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Atrás das muralhas da fortaleza do século 16 no norte da Itália assoma a cordilheira dos Dolomitas, fulgurante à luz do fim de tarâe. Mllralhas adentro, Reinhold Messner está er uendo uma montanha. 50 sua enérgica direção, uma retroescavadeira arrasta-se pelo pátio poeirento, traz placas de rocha e as empilha em uma engenhosa pirâmide. Terminado o serviço, lá está um monte em miniatura. "Esta é Kailash, a Montanha Sagrada", proclama Messner, envolto na poeira dourada da escavadeira. Ele exulta com a cena, com toda a cena. Não só pela satisfação de ver a sagrada montanha do Tibet retratada numa maquete sob a sua supervisão mas também, desconfiei, por toda a barulhada, pelo caos, pelo pó, pela magnífica improbabilidade da empreitada. A instalação de Kailash é apenas uma das inspiradas atrações a figurar no seu Museu da Montanha Messner, eujas instalações são dedicadas ao tema "Quando Homens Encontram Montanhas': Reinhold Messner já avançou bastante naquela que chama de Sexta Etapa de sua extraordinária vida. Pelo jeito, não olha para o passado, o tempo em que entrou para a elite mundial da escalada em rocha, na Primeira Etapa, ou quando já não tinha mais rivais no mundo das aventuras em alta montanha, na Segunda Etapa. Hoje, aos 62 anos, ele é instantaneamente reconhecido graças à infinidade de fotos publicitárias tiradas nas três últimas décadas: magro, vigoroso, cabeleira ondulada agora raiada de prata e ainda mais comprida do que na juventude. Em seu rosto alternam-se duas expressões características. Uma, de feroz determinação, combina80

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se com as sobrancelhas grossas e os cabelos e barba esvoaçantes para lhe dar um ar de Zeus autoritário - foi com ela que conseguiu materializar o monte Kailash em seu museu. A outra é o seu típico sorriso: um renque bem alinhado de dentes branquíssimos que ele lampeja por trás da barba para amigos e inimigos, sem distinção, como um sorriso de crocodilo. Era esse sorriso que ele mostrava agora ao visualizar a apoteose da festa de inauguração do museu Messner. Num espetáculo de fogos de artifício, estava programada uma violenta explosão que simularia uma erupção vulcânica, rasgando a noite por cima das muralhas do castelo. "Quero muita fumaça e chamas", diz, empolgado. "E o show tem de acontecer à noite, para toda a Bolzano ver", emenda, em referência à cidade do norte da Itália na região de seu castelo. Ele faz uma pausa para saborear a imagem da queima de fogos que os espectadores desavisados poderiam tomar por um acidente catastrófico. "Acho que nessa hora meus amigos lamentarão dizendo 'Ah, que pena!', mas meus inimigos dirão: 'Ótimo, até que enfim!'." É difícil explicar aos leigos a magnitude, a grandeza das realizações de Reinhold Messner. Poderíamos começar mencionando sua escalada para um dos gigantes do Himalaia, o Gasherbrum I (também conhecido como pico Oculto


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ou monte K5), de 8 068 metros, no vale de Karakoram, Paquistão, em companhia de seu parceiro de longa data, o austríaco Peter Habeler, sem a tradicional parafernália de carregadores, cordas fixas e oxigênio. O mundo aclamou essa façanha como o nascimento de um novo estilo de montanhismo. Mas isso foi em 1975, antes de Messner e Habeler galgarem o monte Everest sem oxigênio, proeza que levou o montanhismo ao limite absoluto. E isso, por sua vez, foi em maio de 1978, três meses antes de Messner ascender em solo o Nanga Parbat, a nona montanha mais alta da Terra, um feito saudado como um dos mais audazes do montanhismo. Só que isso foi dois anos antes de ele escalar o Everest sem oxigênio, equipado apenas com uma mochila pequena - e, dessa vez, sozinho. "É dificílimo avaliar uma jornada de alta montanha", resume o alpinista Hans Kammerlander, que escalou com Messner sete das 14 montanhas de 8 mil metros da Terra. "Porque é algo que se faz sem árbitro, sem cronômetro. Houve outros: Buhl, Herzog, Porrer", reflete ele, citando o nome de diversas feras do alpinismo. "Eles fizeram mais escaladas em solo. Mas Reinhold teve idéias novas, criou técnicas. Imaginava tudo e punha em prática. Por isso, ele merece o título de maior montanhista da história." Messner contribuiu para sua profissão não só

com uma lista de façanhas assombrosas como também com a filosofia que as norteou. "Só me interesso pelas experiências, não pelas montanhas. Não sou naturalista", me diz ele. "Eu me interesso pelo que ocorre com seres humanos. Um verso de William Blake diz que, quando homens e montanhas se encontram, coisas grandiosas acontecem'; comenta, parafraseando uma citação do poeta inglês que alicerça a filosofia de seu novo museu. "Se houver uma estrada até o Everest, tudo já estiver preparado e houver um guia responsável por sua segurança, você não poderá, jamais, conhecer a montanha. Conhecer uma montanha só é possível. .. quando você a encontra sozinho e é auto-suficiente." Em um ensaio escrito quando tinha apenas 23 anos, ele censurou a tática de abrir e marcar vias que permitiam até a alpinistas imperitos conquistar uma montanha pino por pino. Fez um apelo tanto pela montanha "indefesa" como pelo montanhista que, ludibriado, perde a oportunidade de testar os limites de sua coragem e habilidade. O ensaio, intitulado "O assassinato do impossível", hoje considerado um pequeno clássico, afirma que os usuários de grampos de expansão "irrefletidamente mataram o ideal do impossível" Assim, o característico minimalismo de Messner - ele garante nunca ter inserido um grampo em uma face de rocha e nunca ter REINHOLD

MESSNER

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usado cilindro de oxigênio - foi uma arrojada demonstração de que os princípios que ele pregava podiam ser postos em prática. Suas históricas jornadas em estilo alpino liberaram não só as montanhas mas também os montanhistas, mostrando alternativas às caras e equipadíssimas expedições clássicas da indústria do turismo. A ironia, é claro, está em que, com tais proezas, o próprio Messner matou e enterrou todas as idéias sobre o que constituía "o impossível".

mo. "Obstáculos me energizam", diz. "Certa vez fiquei bravo mas tão bravo que berrei de sacudir as vidraças", me conta satisfeito, descrevendo um embate com um inimigo. É contestador e famoso por seus vulcânicos acessos de fúria, e desde menino foi condicionado pelos mesmos fenômenos que o vitaminam hoje: os obstáculos, o risco e a adrenalina da raiva. Reinhold Messner nasceu e cresceu no vale Villnõss, no Tirol Meridional, em um vilarejo no norte da Itália chamado St. Peter's, Para ele, o lugar continua sendo "o mais lindo do mundo". O vale é emoldurado pela etérea cordilheira de Geislerspitzen, uma muralha de picos de rocha nua ao redor dos prados alpinos, uma visão de um reino de conto de fada. "O montanhismo nasceu para mim de dois fatos", conta Reinhold. "Meu pai escalava, embora não em altitudes extremas. Além disso, no vale não tínhamos campo de futebol nem piscina. Até hoje não sei nadar. A única chance de fazer algo para nos expressar era escalar rochas", conta Reinhold, que tinha 5 anos quando o pai o levou ao seu primeiro cume, uma árdua subida de 900 metros em um pico das

raçasà série de livros publicados na esteira das suas aventuras e à publicidade favorecida por seu tipão moreno atraente, Messner virou celebridade também fora do círculo de assinantes de revistas de montanhismo, como Alpiniste Gripped. Na Europa o público o via com freqüência na televisão, que lhe dava uma plataforma para sua franqueza às vezes rude. Ali ele continua a despertar fortes emoções, adorado pelos fãs como um astro do rock e acusado de autopromoção por críticos ressentidos. Messner recebe tudo com igual entusias-

G

As façanhas verticais de Messner Ás da escalada em rocha nos Alpes nos anos 1960, Reinhold Messner foi depois o primeiro a conquistar todas as 14 montanhas de 8 mil metros da Terra e abriu novas vias em outros

picos inóspitos.

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montanhas Geislerspitzen. Aos 13, já superara o potencial do pai e adotara o esporte. O Tirol Meridional tem uma história política tumultuada pela identidade dividida entre a Itália e a Áustria. Seus vales e cidades têm nomes italiano e germânico, e a maioria das famílias cresceu como os Messner: cidadãos italianos, mas falantes do alemão. A mãe de Reinhold, Maria Troi, recebeu uma educação melhor que a normalmente dada às meninas na época. "Minha mãe nos permitia fazer o que bem entendêssemos", conta ele. Era uma atitude incomum naqueles vales no pós-guerra, quando a vida obedecia às preocupações práticas de subsistência. Parentes que testemunharam aquele tempo descrevem Maria Troi como uma força branda e tranqüilizadora em uma família turbulenta. Iosef Messner, patriarca da família, foi um homem complicado, e complicado também foi seu relacionamento com os filhos, Apesar de ter sido estudante promissor na juventude, circunstâncias familiares barraram-lhe a educação superior. Tornou-se professor primário e se casou com a mãe de Reinhold. O casal foi morar em

um apartamento no primeiro andar de uma casa do pai de Maria. A família foi aumentando à média de um novo filho a cada dois anos. O fogão a lenha na cozinha era o único aquecedor da casa. No andar de baixo funcionava um açougue, e o abate dos animais ocorria em um barracão ao lado. Como muitos no vale, os Messner cultivavam hortaliças e criavam galinhas. Os meninos aprenderam a matá-Ias. Enquanto a única irmã, Waltraud, ajudava a mãe na casa, os meninos tinham tarefas ao ar livre, como carregar lenha e pedras. Cada um tomava conta do irmão imediatamente mais novo, e Reinhold foi incumbido de cuidar de Günther, Na casa dos Messner, como em todo o rijo Tirol, auto-suficiência era a virtude suprema. "O pai era católico devoto, mas com mentalidade calvinista" diz a ex-mulher de Reinhold, Ursula Demeter, apelido Uschi, que mantém até hoje laços afetuosos com a família Messner. A mãe era uma mulher "discreta, serena, fatalista - Deus lhe dera sua posição. Mas, para o pai, quem não ganhasse dinheiro e não fosse bem-sucedido na vida perderia as bênçãos de Deus':

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JosefMessner complicou ainda mais sua vida com a política que escolheu. "Em 1938, Hitler e Mussolini aliaram-se e decidiram que os sul-tiroleses deveriam ter a chance de escolher", conta Reinhold. "Quem votasse pela Itália ficaria no Tirol Meridional; quem votasse pelo führer poderia partir e ganhar uma extensão de terra equivalente em alguma parte do território germânico. Meu pai foi um dos organizadores dessa opção, na qual 86% dos sul-tiroleses decidiram deixar sua terra natal e juntar-se aos nazistas." E conclui, consternado: "É incrível." A guerra acabou com ambas opções. Aderindo voluntariamente ao nazismo, [osef Messner apostara suas esperanças em um futuro alemão (ironicamente, durante a guerra sua incumbência foi ser tradutor de italiano). Com a derrocada nazista, retomou para a casa de sua mulher no estreito vale italiano. Satisfeito com o salário de diretor de escola, tratou então de criar os nove filhos, todos com nome indiscutivelmente alemão: Werner, Reinhold, Siegfried, Waltraud. "Meu pai era ansioso', emenda Hansjôrg Messner, psicoterapeuta em Londres e um dos irmãos mais novos de Reinhold. "E a ansiedade o tornava rigoroso. Ele não era austero, apenas rigoroso em certos momentos, mas acho que o rigor e, às vezes, até mesmo a violência vinham como reação básica à ansiedade." Os acessos de fúria podiam resultar em broncas ferinas e surras, estas muito comuns nas comunidades rurais da época. "Meu pai tinha a capacidade não só de gritar mas de humilhar': conta Hansjórg. Quando O jovem Reinhold foi reprovado na escola porque preferira escalar a estudar, o pai despejoulhe toda a violência de seu escárnio. "Lembrome de Reinhold sentado à mesa da cozinha, a cabeça nas mãos, chorando sem parar", completa. Ano após ano [osef esbravejava e repetia ao filho teimoso que era impossível viver fazendo o que o rapaz amava e fazia melhor: escalar. "Na família só havia dois caminhos: curvar-se ou ser mais forte que meu pai': resume Reinhold. Quando ele tinha 13 anos e Günther 11, formavam um inseparável par de alpinistas. Precocemente fortes e talentosos, diferiam contudo na personalidade. Reinhold falava sem rodeios e era 84

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questionador - público, segundo seu irmão Hubert Messner, chefe de neonatologia no Hospital de Bolzano. Günther era fechado. "Reinhold se atirava em tudo que quisesse fazer. Günther era diferente': diz Hubert. "Como se deixava influenciar mais por meu pai, e acho que esse era o grande problema, ele não conseguia dizer 'Não gosto, por isso não vou fazer:" Das torres de rocha das montanhas Geislerspitzen, Reinhold e Günther passaram a outros picos dos Dolomitas e foram progredindo nas escaladas clássicas nos Alpes ocidentais. Nos Dolomitas dominaram o estilo livre de escalada em rocha, e nos Alpes ganharam experiência em terreno misto e gelo puro. Quando Reinhold tinha 20 anos e Günther 18, estavam aptos a medir-se com alguns dos mais experientes alpinistas europeus. "Sempre que eu tinha a chance de escalar com eles ou de seguir uma via parecida com a que fora feita por um alpinista famoso, eu só observava e aprendia", conta Reinhold. Depois de uma pausa, continua: "Isso por alguns anos, E eu diria que com 20, 23 anos percebemos que ninguém era capaz de escalar como nós': Embora continuassem parceiros, Reinhold começou a fazer subidas rápidas sozinho, com O menor equipamento e a maior velocidade possíveis. ''As investidas em solo de Reinhold nos Dolomitas de 1965 até depois de 1970 estão entre suas melhores", diz Hans Kammerlander, outro sul-tirolês. "Muitos não destacam essas experiências." Conforme os irmãos acumulavam escaladas notáveis, avultava o que Hansjôrg chama de "triunfalismo" de Reinhold. "No vilarejo havia um lugar onde podíamos ver televisão': diz Hansjôrg. ''Assistíamos as lutas de Cassius Clay, e meu irmão predizia as lutas daquele seu jeito típico: 'Acabo com ele no sexto round'. Foi assim que Reinhold começou a anunciar suas futuras escaladas alpinas: 'A subida do Eiger em dez horas!" Boa parte do estilo de Reinhold - pouco equipamento e muita rapidez - dependia de sua Velocidade espantosa. Inúmeras vezes ao longo dos anos ele demonstrou como era veloz. Em uma expedição à montanha Ama Dablam, no Nepal, em 1979, Reinhold e seu amigo Oswald Oelz resgataram de modo espetacular Peter Hillary, fi-


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lho do conquistador do Everest Edmund Hillary, e seus dois companheiros. "Reinhold percorreu em seis horas o difícil caminho que os montanhistas neozelandeses tinham levado dois dias e meio para escalar", lembra-se Nena Holguín, que testemunhou o processo do salvamento. "Ele subia como um raio pela neve. Com leveza de um cervo, parecia ter molas nos pés, nem tocava o chão." Concluídos os estudos, Reinhold e Günther começaram a preparar-se para uma profissão, mas sem entusiasmo. Reinhold foi estudar arquitetura na Universidade de Pádua; Günther foi trabalhar em banco. Mas a educação de fato continuou nas rochas. "Treinei para passar dias longe de tudo, dias e dias sem comer': conta Reinhold. ,,-ramos para as montan h as sem 1evar comida; para não ter de carregar, aprendemos a dispensar." Com a maturidade, Messner foi percebendo que coragem, para ele, era apenas a outra face do medo. "Só preciso de coragem se sentir medo. Se eu estiver bem preparado, se estiver vivendo há muito tempo com meu desafio nas minhas visões, na minha imaginação - porque antes de fazer uma coisa eu vivo com ela, sonho com ela, planejo, preparo, treino -, quando finalmente começo a escalar, especialmente em uma grande parede, sejam quais forem as dificuldades, eu me concentro a tal ponto que nada mais existe. Existem apenas aqueles poucos metros de parede para eu me pendurar e subir. Só isso. E nessa concentração tudo parece muito lógico. Não há mais perigo. O perigo some ... mas a concentração é absoluta", filosofa ele. Em 1969 Reinhold estava formado em arquitetura e lecionava matemática em uma escola secundária da região, ocupação escolhida só porque lhe permitia escalar. Então, veio um convite para participar de uma expedição ao Himalaia. Foi o seu divisor de águas. "Vejo Reinhold em duas fases", reflete Hansjorg. "Antes de Nanga Parbat e depois de Nanga Parbat." Na linguagem dos montanhistas, "linha" é a via na face da montanha que dá acesso ao cume. A linha da vida de Reinhold Messner, que o norteou e lhe definiu o rumo, foi a Expedição Austro-Germânica a Nanga Parbat em memória a ARQUIVOS

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"Quando começo a escalar, me concentro tanto q~e nada mais existe. Tudo parece lógico nessa concentração. O perigo desaparece. Mas a concentração é absoluta."

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Sigi Low, em 1970. Situada no norte do Paquistão, Nanga Parbat é uma das 14 montanhas do mundo com mais de 8 mil metros de altura; é a nona mais alta, com 8 126 metros. Após numerosas expedições malogradas, algumas fatais, seu topo foi atingido pela primeira vez em 1953 pelo grande alpinista austríaco Hermann Buhl. "No meu tempo, a escalada tecnicamente mais difícil era, pelo menos para quem falava alemão, a face sul do Nanga Parbat: a face Rupal", diz Reinhold. "Mesmo o vitorioso Buhl, que subira pelo lado norte, intimidara-se com aquela parede imensa e selvagem. Ele a descreveu, com palpável assombro, como "a maior parede de montanha do mundo, um abismo de mais de 5 mil metros direto do cume para o fundo insondável" líder da expedição, Karl Maria Herrligkoffer, não era montanhista. Seu meio-irmão, Willy Merkl, morrera em Nanga Parbat (vários marcos na montanha têm seu nome). Herrligkoffer tinha uma obsessão vingativa pela montanha. Era um capitão Ahab a perseguir sua Moby Dick. Em 26 de junho de 1970, sob um tempo inclemente, os acampamentos e cordas mais altos da expedição haviam sido laboriosamente instalados a 7 350 metros, onde começava a garganta Merkl, uma longa ravina vertical que seria a via para o cume. Uma tentativa de chegar ao pico já fora abortada, e o cronograma da expedição estava com duas semanas de atraso. Agora, Reinhold, seu irmão Günther e Gerhard Baur espremiamse na única barraca armada no acampamento 5, ao pé do desfiladeiro, preparados para a última tentativa. Diante do impasse, Reinhold sugerira um plano complexo. Quando recebesse o boletim meteorológico do dia seguinte, o acampamento-base enviaria um sinal ao acampamento 5: foguete vermelho para mau tempo; azul para bom. Fosse o vermelho, Reinhold faria uma escalada solo, correndo para chegar ao cume antes de o tempo piorar. Se a previsão fosse boa, a escalada seria em equipe. Às 8 da noite, espoucou um foguete vermelho. Reinhold partiu antes de clarear o dia, levan-

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ARQUIVOS REINHOlD MESSNEA, FOTO DE MARIO CUANIS


do apenas crampons e uma picareta de gelo, enquanto Günther e Baur começaram a preparar cordas nos primeiros 200 metros do desfiladeiro para ajudar na descida difícil. Até então, Günther estivera com Reinhold a cada passo do caminho. Agora, o mais velho - sempre o líder, sempre fazendo o que quisesse - estava a caminho do topo e da glória, enquanto ele ficava para trás com aquele emaranhado de cordas congeladas. Günther teve um estalo, Largou as cordas e disparou atrás do irmão. Em quatro horas, percorreu os 600 metros verticais da geleira Merkl. "Com certeza, ele subiu aos limites de sua capacidade para me alcançar", admite Reinhold. Logo se viu o resultado do extraordinário esforço de Günther, Às 5 da tarde, os irmãos se cumprimentaram no cume. Regozijaram-se com a improvável e gloriosa conquista. Uma hora depois - muito tempo - começaram a descer. Lento e enfraquecido, Günther recusou-se a voltar pela difícil via da subida. Alarmado, Reinhold procurou uma rota mais rápida até algum terreno mais baixo. Rumaram para o lado oeste da crista do topo e ali, quando a escuridão os alcançou, encolheram-se juntos para passar a pior noite da vida. Sob as estrelas implacáveis, a temperatura noturna caiu para 40 graus negativos. Sem barraca, a única proteção era um cobertor de alumínio usado em situações de emergência. Não tinham mais comida nem água, e haviam passado muitas horas na "zona da morte", acima dos 8 mil metros. Günther começou a sofrer com alucinações, arranhando um cobertor imaginário no chão, transtornado pelo frio absoluto. "Foi muito difícil. Em grandes altitudes o oxigênio no sangue cai e o corpo não se aquece. Instintivamente nos mantivemos acordados o maior tempo possível. Pensando, forçávamos o sangue a circular. Dizíamos um ao outro: 'Mexa os dedos dos pés, não durma'. Se alguém dormisse de verdade, provavelmente morreria", conta Reinhold. Ao amanhecer, o estado de Günther era crítico. Mas, de repente, pareceu que havia ajuda a caminho. Abaixo do local onde tinham pernoitado, os irmãos avistaram as figuras de Peter Scholz e Felix Kuen, vindos do acampamento 4. Escalavam laboriosamente pela via que os Mess-

ner haviam desbravado. Os dois grupos gritaram um para o outro de uma distância equivalente a uns 100 metros, mas os equívocos na comunicação entre eles permanecem um dos mais mal explicados incidentes da saga do Nanga Parbat - ainda hoje um episódio repleto de versões controversas no meio do alpinismo. Scholz e Kuen já estão mortos e não se pode investigar sua versão. Por algum motivo, contudo, os dois que subiam não entenderam aquela crise. Os Messner não sabiam, mas o foguete vermelho fora disparado por engano. O tempo na verdade ficaria excelente, e Scholz e Kuen estavam subindo não para resgatá-los, mas para chegar ao cume. Ao ver que os dois continuavam a ascensão, Reinhold novamente não hesitou e tornou uma decisão ousada: ele e Günther desceriam pela face Diamir, do outro lado da montanha. «Para quem olha de cima, da área do topo, o lado Diamir parece um declive de neve muito suave", diz o americano Steve House, que em 2005 venceu a face Rupal em estilo alpino com seu parceiro Vince Anderson. «É quase plano, uma caminhada fácil", disse ele sobre a descida inicial. «A face Rupal é imensa, assustadora. Acho muito compreensível a decisão que Reinhold tomou." A face Diamir só fora escalada duas vezes até então, e Reinhold orientava-se pelo instinto. À noite, ele e Günther acamparam brevemente a 6,5 mil metros. No dia seguinte continuaram a descer, dessa vez sob um Sol cegante. A aproximadamente 6 mil metros de altitude, com Günther parcialmente recuperado, eles pareciam estar na última etapa da jornada. «No segundo bivaque pudemos ver mais ou menos que havia um caminho para descer': diz Reinhold. "Na descida, porém, só é possível ter uma visão da montanha abaixo até certa distância. É importante entender isso. Na descida, vislumbramos sempre o vazio; é uma visão parcial e é difícil decidir se é melhor ir para a esquerda ou a direita. E por essa razão fui forçado a ir na frente, abrindo caminho, para tentar acionar o resgate." Pelos seus cálculos, Reinhold esteve às vezes mais de uma hora à frente, sem poder ver nem ouvir o irmão. Embora a velocidade sempre tenha sido sua marca registrada, talvez ele ainda REINHOLD

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27 de junho de 1970 17 h. Reinhold e Günther alcançam o topo 8126m

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"Acho que Reinhold se sentiu terrivelmente culpado por não poder trazer seu irmão de volta para casa", acredita Hansjõrg. "E meu pai, por ansiedade, irrefletidamente reforçou esse sentimento ao lhe indagar: 'Onde você deixou Günther?'." Ele deixara o irmão na montanha, quando a família pensava que Günther talvez fosse mais forte que Reinhold. "A pergunta era 'Por que ele, e não Reinholdi", diz Hubert. Alguns conjeturavam que talvez uma razão da corrida desesperada de Günther ao cume fosse a insatisfação com seu trabalho convencional. "Günther não conseguia transgredir as regras", emenda Hubert. "Esse era seu dilema. Surgiram muitas questões ... Por isso Reinhold, depois do dramático episódio, decidiu fechar-se na convivência em família."

Geleira Merkl 2B de junho Segundo acampamento

provisório 5500m

Tragédia em Nanga Parbat não se desse conta de que era veloz demais. Descendo Nanga Parbat aos trambolhões, movendo-se por instinto, ele deixou Günther para trás. Viu um riacho e bebeu água pela primeira vez em quatro dias. Aliviado, esperou que o irmão o alcançasse. Mas Günther não veio. l-Iansjôrg Messner, no jargão de sua profissão, descreve que Reinhold sofreu um "colapso" quando percebeu que o irmão desaparecera. Durante um dia e uma noite, vasculhou o lugar onde Günther deveria estar, raspando com as mãos os escombros de uma avalanche recente. "Eu tinha sempre a sensação de que ele estava por perto", diz Reinhold. "Ouvia passos atrás de mim. Quando olhava, ele não estava. Às vezes ouvia sua voz ... Ia até lá, mas ele não estava. Meu raciocínio me dizia: 'Seu irmão está morto: mas meu sentimento dizia 'seu irmão está aqui'." Por fim, seus mais primitivos instintos de sobrevivência prevaleceram e ele desceu cambaleante pelo vale Diamir, sofrendo alucinações. Dois dias depois, aldeões o levaram do vale. Aos cuidados de policiais, ele seguia para o hospital quando o jipe alcançou os membros da expedição, que, dando os irmãos por mortos, estavam de partida. Segundo um deles, as primeiras palavras de Reinhold foram, aos soluços: "Onde está Günther?" 88

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vida de Reinhold mudou com a expedição a Nanga Parbat. Ele perdeu seu irmão e melhor amigo. Sofreu necrose pelo frio em sete dedos dos pés, e teve três pontas de dedo amputadas. E ficou ainda mais famoso, pois, quando a poeira baixou, era Reinhold Messner quem havia conquistado a mais difícil parede do mundo e atravessado uma montanha de 8 mil metros. A travessia do Everest por uma grande expedição americana em 1963 era a única proeza comparável na época. Para complicar, Reinhold se apaixonara pela mulher de Max von Kienlin, Ursula Demeter, que acompanhara a expedição como membro pagante. Pouco depois do retorno, ela deixou o marido e foi morar com Reinhold. "Eu era jovem, um montanhês humilde", lembra-se ele. "Ela conhecia o mundo. E logo nos tornamos uma equipe bem-sucedida. Ela fazia a revisão dos meus livros, lidava com os editores." Naquele tempo não havia patrocínio de empresas, e ganhar a vida escalando requeria engenho e audácia. Sem UrsuIa, a carreira de Reinhold seria outra.

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FONTES DO MAPA: REINHOLD MESSNEA, USGS E NASA. NGM MAPS


No outono de 1971, Reinhold voltou a Nanga Parbat com Ursula. "Eu tinha esperança de que. se o verão tivesse sido seco, talvez uma avalanche revelasse o corpo", explica ele. Entraram no vale Diamir e montaram acampamento. No dia seguinte, Reinhold partiu cedo. "O fragor de avalanches nos cercava noite e dia", recorda-se Ursula. Quando escureceu, ela acendeu uma fogueira com lenha velha, fez o jantar e esperou. Ele voltou noite alta. "Estava chorando e tremia', conta ela. "Não quis comer. Entrou na barraca e chorou a noite inteira. Chorou dormindo." O dia seguinte foi igual. Depois de uma semana, sem sinal do corpo de Günther, foram embora. "Depois de Nanga Parbat, desapareceu em Reinhold o inocente entusiasmo de escalar", analisa Hansjõrg. "Ele tornou-se .. !'- faz uma pausa, procurando a palavra certa - "mais profissional." "A chave para compreender o montanhismo, eu sei, é o retorno", reflete Reinhold. "Quando se vai a lugares muito difíceis, perigosos, sem oxigênio ou qualquer tipo de contato com o resto do mundo, ao voltar sente-se que ganhou nova chance de viver. Você renasce. E só nesse momento entende profundamente que a vida é o maior dom que temos." Ele diz isso na perspectiva de um sábio - e raríssimo - veterano de 31 expedições de 8 mil metros. "Da minha geração, metade dos maiores alpinistas morreu nas montanhas", conta ele. Mas, para o Reinhold Messner de 25 anos que sobreviveu ao Nanga Parbat, só havia uma certeza: ele voltaria a escalar. Era esse o seu destino. "No período que passei na clínica', continua ele, "eu pensava que, depois de me recuperar, voltaria a ser auto-suficiente, poderia escalar normalmente. Só em 1971 percebi que nunca mais teria essa capacidade ... Além dos pés, perdi parte de um dedo da mão e me cortaram um pedaço de osso mais embaixo, e esse osso fica pressionando este ponto" - mostra o dedo anelar esquerdo. "Quem sente dor na ponta do dedo, ou em outro lugar, não é mais um bom montanhista, porque perde a concentração. Entendi imediatamente que nunca mais seria capaz de escalar em rocha como em 1969, meu melhor ano. Por isso decidi migrar para as altas montanhas." ARQUIVOS

REINHOLD

MESSNER

Descendo Nanga Parbat aos trambolhões, movendo-se . . por mstmto, Reinhold deixou Günther para trás. Viu um riacho e bebeu

água pela primeira vez

em quatro dias. Aliviado, esperou que .o irrnao o alcançasse. Mas Günthcr jamais aparecerIa VIVO.

1978 SOZINHO NO CUME DE NANGA PARBAT

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1982 GASHERBRUM

li, NA FRONTEIRA DE CHINA E PAQUISTÃO

Durante a subida, Reinhold encontrou rocha. Dois anos depois, retomou

um alpinista austríaco morto sob uma

para escalar e dar ao homem sepultamento

adequado. "Isso nos custou tempo e esforço, mas foi necessário." 90

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ARQUIVOS

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"Pisquei e ele desapareceu. Tinha caído e veio escorregando os últimos 120 metros, mas freou com a picareta. Depois, Reinhold chorou em meu ombro. Eu o levei então à barraca e ele disse: 'Nena, foi a última. vez; nunca mais vou subir sozinho uma montanha como esta. Eu estava no meu limite'."

1980 EVEREST, APÓS ESCALADA

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SOLO

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Isso nunca estivera em seus planos. "Escalar alta montanha não me interessava, não era suficientemente íngreme. Era caminhada. E caminhada era algo que eu não queria:' Na opinião de Reinhold, entre os feitos que lhe deram renome em escalada de alta montanha estão a dupla travessia, consecutivamente, de dois picos de 8 mil metros, Gasherbrum Ir e Gasherbrum I (em parceria com Hans Kammerlander, em 1984), e a jornada solo pela fatídica Nanga Parbat em 1978. Mas o que arrebatou a imaginação popular foi, na primavera de 1978, a primeira conquista do Everest sem oxigênio. própria idéia era revolucionária. Na década de 1970 as expedições costumavam levar 50 quilos de oxigênio por pessoa para uso acia de 7,2 mil metros. Os fisiologistas prediziam risco de lesão cerebral irreversível a quem enfrentasse sem oxigênio os mais altos cumes de 8 mil metros, como o Everest e o K2. "Isso não tinha fundamento", declara Reinhold. Sua experiência provava. Em 1977, enquanto se ac1imatava depois de uma tentativa malograda de escalar a temível face sul do Dhaulagiri, no Nepal, ele sobrevoara o Everest em um pequeno avião sem pressurização. "Tentei, e tive uma crise a 7,8 mil metros", conta ele com a maior calma do mundo. A tal crise foi uma sensação de "leve insegurança" e a incapacidade de pôr um filme novo em sua câmera Rolleiflex. "Mas depois me senti ótimo e pude fotografar acima do topo, sem problemas, sem apagar." O avião alcançara os 9 mil metros. O Clube Alpino Austro-Germânico permitiu que Reinhold e seu parceiro Peter Habeler acompanhassem como dupla independente sua expedição de 1978 ao Everest. Habeler era do Tirol Setentrional, o lado austríaco dos Dolomitas. Conhecia Reinhold fazia 15 anos e fora seu parceiro em várias expedições no Himalaia e em centenas de outras na Europa. Além de Günther e Friedl Mutschiechner, Habeler era um dos poucos que conseguiam acompanhar o ritmo frenético de Reinhold nas montanhas. Em 1975 haviam feito história como a menor equipe a cheNENA HOLGuiN


gar a um cume de 8 mil metros, o Gasherbrum Habeler, ao fim da expedição os dois fizeram um brinde com as palavras "Ao Everest!" A expedição ao Everest sem oxigênio eletrizou o público e trouxe nova perspectiva para o rnontanhismo, Reinhold lembra-se da polêmica: "Era corno ir à Lua sem oxigênio. Na Alemanha, pelo menos cinco médicos já tinham ido à televisão dizer que isso era impossível" Ele abre seu tradicional sorriso de crocodilo: "Com isso, prepararam o terreno para um grande sucesso': Testes fisiológicos mostraram que Reinhold possuía metabolismo excepcionalmente eficiente - possível resultado de seus treinos para resistir sem comer -, mas que ele não era nada incomum na capacidade cardíaca ou pulmonar. Por outro lado, os marcadores genéticos das linhas materna e paterna eram raros. No auge da forma, Reinhold treinava correndo em colinas "mil metros de subida em 30 minutos': comenta. Hoje já não corre grandes distâncias, mas não parece precisar. "Ele é experiente, seu corpo é experiente': completa o irmão Hubert. Há seis anos fizeram juntos uma expedição de 8 mil metros, e depois de dez dias nas montanhas, segundo Hubert, Reinhold estava "em plena forma. Porém, ele só é bom nas montanhas." Escalar o Everest sem oxigênio confirmou a extraordinária adaptação de Reinhold às condições severas das escaladas em alta montanha. E ele se sentiu muito, muito feliz: "Pensava comigo: depois do Everest, posso fazer tudo" Uma das coisas que fez foi ganhar publicamente a inimizade de toda a sua comunidade; Em um festival para celebrar o sucesso da expedição ao Everest, perguntaram a Reinhold por que ele não carregara a bandeira de seu país. "Respondi que eu não tinha escalado pela Itália, pelo Tirol Meridional, Áustria ou Alemanha", diz, engasgando de tanto rir. "Fui por mim mesmo. Peguei meu lenço e falei: 'Esta é minha bandeira'. Ninguém sobe o Everest para outras pessoas. Escala para si, e por esforço próprio." Fecha o cenho. "Não suporto essas toadas nacionalistas. Elas me irritam." A necessidade de oposição a "nazistas" e "fascistas" é um dos temas favoritos de Reinhold; ele gosta de frisar que

r. Segundo

em 1921 o Clube Alpino Austro-Germânico proibiu a filiação de judeus e afixou avisos sobre essa decisão em remotas cabanas nas montanhas. Em sua opinião, a reverência passiva dos alemães à autoridade possibilitava medidas como essa. "Meu übermensch (super-homem) seria um sujeito resoluto e independente que jamais aceitaria certas regras vindas de cima", discute Reinhold, parafraseando o filósofo alemão Nietzsche. "Ele diria: é assim que penso, é assim que faço. E esse seria o maior inimigo dos fascistas:' excesso de autonomia, porém, tem suas desvantagens. Pouco depois que ele e Peter Habeler fizeram história, os dois se desentenderam. Reconciliaram-se mais tarde, mas a separação - ou a falta de vínculos sentimentais com os companheiros - era uma característica da carreira de Reinhold. "A expedição é uma coisa; depois da expedição é outra': explica o explorador alemão Arved Fuchs. Em 1990, ele e Reinhold fizeram a primeira travessia a pé pelo continente antártico sem a ajuda de animais ou de veículos motorizados. Reinhold passara do montanhismo para a Terceira Etapa de sua vida, a exploração do mundo horizontal. "Não consigo entender': continua Fuchs. "O homem é conhecido no mundo todo, estabelece novos parâmetros do montanhismo, é bem-sucedido, provavelmente riquíssimo, mas nunca está contente com seu sucesso nem consigo mesmo. Acho que essa é a tragédia de sua vida." "Reinhold é o melhor montanhista", diz Hans Kammerlander. "Mas tem suas fraquezas. Falo como amigo", completa com brandura. "Ele não aceita críticas e revida logo qualquer censura." Para Reinhold, a liberdade das montanhas significa estar livre das outras pessoas: "Eu me exponho e aceito as forças da natureza como soberanas do meu mundo. Não há mais governantes humanos quando estou lá. Não há religião a me controlar e me dizer como devo me comportar. Só a natureza pura, que tenho de respeitar. A natureza dentro de mim e a natureza fora." A liberdade das montanhas evidentemente significa estar livre também das outras pessoas.

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REINHOLD

MESSNER

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"Quando concluí os picos de 8 mil metros, vi que dali por diante só. poderia me repetlr. a que fiz é m~çante para num a ora. Gostaria de ir a algum lugar em que tudo fosse novo e começar outra atividade. "

1992 NA CHINA, CRUZANDO

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O DESERTO DE GOBI

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Em 2003, Reinhold voltou ao acampamentobase do Everest para celebrar o 50º aniversário da conquista do cume pelo neozelandês Edmund Hillarye o sherpa Tenzing Norgay. "Muita coisa mudou no Everest. Levei mais de duas horas para percorrer o acampamento-base de uma ponta a outra': comenta, com um misto de incredulidade e desprezo pelo que chama de "cultura da cidade", que se infiltrou nas montanhas e lhes roubou a solidão ao dar-lhes a onipresente conexão com o mundo via internet. Escalar o Everest sem oxigênio abriu caminho para a suprema proeza de autodeterminação solitária: a conquista solo do Everest, um sonho inspirado por ideais elevados e sinceros - e também por certa competitividade mundana. Especificamente, o que galvanizou Reinhold a agir foi um montanhista japonês, Naomi Uemura, ao anunciar que conseguira permissão para tentar uma escalada solo em 1980. Reinhold declarou francamente em seu livro a reação que tivera: "Como assim? Essa idéia é minha!" A permissão dada a Reinhold em 1980 para investir sozinho a face norte do Everest foi uma das primeiras concedidas pelos chineses desde que ocuparam o Tibet em 1950. Ele e seu pequeno grupo - um oficial de ligação, exigência chinesa, um intérprete e uma acompanhante incumbida também do serviço médico - seriam as únicas pessoas no lado norte da montanha. Singular era a escolha da acompanhante de Reinhold: Nena Holguín, americana de 30 anos que percorrera a pé partes da América do Sul e ilhas do Pacífico antes de trabalhar no Himalaia construindo escolas para a Fundação Sir Edmund Hillary. Hoje dona de uma agência de trekking nas Rochosas Canadenses, Nena conheceu Reinhold em 1979, quando ele voltou da expedição a Ama Dablam. No Everest, a barraca do acampamento-base avançado foi montada a 6,5 mil metros; os dois acompanhantes chineses permaneceram em uma área mais embaixo. "Éramos só Reinhold, eu e um lobo que vinha roer ossos do lado de fora da barraca quando eu estava sozinha", conta Nena. Ela estava encarregada da comida e dos serviços gerais. Permaneceram entre os dois acampamentos por um mês, antes de Reinhold partir. ARQUIVOS REINHOLO ME$SNER

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As façanhas horizontais de Messner .r=::>:»:

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Era a manhã de 18 de agosto. "Reinhold já escalara sozinho cerca de 2 mil montanhas àquela altura': diz Nena. Entre elas estava a memorável escalada solo de Nanga Parbato "Os alpinistas não consideram, mas na verdade às vezes é, sim, mais fácil fazer as coisas sozinho, sem precisar cooperar com ninguém, desde que se supere a solidão. Ele gosta de fazer tudo no seu próprio ritmo e exatamente do seu jeito. É fácil fazer tudo sozinho quando você já sabe que pode. Ele confiava em si mesmo;' Todavia, um mau começo, quase fatal, deu a partida para a histórica escalada. A apenas 500 metros do acampamento, na escuridão, Reinhold escorregou e caiu em uma fenda. Mais acima, na neve macia, a subida foi árdua. Reinhold não tinha com quem dividir o trabalho de abrir caminho. Passaria três noites na montanha. "Nos Alpes era fácil", comenta ele. "Eu começava de manhã e à noite estava de volta. Difícil é passar a noite sozinho. Escalar em si não é problema - você está escalando. Mas ficar noites e noites sozinho em lugares perigosos, frios, gélidos, é muito mais complicado." Chegando ao cume, Reinhold tinha as emoções embotadas. A neblina o envolvera, a neve apagara suas pegadas. Ele se virara mecanicamente para descer, cônscio de sua agudeza mental prejudicada e de uma perigosa indiferença à sua condição. "Finalmente o avistei descendo no terceiro

dia'; lembra-se Nena. "Eu estava olhando, olhando, de repente pisquei e ele desapareceu. Tinha caído. Veio escorregando pelos últimos 120 metros, mas freou com a picareta." Quando a encontrou, ele chorou em seu ombro. "Eu o levei para a barraca e ele disse: 'Foi a última vez. Nunca mais vou subir sozinho uma montanha como esta. Eu estava no meu limite'." Em 1986, quando conquistou o Lhotse, Reinhold tornou-se o primeiro alpinista a vencer todas as 14 montanhas de 8 mil metros. "Percebi que dali por diante só poderia me repetir': revela ele. "Gostaria de ir a algum lugar onde tudo fosse novo e começar outra atividade;' Mercedes SLK prateado de Reinhold deixou a cidade italiana de Bolzano em disparada e rumou para Schloss Iuval, o castelo nas montanhas onde ele mora durante parte do ano. Na ignição pendia um chaveiro curioso: a garra de um animal presa a um pedaço de pele bege. "É garra de yeti", diz rindo. A Quarta Etapa da trajetória de Reinhold pela vida foi dedicada a montanhas sagradas e mitos, e incluiu a busca pelo lendário yeti, ou Abominável Homem das Neves, o equivalente himalaio ao Pé-Grande americano. Com a busca dessa criatura, que ele acabou identificando como um urso-pardo-himalaio, Reinhold acabou

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enfurecendo os círculos do montanhismo alemão. "A história do yeti deixou-o malvisto na cultura de elite alpina", argumenta Hans Kammerlander. Os montanhistas alemães, ao voltarem cambaleantes de suas épicas escaladas, eram recebidos não com as tão sonhadas aclamações, o respeito e as ofertas de editoras, masgraças a Reinhold Messner - com uma pergunta zombeteira: "E aí, viu um yeti:" Em um penhasco de 914 metros de altura, como um sombrio refúgio de salteador, o castelo de Iuval é guardado por imponentes montanhas riscadas de neve e parece olhar sobranceiro aos meros mortais lá embaixo no vale Senales. Ao comprar esse castelo do século 13 em 1983, Reinhold realizou vários sonhos. Com suas plantações, vinhas e criação de animais, tudo impecavelmente manejado dentro do sistema orgânico, ele podia ser agricultor, o que, segundo ele, sempre sonhou ser. Agricultura na montanha é a Quinta Etapa de sua vida. Mais importante ainda é que [uval é um lugar que lhe possibilita a "auto-suficiência': uma das expressões favoritas de Reinhold. Um lugar onde, se necessário, ele poderia retirar-se do mundo e viver bem, quando assim desejasse. Iuval também foi local de um acidente em 1998. Fechado do lado de fora de seu castelo em uma noite chuvosa, o maior montanhista do mundo decidiu escalar a muralha. Parecia uma tarefa simples para Reinhold Messner, que pulou na escuridão de uma altura de 6 metros, caiu de mau jeito e fraturou o calcanhar. A lesão, muito grave, ainda provoca dor. Saber que não estaria na melhor forma por muitos anos inspirou, em parte, sua decisão de tomar-se membro do Parlamento Europeu. A capacidade de refazer-se e de dar as costas a algo que amou por muito tempo parece ser o segredo das constantes reinvenções de Reinhold. Ele achou graça quando indaguei quais haviam sido as questões em que ele mais fizera diferença durante os cinco anos de seu mandato. "Ninguém fez diferença', repondeu. A carreira política, de 1999 a 2004, sequer entrou para o rol das etapas de sua vida. Comemorando sua conclusão, ele realizou um velho sonho, aos 60 anos: atravessar o deserto de Gobi. 96

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inholde sua família passam boa parte do ano não em Iuval, na montanha, mas na bela cidade vizinha, Merano. Ali, voltando a seu partamento, Reinhold abre a porta e ouve subitamente um ronco abafado vindo da cozinha. "Não sei que barulho é esse': diz, perplexo. Um filhote de dragão? Flâmulas de oração zunindo ao vento num templo tibetano no Himalaia? ''Acho que é um aspirador de pó': arrisco, lembrando o que ele uma vez comentara sobre sua intimidade com os afazeres da vida doméstica: "Eu não saberia para onde ir caso a luz acabasse ou o aquecimento pifasse. Vivo como vivia na casa de minha mãe. E isso é ótimo': diverte-se ele. A casa dos Messner, de fato, parece bem administrada e feliz. "Nosso modelo é muito mais forte do que o casamento tradicional", aposta Reinhold a respeito de sua relação de 19 anos com Sabine Stehle. É uma parceria na qual estão claramente definidas as esferas específicas de autoridade. (Em nome da privacidade da família, Sabine preferiu não participar desta matéria.) ''Aqui vivemos em um matriarcado; por isso veremos o que vai acontecer", comenta ele em outra ocasião, a respeito de um problema com sua filha adolescente. Mais tarde chega uma visita: Hubert, o irmão mais novo. Ele acompanhara seu famoso parente em várias aventuras, incluindo a travessia da calota glacial da Groenlândia, e no verão de 2000 participara com Reinhold e dois amigos de uma expedição ao Nanga Parbat: era o 30º aniversário da morte de Günther, "Decidimos escalar por uma via inédita, belíssima", lembra-se Hubert. "Não consegui ir ao cume. Parei nos 7,3 mil metros. Não me sentia mentalmente forte." Ascenderam pela face Diamir, e Reinhold apontou o lugar onde supunha ter ocorrido a morte de Günther. "Foi bastante difícil': conta Hubert com a voz embargada. "Na barraca, naquelas noites geladas, ele toda vez me chamava de Günther," A expedição de 2000 a Nanga Parbat pode ter sido o catalisador da decisão de Reinhold, em outubro de 2001, de reabrir velhas feridas da expedição de 1970. Escolheu para isso uma ocasião pública, a entrevista coletiva à imprensa organi-

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zada pelo Clube Alpino Austro-Germânico para celebrar a publicação de uma biografia de Karl Maria Herrligkoffer, o obstinado líder da jornada de 1970. Em vez dos elogios polidos de praxe, Reinhold fustigou os membros da expedição: "Alguns deles, mais velhos que eu, teriam gostado se os dois Messner não tivessem retomado" A reação contra Reinhold foi violenta e imediata. Os dois integrantes pagantes da expedição, Hans Saler e Max von Kienlin, publicaram em seguida livros com declarações graves: não só o jovem e ambicioso Reinhold Messner já havia planejado fazer a histórica travessia pelo Nanga Parbat mas também deixara Günther morrer na face Rupal enquanto ele próprio passava para a face Diamir e retomava ao acampamento. Vários membros da equipe disseram lembrar-se de ver Reinhold estudando mapas dos dois lados da montanha, num 5Up05tOato de premeditação de suas reais intenções após a conquista do cume. "Ele me falou sobre a travessia no acampamento-base à noite, ao pé da fogueira", recorda Iürgen Winkler. Fotógrafo alpino de renome, Winicler foi um dos membros do grupo de 1970 presentes na entrevista em que Reinhold estarreceu os ouvintes. Mas será mesmo que o jovem Messner, ambicioso como era, teria sido tão descuidado a ponto de, em sua primeira expedição no Himalaia, lançar-se à travessia de uma montanha inóspita sem corda ou saco de bivaque, levando consigo apenas uma garrafa d'água e um punhado de nozes e passas? "Reinhold Messner é un homme extraordinaite", declarou Winkler em resposta. "Neste mundo não existe outro como Reinhold Messner," Sobre a busca do corpo de Günther, Reinhold me confidenciou certa vez: "Eu tinha muita esperança, sonhava que talvez no fim do ano, com parte do cone da avalanche derretida pelo Sol. .. talvez ele aparecesse': No quente verão de 2005, em meio ao enevoado de amargura e ações judiciais, o velho sonho de Reinhold enfim se materializou. Foi como se, depois de causar tanto mal, o fatídico Nanga Parbat se compadecesse e entregasse o morto. Em 17 de julho, no vale Diamir, a 4,3 mil metros, três montanhistas paquistaneses depararam com os restos mortais de STEFAN

NIMMERSGERN/STARSHOT

FOTOFACTORY

Reinhold diz que enlouqueceu. Durante um . dia e uma noite, vasculhou o lugar onde seu irmão Günther deveria estar, raspando com as maos os

escombros de uma avalanche

recente. "As vezes ouvia sua voz atrás de mim. Mas ele não estava lá."

2005 NANGA

PARBAT, CREMAÇÃO

REINHOLD

DE GÜNTHER

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Günther Messner, identificado por um detalhe em sua bota de alpinismo, um modelo de couro pré-1980. A identiticação foi depois confirmada por avançados testes de DNA mitocondrial e de cromossomo Y do raro genoma dos Messner, realizados pelo Instituto de Medicina Legal da Universidade Médica de lnssbruck. De volta a Nanga Parbat, Reinhold, sabendo que um membro da expedição de 1970 estivera na face Diamir filmando um documentário sobre a trágica história da montanha, receou que explorassem ou até desalojassem o corpo do irmão. Consultou a família e mandou cremar os restos mortais de Günther na montanha. Pergunto a Ursula se a descoberta do corpo de Günther na face Diamir finalmente aliviara o fardo de Reinhold. Ela me olha firme: "Não. Ele sempre soube que Günther estava lá': "

ou tudo de mim, toda a minha energia, todo o meu tempo, meu dinheiro, meu entusiasmo': diz Reinhold. Não falava de expedições de 8 mil metros, mas de seu novo museu. Parentes e amigos haviam comentado sobre as pressões a que ele se sujeitara e sobre a nova intensidade e freqüência de seus acessos de raiva. As vésperas da inauguração pareciam aumentar seu sentimento de que o empreendimento era épico, e ele buscava metáforas para compará-lo à escalada extrema, aos desafios nas montanhas. Ali estavam todos os elementos que ele identificava como essenciais às "experiências fortes" que testam limites: dificuldades, esforço árduo, risco. "Mas não risco de morte", comento. Lúgubre, ele replica: "Ainda posso fazer como Hemingway'; referindo-se ao escritor americano que suicidouse após uma vida de aventuras. Quando concluída, a rede de cinco Museus da Montanha Messner formará um admirável circuito no Tirol Meridional para os amantes da escalada de todo o mundo. E poderá dispensar a ~ O mito

e

as montanhas

Veja mais imagens

de Reinhold Messner e uma lista de links sobre ele em www.ngbrasil.com.br/0611 98

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gestão de Reinhold. "Ê meu desejo que eles possam funcionar sem mim - como na minha família", reflete. Quando conseguir auto-suficiência em todos os aspectos da vida, Reinhold estará livre para perseguir outro sonho que menciona há muito tempo e nunca realizou: um retiro em uma caverna. "Algum lugar nos Dolomitas", diz ele. "Eu ficaria talvez um mês ou um pouco mais para escrever, pensar, contemplar a luz da manhã, escalar uma montanha. Ê um devaneio meu muito forte: ser livre." Pausa. "Não sou mais livre", diz por fim.


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Por que não se aposenta? "Reinhold nunca relaxa", comenta Hansjéirg. "É como no ditado que há no site dele; 'Sou o que faço'. Mas quem sabe ele também pense no sentido inverso: 'Se eu parar de fazer, deixarei de ser'." Percebo quão longa foi a jornada de Reinhold Messner da Primeira à Sexta Etapa de sua vida em um filme feito na cordilheira de Geislerspitzen quando ele ainda não entrara na casa dos 30 anos. O escalador flui parede acima como uma cascata invertida, a ponta dos dedos mal roça a superfície da rocha a prumo. No rosto, uma ex-

Seu novo desafio: a rede de Museus da Montanha Messner, como este em Bolzano, Itália. "Tive sorte de encontrar algo novo em que posso empregar o meu entusiasmo."

pressão de reverência espiritual. É um registro de uma simbiose, do real encontro do homem com a montanha. "Há momentos, em situações difíceis, longe de tudo, em que toda dúvida some': conclui ele. ''Ali as questões deixam de existir. Se não há questão, não preciso responder. Então sou eu vivendo - eu sou a resposta." O REINHOLD

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Reinhold Messner - O mestre do impossível