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A geleira Taku é um lugar que, para muitos arqueólogos, sugere a mais clara volta ao tempo em que seres humanos com corpo e inteligência desenvolvidos começaram a ocupar a última região temperada do planeta. Mas tudo APOIO NGS não passa de especuEsse projeto de exploração lação. Não há prova é financiado pela National conclusiva de que as Geographlc Soclety. pnmelras pessoas a chegar à América passaram perto do litoral do Alasca. Apesar das muitas divergências, as pesquisas para se saber quem eram esses pioneiros, de onde vieram e quando chegaram estão hoje em franca ebulição. Os novos dados e teorias alternativas são sedutores, mas ainda não têm solidez para tomar o lugar das antigas correntes de pensamento. Estamos num período de questionamento generalizado.

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Dez anos atrás a maioria dos especialistas concordaria que os homens chegaram ao continente há cerca de 14 mil anos, após cruzar a pé uma ponte de terra que ligava a Sibéria ao Alasca. Em seguida eles se dirigiram para o sul, através de uma passagem interior pelas placas de gelo continentais. Hoje, entre os cientistas que pesquisam a história dos americanos primitivos - arqueólogos, antropólogos físicos, especialistas em DNA, lingüistas -, já não há mais consenso a respeito de pontos fundamentais dessa narrativa. Em vez de situar a chegada há 14 mil anos, alguns a estimam em 15 mil, 20 mil ou mesmo 30 mil anos atrás. Outros sugerem que, em vez de uma única migração inicial, o que houve foi uma complexa série de levas migratórias. A idéia de que eles viajaram a pé foi contestada por teorias de que alguns chegaram em barcos. E, no meio de uma inten-

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sa polêmica sobre formatos de crânio, até a relação direta dos americanos primitivos com os atuais índios foi posta em dúvida. Meu vôo sobre a geleira Taku era o início de uma longa jornada que se estenderia por toda a América, do Alasca à distante Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina. Muitos dos sítios arqueológicos que visitei estavam sendo escavados com o apoio da National Geographic Society. Durante a minha viagem, examinei alguns dos indícios que inauguraram essa época de questionamento. Fiquei conhecendo as interpretações dos arqueólogos e as memórias tradicionais dos nativos americanos. A ciência me ensinou sobre a importância da acumulação de fatos, indispensável para a reconstituição do passado. E as narrativas orais dos índios lembraram-me da necessidade fundamental de todos os povos em explicar suas origens.

Madumda fez uma gente nova a partir de galhos de salgueiro. Ensinou todos a caçar com arco e flecha, fazer cestos e comer, e depois se retirou para sua casa no norte. Mas, como essa gente também se tornou malvada, Madumda mandou o gelo para matar todos. MITO DE CRIAÇÃO POMO

Em 1929, um adolescente chamado Ridgely Whiteman escreveu ao Instituto Smithsonian contando sobre uma série de peças misteriosas que vinha encontrando perto da cidadezinha de Clovis, no Novo México, e que ele chamou de "pontas de lança". As lascas pontudas haviam sido afiadas com elegância nas duas bordas e, em cada lado, apresentavam um sulco, do centro para a base. Tais lascas acabaram sendo achadas também nos locais das mais antigas escavações arqueológicas da América do Norte.

18 MILANOSATRÁS. VIRGíNIA Peças do sítio de Cactus HiII, na Virgínia (à esquerda), podem estar entre as mais antigas já encontradas. A partir do topo, em sentido horário, as peças variam entre 10 mil anos a talvez 18 mil anos atrás. Arqueólogos acreditam que os instrumentos de Cactus HiII (à direita, na foto menor) se parecem com os do sudoeste da Europa (à esquerda na mesma foto). Por essa teoria, os primeiros migrantes americanos podem ter cruzado o Atlântico. Os anos da tabela do método de

Carbono 14 Número

o 5000

5750

..•••Limite dos registros históricos ..•••Limite da calibração por datas de anéis de arvores

15000 20000 23700

..•••Atual limite da calibração por datas de corais

30000

os cientistas criam escalas para a conversão. As datas que aparecem neste artigo foram estabeleci das com a ajuda desse método.

O

10000

datação pelo carbono 14 não coincidem com os do calendário, mas

Calendário de anos

..•••Datação por carbono 14 torna-se menos confiável

50000 --

NATIONAL GEOGRAPH1C ART DIVISIQN FONTE DA TABELA: TOM HIGHAM, RADIOCAABON DATING LABOAATQRY, UNIVERSITY DF WAIKATO, HAMILTON. NEW ZEALAND

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DATAS DA REPORTAGEM CALIBRADAS DO SISTEMA CAlIa; CONSULTOR: P. J. REIMER, QUEEN'S UNIVERSITY DF BELFAST, NDRTHERN IRELAND


... Vista do corte transversal

~ Dyuktai Sibéria 14 mil anos atrás

Corte ••• transversal

Mesa Alasca 13.7 mil

• •

Haskett Idaho 9 mil

Exemplos fora de escala

Estreito de Bering,,-,~ Teoria da ponte e terra

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.. Clovis América 13,5mi!

do Norte

• Cactus HiII Virgínia 15mi!

.

Solutrense Sudoeste da Europa 20mi!

,


-----------------------------------------------------------~ A idade das pedras de Clovis não pode ser 13,8 MILANOS avaliada pelo usual método carbono 14, mas a ATRÁS, ALASCA datação da matéria orgânica próxima aos instrumentos mostrou que o povo que os usava "Quando você está aqui, não podia ter estado na América antes de cerca ainda não está em parte de 13,5 mil anos atrás. A partir desses artefatos nenhuma", diz uma placa antigos, a maioria dos arqueólogos reconstiperto do sítio de Mesa tuiu a história de uma cultura, denominada lã direita), no norte do Clovis, cujos integrantes haviam entrado na Alasca. Há um paradoxo América do Norte pela Sibéria, atravessado um nela: esse pode ter sido o caminho para todos os lugares. O sítio fica no leste da Beríngia e sua paisagem provavelmente é a mesma desde o fim da Era Glacial. Era preciso alguma tecnologia para sobreviver nos climas do norte. Esta agulha de osso lã esquerda) foi encontrada no sítio Broken Mammoth, no Alasca, no meio de artefatos de 13,8 mil anos atrás. "Para projetar um instrumento tão sofisticado como esse, é preciso estar tremendo de frio e na escuridão", diz o arqueólogo Michael Kunz.

corredor livre de gelo no caminho para o sul e, em seguida, se dispersado, ocupando a América do Norte e a do Sul no decorrer de um milênio. Como seus instrumentos foram achados ao lado de ossos de mamute e de outros animais grandes, os cientistas descreveram o povo Clovis como um grupo de caçadores. Por muitos anos, os esforços na busca de indícios de povos mais antigos não foi bem-sucedida diante dos rigorosos critérios da ciência arqueológica. Até há bem pouco tempo, em 1996, o eminente arqueólogo Frederick Hadleigh West afirmava que "o povo Clovis é considerado a população de base, fundadora da América". Na década passada, contudo, essa certeza foi seriamente abalada. A objeção mais direta à corrente de Clovis é a questão do tempo. A época em que a cultura floresceu não vai além de uma barreira estimada em cerca de 13,5 mil anos atrás. Dois fatores

determinam esse limite cronológico: a datação da matéria orgânica próxima aos instrumentos e os indícios geológicos de que o corredor entre as geleiras não estaria aberto muito antes desse período. Em 1997, no entanto, um respeitado grupo de arqueólogos visitou um sítio arqueológico no Chile, conhecido como Monte Verde, e chegou à conclusão de que o lugar havia sido habitado há pelo menos 14,5 mil anos - ou seja, mil anos antes dos primeiros vestígios do povo Clovis na América do Norte. A aceitação das datas atribuídas a Monte Verde não só rompeu a antiga barreira cronológica como reacendeu o interesse por outros sítios antigos. Em um deles - Cactus Hill, ao sul de Richmond, na Virgínia - descobriram-se vários artefatos em camadas de areia abaixo do nível onde foram achados os instrumentos Clovis. As datações desse material, que podem chegar a até 18 mil anos, baseiam-se na análise de ma-

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deira queimada achada ao lado dos instrumentos, em pontos que o arqueólogo responsável pela escavação, Ice McAvoy, diz terem sido fogueiras. Em outro sítio, o de Meadowcroft Rockshelter, perto da cidade de Pittsburgh, na Pensilvânia, datações revelaram a possibilidade de a América do Norte ter sido habitada há cerca de 20 mil anos. Essas datas foram recuadas no tempo ainda mais por um estudo que, baseado na suposição de que o DNA sofre mutações em ritmo regular, sugere que já existia gente na América há 30 mil anos. Para completar, especialistas em lingüística entendem que o grande número de famílias de línguas na América do orte

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comprova que ela já era habitada há bem mais de 20 mil anos. A polêmica em torno de todas essas hipóteses é muito feroz. A maioria das datas antigas foi obtida pelo método do carNATIONAL GEOGRAPHIC ART OIVISION bono 14, que é razoavelmente preciso. Mas, com freqüência, surgem dúvidas quanto ao grau de vinculação entre os intrumentos primitivos e a matéria orgânica nas proximidades, sobre a qual se baseia a datação - sempre há a chance de o material orgânico ter sido contaminado por outras substâncias. Às vezes, os cientistas discordam do processo de sedimentação, que também oferece uma estimativa de tempo. Eles ficam apreensivos com o fato de que, em Cactus Hill,

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considera-se uma camada de areia com espessura de apenas 10 a 15 centímetros representativa de um período de milhares de anos. Muitas vezes, as discussões sobre essas dúvidas podem tornar-se violentas e atrair a atenção pública. "Você percebe que a época é boa para a arqueologia quando acorda de manhã e encontra uma equipe de TV olhando para sua escavação",diz o arqueólogo A1Goodyear. u ESTIVE UM FIM DE SEMANA no sítio arqueológico chamado Topper, no sudoeste da Carolina do Sul, durante um encontro de pesquisadores comandado por Goodyear. Havia repórteres e fotógrafos de jornais, documentaristas e até um caminhão de uma rede de TV local, que pendurou uma antena na copa das árvores para transmitir o evento ao vivo. Todo esse inusitado interesse devia-se ao fato de que Goodyear descobrira, numa camada de areia abaixo do material da época Clovis, algumas lascas de pedra similares às produzidas por seres humanos. Parecia ser outro furo na barreira do tempo. Para alguns cientistas, a presença de uma equipe de TV era um sinal de que a história dos primitivos americanos havia se tornado popu-

E

lar e imediatista demais. "O ideal seria que todo o material encontrado fosse antes examinado por especialistas", comenta o arqueólogo Stuart Fiedel, consultor e autor de um livro sobre a pré-história americana. "Mas há muito tempo isso não vem acontecendo." O próprio Fiedel, no entanto, contribui para essa publicidade exagerada. Ele é o autor de uma crítica contundente às descobertas do sítio chileno de Monte Verde, publicada em uma revista especializada. Para ele, a maneira pela qual alguns artefatos foram registrados não era precisa o bastante para justificar a atribuição de tamanha importância. Seu discurso causou polêmica. Foi refutado por alguns arqueólogos e apoiado por outros - como C. Vance Haynes, um eminente geólogo especializado na estratificação de sítios arqueológicos. Para mim, apesar de tanto barulho, as descobertas em Monte Verde, Cactus Hill e Meadowcroft eram animadoras - e eu não entendia por que alguns arqueólogos pareciam tão cautelosos em relação a idéias novas e dinâmicas. Então, quando perguntei a Haynes sobre isso, ele me contou uma experiência sua. No final da década de 50, ele trabalhava na escavação de Tule Springs, em Nevada, que era

I 1,5 MIL ANOS ATRÁS, ILHAS QUEEN CHARLOTTE, CANADÁ

Em busca de artefatos, o arqueólogo Daryl Fedje limpa a lama das rochas. Os objetos da bandeja foram dragados de uma profundidade de 135 metros, onde havia florestas na última Era Glacial. Ele já havia achado um instrumento de pedra a 50 metros, no que talvez tenha sido uma margem habitada há 11,5 mil anos.

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• considerada anterior aos sítios Clovis. Ossos de animais pré-históricos encontrados no local pareciam estar associados a supostas fogueiras que remontavam a mais de 28 mil anos. O que Haynes descobriu, contudo, foi que o carvão das fogueiras não era de fato carvão, e sim vegetação em decomposição, ou seja, em processo de se transformar em carvão. As datas estavam certas, mas nunca houvera fogueiras ali - nem seres humanos. "É fácil nos equivocarmos na interpretação das coisas. Foi uma dura lição para mim", afirma Haynes. Outra peça desse intrincado quebra-cabeça arqueológico é o modo como os primeiros americanos chegaram ao continente. Eu estava sobre uma plataforma rochosa denominada Mesa, no norte do Alasca, onde instrumentos primitivos haviam sido achados ao lado de vestígios de fogueiras. Mesa fica nas proximidades

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da rota que os migrantes poderiam ter seguido, caso tivessem atravessado o Alasca e o corredor livre de gelo em direção ao sul. Teria sido esse, afinal, o caminho percorrido? o

CONTEXTO MAIS AMPLO das eras geológicas, o sítio de Mesa fica no leste da Beríngia - nome da faixa de terra que, até cerca de 11 mil anos atrás, ligava a Sibéria ao Alasca. Durante anos, os cientistas tiveram esperança de encontrar vínculos conclusivos entre os artefatos primitivos do Alasca e aqueles achados mais ao sul, um dado que confirmaria a Beríngia como rota usada pelos primeiros americanos. Instrumentos com os sulcos típicos das peças Clovis foram descobertos na região, mas nenhum deles foi datado até agora. E muitos dos sítios mais antigos do Alasca contêm microlâminas, que

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eram provavelmente encaixadas em fragmentos de galhos ou em ossos para que pudessem ser usados como facas. Essas microlâminas raramente aparecem nos sítios da cultura Clovis. Para explicar essa aparente lacuna, alguns arqueólogos afirmam ser possível que toda a população da América tenha surgido a partir de um pequeno grupo - cerca de 25 pessoas, talvez - que cruzou o corredor sem gelo numa situação desesperadora. Devido à rapidez com que se deslocaram, os pioneiros não teriam deixado vestígios e, mais tarde, poderiam ter aperfeiçoado os instrumentos Clovis para caçar os animais de maior porte que viviam nas Grandes Planícies americanas. O arqueólogo Michael Kunz, diretor de projetos no sítio de Mesa, acredita que os instrumentos que encontrou ali são um elo entre o Alasca e o sul. Outros pesquisadores, porém,

não partilham da mesma opinião. Alguns argumentam que o sítio de Mesa tem vestígios de povos mais tardios, em trânsito para o norte, e não para o sul, enquanto outros acreditam que os instrumentos foram deixados ali por visitantes ocasionais de outras regiões do Alasca. Tais opiniões conflitantes, todas baseadas nas diversas maneiras pelas quais é possível analisar a mesma coleção de lascas de pedra, trouxeram-me à lembrança uma idéia que eu ouvira de uma arqueóloga canadense: "A arqueologia é uma disciplina, e não uma ciência exata. Tudo está sujeito a interpretação" Enquanto eu seguia para o sul, tais palavras ficaram ecoando em meus ouvidos. Embora certos aspectos da arqueologia sejam baseados em ciência aplicada, como a datação pelo método do carbono, questões cruciais ainda parecem distantes de uma interpretação consensual.

14 MIL ANOS ATRÁS, RIO AUCILLA, FLÓRIDA Para pesquisar vestígios de sociedades primitivas, o geólogo Harley Means (à esquerda) nada até um sítio no rio Aucilla, na Flórida. Na maioria das escavações em terra firme restam apenas as pedras, mas aqui os mergulhadores acharam, preservado na água, um tesouro em instrumentos de osso e marfim. Uma lança decorada (à direita), talvez de marfim de mastodonte, foi esculpida quando as presas eram novas, indicando que essas pessoas conviviam com animais extintos cerca de 13 mil anos atrás. Os instrumentos de Aucilla foram datados em 14 mil anos, mas, segundo Oavid Webb, o principal pesquisador do projeto, "não podemos ser muito precisos em nossa cronologia".

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Depois de me perder duas vezes no labirinto de árvores, reconheci o barulho de um gerador e me guiei até uma caverna. A entrada era um pequeno buraco numa parede rochosa cercada de abrigos de lona, mangueiras plásticas, fios e baldes de lama. Os cientistas que estão escavando o lugar acreditam que ela vai ajudar a resolver o que poderíamos chamar de "barreira de gelo".A caverna fica na ilha Prince of Wales, no sudeste do Alasca. Até há pouco tempo, achava-se que essa área ficara coberta por geleiras na última Era Glacial, formando uma barreira às migrações. Hoje sabe-se que não foi bem assim. "Animais e plantas viveram aqui o tempo todo': conta o paleontólogo Timothy Heaton. "As condições podem ter sido bastante adequadas à habitação humana."


19 MILANOSATRÁS, AMÉRICA DO NORTE O arqueólogo Michael Collins Ià esquerda, na foto acima) procura indícios do passado no interior do Texas, onde 12 mil anos de história estão expostos em 6 metros da margem do rio San Gabriel. As pontas de lança e o lascador de ossos (abaixo) encontrados pelo pesquisador James Adovasio em Meadowcroft Rockshelter, na Pensilvânia (à direita, na página oposta), foram datados em 19 mil anos - números que minaram as teorias de que povos colonizaram a região apenas a partir de 13,5 mil anos atrás. "Hoje temos o caos teórico que se seguiu ao colapso de uma teoria aceita por muito tempo",

diz Collins.

AMES Drxox, UM ARQUEÓLOGO que trabalha com Timothy Heaton, sugere que, ~lém dos povos que se deslocaram a pé da Asia à América do Norte, outros fizeram o caminho em barcos. "Não havia nenhuma razão que impedisse os povos de vir pela costa, contornando as geleiras, como se faz hoje, por lazer, em caiaques", supõe Dixon. Alguns anos atrás, Heaton e seu colega Fred Grady acharam partes de um esqueleto humano na caverna da ilha Prince ofWales. Os ossos foram datados em cerca de 10,5 mil anos. Depois, outros testes revelaram que seu dono se alimentara quase só de frutos do mar. Embora não tão antigos quanto a cultura Clovis, os os-

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sos mostraram que ali prosperava uma cultura marítima. "Havia gente vivendo em todo esse litoral", afirma Dixon. "Eles tinham embarcações e comerciavam entre si." Indícios de que os americanos primitivos usavam barcos também são encontrados nas ilhas Channel, ao largo da Califórnia. Alguns ossos humanos desenterrados na ilha de Santa Rosa foram datados como sendo de cerca de 13 mil anos atrás. Estão entre os mais antigos vestígios humanos no continente. E, embora sejam, como os ossos do Alasca, um pouco mais jovens que os mais antigos instrumentos Clovis, provam que, pouco tempo depois da chegada dos primeiros americanos, eles aprenderam a se movimentar pela água. Comprovar que pessoas de fato chegaram ao continente em embarcações é uma tarefa difícil. No fim da última Era Glacial, o nível do mar era cerca de 90 metros mais baixo que o atual - todos os assentamentos costeiros que existiam na época, portanto, estariam hoje no fundo do mar. Em 1998, dois cientistas canadenses, tentando localizar um desses resquícios PRIMEIROS

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-------------------------------------------------------------------. humanos nas proximidades das ilhas Queen Charlotte, recuperaram um instrumento de pedra. O pedaço de rocha, lascado para ser usado talvez como faca, foi retirado de uma profundidade de 50 metros, perto de onde a linha da costa estaria há 11,5 mil anos. Os cientistas também descobriram um toco de pinheiro a 150 metros, uma profundidade equivalente a uma linha costeira ainda mais anterior no tempo. Mas, como não encontraram nenhum outro instrumento, concluíram que aquele único achado poderia ter caído de um caiaque milhares de anos atrás. Por isso, ele não é prova suficiente de uma ocupação primitiva. Na costa leste americana reina outra hipótese intrigante sobre uma rota possível para a América. Aventada diversas vezes nos últimos 100 anos e retomada há pouco por Dennis

Stanford, do Instituto Srnithsonian, e pelo arqueólogo Bruce Bradley, a idéia questiona a teoria da origem asiática: o povo Clovis pode ter vindo não da Beríngia, mas do outro lado do oceano Atlântico. No sudoeste da Europa há uma cultura pré-histórica denominada solutrense, cujos artefatos apresentam às vezes extraordinária semelhança com os da cultura Clovis. Os pesquisadores acham que há elos mais fortes entre os instrumentos encontrados na Europa, datados de cerca de 20 mil anos, do que com os utensílios igualmente antigos achados no outro lado do Pacífico, no Oriente. "As peças asiáticas são estreitas e grossas", explica Bradley. "As das culturas Clovis e solutrense são mais largas, chatas e finas." De acordo com os dois arqueólogos, entre 18 mil e 24 mil anos atrás os solutrenses podem

II MILANOSATRÁS, LAGO ARCH, NOVO MÉXICO

Cientistas do Instituto Smithsonian Mexico University examinam o esqueleto de uma mulher descoberto em 1967. Datações preliminares indicam que o esqueleto tem mais de 11 mil das anciãs", diz Doug Owsley lã frente, esquerda}. "Podemos aprender à

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e da Eastern New seu leito de areia em anos. "Ela é a última com seus segredos."

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ter usado embarcações semelhantes aos barcos de pele esquimós para navegar até a América do Norte. Isso não quer dizer que os primeiros americanos poderiam ter sido loiros de olhos azuis. Características raciais, como a cor da pele, podem mudar com rapidez devido à mistura e ao deslocamento dos grupos humanos. desapareceram da Europa há cerca de 19 mil anos. As razões do sumiço são incertas até agora. O povo que produzia as peças pode ter se mudado para outro lugar ou então modificou as técnicas de produzi-Ias. Mas Dennis Stanford acredita que sítios como o de Cactus Hill, cujas datas chegam até esse período, podem conter vestígios solutrenses. "Estamos apenas no início do trabalho",alega o pesquisador. "Em breve, acho que vamos ter uma porção de pós-graduandos brilhantes tentando provar que estamos errados. E, mesmo que eles tenham razão, obteremos mais informações sobre as culturas Clovis e solutrense. E isso, por si só, já vale a pena." Alguns dos arqueólogos a quem indaguei sobre o assunto zombam da hipótese da origem européia. E fazem isso em alto e bom som. Para Lawrence Guy Straus, por exemplo, um especialista em cultura solutrense, inviabiliza tal teoria a distância entre a Europa e a América, assim como a diferença de 5 mil anos entre o desaparecimento dos solutrenses e as datas em geral aceitas para o período Clovis. E, segundo ele, também não há até agora nenhum indício de que a cultura solutrense dominasse as técnicas de navegação oceânica, de pescaria ou da caça de mamíferos marinhos. Guy Straus tampouco demonstrou simpatia pelas idéias de Stanford a respeito da similaridade dos instrumentos. "Uma das grandes falhas da arqueologia é sempre recair na noção óbvia de que, se algumas coisas são parecidos entre si, elas têm de ter a mesma origem. Mas essas semelhanças vivem aparecendo em lugares diferentes, sem relação", explica ele. As controvérsias são grandes. Michael Collins, um arqueólogo que trabalha no sítio de Gault, no Texas, um dos principais do período Clovis, ficou mais intrigado. Para ele, a questão é básica: a grande quantidade de semelhanças com as ferramentas solutrenses não pode ser ignorada. "Há fumaça suficiente para que alguém comece a procurar pelo fogo",pensa.

O

S INSTRUMENTOS

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AMERICANOS

SOLUTRENSES

Ali, aonde chegaram no sul, a terra era estéril e não havia comida nem água em abundância. Então, a Grande Força ensinou os peles-vermelhas a caçar e fazer roupas para se proteger do frio, e eles tiveram uma vida muito próspera. MITO DE CRIAÇÃO

CHEYENNE

Quando, de onde e como as pessoas chegaram à América são apenas três peças do intrincado quebra-cabeça arqueológico. Uma quarta, tão incerta quanto as outras, é quem eram esses primeiros americanos. Alguns dos indícios disponíveis estão baseados em crânios. No Rio de Janeiro, fui a um museu para conhecer um crânio famoso chamado Luzia. Ele estava guardado numa caixa de papelão e, à primeira vista, parecia pequeno como o rosto de uma criança. Por volta de 25 anos atrás, Luzia foi encontrada perto de Belo Horizonte, em Minas Gerais, num sítio arqueológico de cerca de 13,5 mil anos. Há pouco tempo, porém, uma nova análise do formato do crânio mostrou que Luzia não se parecia muito com um nativo da América. As novas pesquisas chamaram atenção para as teses do cientista brasileiro Walter Neves, segundo o qual o formato do crânio apresenta mais semelhanças com os crânios dos povos da África ou do Pacífico Sul do que com os dos índios modernos. Para Neves, Luzia poderia ser descendente de asiáticos que, por sua vez, talvez também tenham sido os ancestrais dos aborígines australianos. O problema com os crânios antigos, no entanto, é que muitas vezes eles levam a certas conclusões bombásticas, apoiadas em indícios muito frágeis. Nos Estados Unidos, um similar da brasileira Luzia é o esqueleto de 9,5 mil anos conhecido como o homem de Kennewick. Ele foi descoberto no estado de Washington em 1996. E até hoje persiste uma disputa legal pelo esqueleto entre cinco tribos indígenas - que reivindicam o direito cultural de sepultá-Io como um suposto ancestral - e um grupo de cientistas, que acha que os ossos antigos deveriam, acima de tudo, ser estudados. As primeiras reportagens sobre o homem de Kennewick deram a entender que o crânio se assemelhava ao de um homem branco, pois o arqueólogo Iim Chatters havia usado para descrevê-Ia o termo "caucasóide" Essa descrição técnica do formato do crânio o distingue do formato mongolóide, mas não significa necessariamente que o indivíduo era branco. Em 97


13 MILANOSATRÁS, OESTE AMERICANO

"Havia muitos bisões" (acima). Mas esses

animais não eram de forma nenhuma o ponto central da economia", avalia o arqueólogo James Adovasio. As sandálias trançadas há 13 mil anos (abaixo) e um instrumento para fazer tatuagens (à direita, na página oposta) mostram um estilo de vida complexo e de muitos recursos. "A pedra era usada em apenas 5% dos objetos", completa Adovasio.

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seus relatórios iniciais, Chatters dizia apenas que o crânio, em um contexto moderno, não seria atribuído a um índio. Para os cientistas, porém, a atribuição de raça a um crânio primitivo é um equívoco por dois motivos: a raça não é uma maneira científica de classificar seres humanos e aquelas que conhecemos no mundo de hoje provavelmente não existiam há 9,5 mil anos. Por conta disso, depois que as primeiras reportagens associaram uma raça ao Homem de Kennewick, Chatters teve muita dificuldade em conter a torrente de especulações nesse sentido. "Ninguém está falando de homens brancos aqui" ele foi obrigado a explicar na época. A classificação de seres humanos em função de tipos de crânio tem um passado deplorável - incluem-se nesse histórico, por exemplo, esforços do movimento eugênico para reforçar estereótipos raciais com base em medidas cranianas. Por isso - e também porque o formato

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do crânio pode ser determinado por outros fatores, como a alimentação -, muitos arqueólogos hesitam na hora de tirar conclusões. Mas, como os ossos de Luzia, do homem de Kennewick e de alguns outros esqueletos antigos fazem parte de um conjunto muito restrito de indícios sobre os americanos primitivos, os antropólogos físicos estão tentando aprender com eles o máximo possível. "Quando estudamos esqueletos antigos, percebemos que eles não têm a largura facial dos índios modernos nem a mesma estrutura marcada de rosto. Eles possuem uma caixa craniana mais alongada e estreita", diz Doug Owsley, antropólogo físico do Instituto Smithsonian. Esse dado, porém, não nos revela necessariamente quem veio de onde. "Um crânio isolado não significa nada. Basta atentar para os diferentes formatos de cabeça de espectadores em um estádio de futebol", ilustra um arqueólogo, com humor. O ceticismo em relação aos

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crânios é, em parte, baseado num intrigante estudo de Franz Boas, um dos gigantes da disciplina. Em 1911, muito antes das polêmicas de hoje, ele afirmou que os filhos de imigrantes nascidos em Nova York tinham cabeça com formato bastante diferente da de seus pais. Para contornar tantas objeções, Owsleye Richard [antz, outro antropólogo físico, estão reunindo uma série de dados estatísticos. Se um grande número de medidas de esqueletos servir para demonstrar que certos grupos, em determinado lugar, têm medidas diferentes de grupos de outra área, então talvez seja possível depositar mais confiança nas supostas origens da brasileira Luzia e do homem de Kennewick. Mas esse dia ainda não chegou. o maxirno, Doug Owsley arrisca alguns palpites. Para ele, os crânios primitivos tendem a se assemelhar aos dos ancestrais dos polinésios modernos ou aos dos ainus do Japão, que descendem de um 100

povo que vagou por grande parte do litoral da Ásia e tinha uma cultura marítima. As duas hipóteses se encaixariam nas teorias de chegada dos povos à América pela ponte de terra entre a Sibéria e o Alasca ou por barcos, ao longo da costa do Pacífico. Mas, como os ossos apresentam variações grandes, o que até agora revelaram a Owsley não foi a história de uma migração única, e sim a de uma acumulação gradual de vários povos. «Isso sugere um quadro de migrações múltiplas ao longo do tempo", avalia ele. «Assim, não podemos excluir a hipótese da travessia do Atlântico. Seria, sem dúvida, uma história rica e complexa." Ao contrário do estudo tradicional de pedras e ossos, as pesquisas de DNA parecem conter maior rigor científico. Afinal, se é possível condenar criminosos com base na análise do DNA, por que não poderíamos rastrear as origens dos primeiros americanos? NATIONAL

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10,5 MILANOS ATRÁS, PATAGÔNIA Pinturas nas paredes da Cueva de Ias Manos, na Patagônia, mostram que o desejo humano de ser lembrado já existia há 10,5 mil anos. Os animais são guanacos, que, ainda hoje, vagam pelo deserto patagônico. Mãos pintadas com borrifos de tinta também podem ser vistas na Austrália e na França.

com o dos ainus, estudos feitos no Japão não acusaram quase nenhum vínculo genético com os americanos primitivos. Na verdade, a maior parte dos dados relativos ao DNA apontam em outra direção. "Do ponto de vista do DNA mitocondrial, o local mais provável para a origem dos americanos é a região do lago Baikal, na Rússia", diz o antropólogo David Glenn Smith, da Universidade da Califórnia, em Davis. Conversei com Smith num pequeno escritório, ao lado do laboratório onde ele analisa amostras de DNA. Na parede havia um grande mapa dos Estados Unidos com estrelas douradas marcando os sítios onde foram achados alguns dos 40 esqueletos mais antigos. Há um bom tempo ele vem coletando amostras de al-

Para alguns cientistas, isso revela que povos diferentes podem ter criado coisas similares. O crânio de uma mulher achado no Brasil (à direita), datado em

13,5 mil anos, também complica algumas das teorias mais aceitas. O crânio parece-se mais com o de africanos ou de aborígines da Austrália do que com o de índios americanos.

A

O MOME 'TO, a análise do DNA não deu as respostas claras que todos esperam. As pesquisas voltadas para o acompanhamento de marcadores específicos em genes da linhagem materna têm confirmado, mas em termos muito genéricos, a idéia de que os norte-americanos vieram da Ásia. Entretanto, esse processo não oferece respostas simples. Por exemplo: um dos marcadores genéticos dos índios americanos aparece em genes modernos da Europa e da Ásia Central, mas não nos da Sibéria. Tal fato levanta duas suspeitas: ou os povos que o carregavam desapareceram da Sibéria após a migração - à América ou a migração vinda da Europa poderia ter mesmo embasamento genético. Os indícios do DNA também podem conflitar com as histórias contadas pelos crânios. Embora os crânios primitivos, como o do homem de Kennewick, apresentem semelhanças TÉ

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OS

guns desses ossos. "Queremos descobrir se há indícios de que os povos primitivos tinham uma aparência diversa da de outros mais tardios", diz Smith. "Se houver diferença em seus crânios, teremos motivos para perguntar se também eram geneticamente distintos." Por enquanto, embora não hesite em discutir o assunto, ele ainda não divulgou formalmente nenhum resultado de suas pesquisas. No início havia água por toda parte, e surgiu a questão: "Quem vai fazer a terra?" A lagosta mergulhou até o fundo e lá encontrou a lama. MITO DE CRIAÇÃO YUCHI-CREEK

Tamanha incerteza mantém obscuro outro aspecto da história dos primeiros americanos: como seria o cotidiano desses seres primitivos? Nas águas rasas do rio Wacissa, no norte da Flórida, dois mergulhadores trabalhavam com

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espátulas, remexendo

o lodo escuro do fundo. Tal como os arqueólogos em terra firme, eles cavavam com todo o cuidado, concentrados em camadas sedimentares a mais de 1 metro de profundidade, extraindo pedaços de pedra, osso e marfim aninhados ali pelo tempo. "Os instrumentos de osso e de marfim estão em bom estado de preservação", explica David Webb, curador de paleontologia dos vertebrados no Museu de História Natural da Universidade da Flórida. De cabelos brancos, esguio e cheio de energia, Webb agitava os braços com rapidez enquanto argumentava e me mostrava algumas das peças achadas nos rios da Flórida. Havia maravilhosas pontas de lança feitas de presa de mastodonte, de 33 centímetros de comprimento, lascas pontiagudas e até mesmo dois grandes instrumentos em forma de punhal, com buracos nos cabos feitos com ossos do hoje extinto cavalo do Pleistoceno. Mas, embora as datações dos instrumentos e .dos ossos de animais indiquem que os homens 'possam ter vivido ali por volta de 14 mil anos atrás, essas peças nada revelam sobre a origem desse povo. E Webb evita a conclusão de que as datas encontradas significam que as pessoas viviam ali antes do limite de 13,5 mil anos da cultura Clovis. "Prefiro não tomar partido", diz ele com um largo e maroto sorriso. Conversei depois com Andy Hemmings, doutor em antropologia. Jovem e entusiasmado, Hemmings cultiva um corte de cabelo em estilo moicano, o que lhe dá um ar ao mesmo tempo surpreso e alerta. Ele tinha feito uma cópia de um dos punhais a partir de um osso de cavalo moderno, raspando-o durante horas numa superfície de concreto até que ficasse igual à peça antiga. Então, abriu um buraco no cabo com uma pedra. Como não furou no lugar certo, o buraco não ficou exatamente no centro. Mas, quando examinou o original, percebeu que o autor cometera o mesmo erro. Ele teve então uma das sensações que levam as pessoas a mergulhar numa atividade complexa como a arqueologia. Com a rapidez de um relâmpago, o erro compartilhado conectou sua imaginação à de outro ser humano único do passado distante. "Você sente que realmente aprendeu algo da cultura antiga quando está sentado ali e isso acontece", resume. "Talvez seja a minha curiosidade intelectual e o meu desejo de entender como essas pessoas viviam. É como se você vislumbrasse algo."

102

8,3 MILANOS ATRÁS, TERRA DO FOGO A 150 quilômetros do extremo sul da América, um grupo de arpões, furadores feitos de ossos de pássaro e contas em forma de tubo enfeitam a costa rochosa de um dos últimos lugares colonizados pelos seres humanos. Para o arqueólogo José Luis Lanata, os instrumentos indicam as habilidades que os povos trouxeram a esse hemisfério remoto. "Há o conceito errado de que os povos precisaram de centenas de anos para adaptar-se ao ambiente", diz ele. "Mas as pessoas sobreviveram porque eram capazes de enfrentar situações de risco a todo momento. A adaptação humana é mais dinâmica do que todos nós pensamos."

Léxuwakipa, que era muito sensível, sentiu-se ofendida pelo povo. Como vingança, fez nevar tanto que uma enorme massa de gelo acabou cobrindo a Terra. Um dia, quando essa massa começou a derreter, houve tanta água que a Terra inteira foi inundada. MITO DE CRIAÇÃO

YÁMANA

Numa praia da Terra do Fogo havia uma pequena cabana feita de folhas de faia antártica (Nothofagus). É uma réplica das cabanas usadas pela tribo dos yámanas, que ali vivia na época da chegada dos exploradores europeus e hoje está quase extinta. Um vento frio soprava do cabo Horn, agitando as folhas nos galhos da cabana. Entrei nela e tentei imaginar o passado. Ali era o fim da Terra - um dos últimos lugares em que os seres humanos decidiram morar. Os registros disponíveis mostram que eles chegaram a essa extremidade sul do continente há

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apenas 8,3 mil anos. As histórias do sinistro lugar são tão confusas quanto no resto da América. Quando os europeus chegaram, quatro povos diferentes habitavam essa área relativamente pequena. Cada grupo tinha uma aparência característica e, no total, falavam duas línguas distintas. O arqueólogo argentino que me levara até ali, José Luis Lanata, descreveu a chegada desses diferentes grupos como "um quebra-cabeça com muitas combinações". É possível dizer o mesmo a respeito de toda a história dos primeiros americanos. O que falta para resolver esse quebra-cabeça tão cheio de possibilidades? Hoje os estudos encontramse num momento de, digamos, tumulto científico: várias teorias consagradas sofreram abalos em seus fundamentos e novas correntes estão brotando por toda parte. São idéias de barcos vindos da Ásia ou da Espanha. Ou idéias de grupos vindos há 30 mil anos. PRIMEIROS

AMERICANOS

Os cientistas mais realistas não vislumbram nenhuma solução tão cedo. Há uma abundância de especulações, mas a matéria-prima da ciência - indícios concretos e conclusivos - não se encontra com facilidade. "Precisamos encontrar uma série de sítios pré-Clovis", confessa um arqueólogo. Para o argentino Lanata, ainda vai demorar muito para o mistério ser desvendado. "Precisamos de quatro ou cinco sítios anteriores aos de Clovis, numa seqüência. Mas, para conseguirmos encontrá-los, talvez precisemos de mais 100 ou 200 anos." O homem que estuda a imensidão selvagem da Terra do Fogo conclui: "O debate sobre os •••. MAIS EM NOSSO SITE A viagem pelos mais primeiros americanos seria capaz de acabar antigos sítios arqueológicos da América continua em com os nervos do howww.nationalgeographicBR. mem mais paciente com.brj0012 do mundo". O 103


-

.ístona ,.

,

rePor RONALDO

RIBEIRO

Fotos de ANDRÉ

PESSOA

No Piauí e em Minas Gerais, os fascinantes - e polêmicossinais que sugerem a gênese do homem americano no Brasil. Passado e presente quase não se distinguem e desfiladeiros que irrompem

nos arredores de alguns morros, chapadas

na paisagem árida do sudeste

do Piauí (ao lado). Há 30 anos, a arqueóloga

iede Guidon

extrai dali vestígios humanos remotos e impressionantes e, geralmente, controversos. unanimidade

Se forem um dia reconhecidas

dos pesquisadores,

pela

as relíquias da serra da Capivara

farão retroceder em milhares de anos a origem do homem americano. Em outra frente de trabalho estão Walter Neves e os cientistas que reconstituíram a incrível história da primitiva brasileira batizada de Luzia, cujo crânio (acima) foi achado na década de 70 na região de Lagoa Santa, Minas Gerais. Nossos principais sítios arqueológicos

suscitam teorias distintas. Ambas, porém, parecem convergir para uma

única (e fundamental) PRIMEIROS

AMERICANOS

questão: teriam os primeiros americanos vivido no Brasil? 105


--

12 000 ANOS ATRÁS, SERRA DA CAPIVARA, PIAuí A toca do Boqueirão da Pedra Furada (página oposta) é uma galeria de arte rupestre, com milhares de pinturas diferentes. Os iguanas (acima) e os mandacarus (ao lado) espalham-se pela caatinga ao redor dos paredões do parque nacional (no alto).

o berço da maior polêmica - e, quem sabe, dos primeiros americanos - é a toca do Boqueirão da Pedra Furada, o sítio mais importante do Piauí. Ali foram achados, em 1992, fragmentos de uma fogueira datados de 50 mil anos atrás. A idade surpreendente dessa chama remota revolucionou tudo o que se imaginava até então sobre a ocupação do continente americano. Povos primitivos podem ter chegado ao Brasil de barco, pelo oceano Pacífico ou pelo Atlântico, ou mesmo caminhando a partir da Ásia, da Sibéria ao Alasca. O caminho dos ancestrais, porém, é um dado secundário. O ponto de fervura dessa discussão é o tempo - a presença de seres humanos na América 30 mil anos antes das teorias mais aceitas. Os restos de carvão da serra da Capivara despertaram muitas dúvidas no mundo científico. Com a datação e a teoria migratória referente ao crânio Luzia - achado no sítio de Lapa Vermelha, perto das cidades de Lagoa Santa e Pedro Leopoldo, em 1975-, definiram-se no país duas correntes de pensamento sobre os primeiros americanos. Luzia, de família asiática e feições dos negros atuais, teria andado pelo interior de Minas há 13,5 mil anos (veja na página 108). NATIONAL

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Alguns habitantes da serra da Capivara, de origem incerta, viveram ali há talvez 50 mil anos. Os arqueólogos contrários à teoria usam, na maioria das vezes, um argumento simples e sólido. Para eles, os fragmentos da Pedra Furada não indicam necessariamente que um homem esteve ali e ateou fogo à madeira para se aquecer ou assar um pedaço de carne. A chama pode ter sido gerada pela natureza - raios durante uma tempestade ou combustão espontânea. Niede Guidon e os demais cientistas de sua equipe contestam e seguem insistindo em provar a veracidade da relíquia. Recentemente, a pesquisadora Gisele Daltrini Felice realizou, para uma tese de mestrado, sondagens detalhadas de todo o vale da Pedra Furada. E não encontrou nenhuma outra fração de fogueira dispersa pela área. Para Niede, esse novo estudo também ratifica a sua teoria. "Um fogo de causas naturais deixaria sinais espalhados por uma área maior, e não concentrados num único ponto, como ocorreu", avalia. Amostras dos fragmentos estão sendo novamente datadas, com métodos mais modernos, na Austrália. A tendência, Niede acredita, é que a barreira do tempo seja novamente quebrada. Mais: três PRIMEIROS

AMERICANOS

dentes humanos e um pedaço de maxilar desenterrados há anos na toca do Garrincho foram analisados há pouco num laboratório de Miami. A datação, calibrada, situa os fósseis entre 14 mil e 15 mil anos atrás - portanto, os fósseis humanos mais antigos já encontrados. Mais velhos, até, que o crânio de Luzia. polêmicas não minimizam a importância da serra da Capivara, o parque nacional brasileiro de maior valor arqueológico. Descendente de franceses e de índios caingangues, Niede Guidon fixou-se na região. em 1970. Nessa época, suas pesquisas começaram a identificar uma série de instrumentos de pedra lascada, assadas e, principalmente, mais e mais pinturas rupestres - que comprovam a ocupação da região desde 12 mil anos atrás. "Fiquei impressionada com a quantidade e a expressividade dos desenhos, diferentes de tudo o que já havia sido documentado até a minha chegada ao Piauí. Era um mundo novo e desconhecido", lembra-se ela. ave anos depois de sua primeira visita, o parque foi criado numa área de 1,3 mil quilômetros quadrados.

T

ANTAS QUESTÕES

107


Urna mulher

à moda antiga

H

á uma diferença visível entre as

relíquias arqueológicas da serra

da Capivara e as de Lagoa Santa:

o passado, em Minas Gerais, tem rosto. Um rosto de mulher, com traços fortes e

bem definidos - nariz largo, lábios e queixo salientes. Em 1999, Luzia, o mais antigo crânio humano americano já encontrado, passou por uma plástica completa, Uma inédita modelagem em argila revelou que a brasileira se parece mais com um negro africano. Ou, quiçá., com um aborígine da Oceania. Jamais com um mongolóide da Ásia, os ancestrais que semearam as características físicas dos índios da América. A reconstituiçâo

facial reforçou a teoria

formulada pelo arqueólogo Walter Neves

pela América cerca de 3 mil anos antes de

(foto), da Universidade de São Paulo, que

três grandes populações mongolóides

estudou o crânio quase 20 anos depois de

entrarem no continente a partir da Sibéria.

ele ser retirado do sítio de Lapa Vermelha.

A tese, hoje, não se sustenta apenas com

Neves é um dos mentores do chamado "modelo das quatro migrações". Segundo

Luzia. Neves vem estudando 50 crânios distintos, um pouco mais novos que sua

os cientistas que concordam com essa idéia,

ossada mais célebre, que tem 13,5 mil anos.

uma leva migratória pioneira espalhou-se

A maioria deles é de Lagoa Santa, mas alguns provêm de sítios da Terra

A reconstituição da face de Luzia (ao lado) valorizou os estudos do arqueólogo Walter Neves (acima). Ele aponta diferenças entre um crânio da idade de Luzia (na sua mão direita) com o de um mongolóide, povo que teria chegado à América depois.

do Fogo, da Colômbia e da Florida. Em todos, a forma do crânio é a mesma: longa e estreita. Muito diferente da dos mongolóides larga e achatada. Apesar das feições africanas ou australianas de Luzia. seus antepassados também vieram da Ásia pela fronteira siberiana, no atual estreite de Béring. Não fizeram a travessia a pé. Navegaram com muitas escalas pela costa antes de adentrarem o continente e vagarem por milhares de anos antes de desapareceram, talvez em decorrência de um conflito territorial com a população posterior.

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A mais antiga brasileira morreu jovem, de causa desconhecida, certamente vítima dos dramáticos episódios sobre os quais girava a vida de então, numa luta feroz pela sobrevivência. A posição em que seus ossos foram encontrados

indica

que ela sequer foi enterrada. Luzia viveu entre um grupo seminômade

que

perambulava

pela

região onde hoje fica o município de Lagoa Santa. Para Neves, eram 25 ou 30 pessoas, não mais. Formavam uma sociedade igualitária. sem hierarquias, onde todos dispunham

de acesso às mesmas

coisas .• 'As diferenças eram baseadas no talento de cada um", acredita o arqueólogo. Outros indícios estudados fazem crer que eles caçavam animais de pequeno porte, mas alimentavam-se,

basicamente, da coleta de

vegetais. E tinham tendência à monogamia. Jamais poderemos saber se Luzia foi ou não uma pessoa feliz. O que se sabe ao certo é a prosaica origem de seu nome. Em 1995, época em que o crânio não havia ainda ganho tanta notoriedade, Walter Neves apresentou-o, ainda anônimo, a um grupo de estudantes no Museu Nacional do Rio de Janeiro. O cientista sabia que tinha em mãos uma versão do célebre fóssil Lucy, a mais antiga ancestral humana, de estimados 3,2 milhões de anos, achada na Etiópia em 1974. Naquele dia Neves viu graça na comparação. uma adaptação

Mas fez uma ressalva,

bem brasileira para o nome

pomposo da prima africana. E assim foi batizada Luzia, 13,5 mil anos depois.

RECONSTITUIÇÁO DE FACE FEITA PELA UNIVERSIDADE DE MANCHESTER, FOTO

PRIMEIROS

GAMMAlJL

AMERICANOS

SULCÃO

(AO

LADO):

KIKQ

FERRITE

Hoje já são 535 sítios arqueológicos diferentes catalogados na serra da Capivara, 300 deles com conjuntos de pinturas rupestres. É a maior concentração do gênero no Brasil, mas a conta muda a cada dia. Vestígios do passado descortinam-se à medida que os pesquisadores abrem outras trilhas em zonas selvagens do parque, num labirinto de novas informações que só ajuda a fomentar os mistérios sobre os primeiros americanos. Entre as últimas descobertas da equipe de Niede está um sítio com pinturas minúsculas. Algumas, de seres humanos, não passam de 2,5 centímetros. Uma raridade.

A

PESAR DA GRANDE BIODIVERSIDADE,

a caatinga espinhosa ao redor da cidade de São Raimundo Nonato, onde fica o parque, não parece muito estimulante à vida humana. o passado remoto, porém, a região tinha muita água e uma vegetação parecida com a de uma floresta tropical. o fundo de alguns cânions adjacentes à serra restam árvores como jacarandás e gameleiras. Os ossos encontrados em escavações indicam ainda que animais de grande porte circulavam pela mata. Quando a região entrou num processo de desertificação, a vida na Capivara começou a minguar. Isso explica o fato de os desenhos mais significativos estarem dentro de um período bem definido, que termina há cerca de 6 mil anos - quando, por causa do esgotamento dos recursos naturais, supõe-se que muitos grupos deixaram o lugar. Com pincéis de pena de aves, lascas de madeira e argila ocre, os povos ancestrais do Piauí eternizaram seu cotidiano nas paredes das cavernas. A impressão, para quem observa os desenhos, é de que eles se divertiam muito nessas sessões de pintura. A arte primitivista também simboliza que, na serra da Capivara, o passado e o presente podem facilmente ser interpretados como um tempo só. Um exemplo: na toca da Pedra Furada, uma infinidade de desenhos ilustra, entre outros curiosos momentos da Pré- História, caçadas a bichos diversos, brigas e, claro, sexo. Leis de MAIS EM NOSSO SITE sobrevivência, pequePinturas rupestres da serra nos conflitos e granda Capivara e outros indícios des prazeres - nada, convenhamos, muito dos primitivos brasileiros estão em www.nationalgeogra diferente da realidade dos nossos dias. D phicBR.com.br/0012

(AOMA)

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A aurora do homem