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MenteAberta

QUADRINHOS

Um museu ~ara O criador CleTintim A vida e a obra do artista Hergé - inventor do fascinante herói infanto-juvenil- são o tema de um novo museu inaugurado na Bélgica Helio Gurovitz

de Louvain-la-neuve, 32 quilômetros ao sul de Bruxelas, na Bélgica, é resultado da curiosa disputa linguística que divide o país entre os flamengos (que falam uma variante do holandês) e os valões (que falam francês). Ela só existe porque um grupo de flamengos, no mítico ano de 1968, fez protestos contra a tradição secular que mantinha o francês como um dos idiomas oficiais da Universidade Católica de Leuven - ou Lovena. Leuven fica encravada numa região flamenga do país e hoje é conhecida dos brasileiros por sediar a cervejaria dona das marcas Brahma, Antarctica, Stella Artois e Budweiser. Na época, diante dos protestos, o jeito encontrado pelos professores valões foi erguer uma nova universidade longe de Leuven, na região de fala francesa, e, com ela, uma nova cidade para morar: Louvain-la-neuve, algo como Nova Lovena. Cidade planejada, Louvain-la-neuve parece um conjunto habitacional, com prédios baixos de tijolinhos vermelhos. Todo o tráfego de veículos é dirigido ao subsolo. Desde o início deste mês, ela ganhou aquela que pode ser considerada sua primeira atração turística de interesse mundial: o Museu Hergé, dedicado à obra de Georges Remi, o criador do imortal personagem de quadrinhos Tintim. A CIDADE

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ÉPOCA,

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Hergé - cujo nome reproduz a pronúncia em francês das letras R.G., suas iniciais invertidas - é um daqueles belgas que, a exemplo do escritor Georges Simenon, do cantor Iacques Brel ou do pintor René Magritte, tanto fizeram para disseminar pelo mundo a cultura francesa. O novo museu dedicado a ele é um prédio de concreto que custou cerca de US$ 20 milhões, projetado pelo premiado arquiteto francês Christian de Portzamparc - que, coincidentemente, é casado com uma brasileira e tem casa no Rio de Janeiro. O museu foi criado, de acordo com a viúva de Hergé, Fanny, para mostrar que a obra de seu antigo marido, morto em 1983, vai além do eterno adolescente de topete loiro, cujas andanças são sempre acompanhadas pelo fox-terrier de pelo nevado Milu. Evidentemente, a meta é impossível. Se existe o Museu Hergé e se ele atrai interesse no mundo todo, a ponto de ser tema de uma reportagem do outro lado

do Atlântico, isso não se deve a Portzamparc, à Brahma ou às querelas linguísticas que dividem a Bélgica. O motivo é o fascínio que Tintim e seu universo exercem há 80 anos sobre adultos e crianças de todos os países - entre eles o autor deste texto. O mundo de Tintim se estende por 24 álbuns de quadrinhos, 23 deles completos - de Tintim no país dos sovietes (1929) a Tintim e os pícaros (1976) - e um incompleto Tintim e a alia-arte, publicado postumamente e lançado só no início deste ano no Brasil. Volta e meia, desenhos animados inspirados nos quadrinhos são exibidos na televisão. Quando, em 1969, Hergé comprou seu primeiro aparelho de TV, um dos primeiros filmes que viu era de um jovem diretor americano chamado Steven Spielberg. Hergé se tornou fã dele. Meses antes de morrer, disse que, se houvesse alguém capaz de filmar Tintim, seria Spielberg. Está prevista para 2011 a es-


INOVADOR

treia do primeiro filme de uma trilogia sobre Tintim. O primeiro será dirigido por Spielberg. O segundo, pelo neozelandês Peter Jackson. Tintim é um jovem aventureiro que nunca envelhece. Seu traje - um pulôver azul, calças curtas e meias três-quartos - não muda e só ganha ares mais modernos nos últimos volumes. Ele cura malária na África, descobre petróleo nos Estados Unidos, combate mercadores de drogas na China, cruza os Andes atrás de tesouros incas, desarma uma rede de tráfico de escravos no Oriente Médio, enfrenta ditadores nos Bálcãs e na América Latina, persegue um meteorito valioso que caiu no Ártico, conhece o homem das neves no Tibete, é abduzido por extraterrestres numa ilha entre a Indonésia e a Austrália e se torna - anos antes da missão Apolo 11 - o primeiro homem a pisar na Lua. Apesar de tamanha folha corrida, Tintim é um garoto normal, sem superpoderes. "Ele é maraFotos: dlvulgaçáo (3) e Yves Forestierl DeadllnelPolarls/OtherlmagesPress

vilhosamente anônimo" diz O inglês Michael Farr, um dos "tintinólogos" mais célebres. "Sabemos muito pouco sobre ele. É um espaço em branco que o leitor, especialmente o leitor jovem, é capaz de preencher e com quem pode se identificar:' A cada inimigo que Tintim encara, ele se destaca não pela força, mas pela argúcia, intuição e inteligência. Decifra enigmas aparentemente intratáveis - e também mantém uma forma física invejável.Não há sexo no universo de Tintim, e o amor aparece apenas para ridicularizar suas VÍtÍ111as tolas. É um mundo regido por valores simples, como honestidade, generosidade e a amizade pelos mesmos personagens que se repetem a cada aventura: o capitão Haddock (um velho lobo do mar barbudo e desbocado), a dupla de policiais gêmeos Dupont e Dupond (dois trapalhões desastrados e ingênuos), o professor Girassol (um cientista tão brilhante quanto biruta) e o cãozinho branco Milu. ~

Acima, o precursor do pop Hergé desenha sua maior criação, TIntim. Os dois são a atração do museu inaugurado neste mês em louvain-Ianeuve, na Bélgica (á esa). Entre os objetos em exposição, estão uma réplica do foguete com que Tintim viajou para a lua (à dirJ e uma da caixa de caranguejo em que os traficantes guardavam ópio em O caranguejo das pinças douradas

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MenteAb Os vilões também se repetem. Personagens secundários de alguns livros retornam à trama volumes depois. Alguns palcos imaginários são frequentes, como o castelo de Moulinsart, na França, os países balcânicos da Sildávia e da Bordúria ou os rivais latinos San Teodoro e Nuevo Rico. Tintim habita um universo de referências cruzadas cheias de detalhes, que se tornaram um meio de vida para gente como Farr - e fonte de prazer para seus leitores. Uma das diversões que tomaram meses de minha infância foi pôr na ordem a coleção completa de álbuns, comprada de modo aleatório. Isso só foi possível graças à absoluta coerência das informações em cada quadrinho desenhado pela equipe de Hergé. Ele era obsessivo a ponto de submeter seu modelo de foguete lunar a cientistas aeroespaciais e de discutir com geógrafos, linguistas e antropólogos cada detalhe nos cenários, nos trajes e nos idiomas fictícios falados pelos povos com que Tintim interage. O traço caprichado de Hergé consegue reunir a precisão dos detalhes à simplicidade dos rostos e das figuras humanas. Pela inovação, Hergé é O cetro de Ottokar1932 considerado uma espécie de profeta Primeira visita da arte pop. Sua influência é nítida de Tintim em pintores como Andy Warhol, Roy à república imaginária da Liechtenstein ou Keith Herring. Os primeiros álbuns de Tintim fo- Sildávia, no Leste Europeu. ram publicados na forma de séries A visão fiel na imprensa belga. No dia 10 de ja- dos Bálcãs é elogiada pelos neiro de 1929, Tintim foi apresenhistoriadores tado como repórter do suplemento infanto-juvenil Le Petit Vingtieme enviado à União Soviética. Os quadrinhos eram tão panfletários e po- .-::1.----,""'----, liticamente incorretos que, até recentemente, Tintim no país dos sovietes, o primeiro álbum, envergonhava os editores e nem era publicado como parte da obra de Hergé. No livro, os comunistas são apresentados como ladrões e espoliadores cruéis. Negam pão aos adversários e constroem fá- A estrela bricas de fachada para impressionar misteriosa 1942 os visitantes. Tintim se desvencilha A primeira versão, de suas garras e volta à Bélgica. Para publicada durante seu retorno, o jornal teve de contraa ocupação da tar um ator para representá-Io na es- Bélgica pelos nazistas, traz tação em Bruxelas, onde ele foi rece- estereótipos bido aos aplausos, em maio de 1930, antissemitas. Uma segunda versão por dezenas de crianças. revista precisa ser Hergé teve uma educação católica editada depois da Segunda Guerra conservadora. Sua visão de mundo

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o universo de Tintim

Alguns dos princip

no Congo

Tintim no país dos sovietes 1930

1931

Reúne a série publicada desde 1929 em preto e branco. É quase um panfleto, que mostra os comunistas como ladrões e espoliadores cruéis

Traz uma visão' colonialista da África. Nem a segunda versão, de 1946, eliminou o racismo e os negros de sotaque caricato que veem no branco o "homem bom"

Tintim na América

1932

O lótus azul 1936

Em visita aos EUA, Tintim encontra um país dominado por gãngsteres, com índios de bangue-bangue. Quando acha petróleo, vê uma cidade nascer da noite para o dia

Tintim vai à China, Salva um menino do afogamento e conhece uma cultura diferente da sua. Começa a obsessão de Hergé com a precisão do detalhe

nos primeiros álbuns é repleta de estereótipos e preconceitos. Os negros de Tintim no Congo são ignorantes que falam com sotaque caricato e se prostram diante do "branco bom'; o europeu capaz de curar a febre com quinina e de dar lições de civilização aos nativos. De tão racista, o álbum teve de ser completamente reescrito em 1946. Na primeira versão de A estrela misteriosa, lançada em 1942 nas páginas do jornal conservador Le Soir, o antissemitismo era flagrante. um quadrinho, dois judeus

Tintim

se mostram felizes com um profeta que prevê o fim do mundo, pois teriam de "pagar menos aos fornecedores': O vilão da trama é um banqueiro chamado Blumenstein, cujos traços lembram o estereótipo semita propagado pelos nazistas. Lançado quando a Bélgica estava sob ocupação alemã,


'Ibuns de quadrinhos com as aventuras do herói criado por Hergé

o tesouro de

Rackham, o Terrível 1944

o templo

do Sol 1949

Tintim sai em busca de um tesouro no Caribe e fortalece sua ligação com o capitão Haddock e o professor Girassol. Os três convivem nas aventuras seguintes

Tintim atravessa a Amazônia e sobe os Andes atrás de um templo inca. Sua amizade com um indio peruano revela um Hergé menos preso a estereótipos

Tintim no país do ouro negro 1950

Explorando a Lua 1954

Tintim vai à Arábia para evitar uma nova guerra mundial causada pelo petróleo. A temática se aproxima das grandes questôes mundiais

Quinze anos antes da missão Apoio 11. Tintim é o primeiro homem a pisar na Lua. O álbum é o ápice da obsessão de Hergé com os detalhes técnicos e científicos

Tintimno Tibete1960 Tintim resgata o amigo chinês Chanq, de O lótus azul, preso no Himalaia com o Homem das Neves. Conhece o universo do budismo e dá uma lição de amizade entre estrangeiros

o álbum também foi completamente ree crito depois da Segunda Guerra Mundial- e Blumenstein foi rebatizado como Bohlwinkel. As ligações políticas de Hergé na juventude sempre deram munição para seus detratores. O belga Léon Degrelle, fundador das milícias fasIlustração:

NJson Cardoso

cistas Rex e oficial condecorado pela 55, era conhecido de Hergé e trouxera, antes da guerra, histórias de quadrinhos americanas que lhe serviriam de inspiração. Mas, apesar de abusar dos estereótipos, é injusto considerar Hergé racista, antissemita ou preconceituoso. Sua obra é reflexo do espírito de seu tempo - e Hergé soube mudá-Ia com o passar do tempo. Um momento crucial em sua vida e em sua carreira foi o encontro, em 1934, com Chang Chong-chen, um estudante chinês que cursava a Acade-

Tintimeos pícaros 1976 Tintim volta ao cenário de O ídolo roubado (937). uma república da América Latina. para testemunhar uma revolução promovida pelos mesmos ditadores de carnaval

mia de Belas-Artes de Bruxelas. Hergé estava interessado em ambientar uma aventura de Tintim na China. Chang soube convencê-Ia a ser o mais fiel possível aos fatos históricos e geográficos.O álbum resultante, O wtus azul (1936), inaugura a obsessão de Hergé pelo detalhe. Nele, Tintim defende uma criança chinesa agredida por ocidentais. Ele adquire uma personalidade mais sólida e madura na luta contra injustiças. A criança da trama se chama Chang, homenagem ao amigo. Anos depois, em Tintim no Tibete (1960), o herói sonha que Chang está em apuros. Sobe o Himalaia para resgatá-Ia dos domínios do Ieti, um Homem das Neves que tem muito de humano e nada de abominável. Em 1981, dois anos antes da morte de Hergé, o verdadeiro Chang voltou à Bélgica para reencontrar o amigo Hergé. A amizade duradoura entre habitantes de culturas distantes é um dos encantos do universo de Tintim. Ao percorrer todo o planeta e ir até a Lua, ele se tornou uma espécie de precursor do mundo globalizado. o lugar do preconceito, suas aventuras transmitem a noção de um planeta ao alcance de todos, em que a guerra é um acidente sempre superado pela mensagem de tolerância. Um mundo em que é possível fazer amigos em qualquer parte do planeta. "Tintim é maravilhosamente multicultural'; diz Michael Farr. «Por causa de sua neutralidade' um garoto indiano pode se ver em sua pele da mesma forma como um garoto sueco." Nestes tempos em que as patrulhas ideológicas têm o hábito de consultar seus manuais de correção política antes de proferir qualquer juízo estético, elas fariam bem em reler os álbuns de Hergé. Em Tintim no país dos sovietes, apesar da caricatura panfletária, as fábricas de fachada não estão tão distantes assim da realidade de uma economia comunista. O cetro de Ottokar é uma reprodução bastante fiel do universo de nacionalismo inútil que vive o Leste Europeu. Tintim na América revela os limites do culto ao dinheiro nos Estados Unidos. O ídolo roubado e Tintim e os pícaros mostram uma América Latina sempre às voltas com ditadores de carnaval. E, pelo olhar audaz de um garoto, sabemos que há sempre gente que vale a pena em todo o planeta. 22 de junho

de 2009.

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Hergé, O criador de Tintim - Época  

Todo o tráfego de veículos é dirigi- do ao subsolo. Desde o início deste mês, ela ganhou aquela que pode ser considerada sua primeira atraçã...

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