliões fantasiados, conforme relembra Jessé: “Era uma beleza, todo mundo brincava, cantava, se divertia e o bonde era enfeitado, quase como um carro alegórico”. Ele ressalta que está sempre pesquisando informações, porque os turistas perguntam muito: “Querem saber quantos bondes Santos tinha, por onde eles passavam e diversos outros detalhes. Por isso, temos de estar sempre bem informados para responder”.

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DEPOIMENTOS

Engenheiro Bernardo Stille Neto, consultor ferroviário: “Santos conseguiu algo que é raro no Brasil: criar um programa de revitalização com continuidade, que acabou por extrapolar a proposta inicial e ganhar uma dimensão muito maior. Tanto que a cidade é hoje uma referência no assunto bonde para todo o Brasil e até para outros países. Fico feliz de ter participado desse projeto. Eu trabalhava no final da década de 90 na CTC (Companhia de Transportes Coletivos) do Rio de Janeiro, coordenando o serviço de bondes do bairro de Santa Tereza. Realizamos lá um projeto de revitalização com grandes resultados: dos quatro veículos que rodavam, ampliamos para 14. O sistema atraía turistas do mundo todo. Até que fui procurado pela CET de Santos para a parceria técnica visando recuperar o primeiro bonde e implantar a linha no Centro. Meu envolvimento com o que aconteceu em Santos continuou mesmo depois de eu ter saído da CTC. Afinal, já estava apaixonado pelo projeto, e acabei ajudando nos contatos com as cidades europeias que doadaram os demais bondes. Preparei o termo de referência e o estudo técnico do projeto de ampliação da linha. Sempre gostei deste tipo de desafio, e até o meu pai, Geraldo Stille, que também é engenheiro, assessorou o projeto quanto à confecção de algumas peças para os trilhos. E fico feliz em ver os resultados”.

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Jornalista e empresário Luiz Dias Guimarães, ex-secretário de Turismo de Santos e presidente do Santos e Região Convention Visitors Bureau: “Sinto que a volta do bonde resgatou um elo perdido de Santos, uma cidade com muita história, que nas últimas sete décadas estava perdendo aos poucos sua identidade. O término do ciclo do café, a instalação de indústrias em Cubatão, a expansão do porto mudaram muito as características locais. Recebemos um fluxo migratório intenso, representado pelos milhares de pessoas vindas do Norte e Nordeste para trabalhar aqui, que se tornaram os novos santistas. Os bondes, tão queridos pela população, foram desativados, e a identidade local ficou escondida em meio a essa mescla de moradores que desconheciam a história de glórias de Santos e não tinham vinculação maior com as raízes e o passado da cidade. De repente, o bonde serviu para mostrar a todos os santistas um passado bonito, e também apontou para as grandes possibilidades do turismo na área central. Ele representou o elo perdido que resgatou a identidade autêntica santista. Os santistas antigos, que adoravam o serviço extinto em 1971, ficaram com a moral elevada. Os novos tiveram a oportunidade de conhecer essa identidade e se encantaram com ela. Hoje, todos santistas são apaixonados pelos bondes. Importante é que foi uma ideia que saiu do papel graças a determinação política do governo Beto Mansur e agora de João Paulo Papa, que era presidente da CET. Na época, tudo parecia utopia. Mas o projeto vingou, e a história de Santos efetivamente mudou a partir da reativação dos bondes.”

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Cristina Pimentel, diretora do Museu do Carro Eléctrico do Porto: “Em 2004 a Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (STCP, SA), através do Museu do Carro Eléctrico, deu início a um processo de desafetação de nove carros elétricos históricos, que se encontravam desativados e sem conservação. Era nossa intenção doar os veículos a museus para exposição, para que os nossos veículos fossem restaurados e preservados, mantendo as características originais. Consideramos que deveríamos, numa primeira fase, privilegiar o contato com museus de todo o mundo. A maioria dos museus dedicados ao carro eléctrico ou que possuem coleções significativas de carros eléctricos históricos, mantém os veículos em operação, conferindo-lhes o dinamismo que lhes é inerente e que faz parte integrante da sua história. Quando fomos contatados pela cidade de Santos sobre o projeto de expansão da sua rede de carros elétricos, apercebemo-nos de uma realidade que combinava tudo o que desejávamos para os veículos que estavam em processo de desafetação. Restauro minucioso e cuidado, mantendo as características originais de cada carro, operação regular conferindo aos veículos visibilidade, inserção numa comunidade e numa malha urbana de grande valor patrimonial contribuindo decisivamente para a sua requalificação. Melhor “museu vivo” não poderíamos desejar! O entusiasmo que sentimos e a confiança que nos foi transmitida desde os primeiros contatos com a Prefeitura de Santos foram determinantes no desenrolar do processo de doação dos três carros eléctricos, que outrora fizeram parte integrante da cidade do Porto e que hoje contribuem decisivamente para a requalificação do Centro Histórico de Santos. Mais do que os laços de amizade que se criaram ao longo destes últimos anos, a doação dos carros elétricos que outrora fizeram parte integrante da nossa história à cidade de Santos constitui para nós um motivo de enorme orgulho”.

Ex-prefeito de Santos, Beto Mansur “Eu e meus irmãos andamos muito de bonde quando crianças, pois morávamos em São Vicente e estudávamos em Santos. E a maior parte da população com mais de 50 anos de idade também lembra muito bem da época em que os bondes eram o principal meio de transporte na cidade. Quando assumimos a Prefeitura, a intenção de trazer o bonde de volta como um atrativo turístico surgiu, foi levada adiante pelo Papa e o Luiz Guimarães e acabou envolvendo toda a equipe da administração municipal. A proposta prosperou, envolveu também os antigos motorneiros, por meio do Programa Vovô Sabe Tudo, e as coisas aconteceram. Meu sentimento pessoal foi e ainda é de muita satisfação cada vez que vejo o bonde. Afinal, o administrador público tem a responsabilidade de usar bem os recursos e também de preservar as memórias e raízes da população. Santos sempre foi reconhecida como uma cidade de vanguarda, e também mostrou que quando a vontade política se une ao desejo da sociedade é possível resgatar a História.”


DEPOIMENTOS

Giancarlo Guiati - presidente do Gruppo Torinese Trasporti (GTT) “Como a segunda maior linha de bondes elétricos na Itália e uma das maiores na Europa, com 220 quilômetros de trilhos, Turim é uma cidade que ama os seus bondes. Realmente, eles ocupam um importante lugar dentro da herança cultural da cidade. Portanto, foi um prazer saber que a cidade de Santos possuía um projeto similar ao nosso, planejando ter uma linha regular de bondes vintage, composta de veículos restaurados, provenientes de todas as partes do mundo. Esta foi a razão que nos motivou a cooperar com a Prefeitura de Santos nesta operação: dois de nossos antigos bondes enviados para a América do Sul. O primeiro, nº 3265, é um veículo duplo, enquanto que o segundo, carro nº 2840, é um veículo triplo, articulado, ambos construídos pela FIAT em Turim, ao final dos anos 50, e que permaneceram em serviço regular por mais de 40 anos. Eles efetivamente representam os típicos bondes de Turim. Após longo processo administrativo e uma longa viagem, em fevereiro de 2009 os dois bondes puderam finalmente chegar a Santos. Nós ficamos muito contentes em saber que as operações de transporte foram exitosas e que a população de Santos acolheu-os tão calorosamente. Agora, é um prazer ver um deles já restaurado e em operação nas ruas de Santos. Iniciamos uma grande forma de cooperação entre nossas duas cidades.” PREFEITURA DE SANTOS

Empresário Geraldo Pierotti “Em 2005, quando os bondes doados pela cidade do Porto, em Portugal, já estavam disponíveis para serem enviados para Santos, fui procurado pelo amigo e prefeito João Paulo Tavares Papa, que me convidou para fazer parte de um grupo de cidadãos que estava sendo aglutinado para viabilizar o transporte dos veículos até Santos. Solicitou-me, também, que tentasse sensibilizar outros empresários a se engajarem nesse grupo. Muito honrado com o convite, aceitei imediatamente e arregacei as mangas para dar minha contribuição na consecução do objetivo do grupo. Por meio do amigo José Roque, da Aliança/Hamburg-Sud, consegui engajar a empresa no nosso movimento, para, ao final, transportar os bondes, de Portugal para Santos. Sob a liderança do nosso prefeito, o grupo se reuniu algumas vezes para levantar os recursos operacionais e financeiros necessários ao referido transporte. Dele faziam parte, entre outros, Roberto Clemente Santini, diretor do Grupo A Tribuna; Celso Grecco, presidente do Grupo Rodrimar; José Antonio Balau, diretor da Aliança/Hamburg Sud; João Maria Menano, presidente do Grupo Alemoa, e Roberto Mehanna Kamis, advogado. Do esforço concentrado desse seleto grupo de pessoas amantes de Santos e comprometidas com os objetivos maiores de nossa querida cidade, foi, em curto espaço de tempo, viabilizada a apeação dos bondes, transporte terrestre do Porto para Leixões, transporte marítimo de Portugal para Santos, despacho a aduaneiro para a sua descarga e, finalmente, desembarque e entrega festiva e solene, em 20 de setembro de 2005, para a nossa cidade. Hoje, quando vejo circulando os bondes que ajudei a trazer, e constato o sucesso que é o Museu Vivo representado pelo sistema de Bondes Turísticos de Santos, e sua repercussão internacional, sinto, como filho e empresário desta abençoada cidade, a felicidade de ter tido a oportunidade de participar de seu crescimento e implantação, e o orgulho de deixar para meus filhos e netos este exemplo de cidadania e amor por nossa Santos.“

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João Maria Menano, diretor da empresa santista Alemoa S.A. e representante das companhias portuguesas Orey Antunes e Hotel Meliá Palácio de Lousã “Conversando em 2005 com o prefeito João Paulo Papa ele me contou sobre a ideia do Museu Vivo do Bonde e a ampliação da extensão da linha turística. Disse ainda que havia conseguido a doação dos bondes da cidade do Porto, e que, apesar de já terem o compromisso da Aliança Navegação para o transporte marítimo e da Rodrimar para o desembaraço aduaneiro e cessão do terminal portuário e transporte aqui em Santos, ainda buscava os provedores logísticos em Portugal. Conversei então com a Sociedade Comercial Orey Antunes, da qual faço parte no conselho na filial financeira no Brasil, a qual prontamente se encarregou de ajudar no trâmite burocrático e operacional, desde o carregamento no Porto, até o embarque no navio em Lisboa. Quando o prefeito e equipe foram a Portugal para assinar o termo de doação, convidamos para conhecer o Hotel Meliá Palácio da Lousã, no qual a nossa empresa tem participação. Apresentei-os ao meu primo santista Lourenço Mexia Santos, que atualmente dirige o hotel, e aos diretores da Orey em Portugal, Rui d´Orey e Duarte d´Orey, que então se atualizaram sobre tudo o que precisaria ser feito para viabilizar o embarque dos bondes. Consegui que a Orey, a Aliança e a Rodrimar tratassem da documentação para que os trâmites burocráticos não atrasassem o processo, que envolveu o transporte especial em carretas rebaixadas desde a cidade do Porto até o terminal de embarque e a locação de guindastes. As empresas Alemoa S.A., Orey e o Hotel Meliá da Lousã, com o apoio ainda do Geraldo Pierotti e do Roberto Mehanna Khamis, financiaram todos estes custos de transporte e de logística. Tenho certeza que a ideia do Museu Vivo caminhou mais alguns passos com a chegada de novos bondes vindos da Itália e com o percurso aumentado, e já se nota o sucesso do sonho do prefeito e do Luiz Guimarães não só pelo aspecto turístico como também pela importante revitalização imobiliária que os bondes e o Alegra Centro já causaram na região central da cidade de Santos.

Todos a quem representei neste projeto (Orey , Alemoa e Hotel Palácio da Lousã) se sentiram muito gratificados em colaborar, estando sempre dispostos a ajudar e alavancar a cidade quando idéias e projetos como este forem implementados em Santos. Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo “Tramas da Cidade - Seu motorneiro, toca o bonde, toca o bonde. O meu amor está esperando por mim” - Alvarenga, Herivelto Martins e Ranchinho : Separo as camadas da rua. Os sulcos dos trilhos insistem em percorrer o Centro, por entre caminhos que o processo de transformação urbana tornou distante. O comércio, o trabalho e a casa se espaçaram em muito. Para alcançá-los o bonde surgiu enredando lugar e desejos. Da praça à palavra, o povo o adotou: “lá vai o camarão, o Gilda ou o caradura...”, o bonde foi tema de tantas marchinhas e histórias de Machado de Assis, Cornélio Pires e Nelson Rodrigues. Como cronistas de uma época, os bondes retornam agora, enquanto possibilidades. Não de se deter o tempo. antes, de se dar o tempo à paisagem urbana. Vínculo das tecnologias extraordinárias criadas em fins do século 19, seus vagões permanecem a brincar com a percepções da cidade que o Sesc São Paulo se orgulha de integrar. A instituição, que preservou durante muitos anos um antigo modelo no Sesc Bertioga que percorria o trajeto Centro-Santos Amaro em São Paulo, contribui para o processo de preservação do patrimônio da história de Santos, ao doá-lo para o acervo dos bondes elétricos. O Sesc São Paulo reafirma assim seu compromisso com a instância pública, e, por meio de seus centros culturais, oferece o sentido do bem-estar humano. Valores atemporais, como os bondes e seus trilhos que, com distinção e altivez, resistem levando seus passageiros a percorrer as tramas da história”.


DEPOIMENTOS

Empresários Roberto Clemente Santini, diretor-presidente da TV Tribuna, e Marcos Clemente Santini, diretor-presidente do jornal A Tribuna - Sistema A Tribuna de Comunicação “Resgatar a história de um município, seja por seus personagens, monumentos ou tradições, é sempre uma boa oportunidade para compreendê-lo melhor e estreitar os laços de afinidade que já existem. Em Santos, a volta dos antigos bondes aos trilhos do Centro Histórico despertou em todos um capítulo da história que já vinha se apagando da memória até mesmo dos mais velhos. Uma feliz iniciativa da administração municipal que logo ganhou destaque nacional e internacional. Passear de bonde pelas ruas do Centro traz boas lembranças de um tempo que muitos não viveram, mas têm agora a oportunidade de, ao menos, experimentar”.

Elber Alves Justo, diretor-presidente do Grupo MSC – Mediterranean Shipping Companyl “A participação da MSC na chegada dos bondes em Santos tem uma grande importância, pois a empresa acredita que o turismo local será ainda mais valorizado e a cidade, já tão conhecida internacionalmente, terá ainda mais prestígio. A MSC, multinacional de origem italiana, terá um apreço mais do que especial por estes bondes, pois foram transportados de Turim, na Itália, para Santos, no Brasil, em um de nossos navios, o MSC Carolina. Com esta parceria, temos a certeza de que contribuímos para inovar o turismo da cidade”.

PREFEITURA DE SANTOS

Rogério Crantschaninov, diretor-presidente da CET-Santos. “Devido ao acompanhamento desse minucioso trabalho, passei a dar ainda mais importância aos assuntos que envolvem o resgate da história. Tive a oportunidade de ver todo o processo de restauração de dois bondes portugueses, um italiano e outro que pertenceu à frota santista entre 1912 e 1971. Através do restauro de cada peça é possível fazer uma associação com a época em que eles estavam em circulação, e também com as tecnologais que eram utilizadas na cidade e no país. Os exemplares de bondes que temos no acervo circularam em períodos e locais diferentes e, por meio deles, podemos voltar no tempo, resgatar uma história e recontála, de forma viva, aos mais jovens”.

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Flavio Eduardo Rodrigues, diretor operacional da Rodrimar Nós, do Grupo Rodrimar, por sermos uma empresa genuinamente santista, nos sentimos honrados em apoiar e colaborar com a Prefeitura de Santos no recebimento dos bondes portugueses e italianos que hoje integram a Linha Turística do Centro Histórico. Com a responsabilidade de reformar e preservar as características históricas, a Prefeitura recebeu, em setembro de 2005, três bondes portugueses doados pelo Museu do Carro Elétrico da Cidade do Porto. Nesta ocasião, realizamos toda a operação para a importação dos bondes, incluindo o competente desembaraço aduaneiro e as anuências do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Em fevereiro de 2009, realizamos também a operação para a importação dos dois bondes italianos sendo um deles articulado doados pelo GTT (Gruppo Torinese Transporti), da cidade de Turim. Nossa participação foi desde o embarque na Itália até o desembarque no Porto de Santos, com o cumprimento também de todas as formalidades legais. Os bondes portugueses e italianos foram recebidos em cerimônias oficiais da Prefeitura em nosso Terminal Portuário de Contêineres do Saboó. Agradecemos mais uma vez à Prefeitura de Santos pela oportunidade de participamos desses projetos, que certamente contribuíram para o desenvolvimento econômico da cidade, além do resgate do patrimônio histórico e fomentação do turismo.

Marcos Rogerio Gonçalves Nascimento - Engenheiro eletricista Muitas pessoas buscam a realização profissional e não a encontram. A minha com certeza veio de um “sim”, dito há 12 anos, que transformou a minha vida e influenciou outras tantas. A resposta mudaria meu destino profissional e teria um impacto muito grande na vida pessoal. A pergunta partiu do prefeito João Paulo, na época presidente da CET: será que eu e a equipe da empresa conseguiríamos restaurar o bonde aberto 32 para colocá-lo em funcionamento novamente? Lembro-me que respondi rapidamente sim, impulso motivado principalmente pela ideia de participar de um projeto de engenharia único no país. A verdade é que a partir daquele momento o desafio começou a fazer parte do meu cotidiano, dentro e fora do serviço. Trabalhar com estes equipamentos não só me proporcionou conhecimento, como agregou valores pessoais e acesso a culturas que dificilmente eu me interessaria. É uma honra participar deste projeto, sinto-me privilegiado em poder ajudar a construir algo para a cidade e principalmente para as gerações futuras, que poderão partilhar de algo maravilhoso, como nós partilhamos hoje.


DEPOIMENTOS

Escritora Edith Pires Gonçalves Dias, diretora da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto “Conheci os bondes antes da Avenida Bartolomeu de Gusmão ser pavimentada. Muitas amizades nasceram no bonde. A atenção que os funcionários tinham com os passageiros era maravilhosa. Era um transporte tão limpo, tão seguro, que todos adoravam. Os bondes fizeram parte da vida da cidade durante muito tempo, e deixaram marcas inesquecíveis. Confesso que chorei muito quando o serviço foi desativado, como muitas outras pessoas. Já tínhamos perdido a autonomia, e acabar com os bondes daquela maneira, destruindo quase todos à machadada, era muito triste. Jamais pensei que fossem desaparecer. Quando o Centro voltou a contar com a Linha Turística, foi como reviver o passado. Mais do que tudo, ter o sistema operando novamente é uma demonstração de respeito pela história de Santos”.

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Secundino Duarte Perez, ex-condutor de bondes, contribuiu como memória viva na reativação do sistema “A primeira vez que ouvi falar sobre a volta dos bondes no Centro senti que o meu sangue ferveu, tanta foi a emoção e a alegria. E hoje, ao ver vários circulando, a linha ampliada, fico cada vez mais realizado em saber que participei também deste trabalho. Esta minha paixão pelos bondes passei para um dos meus filhos e também um neto de oito anos. E esta paixão começou cedo na minha vida. Quando tinha 19 anos, em 1959, fiquei sabendo que a SMTC estava contratando para trabalhar nos bondes. Minha vontade era ser motorneiro, mas não tinha idade suficiente, era preciso ser maior de 21 anos. De um grupo de 30 que fizeram o teste para a admissão, dez foram selecionados, e eu fui um deles. Era preciso ser bom de contas, porque era o condutor que recebia e fazia o troco. E também precisava conhecer muito bem a cidade, o nome dos locais mais importantes e das ruas onde os bondes passavam. Isso porque, quando o passageiro entrava no bonde, pedia para ser avisado no momento em que estivéssemos perto do ponto do lugar onde ele queria descer. Para recuperar o primeiro bonde, fomos atrás do que restava da frota, que no passado era muito grande. Pegamos a carroceria do que estava no Orquidário, o motor do que estava na Praça das Bandeiras, e após muito trabalho, a vitória: um bonde circulando novamente na cidade! Depois, outros foram recuperados, e hoje é uma alegria vê-los transportando os turistas”.

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DEPOIMENTOS

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Julian Thomas, diretor-superintendente da Aliança Navegação e Logística “Foi muito gratificante para a Aliança Navegação e Logística ter contribuído para a revitalização do turismo da cidade de Santos. Para a empresa, é importante colaborar com a preservação da história dos bondes que, em circulação, cooperam ainda mais para o crescimento do potencial turístico regional. Os bondes fazem parte da modernidade histórica da Baixada Santista, gerando o desenvolvimento e a integração da cidade. Além disso, o Porto de Santos é o principal canal de movimentação das mercadorias embarcadas e desembarcadas pela Aliança no Brasil, servindo de importante elo comercial brasileiro com o comércio internacional”. Historiador Waldir Rueda* “Qualquer cidade do mundo gostaria de ter um Museu Vivo de Bondes, como o de Santos. É uma proposta diferente, na qual os exemplares do acervo circulam pelas ruas do Centro Histórico, levando informação às pessoas que passeiam nos veículos, e até para as que apenas apreciam a sua passagem. A proposta de reativar os bondes na cidade foi muito corajosa, e a ousadia foi maior ainda ao realizar a ampliação da linha e ao trazer outras unidades antigas de diversos países. O fato é que tudo o que aconteceu aqui deu certo, e se tornou um exemplo de investimento turístico eficiente, que serve de exemplo para o mundo. E a população santista gostou tanto de ver resgatado o serviço de bondes, que jamais admitiria ver o sistema desativado.”

*In memorian - depoimento colhido em 2009

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Empresário Eduardo Carvalhaes Júnior, ex-presidente da Associação Centro Vivo “A desativação do sistema de bondes em Santos aconteceu numa época em que a população estava perdendo muita coisa importante. Considero o fim deste tipo de transporte tão querido pela população mais significativo até que a demolição do Parque Balneário. Ambos funcionavam como importantes referências para a toda a cidade. O que aconteceu após a volta do bonde ao Centro, e mais recentemente com a ampliação da linha e a vinda dos exemplares de outros países e cidades para o Museu Vivo, foi como o resgate de uma dívida com a população. Mais ainda, se tornou uma atração turística de destaque no país todo e até no exterior. E o mais interessante: o passeio no bonde não é um cenário falso, pré-fabricado para agradar o turista, e sim um retrato real de um serviço que foi realmente importante para o desenvolvimento da cidade, o qual permite conhecer mais sobre o Centro. As pessoas acabam se encantando e pressionando para que este ou aquele local seja restaurado, num processo que compõe uma espécie de círculo virtuoso muito saudável para a cidade. A linha ampliada do bonde representa ainda a possibilidade de uso como transporte público elétrico, que também está mantido na linha remanescente de trólebus. Tanto os bondes quanto os trólebus são exemplos de sistemas de qualidade não poluentes, como deverá ser o VLT.


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CIDADE CELEBRA SEUS BONDES

Cidade presta homenagem às conquistas do Santos F.C.

lembrados com muitas comemorações em abril de 2009, com a Prefeitura entregando o primeiro trecho do trajeto ampliado da Linha Turística. A chegada dos bondes doados pela cidade do Porto foi também muito comemorada, em setembro de 2005. Recuperados nas cores e características originais, dois exemplares circulam na Linha, reforçando os laços de amizade entre Santos e Portugal. A alegria que tomou conta da cidade pelas conquistas do Santos Futebol Clube inspirou uma homenagem inédita: o exemplar ‘camarão’ ganhou novo visual em julho de 2.011, estampando as cores do time e mantendo uma exposição interna sobre fatos marcantes da trajetória santista. Outro exemplo de sucesso é o projeto Música no Bonde, que promove aos domingos apresentações para os passageiros, com patrocínio do restaurantes Quinta da XV e Cais do Ribeira.

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esde que se reencontrou com os seus bondes, a cidade de Santos tem registrado com muita festa cada conquista relacionada ao tema. Em 7 de maio de 2011, a Linha Turística do Centro Histórico comemorou 1 milhão de passageiros. Exemplares restaurados que compõem o Museu Vivo do Bonde percorreram o Centro, acompanhados por automóveis antigos, num colorido e alegre cortejo. Foi a estreia do bonde escocês nº 38, doado pela Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, que já havia rodado na cidade em linhas regulares, e agora reforça o acervo santista. Quando o primeiro exemplar restaurado vindo de Turim começou a circular na linha, em 23 de setembro de 2010, uma grande festa defronte à Estação do Valongo emocionou santistas e representantes da comunidade italiana. Os 100 anos do início da circulação dos veículos elétricos foram

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CIDADE CELEBRA SEUS BONDES

SERVIÇO

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Desfile celebrou um milhão de passageiros

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Funcionamento: terça-feira a domingo, inclusive feriados e pontos facultativos Horário: das 11 às 17 horas. Duração do passeio: aproximadamente 30 minutos Agendamento de grupos: telefone 3201-8000 (Secretaria Municipal de Turismo) Disk Tour: 0800 173 887


CIDADE CELEBRA SEUS BONDES

REFERÊNCIAS PESQUISADAS

Livros: “Transporte Coletivo de Santos - história e regeneração” - Ricardo Evaristo dos Santos e Paulo Matos “Cartilha da História de Santos” - Olao Rodrigues “História do Transporte Urbano no Brasil” – Waldemar Corrêa Stiel “História dos Transportes Coletivos em São Paulo” - Waldemar Corrêa Stiel “Esculturas Urbanas” - Maria Inah Rangel e Rosângela Menezes “Caminhos da Memória” - Rosângela Menezes

Acervos de jornais, revistas, fotos e documentos: Fundação Arquivo e Memória de Santos Hemeroteca Municipal “Roldão Mendes Rosa” Jornal “A Tribuna” Instituto Histórico e Geográfico de Santos Diário Oficial de Santos - Secretaria de Comunicação Social de Santos Coleção do jornalista Carlos Pimentel Mendes Coleção do historiador Paulo Monteiro Coleção do jornalista Allen Morrison Coleção do engenheiro Manoel Picado Coleção do engenheiro Marcos Rogério Nascimento

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Sites: www.novomilenio.inf.br www.tramz.com www.tramditorino.it

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Claro, Luciana Reda Santos e seu Museu Vivo de Bondes - o reencontro da cidade com uma antiga paixão / Luciana Reda Claro. São Carlos : Instituto Cultural de Artes Cênicas do Estado de São Paulo, 2011. 160 p.

ISBN 978-85-61623-04-3

CDD 338.4132209816

Índice para Catálogo Sistemático 1. Santos (Munícipio) - Bondes

IPSIS


Santos e seu Museu Vivo de Bondes  
Santos e seu Museu Vivo de Bondes  

Livro que conta a maravilhosa trajetória dos bondes de Santos.

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