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PESQUISA

Pinta a árvore sagrada em nosso quase deserto Reportagem de Sérgio Coelho/Fotos de Rafael Novaes

Regina ficou emocionada ao ver que Moisés, em fuga pelo deserto de Madian, consegue sobreviver se alimentando só de tâmaras. Foi o pedaço do filme - Os dez mandamentos - que ela mais curtiu, mais ainda do que o mar se dividindo em dois para a passagem do povo perseguido. A razão é simples: Regina está pesquisando a tamareira com um objetivo quase missionário também - criar uma saída econômica para os solos áridos e salinizados no Nordeste. Se a tamareira cresce no deserto, às margens de rios e nos oásis e é chamada pelos árabes de "árvore sagrada da vida", quem sabe terá o mesmo significado para os nordestinos, no chão quase desértico do Vale do 'São Francisco? Havia outra razão para Regina Ferro de Mello Nunes estar eufórica. Pesquisadora do Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semi-Árido (CPATSA), da Embrapa-Pernambuco, ela estava terminando a avaliação da primeira safra de tâmaras do campo experimental de Bebedouro, em Petrolina, PE, na mesma época em que a TV exibiu Os dez mandamentos. E encontrou resultados surpreendentes: as plantas haviam produzido, em média, de sete a oito cachos de 5 quilos, o que dá 40 quilos por pé. Uma produção que empata com a das tamareiras dos principais centros produtoresda África e Ásia, e bate as americanas da Ca10

Uma pesquisadora de Pemambuco está abrindo o veio de um possível tesouro para a região do Nordeste: a tamareira, que nos testes superou as melhores do mundo.

lifórnia. Isso apenas na comparação direta, porque na geral a vantagem nordestina é muito maior: as tamareiras de outras regiões têm apenas uma safra por ano, no verão, enquanto a nossa já está com a segunda produção em andamento e deve chegar à terceira, somando uma produção anual de 100 quilos por pé! E a qualidade, dona Regina? - Os laboratórios de análise já deram o parecer: a tâmara do Nordeste tem as mesmas propriedades e a mesma qualidade das importadas. Querendo provar, é só ir ao campo experimental. Com os cuidados de quem está revelando um tesouro, Regina - os pés afundando na areia irrigada - vai mostrando os cachos (panículas) enormes e carregados de frutos, pendendo pesados até roçar o chão. São amarelos e roxos, duas variedades diferentes, e todas as vinte tamareiras, pequenas ainda, aí pelos 3 metros de altura, estão carregadas e sadias. Nota-se que uma ou outra não têm fruto nenhum, e Regina explica rápido: são as plantas macho, produzem apenas a flor. O entusiasmo da pesquisadora da Embrapa é contagiante porque os resultados desses dois anos de experiência - ela começou em 1983 - são extraordinários: - Os consultores técnicos americanos e egípcios que têm visitado nosso [>


Um.pé de Bebedouro produz igual a um d.aÁfrica ou Ásia e ganha do americano. Só que dá três safras por ano e os outros uma só ...

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Tamareira quer "sol na cabeça e água nos pés" campo garantem que na África a tamareira produz aos oito anos de idade; na Califórnia, aos quatro anos; e a nossa levou apenas, e exatamente, dois anos e quatro meses para produzir. Mais: - Segundo os livros, a semente da tâmara permanece um ano em viveiro para germinar e ganhar raízes que permitam o transplante para o campo. Pois aqui em Petrolina levou apenas três meses para atingir esse ponto. Otimistas, justificadamente, com o primeiro teste experimental, os técnicos da CPATSA já preparam o próximo, usando agora o processo de propagação vegetativa - rebentos - e não sementes, como no outro. A expectativa é ainda maior, pois o método dos rebentos é ideal para manter as qualidades da planta-mãe e frutifica mais precocemente. São trezentos rebentos; desses, duzentos importados da Califórnia e cem do próprio campo experimental. Serão testadas dez variedades, seis das mais importantes do mundo e as quatro que alcançaram melhor rendimento no campo de Bebedouro. Regina teve o estalo da tamareira numa das muitas viagens por cidades de Pernambuco e Paraíba, quando sempre via grupos esparsos da planta carregados de frutos durante o ano todo. Então, junto com os outros técnicos do ePA TSA, passou a estudar o assunto, descobrindo que experiências feitas antes na Paraíba, no Pantanal mato-grossense e no Planalto paulista não haviam vingado. Mesmo assim, decidiu propor o projeto à Embrapa. "Não custa tentar", pensou, já que as condições do Semi-Árido nordestino teoricamente eram favoráveis e as tamareiras que via o ano inteiro nas viagens confirmavam a tese. Com os pés na terra, Regina sonhava dar aos nordestinos a "árvore sagrada da vida", sabendo das mil e uma utilidades daquela palmeira, que dá passas, mel, licor, doce, vinho, aguardente, álcool, levedura, farinha e ge- No campo experimental pernambucano, duas variedades: a amarela e esta, roxa 12


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Um macho e muitas fêmeas

A pesquisadora Regina: em apenas dois anos de trabalho, resultados surpreendentes léia: que é um dos três produtos mais importantes na composição dos expectorantes; que dá palmito, quando podada; cujo caule pode ser utilizado como telha e na fabricação de cestas e cercas; cujos foHolos são transformados em fios e os espinhos aproveitados como agulha de crochê ou alfinete; cuja palha e polpa dão colchão e roupas, ainda sobrando lenha para queimar. Valeu: em 1983, com as sementes da Índia, da África e dos Estados Unidos que estavam estocadas no Centro Nacional de Recursos Genéticos, em Brasília, iniciava-se em Pernambuco o plantio dos primeiros lotes experimentais e se concretizava o primeiro capítulo do sonho de Regina. No futuro, o Nordeste pode se igualar ao Iraque, que com suas 330.000 toneladas anuais é o maior produtor do mundo. Os consultores da FAO (Organização de Alimentação e Agricultura, da ONU), que acompanham a pesquisa da Embrapa em Bebedouro, garantem que o mercado internacional consome o que for produzido. O próprio Brasil é hoje um importador. No último Natal, um pacotinho de 200 gramas de tâmaras secas importadas estava custando 35.000 cruzeiros nos supermercados. - Apenas esta perspectiva econômica, de interesse para o país, justifica o investimento na tamareira, mas existe outra coisa a ser levada em con-

ta: a cultura da tâmara poderá determinar o reaproveitamento de milhares de hectares de terras nordestinas hoje condenadas pelo processo de salinização - diz Regina. Uma expressão usada pelos árabes encerra a receita básica do plantio da tamareira: "Sol na cabeça e água nos pés" .. A planta se desenvolve bem em terrenos arenosos, salgados e salinizáveis, solo úmido (lençol freático alto), atmosfera seca e bastante luminosidade. Essas características - padrão de muitas áreas do Nordeste semi-árido - estão representadas nos 4 hectares do campo de Bebedouro, onde Regina vem realizando sua experiência, com 394 plantas de dezenove variedades, entre elas ahmat, deglet noor, khalasa, thoory, zahidi, medjool, khadrawy e knyr. De pragas e doenças, não surgiu nada que pudesse preocupar, apenas a presença de um fungo nas folhas (Graphiola phoeniciens), que ocasiona uma mancha e é tratado à base de sulfato de cobre. Mas, como ninguém é perfeito, a tamareira tem um problema, que é o terror de quem lida com ela: os espinhos. Eles são como agulhas longas e de pontadas doloridas. As folhas também têm na extremidade pontas perfurantes que exigem bastante cuidado, tanto que é preciso trabalhar com óculos especiais,

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Honrando a tradição árabe, a tâmara exige regime de harém, uma planta macho para dezessete fêmeas. Sem isso não tem conversa, não há produção, já que ela é palmeira de pólinização cruzada (dióica). As sementes devem passar um período nos viveiros - três meses, no caso do Nordeste - até germinar e formar as raízes, quando então são transferidas para o campo. O mesmo tempo no caso da propagação vegetativa, dos rebentos. Os rebentos surgem junto ao caule, perto do solo. Basta vergá-los até o chão e cobri-Ios com terra, até que adquiram raízes, o que acontece entre trinta e sessenta dias. Em seguida, corta-se junto ao caule e eles são .transferidos para os viveiros, onde irão se consolidar. Além de contar com as características naturais exigidas ~ solo arenoso (latossolo vermelho-amarelo no caso do campo de Bebedouro) e sol constante -, os pesquisadores da Embrapa implantaram um sistema de irrigação por sulco de infiltração e, como adubo, uma formulação de NPK e esterco bovino curtido.

Ela possui cinco vitaminas Cada 100 gramas de tâmara têm a sequinte composição: calorias, 316; água, 20 g; hidrato de carbono, 75,40 g; proteína, 2,20 g; gordura, 0,60 g; sais, 1,60 g; vitaminas A, 150UI; B1, 21 mcg; B2, 1.750 mcg; B5, 4 mcg; C, 30 mcg.

Quem quiser semente, corra Pode-se conseguir sementes junto ao Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semi-Árido, da Embrapa (caixa postal23, CEP56300, tel. (081) 961-4411 - Petrolina, PE). Ainda não há disponibilidade de rebentos, que podem ser importados pelos interessados. Vêm da Califórnia e cada muda custava 500.000 cruzeiros em janeiro. A Embrepe' alerta que a disponibilidede de sementes não é grande, em razão de o projeto estar em fase inicial. É plano, porém, conforme o interesse que a cultura despertar, promover o plantio de 50 hectares para a produção de rebentos e sementes.

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Tâmaras - Árvore Sagrada  

Uma pequisa de Pernambuco está abrindo o veio de um possível tesouro para a região do Nordeste: a tamareira, que nos testes superou as melho...

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