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o gên"o do novo sécu o Biografia reafirma Machado de Assis como o escritor que desvendou as bases de uma identidade nacional que perdura até hoje POR LUCIANO TO r:-:

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m Shakeópeare - A Invenção do Humano, o ensaísta americano Harold Bloom defende a tese de que o homem ocidental foi, de certa forma, criado pelo dramaturgo inglês, na medida em que os personagens e as tramas de suas peças estabeleceram modelos de pensamento, sentimento e conduta que ainda hoje se aplicam à vida cotidiana. Não é exagero dizer que Machado de Assis (JS39-190S) fez o mesmo em relação aos brasileiros em seus romances e contos, sobretudo depois da publicação de Memóriaó Póótumaó de Bráó Cubaó, em 1881. Mais do que revolucionar a literatura brasileira, Machado desvendou as bases psicológicas de uma nova identidade nacional, rompendo com as amarras do Romantismo e produzindo uma espécie de espelho no qual, em pleno século 21, ainda nos enxergamos. O Brasil mudou muito. Mas os personagens da obra de Machado ultrapassam os seus limites individuais para se converter em metonímias do homem brasileiro e suas formas de afirmação pessoal, sua relação com a verdade e a mentira, com a cobiça e a vaidade, com as oscilações en-

tre o bem e o mal, o absoluto e o relativo num período mudança de valores. Como Brás Cubas,o escritor que teve filhos a quem deixar o legado de sua miséria é o e.; so Shakespeare.somos todos criaturas suas, pintadas (0.a pena da galhofa e a tinta da melancolia. É uma grandeza que, à primeira vista, contrasta cor:: a aparente simplicidade de sua vida. Na recém-lançada bografia Machado de Aóóió, um Gênio Brasueiro, o jo • -lista Daniel Piza resiste ao clichê segundo o qual a trajetoria de Machado desvaloriza uma biografia, por ter sido e um homem de cotidiano pacato, funcionário público. escritor recluso que mal deixou o Rio de Janeiro e não nenhuma grande aventura ou tragédia. Existe mesmo a impressão, muito disseminada, de que o próprio Ma se preparou, desde cedo, para uma biografia sem sob essaltos, que culminaria na criação da austera Academi Brasileira de Letras. Não se conhece em sua vida uma • atitude a ser corrigida ou crítícada. tudo nele parece foi ensaiado, como se ele vivesse desde sempre na po eridade. A nova biografia mostra que não é bem assim DEZEMBRO 2005

BRA

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Rio de Machado: vista do antigo Aqueduto da Carioca, conhecido hoje como Arcos da lapa

A verdade é que ao longo dos seus primeiros 49 anos de vida, Machado foi um espectador engajado do reinado de dom Pedro 2°, acompanhando mudanças decisivas para a formação de uma nova sociedade brasileira. Com seu estilo amargo e irônico, ele registrou essas transformações exteriores sem perder de vista a precariedade da

Machado de Assis produziu uma espécie de espelho no qual, em pleno século 21, ainda nos enxergamos

existência humana - ilustrada, por exemplo, pelo Rubião de Quincaó Barba (1891), um ingênuo vencido pela fata-

A biografia toca em pontos-chave da obra do escritor,

lidade, um homem que perde tudo: a fortuna, o amor e a

muitas vezes perdidos nesse mar de críticos e apologistas.

razão. Sua tragédia só é amenizada pelo humor irônico de

Outro clichê que cai é o de que ele ignorou questões so-

Machado: "Ao vencido, ódio e compaixão; ao vencedor, as

ciais. À diferença do que dizem alguns, Machado denun-

batatas". A originalidade do escritor também está em em-

ciou, sim, a escravidão, mas nunca recorreu ao emociona-

balar a profundeza melancólica na leveza humorística: seu

Iismo que prevalecia no discurso abolicionista.

descrédito em relação à natureza humana não se manifes-

antes, analisar sua dinâmica e demolir a "bondade dos

ta de forma sombria, mas sim com a suavidade da sátira.

brancos", procurando desvendar os mecanismos econô-

Talvez por tudo isso o gênio de Machado de Assis te-

primeiro, a

nha sobrevivido a ondas de franca hostilidade - Sílvio Ro-

necessidade do trabalho escravo e, depois, a contingência

mero acusava o escritor de "pessimismo de pacotiiha" e

imperiosa da libertação. Apontou, por fim, o lado nocivo

"humorismo de almanaque". os modernistas o viam como

do conluio do paternalismo, típico do Brasil até hoje, com

um "colonizado", com as costas voltadas para o Brasil;

o escravismo, do cafuné com a exclusão - a crueldade ca-

Monteiro Lobato detestava suas "tramazinhas de adulté-

muflada por um véu doce. Nada mais atual.

rio". Por outro lado, a bibliografia sobre sua vida e obra, com toda sorte de leituras - sociológicas, filosóficas, es-

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micos e ideológicos que tentavam justificar,

Preferiu,

Um Gênio BraóiLeiro coloca em questão, ainda, a idéia de que Machado de Assis é uma espécie de "milagre",

téticas, psicanalíticas, ete. -, é tão vasta que Machado po-

uma demonstração da autonomia do gênio literário em

de parecer matéria esgotada. Não há engano maior.

relação a fatores como tempo e lugar, política e religião,

BRAVO! DEZEMBRO

2005


MACHADO DE ASSIS: A PIRÂMIDE E O TRAPÉZIO (1974) RAYMUNDO

FAORO

O autor aponta nas tramas machadianas o reflexo das estruturas

oligárquicas

do

Segundo Império e os lastros arcaicos que travam o nosso desenvolvimento.

Globo, 558 páqs., R$ 63

AO VENCEDOR AS BATATAS (1977) ROBERTO SCHWARZ

Livro que inclui o ensaio As Idéias Fora do Lugar, sobre o choque entre a escravatura e o liberalismo, inserido na evolução econômica. Schwarz também analisa a relação entre as obras de Machado e José de Alencar. Editora 34, 236 págs., R$ 32 MACHADO DE ASSIS: FiCÇÃO E HISTÓRIA (1986) JOHN GLEDSON

Ensaio que sublinha a visão profunda, articulada, crítica e lúcida da história do Brasil nas obras de Machado, num momento decisivo de inserção do país na modernidade, no terço final do

MÚLTIPLAS LEITURAS

século 19. Paz e Terra, 338 págs., R$ 38

Machado é o autor brasileiro de mais vasta fortuna

O OLHAR OBLíQUO DO BRUXO (1998)

crítica. As várias exegeses de sua obra revelam sua

MARTA DE SENNA

genialidade e apontam para o moralista irônico e

Ensaios de literatura

refinado, com extraordinária

Machado, que aborda obras de Sterne,

agudeza de espírito.

A seguir. uma seleta de ensaios sobre o escritor

comparada sobre

Shakespeare e Fielding, mostrando que

o "olhar oblíquo" de Capitu pode ser encontrado em MACHADO DE ASSIS - ESTUDO

seu criador. Nova Fronteira, 148 págs., R$ 24

CRíTICO E BIOGRÁFICO (1936) LÚCIA MIGUEL PEREIRA

MACHADO DE ASSIS - O ENIGMA

Neste estudo hoje clássico, Lúcia Miguel

DO OLHAR (1999)

Pereira renovou o gênero biográfico

ALFREDO

Brasil, incorporando

no

reflexões críticas e análises

psicológicas ao estudo da vida e obra do escritor. Editora Itatiaia,

310 páqs., R$ 30

BOSI

Quatro ensaios sobre a relação do narrador com o quadro social, destacándo a capacidade de Machado de criar personagens capazes de resistir à cultura do favor. Ática, 232 págs., R$ 33

A JUVENTUDE

DE MACHADO DE

ASSIS - 1839-1870 JEAN-MICHEL

(1971)

MACHADO DE ASSIS, HISTORIADOR

MASSA

Ensaio definitivo

que esgota a juventude

do escritor, com revelações sobre suas origens familiares e sobre as circunstâncias

do

(2003)

SIDNEY CHALHOUB

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Pesquisador da escravidão e da vida operária no Brasil do século 19, Chalhoub

noivado e casamento com Carolina Novais.

analisa a obra do autor a partir do contexto social e

Civilização

histórico. Companhia das Letras, 344 págs., R$ 49

Brasileira,

380 págs., R$ 80

DEZEMBRO 2005 BRAVO!

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Turistas no mirante do Corcovado, no Rio, em 1905

ou qualquer tipo de contextualização como determinante do talento. Na biografia, a personalidade do escritor é remterpretada justamente no entrelaçamento de seus textos com o contexto em que foram produzidos, fazendo uma leitura sutil das entrelinhas da época. Ela mostra Machado como um exímio dissecador de almas, mas também como um arguto analista dos valores da sociedade. "Machado, como todo grande criador, foi ao mesmo tempo expressão de sua época e exceção a ela", escreve Piza. "Sua vida foi mais agitada, rica e significativa do que se supõe." Não foi à toa, portanto, que o já citado Harold Bloom, no livro Gênio, incluiu o escritor brasileiro entre os cem autores mais criativos da história da literatura, ao lado de Shakespeare, Dante, Cervantes e john Milton. São todos escritores tão fortes que suas obras e seus personagens alteraram os rumos da literatura e às vezes até da história. Em suma, continuamos vivendo sob seu impacto.

Jogo de máscaras Contudo, quando Joaquim Maria Machado de Assis nasceu, em 1839,nada parecia indicar que ele terminaria a vida reconhecido como o maior nome da literatura brasileira. Filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira, mulato escuro num país escravocrata, pobre, epilético e gago, já seria surpreendente que conseguisse triunfar na longa carreira burocrática que teve no serviço público. Muito mais surpreendente, é claro, foi sua trajetória na literatura. Com um comportamento

rígido do ponto de vista

pessoal, Machado se preparou como pôde para ser um escritor, aprendendo francês com o padeiro, abastecendose de leituras meticulosas no Gabinete Português de Leitura e manipulando sua língua de uma forma sóbria e eco-

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nômica. Ele estreou em publicações no periódico A Marmata Ftummense. o poema

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em que publicou, em janeiro de 1855,

Conquistou a simpatia de muitos intelec-

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tuais e desde cedo revelou uma enorme capacidade de se

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integrar ao mundo cultural da corte.

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BRAVO!

DEZEMBRO

2005

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Vista do largo do Paço, atual praça 15 de Novembro, a partir do morro do Castelo, no Rio

Mesmo nos romances da "primeira mo inferiores

- Reóóurreição

fase", tidos co-

(1872), A Mão e a Luva

(1874), Helena (1876) e laiá Garcia (1878) -, já se podem notar características mântico.

de superação do modelo ro-

Machado cria personagens

que ambicionam

mudar de classe social. ainda que ao sacrifício do amor: o cálculo prevalecendo consciência

Harold Bloom inclui o escritor entre os cem maiores da história, ao lado de Shakespeare, Dante,Cervantes e John Milton

sobre os suspiros. Penetra na

dos personagens

para sondar o seu fun-

e Memorial

de Aireó (1908), Machado de Assis levou para

cionamento e revela, de forma impiedosa e aguda, a vai-

a ficção o jogo de máscaras que conheceu em sua história

dade e a futilidade, a hipocrisia e a ambição, a inveja e a

pessoal, à medida que subiu na vida e investigou uma

inclinação

mentalidade que se prendia às aparências e aos interes-

ao adultério.

Por meio do indivíduo,

des-

mascara o jogo das relações sociais. Politicamente,

ses, por cima dos méritos e dos afetos. Ele nunca parou de

era de uma ambigüidade bem atual: a

meditar sobre os vícios de uma sociedade que não muda

um tempo monarquista, liberal e abolicionista, criticou a

suas estruturas. Se ressuscitasse hoje, estranharia certa-

República por apenas mudar os nomes, e não as realida-

mente os avanços tecnológicos e as diversas' formas do

des. Para ele, o fim do Império poderia significar o fim da

progresso, mas é provável que reconhecesse como fami-

estabilidade ainda precária do país. Foi por temer essa

liares as práticas da classe política e os bons e maus cos-

instabilidade

tumes do povo - sobretudo sua capacidade de se deixar

que ele se opôs ao que considerava o pre-

maturo advento republicano. condicional por Pedro

2",

Apesar da admiração in-

iludir por promessas e soluções grandiosas.

O

foi também um crítico mordaz

da política do Segundo Reinado, da retórica vazia dos governantes, do revezamento

de oligarquias no poder

sem que os problemas sociais fossem atacados. Qualquer semelhança seria mera coincidência? Talvez não. Mesmo em seus últimos romances, [õaú e Jacó (1904) 74

BRAVO! DEZEMBRO

2005

o

LIVRO

Machado de Assis, um Gênio Brasileiro, de Daniel Piza, Imprensa Oficial, preço a definir,


o escritor

faz a crônica dos salões literários, da vi a

da corte, dos bailes e teatros, dos hotéis e pensões do Carnaval, dos novos meios de transporte novidades tecnológicas

e ou ras

- o bonde, o gás, o trem,

o telégrafo. Além de retratar

a cidade em sua ficçã

escrevia sobre ela em suas crônicas na imprensa. Criticou, por exemplo, o alargamento

da rua

doOuvidor, ponto de encontro do debate literário epolítico da época. Machado viu sua cidade sair doestágio de pouco mais que uma vila rural para o de uma capital urbanizada e moderna. Essa transi parcial do mundo provinciano e artesanal para o cosmopolita

e mecânico é captada por sua prosa

ao longo de toda a carreira.

AS MULHERES Em oposição aos autores românticos, às personagens na literatura

o UNIVERSO

femininas

brasileira,

Quatro itens fundamentais para compreender a visão do escritor sobre o mundo e o homem

e

com uma obra repleta

de mulheres fortes e calculistas.

DE MACHADO

Machado

um relevo inédito O grande desta

é a oblíqua e dissimulada Capitu de Dom Casmurro (1899), cuja suposta infidelidade

(tema de

controvérsia

toda a vida de

Bentinho.

até hoje) transforma

Mas há precedentes.

Em A Mão e a Luva

(1874), Guiomar elege Luís Alves para satisfazer

A LOUCURA

suas ambições sociais. Em Helena (1874), a heroína

Em mais de um texto, Machado recorreu ao tema

se faz passar por irmã de Estácio, para receber

da loucura para discorrer sobre o absurdo das relações

parte de uma herança. Em laiá Garcia (1878),

sociais e o egoísmo e a vaidade do ser humano. No conto

é Estela quem verdadeiramente

O Alienista, publicado em Papéis Avulsos (1882), ataca

promovendo

o conhecimento

Memórias

pseudocientífico

da época por meio

a felicidade

Póstumas

de Brás Cubas, Virgília, movi

do médico Simão Bacamarte, que almejava a glória com

pelo interesse

suas pesquisas sobre as fronteiras

Lobo Neves, encontra

entre razão e loucura

na cidade de Itaguaí, onde constrói o sanatório Casa Verde. A princípio, a inauguração é comemorada

conduz a ação,

dos que a cercam. Em

de ascensão social ao se casar co

isento de qualquer

o consolo sexual e amoros

,

culpa, nos braços de Brás Cubas.

pela

população. Mas ela logo se revolta quando Bacamarte

A ESCRAVIDÃO

começa a trancafiar

Acusado de ignorar a escravidão, ao contrário

identificando

a

no manicômio pessoas "normais",

loucura em toda parte. Já no romance

contemporâneo

do se

Lima Barreto, Machado sempre foi

Quincas Borba (1891), Machado retrata Rubião, que,

cético a respeito. Sua não-militância

depois de ganhar uma herança, troca a pacata vida pela

estranheza, mas o assunto não está ausente de sua

sempre causo

agitação da corte. Mas a paixão não correspondida

obra. Os contos O Caso da Vara (1882) e Pai contra

por Sofia, interessada apenas em sua fortuna, o leva

Mãe (1906) são duas Obras-primas. Por outro lado,

paulatinamente

está em Memórias Póstumas de Brás Cubas a confissão

a perder a razão.

do narrador de que costumava desancar um escrav _

A CIDADE Machado foi mais retratista

Este, liberto, comprou outro escravo, "e ia-lhe que paisagista, mas é certo

que o Rio de Janeiro foi também um dos seus grandes

pagando, com altos juros, as quantias que de mim recebera". No dia 19 de maio de 1888, dias após

personagens. Estão em toda a sua obra os costumes,

a assinatura da Lei Áurea, Machado publicou uma

os valores e as mudanças sociais do Segundo Reinado.

crônica ironizando a "bondade dos brancos". DEZEMBRO 2005 BRA


Machado de Assis, O gênio do novo século - Bravo!