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passara perdido

Está vivo! Assim garantem experientes observadores que desde 2004 registraram sete avistamentos de um pica-pau-bico-de-marfim no estado do Arkansas. Mas há quem duvide de que esta criatura lendária, apelidada de Lord God Bird! ("Ave Deus do Céu!", pelo espanto dos que a vêem), tenha escapado da extinção desde a última aparição comprovada, em 1944. Espécime macho coletado por volta de 1900 THE UN!VERSITY DF NEBAASKA STATE MUSEUM

PICA'PAU-BICO-DE-MARFIM

119


A primavera

se aproximava,

e a equipe de observadores

continuava

vigilante.

Cerca de 20 bi贸logos

e


100 voluntรกrios vasculharam o leste do Arkansas de novembro de 2005 a abril de 2006.


----~--------------------------------------------------------------_.

POR MEl WHITE FOTOS DE JOEL SARTORE

"Declaro que às 7h30 da manhã de 16 de março de 2006 não havia nenhum pica-paubico-de-marfim na latitude 34°6/48/~ longitude 9r T 43/~ no coração da mata do Refúgio Nacional de Vida Selvagem de White River, no Arkansas." Testemunho que não dá margem a dúvida, certo? Nada disso. A mais simples afirmação sobre esse pássaro lendário gera equívoco e polêmica. Eu estava entre os cerca de 50 participantes da busca em uma área com possibilidade de abrigar um bico-de-marfim, segundo os biólogos do Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell (LCO). Sentada em silêncio num tronco, de binóculo e câmera a postos, eu ouvia a cantor ia matinal dos pássaros e pensava que, para alguns, todo o esforço parecia inútil e despropositado. 122

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Nem eu nem ninguém veria nenhum bico-demarfim simplesmente porque o último deles nos Estados Unidos morrera solitário décadas atrás e hoje só restam carcaças secas e sem olhos nas morgues ornitológicas das bandejas de museus. Já os devotos desse pica-pau têm outra teoria: a ave, em sua encarnação do século 21, transformou-se em uma criatura tímida como Bambi, silenciosa como um monge trapista e tão preocupada em evitar fotógrafos quanto um informante infiltrado na Máfia em programa de proteção a testemunhas. Em suma: invisível aos sentidos humanos. Tudo me dizia, pois, que nenhum bico-de-marfim estava presente na hora e no local mencionados, mas eu podia estar enganada. O leitor, aviso de antemão, que trate de se acostumar com esse tipo de sentença, pois a lição de hoje é sobre conjunções e advérbios: mas, porém, todavia, senão, possivelmente, não obstante e, é claro, talvez. Especialmente talvez. DOIS MESES DEPOIS, 60 quilômetros ao norte, no gramado defronte à torre do relógio da sede do condado de Monroe, Ron Rohrbaugh, do LCO, falava a um grupo de pessoas abrigadas do Sol do meio-dia sob barracas fornecidas pela funerária da cidade. Estava ali para anunciar os re-


são a estrela do menu na churrascaria e restaurante Gene, em Brinkley, Arkansas, Os avistamentos relatados nos últimos anos puseram a pacata cidade no mapa, e agora curiosos vêm do mundo todo para ver o que puderem.

"HAMBÚRGUERES BICO-DE-MARFIM"

sultados dos seis meses de busca pelo pica-paubico-de-marfim na área oriental do Arkansas conhecida como Big Woods, ou "Grande Floresta", 2 mil quilômetros quadrados de mata e pântanos ao redor do rio White. O esforço mobilizara por volta de 20 biólogos de campo e mais de 100 voluntários cuidadosamente selecionados, além de gravadores remotos de áudio, câmeras automáticas, mapeamento cornputadorizado por GPS e todo o resto da parafernália tecnológica que a equipe reunira com seu orçamento milionário. Rohrbaugh agradeceu ao povo do leste do Arkansas pela hospitalidade, fez um apanhado de pesquisas anteriores e enumerou algumas observações "interessantes" e "fascinantes" que, infelizmente, "não trazem confirmação adicional': Tudo isso poderia resumir-se na frase curta e grossa dita por seu colega Elliot Swarthout dias antes: "Vamos apresentar exatamente o que encontramos nesta temporada - lhufas" Aquilo estava longe. em distância e espírito, da cena de 28 de abril do ano anterior em Washington, quando o diretor do LCO, Iohn Fitzpatrick,

na tribuna ao lado dos secretários do Interior e da Agricultura e dois senadores, anunciou que uma equipe secreta do laboratório confirmara a existência de um arisco pica-pau-bico-de-marfim esvoaçando entre as árvores à beira de um braço de rio chamado Bayou DeView. A redes coberta dessa ave lendária das grandes florestas meridionais, que muitos ornitólogos e observadores de pássaros julgavam extinta desde a década de 1940, foi manchete no mundo todo. Fitzpatrick chamou-a de "a notícia conservacionista do século': Os amantes da natureza extasiaram-se. Houve quem chorasse com a boa nova. Parecia que ninguém conseguiria imaginar algo mais próximo de um milagre da ciência. Justificado estava o seleto círculo de fãs do bico-demarfim que por décadas acreditara na sobrevivência do pássaro e só fora menos ridicularizado que os fanáticos pelo Pé Grande. Quase todos aceitaram a noticia sem questionar. O governo dos Estados Unidos deu sua bênção com a cooperação do Serviço de Pesca e Vida Selvagem. A O G ature Conservancy foi PICA-PAU-BICO-DE-MARFIM

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parceira no anúncio. A revista Science publicou o artigo da equipe de busca. Afinal, o Laboratório de Ornitologia da Universidade Cornell talvez seja o primeiro dentre os mais prestigiosos centros de estudos de aves do mundo. Quando o Vaticano emite um édito, a quem se pode pedir uma segunda opinião? Quase nenhum leigo sabia quanto, na realidade eram ínfimos os indícios de existência do bico-de-marfim e que só recentemente a própria equipe ganhara confiança e unanimidade suficientes para declarar a comprovação científica. "Com toda a euforia, nossa situação era bem estranha", disse o holandês Martjan Lammertink, especialista em pica-paus da equipe do Cornell. "O mundo inteiro estava empolgado, enquanto nós chegávamos ao fim de um trabalho de campo que na verdade fora extremamente ambíguo:' De fato, nos dez meses' anteriores só ocorrera um avistamento que o grupo julgara válido. A equipe decidira afirmar ter provas de que um único bico-de-marfim estava de fato presente no Arkansas em 2004 e início de 2005. Foi um ato de coragem admirável, mas, dependendo do que acontecer nos próximos anos, essa conclusão da equipe poderá vir a ser questionada enquanto ainda existir gente interessada em aves. A medida que mais ornitólogos e observadores examinavam os indícios - sete relances fugazes e quatro segundos de um vídeo obscuro que faz o famigerado filme do Pé Grande parecer o doeumentário A Marcha d05 Pingüins -, avultava a polêmica, que de debate educado logo descambou para palavrões nada científicos. O mundo das aves dividiu-se em Crentes e Céticos e se subdividiu em Verdadeiros Crentes, Agnósticos e Ateus, com ex-amigos e colegas trocando farpas. A PRIMEIRA AVISTAGEM recente ocorreu

do memorável anúncio, membros da equipe do Cornell reuniram-se no escritório da Nature Conservancy em Little Rock para discutir o trabalho. Analisaram os sete avistamentos e exibiram o vídeo. Como bons cientistas, expuseram meticulosamente os aspectos positivos e negativos de suas provas. Depois de ouvir atentamente a apresentação, O diretor do refúgio de White River, Larry Mallard, olhou bem para Martjan Lammertink e disse: "Martjan, sabe aquele ditado de que não dá para uma mulher ficar ligeiramente grávida? Então me diga: estamos grávidos ou não?" "Estamos grávidos", respondeu Lammertink. TRÊS SEMANAS ANTES

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fevereiro de 2004 próximo a esta ponte sobre o braço de rio 8ayou DeView. Desde então, 7 mil novos hectares de proteção foram traçados.

Muitos não conseguiam entender se Lammertink tinha náuseas ou se era apenas um problema de nervos. Por que tanto carnaval? Havia pássaro ou não havia pássaro? A atual polêmica não pode ser entendida nem se consegue julgar a prova da existência do bicode-marfim - já que não há nenhum espécime a ser trazido do Arkansas, como um King Kong vindo da ilha da Caveira - sem que se conheça o pica-pau-de-penacho-vermelho, o curinga do jogo.


Observações não-confirmadas do pica-pau-bico-de-marfim desde 1944 _

Atual hábitat propício (floresta de fundo de vale)

_

Âmbito hist6rico (início do século

FONTES: GULF

JEROME

COAST

JACKSON,

UNIVEAStTY;

CORNEllLABORATORY

FLORIDA

JQHN

FITZPATRICK,

DF DRNITHDLOGY;

U.5. fJSH E WtLDLlfE

SEAVJCE

MEGHAN

E. LISA

M. KIEFFER

18)

R. R!TTER,

NGM

MAPS

..•. Esse pássaro preto e branco, grande e relativamente comum, emite um chamado estridente que pa. rece zombar dos milhares de pessoas que o confundiram com seu parente, parecido porém maior. (Desde o anúncio da descoberta, o LCO recebeu quase 3 mil informes sobre bicos-de-marfim, alguns de lugares improváveis, como Vancouver e Vermont.) Para os Céticos, o vídeo e os avistamentos podem ser descartados como erro de identificação de um pica-pau-de-penacho-vermelho, gerado pela ânsia de encontrar o bico-de-marfim. David Sibley, autor de um guia de aves campeão de vendas e especialista em identificação, de inicio exultou com a notícia sobre o bico-de-marfim. Era "uma história em que todos queriam

acreditar': ·diss~.Mas logo que reexaminou as evidências, percebeu como eram tênues. Semanas depois do anúncio, ele estava no crescente grupo de especialistas que, reservadamente, partilhavam suas dúvidas. Cada um vivenciara um momento como o descrito por Sibley: "Ocorreu-me que aquela imagem de vídeo indefinida poderia ser a de um penacho-vermelho" ''Ao mesmo tempo, percebi o que isso poderia significar para a credibilidade da ciência da conservação', diz Sibley. ''Aquela era a maior notícia ornitológica do século. Foi manchete internacional. E se estivesse errada?" Onze meses depois que a Science divulgou o artigo da equipe do Cornell, a revista publicou PICA-PAU-BICO-DE-MARFIM

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Bicos-de-marfim fizeram ninho em 1935 na região de florestas da Louisiana chamada Singer Tract (acima). Novas evidências, entre elas cascas de árvore arrancadas (à direita), sugerem que a ave possa ainda existir às margens do rio Choctawhatchee, ARTHUR

A. ALLEN,

CORTESIA

DO CORNELL

LABORATQRY

OF ORN!THOlOGYj

BR\AN

W. ROlEK,

AUBURN

na Flórida. UNIVERSIIT

(DETALHE)


outro, escrito por David Sibley e colegas, afirmando que o vídeo não excluía a possibilidade de a ave mostrada ser um pica-pau-de-penacho-vermelho. Comell simultaneamente publicou uma réplica. Observadores de pássaros leigos e o público em geral ficaram confusos com toda a discussão sobre superfícies ventrais, rêmiges e distorções de vídeo, mas alguns Crentes sem dúvida se converteram ao agnosticismo, e muitos Agnósticos tornaram-se Ateus. A equipe do bico-de-marfim ainda sustenta a validade dos sete avistamentos (e menciona outros que quase entraram na lista), mas sua defesa nem sempre é veemente. Ken Rosenberg, renomado ornitólogo e membro da equipe de recuperação do bico-de-marfim, defende a análise do vídeo da equipe do Cornell, mas reconhece que a má qualidade da imagem pode impedir uma resposta decisiva. ("Se eu gostaria que tivéssemos um filme melhor?", pergunta o diretor do LCO, [ohn Fitzpatrick, e imediatamente responde: "Mais que qualquer pessoa.") Sobre os avistamentos, Rosenberg afirma: "Mesmo nos melhores, as anotações de campo deixam a desejar, e as recordações são ... bem, são insuficientes. Espero que isso não soe como dúvida quanto ao que eles viram, mas é frustrante': Vezes sem conta, membros da equipe frisaram que haviam sido influenciados pelas reações de pessoas que diziam ter visto o bico-de- marfim. Fitzpatrick acreditou no avistamento de fevereiro de 2004 relatado por Tim Gallagher, do LCO, em parte devido à perturbação emocional de Gallagher; segundo Fitzpatrick, ele parecia "em choque': Rosenberg, "em lágrimas'; ouviu relatos sobre vários dos avistamentos anteriores e acreditou. Quando Ron Rohrbaugh chegou de canoa para buscar Melanie Driscoll após seu avistamento em 11 de abril de 2004, pôde perceber, a 100 metros de distância, que alguma coisa acontecera. Pensou que Me1anie talvez tivesse sido picada por uma cobra. "Lembro-me de que tentei remar mais depressa para alcançá-Ia. E, quando cheguei, vi aquele vulcão de euforia." Mas no mundo da ciência choque e lágrimasnão são prova. De Iohn Fitzpatrick ao bando de excêntricos conectado via internet que anunciam bicos-de-marfim praticamente toda semana na Louisiana, na Flórida e em outras paragens, todos têm de enfrentar uma pergunta inescapável: por quê, apesar de todos os avistamentos informados nos 62 anos desde que o último bico-de-

marfim incontestado foi visto, não houve ao menos um caso em que outros observadores pudessem voltar ao local, encontrar a ave e tirar uma foto nítida e irrefutável? Os hábitos alimentares especializados dobico-de-marfim, alegam os Crentes, forçam o pássaro a uma existência nômade, percorrendo longas distâncias para encontrar as poucas e esparsas árvores mortas que abrigam sua presa, os insetos e larvas perfuradores de madeira. Mas essa idéia do nomadismo é uma faca de dois gumes. Se a ave vive em trânsito, pondera David Sibley, "poderíamos esperar que em algum momento nos últimos 60 anos uma delas aparecesse no atracadouro de Vicksburg, Mississippi, e passasse três dias arrancando a casca de alguma árvore morta; aí todo mundo a veria': As extremas pressões da caça e das capturas para museus sobre a minúscula população remanescente no século 19 e início do 20 eliminaram os bicos-de-marfim barulhentos e incautos, dizem alguns Crentes. A seleção natural favoreceu a sobrevivência dos silenciosos e muito ariscos, e assim restaram uns poucos indivíduos quase mudos e hiperarredios, bastante diferentes da espécie que alguns afirmam ser venerada pelos nativos americanos por sua coragem. (Muitos cientistas, porém, duvidam que tal mudança poderia ocorrer em apenas dois séculos.) Vêm então os Céticos e apontam o óbvio: ao menos ocasionalmente, pares de bicos-de-marfim devem fazer a corte, acasalar-se, abrir uma cavidade, pôr ovos, chocá-los, alimentar filhotes no ninho, coisas que requerem permanecer em algum lugar por bem mais de dois meses. Então, por quê, em 62 anos, não foi encontrado um único ninho? Esse talvez seja, mais que qualquer outro, o problema que impede Céticos não muito convictos de acreditar. Mas Rosenberg, Rohrbaugh e Lammertink, junto com Crentes de todas as partes, contra-argumentam com uma idéia que poderia estar correta, e tem mesmo de estar se ainda existirem bicos-de-marfim neste planeta: há no sul vastas áreas de floresta em terras baixas em que poucas pessoas vão, e ali alguns pares de aves poderiam fazer ninho, talvez nem mesmo todo ano, mas em anos não contínuos, sem serem encontrados. "Posso imaginar que uma população pequena e muito dispersa, em número suficiente apenas para não desaparecer, tenha persistido até o presente?'; pergunta Iohn Fitzpatrick. "Posso." PICA-PAU-BICO-DE-MARFIM

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Reunida por cientistas

entre 1869 e 1914, a maior coleção do mundo,

com mais de 60 espécimes,

está


na Universidade Harvard. As aves foram condenadas principalmente pelo desmatamento.


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ASAS DE PICA-PAU nho de um grão de mostarda, puPOR DOIS ANOS, andei algumas lará de alegria porque essa ave ravezes pelas florestas aluviais de ra está viva. E, se for um Cético, White River com pessoas que procuravam o bico-de-marfim. buscará razões para essa mulher Alojei-me com elas em uma canão ter visto nenhum pica-paubico-de-marfun. bana de caçadores de pato; com elas comi bagre e tomei cerveja; e Muitos dos principais observadores de aves dos Estados Unilhes perguntei sobre tudo, de seus dos, inclusive David Sibley, têm sonhos de infância até, relutante mas inevitavelmente, a credibiliuma resposta simples: observadores de aves, mesmo os melhodade científica. Devo ser franca e res, cometem erros. Cada caso de admitir que acabei por estimar e respeitar quase toda essa gente. identificação em campo é uma tarefa subjetiva de classificar inforOcorreu-me que, se eu pretendia mações e formar opinião, e às veser um Cético, em respeito a eles e ao bico-de-marfim (ou à sua zes a conclusão é errada. "Não tem relação nenhuma com homemória), eu devia olhar nos nestidade, conhecimento especiaBordo de fuga preto na parte olhos de alguém que houvesse de baixo da asa lizado ou veracidade", argumenvisto a ave mas não estivesse parta Sibley. "Todos cometemos esse tipo de erro. ticipando da equipe e ouvir sua história em priNos empolgamos com uma possibilidade, e o cémeira mão. Foi o que fiz. Os olhos de Melanie Driscoll, na opinião de rebro tende a aceitá-Ia como real sempre que veKen Rosenberg, testemunharam "o melhor avismos algo remotamente parecido:' Melanie Driscoll me disse, com a calma de tamento de todos" os sete citados pela equipe de quem estivesse pedindo mais um chá: "Tenho busca do pica-pau. Sentada à minha frente em um café de Baton Rouge, ela não buscou minha 100% de certeza de que vi um bico-de-marfim" Riu ao lembrar-se de que, mesmo no instante de aprovação nem tinha receio da minha reação. seu avistamento, ela sabia que as pessoas a julgaLimitou-se a relatar sua experiência. Acreditar ou não era problema meu. Certas pessoas às quais riam louca. "Já que era para ser candidata ao hosela fora apresentada no passado, ao ouvir que ela pício, pelo menos eu iria em boa companhia': graera um d05 que avistaram o bico-de-marfim, cejou. "Não espero que acreditem no meu avisolharam exasperadas para o teto e lhe deram as tamento. Uma pena, mas não posso fazer nada. De certo modo, até acho incrível que alguém acrecostas, sem dizer nenhuma palavra. E ela conhedite. Agora aguardamos provas mais objetivas." ceu Verdadeiros Crentes que imediatamente, sem questionar, idolatraram-na como a um astro do À BEIRA DA RODOVIA Interestadual 40, cartazes rock, embora fosse óbvio que não haviam analiainda convidam os motoristas a parar em Brinsado com calma as evidências nem se informado direito sobre toda a situação. Gente assim, disse kley, "Lar do Pica-Pau-Bico-de-Marfim". A cidade nasceu como um acampamento de ferroviáMelanie, a irritava tanto quanto os Céticos. rios chamado Lick Skillet, e no século 19 era granDepois de ver o bico-de-marfim, ela me contou, a primeira coisa que pensou foi: "Pelo amor de o movimento de trens trazendo árvores de Deus, nada de chorar. Sou uma cientista" gigantescas das florestas aparentemente inesgotáveis da região hoje conhecida como o pantanal do Ela explicou que mirou a ave em vôo com um Arkansas. Os madeireiros foram tão eficientes que, binóculo que amplia dez vezes a imagem e conseguiu "ver três movimentos completos das asas, terminada a tarefa, restavam apenas pequenas faiascendentes e descendentes': E prosseguiu: "A ca- xas de mata às margens de cursos d'água como o da movimento pude distinguir o branco no borBayou DeView. E o último bico-de-marfun desado de fuga, tanto na parte de baixo da asa como pareceu desse lugar muito antes de os soldados na de cima': além do "branco no pescoço, de ci- embarcarem nos trens para lutar na Primeira Guerra Mundial. Isto é, a menos que ... ma a baixo e de um lado ao outro do corpo até Até 28 de abril de 2005, Brinkley estava morquase se encontrar com o branco das asas". Com rendo junto com muitas cidadezinhas do leste do tudo isso, se você tiver uma pitada de fé do tama130 NATIONAL

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ARTE DE OAvrD AllEN

SIBlEY


OLHE DE NOVO: avistamentos

identificação.

recém-informados do bico-de-marfim podem ser erros de O pica-pau-de-penacho-vermelho (acima) é só um pouco menor que o

bico-de-marfim, e as diferenças ficam evidentes apenas aos entendidos. Os padrões preto e branco de suas asas são reveladores (página oposta), mas difíceis de avistar.

Arkansas. Seus sonhos realizaram-se com a redescoberta do bico-de-marfim, símbolo da vida selvagem extinta, a apenas 5 quilômetros do McDonald's local. Abriram-se novos negócios, velhas firmas foram rebatizadas. Guias de caça tornaram-se guias de aves, Hospedarias para esportistas dirigiram seus anúncios a observadores de pássaros. A primeira Celebração do Chamado do Pica-Pau-Bico-de-Marfim da cidade atraiu 250 pessoas de todo o país ao centro de convenções. Conversei com Katie e Thomas Iacques, coeditores do jornal de Brinkley, em seu escritório nos fundos da agência dos Correios. Haviam acabado de imprimir um artigo que analisava o agitado ano seguinte ao anúncio do bico-de-marfim. Tanta coisa acontecera que a matéria estendeu -se por duas edições do Brinkley Argus.

Perguntei se a cidade pensara no que aconteceria caso o pica-pau nunca mais fosse avistado. Katie riu e respondeu: "Já fizeram essa pergunta há muito tempo." Brinkley tem uma resposta: cita uma cidade do Novo México que tem sido muito bem-sucedida como local de peregrinação de um tipo de Crente ligeiramente diferente. "Veja Roswell, por exemplo", disse Katie Iacques. "Toda a reputação com a queda da nave extraterrestre veio de um pequeno artigo de jornal de 1946 ou 47. Então, não é preciso muito para que as pessoas continuem a vir a um lugar em que existe mesmo um pequeno vislumbre de esperança de algo maravilhoso." A equipe do Cornell não desistiu de encontrar algum bico-de-marfim no Arkansas. Tanto assim que voltará a Big Woods para a temporada PICA-PAU-BICO-DE-MARFIM

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de busca no inverno-primavera de 2006-2007, embora com subsídio bem reduzido. E, apesar do insucesso no Arkansas, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos decidiu financiar buscas em hábitats possivelmente adequados em vários outros estados do sul para determinar de uma vez por todas se o bico-de-marfim está vivo. Comell planeja enviar uma equipe itinerante de especialistas de elite para assessorar os grupos de busca em locais como a bacia do rio Choctawatchee, na Flórida, de onde recentemente partiu uma rajada de avistamentos não confirmados. Ron Rohrbaugh afirma que Cornell desenvolveu tecnologia "muito refinada" de busca. Só que essa tecnologia funciona tanto para resultados positivos como negativos. Técnicas de câmera remota criadas pela equipe de busca mostraram que o tipo de descascamento de tronco de árvore que se supunha típico do bico-de-marfim também é obra rotineira do penacho-vermelho.

A polêmica acirrou -se à medida que especialistas examinaram os indícios - sete relances fugazes e quatro segundos de um vídeo obscuro que faz o famigerado filme sobre o Pé Grande parecer A Marcha dos Pingüins. Avançadas análises de áudio revelaram que muitas espécies de ave comum - especialmente o gaioazul, o pica-pau Sitta carolinensis e o pássaro-preto de asa vermelha - emitem chamados capazes de levar o ouvinte a confundi-Ias com os do bice-de-marfim. (Alguns Crentes perguntam como é que o gaio-azul, famoso imitador, poderia imitar uma ave se ela estivesse extinta por décadas.) Seja como for, as técnicas do laboratório Comell poderiam, durante a im.inente busca, acabar por reunir principalmente provas de que o pica-pau-bico-de-marfim está mesmo extinto. Há mais em jogo do que a existência de uma espécie. Mark Robbins, ornitólogo da Universidade do Arkansas e um dos mais acerbos críticos da equipe do Cornell, declara a razão de ter-se envolvido na polêmica: "Tiramos dinheiro de espécies que não estão extintas, mas correm riscos" - dinheiro que seria destinado a outros alvos do programa federal para animais ameaçados. 132 NATIONAL

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Há tempos está em marcha no Congresso americano um sério esforço de rever (ou eviscerar, como dizem os conservacionistas) a Lei das Espécies Ameaçadas. Receia-se que o episódio do bico-de-marfim acabe fornecendo munição para politicos e críticos alegarem que os ambientalistas exageram, abusam, manipulam a ciência e usam a tática de amedrontar para alcançar seus objetivos. David Sibley não está totalmente pessimista, e afirma que, enquanto a situação "não explodir em alguma teoria de conspiração ou um escândalo que venha prejudicar a conservação, julgo que no longo prazo algum benefício nascerá desse debate. Acho que a atenção voltada para Big Woods e o hábitat é benéfica." É essa atenção que Iohn Fitzpatrick tinha em mente quando disse: "Estamos falando em conservação e em ciência, e não em observação de pássaros': Os Céticos acusam Fitzpatrick de "deturpar a missão", ou seja, mudar o enfoque do projeto para distrair as pessoas da possibilidade de o bico-de-marfim não existir. Em parte, pode ser verdade - mas atesto que ele vem dizendo a mesmíssima coisa desde o dia em que o conheci, em março de 2004. Naquela hora de empolgação e confiança generalizadas, ele repetidamente usou a analogia de que "a mídia não aprendeu nada com o episódio da coruja-pintada" A questão não era "a pobre ave de olhos castanhos': mas a contínua destruição das florestas primitivas nos estados americanos da costa noroeste do Pacífico. No caso do bico-de-marfim, ele disse, "o importante era expandir as áreas protegidas nas grandes florestas do Arkansas" "É possível", pergunta Fitzpatrick, "trazermos de volta aos Estados Unidos da América um grande trecho de terra com o aspecto que ele tinha no século 19? A resposta é sim. Eis o lugar ideal para isso. E, se o bico-de-marfim continua ou não a existir aqui, não importa. O que o bico-de-marfim nos diz importa. Ele nos diz que temos oportunidades que podemos aproveitar ou não aproveitar. Devemos aproveitá-Ias." Muitos concordariam que conservar Big Woods é um objetivo admirável. Mas se poderia argumentar que a existência do bico-de-marfim importa, sim, aos que choraram ao ouvir sobre sua redescoberta ou aos envolvidos na saga dessa ave. Melanie Driscoll foi recrutada para uma missão secreta e viu um pássaro voar na clareira da floresta por cerca de quatro segundos. Ela acredita nos avistamentos que basearam o anúncio


"SOU UM CRENTE. Acho que o encontraremos", diz James R. Hill 111(à esquerda), do laboratório Cornell. Ele e o biólogo Waylon Edwards fizeram suas refeições em pé na temporada passada no Refúgio Nacional de Vida Selvagem de White River. A busca prossegue.

da redescoberta, mas também é suficientemente realista para mencionar a possibilidade de que, se o bico-de-marfim não for mais visto, a história dirá que foi "histeria em massa, que ninguém viu o que pensou ter visto, que o bico-de-marfim realmente se extinguiu há 60 anos, ou há 25, e nós simplesmente ainda não sabíamos': Se mais uma temporada passar sem que surja alguma prova irrefutável, mais pessoas acabarão por achar que o bico-de-marfim do Arkansas é mais uma da longa série de alarmes falsos e identidades equivocadas. Não é preciso ser matemático para calcular a probabilidade de que o bicode-marfim de Bayou DeView possa ter sido o último indivíduo vivo de sua espécie. Mas as discussões prosseguirão por anos, pois ninguém poderá provar que não houve nenhum bico-demarfim no Arkansas em 2004 e 2005. A equipe do Comell ressalta nunca ter dito nada além de que houve um indivíduo presente em sete dias específicos ao longo de 14 meses. Desde então, como já me disse mais de um membro da equipe do Cornell, "a ave pode ter sido atropelada por um caminhão na Interestadual 40':

outra primavera trará novas folhas aos imponentes carvalhos e aos centenários ciprestes-calvos. Ursos-pretos emergirão da toca em imensos ocos de sicômoro e filhotes de águiacareca pedirão comida aos pais. Gaviões-tesoura farão ninhos, serpentes partirão à caça de rãs-touro distraídas e marrecas-carolina guiarão seus filhotes em braços de rio plenos de peixe. Também virão grupos de busca, não só ao Arkansas mas ao pantanal Congaree, na Carolina do Sul, à bacia do rio Atchafalaya e a outras florestas sulistas. Chegarão com binóculos e câmeras, ouvirão os sons da mata e vasculharão o céu, com o coração aos pulos toda vez que um picapau-de-penacho-vermelho irromper por entre as árvores. Muitos serão Crentes, mas nem todos, pois nenhuma ave jamais significou tanto para tanta gente como o bico-de-marfim. E ninguém, nem os Céticos, quer desistir do talvez que indica a última esperança para o pássaro perdido. O EM BIG WOODS,

~ Histórias de pica-pau

Ouça, em inglês, Nancy

Tanner falando sobre seu avistamento o último confirmado,

de 1944,

em ngbrasil.com.br/0612

PICA-PAU-BICO-DE-MARFIM

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Pica-pau-bico-de-marfim - O pássaro perdido  

Está vivo! Assim garantem experientes observadores que desde 2004 registraram sete avistamentos de um pica-pau-bico-de-marfim no estado do A...

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