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Feriado. em. Ubatuba celebra

hoje a Paz de Iperoig Ronato Boulos/USC

Ana Clabrlela

Ubatuba

Fornandes

luta entre

- Hoje Ubatuba

comemora a Paz de Iperoig, o primeiro tratado de paz firmado na América. Durante o feriado as instituições como bancos, Associarão

Prefeitura. Câmara Municipal, cartório e correios permane-

Nóbrega, em São

cerão fechadas. Já para o comércio o funcionamento é fa-

catequista. Em 5 de maio de 1563 Anchieta e Nóbrega che-

cultativo. Não há nenhum

garam na aldeia de Iperoig. Iniciaram-se os entendimen-:

tipo de

tos mas os índios, cautelosos e

às 20hOO, que nesta

edição vai ter as bandas Hup e Gang Djah, que vão tocar rock e reggae no Casarão do Porto.

isso se confirmasse, Nóbrega regressou a São Vicente, levando Cunhambebe,

Confederação dos Tamuya, que os portugueses transforr>;

maram em Confederação

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Tamoios.

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Ir Or

teção da Virgem, escreveu grande parte do famoso Po-

contra os índios' causando mortes

e escravidão. Na língua dos tupinarnbá tamuya quer dizer o avô, o mais velho, o mais antigo. Por isso essa confederação de chefes chamou-se

dos

Cunhambebe foi eleito chefe e junto com Pindobuçu, Coaquira, Araraí e Aimberé resolveu fazer guerra aos portugueses.

O problema entre tupinambá e portugueses rem início C01l1 o casamento de

João Ramalho, português e braço direito de Brás Cubas, governador da Capitania de São Vicente, com a filha de Tibiriçá, chefe dos índios guaianazes. Desse casamento

enquan-

to Anchieta permaneceu em Ubatuba como refém. Foi nessa época que Anchieta, invocando a pro-

O principal motivo da Confederação dos Tamoios, que reuniu diversos caciques da região litorânea, foi a revolta ante a ação violenta dos . portugueses tupinambá,

que se encontravam Paulo em missão

desconfiados, exigiam provas concretas de sinceridade por parte dos padres, e para que

A CONFEDERAÇÃO

"

e

os por-

ferência dos padres José de Anchieta e Manoel da

Comercial,

Fundart promove, o Fundart Jovem,

r

contra

tugueses. As negociações de paz só vieram a acontecer pela inter-

comemoração específica programada para o dia. mas a

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os tupinambás

seus aliados

A estátua na Praia do Cruzeiro retrata o Padre José de Anchieta escrevendo o famoso Poema à Virgem. Livre

do

cativeiro,

Aimberé encontrou-se com Pindobuçu, da aldeia tupinarribá do Rio de Janeiro, Cunhambebe,

da aldeia

de

Angra dos Reis, Coaquira, da aldeia de Ubatuba e Agaraí, chefe dos guainazes, e ainda

ema à Virgem, nas areias de Iperoig. As condições foram impostas por Aimberé, desconfiado das intenções portuguesas. O acordo de paz foi selado. Os portugueses se comprometeram a não mais atacar e nem aprisionar os índios e a libertar os que esta vam presos em São Vicente. Finalmente foi estabelecida a Paz de Iperoig, em J 4 de setembro de 1563. A paz durou pouco. Um dia chegou a Aimberé a notícia ele novo ataque português

com os índios gouacazes e aimorés. Assim, em ataque aos portugueses, foi formada a Confederação dos Tarnoios, chefiada por Cunhambebe.

11 aldeia de lperoig. Novamente a Confederação mostrou sua força e respondeu ao ataque, invadindo fazendas e engenhos em pequenos grupos or-

Nessa ocasião chegaram os franceses ao Rio de Ja-

ganizados. O rei de Portugal

neiro. Villegaignon,

dou Estácio de Sá, sobrinho do governador do Brasil,

o chefe

nasceu uma aliança entre bran-

francês,

cos e guaianazes contra as outras nações indígenas.

rupinambã para garantir sua permanência no Rio de Ja-

para enfrentar

Quando a nação Tupinambá foi atacada, o chefe da aldeia

neiro e ofereceu armas a Cunhambebe para lutar con-

de

tra os portugueses. Um surto de doenças, contraí-do

ficou no Rio de Janeiro. Enfrentar o homem branco armado tornou-se cada vez mais difícil. Airnberé cha-

Angra

Cunharnbebe,

dos

Reis,

investiu

contra

aliou-se

"os

man-

as propriedades portuguesas. Enquanto isso Brás Cubas

pelo contato

continuava a escravizar índios e aprisionou um chefe

entre eles Cunhambebe. Aimberé foi escolhido o novo chefe e a luta conti-

tupinarnbã, Cairuçu, e seu filho Aímberé. Cairuçu morreu dos maus tratos recebidos e Aimberé conseguiu organizar

dizimou

nuou. apoio

com' o branco,

centenas

Aimberé procurou o de Tibiriçá e, juntos,

uma fuga em massa das pro-

combinaram portugueses

priedades

três luas. Acirrou-se

de Brás Cubas.

de índios,

lutar contra os num prazo de assim a

soldados

os índios, com

e armas.

mou os franceses

A tropa

em busca

de ajuda e alguns deles lutaram ao lado de Aimberé. O desequi líbrio de forças levou os portugueses à vitória e na aldeia de Uruçumirim os tarnoios foram derrotados completamente, deixando a terra

livre para a coloniza-

ção portuguesa.

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Maldição de Cunhambebe, a lenda (ou realidade) de Ubatuba iião

também. Em Ubatuba não. As mangueiras perdem as flores antes da hora. Mas tudo tem uma explicação, e a explicação para o nosso caso é a mald ição Iançada sobre a Aldeia de Yperoig, hoje Ubatuba, pelo valente cacique Cunharnbcbe no ano de 1563. Logo após a descoberta do Brasil em 1500, os portugueses tiveram que dominar e garantir a posse das terras contra vários reinos europeus que naquele tempo se expandiam descobrindo novas terras ou simplesmente tomando a terra dos outros à força. Para dominar a zona costeira e explorar o interior das terras descobertas, os portugueses usavam os índios como escravos no trabalho e nas lutas, capturados à força e muita brutalidade. E é aí que entra a história de Cunhambebe. Os índios eram pacíficos, não conheciam nada dos brancos, só conheciam a natureza que lhes dava tudo de comer e de curar alguma

Renato Nunes "Ubatuba uma cidade que tem muita iniciativa e pouca continuauva". dizia um velho caiçara para as pessoas que lá chegavam, no começo dos anos 70 em busca de um novo local para trabalho e morada. Com 'o passar do tempo, se percebe que o velho tinha razão. Ubatuba passou por, pelo menos, duas terríveis crises econômicas durante o período colonial e diversos outros problemas administrativos nos últimos tempos. Mas, não é só na questão humana que a praga parece ter efeito, mas também a natureza se comporta aqui de maneira estranha, deixando muitas vezes as coisas pela metade. O exemplo mais fácil de encontrar são as mangueiras. 'Alguém já viu mangas nas mangueiras de Ubatuba? As mangueiras são comuns no litoral. Em Paraiy, estão carregadas na época certa, em Caraguá e em São Sebasé

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doença do mato, ferimentos ou comida mal digerida. Seus deuses eram as forças da natureza. Não tinham armas de fogo nem facas e facões porque não conheciam o metal, nem prisões. Os portugueses, para usar seu trabalho escravo, impunharn grande pavor, matando, esfaqueando e prendendo com correntes de ferro os desobedientes. Caciques de diversas tribos, liderados por Cunharnbebe, (Koniam-bebê) homem de dois metros de altura, cujo nome vem de sua gagueira e fala arrastada, resolveram pôr um fim a tantas injustiças.e combinaram um grande ataque para expulsar de vez aqueles homens brancos muito maus. Os registros do Padre José de Anchieta indicam a chegada de mais de duzentas canoas com mais de vinte índios cada uma, além dos milhares que vinham por terra, provenientes das tribos situadas nas planícies acima da Serra do Mar. Mas a batalha não aconteceu e a unidade

portuguesa no país foi garantida. Os jesuítas, que tinham grande poder sobre a bondade na terra e suas recompensas na eternidade, conseguiram aplacar a ira dos chefes morubi xabas com promessas de castigos divinos e muitas ameaças do furor das forças da natureza. Os índios recolheram seus arcos, flechas e bordunas em atenção às promessas de paz e convivência com os brancos garantidas pelos jesuítas. Cunhambebe e seus guerreiros acreditaram na boa fé dos acordos. Os vários chefes com seus homens se dispersaram, se desarmaram e voltaram para suas tribos, e até hoje se comemora a paz de Yperoig como uma data importante que garantiu a unidade do Brasil contra as ameaças de divisão, graças ao trabalho de catequese promovido por Anchieta, Nóbrega e seus companheiros. Mas, a história não comenta que logo depois de terem se desarmado e se dispersado

os índios foram massacrados pelos rudes e estúpidos colonizadores portugueses interessados no OLUO, nas riq uezas e nas terras descobertas. Cunhambebe morreu doente, ferido no corpo e na alma, envergonhado diante da humilhação a que levou seu povo por ter acreditado na palavra dos brancos. Sabendo da importância que os portugueses deram àquela data, pouco antes de morrer o grande cacique lançou uma maldição contra os invasores e seus descendentes dizendo que as terras de Yperoig que eles tanto quiserani seriam as terras do fracasso, que lá nada daria certo, tudo que se começasse não chegaria ao fim. Grande entusiasmo no início e resultado miserável -no final. E assim tem sido a história de Ubatuba, seus ciclos econômicos sempre interrompidos, seus negócios e empreendimentos sempre fracassados. Já quiseram fazer porto de turismo, indústrias do pescado, faculdades

(a 'Unitau está de saída), nada dará cena por lá enquanto se comemorar a Paz de Yperoig co mo homenagem ao trabalho dosjesuítas, esquecendose de que ela só foi possível porque enganaram a boa fé daqueles homens primitivos e os traíram matando seus chefes e hum i1hando seu povo, os verdadeiros donos da terra brasileira. Para acabar com os efeitos da Maldição de Cunhambebe basta parar de comemorar a Paz de Yperoig da forma como ela é comemorada, que ignora o papel e a traição cometida contra os índios. A paz que uniu o Brasil deveria ser atribuída ao mart rio dos índios, da mesma forma que a independência do Brasil é atribuída ao martírio de Tiradentes. Para manter viva a homenagem, estátuas de Cunhambebe, Ayrnberê, Coaquira e Pindobussú deveriam ser erguidas nos principais pontos da cidade. Aí a nossa história será outra, podem crer..; í-

A Paz de Iperoig e a Maldição de Cunhambebe  

Reportagens do Jornal Imprensa Livre.

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