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Ubatuba ~ um lugar privi'legiado não apenas gepgraficamente. Sua história, a exemplb de suas praias, é também bela e ríca. E é uma história impossível de ser contada sem a presença de seu personagem mais marcante: o caiçara. Nestes últimos 100 anos, a vida desse típico homem do mar aconteceu sob o signo da transformação. A eletricidade, a televisão, as lanchas a motor, o automóvel vindo da costa, as estradas de rodagem, tudo isso mudou substancialmente a vida de uma população acostumada a uma vida simples e próxima da natureza. Com os meus 94 anos de vida, fui testemunha ocular de todas essas mudanças. Sou do tempo em que uma Folia de Reis e uma Festa do Divino eram acontecimentos comuns, que não tinham esse caráter de exceção, como hoje. Para viver faziam sua roça e, quando não estavam ocupados com essa agricultura de subsistência, tiravam seu alimento do mar, o qual, digase, não era apenas um celeiro de águas. O caiçara tinha com o mar uma relação mais profunda. A pesca da tainha, por exemplo, era um espetáculo maravilhoso. Pena que isso nunca tenha sido filmado. Seria muito interes-


,-

s Calรงaras


Os ,,~.I CalçarasCon m _,.

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d._"l.tf ••••••••

'!!'I!li!! __

Textos e seleção de depoimentos

5~o Paulo ~ 2000

d••

~I.IiI

M'lrco Frenette

•••••


Equipe de Trabalho:

D'ldos Internactonais de Cataloqacão na Publicação CCIP) (Câmara Br'lsileir'l do Livro, SP, Br'lsil)

Publisher Brasil Editor Renato Rovai

Os Caiçaras contam / textos e seleção de r

depoimentos

Textose entrevistas Marco Frenette

Marco Frenette ; [editores Renato

Rovai e Marco Frenette). -

-

São Paulo.

Publisher Brasil, 2000.

Capa e arte Márcia Okida Revisão

1. Caiçaras - Ubatuba (SP) - Entrevistas Frenette, Marco. 11. Rovai. Renato.

Márcia Calafiori 1\00/0

00- 3587

CDD-080.92

Ademar Machado e Cibele Leite Amorim Fundart Coordenação PatríciaChristino Cabral AUXiliaresde pesquisa Andréia Félix Ferreirae Denise Aparecida Lemes da Silva Consu/téJria Edson Silva e Sidney Martins Leme

índices Pq~q cqt~logo

sisternâttco.

1. Caiçaras . Entrevistas

080.92

2. Entrevistas com caiçaras

080.92


uando se é um cuioe gente (criança) o que mais se faz é querer saber das oisas. Por que isso, por que aquilo, por que sim, por que não", Acredito que é IIIIIIIIIlWessa curiosidade que nos dá de certa forma, a idéia de como é o mundo em qu s viver, E o curioso é que com o tempo a gente passa a dar as mesmas respostas que ouvimos para nossos filhos, netos ou outra criança que nos procura com um por quê? Eu tenho de confessar, muito do que sou devo a respostas que ouvi de meus antepassados e do povo da minha terra, Dessa gente que sente o pitiu (cheiro) e a bulha (barulho) de peixe no mar, que sabe se vai chover amanhã, que anuncia o fornando (vento noroeste) bem antes dele chegar, Desse povo simples e maravilhoso que celebra o Divino Espírito Santo, dança o chiba e constrói a vida respeitando o próximo e convivendo com a natureza, Meus filhos ouviram também muitas desses causos, contados por mim, e imagino que um dia contarão para seus filhos, netos e, tomara, bisnetos, Esses causos fazem parte da nossa vida, da vida do povo caiçara E agora poderão, a partir desse belo trabalho feito em mutirão e que teve como principal parceiro a Fundart, ser conhecido por outras pessoas, E mais do que isso, deixa de ser só "causes" e poderá ser usado para estudos futuros, Fico ponhando repaf0.(lmaginando) no ano 2100 um estudioso,buscaodo documentos para tentar levantar a h' da.pe§l,;J'!ªçãeJ'qti8VIVeU no tiforal Nort8do~ =~


do esse livro, Ele terá aqui trilhas (pistas) do e com certeza se emocionará Até porque não terá nas mãos um II dicio e história e sim um livro de causos que fala da memória de um povo, de suas lembranças, seu jeito de viver, suas crenças e costumes, Um livro que deixa o povo falar, não impede de pôr para fora tudo que pensa, Também fico imaginando os netos e bisnetos dessa gente que conta nossos causos vendo o que o avô(ó) ou bisavô(ó) viveu, Tenho certeza que se emocionarão da mesma forma que eu, Mas se querem saber a verdade, não estou satisfeito com esse livro, Acho que ficou faltando muita gente, muitos caiçaras que têm causos para contar, Alguns porque infelizmente morreram e não deixaram registros e outros por falta de tempo, devido às dificuldades que enfrentamos, Arrelá ! II (que dó) Mas se isso me dá uma certa tristeza, por outro lado me traz um enorme alívio, Afinal, demos o primeiro passo e é assim que se aprende a caminhar, Com esse livro, realizado com muito esforço e dedicação, o nosso povo, o povo caiçara, começa a ter as suas lembranças e costumes relatados e portanto sua vida preservada, Arrelá ! I ! I Havia muito peixe para o nosso samburá, muita massa para o nosso tipiti, mas fizemos o que pudemos,

'I

I

Zizinho Vigneron

o

Agosto de 2000


recuperação das ruínas de um antigo engenho (Fazenda do Bom ou Ruínas da Lagoinha), o projeto de restauro do Casarão do Porto (o mais imponente e IHE~ importante patrimônio histórico de Ubatuba, representante de uma fase de prosperidade do município), os COs Canto Caiçara e João Alegre, o Cantador de Ubatuba, e o livro que você começa a ler são alguns frutos de um importante trabalho de resgate realizado pela Fundart, entidade responsável pela política cultural de Ubatuba. Foi muito bom ter participado de cada momento desses projetos. Foi excelente ver cada um deles, à sua maneira, resgatar um pouco da memória do povo caiçara, bem como o patrimônio cultural e arquitetônico da cidade. E se eles têm grande significado, ainda falta muito para que Ubatuba possa contar sua história e para que os caiçaras tenham seu valor reconhecido na construção de nossa cidade. A responsabilidade pelo resgate das nossas tradições é coletiva. É de todos nós. É do poder público, mas também é de cada cidadão que deve ficar atento ao que é feito com a memória do seu povo e de sua localidade. Por isso, espero, sinceramente, que os depoimentos aqui selecionados tenham o poder de tocar nossos corações. E que ao conhecer melhor o passado a gente possa refletiro presente para construir um futuro mais bonito, feliz e de paz. Eliana Inglese

o

Presidente da Fundart


ntes, o mar era de todos, e a pescaria, farta, Naquele tempo, contam os caiçaras, passear pelas praias e estradas não era uma aventura, pois a violência e o roubo eram coisas desconhecidas, Era também uma época em que a mata era território re para homem praiano, que podia derrubar uma árvore para fazer sua canoa ou abater um animal selvagem para alimentar-se, E ao fazer isso, não era confundido com aqueles que destroem a natureza em nome do lucro, O amor também era diferente, e se consumava a partir de outros caminhos, Primeiro namorava-se a distância, para, com o passar do tempo, se dar a aproximação física, que era sempre tímida e recatada, e sempre na presença dos país da pretendida, Era uma época em que havia respeito, afirmam os calçaras. As bênçãos que se pediam aos padrinhos eram coisas corriqueiras, e o respeito aos mais velhos, a coisa mais natural desse mundo, Essa vida pacífica se deu nas primeiras décadas do século 20, quando


Os Caiçaras Contam

a modernização ainda era um fato histórico desconhecido das populações litorâneas da região. Era quando os caiçaras estavam mais à vontade, e conseguiam ainda manter um . estilo de vida que valorizava o simples e necessário. Mantendo uma relação equilibrada com o mar e com a floresta, não se pescava e plantava pensando em quanto se ganharia. Valia mais o sistema de troca de mercadorias e trabalhos em mutirão. Quem hoje era ajudado a construir sua casa, amanhã estava ajudando o vizinho a construir a dele, e, se tivesse pescado mais peixes do que poderia consumir, porque não repartir a boa sorte com o companheiro? Naturalmente, nem tudo era um paraíso, porque o mundo perfeito não existe. Sofria-se, então, com as grandes distâncias a ser percorridas, a pé ou de remo. Nos casos mais graves, a dificuldade de conseguir remédios desesperava. Às vezes, a ausência de energia elétrica deixava a imaginação desamparada em meio a tanta escuridão, e o medo podia crescer além da conta. Mas, apesar de tudo, contam os caçaras. o modo de viver "dos antigos" dava espaço para a solidariedade, praticada com freqüência e naturalidade. Hoje, os mais velhos vivem como que deslocados no tempo, saudosos de um tipo de vida que não volta mais. E se não são propriamente infelizes - pois sabem que ainda são privilegiados, pois vivem em uma das regiões mais belas do país -, não deixam de lamentar o desaparecimento de um mundo onde a natureza, o mar e a alegria de viver vinham aote o inheiro e do poder.


"Era um paraíso naquele tempo. A gente não conhecia a maldade. Não tinha escola, mas a educação era na base de muita conversa. Eu cresci e me casei sem saber o que era dizer uma besteira. Crescemos feito anjos. Eu tinha 10 anos quando conheci o Silvaro. Mas não teve aproximação, não. Agente só olhava um pro outro. Era um esticar de pescoço só. Agente só foi namorar uns oito anos depois. Veja só, oito anos nessa bobagem e achando que estava namorando!" Astroqilda

Conceicão, 78 anos

PélZ

liA viqêl naquele tempo era boa. Et'êlum 'Antes, todo caiçara era pescador, e tinha muito peixe, mas não tinha congelador. Guardava o peixe com sal. Não tinha dinheiro; mas era melhor. A gente repartia o peixe. Hoje ninguém dá peixe pra ninguém, é tudo pago." Otávio dos Santos. (seu Macuco), 73 anos

tempo em que as pessoas viviam sem medo. Sem susto nenhum. Deixava a portél aberta, Muitêls vezes você pet"diq cinco cruzeiros na rua e voltava I~ e achava."


Noite "7\ntigqmente,

não tinhq luz, mas era

bonito: tinha a luz da lua. E a gente se reunia ao luar pqrq conversar e c1qrl"iSêlc1êlS. "Pinha companheirismo e alegria. E, no mais. que grqçq pode ter urna noite tOc1inhêl ilu'minad:t sem nenhum canto escuro?"

Mulher 'Antes, as mulheres não podiam sequer passar na porta de um bar. Ouando as meninas começavam a ficar moças paravam de freqüentar até as vendas. Era o vendedor do armazém que passava em casa com seus cortes de fazenda e nos mostrava; daí a gente e'scolhia o tecido que queria e ele nos trazia mais tarde. Isso quando poderíamos muito bem ir até o seu estabelecimento, que ficava do outro lado da rua e comprar pessoalmente. Esquisito isso tudo, não é?" D'1lv'1 Neves, 82 '1nos

Comércio "Dinheiro? Tinha pouco, apenas umas moedinhas de réis. Tinha muita troca. Minha primeira canoa, por exemplo, eu consegui trabalhando. Trabalhei roçando no bananal. Esse foi o preço da minha canoa: três dias de trabalho na roça." Sílvaro Conceição. 78 '1n05

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''!..

.,~ ~'

~ 'Já morei e já construí muita casa de saf@é,Agente chama de casa de taipa, de pau-a-pique. O sapé bem cuidado dura 20 anos, Mas tem que saber fazer, porque os ratos gostam de fazer ninho nelas, O que protegia o sapé era a fumaça que saia do fogão a lenha, que ia deixando uma camada preta no teto e ajudava a pres€war." Ot~vio dos Santos, (seu Mqcuco),'73

q170S

fi

"Minha primeira casa foi de sapé e bamoé. foi eu "E que fiz: era uma taquara de lá, e Ol:Jtra'de cá precisava do barro, Cortava o barranco e depois dançava em cima do barro, E casa de sapé esquenta bem, não faz feio,"

Casas nA gente er~ muito pobre, e não tenho

verqonha

berço das cnancas. pOl" exemplo, er~ qe taquara. e a casa. com seus poucos móveis, era de pau-a-pique. Feito de

Silvare Conceição, 78 anos

de dize!": o

m~qeil'q sel'l'qqq, iluminqqq com Iqmpql'inqs," Zacarias Julião de Souza, 78 anos

Respeito "Essas drogas que agora entram na cidade, Essas mortes que acontecem antes do tempo, Antes não tinha isso, Antes, aqui, tinha respeito," Benedita de Oliveira Santos. 74 anos

13


rI ;

Os

I

Caicaras Contam

I

Morl:e "O morto era velado nas suas próprias casas. Havia .reza à noite toda e aos presentes eram servidos café e bolachas, e tinha a cachaça para quem gostava. Depois o corpo era levado para a igreja, onde era feita a 'encomendação' da alma do morto. Era a missa de corpo presente. Após isso, começava a procissão do enterro. Muita gente acompanhava e os sinos da igreja dobravam até o corpo descer à cova." DêllvêlNeves, 82 anos

No cemitério de Ubatuba, o enterro era na terra mesmo, não tinha caixão. Enrolava o defunto no lençol, e pronto." Zacarias Julião de Souza. 78 anos

Tempo "5(jbe, a gente não

tinha

essa pressa

toda

não. Não tinha relóqio pl"(j m(j I"C(jI"o tempo, O que tinh(j (jqui? N(jd(j, Aqui era só mata,

"Por volta'de 1930, não tinha caminho aqui. Era só trilha, Pra carrege,r o defunto tinha de fazer fila na trilha. Amarr~va bem.0càdáver pra não balançar muito e ia carregand . o corpo ia na rede. Fazia uma fileira. O defunto não parava, não podia arriar.Ouando um cansava de eaneçar passava pro outro, E as mulheres iam atrás, acompanhando, Tinha gente que alugava a rede pra carregar o defunto, mas tinha gente que tinha nojo de col0car o corpo do parente ali, em rede que já tinha carregado tanta gente. E, quando o corpo cheirava uito enchia de cânfora a rede, pra disfarçar.

urna e outra fumíli(j lâ Pl"êlctrna. mas bem longe. E tudo el'"'l escu I'"id~o," Astrogilda Conceição,

78 anos

"No nosso tempo, a alimentação era pura: era tudo colhido da roça, Era só peixe, café de cana e coisas naturais que tínhamos na roça. Por isso, até hoje não tenho nenhum remendinho de médico no meu corpo." Beneditêl de

Oltveíra

Santos. 74 anos


"Se o pessoal bebia naquela época? Eles tomavam era banho de pinga. Tinha gente que tinha barril em casa E só era cachaça da boa. Nas Folias de Reis lá na Fortaleza, a gente comia, dançava, cantava, e bebia. Às vezes a gente ficava bêbada. Mas era apenas pra se divertir; coisa boba, né?" Verqílío D'lvid Arcanjo Lapes, (1907-2000)

liA carne de boi era vendidct de porta em porta. O vendedor passava anotando os pedidos. Se

ctpóSisso ele victque o número de fregueses não era suficiente para aprovertar o boi inteiro, se esperava mais alquns dias cttéa chcntela ser suficiente; só dctímatava-se o boi." Dalva Neves, 82 anos

"Ia vender farinha na cidade. Levava quarenta quilos. Levava cinco horas andando para chegarláSaia uma hora da madrugada pra chegar na cidade amanhecendo. Num tinha lamparinanaquele tempo, tinha de pegar um pedaço de bambu,bater® acender pra fazer luz. Levava mais de um b83.mbu,acab~a t;rY1 acendia outro. E, às vezes, acabava o bambu, e estava muito escuro e tinha de sentarno ê'scuro, 8' esperar o dia clarear. Mas naquele tempóera chegar e vender. Quanto levasse vendia VendiaDapr a. Hoje, a gente não vende mais nada, se você levar q!!Jatro sacos de farinha pra cidade, você volta cpm e es."

Naquele Tempo


ncontros com seres fantásticos, Visões religiosas, Homens vítimas de encantamentos terríveis, transformados em lobos que vagam, uivando, por praias e ••• _matas, Assombrações que assustam o viajante noturno que se perdeu em meio ao ,eu t'fas trilhas sem luz. Descrentes que são castigados por ignorar as regras que regem os dias santos, Todas essas histórias, cada vez que são recontadas, envolvem a vida caiçara em uma bruma de poesia e magia, E é nessa dimensão da vida - fronteira entre fantasia e realidade - que há espaço para a importante manifestação do sagrado e do sobrenatural, Porém, nem todo caiçara acredita nas histórias que ouve ou conta, Mas, seja crente ou descrente das coisas do outro mundo, percebe o valor de sua memória e de sua cultura oral, e vai passando adiante o que viu ou ouviu, E faz isso ora avisando que são apenas "causes" para entreter e preencher o dia, e ora garantindo que se trata da mais pura verdade, Quem sabe? E, seja como for, o fato é que, de modo geral, o valor de uma história não se mede pelo grau de realidade que ela contém, e sim pelo combustível que ela pode fornecer à imaginação, e pelo bem que pode fazer à alma, E é por isso que essas histórias fantásticas permanecem vivas na memória dos caiçaras mais velhos, sempre dispostos a recontá-Ias àqueles mais jovens que, porventura, ainda cultivem o espírito da curiosidade,


05 Calcaras Contam

o íantasma

de branco

"Era um dia santo, de Corpo Cristo. Ouando desci da canoa, ouvi: "Iá pegado!'. Perguntei: 'Oue tá acontecendo?' . Responderam: 'Num fala nada senão te dou um tiro na boca! ' Aí prenderam eu e mais gente adiante. Foram cutucando a gente com a ponta do fuzil e apertando e ficamos todos juntos, feito uma bolinha. Aí foi que surgiu um homem todo de branco, chapéu de aba larga na cabeça, e aquela roupa branquinha, branquinha ... aí o homem de branco, todo vistoso, disse: 'O quê? vocês acham que vão meter bala nesses cristãos? De jeito nenhum! ', O homem tinha uma vara na mão, e, rodando com ela, chicoteou pra todos os lados, todo mundo apanhou. E, depois, desapareceu. Num instante num tinha mais ninguém ali. E aí bateu aquele silêncio ..." Antônio contando

l/baturntrirn,

Alexandre de Olívetra. 69 '1n05,

como foi rendido, ãs m'1rgens do rio

pelos presos fugitivos da

ílha

de Anchieta,

no

fumoso levante de 20 de junho de 1952.

Sélci

olhq, ãs vezes o cachorro latia I~rc r e a gente 5qiêl e era só um vento; e daí n

"Sêlcil

via nada. Só vía o cachorro rodand - caindo e umêl cor-r-ente de vento Forte c

barulhenta. Diziam que era o saci. mas quem sabe se o sací tinha rabo ou chie te prêl

bater no cach rr 1"

Astrogilda Conceição, lU

Lobisomem "Lobisomem? Isso é certo!, pois eu já vi. Um v .l, quando peguei a estrada à noite, vi à minha fr nlo, numa distância de uns cinco metros um csctouo enorme, preto. Ele não chegava perto, só ficav" 1\1 rodeando. E também não latia, ficava bufando '1110. M€;seguIu um tempo assim, e depois desapar c u." Zaca rias ) u I íão de

18

.1110'

SOLI7.<),

i'fl

,11) lS


o

Mqldições "NêI

lmaqinâno CQiçQ~Q

Sexta-Feira da Paixão. se o casai ir

dormir junto e a mulher enqravídar. sabe o que acontece? QUêlndo a cHêlnçêlnascer, se (or mulher, nasce bruxa. se tor homem, nasce lobisomem. E encanto de lobisomem ninguém desfuz. O encanto tem de passar sozinho, e só passa depois de sete anos, e só depois que o lobisomem correu por sete praias." Zacarias Ju/ião de Souza, 78 anos

"Matar boi não presta, na hora da morte, o bicho olha pra você com aqueles grandes olhos de quem vai morrer, e, depois disso, sua vida nunca mais se acerta li

Zacarías

)uli~o de SOUZq,

'78 anos

19


05 Calcaras

Diêl santo

Contam

"Então.

nesse~d'fq, 5eXtq"':'Feiréldél Paixão, urna '~j~~ '7 \

..""

gente de 5~0 Paulo foi féllélrcom o dono da rede em Laqoinha. o M<lné Souza, porque queriam pescar com ela. Foi quando o Mané Souza disse: 'olhq, em dia santo, eu não ponho rede, eu não caco, não Faço nada. Nem a barba eu corto ... - E realmente era assim nos tempos de meus pélis:Sexta-Feira da Paixão. não rachava lenhél, não f<lzi<l(ogo, n~o félZiélnada. MélSo pessoal insistiu em desrespeitar. e iogélrélm a rede, dizendo que essa coisa de di<lsanto era bobaqern. Sabem o que aconteceu? Naquele mar de furturél de peixe não pegélrélm nada. só uns peixes elétricos, mas élrede pesava como se estivesse

transbordando de peixe. Mélsqí 05 homens

20

puxavam com esforço e quando iam V'I', rede estava vazia. Mud'lram pra outr IU9~n.: era q mesma coisa. a rede pesava pra puxar. c quando cheqava eram só uns petxinl: . I ') é castíqo. Não é bom ir pro me t' em di "Jnlo./I Zacarias J liao d

SOULd.

IB

.tIIOS


o lmaqinârio Calcara

A Virgem "LJmq noite, tive urna visita. Estava qeitqqq na cama. acordada. quando q luz qq lampanna se apqgou. O quarto ficou totalmente escuro, e Foi então que apareceu a Virgem, toqq de branco. qq cabeça qté a ponta dos pés. Elq trazia na cabeça urna coroa resplandecente. meu quarto ficou todo cheio de luz. Perguntei para elq o que elq queria de mim; que era só ped iI'" que eu faria. Elq ficou um tempo em pé, me contemplando. Depois sentou-se

ao meu lado. e colocou sua mão em meu coração, e disse: 'Eu não

quero naqq de você. Vim aqui Só para lhe dizer para ter sempre Fé em Deus, que você vencerá todos 05 obstáculos de SUqvida. E quando você necessitar, clama pm mim, que eu estqrei ao seu Iqdo'. Elq disse isso, se levantou e Foi saindo. sem me dar as costas: q luz voltou ao que era. e ela desapareceu. Eu chorei três dias e três noites sem parar. E a partir desse dia a minhq vrda só caminhou para cima ... Olhe essas rosas em meu [ardim. são roSqSsem espi n hos ... /1

Benedita de Oliveira Santos, 74 anos

21


tlm privilégio poder iniciar o dia diante de uma imensidão azul que se estende até as linhas do horizonte. Generoso em sua grandeza, o mar incentiva quem o contempla a JIiII- ver o mundo com menos rigor e mais tolerância. sse é um dos motivos porque o nível de neurose das populações litorâneas é menor do que o das populações urbanas, que, privadas da dádiva de conviver com praias, encaram diariamente a opressão de uma vida cercada por ferro e concreto. Oualquer turista acidental, por mais distraído que seja, percebe os benefícios imediatos que o mar oferece ao espírito humano, pois compara a paz que sente no litoral com a angústia que o domina na hora de voltar para os grandes centros urbanos. Entretanto, o mar que o visitante vê e sente não é o mesmo que se apresenta aos olhos e ao coração do nativo. Enquanto o primeiro cultiva um deslumbramento, o segundo tem uma profunda relação de respeito e integração com ele, até


Os

Calcaras Contam

porque já foi e ainda é, em certa medida, sua. fonte de sustento. Muito caiçara já passou mais tempo de vida dentro de canoas do que em terra firme. E, muitas vezes; a "terra firme" não era a terra escura das matas, mas sim a areia molhada das praias, onde se passavam horas separando e colocando ao Solos peixes da última pescaria. E, enquanto fazia isso, o caiçara sentia a ponta das ondas rebentadas pegando em seus calcanhares, como que o chamando de volta para o mar, Mas, hoje essa ligação do homem praiano com as águas salgadas está mais na memória do que no cotidiano: interesses econômicos e comerciais inviabilizam a pesca artesanal praticada com canoas e pequenos barcos, exigindo embarcações maiores e mais modernas, que trabalham em sistema de arrastão, Nesse contexto, a canoa, antes objeto utilitário de primeira necessidade, tornou-se apenas o símbolo de um passado glorioso,


j

Fartura "Os frutos do mar são <lsêlCiciecio pobre e do rico. M<lriscos e mexi! hões, sururus e ostras.

camarões e lulas ... Deus nos acuda'. porque F<lrtw-<lcomo aquela. nu nca mais se verá." Manoel Hilário~Filho, (seu Mané.J1il~Cio),92 anos


"AgO!"êlo peixe começou êlfugi!", ainda tem alqurna pesca com canoa. mas não pegCl nada. O arrastão acabou com tudo. Larqarn a rede perto de Pa-an e vem trazendo. vem vind Ó param em Perequê Açu. Puxam a rede e escolhem os peixes qrandes. os miúdos 5-0 r

sêlcr.iHC<ldos.D~ dó. Mêltêlrpeixe pequeno e [oqar forCl,d<lÍé só passa ri n ho do mar que come." Antônio dos Santos, I (

,1110'

1 ,.~

"O primeiro prato do caçar é o pirão, e o melhor peixe para fazer é a garoupa; mas um bagre bem limpo também dá um belo pirão com banana verde, e tem de ser feito com o caldo do próprio peixe." Benedita

de Ollverla

Santos,

74'lnos

26


Perigos do mar ''Avida no mar é gostosa e violenta, Quando o vento está forte ajuda o mar a ficar raivoso, Uma vez, quando era jovem, fiquei em pé para puxar a rede, a canoa chacoalhou, e, quando me dei conta, já tinha afundado, Senti a areia em meus pés, e quando olhei pra cima, vi, no lugar do azul do céu, aquele redemoinho de águas," Antônio

dos Santos, 77 anos

tempo morreu muita gente. Enhentqf' o mar ef'élum ato de COf'élge O )oâo Serpa Velho, por exemplo,;t ' "Naquele

morreu nesse desatio. Foi élvi~adbq~'~' J

;;;il!,*~

pef'igo de nélvegélrcom vento (9n:e, rlfqs não ouviu. O mastro élrf'ebent;;u com a "Eu vi a morte no olho, porque a vida no mar é boa, mas é arriscada, Era meio-dia e pareoa meia-noite, O tempo fechado da tempestade, e o vento forte quase virando o barco, vento do nordeste para o leste, Mas aí,océu foi limpando, limpando", Escapei por po.co."

(orçq do vento e élcanoa virou. Morrerélm todos. não esCélpou nenhum. A canoa chamava-se Pátriq." Manoel Hilário Filho, (seu Mané Hilário), 92 anos

Otávto cios Santos. 73 anos

27


Os Caiça -as Contam

H ístórtas de pescador "olhêl, quando eu pescava ti n ha u mas a rraias tão g ra ndes. mas tão grandes, que uma vez êlgente enroscou urna corda naqueles dois chifres que ela tem na cabeça e segurêlmos firme; só C/ue ela era tão forte C/uearrastou a nossa canoa por quilômetros, e precisava ver com que velocidade. O vento cortava nossos rostos." Silvara Conceição,

78 anos

"Meu tio Hipólito era um grande pescador aqui da região, sentia cheiro do peixe já da praia. Antes de entrar no mar, já sabia que tipo de peixe ia pegar."

°

Rit~ M~ri~

28

d'l

CrUZ, 77 anos


"Eu era o maior pescador da reqião. La ncava a rede e pegava tudo. Tem

muito defeito entre um pescador e outro: um pega peixe grande, enquanto o outro só pega peixe pequeno. Eu pego peixe grande. Jogava o arpão e voltava com peixe de 150 quilos. Atrás da corda do arpão colocava nove homens pra puxar o peixe êlrpoêldo. E isso não é histó-ía de pescador. não, isso é história de prohssiotlêll.'f

c

Antônio Alexandre deOliv8lra,

69


estas são lugares para onde as pessoas levam um de seus bens mais preciosos: a legria. Ao vestir a melhor roupa, ao ensaiar o melhor sorriso diante do espelho, o festeiro prepara-se para dar o melhor de si num espaço que sabe ideal para a troca de ntilezas, olhares, conversas e, sobretudo, experiências. Porque se divertir,todos sabem, é fundamental para o equilíbrio emocional e espiritual. E quando o divertimento acontece por conta de uma fé religiosa, a festa ganha uma importância toda especial, pois visa fortalecer os vínculos que unem uma comunidade. Das fest s religio s de Ubatuba, rn is tradicional e cor onoa era a do Divino I:- pírito Santo. Celebração itinerante, onde os foliões, divididos em dois grupos, percorriam todo o município, cantando de casa em


Os Cqiçqrqs

Contam

casa, levando com eles a bandeira de sua fé, Por onde a folia passava, ninguém trabalhava, todos atentos aos cânticos do repentista, que, ritmado pelo som do tambor, pelo rabequista e pelos violeiros, puxava a festa dias e noites adentro, Na festa do Divino uma das coisas mais exercitadas era a hospitalidade, Era uma honra receber e hospedar os foliões e o melhor da casa em termos de conforto e alimentação ficava à disposição dos visitantes, A festa de São Pedro, padroeiro dos pescadores, é outra manifestação festiva e religiosa bem conhecida dos caiçaras Comemorada no dia 29 de junho, é uma festa com novena, 'Ievantação' do mastro com a efígie do santo, quentão, viola e dança de chiba O Carnaval, se bem que festa profana, também já foi de outro jeito, Os antigos contam que era uma festa mais inocente, com mais confraternização e menos confusão, Se no Carnaval não estavam louvando ao Senhor e nem homenageando algum santo, por outro lado se divertiam tomados pelo espírito da confraternização,

32


Foliq de Reis Fest~s

"Nasceu Jesus, nasceu Nosso Senhor. Nasceu Jesus, nessa noite de amor. Nasceu Nosso Senhor, nasceu Jesus. O mundo inteiro todo cercado de luz." Versos da Folia de Reis, cantados por Orlando Antonio de Oliveira, 77 <I nos

Ca ntadores e versistas "Meu pai, Antonio grqnqe versísta. Viq

Macuco, era um

qualquer

coisa <1ue

servisse ao Espírito Santo, qualquer inspirqç~o pqrq poder cantar pqrq

° Divino.

Um passarinho, um cabrito, uma Aor, e

começava

q

i~

versar."

Antônio dos Santos, 77 anos

"Cantar uma Folia, uma Romaria, é coisa de muita responsabilidade. Tem de ter muita memória, tem de ter cadência e vidência; é experiência atrás e experiência na frente: quando batem na caixa é a hora de versar, tem de estar de olho, com o verso decorado, na ponta da língua." Altivo

Gerônimo

dos Santos,

79 anos


Os

Carnaval

Ca íca-as Contam /I

Nosso Carnaval era de da ricas e de (olclme. Era U ma

restCl com viola, tamborim,

rabeca...

Nós cornecâv mos

a tocar nossa orquestra e ClSpessoas iam chcg ndo (êlnt<lsiClc\élS,pulando, cantando, dançando. F zl mos máscaras de barro.

(01"1"

das

de papel e pintacl s. As meninas vestiam GlS upas das mães. Os h mens I"

vestiam sapatos vclh e colocavam ch péus

vel hos na c bcc p pêll"ecel"

I"

'and ntes' .

. Depois, Iarnos ele c 5 em casa convid rido as pessoas para êI (est<l. 1/

Orlando Antonio de Oliveira, 77 anos

34


Folia do Divino Festas

I/Se o Divino hCqsse oito dias êlqui no bairro. oito

dias ninguém iêlpra roça. o tempo erq

todo para êldorêlr e acompanhar

o Divino. E em toda casa que '15 pessoas da foliêl paravam. a comida era fêlrtêl.Cuando

.

"

êlnoite cheqava. .

os foliões cantavam e qgr'1deciêlm o iêlnt'1r.As bandeiras eram então recolhidas para o quarto do casal. e na sala todo mundo emendava êl da nÇêlr o chiba. Ouando o Divino ía embora. sofríêlmos com o

1 I

j

distêlnciêlndo do Espírito Sêlnto, que tinha deixClc\ourna mensêlgem tão boa para "toc\os os moradores." Benedita de Oliveira Santos, 74 anos

~

35


Os C'l tçaras Contam

Danças "Todo o mundo da roça dançava chiba. Um passava na casa do outro convidando, e às 8 da noite começava a festa. De mad rugada, modificava, aí deixava o chiba. E dançava o quê? A ciranda, que é homem e mulher juntos. Depois era a vez da cana verde, dança de roda também. Depois dançava a recortada; o cantador cantava o verso e todos batiam palmas e sapateavam. Vinha depois a canoa, que se dança valseado, ao som de dois tocadores. Assim era a nossa festa." Altivo

Gerônírno

dos Santos,

"O tamancoparadançarochiba era feito de m deras fortes, porque dá o estalo e não estoura. Pau do laranjeira,de limão, sucuduim, pequiá .. Muitochib ra dançado em casa de assoalho; mas tinha de ch; o batido também, mas estalava também porqu Ic chão seco, o próprio tamanco puxava o chão. 'lludo batido de acordo com o batido das violas."

r,

Orl<l ndo Anton

61 anos

io

de 01 ivcirQ, TI .1110'

"Dinheiro nêl boca

''A gente fazia o chiba em casa de assoalho. Era

aquele bate-pé, e o barulho da dança rufava pelo mundo todo." Silvaro Rita da Conceiçâo,78

anos

d R d

D211lça

Faz p

de quem

I1t

ri ,

prcst Quem é bom nã t III ma n i Atirêli, caboclo. êltir i b m ~lir \ , Porque antes m rrer de tiro. do que de um m r dcíxado." VE;.rsos a cantada por

arca

11-

cJ loeJo

Cana

V roe,

Osónó Antonio de Ollv na, 101 anos


Festas


sA

MOTUl SANGREN1'O NO PRESÍDIO DE ANCHlID'A

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s anos 30 e 40, a vida dos ubatubenses foi marcada por dois acontecimentos violentos, O primeiro foi a Revolução Constitucionalista de 1932, quando São Paulo se rebelou contra a ditadura de Getúlio Vargas, e enfrentou tropas de tros est os, como o vizinho Rio de Janeiro, Foi um tempo em que cadáveres de soldados encalhavam nas praias de Ubatuba, e as noites eram ponteadas por rajadas de metralhadoras e patrulhas de tropas do governo federal à procura de paulistas rebeldes, A população local, perplexa com uma guerra que não compreendia bem, e assustada com a presença das tropas getulistas baseadas em Puruba e Ubatumirim, corria para refugiar-se nas matas, O segundo acontecimento, este mais sangrento do ponto de vista local, foi a fuga de presos do Presídio da Ilha de Anchieta, ex-lIha dos Porcos, No dia 20 de junho de 1952, um detento de nome João Pereira Lima liderou um levante no qual os presos subjugaram a guarda militar e os funcionários do presídio, e, após, justiçarem seus maiores desafetos, fugiram rumo ao litoral, aportando em Ubatumirim, O saldo desse levante foi chocante, Morreram dezenas de detentos, policiais e funcionários do presídio, Essas duas cicatrizes históricas permeiam a maioria das crônicas locais, pois trouxeram violência e barulho de armas de fogo para uma gente acostumada à paz e à tranqüilidade, garantidas pelos cantos dos pássaros e o som das ondas do mar.


"Por causa da Revolução de 1932, a gente andava corrido de um lado para outro, n Orestes dos 521n1:OS, 91 "nos

"Eu ~inha um ano de idade quando teve o 'grande tiroteio', Aqui não tinha nada pra comer, Nada. Não tinha água, não tinha nada, Minha mãe dava água de palmito como se fosse leite," Antônio Alexandre de Oliveira. 69 "nos, sobre a revolução de 32

IIErêlsó com lêlmpêlrinêl,era tudo escuro. A gente

i

ntav e

hcavêl quietinho no escuro, porque os soldados anel v !TI atrás dos outros. Passava tanto soldado. 05 p is n-o deix,Wêlm a gente êlndClrsozinho. Tinha aqueles 9 úchos com lenços vermelhos no pescoço, em seus belos cav 105.'1 Rita Maria da Cruz, 77 anos

40


o

,

levante na Ilhq

"L~ nêl Ilha de Anchieta tinha

cada

neqrão

pr-eso. Neqrôes Fortes como HollyField, Tyson e Mêlguilêl. Tinhêl o

condenado

Faria Júnior-,

a 50 anos. Tinhêl o Portuqa.

pr-esoper-igoso. Tinhêl o Diabo Loiro, eles pegêlr-êlmo

barco e fugir-êlm..." Otávio dos Santos, 73 anos

"Muita gente foi morta no levante, soldados e presos Amanheceu um caminho de saf1gue. Um preso ficou com o peito furado feito uma peneira; quandõ ele tomava a 'suspiração' , o sangue jorrava. Um soldado pedia ao major: 'Deixa eu levar esse homem para Ubatuba, no caminho dou um jeito nele'. E o preso respondeu: 'Deus permita que a gente não s~ encontre mais, porque se eu botar a vista em você, você não será mais um homem de vida'. O çnefe d disciplina, Portugal, os presos mataram; c~~'àralJl , . seu' negócio' e puseram na boca dele. O<10" corpo andou por lá tudo, e quando chegou a cair aqui em embaixo, o cadáver estava todo descascado. Descascaram o homem. Foi assim. Em 21 de junho de mil novecentos e quarenta e dois."

o B'awlho ~as Armas;jO

?

°

Sebastião José Gíraud. (1906 - !)

"O chefe da disciplina era o Portugal". Ele escrevia assim no cassetete: 'Me queira bem'. Ouando ia buscar algum preso passava pela Praia Grande, e lá metia o 'queira bem' em cima do homem." Sebastião José Círaud

41


ra milhões de brasileiros, as palavras impressas são como símbolos misteriosos, i decifráveis em sua impressionante complexidade. e atualmente a alfabetização ainda é um sonho distante em muitas regiões do país, o q e dizer das primeiras décadas do século 20, época em que muitas crianças ubatubenses caminhavam quilômetros para chegar a uma escola? Naqueles dias, saber ler e escrever era para alguns algo de valor inestimável. Mas para outros - vítimas da lei natural que diz ser impossível avaliar aquilo que não se conhece =, as letras eram algo extravagante. 'Aprender a ler por quê? Para mandar cartinha para o namorado", se perguntavam. E entre os que se assustavam com o mundo da palavra escrita e aqueles que faziam tudo para ter uma mínimo de educação formal, havia as professoras leigas. Essas mulheres, entusiasmadas pela aventura da educação, lecionavam nas áreas mais afastadas do município de Ubatuba, onde a maior recompensa pelo trabalho era o prazer de ver uma criança decifrar sua primeira palavra, que também era seu primeiro passo rumo à consciência que nem tudo é mistério no mundo.


Os Calçaras

Autodidatismo

Contam

"Aprendi êIescrever nêlterra Tinhêl 18 anos, peg,WêIum pedaço de [ornal e perquntava pra qualquer um que soubesse: Que letra é essa? A pessoa dizia e eu escrevia no chão, Daí em díarrte escrevi lêlrgêlmente, Escrevi de tudo. Fazia aquela qarranchana e depois arrumava. Rapaz]. o que eu mais gostava de fazer era estudar. mas aqui não tinha escola ... Três meses de estudo pta mim teria sido como 200 anos!"

L-

~~~~

,__ ~ __~

~

_

Trabalho in{qntil "Eu não tenho' nobreza' : estudei só até o terceiro ano primário, Ou bem a pessoa estuda ou bem a pessoa trabalha, Os antigos diziam que ou bem assobia ou bem chupa cana," Ot~vio dos Santos. 73 anos


Sem escola /I

Nós não tivemos

escola. nessetempo ninguém conhecia Poruba. Correu escola po~ todo lugêlr,

mas

Poruba era tão escuro que êleducação não

cheqava aqui." Durval Alexandre de Oliveira. 82 anos

Letras


Escritora

05 Caicaras Contam

de cartas

"Ouêlndo eu era [overn tinhêl

murta crianca forêl da escola. Dizia-se muito: estudar pr-êI quê? Pra mêlndélr- bilhetinho pw namorado?

Er-êIassim que

a ma ioria pensava. O enqracado é que durante muitos anos r-ecebi gente élqui nél portél de casa que não sabia escr-ever e que vinha pedir- para eu escr-ever- as cartas que queriam mandar para os Longq iomqdq

pélr-entes. Escr-evi m u rta Célrtél

"Saia às 4 horas da manhã da Praia das Toninhas

par.a.chegar no horário de começar a aula no Grupo Escolar Dr. Esteves da Silva."

Péll"êIos moradores de vbéltu ba." Dalva Neves, 82 anos

Rit'l M'lriq

46

21

Cruz, 77

qt105


Lecionando "Em 1952 eu consegui '1primeira escola do 5en:~0 d'1 Guina. Não tinha onde lecionar e então êl

Letras

preFeiturêl comprou urna C'1S'1de P'1u-'1-pique, com portas e jêlnelêlScaindo. E êllieu dei aulas pêlrêl 15 alunos. Nessa época, não recebia da prefeitur'1

nem de ninguém. Eu pegêlvêlos pêlpéis de embrulhar

pão, recortava no tamanho de Folh'1s

de cêldemo e costurava ~ m~quin'1. Estes eram os cadernos que eu distribuÍ'1 para meus alunos. Anos depois, em 1959, fui lecionar na pr'1i'1do Bonete, onde também não tinhêl escola, e todos fic'1r'1m muito Felizes com a novidade. Comecei '1d'1r aulas num gêllp~o, na betra da prêliêl.Ouando chovia. os cadernos VO'1V'1 m com os ventos e ti n ha mos que suspender '1Sa u lê).'," ~-o:~..-------

Maria dae-Deres-Ballo

Faria, 86 anos

47


(

I


anto os doutores quanto os homens simples concordam em pelo menos um ponto: a saúde é um dom de Deus, Nem conhecimento e nem riqueza adiantam de muita coisa se faltar saúde para aoroveitá-los E, se a pessoa for pobre - como costuma suceder à ioria =, como correr atrás do sustento diário se a doença resolver não dar trégua? Porém, se a saúde é uma unanimidade, os caminhos escolhidos para mantê-Ia, ou recuperá-Ia, são inúmeros, Melhor tomar um comprimido ou optar por aquele chá tradicional usado há gerações? Mais seguro tomar uma injeção ou ficar de repouso após fazer aquela simpatia que a vizinha recomendou? Tudo depende das convicções, conhecimento e disponibilidade de cada um. Durante muito tempo, o município de Ubatuba foi carente de serviços médicos, e a maioria tinha de se deslocar grandes distâncias para chegar até ao Centro, onde poderia comprar um remédio na famosa Farmácia do Filhinho (porto seguro dos necessitados por mais de 30 anos), ou procurar algum médico que porventura estivesse à disposição da população local, Outra opção, também no Centro, era a Santa Casa, um dos mais antigos estabelecimentos hospitalares do Estado, com mais de 150 anos de existência, No entanto, a maioria dos bairros de Ubatuba não tinha médico ou posto de saúde, e tudo tinha de ser resolvido com a medicina alternativa e com a ajuda de quem tivesse o mínimo conhecimento médico ou das propriedades medicinais das plantas da região, Assim, evitavam-se penosos deslocamentos e, bem ou mal, a vida continuava; e a saúde, na maioria das vezes, voltava.


Os

Calcaras Contam

"Quando tive cL~rrâfô(le, prá m~lhorar fui fazer simpatia. A mulher disse pra queimar mpedaço de couro de jacaré num quarto fechado, Quase morri asfixiado, mas melhorou as dores, É bom, mas não aconselho ninguém a fazer, não, É muito perigoso," Antônio

Alexandre de Oliveüa, 69 anos

"Para a criança que está d morando a começar a andar, espere um cavalo passar e coloque a cri nca para andar nas peqadas cicie; espere um mês e você vêli ver onde essa criança vqi parar. Se a crianc

"Quando era jovem machuquei o olho, Tratei com clara de ovo, Não gastei dinheiro em farmácia, Minha mãe bateu a clara num prato bem batida, como se fosse fazer suspiro, e deixou uma noite no sereno, Aquele líquido que fica embaixo do prato você pinga no olho com conta-gota, Aquilo é milagroso,"

Orestes dos Santos. 91 <lIlOS

50

está

demorando a f<lI'1t,pegue um ovo e tire tudo de dentro e dê - gu p ré)

ela com esse copinho.

Pqr cur r

vertugéls, [oque é)qUéll1tid de de verrug<l5 em sal qross no Fog e corra para não ver o ~I cst lar." Benedita de Oliv ira

untos. 74 anos


A Cur'l

Seu Filhinho "Antes era o Dr. )uquinhêl que hêltêlvêl da gente, com ele era só na base da c\ose, do remédio natural. Depois veio o Seu Filhinho. Alqumas pessoêls tinham medo de ir se tratar com ele e ter de tornar injeção." Astrogilda G. Conceição. 78 anos

51


05

C'l Içaras Contam

"Seu filhinho era (armqcêutico

e at ncli a

todos muito bem, n~o importando s (o se arníqo ou inimigo político, porqu Seu Filhinho era um homem que def< ndi cultura e era incompreendido por mui~ .Vi rnaís de um político (qzer otens I e depois ir ~ SUq f21rmáciq comprar rerné li , muitas vezes atê fiêldo, e mesmo

5

ím cr

muito bem tratado. Não tem fqmíli;:J ;:Jl1tig em ubqtubq que não deva (qvores pc rZ) Seu Filhinho, Ele era nosso único recurso, noss

era

médico,"

João Claro da HOdlil,!

unos


Médicos e parteiras A Cura

"O

doutor Mil'",mda era um homem muito bom, merecia uma estátua na cidade.

Peqava a beber e iêldaI'"as consultas dele. Se a pessoa não tívesse dinheiro pra pagal'"os remédios da receita ele metia a mão no bolso e davêl dinheiro pI'"Opobre iI'"comprar remédio na fêll'"m~ciado Seu Filhinho. Bebia, mas não errava a receita. O paciente saiêldesconhado achêlndo que o Seu Filhinho não ia entender o que estava escnto na receita. mas chegava na tal'"máciq e recebia o rernêdio certo. O doutor MirClnda era um bom médico e homem generoso." Durval Alexandre de Oliveira, 82 anos

"Tinha duas parteiras aqui: a Maria Parteira era de Camburi até Tamambuca e Dolores pegava o litoral todo. Uma vez, a DoIores viu um médico trabalhando e ele estava fazendo uma carniça, e a Doiores disse pro médico 'Se arretire daíl. que eu sou boa parteira, deixa comigo I ' Ela sabia tudo e quem nascia com ela não morria, não tinha óbito. Eu nasci na mão dela." Antônio Alexandre

de Olivetra,

69 anos


TempOi M-.,--~


ogresso é uma palavra carregada de significados contraditórios. Alguns a entendem e modo mais próximo de seu sentido original, compreendendo-a como avanço. Outros, no entanto, ao ouvir essa palavra, associam-na imediatamente a uma piora eneralizada da qualidade de vida. Entre os primeiros, estão aqueles que, de algum modo, lucraram com os avanços industriais e tecnológicos que vieram para Ubatuba nos últimos 100 anos. No segundo grupo, encontram-se aqueles que, testemunhando a destruição de seus meios de ganhar a vida e o desaparecimento de suas tradições, chegaram à conclusão que saíram perdendo com a chegada do tão esperado progresso, Seja como for, o fato é que nenhuma sociedade, e nem mesmo nenhuma pessoa, pode viver fechada em si. A transformação faz parte da vida e, assim como as pessoas, as coisas nascem e morrem, sejam pela mão do homem ou pela mão da natureza. E tudo envelhece. O primeiro carro que os ubatubenses viram nos anos 40 assustou alguns nativos e divertiu outros, mas todos viram naquele veículo o mensageiro maior da


-e

l]1odernldàde. Hoje, um carro como aquele é "" item pa~acolecionadores. O progr$sso de hoje também pode ser o atraso de amanhã. Antes, quem defendia a reservação dos belos casarões de Ubatuba 0'nsiderado atrasado. Atualmente é :'Rc'ômumque preservação do patTI õrno arquitetônico é coisa de gente "" eVàlulda."Eo que dizer do "moderno" prédio da cadeia, construído em 1902, que hoje é um dos exemplos da arquitetura "antiga" de Ubatuba. Quando chega, o progresso sempre tem ares de novidade. Só tempos depois so saberá se ele veio para melhorar ou piorar a vida daqueles que, muitas vezes, foram atropelados pela modernidade, em vez de simplesmente encontrá-Ia. ,.)

56

.

"


"Quando eu era criança a Praça da Matriz era muito simples, de grama, e as casas em volta eram grandes e antigas, com grandes pomares ao fundo e repletas de jabuticabeiras, goiabeiras .. n

João Teixetra Leite, 66 anos

"Na Praça tinha tantas C~SélSélnfig~~ que -------' ninguém nunca pensou em conservar. Oueriam mais erél dernolí-Ías pensando no progresso. Seu Filhinho era o único quel!ifiR essa visão ma ravíl hosa de preserVélr

I

com suas belas casas a ntjg S mais atrasados qiZiim~qu~ele quena colocar porteiras no alto qélserrél para impedir o qesenvolvimento da ciq'lde.

Achavam que ele era atrasado. se vê que atraso mesmo foi q qeshuiçâo desse pqüimônio arqurtetôn ico da ciqqqe./I

Hoje ~ I

I

Heloisa Mana Salles Telxeira, 63 anos

57


Os

Caicaras Contam

"O primeiro serviço que fiz para a prefeitura foi em 1949. Ajudei a construir a Praça da Matriz e seus arredores. A amendoeira da Praça N. S da Paz é plantação minha uma árvore ramalhuda; meu maior orgulho." Luiz Monteiro de Oliveira, (seu LiQ), 81anos

05 primeiros veranistas "Os taubateanos foram os primeiros veranistas de Ubatuba Em 1950 houve um movimento progressista na cidade. Prédios antigos foram demolidos para dar lugar a novas casas. Os terrenos valorizaram e o taubateano Lycurgo Barbosa abriu a primeira imobiliária da cidade, a Imobiliária Central. Os primeiros loteamentos surgiram e atraíram novos veranistas. Surgiram novos hotéis e colônias de férias, trazendo uma nova vida à cidade." Edson Silva, 64 anos

o primeiro "O

prédio moc\ mo

prédio da prímeíra cadeia de \Jb tuba

(oi construido e inauqurado em '1902. Euclídes da Cunha. então diretor de obras qo Estqdo, planejou e executou o projeto.

que (oi considerado o primeiro

prédio moderno da cidade." Edson Silva, 64 anos

58


o primeiro

cinema

"O primeiro cinema era perto do Fórum, na Praça da Matriz. Era o Cine Iperoig. A gente via filmes do Mazzaropi lá"

Tempos Modernos

Benedito Fernandes Cristo, 64 anos

A primeirêl r~dio "Eu inaugurei a primeira rádio de Ubatuba em 1957, cantando nela. Não tinha disco suficiente pra tocar e eu fiquei cantando ao vivo nela. Era a Rádio Iperoig ZYR 205. Cantei das 5h30 até as 7h da noite, quando começou a Hora do Brasil, tivemos que parar." )o~o B'1tist'1de Araú]o. ()o~o Alegre), 66 '1/lOS

A pnmeira cqlçq comprida "ldalina foi êl pnmeíra mulher entre nós a usar calcas compridas. Elêl era expansiva, êllegre, mêls era urna mulher que ditiêl verdêlc\es." Oalva Neves, 88 anos

59


o primeiro

05 Calçaras Contam

CHrO

"Corri de medo quando vi o primeiro carro, era criança. Nem sei por onde ele v io, mas foi de mil e uma utilidades esse carro que me assustou. Serviu pra transportar doente, noivem dia de casamento ..." Benedíta de Olívcrra Sa ntos.

74 anos

.•...•

"0 primeiro Armando

Gm'O

não veio pOl" estrada. veio por mar. Creio que Foi por

Bonn. Era um carro pequeno, COI"de vinho, e se chamava

8êlrêlcá em urna

lancha

chêlmêldêlI/batuba.

O

carro

bebia

muito,

volta

de 1933. Erêldo

Romaria. Veio de Santos

qualquer trechinho

iêl um

litro de gêlsolinêl, e vivia atolado por ai. O se Armêlndo não sabia dirigir direito." Orestes dos Santos, 91 anos

60


A primeira luz A primeira

iélrdineirél

"A primeira )ql'"dineil'"q de t/batuba chamava-se Catanna. MqS era um sqCl'"ifTciovtajar nela. Levava um diq dqqui até Taubaté. E sabe qual roi o fim dela? Um compadre meu a comprou para rélZer dela um 9qlinheiro.

''Aluz aqui chegou como num sonho. Eu estava dormindo, e, quando acordei, já tinha luz. Chegaram pedindo documento pra todo mundo, e no dia seguinte já começaram a posteaçáo. Assim que ligou em Picinguaba ligou aqui também,"

Tempos Modernos

Antônio Alexandre ele Oliveira, 69 anos

Virou poleiro de 9éllinhél." Orestes dos Santos,

1 anos

Troca de qentilezas "Toda tarde os lampiões eram limpos por um funcionário da prefeitura e depois acesos, Ouando dava nove da noite batia o sino da cadeia e eles iam se apagando, ia ficando escuro, tudo em silêncio, A gente encontrava uma pessoa e dizia: 'Boa noite!' A pessoa respondia: 'Boa noite!' Aquilo era uma beleza, né? Mas acabou, Depoi s veio a Companhia Bremência, foi a primeira luz que veio para Ubatuba." Orestes elos Santos. 91 anos

61


e nas primeiras décadas do século 20 Ubatuba estava longe de ser um lugar totalmente isolado do resto do mundo, ainda mantinha intocada boa parte de sua atureza e de sua vida simples. Os ubatubenses viviam sem energia elétrica, aticavam uma pesca de subsistência, e não tinham conhecimento do que era ser uma cidade turística. Por terra, a ligc.ção com o mundo exterior se dava por trilhas, caminhos e pequenas estradas ilurnillEl JQS 01locllas ou luzes do luar.Por água, o acesso a Ubatuba equivalia a uma av nILJlEl,I ois ill a ora o tempo em que os rios e o mar eram dominados por canoas, veículo d 11<:111 pon que xigia especial destreza dos caiçaras. A abertura tot I UlJElILlly'10 mundo demorou um pOLlCO,tanto qu o primeiro guia turístico C1él cichd ó foi publicado em 1951, 110qLlellse I : \\1 le roteiro foi elaborado p'uc 'lpOl1lm fI todos que desconh COI 1UI) ILlb os meios de atingi Ia (...) tr dicior1cI cidade do Litoral Norte d Sao Paulo, até em pouco tempo isolada e esqu cid .rn s que hoje, graças às facilidade oferecidas pelas suas vias d acesso, apresenta-se para o homem da cidade


Os

Calçaras Contam

moam , natureza , q ~w .',' do clima, às erezas e suas praias de areia alva e águas mansas, circundadas por verdes montanhas - tudo envolvido por uma doce atmosfera de paz, ainda não perturbada por certas imposições do progresso," As "vias de acosso" a que o guia se referia limitavam-se a lanchas que partiam de Santos, a alguns táxis aéreos e à Rodovia Presidente Outra, que trazia o turista a partir de Taubaté ou mesmo de São José dos Campos, Mais tarde, veio a famosa Rio-Santos, e esta sim abriu Ubatuba para o mundo e a tornou um pouco mais agitada, Não há progresso sem estradas, já disse mais de um político, As estradas trazem pessoas de bem mas também gente ruim, que não respeita a natureza e a paz local, já disse mais de um calçara. o

0,0

,

o~'

64


Caminhos 'f\ntes a comunicação entre as pessoas de uma praia e outra mais distante era difícil, porque não existia estrada, apenas caminhos." }oâo CI<1roda Rocha. 77 <1nos

"Entrei em 1949 na prefeitura. Alves e a Iperoig, que era só um caminho é uma coisa, e rua é o Luiz Monteiro

Caminhos

de Oliveira, (seu Lic<1),81 anos

A pé Pegava a +ril ha e ia até t/batuba. Fazia em duas, d U'l5 horas e meia. Sai'l d'lCfu i às 2 horas da madrugada e chegava I~ /I

amanhecendo.

Fazia tocha

de bambu para iluminar o caminho e iêlandando." Zacanas Julião de Souza, 78 anos

65


Os Calcaras

Contam

N~ canoa "Naquele tempo viajavam para Santos em canoas de vogêl. Levavam ovos, gêllinhéls, péllmito, lêlrélnjél, batata-doce. Levavam até leitões e cabritos. Era tudo na base do remo, e para remar urna canoa de vogêl é preciso seis homens,

cada remador com dois remos grélndes." Manoel Hilário Filho,92 anos

'Antes aqui só tinha duas v buscarmantimentosemS 15 dias pra voltar."

ncllllilí

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1110s,lldI111'lclld"Pldll


Caminhos

Rio- Sqritos "Em 1932, vieram presos da Ilha de Anchieta para ajudar a principiar a estrada. Trabalhavam sob vigilância policial. No ano seguinte entrei no Departamento de Estradas de Rodagem e comecei êltrabalhar nela também. Erêltudo no braço. não tinha caminhão. Eram mais de 60 homens trabalhando. Antes tinha só urna +rtllia para passar carro de boi, e depois lã pra serra erêl só um caminho, entrava êlli e só ía ver o soll~ no Barro Brêlnco. O resto era mato. Trabalhâvamos abrindo caminho em mata fechadêl. Ficãvamos em acampamentos no meio do mato. Depois, passei a cantoneiro. para cuidar daqueles pedaços da estrada que jâ estavam prontos; êlestrada escanqalhava. tudo atolava. abria buracos, era um sacrifÍ'cio enorme. Mas era urna estrada estrerta. Em 1964 é que vieram as máquinas: caminhões basculantes, tratores de esteiras, plainas e compressores. Daí abriram mais a estrada e pegqram a asfultar." Orestes dos Santos, 91 anos

-'67:


-------

05 Caíçaras .Contar»

'Antes não tinha a Rio-Santos. Era só mato, mas a gente tinha mais liberdade. De primeiro a gente saia sem esperar nada: era só colocar o chapéu na cabeça e sair andando. Hoje, sem dinheiro você não faz nada, não embarca, não come .. Aíveio um monte de gente pra construir a Rio-Santos. Estrada assim vem gente boa, mas tamOém vem gente ruim. Esse é o problema;" Antônio dos Santos, 77 anos

"Somos dos antiqos. Aqui só sobrou eu e o Prequíca. Agor'l só tem gente c\e For<l,e isso começou com <lRio-Santos. Isso 'lqui não é mais o nosso luqar. acabou. Nós não temos ~gU<l.Tem que encher <lcaixa pr<leconomizar, g<lst<lrpouco e Fic<lr quieto. O gJ-osso da ~gu<lvai para os hotéis e para as C<lS<lS dos ricos. Lembro do meu antiqo luqar, e hCo quieta. Picinquaba i~Foi, não é mais. M<lsnão vou vender nada, Vendeu? Acabou-se! Fico <lqui até o hm da minha vida e vou viver muito. Ouando For, vou com saudade." Evangelina da Silva, 84 anos

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uero dizer para os moços e moças que estão aqui reunidos nessa bela manhã, que a nossa situação não é boa. Antes, no tempo passado, a gente se .• _ •••• encontrava feliz. Tinha outro direito de convivência, outra democracia. Agora, n ar abençoado por Deus, vivemos como bandidos, com algemas nas mãos e nos pés. o homem do campo não pode mais desfrutar da natureza, e disso vem nosso sofrimento. Se cortar uma lenha para fazer fogo e dar de comer para os filhos - pois rsso ,é um costume que vem dos antigos =, chega a Polícia Florestal para tomar as ferramentas da mão daquele que é o nascente daqui, a raizdesse povo. Oueríamos uma democracia que permitisse derrubar árvores sem prejudicar a floresta. Árvores para reformar e ancorar nossos barracos quando eles estivessem velhos, para que a casa não caia em cima da nossa família. Os moços e moças que estão aqui me ouvindo, nesse lugar tão bonito, precisam saber que antes nós tínhamos culturas e farturas. Grande fartura de batata-doce, mandioca para fazer a farinha, grande fartura das bananas, das abóboras. Tudo isso tinha de sobra, pois tudo isso a terra nos dava depois do nosso esforço. E criávamos porcos e galinhas, e eles eram alimentados com o que tirávamos de nossa roça. Essa é a grande diferença do que foi no passado e do que é hoje, no presente. Hoje não podemos criar mais nada.

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Hoje, é difícil até de ver um galo cantar. Naquele tempo, era a maior alegria dos galos quando batia a madrugada, quando estava amanhecendo o dia. Agora é mais fácil um cego achar um vintém do que encontrar por aqui criações de porcos ou galinhas. O Gaiçara nasceu com esse direito de plantar, de fazer sua casa com as árvores da floresta, de l I sua criação de animais, mas agora esses direitos lhe foram tomados. Agora, eu perguI1lo aos moços e moças que estão aqui me ouvindo: Oue Brasil é esse em que estamo vivendo'? Aqui já foi um lugar de grande fartura para a pesca também. Eram milhares do quilo de peixe à disposição do caiçara. Se não queria ir para o mar, era só chegar no rio cJn I ana e pegar qualquer espécie de peixe. Hoje, se os moços e moças forem até o rio, /l'IO conseguem sequer molhar os calcanhares, pois secou. Nossos avós trabalh V8m ai meses no mar e seis meses na lavoura. Ouando era o tempo certo, o mar d va o poxcs. noutro tempo, tinha-se a terra para trabalhar. Agora não tem mais nada disso. À v I' ,me chega'água aos olhos de ver tanta amarração. Os moços e moças que estão aqui me ouvindo podem não saber, mas an; s tínhamos também grande fartura de bichos do mato, como as queixadas e caces MQS houve a grande explosão de pedras para fazer a Rio-Santos e todos os bichos f gilDIí1 assustados, para bem longe. Essas explosões abalaram o equilíbrio da floresl8. [ COIí1a Rio-Santos 0 progresso chegou de vez. Antes, não tinha estrada de rodagem. Vivíamos sem conduçào. A pessoa viajava o dia todo para chegar ao centro de Ubalub8. Ia a pé.


Descia e subia morro, passando por todas as praias. Também tinha mais dificuldades para sepultar e ir comprar coisas na cidade. Mas, mesmo com tudo isso, a vida era mais suave. Ao passar por todos esses lugares, nosso único cuidado era de cobra. Muitas vezes, iam moças sozinhas por esses caminhos sem fim e nada acontecia. Naquele tempo não havia marginais. Hoje, mesmo dois homens juntos pegando essas estradas, precisam saber viajar,além de se apeçar muito a Deus, rezando para conseguir ir e voltar sem que nada de mallhes aconteça. 00 trevo de Picinguaba até o Km 70, já contei mais de 17 corpos, todos vítimas de tiros, facadas, alguns queimados. Por tudo isso que c ei de contar aos moços e às moças aqui reunidos, nessa bela manhã, vê-se que as coisas slão muito diferentes." Depoimento do c iç ra Genésio dos Santos, 74 anos, na praia de Cambur{ Litoral Norte de São Paulo


Astrogilda G. Conceição e Silvara Rita da Conceição são casados. Silvara nasceu no Saco das Bananas e Astrogilda na Praia do Pulso, ambos em 1922. Casal simpático, falante e orgulhoso das suas histórias vive atualmente no Morro das Moças.

--.r-..-.I

Antônio Alexandre de Oliveira nasceu em Puruba, em 1931, onde vive até hoje. Antônio é um autodidata. Aprendeu a ler e escrever na areia da praia de _ ••...~-, oruba e tem um livro escrito em

versos sobre a Guerra do _f?araguai.

Benedito Fernandes Cristo, o Seu Dito Fernandes, um dos maiores tocadores do Chiba na região, lamenta profundamente a ausência de urn mundo calçara que não existe mais. Nasceu em 1936, no Sertão de Puruba, onde vive.

Benedita de 1926. religiosa, mas vive

de Oliveira Santos é Cheia de vida e nasceu em Itaguá no Centro.


Durval Alexandre de Oliveira é um homem muito religioso, a ponto de ter um oratória em sua residência. É o mais velho habitante de Poruba, onde nasceu em 1918.

Dalva Neves foi uma das primeiras professoras leigas de Ubatuba. Simpática, fala um português correto, pausado e didático, como se estivesse permanentemente na presença de alunos desacostumados ao idioma oficial. Nasceu no Centro, em 1918, e vive lá até hoje.

Edson da Silva é o grande documentarista da cidade. Seu precioso acervo de fotos e sua fantástica memória foram fundamentais para a realização deste trabalho. Nasceu em 1936 onde hoje é o atual aeroporto; e vive hoje no centro.

Genésio dos Santos é um senhor forte e simpático, de trato fácil e agradável. É militante negro e dos direitos dos caiçaras em sua região. Nasceu em 1937, em Camburi, onde está até hoje.


laubaté, em 1927.

oíessora livró contando tudo o -..,..,..,...~•• que viu e viveu na cidade.

João TeixeiraLeite, nasceu em .1934, no Centro. Pintor primitivista, tem um bonito trabalho retratando as paisagens, o cotidiano e as festas mais populares da cidade.

João Batista de AraúJo, onhecido como João Alegre, é um srtsta popular, que canta s praias, o amor e a natureza. Nasceu m Picinguaba, em 1934. Vive no centro.

Luiz Monteiro de Oliveira nasceu em São Luis do Paraitinga e vive em Itaguá Ancião lúcido e forte, orgulha-se de ter sido um dos funcionários da Prefeitura responsáveis pela plantação das árvores mais antigas da cidade.

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Maria Floripes dos Santos nasceu em 1915 e Antônio dos Santos em 1923, Conhecidos como irmãos Macucos, falam com saudades do pai (Antônio Macuco), um grande versista local. Nasceram na Praia Vermelha do NOII e hoje vivem num asilo do C nuo.

MariaAparecida de Oliveira, a Bahia, nasceu em Poruba no ano de 1940, Simpática e extrovertida, além de ótima cozinheira, Bahia tem um carinho todo especel pelo lugar ond nasceu, e sent se perfeitamente feliz ali.

Maria das Dores Balio Faria é uma mulher batalhadora. Foi professora leiga e política por muito tempo, Rodou a cidade lecionando e fundando escolas, Nasceu na Praia da Justa, em 1914, Vive em Maranduba,

Osório Antonio de Oliveira, com seus 101 anos, é o mais idoso dos entrevistados, Nasceu e vive em Promirim


Otávio dos Santos nasceu na Praia Vermelha do Meio, em 1927. Apaixonado por música, toca no violão suas próprias composições - que falam de amor, religião e boemia. Elas são cantadas com sentimento e emoção. Otávio mora em Itaguá.

Rita Maria da Cruz é uma senhora recatada e tímida. Morou durante muitos anos na Ilha de Anchieta. Nasceu em 1923, nas Toninhas. Vive no Centro.

Washington de Oliveira, o Seu Filhinho, foi farmacêutico-médico da cidade por muitos anos. Também foi vereador e prefeito. Pessoa educada e inteligente, mantém, do alto de seus 94 anos, um invejável bom humor. Nasceu e mora no Centro.

Zacarias Julião de Souza é um alegre cant doro vlolono. e foi um d s rn 1110res dançador s do chiba da região. Na c u em 1922, no Corcovado. onde está até hoje.


Manoel Hilário Filho (Seu Mané Hilário) está com 92 anos. Nasceu e vive no Centro

Foto de Capa Montagem de três lotos compondo uma vista panorânica de Ubatuba, 1943.

Pág. 9 Uma pose para loto no Campo Experimental, onde hoje situa-se o Horto Florestal, 1942.

Entrevistados sem registro fotográ ico - Altivo Gerônimo dos Santos, dançador chiba, nasceu no Promirim.

Pág, 11

C:J

O russo Rodovik, um dos muitos imigrantes que vieram para Ubatuba na primeira metade do século,

- Evangelina da Silva, senhora muito relig asa .ê.,~=r-;;a falta de padre na vila de Picinguaba, onde rascec 2'i:1 • 9' é - Benedito Hilário do Prado, Seu Oitinho. - João Claro da Rocha nasceu no Perequê-f'1 ,,~ Atualmente mora no Centro. - Orlando Antonio de Oliveira, de Promirim - Orestes dos Santos nasceu em 1909, no C&~~:: ~ vive até hoje. Participou da construção da Ro-S&~-c::

~€

- Sebastião José Giraud pertence a uma oas 'a;- a ~G.S tradicionais de Ubatuba. Nasceu nas Toninhas 2~ -::;)3 - Vergílio Oavid Arcanjo Lopes nasceu na Dra:a Gr~ Bonete, em 1907, e laleceu no ano 2000.

~2 ~

1946.

Pág. 12

.} O armazem de Horácio Bruno era pontef de encontro dos tradicionais ubatubenses, 1936.


Pág. 20 Procissão de Corpus Christi no Centro de Ubatuba. 1948. Pág.23 Pescadores manuseando Itaguá, 1960.

suas redes na praia de

Pág. 24 Flagrantes de um dos muitos estaleiros espalhados pelas praias de Ubatuba, 1942. Pág. 25 Os caiçaras comemorando na praia de Itaguá. 1952.

o sucesso da pescaria

Pág. 34 Carnaval no centro de Ubatuba, 1928. Pág. 35 A Folia do Divino é uma das festas mais liacliclonais entre os calçaras. 1940. Pág. 37 Populares acompanham desfile de bon 'CU8 c 1\1 carnaval no centro de Ubatuba, 1928. Pág. 40 Vista da Ilha de Anchieta, local onde ficaram pai lT1uitos anos presos políticos como Graciliano Ramos, 1906

Pág. 26 Outra imagem do vai e vem das redes, 1948.

Pág.41 Reprodução da primeira página de reportag 111da revista O Cruzeiro, sobre o levante da Ilha de Al1cl,ieta, ocorrido em 20 de junho de 1952.

Pág.28 As rodas para contar histórias e aventuras fizeram parte do cotidiano caiçara durante quase todo o século, 1942.

Pág. 44 Primeira turma do colégio Augusto de Ubatuba, 1942.

Pág.

Pág. 45 Turma da escola mista de ltaçuá. 1946.

29 Maria Arrepiada (ao centro), a primeira pescadora de Ubatuba, 1956.

Pág.31 Desfile comemorativo Ubatuba, 1963.

do 4° Centenário de

Pág.33 Músicos se preparam para o Carrl.qval, 1928.

Esteves, centro

Pág. 46 Vista parcial de Ubatuba. Ao fundo, Grupo Escolar e construção da feitoria de pesca (associação dos pescadores), 1940. Pág.47Armando Bonn, proprietário do primeiro carro a cirGular em Ubatuba; ao fundo Grupo Escolar, 1925.


Pág. 51 .. Seu Juquinha foi durante muito tempo o módico (lu cidade utilizando ervas medicinais, 1941. Pág. 52 . Não havia fotógrafo em Ubatuba e dona MOCl1111U levou a roupa dos noivos para Santos, na IlIu ck mel, e lá posou ao lado de Seu Filhinho, o modelo, 1930.

sucesso entre os ubatubenses, 1928. Pág. 61 . .. , . A inauguração da pnrneira linha de õribus em Ubatuba mereceu até uma reunião para a foto, 1936.

Pág. 63 . . Os caminhos eram todos de terra na pnrnera metade do século, 1936.

Pág. 53 . A Fármacia do Seu Filhinho era conhecida pOI todos os moradores da cidade, 1945.

Pág. 64 Casa da Farinha, 1906.

Pág. 55 Fachada do prédio do Telégrafo, 1914.

Pág. 65 , Tropeiros na entrada da cidade (trevo de Taubate),

Pág. 56 Vista parcial de Ubatuba, 1943. Pág. 57 . Uma das belas imagens da Praça da Matn7 110 príncipio do século, 1906. Pág. 58 A cadeia de Ubatuba era uma das construção' mais modernas da cidade no princípio do s culo, 1902.

Pág. 59 . . Hotel Ubatuba, de Idalina Graça, a primeira lT1ul11GI a usar calças compridas, 1936. Pág. 60 A primeira "baratinha" de Ubatuba fez

° miar

1942.

Pág. 66 , . Uma das muitas belas imagens de canoas a beiramar em Itaguá, 1973. Pág. 68 .. . As canoas foram por muito tempo o princpal meio de transporte, 1948.


refeitura Municipal de Ubatuba Administração Zizinho Vigneron

Fundart Diretoria Executiva Eliane Inglese (presidente); Olivia de Carle Gottheiner (ass. cultural); Bi Mello (ass administrativa) Conselho Deliberativo (coordenadores e suplentes dos grupos setoriais): Artesanato: Osvaldo Pires e Rodney Roges Ferreira;Artes Cênicas e Dança Marilena Cabral e Rosângela Maria Abbatangelo; Artes Plásticas: Norma Baptista Gomes e Franklin ESpíndola: Folclore: Élvio Damásio e Lígia Benedita Arruda; Fotografia, Cinema e Vídeo: Ulisses Xavier e Isabella Vassão; História e Geografia: Vanderlúcio Cardoso e Claudia de Oliveira; Literatura: Leda Sígolo e Jony Teixeira Pinto Bottini; Música: Maria Fernanda Bischof Césaf e Valdecy dos Santos Agradecemos a todos os funcionários da Fundação que colaboraram para a realização deste trabalho,

Este livro foi editado e produzido pela editora Publisher Brasil e impresso na cidade de São Paulo, em setembro de 2000, nas oficinas da Gráfica Bartira, com fotolitos da Forma 3.

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"Antes, não tinha estrada de rodaqern. Vivíamos sem condução. todo para cheqar '10 centro de ub'1tub. as praias. Também

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M'1s, mesmo com tudo isso, q viqq er'1 mais suave."

Os Caiçaras Contam  

" Antes, não tinha estrada de rodagem. Vivíamos sem condução. A pessoa viajava o dia todo para chegar ao centro de Ubatuba..."

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