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Do museu para a vida A ciência já consegue clonar bichos mortos e recuperar pedaços do DNA de animais extintos há milhares de anos. Quanto falta para recriar um mamute? Marcela Buscato

bordo de seu "mamute", o pesquisador russo Sergei Zimov percorre as planícies geladas em .torno da estação científica que ele dirige, na Sibéria. Mamute, nesse caso, é o apelido que Zimov deu a seu antigo tanque soviético. Ele enorme como foram os mamutes, elefantes peludos extintos há 10 mil anos. Hoje, o bicho não passa de um personagem de animação, como o rabugento Manny, do filme A era do gelo. Ele é bem conhecido porque desde o sé-

A

é-

Quais espécies· têmchances de voltar à vida Eles morreram há centenas de anos ou milhares de anos. Mas os cientistas desenvolveram parte da receita para ressuscitá-Ias 52> tPOCA. 19 de janeiro de 2009

culo XVII exemplares quase completos desenvolva. Assim como faziam os mavêm sendo desenterrados do permafrost, . mutes, com seu peso e suas longas presas o solo congelado da Sibéria. Zimov re- de 5 metros de comprimento . corre a seu mamute metálico para deEm uma área de 160 quilômetros quasempenhar uma tarefa que, no passado, drados na planície de Cherskii, Zimov o bicho realizava: derrubar as árvores da está criando um "Parque Pleistocênico". taiga, a floresta borea! siberiana. O Pleistoceno foi era da idade do. gelo, O sonho do geofísico Zimov é restauquando os mamutes viviam, e o nome rar os extensos campos que dominado parque é uma alusão ao filme Parque vam a Sibéria no tempo dos mamutes. dos dinossauros (1993). Zimov já soltou O tanque de Zimov derruba as árvores, em seu parque cavalos selvagens, renas, permitindo que a vegetação rasteira se alces e ursos. Em fevereiro, chegarão os

MAMUTE o último desses elefantes

peludos que habitaram o Hemisfério Norte desapareceu há 10 mil anos. Mas. desde o século XVII. carcaças congeladas são achadas na Sibéria. Por isso. o mamute é um forte candidato a ser ressuscitado. Em 2008. geneticistas afirmaram já ter decifrado 80% de seu DNA

a

TIGRE-DENTES-DE-SABRE

PÁSSARO OODÔ

O maior de todos os tigres se extinguiu há 10 mil anos. Seus primeiros fósseis foram achados em 1840 pelo naturalista Peter l.und, em Lagoa Santa. Minas Gerais. Havia três espécies. A maior. com 400 quilos. vivia no Brasil. Uma equipe australiana tenta recuperar trechos de seu DNA

O dodô era um pombo gigante que não podia voar. Habitava as Ilhas Mauricio. no Indico. Caçado por europeus que faziam escala no local. o último dodô foi morto em 1691. A chance de recriá-Io depende de extrair DNA de uma cabeça e uma pata. guardadas na Universidade Oxford


bisões, importados dos Estados Unidos. Zimov espera coroar seu parque com a reintrodução, no futuro, de mamutes em carne e osso. "Os cientistas conseguirão recriar um animal extinto dentro de dez ou 20 anos", afirma. ão é uma alucinação. Estudos científicos sugerem que essa é hoje uma possibilidade. No dia 13, um grupo de pesquisadores anunciou ter decifrado um pedaço significativo do conjunto de genes do tigreda-tasmânia. Apesar do nome de tigre, ele lembrava um cachorro, embora não tivesse parentesco com este último. Seu parente mais próximo era o diabo-da-tasmânia, além de coalas e cangurus. O último tigre-da-tasmânia morreu em 1936,no zoológico de Hobart, a capital do Estado australiano da Tasmânia. Os museus australianos possuem dezenas de exemplares . do bicho, conservados em formol. Foi a partir de seus pelos que os geneticistas reconstruíram parte de seu DNA. Outro exemplo dos avanços para recriar o tigre-da-tasmânia foi obtido em maio de 2008. Uma equipe da Universidade de Melbourne, na Austrália, inseriu no feto de um camundongo um pedaço de DNA do tigre-da-tasmânia. O gene foi ativado

e ajudou a desenvolver cartilagens no camundongo. Por tudo isso, o tigre-da-tasmânia é um grande candidato a se tornar a primeira espécie extinta a voltar à vida. Primeira, não única. Nos últimos meses, duas equipes japonesas anunciaram a clonagem de animais que estavam' mortos e congelados, como é o caso de um boi que morreu em 1993. Se os cientistas já conseguem recuperar genes de espécies que deixaram de existir, e também são capazes de produzir dones de bichos mortos, quanto falta para que obtenham sucesso na união das duas técnicas e ressuscitem um mamute?

"Talvez seja possível", diz o japonês Kazuhiro Saeki, geneticista da Universidade Kinki, em Osaka. "Se os tecidos tiverem sido bem conservados em baixas temperaturas': como no caso dos mamutes da Sibéria. "Mas ainda há tantos problemas para resolver ..." A equipe de Saeki anunciou no dia S ter usado células dos testículos congelados do boi Yasufuku, morto há 13 anos, para donar quatro bezerros desde 2007. O primeiro desafio dos geneticistas para recriar espécies extintas é recupe-

rar células em bom estado. Para danar um rato congelado há 16 anos, a tática escolhida pelo geneticista japonês Teruhiko Wakayama foi a persistência. "Coletamos as células que pareciam inteiras, fizemos a clonagem e o resultado foram os filhotes do rato", diz \'\Takayama, do Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, em Kobe. O problema é que nem mesmo muita per-, sistência parece ser capaz de recuperar o DNA de espécies mortas há centenas de anos. O máximo que os pesquisadores conseguem, em alguns casos, é resgatar pequenos fragmentos. Eles não são suficientes para fornecer a receita completa para recriar o animal. Por isso, é pouco provável que os animais do "Parque dos Dinossauros" saltem um dia das telas do cinema para as ruas. No filme, cientistas encontram sangue de dinossauros no estômago de um mosquito. Este, por sua vez, estava preservado em ârnbar, a seiva que escorreu de uma árvore no tempo dos dinossauros, há mais de 65 milhões de anos. Do sangue, os geneticistas extraem o DNA de diversas espécies de dinos, que são donadas e ressuscitadas. ~

TIGRE-DA-TASMÂNIA

MOA

TIRANOSSAURO REX

É um dos animais extintos com mais chances de voltar à vida. O último exemplar morreu na Austrália. em 1936. O Museu Australiano. em Sydney. tem dezenas de espécimes conservados em formal. No dia 13. cientistas extrairam boa parte de seu DNA a partir de seus pelos

Havia dez espécies desta ave que chegava a 3 metros de altura. O moa vivia na Nova Zelândia e foi caçado até a extinção. há 600 anos. Parte de seus genes já foi decifrada. Não é o bastante para recriá·lo. mas há esperança. Existem muitos restos em cavernas da Nova Zelândia

O mais famoso dos dinossauros tinha 7 metros de altura. pesava 5 toneladas e viveu na América do Norte há 68 milhões de anos. Fragmentos de seu DNA foram recuperados e se revelaram parecidos com o das galinhas. Apesar disso. a chance de recriar seu DNA completo é mínima

uustreçac Marco Vergotti sobre fotos de Jonthan 81air/Corbls/Latin Stock, reprodução. lhe Natural History Museum/ Alamy/Other Images. Redmond Durrel/Alamy/Other lmages. Atter George Edward lodge e Super Stock


No mundo real, no entanto, os geneticistas não creem que o D A resista intacto por milhões de anos. A paleontóloga americana Mary Higby Schweitzer, da Universidade da Carolina do Norte, diz ter recuperado indícios de proteínas no fêrnur de um tiranossauro rex, encontrado no Estado de Montana. Ao analisá-lo, Schweitzer descobriu similaridade com o DNA das galinhas. Essa é mais uma evidência de que as aves descendem dos dinossauros carnívoros." em toda comunidade científica confirma minha descoberta, porque não acreditam que o DNA dure tanto tempo", diz. É comum que o materiaJ genético achado em fósseis pertença a bactérias e micro-organismos que atuaram em sua decomposição. Por enquanto, só o tigre-da-tasrnânia e o mamute têm chances de ter todos os -seus genes decifrados. Em novembro, o americano Webb Miller anunciou estar perto de reconstituir o DNA completo dos mamutes. Mas nega que seus planos incluam reviver o bicho. "As muitas etapas necessárias para isso estão além da capacidade de qualquer pessoa." Supondo ser possível recuperar o DNA de uma espécie extinta há milhares de anos, como dar à luz um dane se não há nenhuma fêmea viva da espécie para emprestar um óvulo ou gestar a criatura? Em 2001, americanos conseguiram - depois de 692 tentativas- que uma vaca desse à luz o clone de um gauro, espécie de boi selvagem ameaçado de extinção que vive no Sudeste Asiático. O feito mostrou que a donagem entre espécies é possível, embora difícil. O filhote, Noah, . morreu dois dias após o nascimento.

SÓ FALTA UM MAMUTE O russo Sergei Zimov pretende recriar a Sibéria da idade do gelo. Ele acredita na recriação de mamutes e quer povoar seu parque com eles

Ocorreriam desequilíbrios ambientais ao inserir seres extintos nos ecossistemas atuais? "Não vejo finalidade nesse tipo de pesquisa': diz Alan Cooper, da Universidade de Adelaide, na Austrália. Ele foi o responsável pelo sequenciamento de trechos de DNA do dodô e do moa. "É preferível investir na preservação da Amazônia e salvar os milhares de espécies que mantêm um ecossistema vivo." A discussão deve se intensificar com a possível divulgação, em 2009, do DNA do homem de Neandertal, espécie prima da nossa, Homo sapiens. Os neandertais habitaram a Europa na era do gelo e estão extintos há 20 mil anos. O cientista à Ainda que todas limitações téc- . frente do trabalho, o sueco Svante Pâãbo, nicas sejam resolvidas, o debate sobre as do Instituto Max Planck, na Alemanha, implicações éticas de réviver um animal acha ridícula a intenção de revivê-Io. Mas extinto não é menos desafiador. É justo quem resistiria à ideia de conhecer um produzir animais só para ser expostos? primo do tempo das cavernas? • Esse seria um grande problema no caso da ressurreição do mamute, que precisaria pegar uma mãe emprestada de seu parente mais próximo, o elefante. Alguns cientistas apostam que a solução seria mudar os genes do elefante, tornando-os mais parecidos com os do mamute. É viável, de acordo com o geneticista George Church, da Universidade Harvard. Ele é o criador de uma técnica que altera de uma só vez milhares de bases químicas em uma sequência de DNA. "Quando se diz ser impossível reviver um mamute, significa que é muito caro e demorado", diz Church. "Mas é bem diferente de ser impossível."

Renascidos

do gelo Conheça os animais clonados a partir de células congeladas de animais mortos há anos NOAH, O GAURO

RATOS JAPONESES

O MELHOR BOI DO JAPÃO

Em 2001, a empresa americana Advanced Cell Technology conseguiu a clonagem entre espécies. O DNA de um gauro (um boi selvagem), congelado há oito anos, foi inserido no óvulo de uma vaca. Daí nasceu o bezerro Noah, morto em dois dias

Em novembro de 2008, cientistas japoneses da cidade de Kobe produziram clones a partir de células extraídas do cérebro de um camundongo. O animal estava congelado havia 16 anos

O boi Yasufuku, famoso pela qualidade de sua carne e por suas qualidades como reprodutor, foi clonado 13 anos após sua morte. Os autores do feito são geneticistas da Universidade Kinki, em Osaka. Eles produziram quatro clones desde 2007

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Fotos: Dmltry

Souyov/Reuters.

AFP/Jljl Press. divutqação

e reprodução


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