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Erguida no meio da selva amazônica, a cidade de ForcUândia deveria fornecer látex para o império de Henry Ford. Um historiador americano revela por que essa vila ideal foi um grande fracasso. LEONARDO COUTlNHO

inicio do século passado, o americano Henry Ford (l8631947) era o homem mais rico do planeta. Verdadeiro gênio empresarial, ele reínvenrou o auromovel, produzindo em série o famoso Modelo T, que chegou a responder por quase metade de todos os carros vendidos no mundo. Mas Ford não esrava satisfeito. Desejava independênciacompleta em relação a fornecedores. As operações de suas empresas iam das matérias-primas até o produto acabado, e o único ínsumo de que ele não tinha controle era o 1átex, do qual era feita a borracha. Para produzí-Io, Ford embarcou,

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na década de 20, em uma malograda aventura brasileira: a fundação de uma cidade, na Amazônia, orientada por seus ideais deeticíência e moral- uma espécie de vila utópica capitalista. Esse empreendimento doidivanas é reconstiruído magistralmente em Forâlãndia (tradução de Nivaldo Montingelli Jr.; Rocco; 400 páginas; 56 reais), do americano Greg Grandin. Professor de história da Universidade de Nova York, Grandin relata com exatidão e rigor todos os passos que Ievaram Ford - que nunca pisou no Brasil - a acreditar na lorota amazônica. Em 1925, o magnata recebeu na sede de suá empresa um enviado do consulado brasileiro em Nova York para lhe apresentar

as vantagens de produzir borracha no Brasil. A noticia do encontro entusiasmou uma borda de oportunistas na Amazônia. O então governador do Pará, Dionysio Bentes, anunciou que ofereceria terras gratuitamente a quem se dispusesse a cultivar seringueiras. O pronunciamento atiçou a cobiça de um lobista, Jorge Dumont Villares, sobrinho de Santos Dumom. Segundo Grandín, Villares valeu-se da propina para obter do governador paraense a concessão de terras no oeste do estado. Quando os emissários de Ford chegaram ao Brasil, Villares os convenceu - mediante uma módica comissão de 18000 dólares - a trazer o investimento para o Pará. . Em 1927, Ford pagou a Villares 125000 dólares por 5000 quilômetros quadrados e ainda obteve área equivalente de doação dos paraenses. Começava então a construção de Fordlândia, nas margens do Rio Tapajós, a mais de I 000 quilômetros de Belem. Para além


SELVA INDOMÁVEL Algumas das instalações que sobraram em Fordlãndia (à esq.) e os seringais (acima) plantados sem conhecimento botânico: apesar de <

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apenas a dieta ditada pela empresa: pêsdo objetivo econômico imediato - a segos em calda vindos de Míchigan, produção de borracha-, Fordsonhava em fundar uma sociedade moralmente aveia, pão e arroz integrais. Ford abomisaudável, livre das figuras que ele abonava a vaca, animal que considerava minava nos Estados Unidos: políticos, economicamente íneficiente. Por conta banqueiros e sindicalistas. E também dessa idiossincrasia, o leite era proibido em Fordlândia, No seu lugar, bebia-se sem judeus: o empresário era um antíssemita paranoico. um preparado à base de soja. A realidade tropical, porém, não coEm 1930, uma briga na porta do relaborou. Fordlãndia, nos seus primeiros feitório evoluiu para uma revolta, que tempos, foi um inferno sanitário, com forçou o envio de tropas de Belém. epidemias de malaría.. lixo empilhado Instalações da empresa foram depredadas e tiveram de ser reconsrruídas. pelo chão e comida estragada servida aos trabalhadores ~ condições precáPassados cinco anos de sua fundação, Fordlândia entrou em uma norias que inflamavam rebeliões. va fase. Um novo gerente foi . Ford então -derermínou regras ~::-""""'':''-''-'''''enviado para a área, o qual rigorosas. Seus gerentes decretaram lei seca, demoliram os contratou novos trabalhadores e aliviou as regras mais bordéis das vizinhanças e pasabsurdas de Ford. A cidade no saram a obrigar os empregados - todos ríbeírinhos que viviam meio da seiva passou a oferesem nenhum compromisso com cer confortos inéditos - e ganhou um esdrúxulo visual ameo tempo - a bater relógio de ponto, usar uniforme e comer ricano. Ergueram-se casas de

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madeira, no modelo típico do MeioOeste dos Estados Unidos, para abrigar os trabalhadores e suas famílias. Essas residências tinham luz elétrica, telefone, máquina de lavar e refrigerador. A água corrente era bombeada do rio e depois filtrada e clorada. Um salão de dança - onde também funcionava o cinema -, duas piscinas e um campo de golfe de dezoito buracos foram COTIStruídos para entreter os mais de 5000 habitantes. Cinco escolas atendiam os filhos dos empregados. As calçadas tinham hidrantes vermelhos. A produção, porém, decepcionava. Ford enviou para a Amazônia administradores dispostos a transformar o lugar, mas faltavam técnicos com conhecimento de botânica. Seus emissários plantaram milhões de mudas de seringueira, que logo se tornaram alvo de pragas: tratada como monocultura extensiva, essa espécie silvestre se toma altamente vulnerável (as plantações veja

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Livros britânicas no Sudeste Asiático se mantínnam saudáveis porque' as pragas que gostam de seringueiras são, como elas próprias, eudemícas da Amazônia). Grandin relata

CIVILIZAÇÃO PRECÁRIA Alunos de uma escola em Belterra; a segunda cidade erguida por Ford: modelo americano nos trâpicos

eventos em que centenas de homens eram escalados para catar com as mãos lagartas, que depois eramqueimadas em gigantescas fogueiras. Pior do que os insetos foi o ataque de um fungo que consumia as folhas das árvores. Em 1936: Ford decidiu transferir partede suas operações para. outra cidade-modelo, Belterra, cerca de 100 quilômetros ao norte de Fordlândia - o local chegou a ser visitado por Walt Disney e Getúlio Vargas. Mas os mesmos erros foram repetídos. Em 1941, as pragas afetavam mais de 70% do seringal de Belterra. Naquele ano, a produção total de látex foi de

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0001 - capitais 729 0001 - demais localidades 729 0722 -$AC 729 5678 - Ouvidoria BB 729 0088 - para deficientes auditivos

apenas 750 toneladas, menos de 4% do consumido pelas empresas do grupo. Ford não conseguiu civilizar a floresta. Em 1945,já senil. foi convencido pela mulher a entregar o comando das empresas ao neto Henry Ford lI. Apesar de o império Ford já ter enterrado 20 milhões de dólares na Amazônia e possuir terras avaliadas em mais de 8 milhões (soma que em valores atuais superaria os 300 milhões), seu novo presidente as "vendeu" ao governo brasileiro por

ou acesse o site

bb.com.br/wu

~ 244 200 dólares a ~ soma exata das Indení~ zações trabalhistas de~ vidas. Passados 65 ~ anos, a caíxa-d' água . .~,-,-._..-..•..•8 (vazia), as casas e algumas instalações testemunham o 'malogro de Fordlândia. Não existem mais redes de esgoto e água, os hidrantes secaram, as escolas estão emruinas. O campo de golfe virou pasto de gado, com milhares dos animais odiados por Ford dominando a paisagem. Muitas pessoas, inclusive antigos funcionários, ainda vivem nas casas erguidas a mando de Ford - como se a região vivesse na.latência entre o sonho americano e o pesadelo do abandono na selva. ' •


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