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Fotografia ~

SOB NOVO ANGULO o mais extenso

mergulho já feito na obra de Henri Cartier-Bresson traz fotos inéditas que revelam um profissional melódico e aventureiro MARCELO BORTOLOTl

O

francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) tomou-se célebre pelo conjunto de flagrantes da vida urbana que definiram os límítes expressivos do forojomalismo. Um recente levantamento de sua obra, o maior já feito no acervo de 30000 fotos e correspondências sob os cuidados da fundação que leva seu nome, em Paris, desencavou fotos que não captam o momento único, insubstituível e prestes a se desfazer, obsessão do mestre da Leica com objetiva normal que fez do filme Tri-X uma lenda. O livro O Século Moderno (Ed. Cosac Naify, a ser lançado nesta semana) revela essa coleção, inédita, de sessenta fotografias que, se não fossem assinadas, dificilmente seriam atribuídas a Bresson. São paisagens militas vezes ínospnas e até desprovidas de geme, em que ele manifesta uma pretensão artística. Entre as fotos que agora vêm a público, constam também algumas da China em plena revolução (estas, parte de uma coleção já conhecida), em que Bresson deixa patente sua admiração pelá comunismo. A despeito . das barbaridades praticadas pelo regime, ao forografar uma prisão da era Mao Tsé-tung, ele registraria na legenda: "Segundo o diretor; os prisioneiros são reabilitados pelo trabalho e pelo estudo de política nacional e internacional. As celas não são trancadas". Filbo de um industrial francês e membro de uma elite intelectual burguesa, Cartier-Bresson soube tirar proveito de sua profícua rede de contatos para visitar e fotografar locais aos quais a maioria dos repórteres não tinha acesso nem ousaria entrar - um aspecto de sua trajetória que os doeu112118

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ACESSO PRMLEGIADO Bressõii foi o primeiro a registrar o fitnera7 de Gandhi. em 1948:furos de reporragem graças aos amigos


mentes recem-pesquísados eníatizam. Graças à sua amizade com a irmã de Jawaharlal Nehru, então primeiro-ministro e braço direito de Mahatma Gandhi, ele foi o primeiro fotógrafo ocidental a registrar o enterro do líder indiano, em 1948, num furo de reportagem que alçou seu nome a um novo patamar. Bresson era um viajante incansável. Em pane, por dever de ofício, trabalhando para revistas como a americana Life e a inglesa Illustrated, mas também por sua absoluta compulsão para rodar o mundo. Em quatro décadas de carreira, percorreu 55 países. Diz a VEJA o americano Peter Galassi,

amor do livro e curador no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), que recentemente organizou uma expo-. sição com base em seu levantamento: "Descobri que, por 45 anos, Bresson praticamente não retomou a sua "casa, na França - um faro determínanre em sua trajetória profissional". O inédito mergulho no acervo, ao qual o curador do MoMA teve acesso irresrríto, reafirma a certeza de que uma foro parece tão mais natural quanto mais a cena é estudada pelo fotógrafo. Cartíer-Bresson observava exaustivamente a realidade que queria registrar antes de acionar o disparador da cãmera. Quando

TERRA ARRASADA Desespe~o na Alemanha do pós-guerra: lima das sessentaforos inéditas 114 118 DE AGOSTO,

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o FOCO IDEOLóGICO Para o comunista Bresson, que recracou trabalhadores na China (acima), ate as prisões de Mao eram coisa boa o fazia, bastavam três ou quatro disparas para capturar a imagem ideal. Os negativos desprezados pelo fotógrafo por imperfeitos foram preservados e estão na coleção como uma evidência irrefutável do seu método de trabalho. Muitos fotógrafos célebres comemporãneos de Bresson consideravam o registro da cena pela câmera apenas a primeira etapa do trabalho criativo. Caso notório do americano Ansel Adams (1902-1984), fotógrafo de paisagens, que aproveitava a revelação do filme não apenas para corrigir defeitos mas para recriar a combinação de tons de cinza com os quais compunha a imagem final. Bresson estava muito mais interessado na captação da imagem. Se" tivesse dependido de Robert Capa, outra lenda do ramo, amigo e sócio de Bresson na agência Magnum, as fotos de O Século Moderno nunca teriam sido publicadas. Capa fez as únicas fotos dos primeiras aliados a tocar as, areias de "Omaha", o setor mais "sangremo do desembarque aliado na Normandia em 6 de junho de 1944, o Dia D. Para ele, Cartier-Bresson era fotojornalista e ponto. Não era artista. Ser considerado "O olho do século", porém, é uma credencial suficiente para atiçar a curiosidade mesmo sobre as fotografias tidas como menores de Carrier-Bresson. _

Sob novo ângulo - Fotografia  

O mais extenso mergulho já feito na obra de Henri Cartier-Bresson traz fotos inéditas que revelam um profissional metódico e aventureiro.

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