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AGÊNCIA ESPACIAL EUROPEIA

»A partir de 2013, a nação comunista deve mandar ao satélite um jipe-robô para fazer pesquisas em rochas. Quatro anos depois serão lançadas versões recuperáveis dos jipes. Esse estágio levará três anos. "Após 2020, seremos capazes de enviar naves tripuladas", afirmou Shijie. Numa segunda palestra, dois meses depois, o coordenador do programa lunar chinês, Ye Peijian, deu datas para o pouso: será entre 2025 e 2030. "Pode levar um pouco mais de uma década, mas acho que eles conseguirão enviar seus taikonautas à Lua", diz o australiano Morris Iones, estudioso do programa espacial chinês e autor do livro The New Moon Race (A nova corrida para a Lua, ainda sem versão em português). Taikonauta significa homem das estrelas. Entre as pessoas que concordam com essa avaliação estão nomes como o de Michael Griffin, que dirigiu a Nasa de 2005 até janeiro passado. Em uma audiência no Senado americano em 2007, Griffin declarou que os chineses poderiam chegar ao satélite até 2019. Essa data antecede, em um ano, o cronograma americano de retomada dos voos lunares. "Eles podem chegar lá antes de nós, se quiserem", disse à época. "Em termos de desenvolvimento tecnológíco, é como se atualmente os chineses estivessem na metade do caminho para a Lua", diz Morris. Após passar três décadas e meia quase ignorada pelos programas espaciais, a Lua foi visitada por quatro sondas recentemente. A Smart-1, da Agência Espacial Europeia (ESA), puxou a fila em 2003. Seguiram-se a japonesa Kaguya, em 2007, a chinesa Chang'e, em 2007, e a indiana Chandrayaan, no ano passado. Somados, os projetos custaram US$ 640 milhões. Para junho deste ano, estava previsto o envio de duas sondas americanas, e até 2014 devem ser lançadas mais quatro, entre chinesas, indianas e russas. O combustível que impulsiona a corrida ao satélite é o mesmo que fez os dias de glória da exploração espacial na década de 60: competição.

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Negócio de Estado A China tem uma ancestral conexão lunar. Um dos maiores poetas chineses, Li Bai (701-762), iniciava seu "Diálogo com a Lua Segurando um Copo de Vinho" assim: "Como a Lua apareceu pela primeira vez?1 Ponho de lado meu copo de vinho e me pergunto/Tocada por ninguém, mas acompanhando a todos/ Brilhante espelho que paira sobre os portões avermelhados do palácio". Acredita-se que o poema foi escrito para ser apresentado no Festival da Lua, evento tradicional da antiga cultura chinesa. Era realizado nas noites de lua cheia do oitavo mês lunar. Nas frases acima, Bai combinou dois dos três temas mais caros à poesia chinesa: os sentimentos suscitados pelo vinho e pela contemplação do nosso satélite - o terceiro tema é a beleza feminina. Li Bai pode até ter inspirado seus conterrâneos, mas eles rasgaram muitos calendários até colocarem a poesia de lado, substituída pela tecnologia. Foi só em 1993 que a China criou sua própria agência espacial, turbinada pela pujança econômica que o país experimentava. E o primeiro resultado prático veio em 2003, com o voo ao espaço de Yang Liwei, o primeiro taikonauta a bordo da nave Shinzou. Em 2005, outros dois entraram em órbita e, três anos depois, um chinês realizou a primeira caminhada espacial do país. Logo após o voo inaugural de 2003, Zhang Oinwei, o homem que construiu a Shinzou, disse que o programa havia custado, até ali, US$ 2,3 bilhões. Hoje se sabe que parte desse dinheiro se destinou à compra de tecnologia russa. Quando fotos da Shinzou foram dívulgadas, ficou claro que se tratava de uma adaptação das naves Soyuz, que o programa espacial russo usa desde 1967. Como outros candidatos a taikonauta antes dele, Liwei foi treinado na Cidade das Estrelas, a escola de cosmonautas que fica perto de Moscou. E até os trajes da caminhada

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espacial de 2008 são semelhantes aos usados pelos russos. A ideia de uma multidão de taikonautas flutuando no espaço teve um efeito psicológico profundo na Índia, que também passou por uma explosão de crescimento a partir dos anos 90. Mesmo assim, seu programa espacial concentrava-se em objetivos como oferecer atendimento médico a regiões carentes do país, por meio do aperfeiçoamento da comunicação via satélite. Em 2007 lançaram a Chandrayaan, que entrou em órbita lunar em 8 de novembro do ano passado. Seis dias depois, a sonda deixou cair propositalmente em solo lunar um pequeno equipamento, chamado de impactador, que carregava uma câmera, sensores e uma foto da bandeira da Índia. No dia seguinte, os jornais do país estampavam em manchete: "Índia é o quarto país a colocar sua bandeira na Lua". Os indianos já preparam uma segunda missão Chandrayaan, e seu objetivo é permanecer cabeça-a-cabeça com os chineses. Em 2006, o país começou a planejar seu próprio veículo espacial tripulado, com o propósito de enviar um astronauta - ainda

OS EUA AMEAÇAM SAIR DA CORRIDA LUNAR. SE ISSO ACONTECER, SERÁ DIFíCIL DETER OS CHINESES

não inventaram uma palavra exclusiva para os "taikonautas indianos" - à órbita terrestre. E a direção da agência espacial da Índia já fala em realizar o primeiro voa em 2015. Russos e americanos estão em posições diferentes. Desde o ano passado, os primeiros começaram o processo de desenvolvimento de um novo veículo espacial para substituir os velhos Soyuz. Entre as especificações da nova espaçonave, está a de que seja capaz de realizar voos lunares. Mas pouca gente leva a sério uma viagem russa à Lua. O mais provável é que o país continue vendendo seus produtos e serviços para nações mais tomadas pelo espírito competitivo. Por seu turno, os americanos devem fazer no final de agosto um teste do Ares I, foguete concebido para, até 2014, substituir o ônibus espacial como meio de transporte para a órbita terrestre. Posteriormente, uma versão mais potente do bólido, o Ares V, deverá conduzir a próxima geração de astronautas à Lua, juntamente com o equipamento para a instalação de uma base permanente. Pouco depois de assumir a presidência dos EUA, Barack Obama entregou a um comitê de especialistas a tarefa de realizar uma auditoria na agência espacial americana. No final de março, o presidente nomeou o novo administrador da Nasa, Charles Bowden, que não deu nenhuma declaração assegurando a continuidade do programa lunar. Talvez por, em meio à crise, ser difícil justificar investimentos como os US$ 3,5 bilhões previstos para financiar o programa americano somente em 2010. Apesar do interesse manifestado por empresas como o Google, muitos especialistas apostam que, até o final do ano, a Nasa irá se retirar da disputa pela Lua, pelo menos por algum tempo. Se isso acontecer, dificilmente os descendentes de Li Bai deixarão de vencer a atual corrida. Quem sabe não seja o início de uma nova fase da literatura chinesa, na qual os poemas falarão da beleza de contemplar, numa noite clara, a própria Terra.@


Lua cheia, Exploração lunar - Galileu  

frases acima, Bai combinou dois dos três temas mais caros à desenvolvimento tecnológíco, é como se atualmente os chineses 66_JULHO_2009 Il n...

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