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Sábado,20.3.2010

VIDA

nós ou se a Terra esquentaria de qualquer forma. Q que é mais provável? Para mim. existe um gráfico que basta: mostra o aumento da temperatura em função do aumento da emissão de gás carbônico na atmosfera, desde 1850, e o crescimento é óbvio. Há uma correlação direta entre a sociedade cada vez mais industrializada, que injetou cada vez mais gases na atmosfera, e essa mudança climática. Que isso está acontecendo não é duvidoso, difícil são as previsões. Há algo de razoável nelas? Há um pouco de exagero, mas entender isso é uma lição de como a ciência funciona. Em mecanismos complexos como o clima, não se pode dar uma resposta branca ou preta. Tem de ser estatística: probabilidades com margem de erro. Tantos dados e tantos fatores contribuem para mudanças do clima que uma resposta exata é impossível. Isso não é ciência.

Tanto no prefácio como no epílogo do seu livro há apelos para a urgência da preservação da vida no planeta Terra. Que riscos estamos correndo? Terremotos, explosões vulcânicas e maremotos, ou seja, os desastres naturais, aconteciam no passado também, e com bastante intensidade. O que há de mais óbvio, hoje, é que o planeta está esquentando. Agora a questão está politizada e algumas pessoas acham que a ciência está perdendo a credibilidade por causa de escândalos. Mas a verdade é que há milhares de cientistas trabalhando em aquecimento global e esses relatórios (do IPCC, o Painel do Clima da ONU) são feitos a partir do consenso de muitos grupos diferentes, do mundo inteiro. Há sensores medindo a temperatura da água, a pressão atmosférica, a circulação dos ventos no mundo inteiro, o degelo ... Degelo, então, é algo que acontece muito rapidamente. O planeta está esquentando, não há dúvida. O debate é se isso é uma questão antropogênica ou não.

Há quem diga ser coincidência o aumento das emissões e que a Terra esquentaria de qualquer forma. Faz sentido? Não. Basta olhar para como era o mundo em 1800 e como é hoje. Ele-se transformou completamente. A população mundial dobrou em 4Q anos. Isso tem um custo ecológico muito grande porque todo mundo tem que comer, consumir energia, e quem fornece isso tudo é a Terra. As coisas não podem continuar como estão. E como colocar muita gente num quarto fechado. A comida vai acabar, vai esquentar, vai faltar água, urna série de emissões vão acontecer ... Estamos r


Você diz que há também um aspecto autobiolJráfico nisso, não? Minha mãe morreu quando eu tinha 6 anos e passei boa parte da infância sendo mórbido. Eu era muito místico e, pensando cada vez mais em religião, cada vez me decepcionava mais até que descobri a ciência, com uns 13 ou 14 anos. Foi quando transferi para ela a ideia de perfeição, de transcendência. A ciência nos transforma em deuses. Descobrir a mente de Deus é se transformar em Deus também. Também queria ser Deus, então estudei, pesquisei, me tornei um unificador. Mas, aos poucos, fui percebendo que essa noção era mais um desejo de que a natureza fosse de uma certa forma do que a forma como a natureza de fato é. 1550 se deve a um amadurecimento seu ou a eventos externos? As duas coisas. Tem a maturidade e tem o fato de eu morar, nos últimos dez anos, em um lugar super bucólico, afastado da cidade, em que estou muito em contato com a natureza. Moro no meio da floresta, com um rio enorme, montanha ... Antes, via a natureza como um projeto quase mitológico de busca pela perfeição. Mas comecei a reparar. Ne uma árvore é perfeita, as nuvens não são perfeitas, nem as estrelas, nem a lua. Peraf nada é perfeito no mundo. As coisas são imperfeitas. Então comecei a pesquisar, não em busca pela Teoria Final - que seria a perfeição de tudo - mas sobre como a imperfeição, as assimetrias, têm um papel fundamental na formação das coisas do mundo. Desde um átomo até uma galáxia, até um ser vivo.

Você diz que mudar de perspectiva foi doloroso. É uma dor do elJo? Não tanto, mas, pô, investi dez anos de vida e de carreira nisso. A noção de que existe uma verdade final é muito sedutora. E doloroso como para quem acredita em

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profundamente interligados com o mundo em que vivemos. A espécie humana é uma grande parasita, que se espalha pelo planeta de forma muito mais invasiva que o pior câncer. É uma situação muito complicada e complexa. A grande questão é se esse crescimento é instável ou estável. Se vai nos levar a um sistema possível de ser mantido ou não. Não sabemos se o planeta aguenta muito mais gente. Mudanças de hábito individuais têm impacto global ou é romantismo? O mundo tem muita gente, muito diferente. Ter 1% ou 0,5% da população iluminada com relação a isso não vai causar diferença a curto prazo. Mas a mudança tem que começar em algum lugar e às vezes grandes revoluções começam porque algumas pessoas começaram a pensar diferente. Queria que você falasse um pouco da transição entre buscar a teoria que explicaria os mistérios da natureza ter a convicção de que a criação é imperfeita. No livro, mostro que essa ideia de uma teoria única tem raízes no monoteísmo. Antes de Tales (filósofo pré-socrático), só se respondia à pergunta sobre do que é feito o mundo usando deuses e mitos. Ele é o primeiro a dar uma resposta racional, e nasce o aspecto material da unífícação. Uma ideia extremamente elegante e sedutora. Einstein também acreditava que, por trás da disparidade do mundo, todas as forças eram manifestações de uma só.

Certos aspectos da vida são tão complexos que se tornam írredutíveís mas dizer que ' Deus está aí é um absurdo. A natureza pode errar estruturas complexas sem ter um arquiteto manipulando tudo por trás

Deus e deixa de acreditar. Me tornei um agnóstíco com relação a essas teorias. Uma transformação não só intelectual mas emocional. A primeira conseqüê~cia de . abandonar esse Deus perfeito e olhar para a . na~eza como uma imperfeição é a solidao. Comecei a pensar de uma forma que a J?aioria das pessoas não pensava. É com~ rr o Eldorado e descobrir que ele nao existe. Então parti para um outro c~o, .que acabou me levando a algo muíto mais profundo e importante do que era.a b~sca pelo Eldorado. Hoje, pessoas m~~o unportantes que faziam parte dos unificadores estão saindo fora, inclusive o Steven Weinberg, que é urri prêmio NobeI . (de Física) muito importante. Não estou mais tão sozinho.

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Há allJum valor no criacionismo? De jeito nenhum. Criacionismo não é ciênc!~. É. fé, religião tentando se passar por ciencia. Quando algo é científico as hipóteses têm de ser submetidas a ~a


confirmação empíríca, e o críacíonísmo não pode ser testado em laboratório. Certos aspectos da vida são tão complexos que se tornam írredutíveís, mas dizer que Deus está ai é um absurdo, não há necessidade. A natureza pode criar estruturas ultracomplexas sem ter um arquiteto manipulando tudo por trás. O conhecimento humano sobre o mundo é, por defíníção, limitado. Só sabemos uma certa quantidade de fatos, e sempre será assim. Sempre haverá uma escuridão perene à nossa volta. Os criacionistas vão adorar adequar a minha mensagem à propaganda deles, mas não tem nada a ver com criacionismo. ~ Você tem uma capacidade grande de tornar simples e compreensíveis Idelas muito complexas. Por que a física, a ciência, é tão pouco atraente na escola? A maneira como a ciência é ensinada faz com que seja muito chata. Ciência, na verdade, é a maneira como nós, seres

humanos, tentamos entender o que está acontecendo no mundo à nossa volta. Mas _ o que acontece? Tiram o mundo da equação, colocam as crianças dentro de uma sala de aula e começam a passar fórmulas no quadro-negro. Isso não é ciência. A representação matemática do mundo é só a língua da ciência. Toda aula de ciências deveria começar do lado de fora. Num parque, num jardim onde se veja as plantas, o céu. as nuvens, a água. "Isso é o mundo. Olha só quanta coisa diferente ... " Ai volta-se para a sala de aula com pessoas interessadas. Isso dá um colorido à ciência que não existe em sala de aula, com rarissimas exceções, graças a professores iluminados que sabem- disso. Além de escrever na FOlha, você fala de ciência no Fantástico, que é bem mais popular. Você gosta disso? Não todos, é claro, mas o cientista, de modo geral, tem o dever de trazer a ciência para as pessoas. Ela é parte da nossa

As coisas não podem continuar como estão. É como colocar

muita gente num quarto fechado. A comida

vai acabar, vai esquentar, vai faltar água,

uma série de emissões vão acontecer ...

cultura e, de urna maneira muito óbvía, define a forma corno olhamos para o mundo. Pedro Álvares Cabral morava em um universo completamente diferente do nosso. Achava que a Terra era o centro do universo, imóvel, e que o universo terminava nas estrelas. Em 500 anos isso mudou completamente. Estamos na periferia de uma galáxia e existem bilhões de outras. Muda a percepção do que significa ser humano e vai continuar mudando. Por isso é importante que a ciência seja imbuida de humildade. Esse negócio de que o cientista é dono da verdade é uma grande besteira. Você mora nos Estados Unidos há muito tempo. Qual é o prejuízo ao Brasil por não segurar suas melhores cabeças? Todos os países perdem cérebros e isso está' acontecendo cada vez mais. Com o crescimento da China, da Coreía e do Japão, vários pesquisadores americanos terminam o doutorado e vão trabalhar lá.


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Há dez 2.IlOS isso não acontecia. Por outro lado, o Ilrasil tem cientistas de primeira Unha e com bastante amparo, especialmente em São Paulo. As instituições de ponta têm pesquisadores que não deixam a dever a nenhum outro de qualquer outro lugar no mundo. Difícil é a manutenção do financiamento, mas aqui (nos EUA) também não é fácil, não (risos).

Sábado, 20.3.2010

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PESSOAL

o que

o levou a sair do país? Fiz graduação e mestrado no Rio de Janeiro e ganhei bolsa para o doutorado na Inglaterra. Na época, o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, agência federal de fomento à pesquisa) não requeria o retorno dos bolsistas. Então tentei uma posição como pós-doutorando nos EUA, e consegui. Aí, me casei e o lado pessoal entrou. Hoje tenho três filhos do primeiro casamento, e um do segundo. Na Universidade de Dartmouth você tem companheiros ilustres, como OUver Sacks e Roald Hoffman (Nobel de Química). Além Cleles, com que outros você convive e troca ideias? Esses dois são amigos, principalmente o Hoffman, que endossa o meu livro. Tem também o Brian Greene (autor de Uníverso Elegante), e estou conhecendo muito Stewart Kauffman, que é um teórico bem legal, supercriativo. Mas é normal, faz parte da carreira conhecer uns caras mais velhos e importantes (ri, um pouco tímido). A mesma ciência que inventou a anestesia e a vacina também fez a bomba atômica •.O que você pensa sobre esses potenciais tão distintos? A ciência é um corpo de conhecimento e o homem faz o que quer com ela, tanto para o bem como para o mal. Isso é inevitavelmente parte da condição humana. A aliança entre a ciência e o Estado, que é de onde esse problema vem, é complicadíssima. Ao mesmo tempo que a


Você é favorável a pesquisa com células-tronco embrionárias?

gente precisa dessa aliança para sustentar a pesquisa, o Estado precisa da pesquisa para se auto-sustentar e se defender. É uma espécie de pacto com o diabo. Paga -se um preço alto por isso. E tem o lado econômico, há muito mais cientistas do que vagas na academia, então muitos vão para a Defesa, para sustentar a família. Como você vê seus colegas iranianos?

Também tem o lado patriota. Dependendo do grau de extremismo, eles podem achar que estão fazendo o bem e que os Estados Unidos são o grande satã. Da mesma forma que os cientistas que trabalharam no Projeto Manhattan, que criaram a bomba atômica em 1942, acharam que estavam fazendo o bem. A possibilidade de saber se um bebê terá determinadas características ou doenças antes de nascer é bom ou seria melhor não mexermos com isso? , (Longo silêncio.) É inevitável que isso vá

acontecer. Com o desenvolvimento da engenharia genética, cada vez mais essa seletividade vai acontecer, não tem muita saída. O problema é o que vamos fazer com isso. Começa a virar Admirável Mundo Novo: quem tem dinheiro faz, quem não tem não faz e começam a se criar duas classes genéticas na sociedade. A coisa fica bem complicada bem rápido.

Com certeza. Contanto que sejam tiradas das clínicas de fertilidade em que os óvulos seriam descartados, é o contrário: passam a servir a um propósito em vez de serem jogadas no lixo. Desligar aparelhos de alguém em estado vegetativo há anos é assassinato?

Não. Estou bem liberal em relação a eutanásia. Voltando para as estrelas. Nós temos essa curiosidade eterna de saber se estamos sozinhos ou não no universo. Quando os cientistas encontram água em Marte, algo na lua de Júplter, coisas assim, são descobertas importantes?

Acabo de voltar de uma conferência no Arizona (EUA) sobre a busca de vida em outros planetas. Encontrar água, essa lua de Júpiter e planetas com massa parecida com a da Terra girando em torno de estrelas são coisas incríveis (risos). Agora, o que se está vendo é que o número de planetas e luas interessantes é enorme. Na Via Láctea, o nosso sol é apenas mais um entre 300 bilhões de estrelas e estamos vendo que 20% dessas estrelas têm planetas girando em torno. Um dia encontraremos um planetlnha distante, parecido com o nosso, que poderá ser a nossa salvação?

Uma coisa é a vida terrestre, que s6

aconteceu aqui. Outra é a vida que acontece em vários outros pontos do universo. Tudo indica, de uns 10 anos para cá se descobriu, que certas formas de vida na Terra . sobrevivem em ambientes extremamente hostis - a 4 km de profundidade no oceano, sem luz, a temperaturas baixíssimas. Isso mostra que a vida é extremamente versátil. Ou seja, é muito provável que em outros ambientes hostis galáxia afora exista vida. Mas que tipo? Seres complexos, com muitas células, ou bactérias, um bando de amebas? Vida, como a que existe na Terra, é muito, muito rara. Inteligência, mais ' ainda. Mesmo que exista uma civilização inteligente em algum canto da galáxia, a distância é tão enorme e a probabilidade é tão pequena que, para todos os efeitos, estamos sozinhos. Você concorda, então, com a piada que diz que a maior prova de que há vida inteligente lá fora é que até hoje eles não fizeram contato conosco?

Tenho uma tirinha do Calvin e Haroldo, que uso em palestras, com essa frase. É ótima. Mas a conclusão é que nós somos seres extremamente importantes. Mesmo que não ocupemos o centro do universo, e que não tenhamos sido feitos por Deus, somos criaturas extremamente importantes.

Dependendo do grau de extremismo, os iranianos podem achar estão fazendo o bem e que os EUA são o grande satã. Da mesma forma que os cientistas do Projeto Manhattan, que criaram a bomba atômica, acharam que estavam fazendo o bem


Na Universidade

de Dartmouth,

EUA, com pensadores do 'Theory Group'

Agora uma pergunta bem mundana. AstroloGia faz alGum sentido para você?

[Risos.) Não. Bem que gostaria. Tenho tantos amigos astrólogos profissionais ... . Mas realmente não existe nada, que se saiba, relativo a atração gravítacíonal, ondas eletromagnéticas. Nada. A localização dos planetas no momento em que alguém nasce é completamente irrelevante. Mas, sabe lá. A astrologia é uma maneira de autoconhecimento. E é construída de forma vaga o suficiente para que as pessoas consigam se encaixar, se guiar, encontrar um certo caminho, uma certa direção na vida, que é o que precisam mesmo. Você pratica voga como exercício físico ou também estuda a teoria?

Minha prática é mais física, mas tenho interesse em meditação e coisas do gênero. Gostode meditar. Espero conseguir mais quando meus filhos'crescerem e forem menos dependentes (tisos). Nomomento, não medito de uma forma zen, mas faço muito uma pesca que tem aqui, com isca artificial,em que me meto no meio do rio e fico lá. É a minha maneira de sair do mundo, ficar sozinho e meditar sobre a vida.

Mesmo que não ocupemos o centro do universo, e que não tenhamos sido feitos por Deus, somos criaturas extremamente importantes


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" Peraí, nada é perfeito no mundo - Marcelo Gleiser  

" A espécie humana é muito mais invasiva que o pior câncer"

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