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MenteAberta LIVROS

Zazie zanza em Paris e zoa a linguagem Gabriel se perguntou, irritado." Assim, com essa expressão bizarra, que imita o som de "de onde que vem tanto fedor", começa o romance ZAZIENOME· TRÓ, do francês Raymond Queneau (1903-1976). O livro se tornou um clássico na França por suas inovações linguísticas. Foi uma das primeiras ocasiões em que o jeito de falar das ruas alcançou a literatura, acompanhado de gírias populares. E de muitos, muitos palavrões. Não seria exagero comparar a empreitada literária urbana de Queneau com a habilidade de Guimarães Rosa em captar os falares regionais. Em Grande sertão: veredas, Guimarães começa sua saga sertaneja com a singela e inventada palavra "nonada", que insere o leitor num universo poético e sombrio. O passeio de Zazie por Paris, na obra de Raymond Queneau, começa com o neologismo mais prosaico. O "dondekevemtantofedô" é uma pergunta feita pelo tio Gabriel na estação de trem, enquanto espera a sobrinha Zazie chegar do interior. A versão em português foi inventada pelo tradutor Paulo Werneck para o "doukipudonktan" original. Na primeira tradução de Zazie no metrô para o português no Brasil, a expressão foi vertida para "pômakifedô" por Irene Harlek Cubric, numa edição da Rocco de 1985. Mas o livro se esgotou e Queneau caiu no esquecimento. Ao menos por aqui. Agora ele e sua desbocada personagem Zazie, uma menina de uns 12 anos e muitas tiradas de ruborizar os adultos, voltam em nova edição da Cosac&Naify (192 páginas; R$ 45) com folhas duplas de papel-bíblia. Sob o texto, através da transparência, é possível ver detalhes dos cartazes que anunciam a greve dos metroviários em Paris, para desespero de Zazie. Tudo o que ela quer ver na cidade é o metrô. Nada de Panthéon, de "DONDEKEVEMTANTOFEDÓ,

120> tPOCA. 15 de junho de 2009

INOVADOR O francês Raymond Queneause tornou conhecido pela revolução linguistica de seus livros. A versão para o cinema de Zazie no metrô (abaixo) foi feita por Louis Malle em 1960

Notre Dame ou de Sacré-Coeur. Ela quer mesmo é andar no trem subterrâneo durante os três dias que vai ficar hospedada na casa de seu tio Gabriel. Com o metrô em greve, o jeito é sair por aí arrumando confusão com os adultos "pamonhas', como ela diz, e tentar se divertir. Quando foi lançado, em 1959, o livro de Queneau provocou reações opostas entre os críticos literários. Alguns o levaram extremamente a sério e fizeram estudos linguísticos sobre o vocabulário malcriado e os neologismos do texto. Outros consideraram a odisseia de Zazie como uma brincadeira boba de Queneau, que não merecia atenção. Roland Barthes, um dos maiores críticos da França, escreveu um texto escJarecedor que aparece como posfácio deslhe

Fotos: Getty Images. Ncuvene Editions' Kobal CollectionJAFP e Ricardo Corréa/Ed. Globo


o glo!i5iÍl'llt til! ZilZlie e seus Alg

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As lições de Etelvina

amigos

pressões inventivas de Queneau A norma diz

vocr tem fronemofobia? Seus pro-

Esprimentar

> o que foi que > Experimentar

Hormossecsual

>

Homossexual

Zatamente

Exatamente

Olhassó essaqui

> >

Olha só essa aqui

Sessentar

>

Sentar-se

você disse?

blemas acabaram! Para quem não sabe o que é fronemofobia, o livro P(lULAS

ta nova tradução de Zazie no metrô. Lá, diz que a finalidade do romance era simplesmente arruinar qualquer diálogo a seu respeito. Não é à toa que um personagem do livro, um policial chocado com as maluquices de Zazie, profere: "As palavras não ém - o mesmo ignificado que an -", e _Essa afirmação é esp . erdadeira quando se trata - _ • tais do que a obra orig relhece', diz Paulo' ver.•.••.•...••.. t-'.'-~"" novar as gírias, Werneck inspiroudrigues, um hábil escrnor ,(k .c:ti;íllogos, para não deixar e de seus amigos m o (:n~1S locais. Evitou a pala Ta exemplo, que é paulista -..c: •.•••••••••• Chama a atenção a rOI"W Queneau transpôs a .L.

grafia das palavras, simplificando a floreada ortografia francesa. Como a ortografia do português já é mais parecida com a maneira como falamos, o tradutor procurou mexer nos diferentes sons da letra "x" e na sintaxe. "O que está acontecendo aqui", por exemplo, vira "Keke tákontecendo aki" e "hesitar" vira "exitar" (leia outras expressõesno glossário acima). Muitas vezes, segundo Paulo Werneck, não foi possível fazer as brincadeiras em português para as mesmas palavras remixadas por Queneau em francês. Se ficasse devendo alguma subversão gramatical, tinha de compensar nas linhas seguintes. "Brincar com as palavras é divertido", diz. "Zazie no metrô mostra como um livro experimental pode alcançar muitos leitores. Ele agrada tanto a um moleque de 15 anos como a um doutor em semiótica." invencionices linguísticas são - fabulosas que até o conteúdo srxual perde o poder de chocar o - r. A menina vive reclamando velhos safados" e fica doida de . idade quando descobre que o setraveste de mulher para shows os. Num hilário diálogo com . ta Charles, Zazie o questiore sua "secsualidade" Numa ção para o cinema de Zazie _·_t'h",Ô, de 1960, o cineasta Louis fez dessa cena algo inacreditápalavras amalucadas de Zafundem com sequências ver."'1SiIS nas alturas da Torre Eiffel. uco a sensação radical de mance de Queneau, que frescor delicioso mesmo o..:JlUanos de vida.

SABEDORIA Max Gehringer organizou livro com Iiçãesdesua professora favorita: Etelvina

DE SABEDORIA DA PROFESSO-

RAETELVJNA(Editora Globo, 176páginas, R$ 12,90) explica: é o medo de pensar. Aposentada de sua coluna em ÉPOCA, a sábia senhora ressurge agora nesse volume de bolso organizado por Max Gehringer. Seus ensinamentos eliminam qualquer fobia de exercitar a massa encefálica. Isso porque aprender coisas novas pode ser especialmente divertido com Etelvina. Por exemplo, como se diz "Fulano" ou "Zé-Ninguém" em outros países? Nos Estados Unidos, ele é "Iohn Doe"; na França, Iean Dupont; na Croácia, Marko Markovic. Outra curiosidade: a palavra "borboleta" é uma das poucas que apresentam grafias completamente diferentes nas quatro principais línguas latinas. Mas nem só de anedotas linguisticas vive nossa professora. No livro, ela apresenta uma lista dos maiores hits nacionais do rádio de 1976 a 2007 e mapeia os lugares onde ficavam as sete maravilhas do mundo antigo. Há também informações imprescindíveis sobre política. Trata-se dos signos do zodíaco dos chefes de Estado brasileiros.

Gisela Anauate 5 de JUnho de 2009. É~OCA

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Zazie Zanza em Paris e zoa a linguagem, livro - Época  

INOVADOR Notre Dame ou de Sacré-Coeur. Ela quer mesmo é andar no trem subter- O francês Raymond Queneause tornou conhecido pela revolução li...

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