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A nova

conquista da Lua A China, o Japão e a índia desafiam a liderança espacial americana. Por que a corrida espacial recomeçou, 40 anos depois da missão Apollo 11 Bruno Ferrari e Marcela Buscato

. QuandO

os astronautas Neil Armstrong e Edwin Aldrin saltaram da nave Apoilo 11 para se tornar os primeiros seres humanos a pisar na Lua, no dia 20 de julho de 1969, milhões de pessoas acompanharam a cena pela televisão. Era um dos momentos mais épicos da história humana. Chegar à Lua, caminhar sobre sua superfície, representava a"vitória da tecnologia sobre a superstição, do homem sobre seus medos. Era a prova cabal de que qualquer sonho era realizável. Sobre aquele primeiro passo, desengonçado, na superfície da Lua, Armstrong, comandante da missão, disse ser um pequeno passo para ele, um enorme avanço para a humanidade. Parecia mesmo o início de uma era de conquistas que superava as expansões históricas de qualquer outro grande império. Em pouco tempo, a humanidade

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ÉPOCA,

20 de julho de 2009

teria uma base lunar fixa e espaço vias que transformariam as viagens à Lua tão triviais como um voo entre o Brasil e a Europa. Pisaríamos em Marte, Iúpiter e Plutão (na época, ainda considerado um planeta) e até poderíamos encontrar vida extraterrestre em planetas fora do Sistema Solar. No auge de todo aquele ufanismo, pouca gente se atreveria a dizer que 40 anos depois teríamos passado mais de três décadas sem nenhuma viagem tripulada à Lua. O que deu errado? E, talvez mais importante: por que aqueles projetos grandiosos estão sendo ressuscitados agora? A aventura humana na Lua durou apenas três anos. No total, foram 11 voos tripulados, dos quais seis aterrissaram na superfície lunar, num local conhecido como Mar da Serenidade. Até dezembro de 1972, quando a Apoilo 17 levou os últimos ~ Fotos: Coeor China Photo/AP

e li Gang/Xinhua

Press/Corbis/latinstock

NAS ALTURAS Astronautas

chineses em treinamento e o foguete que os levou ao espaço no ano passado. O principal objetivo do programa chinês é mostrar que o país é uma superpotência


CuToeJétrj~. Será usado em viagens exploratórias de longa distancia na Lua. Com ' instalações sanitárias, permite que dois astronautas morem ROI'até 14'dlas no velcLilo pressurizado. A Nasa des~nvoíve~ : uma bateria com capacidade para to essa,stanções

UM GRANDE PASSO o americano Edwin E."Buzz" Aldrin Jr. caminha na Lua em 20 de julho de 1969. Poucos astronautas lhe sucederam

astronautas para a Lua, 24 homens foram até lá, e 12 pisaram nela. Foram 300 horas em sua superfície - 80 horas trabalhando fora do módulo lunar. Tudo isso foi feito quando os computadores das naves eram piores do que o processador de nosso celular. O que explica a ânsia de conquistar o satélite era wna disputa bem terrena: os Estados Unidos precisavam provar, para si próprios e para o mundo, que não ficavam atrás da União Soviética comunista em nenhwn campo. E os soviéticos provocaram. Eles haviam lançado o primeiro satélite artificial, o Sputnik 1, em outubro de 1957, e logo depois mandaram ao espaço a cadela Laika, primeiro ser vivo a ultrapassar os limites da atmosfera. Quando, em 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin entrou em órbita ao redor da Terra, o presidente americano, Iohn Kennedy, reagiu. Em 25 de maio, prometeu que seu país levaria um homem à Lua até o final da década. Não saiu barato. Os americanos desembolsaram uma fortuna 114> tPOCA, 20 de julho de 2009

calculada em US$ 19,5 bilhões. A Nasa, a agência espacial americana, comia mais de 4% do Orçamento total dos Estados Unidos. Não há dúvida de que os Estados Unidos venceram a corrida espacial. A União Soviética nem existemais. Mas a própria vitória arrefeceu o desejo pela Lua Hoje, os gastos da Nasa estão bem mais modestos, por volta de 0,5% do Orçamento americano. "O programa Apollo foi uma corrida para a Lua, inspirada por considerações geopolíticas. Mantê-lo não era algo sustentável", afirma Steven J. Dick, historiador-chefe da Nasa. Na época da conquista da Lua, o Orçamento americano estava sob forte pressão devido à Guerra do Vietnã, e não se via possibilidade de retornos financeiros a curto prazo com as viagens espaciais. "Por isso, o apoio público e político começou a diminuir, apesar da ciência valiosa que estava sendo feita nas últimas missões': diz Eric Iones, ex-pesquisador do Laboratório Nacional de 10s Alamos e hoje editor do Apollo Lunar Surface [ournal, uma publicação dedicada às missões lunares. Os americanos decidiram investir em duas frentes que pareciam mais promissoras: a criação de estações orbitais e o desenvolvimento dos ônibus espaciais, veículos que poderiam ser reaproveitados em diversas missões, diminuindo os custos. Essas opções não se revelaram grandes sucessos, e a própria função da Nasa começou a ser questionada. Depois de mais uma explosão ~ Fotos. Neli Armstrong/Nasa.

Ho Isro/AFP e dlvulgaçao

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Áread;descoD~ A poeira da Lua é tão fina que, . algumas de suas partículas podem- . '.: entrar nos pulmões dos ~sV0l]iiJta~, . causando problemas de saúde .• Ela também pode danificar " equipamentos eletrônicos, Para entrar- na base, os astronautas passarão-por duas câmaras para limpar os trajes espa~C!i~ -:

A NOVA CORRIDA ESPACIAL Quais são os países que estão se preparando para marcar presença na Lua


espac1a1 Os vegetais para a alimentação dos astronautas seriam cultivados no-interior da base. em culturas hidropênicas. em Que as raizes estão imersas em água e substâncias nutritivas

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ChiDa

Em novembro de 2008, o satélite indiano Chandrayaan-1 descarregou no solo lunar uma sonda para mapear a superfície. O governo diz ter 60 projetos espaciais planejados até 2013 e que pretende enviar seu primeiro astronauta em 2015

Quer mandar seu primeiro astronauta à Lua em 2017. Já mostrou seu potencial em 2003, ao se tornar o terceiro país, ao lado dos Estados Unidos e da Rússia, a mandar um astronauta (Zhai Zhigang) ao espaço usando tecnologia nacional. A China planeja uma missão não tripulada já para 2012 e uma base lunar para depois de 2020

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.Japão O governo anunciou que enviará um astronauta à Lua até 2020, Em 2012. o Japão deverá lançar um robô para percorrer a superfície lunar e planeja resgatá-Io em uma nova missão em 2018, Em 2007, o Japão lançou a sonda Kaguya. que fez um mapa detalhado da superfície lunar

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de ônibus espacial, em 2003, os americanos sentiram que precisavam de um projeto que despertasse o orgulho nacional. O presidente George W. Bush elegeu a construção de uma base na Lua - como um passo para chegar a Marte. Um empurrãozinho para os planos americanos foi dado pelo surgimento de novos rivais: Índia, China e Japão. A China prepara uma missão tripulada para a Lua em 2017. Também prevê a criação de bases lunares em 2020. "Seus objetivos são estritamente políticos, na medida em que pisar em solo lunar está sendo visto como um grande orgulho nacional': diz Eric

Iones. No final do ano passado, a Índia enviou uma sonda lunar a bordo do satélite Chandrayaan-l. Fala em missões para a Lua e para o planeta Marte, mas sem arriscar datas. Em maio deste ano, foi a vez de o Japão concluir a missão que enviou a sonda Kaguya para a Lua. O equipamento ficou 19 meses colhendo informações topográficas e medindo os níveis gravitacionais. A missão de R$ 1 bilhão faz parte do programa de levar um astronauta à Lua até 2020. Faz sentido mandar gente para a Lua? Por um lado, os humanos são mais versáteis que as máquinas. "O trabalho da missão Mars

Jornada interrompida

Exploration Rovers ao longo dos últimos anos poderia ter sido feito em poucas semanas por astronautas': diz Dick, da Nasa Mas o custo para mandar uma pessoa para o espaço é várias vezes maior que o de um robô. Para Sylvio Mello, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Geociências da Universidade de São Paulo, as descobertas da Apoilo poderiam ter sido feitas por robôs. Ele diz que os astronautas correram mais riscos do que se imaginava. "O nível de radiação na Lua era muito maior do que se estimava. Se eles tivessem o conhecimento que temos hoje, a Apollo não teria decolado."

A histórica conquista da Lua, os fracassos Três astronautas morrem em um incêndio durante um teste em solo da nave Apollo, o modelo planejado para ir até a Lua

A União Soviética lança o primeiro satélite artificial à órbita da Terra. o Sputnlk 1. Ele ficou seis meses no espaço para

fazer frente ao avanço • soviético. o governo dos Estados Unidos cria sua agência espacial, a Nasa

Em abril. o cosmonauta russo Vurl Gagarln se torna o primeiro humano a chegar ao espaço. Ele deu uma volta completa ao redor da Terra

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Em maio, Alan Shepard se torna o primeiro americano a chegar ao espaço, em um voo de 15 minutos

A Apollo 13 não consegue chegar à Lua devido a uma explosão dentro da nave. Os tripulantes passam seis dias no espaço até conseguir voltar em segurança para a Terra Pela primeira vez, astronautas chegam à órbita da Lua. A Apollo 8 transmite imagens da Terra vista do espaço

o presidente americano John Kennedy anuncia que os EUA levariam o homem à Lua até o fim da década

A bordo do satélite russo Sputnik 2. a cadela Laika se torna o primeiro ser vivo a viajar para o espaço. Ela morreu horas após o lançamento devido ao superaquecimento

Lançamento da sonda soviética Luna2,a primeira a chegar ao solo da Lua

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O módulo lunar da Apollo 11,o Eagle, pousa na Lua. O americano Neil Armstrong se torna o primeiro humano a pisar na Lua, cumprindo o objetivo dos EUA Fotos: reprodução

(10), AP/Nasa (3), AP,

Bruce Wever/AP, Emmanuel Dunad/AFP e AFP

Os EUA lançam sua primeira estação espacial, a Skylab. Ela ficou em operação até 1974

O presidente Richard Nixon anuncia o fim do programa Apollo e o início da construção dos ônibus espaciais. Apollo 17 é a última missão tripulada à Lua


Segundo o físico inglês Stephen Hawking, a humanidade precisa conquistar o espaço para garantir sua sobrevivência quando o planeta já não puder nos sustentar, daqui a algumas centenas de anos. Mas a nova corrida espacial, como a antiga, parece ter mais a ver com marketing político. "Não duvido que as ambições chinesas influenciarão a opinião pública americana, levando o Congresso a aprovar um orçamento maior para a Nasa'; diz Eric Iones. Será preciso, para reverter a aposta errada no ônibus espacial. As naves prometiam ser um veículo prático e reaproveitável para chegar ao espaço. Fo-

ram úteis para lançar e remendar satélites. Mas ganharam a pecha de inseguras depois dos acidentes com a Challenger e a Columbia (confira no quadro abaixo). E não estão preparadas para uma missão à Lua porque suas asas não suportariam a velocidade de reentrada na atmosfera. Para sonhar com a Lua outra vez, os americanos precisaram retomar os projetos de naves lançadas por foguetes. Em 2004, Bush anunciou o projeto da nave Orion. Ela poderá levar de quatro a seis astronautas, o dobro da Apoilo. E pode ser usada até dez vezes. Basta trocar o escudo que a

protege do superaquecimento, que ocorre quando a nave entra na atmosfera da Terra. Mas os Estados Unidos não têm mais foguetes para levar uma cápsula até a Lua. A obsessão pelos ônibus espaciais era tão grande que a Nasa esqueceu como se construíam os foguetes Saturno V Nos últimos anos, os engenheiros precisaram voltar às pesquisas para desenvolver a nova geração de foguetes, os Ares. Conquistar a Lua, há 40 anos, foi uma missão heroica. Reconquistá-Ia - e mantê-Ia, com bases e gente vivendo lá - parece (novamente) um sonho impossível. •

eriores da agência espacial americana e os nebulosos planos para o futuro A perda do isolamento externo dos tanques de combustível da Columbia causa sua explosão durante a reentrada na atmosfera. Os sete astronautas a bordo morrem

O presidente George W. Bush

anuncia o novo plano da Nasa. Ele inclui viagens à Lua até 2020. a construção de uma base lunar e viagens tripuladas a Marte até 2030

o ônibus espacial Cha"enger explode durante a decolagem. Morrem os seis astronautas e o primeiro civil a viajar para o espaço, a professora Christa McAuliffe

O presidente Barack Obama monta uma comissão de especialistas para revisar os planos de voltar à Lua. O relatório deverá ficar pronto em agosto

Primeira viagem do ônibus espacial. feita pela

nave Columbia. A Nasa construiu outros quatro

A Nasa lança a sonda não tripulada Clementlne. Ela produziu um mapa topográfico da Lua. reacendendo a possibilidade de haver água congelada

Lançamento da sonda Lunar Prospector, enviada pela Nasa para procurar água. Ela detectou grande quantidade de hidrogênio na órbita lunar. o que seria um indício de água


Lua, A nova conquista da - Época