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Ministério da Cultura e Associação Casa Azul apresentam

Manual Flipinha 2013


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Ministério da Cultura e Associação Casa Azul apresentam

Manual Flipinha 2013


Apresentação 5 Introdução ao Manual da Flipinha 7

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Território dos autores André Neves Bia Hetzel Braulio Tavares Cris Eich Eloar Guazzelli Jean-Claude Alphen Karen Accioly Luiz Raul Machado Mariana Massarani Meton Joffily Mirna Pinsky Ninfa Parreiras Olívio Jekupé Regina Machado Ricardo Azevedo Ricardo Filho Ruth Rocha Sônia Rosa Stela Barbieri

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Território da literatura

Passeios pelo bosque da juventude: poesia, amor e ousadia O imaginário no poder: crianças e brincadeiras! Cultura popular, identidade e ação! Tudo pode ser diferente! Qual é a cor do seu traço?

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Território das editoras

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Apresentação

Caro professor, A Associação Casa Azul acredita em projetos capazes de ampliar as relações entre cultura e território, com ênfase na ação educativa e artística como meio de transformação social. Assim, é com enorme satisfação que apresentamos o Manual da Flipinha 2013.  Com o objetivo de apoiar os educadores nas atividades de sala de aula e aprimorar a formação por meio da literatura, as páginas a seguir são um convite para que professores e alunos naveguem por novos mares e novas palavras, tendo como grandes guias a criatividade e a imaginação. Este ano, o manual surge com novo formato: cada um dos autores participantes ganhou uma entrevista personalizada, com perguntas relacionadas diretamente à sua obra. Numa segunda parte, foram estabelecidos cinco eixos temáticos, a fim de se criar uma costura entre diferentes autores e diferentes histórias. Em torno dos grandes temas Passeios pelo bosque da juventude: poesia, amor e ousadia; O imaginário no poder: crianças e brincadeiras!; Cultura popular, identidade e ação!; Tudo pode ser diferente! e Qual é a cor do seu traço? abrem-se novas frentes de trabalho, que vêm somar-se às técnicas próprias — valiosas e insubstituíveis — de cada educador. Finalmente, uma terceira seção estabelece sugestões de leitura cuidadosamente planejadas. 

O amadurecimento do manual reflete um período em que a Casa Azul, cheia de entusiasmo, assiste à multiplicação das bibliotecas comunitárias na região de Paraty. Já são oito, em diferentes localidades: Itae, Casa Escola, Ponta Negra, Vila Oratório, Cairuçu, Condado e Ilha do Araújo, além de uma unidade itinerante e mais três previstas para 2013. Iniciativa da sociedade civil em prol da literatura, esses novos espaços vêm somar-se aos 32 acervos montados em cada uma das escolas municipais de Paraty, criando uma rede que faz inveja até mesmo às grandes cidades. Por acreditar na força das manifestações culturais, a Casa Azul investe na criação e no crescimento de práticas artísticas, atuando de forma abrangente e transversal nas diferentes linguagens da arte — do urbanismo à literatura; da cenografia à preservação do patrimônio. Nada disso é possível sem a figura central e transformadora do professor, peça-chave para todo e qualquer desenvolvimento.  Criar as condições para manter viva as manifestações culturais locais em diálogo permanente com a inovação e seu caráter universal é a diretriz que vem norteando nosso trabalho nos últimos dez anos. Nada é tão satisfatório quanto ver seus frutos se espalhando. Mauro Munhoz Diretor-presidente Associação Casa Azul


Introdução ao Manual da Flipinha

Querido professor, Este manual foi pensado para ser um material atraente e diferenciado na abordagem da literatura sob a óptica da arte. Nosso sonho era criar um material que instigasse a leitura dos livros e fizesse todo mundo ter vontade de mergulhar na obra dos autores de texto e de imagem, despertando diversas manifestações artísticas em torno da literatura. Em 2013, o manual não virá mais com a divisão em três partes: Biografia lúdica, Conhecendo as histórias e Navegando pelas histórias. Este ano cada autor terá o Território do Autor, com entrevistas personalizadas, estante de livros e, é claro, uma foto de cada um. As entrevistas variam um pouco de tamanho, dependendo do que cada autor quis contar. O manual também traz mais uma novidade: o Território das Editoras, com sugestões de títulos das editoras parceiras do programa Mar de Leitores. Não teremos mais projetos de leitura por autor, mas sim o Território das Histórias, com eixos temáticos que

serão divididos da seguinte maneira: Passeios pelo bosque da juventude: poesia, amor e ousadia; O imaginário no poder: crianças e brincadeiras!; Cultura popular, identidade e ação!; Tudo pode ser diferente! e Qual é a cor do seu traço?

imagem e, portanto, cada um apresenta ao leitor sua visão de uma mesma história. Por isso, é importante conhecermos não só o texto, mas as imagens e, principalmente, a interação texto-imagem, pois certamente desse encontro podem surgir muitas leituras.

Em cada eixo vamos misturar livros dos autores, mostrando como pode existir um diálogo entre livros aparentemente tão diferentes, mas sempre valorizando as possibilidades de exploração artística das obras. E livros que não estarão contemplados em um eixo temático, por exemplo, podem perfeitamente trocar de lugar se você achar conveniente. Separamos os livros dentro de uma proposta, mas seguimos sempre acreditando que as propostas apresentadas neste manual não são “receitas de bolo” que devem ser seguidas passo a passo, mas sim um convite para que você, professor-leitor e mediador de leitura, conheça os livros e perceba que pode trabalhar a obra sob diversos aspectos e olhares. E, sobretudo, que você é o autor de suas ideias e projetos. Os aqui apresentados são apenas um convite para despertar ideias sobre livros e literatura.

Este manual traz diversas possibilidades de trabalho, mas nunca se esqueça: você é a pessoa que mais conhece seus alunos e sabe que caminhos trilhar para envolvê-los com os livros. Eis aqui uma rara oportunidade para professores e alunos se emocionarem e vivenciarem essas histórias. Os livros, a leitura e o encantamento são o ponto de partida. O ponto de chegada é imprevisível. Só a imaginação é capaz de saber.

Lembramos que os livros para crianças e jovens devem ser lidos observando sempre as histórias contadas pelos textos e pelas imagens. O autor do texto muitas vezes não é o autor da

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Anna Claudia Ramos Verônica Lessa Atelier Vila das Artes


André Neves 8

a partir de André Neves*

André Neves é escritor e ilustrador (de suas obras e das de outros autores), é arte-educador e promove palestras e oficinas sobre Literatura Infantil e Juvenil. Participou do curso de ilustração para infância em Sarmede, na Itália. Em 2002, seu trabalho como ilustrador do livro Sebastiana e Severina foi selecionado para a mostra itinerante XX Mostra Internazionale d’Illustrazione per I’Infanzia Stepan Zavrel. Foi indicado ao Prêmio Jabuti e recebeu o Prêmio Luís Jardim na categoria Melhor Livro de Imagem com Seca. Conheça um pouco mais sobre André Neves.

Você se formou em Comunicação Social e hoje trabalha exclusivamente com literatura e imagens. Quando surgiu o desejo de contar histórias? Ao final do curso, quando estagiei como Relações Públicas no Espaço Pasárgada, Casa do Manuel Bandeira. Tive um contato mágico com livros e com pessoas que amavam literatura. Ao mesmo tempo, estudava pintura com uma grande mestra em Recife, acho que tudo isso me fez perceber que a minha imagem era narrativa.

Hoje você tem projetos nos quais assina textos e imagens. Qual a principal diferença entre os dois tipos de narrativa? Quando você começa um projeto autoral como esse, quem nasce primeiro: o texto ou a imagem? Não tem diferença para mim, quando o livro é autoral, só meu, penso no livro por inteiro. Nasce primeiro uma ideia, por imagem ou texto, tanto faz. Juntas, elas dialogam para estruturar a criação. O texto forma a imagem e a imagem estrutura as palavras.

Você nasceu em Recife e hoje mora em Porto Alegre. Essa mudança geográfica refletiu na sua obra? Talvez na mistura de técnicas das suas ilustrações? Provavelmente sim. Mas meu fazer artístico é puramente sentido de acordo com aquilo que quero contar. Hoje a maturidade gráfica me ajuda na composição dos livros. A mistura técnica, porém, tem mais a ver com questões estilísticas do que com questões geográficas. Embora, confesso e é bastante claro em meus discursos, as cores e a arte do Nordeste me encantem e com certeza apresentem maior reflexo em minha obra.

Hoje, você tem sua obra reconhecida não só no Brasil como no exterior. Atualmente, por exemplo, você dá cursos de ilustração em Sarmede, na Itália, e é uma referência brasileira por lá. Como tem sido essa experiência e o que esse contato com profissionais de outras partes do mundo acrescentou na sua forma de representar as histórias? No exterior, eles têm uma visão diferente do livro ilustrado, do conceito da imagem. Talvez pela carga de conhecimento, ou vivência mesmo, por certo estruturada de forma mais natural, crescem entre museus e obras de arte, conceituam mais rapidamente uma formação do olhar. No Brasil temos arte criativa, cultural, experimental, aliás, experimentamos muito nos livros, com grande aceitação dos editoriais, isso forma outros sentidos positivos para o livro e a leitura. O que mais me encanta nessa experiência com ilustradores estrangeiros e no contato com outros profissionais é ver e sentir que a parte cultural no livro é o que há de mais sensível e original. Isso tem refletido em meu trabalho.

Você tem ministrado muitas oficinas, principalmente no exterior. Passar conhecimento, despertar no outro o olhar para a leitura de imagens… isso o fascina? Você acredita que trabalhar com o conceito, com a educação, no futuro, pode ser o seu caminho? Gosto de sala de aula, de estar junto, de orientar, de ver um sorriso de descoberta com as surpresas visuais, de tentar esclarecer o sentido do livro e da imagem narrativa. Sim, isso me fascina. Mais ainda quando alguém passou por mim e publicou, com êxito, um bom livro. Meu caminho tem sido traçado unicamente por sonho e despertar de afetos. Amo o que faço e tento mostrar sensibilidades com técnicas. Ser sensível é entender a vida com o que temos de mais humano. É dessa forma que também tento compreender as dificuldades da leitura literária. O livro cedeu lugar para outras formas de ler e isso não é ruim. Muitas pessoas processam o pensamento com outros sentidos. A vida contemporânea é caótica e não deixará de ser. Hoje vejo que a educação e o livro estão em processo de mudança e podem, juntamente com a arte, construir essa tal de sensibilidade ampla que investigo. Esse é meu futuro.

Para você, qual o maior desafio que pais e professores enfrentam na formação do leitor nos dias de hoje? A resposta ampla, mas focando na estrutura da pergunta, os próprios pais e professores. A vida contemporânea certamente constrói barreiras diante das inúmeras ofertas de desserviço social. Para ultrapassá-las a criança precisa construir sua identidade e acreditar no seu potencial criativo para também se encaixar no ambiente leitor. Isso requer exemplos. Professores que não leem não encantam, não reconhecem a leitura de raciocínio crítico e têm dificuldades de romper aspectos superficiais do livro. Por outro lado, a educação difusa é essencial, não dá para delegá-la unicamente à escola. A leitura faz parte dela. Pais leitores têm mais êxito nos estímulos dos filhos.

O que você pensa dos livros digitais para crianças? Uma outra forma de ler. Também nova para mim. Estimulante, criativa e requer outro tipo de concentração. Ainda não possui grande reflexos no meu eu leitor, nem criador. Mas estou investigando. Em seu blog, você se define como “pura imagem. Risco e rabisco. Só sei ser assim. Como se alma, ilustração fosse. Um borrão desenhado pelo tempo”. Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca André Neves, com os livros que formaram essa alma-ilustração, que obras encontraríamos? Por quê? Teria o que mantenho em minha cabeceira hoje, catálogos de arte, catálogos de artistas, livros ilustrados, para admirar nas últimas pestanejadas antes de dormir e poder sonhar.


Bia Hetzel Ambientalista, escritora, fotógrafa, pesquisadora e editora. Qual dessas Bias ocupa mais espaço hoje na sua vida? Grande parte do meu tempo é dedicado à editora, mas as outras Bias continuam mais vivas e atuantes do que nunca. Alguns de seus livros nasceram após anos de pesquisa nas baías de Ilha Grande e Paraty. Navegar, conhecer novas histórias da terra e do mar, reais e inventadas, a rotina dos caiçaras, o nascimento de novas espécies marinhas... Você acredita que essa mistura, aliada a pitadas de fantasia e gotas de imaginação ajudaram a aproximar seus livros das crianças? Qual o ingrediente mágico dos seus livros? Sem dúvida a mistura das histórias reais e inventadas é o grande encanto do meu trabalho. Acho que o ingrediente mágico de qualquer livro de qualidade é o amor que o autor imprime ao texto e às imagens. Não acredito em livros “por encomenda”, só em livros que nascem de um desejo, de uma experiência, de uma boa história que alguém tem muita vontade de compartilhar.

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a partir de Mariana Massarani*

Escritora, editora, pesquisadora e fotógrafa profissional, sócia da Editora Manati, as principais características de seu trabalho são a premiada produção de livros para crianças e jovens, a especialização em meio ambiente e a colaboração com projetos de pesquisa e atividades conservacionistas. Recebeu o Prêmio Jabuti de Autor Revelação de Literatura Infantil da CBL e os prêmios O Melhor para a Criança, Melhor Projeto Editorial e o Jannart Moutinho Ribeiro, todos da FNLIJ. Recebeu também várias menções Altamente Recomendável/ FNLIJ, e o Premium Label White Ravens da Biblioteca Internacional de Munique. Conheça um pouco mais sobre Bia Hetzel.

Você se considera um pouco paratiense. Inventou uma “bisbilhoteca” para o Pouso da Cajaíba com o pessoal da Casa Azul e com o escritor e ilustrador Roger Mello. Em sua opinião, qual é o maior desafio que o professor hoje enfrenta na formação do leitor? Não tenho dúvida de que o maior desafio que o professor enfrenta para formar leitores é a questão do valor social do livro e da leitura. O problema é que o povo brasileiro, de modo geral, acha que um bom livro, assim como a formação dos leitores, não vale quase nada. Se pensarmos bem, a questão da falta de material para trabalhar, de bons livros e bons acervos, que foi crucial até pouco tempo atrás, está relativamente bem encaminhada em vários municípios e escolas, como, por exemplo, em Paraty. Além disso, a internet ajuda também no acesso a bons textos e imagens. Mas pouca gente está dando a devida importância a isso! É incrível como ainda tem muita gente dizendo e repetindo sem nem refletir que “livro é caro”, por exemplo. Num país em que as pessoas preferem investir num lanche de uma cadeia de fast food, ou numa “escova progressiva” ou num “tênis de marca”, ou num bibelô eletrônico

qualquer mais do que investiriam em um bem cultural da grandeza de um livro, fica muito difícil formar leitores. Não é só dinheiro que ninguém quer gastar com livro e leitura, é acima de tudo tempo. As pessoas têm muitos outros interesses antes da leitura: praia, televisão, futebol, churrascaria, videogame, Facebook... A questão maior é essa: o valor que damos às coisas na hora de fazer escolhas. Se faltam tempo, dinheiro e vontade para formar leitores no Brasil é porque o valor social do livro e da leitura lamentavelmente está beirando o zero. A Bia Hetzel editora ajuda a escritora a descobrir novas formas de contar história? Ou é a escritora e pesquisadora que dá à editora o universo necessário para aprovar novos títulos? Essa multidão que me habita opina em tudo o que faço. Como várias cabeças pensam melhor do que uma, eu procuro ouvir todos os meus eus em cada decisão.

Você ministra palestras sobre leitura em todo o Brasil. Comprometida com a formação do leitor, como escritora e editora, acompanha o boom editorial em torno do meio ambiente, sustentabilidade, consumo consciente… Como você avalia essa avalanche de livros sobre esses temas e o trabalho que vem sendo feito nas escolas? Qual seria o melhor caminho para implementar, nas escolas, uma política de conscientização? Acho que a avalanche de livros sobre sustentabilidade e conservação do meio ambiente refletem a consciên­cia, as angústias e os valores do mundo em que vivemos. É como a história da Ilha de Páscoa: não estamos destruindo o planeta, e sim os recursos que o planeta possui e que propiciam a nossa vida. A Ilha de Páscoa ainda está lá, quem desapareceu foram seus habitantes e os recursos que os mantinham vivos... Quanto mais informação tivermos sobre isso, melhor, e felizmente há vários bons livros e bons trabalhos de reflexão em curso em escolas de todo o Brasil. Mas eu sempre lembro que sem leitores críticos e conscientes não conseguiremos equacionar o problema da sustentabilidade da vida humana. E isso a gente não consegue só metralhando as mentes com informação, mas alimentando-as com literatura, poesia e imaginação.

O que você pensa dos livros digitais para crianças? Adoro livros e todos os suportes me interessam. A Manati foi pioneira no lançamento de livros-brinquedos em suporte digital, e os resultados que temos visto são incríveis. Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Bia Hetzel, com os livros que mais marcaram a sua história, que obras teriam nela? Por quê? Nossa, acho que só daria para ter uma biblioteca dessas na minha cabeceira se fosse em meio digital, caso contrário meu marido iria reclamar muito de dormir ao lado de uma montanha de livros de papel (na verdade, ele já reclama um pouco das grandes pilhas que estão sempre rondando meu travesseiro...). Na infância, os livros que mais me marcaram, além de todos os contos dos Irmãos Grimm e de muitos do Andersen, foram Reinações de Narizinho, A fada que tinha ideias, todos os Asterix, todas as Mafaldas, centenas de gibis do Mauricio de Sousa, da turma da Luluzinha e também da Disney. Na adolescência, todos os livros do Machado de Assis, além das obras completas do Drummond,

da Cecília Meireles, da Adélia Prado, do Augusto dos Anjos, do Fernando Pessoa e muitos outros. Eu era tão voraz nessa época que acho que entre os 15 e 20 anos li quase tudo de poesia que existia publicado em língua portuguesa. Aos 20 descobri Guimarães Rosa: e isso não foi uma marca, foi uma revolução na minha vida. O Grande sertão e o Primeiras estórias viraram meus livros de travesseiro (a cabeceira já estava lotada). Depois disso descobri Euclides da Cunha, Clarice Lispector, Henfil, Karen Blixen… Para resumir: livros e gibis foram sempre tão importantes na minha vida que acho que daria para listar um título para cada dia dos meus 44 anos bem vividos!


Braulio Tavares

Escritor, poeta e compositor brasileiro, Braulio Tavares também estudou cinema. É pesquisador de literatura fantástica e ficção científica, e compilou a primeira bibliografia de literatura do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992). Atualmente, é colunista de jornal e escreve roteiro para shows, cinema e televisão. Conheça um pouco mais sobre Braulio Tavares.

Você diz que cresceu numa casa cheia de livros e que seus pais sempre incentivaram a leitura. Você acredita que isso influenciou sua escolha profissional? Acho que sim, mas essas escolhas são individuais. Somos quatro irmãos, fomos todos criados juntos, e somente eu e a mais velha, Clotilde, nos tornamos escritores. O amor pelos livros e pelo conhecimento é compartilhado por todos, mas o jeito para escrever eu acho que uns têm e outros não. Você estreiou em livro com A pedra do meio-dia, ou Artur e Isadora, em 1979, e, depois em 1980, com As baladas de Trupizupe, ambos de cordel. Fale um pouco dessa identidade do seu trabalho com a literatura de cordel. A pedra do meio-dia foi escrito em 1975, quando eu estudava Ciências Sociais na UFPB e convivia com os poetas, violeiros e cordelistas de Campina Grande. Li cordel muito intensamente nessa época, e decidi escrever um folheto que fosse parecido com os clássicos do gênero “maravilhoso”, escritos por pessoas como Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Delarme Monteiro e outros.

As baladas de Trupizupe foi publicado em forma de folheto, mas, tecnicamente, não é literatura de cordel — eu usei o formato do folheto para publicar letras de minhas canções. Naquela época, eu cantava nos bares, nas universidades etc., e depois vendia o folheto com as letras, que são muito longas e que o pessoal achava interessantes. Mas meu show era um show de MPB, voz e violão, não tinha muito a ver com o cordel. Você publica diariamente no Jornal da Paraíba. São artigos sobre literatura, cinema, música etc. voltados ao público em geral. Mas você também publica algumas reflexões sobre literatura infantil, literatura oral, educação etc. Sua relação com a música sempre foi muito estreita, desde trilhas para teatro até a parceria com Lenine. Para você, quais as principais diferenças entre todas essas linguagens (poesia, literatura, cordel, teatro, música)? Cada forma de expressão é única. Certas coisas só se pode dizer com teatro, outras só se pode dizer com pintura, outras com poesia, e assim por diante. Gosto de experimentar maneiras diferentes de criar, tenho curiosidade em aprender, e acho que tudo que aprendo se reflete nos meus textos, que para mim são a parte mais importante — meus contos, poemas, artigos e ensaios.

Você nasceu em Campina Grande, na Paraíba, e hoje mora no Rio de Janeiro. Além de poeta, escritor e compositor, você estudou cinema na Escola Superior de Cinema da Universidade Católica de Minas Gerais, é pesquisador de literatura fantástica, compilou a primeira bibliografia do gênero na literatura brasileira, o Fantastic, Fantasy and Science Fiction Literature Catalog (Fundação Biblioteca Nacional, Rio, 1992), é colunista de jornal e escreve roteiro para shows, cinema e televisão. Você acredita que essa mudança geográfica lhe deu múltiplos olhares e o tornou um artista de muitas inquietações? Como chegou à literatura infantil e juvenil? Eu nunca tive projeto de escrever literatura infantil e juvenil. A pedra do meio-dia foi escrita para ser um cordel, e no Nordeste os leitores de cordel não têm idade. Todo mundo lê tudo. Adultos que leem cordel também gostam de histórias de princesas e dragões.

Para você, qual o maior desafio que pais e professores enfrentam na formação do leitor nos dias de hoje? Eu vejo os jovens, principalmente após os 12 anos, muito impacientes com a escola, desinteressados, desmotivados. Em parte é por preguiça, em parte é porque os smartphones e computadores lhes trazem estímulos muito mais divertidos. Mas em parte é porque a escola está presa a muitos modelos de ensino que não funcionam. Os jovens se enchem da escola e vão gastar sua energia criativa em outras atividades. Já ouvi professores de 50 anos dizendo: “Eu acho que estou ensinando tudo de uma maneira errada, mas eu sou Velha Guarda, só sei ensinar assim, vai ser preciso descobrir uma maneira nova, que atraia essa galera”.

Meu livro que ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura Infantil, A invenção do mundo pelo Deus-curumim, foi escrito inicialmente para ser o roteiro de um balé, que não chegou a ser produzido. Só depois chamei o Fernando Vilela para fazer as ilustrações e transformar a história em livro.

De que forma você vê a cultura popular nos tempos atuais de globalização? O que você pensa dos livros digitais para crianças? Deixando de lado as questões de direitos autorais, remuneração do autor, pagamento dos livros etc. todo o quadro produzido pela cultura digital é muito positivo. Textos em domínio público podem ser difundidos, multiplicados, traduzidos, adaptados, utilizados de mil maneiras por livros, filmes, peças, programas de TV. A cultura popular — que pertence a todos — é o maior manancial de histórias a ser explorado pela internet.

Não penso muito que estou escrevendo para crianças. Penso que tenho uma história altamente interessante para contar e que devo contá-la com simplicidade, para que a história se imponha por si só.

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a partir de Braulio Tavares*

Essa maneira nova é o grande desafio, porque os governos de um modo geral (federal, estaduais e municipais) não estão nem aí para a educação. De cada geração de brasileiros que nasce, metade é jogada no lixo.

Os livros digitais são importantes, mas não como uma substituição do livro impresso. Vi um cartum que mostrava alguém entregando um livro a uma criança e dizendo: “O nome disto é ‘livro’, e serve para instalar softwares em seu cérebro”. É um pouco isso. Quando lemos um livro, não estamos apenas aprendendo a ler aquele livro, estamos aprendendo a pensar concentradamente, a correlacionar estímulos verbais e memória, a abstrair, a imaginar, a visualizar de forma criativa algo descrito em palavras. Nenhum GIF animado e nenhum clipe de imagens pode superar a riqueza e a importância desse processo. Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Braulio Tavares, com os livros que mais marcaram sua história, que obras teriam nela? Por quê? Minha biblioteca é um pouco assim, tenho cerca de 3 a 4 mil livros. Metade deles uso para referência e consulta. E um dos meus passatempos é encontrar em sebos os livros que li quando garoto, e estou reconstituindo minha biblioteca daqueles tempos. Ali estão Monteiro Lobato, Malba Tahan, Conan Doyle, Maurice Leblanc, H. G. Wells, Ellery Queen... Não são os autores mais importantes do mundo, mas são os mais próximos da minha memória afetiva.


Cris Eich

Pós-graduada em História da Arte, trabalhou como ilustradora em agências de propaganda, colaborou com jornais alternativos nos anos 1990 e em revistas da editora Abril. Hoje tem mais de cinquenta títulos ilustrados. Conheça um pouco mais sobre Cris Eich.

Sua mãe é alfabetizadora e seu pai, professor de português e literatura. Você é pós-graduada em História da Arte e trabalhou em agências de propaganda. Como começou o seu interesse pelo trabalho com imagens e com a literatura infantil e juvenil? Você acredita que seus pais influenciaram sua escolha? Quando surgiu a Cris Eich ilustradora? Por gostar de ler e desenhar, no dia em que descobri que seria possível trabalhar unindo as duas atividades, fui fisgada sem chance ou vontade de escapar. Nos meus tempos de colégio, tive aulas de educacão artística com um professor que era também ilustrador (olha a importância da figura do professor, do mediador) e ali comecei a traçar meus planos: desde então foi aprimorar a técnica, o desenho, e amadurecer como criadora de imagens, até achar que tinha condições para ilustrar um texto literário de verdade. Esse processo durou muito tempo. Que livros marcaram a sua infância? Apesar de meus pai serem professores, havia muitos livros em casa, mas poucos que pudessem ser chamados de literatura infantil e juvenil, por isso era prática comum lê-los e relê-los: Escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida (o campeão de releituras); O menino do dedo verde, de Maurice Druon; Coração de vidro, de José Mauro de Vasconcelos; tudo o que Carlos Heitor Cony escreveu para adolescentes; O tempo e o vento, de Erico Verissimo; os doze volumes do Sítio do Picapau Amarelo (edição da Brasiliense), ilustrados por Manoel

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a partir de Cris Eich*

Vitor Filho, me fizeram pensar em ser ilustradora; O gênio do crime, de João Carlos Marinho. E, desse mesmo autor, O caneco de prata. Sobre O caneco de prata, posso afirmar que foi meu primeiro livro ilustrado: quando li na adolescência, fiquei tão entusiasmada com a história que eu mesma peguei lápis e caneta e comecei a desenhar as personagens e as cenas no próprio livro. Rabisquei, desenhei o livro todo para poder lê-lo novamente, agora em edição ilustrada! (risos). Anos depois, já como profissional, ouvi falar que João Carlos Marinho não nutre grandes simpatias por ilustração em seus livros… Você ilustra livros de outros autores, mas também publicou um livro de imagem de sua autoria. Como foi essa experiência? Trabalhar com os dois tipos de narrativa ao mesmo tempo foi mais fácil? Quem nasceu primeiro, o texto ou a imagem? Pretende continuar desenvolvendo projetos de texto e imagem? Para mim, ler imagens parece coisa natural, um processo comum como abrir um livro e ler a primeira página. Descobri que as coisas não são bem assim, que precisamos ensinar as pessoas desde muito jovens ou desde crianças a “se alfabetizar visualmente”, porque existe informação visual à nossa volta o tempo todo e é importante que aprendamos a entender seu significado, para poder viver melhor. Por isso, passei também a pensar histórias que pudessem ser contadas só através de imagens, que foi o caso desse livro e de outros que ainda ganharão vida.

Jamais pararei de ilustrar bons textos de outros autores, porque também adoro criar os diálogos entre linguagem verbal e visual, ainda estou descobrindo as múltiplas possibilidades desse diálogo. No princípio era o verbo, está escrito. No princípio era o traço — faz mais sentido para mim. Por que trabalhar exclusivamente com aquarelas? Aquarela é transparência, é o branco do papel, são os pigmentos diluídos com goma arábica e um pincel. É a gota d’água em viagem pelo papel, viagem imprevisível em que sou surpreendida e tento tirar proveito das reações naturais. Aquarela é plena concentração, é desligar-se de tudo e ser transportada pela pincelada. Aquarela é o gesto que fica para sempre registrado, mesmo que tenha sido um erro, fica como testemunho do embate entre quem pinta e os mistérios e vontades da aguada. Ainda tenho muito que aprender para pensar em mudar de técnica. Você ilustrou diversas reedições de clássicos da literatura. Teve dificuldades em dar novas roupagens a personagens tão conhecidos? Por exemplo, sua versão da Alice (da obra Alice no país das Maravilhas) é morena. De que forma essa releitura foi recebida pelos editores e pelos leitores?

Sente um friozinho na barriga ao ilustrar clássicos? Como criar um novo rosto quando a personagem já tem tantos? Meu processo é ir lá no início de tudo, tentar entrar no mundo que cerca o autor do texto através de leituras e pesquisa iconográfica (dedico muito tempo a essa etapa), onde ele vivia, trabalhava, que pessoas e assuntos faziam parte de seu dia a dia. Foi assim com Lewis Carrol, entre gravuras e fotos (minha Alice é a menina vizinha do autor). Por exemplo, existe uma referência muito, muito forte, dos desenhos animados da Disney, por isso, uma das funções do trabalho de ilustrar uma outra Alice é sinalizar que existiram outras versões para ela, além daquela de cachinhos dourados do desenho animado. Também procedi dessa forma com os contos de Grimm que ilustrei em 2012 (recontados pela Ana Maria Machado). Mas posso dizer que meu xodó foi recriar as personagens do Sítio, especialmente minha versão da Emília. Quais são suas maiores influências? Imagino que você também carregue influências de seu período como estudante de História da Arte… Se começo a desenhar uma pessoa e estou assim meio destraída, pimba! Lá vem o traço com a cara do Ziraldo. Inevitável, anos lendo o gibi da Turma do Pererê deixaram sua marca. Assim como a anatomia do Manoel Victor (ilustrador dos Doze trabalhos de Hércules, no Sítio do Picapau Amarelo).

Procuro sempre transmitir em minhas ilustrações alguns dos conceitos e soluções que aprendi estudando História da Arte. Seja nas composições das gravuras japonesas, fonte de toda a arte de nosso tempo, seja nas soluções gráficas ou na poesia de meus pintores mais queridos (Anita Malfatti, Lasar Segall, Nicholas de Staël, De Chirico, Klimt, Paul Klee e William Turner). O que você pensa sobre os livros digitais e os livros para bebês? Você acredita que são caminhos para formação do leitor literário? Espero viver ainda muitas décadas, tempo o bastante para apreciar para onde nos levará a experiência de leitura num livro digital. Acredito que será completamente diferente do que o que já temos hoje, inimaginável para mim, mas diferente do folhear das páginas. Talvez revolucionária como foi o cinema há cem anos? Já pensou? Teremos a versão original, por exemplo, uma obra que acho que foi muito bem adaptada, como Morte em Veneza, em livro, em cinema e… sabe se lá que outra experiência nos aguarda. Mas não vamos misturar as coisas, estou pensando em adultos, porque bebês ainda precisam aprender que existe papel, que papel rasga, que molha, que estraga, que existe pano (adoro presentear bebês com livros de pano), que tem gosto, que suja e que lava, que existem livros de plástico, que os materiais são diferentes e que tudo deve ser experimentado e aprendido, até o universo digital, que para eles é coisa absolutamente natural.

Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Cris Eich, que livros teriam nela? Por quê? Eu tenho bem pertinho da cabeceira alguns livros de estimação, os que dobrei páginas, marquei frases, capítulos e que estou sempre pegando e relendo trechos. São histórias e personagens que me acompanham mesmo depois de eu ter fechado o livro. Posso listá-los? A duração do dia, poemas de Adélia Prado (este está mesmo na cabeceira!); Machado de Assis, Dom Casmurro ou contos (como “O Alienista”); Clarice Lispector, Felicidade Clandestina ou Cidade Sitiada; Guimarães Rosa, Manuelzão e Miguilin ou Grande Sertão ou Sagarana (“O burrinho perdês”, “A terceira margem do rio”); Saramago, Evangelho segundo Jesus Cristo; Virginia Woolf, Mrs Dalloway ou As ondas; Robert Musil, O homem sem qualidades; Thomas Mann, Dr. Fausto; João Silvério Trevisan, Anna em Veneza; Hermann Hesse, Sidarta; Proust, No caminho de Swann; Tolstói, Anna Karenina; Dostoiévski, Os irmãos Karamazov, trecho do grande inquisidor; Tchecov, Tio Vania ou A gaivota; Gogol, O capote e outros contos; Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano; Oscar Wilde, Retrato de Dorian Gray; Amin Maalouf, Samarcande; Antologia de contos brasileiros ou Os cem melhores contos brasileiros do século.


Eloar Guazzelli

Eloar Guazzelli foi premiado no Yomiuri International Cartoon Contest (1991) e no Salão Internacional de Piracicaba (1991, 1992 e 1994). Seus trabalhos foram publicados na Argentina, na Fierro e na Lápíz Japonés, e na Espanha, na El Ojo Clinico. Conheça um pouco mais sobre Eloar Guazzelli.

Você tem algumas profissões: professor de artes plásticas, diretor de arte para animação profissional, técnico de cinema, ilustrador e quadrinista. Quais dessas experiências ocupa mais tempo no seu dia a dia? Foi uma escolha ou uma forma de entrar no mercado de trabalho? Venho de uma família que sempre motivou o interesse pelas artes, sem fazer distinção. Por conta da convivência com meus irmãos mais velhos, eu tive contato com a produção de quadrinhos. Nos anos 1980, comecei a buscar um lugar para o meu desenho (entrei na faculdade de Belas-Artes e também comecei a trabalhar com desenhos animados). Surgiu então a possibilidade de trocar meu papel de leitor pelo de autor numa linguagem em escala industrial e isso serviu de laboratório para elaborar minhas primeiras histórias. Apesar de já cooperar com publicações de São Paulo, Buenos Aires e Espanha, minha produção nos anos 1990, e até 2005, foi bastante irregular, e minha vida profissional nesse período ficou mais focada na direção de arte para cinema de animação. Porém, o nascimento de minha filha Flora, em 2004, mudou radicalmente essa situa­ção. Passei a sentir necessidade de realizar um trabalho autoral, que logo se traduziu em dois álbuns: O relógio insano e O primeiro dia. Começaram a surgir oportunidades de fazer adaptações de textos literários para quadrinhos: O pagador de promessas, A escrava Isaura, Demônios, a obra de Fernando Pessoa. Uma atividade que se desenvolveu

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a partir de Eloar Guazzelli*

em paralelo com a de direção de arte para cinema de animação, agora para longa-metragem, e também a uma maior inserção no mercado editorial voltado para o público infantojuvenil. Portanto, creio que o transitar entre linguagens (realçado pela formação acadêmica em Artes Plásticas) sempre esteve presente de forma natural nas minhas atividades, sendo que a “hegemonia” de cada atividade se dá por períodos, sem ocorrer nenhum momento em que eu abandone em definitivo alguma dessas expressões. Até porque elas se alimentam, interpenetram e influenciam o tempo todo. E giram sempre em torno do prazer de desenhar. Em sua opinião, quais as principais diferenças entre a linguagem de animação e a de quadrinhos/ilustração? Sou pesquisador de quadrinhos (defendi tese de mestrado sobre Zé Carioca) e frequentei de 2006 a 2009 o observatório de pesquisa sobre quadrinhos na USP. Começaria a responder pelas semelhanças, pois foram estas que estabeleceram fortes vínculos entre as duas linguagens. Isso porque os quadrinhos são uma espécie de “gêmeo” do cinema, infelizmente um par meio maldito, vítima por muito tempo de forte preconceito, e considerados artes menores. Situação que efetivamente começou a ser debelada a partir de forte movimento entre intelectuais e pesquisadores no pós-guerra. Então os quadrinhos são vistos como uma arte autônoma e acima de tudo tão rica e sofisticada quanto as demais, e

deixam de ser vistos como se fossem apenas um produto comercial para crianças e adolescentes. Os quadrinhos realmente têm características narrativas e estruturais que são comuns ao cinema. O que estabelece o “corte” entre essas linguagens são as diferenças estruturais do quadrinho, que acontece no meio impresso (isso está mudando) e tem uma leitura mais ativa por parte do público, ou o caráter extremamente industrial e portanto mais coletivo da produção cinematográfica (mas que também pode ocorrer nas HQ produzidas em escala massiva). Mas, felizmente, por conta das convergências de mídia da era digital que sinalizam plataformas de exibição e consumo cada vez mais hibridas, essa é uma condição que está sendo superada a cada dia. O que você pensa do boom editorial em torno dos quadrinhos? Hoje, muitas editoras optaram pela publicação de clássicos da literatura adaptados para quadrinhos. Você acredita que essas versões atraem novos leitores? Acho que sempre houve uma variedade de quadrinhos no Brasil, mas para públicos restritos, em geral com um caráter de produção independente. O que realmente mudou é que estamos construindo uma produção em escala industrial de um tipo de quadrinho que antes estava restrito àquelas produções em escala menor. Hoje em dia — por conta de inovações técnicas, como o advento do computador pessoal e da rede mundial de computadores — estão no limiar de um grande salto qualitativo, em que

deixaremos de ser um país formador de profissionais qualificados para nos apresentarmos como um centro de produção de conteúdo. Ou seja, estamos no caminho — difícil e cheio de obstáculos — para construirmos uma estrutura de produção em escala industrial. Panorama em que as adaptações e os conteúdos paradidáticos irão desempenhar importante papel, por conta das compras em larga escala para uso na rede escolar. Como foi adaptar a obra de Fernando Pessoa? E A escrava Isaura? Achei interessante o desafio de adaptar A escrava Isaura, porque esse livro teve na sua adaptação para te­lenovela o maior êxito da teledramaturgia brasileira. Mas Pessoa foi mais difícil, porque o significado desse autor é enorme para a nossa cultura. Por isso, quando aceitei fazer um álbum sobre esse escritor, foi com grande entusiasmo que encarei o trabalho, mas tinha plena consciência de que, além de uma grande honra, eu tinha também um tremendo desafio pela frente, afinal, eu desenharia a partir de um texto maravilhoso, de um verdadeiro ícone da nossa vida cultural. Uma grande responsabilidade! Ao longo de todos os meses de trabalho que um álbum de quadrinhos requer, pairava sobre mim a figura do Pessoa. Eu sempre admirei com fervor seu trabalho, portanto tinha a exata noção do privilégio que representava trazer para o plano das imagens o seu universo.

Você diz que conhece os livros da sua infância pelo cheiro das obras, das coleções... O que você pensa dos livros digitais para crianças e jovens? Ainda é cedo para avaliar e tenho medo de assumir uma atitude reacionária que sempre condenei na minha juventude, como o preconceito contra os quadrinhos e a TV. Mas tenho receio de duas coisas: uma excessiva predominância do audiovisual, pois essas plataformas favorecem linguagens híbridas, e também um caráter lúdico demais, um excessivo peso no caráter de entretenimento que algumas obras parecem carregar. Ainda acho que a literatura tradicional é a coisa mais interativa que se inventou, nada é maior do que a força do imaginário puro e simples. Mas, como disse, ainda é cedo e também tenho interesse em experimentar essas plataformas. Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Eloar Guazzelli, com os livros que mais marcaram sua história, que obras teriam nela? Por quê? Por obra de meus pais, os livros sempre fizeram parte da minha vida. A eles devo o aprendizado da melhor forma de estimular o amor pela literatura, através do simples exercício do exemplo. Acredito que são bastante válidas as iniciativas de fomento ao hábito da leitura que hoje abrangem um amplo conjunto de ações no ambiente escolar, porém tenho minhas reservas quanto a sua plena eficácia, se os estudantes não encontram em casa um exemplo. Por essas razões, me sinto realizado em dar continuidade a um processo mágico que veio lá da

minha infância, quando percorria com o olhar fascinado as várias estantes da casa paterna e descobria maravilhado que os livros eram a “casa” de ilustrações fantásticas, muitas vezes tão poderosas quanto a magia dos textos que as haviam inspirado. Numa enciclopédia chamada Trópico, descobri a Guerra de Troia, meu tema favorito aos sete anos. Também mergulhei nas selvas de Tarzan, viajei no Oriente com as aventuras de Karl May e até voei com Júlio Verne. E através do gênio de Monteiro Lobato, encontrei meu próprio país. Pouco depois, descobri Gustave Doré! Nunca mais o mundo seria o mesmo, nem meu desenho, que deixou de ser um exercício solitário a partir do momento em que percebi que eu fazia parte de um grande fluxo de ideias e sonhos. E os autores se sucedem e alguns marcam determinados períodos. Mas hoje já tenho meus clássicos, aqueles recorrentes, que sobrevivem ao grande crítico que é o tempo: Dostoiévski, Babel, Maupassant, Eça, Borges, Malaparte... Difícil citar, porque sempre serei injusto. A maior descoberta para mim foi entender os autores que mais me tocaram como verdadeiros amigos, o que de fato são, posto que a literatura na minha vida tem sido apoio indispensável nos momentos difíceis, quando tudo parece confuso e sem perspectiva. Nessas horas, alguns livros são o lastro que me mantém no prumo em plena tempestade. Por outro lado, se não fosse sua poderosa força como motor de propulsão da criatividade através do exercício da imaginação, sinto que minha vida seria pequena, limitada como uma pequena habitação. Como um quarto fechado e sem livros nas paredes…


Jean-Claude Alphen Um carioca com nome francês e que hoje mora em São Paulo. Esse olhar múltiplo, que reflete suas diversas raízes, influencia a sua obra? Certamente. Como morei onze anos na França, toda a infância, acho que há certamente muita influência disto no meu trabalho. E hoje em dia, devo sondar estas reminiscências constantemente. Não sei até que ponto poderia avaliar os limites dessas influências ou como elas se processam no texto escrito. É mais fácil constatar isso nas ilustrações, assim, creio que o estilo do meu desenho vem de raízes mais europeias do que brasileiras, copiei muito quadrinho francês e belga quando garoto. A minha formação na obtenção do traço vem mesmo do quadrinho, da cópia de mestres dessa arte, como Hergé (Tintin) e Uderzo (Asterix). Aprendi o manejo das cores no Brasil e desconfio que sejam muito mais vibrantes e alegres por essa razão. Quanto ao humor, acho que é mesmo uma mescla desse caldeirão de influências. Você tem uma irmã escritora (Pauline Alphen). Acredita que, de alguma forma, a infância ou a família, direcionou a escolha profissional de vocês? Sim, havia muito envolvimento com literatura e arte em casa. Em casa, sempre houve uma forte inclinação para esse lado e foi claramente incentivado pelos nossos pais. Você se formou em Comunicação Social, com habilitação em Propaganda na ESPM. Mas seu primeiro trabalho foi como caricaturista

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a partir de Jean-Claude Alphen*

Formado em Comunicação Social, foi laureado duas vezes como autor com o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), recebeu também o prêmio da Revista Crescer dos 30 melhores livros infantis do ano, o Prêmio Literário Glória Pondé de melhor livro infantil e juvenil da Fundação Biblioteca Nacional e foi finalista do Prêmio Jabuti como melhor ilustrador de literatura infantil. Conheça um pouco mais sobre Jean-Claude Alphen.

no Jornal da Tarde. Trabalhar com imagens sempre foi seu desejo? Também quase me formei em Marketing, mas abandonei o curso no penúltimo semestre. Sem dúvida, não me lembro de deixar de desenhar um só dia na minha infância. Sempre foi meu maior prazer, uma paixão. Acredito que precisava muito das imagens, pois minha timidez na infância me limitava na socialização, e no desenho tudo era possível. O desenho era meu melhor amigo. Meus primeiros trabalhos comerciais foram caricaturas; trabalhei no Jornal da Tarde e num jornal literário. Sempre gostei de distorcer no desenho. Até hoje, gosto de exagerar num nariz, numa orelha, numa barriga... Desde 2007 você deixou de assinar apenas como ilustrador, publicando também seus textos. E você diz que hoje enxerga a literatura infantil como um casamento do texto com as ilustrações. Em que momento você desejou colocar texto nas suas imagens? Ou, em seu caso, os textos nascem antes das formas? Ficou mais difícil ilustrar textos que não são seus? Isso aconteceu quando eu quis dar meu recado. Falar do que me é precioso, questões que considero importantes do meu ponto de vista. São questionamentos de um adulto e espero que possam ser com­preendidos pelas crianças. E ilustrando apenas textos de outros autores, eu não podia fazer exatamente isso. Sim, o texto sempre vem antes de tudo. É bem simples; escrevo e depois coloco no papel as imagens que me

ocorrem. Claro que, depois, pode acontecer o inverso, acrescentar uma imagem e editar um texto em cima. Não ficou mais difícil, ficou diferente e é sempre muito bom. É ótimo poder também ilustrar histórias que eu jamais escreveria, em estilos diversos. Considero outro tipo de trabalho, bem distinto do que pensar um livro inteiro (texto e imagens). Quando escrevo um texto, a minha vontade é ver transformados esses dois meios de expressão aparentemente distintos em uma só linguagem. Isso até mesmo é verdade quando o texto e a imagem divergem. Não importa. Num casamento nem sempre há concordância o tempo todo. É isso que pode enriquecer o diálogo. Quando ilustro um texto de outro autor, dificilmente posso mudar algo do texto ou eliminar algum trecho ou acrescentar texto para uma nova imagem. Por isso, tenho certas limitações. Talvez devesse haver mais envolvimento entre o autor e o ilustrador, se houvesse isso, o processo poderia se assemelhar mais ao que ocorre quando há um único autor tanto das imagens quanto do texto. Mas fazer isso é mais complicado. O editor continua sendo o melhor mediador. Você é conhecido por ter um traço mais voltado para o humor. Considera essa uma característica essencial da sua obra? Você acredita que por esse viés (o humor) é mais fácil capturar a atenção do leitor? Sim, até agora acho que sou mais

conhecido por navegar bem com o humor. É natural para mim. Tenho comichão para encarar as questões da vida com humor. Sim, talvez seja também por isso, não tinha pensado muito nisso até o momento. Pode ser que, como pessoa, eu sempre tenha obtido mais atenção pelo viés do humor e isso foi sendo transferido de forma espontânea ao meu trabalho. O que me move mais para o traço de humor é o prazer. Preciso intercalar os estilos, se trabalho muito tempo com algum traço mais contido, me sinto mais preso, e acabo sempre voltando para o humor. Mas isso não quer dizer que me limito ao humor, já fiz trabalhos mais “sérios” (entre aspas porque não entendo o humor como sendo algo irresponsável) e mais tristes, mais reflexivos e gosto muito. Espero não ser rotulado como autor exclusivo de textos e desenhos de humor. Isso seria reduzir consideravelmente minhas possibilidades de temas. Para você, qual o maior desafio que pais e professores enfrentam na formação do leitor nos dias de hoje? Acho que é a concorrência dos meios tecnológicos, em particular das mídias sociais. Não conheço nenhuma pesquisa sobre isso com crianças e adolescentes, sou bem leigo nisso, mas acho que os livros de papel já devem estar perdendo espaço. Espero estar enganado. Aqui em casa, sempre incentivamos a leitura, mesmo sabendo que a força do computador é desproporcional. Quando estamos

numa livraria, sugerimos que nossas filhas façam uma compra. Os pais devem incentivar o tempo todo, conversar sobre a importância da leitura de bons livros. Para mim, a literatura refina a inteligência e o raciocínio, amplia os horizontes e derruba muitas fronteiras. Os livros educam o olhar, para o outro e para o mundo. O que você pensa dos livros digitais para crianças? Bom, este é um assunto complicado para mim. De fato o livro tem esse concorrente de peso agora. Ou talvez o fato de poder inserir livros nele seja uma solução para atingir mais leitores. Felizmente ou infelizmente para mim, pertenço a uma outra geração, que ama o objeto “livro”. Para as crianças, o que eu tenho visto tem mais a consistência de brinquedo do que de livro. São aplicativos. Ainda não me atraiu, mas acredito que deva funcionar bem. Certamente ainda vão achar um justo equilíbrio entre o que é esse objeto com aparência de um livro e o objeto próximo do entretenimento. Não saberia dizer qual o melhor caminho. Por enquanto, ele navega sem se decidir entre essas mutações ou serve apenas como um suporte para a leitura. Agora, o que acho muito interessante relativo à minha área é que agora as editoras buscam investir mais na beleza e criatividade do objeto “livro”. Talvez este seja o verdadeiro caminho para que ele se sobressaia em relação à experiência do digital.

Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Jean-Claude Alphen, que livros teriam nela? Por quê? Gosto muito de Hermann Hesse, Pirandello, Marguerite Yourcenar, Jean Giono, René Barjavel, Tolkien, Frank Herbert, Victor Hugo, Émile Zola, Nikos Kazantzakis, Maurice Druon, Tolstói, Dumas, Eiji Yoshikawa. São tantos autores incríveis que seria quase impossível falar de apenas alguns. O grande prazer da leitura é fazer o tempo todo novas descobertas. Assim sendo, posso falar dos últimos livros que ficaram um bom tempo na cabeceira e que me marcaram: O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, O grande Gatsby de Fitzgerald, O lobo da estepe, de Hesse, A divina comédia, de Dante Alighieri, Matias Pascal, de Pirandello, e Minha querida Sputnik, de Haruki Murakami. Agora, se eu tivesse que falar de um único livro que mudou muito meu ponto de vista sobre a vida, eu mencionaria de Assim falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche. Porque toca fundo em todos os aspectos mais importantes da condição humana. Nem sempre é um livro confortável, principalmente para quem está seguro de suas crenças e verdades. É meio arrasa-quarteirão. É revelador e, todas as vezes que o leio, entendo mais alguma coisa ou não entendo ou entendo de maneira diferente. Acho que ainda vou ter que ler muitas vezes. E é isso que espero de um bom livro; que ele possa ser transformador, que seja literatura de fato.


Karen Acioly

Autora e diretora teatral, com dez livros publicados, recebeu os principais prêmios do teatro para crianças e jovens, entre eles o Prêmio Lúcia Benedetti, o Mambembe, o Sharp, o Coca-Cola, o Maria Clara Machado e o prêmio da Revista Época de melhor programação de teatro infantil da cidade do Rio de Janeiro. Conheça um pouco mais sobre Karen Acioly.

Quem veio primeiro, a diretora teatral ou a escritora? A primeira peça que escrevi originou a primeira peça que dirigi. Tudo junto, em harmonia. E eu nem percebi. Alguns de seus livros são adaptações de suas obras teatrais ou os roteiros é que nascem das histórias? Cada filho é diferente do outro e veio ao mundo por motivos e missões diferentes (risos). Fedegunda, que terá o lançamento na Flipinha (Editora Rocco), será um livro inspirado na obra teatral. Já o Iluminando a História, por exemplo, partiu do teatro, virou livro em prosa e novela radiofônica. Fina surgiu em prosa e depois adaptei para o teatro. A excêntrica família Silva virou roteiro cinamatográfico e era uma opereta. E por aí vai... Qual a principal diferença entre essas narrativas? A linguagem. Fina, por exemplo, virou série para TV, então o mundo da Fina cresceu em possibilidades internas e externas. A literatura cria a existência de uma história: inteligência, clima, imagens, emoções, dinâmicas. Depois de tudo isso, fica mais fácil transpor. As outras linguagens realizam o que já está no imaginário do universo escrito num livro.

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a partir de Nathalia Sá Cavalcante*

Você também dirigiu a maioria de suas peças de teatro. A escritora, a roteirista e a diretora, qual dessas linguagens deixa você mais próxima das crianças e jovens e lhe dá mais elementos na hora de escrever? Ah... essa resposta é moleza, porque escrevo tudo sempre com as crianças por perto (risos). Leio para elas o que escrevo. Ouço atentamente suas opiniões. Anoto as que me tocam fundo na alma e reescrevo, reescrevo até gostar mais e desapegar para lançar o livro. Eu me sinto amiga de infância das crianças e amiga de aventuras dos jovens. Os seus múltiplos olhares no trabalho com crianças e jovens ajudaram no trabalho como diretora artística do FIL — Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens? Sim. É importante abrirmos as múltiplas janelas do pensamento, do imaginário e proporcionar o encontro e o entendimento do que vimos através delas. Essa é a missão do FIL; estimular os encontros criativos, artísticos... potencializar os imaginários, a curiosidade, os intercâmbios. Quais os maiores desafios ao escrever para crianças hoje? O de sempre nos surpreender com o constante novo olhar que as crianças têm da percepção do mundo dinâmico de hoje, do tempo presente.

E qual o maior desafio que pais e professores enfrentam hoje na formação do leitor? Apresentar de forma muito prazerosa e inventiva um mundo maravilhoso de infinitas possibilidades. Você se apresenta como uma “inventora de histórias para livros, peças teatrais e filmes”. Quando nascem as ideias para uma nova história, como você determina a linguagem mais adequada para contá-la? Não há uma receita antes do bolo ficar pronto, pois vou adicionando os ingredientes conforme saboreio. Geralmente, após a conclusão da história, ela vai mostrando suas possibilidades, seus meios de transporte para o imaginário alheio… Mas só vou mesmo saber no final do percurso… quando eu penso: hummm… bem que daria um filme… Pela natureza diversa do teatro e da literatura, é mais fácil acompanhar a reação do espectador a uma peça do que a do leitor a um livro. Quando uma história é sucesso no teatro, você fica mais segura de que será um sucesso no formato de livro? Ou você acredita que a diferença dos suportes pode interferir no sucesso da história? É engraçado o destino de cada história… algumas acontecem rapidamente — com grande sucesso, desde que surgem — como foi com o Tuhu, o menino Villa-Lobos. Outras vêm aos poucos, como foi com Fedegunda… As

reações à Fedegunda são colhidas até hoje, progressivamente… Escuto frases do tipo: “Você não imagina o bem que Fedegunda fez à minha filha. Até hoje ela fala na Fedegunda”… São reações que vêm como “efeito colateral positivo”… Segurança é uma palavra que sobe e desce numa gangorra… Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Karen Acioly, que livros teriam nela? Por quê? Dos infantis atuais: A bússola de ouro, A faca sutil, A luneta âmbar, da trilogia de Philip Pulmann. Das coleções antigas: Contos de fadas, contos de Andersen, toda a obra do Braguinha, Gabriel García Márquez e Clarice Lispector para crianças. Além dos clássicos Lewis Carrol, José Câmara Cascudo, Perrault, só para citar alguns. Dos livros para adultos: O que Sócrates diria a Woody Allen, de José Riviera, O poder do mito, de Joseph Campbell, Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, Maíra, de Darcy Ribeiro, toda a obra do Drummond e do Guimarães Rosa. Além de todas as letras e poesias das canções de Noel Rosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil…


Luiz Raul Machado

Escritor e jornalista, Luiz Raul Machado nasceu no Rio de Janeiro, em 1946. Um dos idealizadores do projeto Ciranda de Livros, com a Fundação Roberto Marinho, é autor de vários livros infantis. Entre eles João Teimoso e Chifre em cabeça de cavalo, vencedor do Prêmio Orígenes Lessa — O Melhor para o Jovem —, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Conheça um pouco mais sobre Luiz Raul Machado.

Você estudou Sociologia e Pedagogia, trabalhou como jornalista e na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil como técnico de LIJ. Essa formação mista, de múltiplos olhares, ajudou na formação do escritor? Por quê? Minha bagunçada formação deve, sim, ter servido para alguma coisa, mas o que acho fundamental para me formar como escritor é ter sido sempre um leitor voraz de tudo o que me caía nas mãos. É ter sido sempre rato de biblioteca, de livraria, de sebo. É sempre estar com livro na cabeceira. É não saber viver sem ler. Você disse, em uma entrevista dada ao Ziraldo, que seu primeiro livro, o João Teimoso, foi escrito após a morte da sua madrinha, ou seja, nasceu de uma história real da sua vida. Me parece que ele foi escrito enquanto ia sendo contado a algumas pessoas próximas a você. Você costuma usar as suas histórias pessoais para criar seus livros?

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a partir de Marilda Castanha*

Como nascem as suas histórias? Tudo é bagagem. A infância volta aos pedaços quando se escreve para os pequenos. Mas histórias nascem de qualquer coisa. Sylvia Orthof dizia que elas são como as flores marias-sem-vergonha: surgem em qualquer lugar e a qualquer hora. Uma notícia de jornal, um poema, uma palavra esdrúxula, uma pergunta de criança: tudo é pretexto para o texto. Me disseram que você é um guardador de papéis compulsivo, e que o maior desafio é fazê-lo tirar um texto da gaveta para virar livro. Essa exigência com seus textos está ligada ao seu lado editor? Eu sempre achei intuitivamente que os textos requerem um tempo de gaveta (ou banho-maria) para serem revisitados com outro olhar, distante do calor da criação, mais crítico. Não se pode publicar qualquer coisa. Andersen já dizia: para a criança, o melhor.

Quando você está do outro lado da mesa, como editor, o que acha mais importante numa obra de LIJ? Qualidade, originalidade e um sopro de emoção. Ainda hoje, você escreve à mão. O que você pensa dos livros digitais para crianças e jovens? Nunca achei que houvesse “vilões” contra a leitura. No meu tempo de criança eram as histórias em quadrinhos, depois a televisão, hoje são os games e a internet. Acho que tudo pode somar. Grandes leitores começaram lendo HQ. Grandes escritores se exercitam no teclado do computador. E a leitura continua aí, em suportes diferentes. O importante é a celebração da palavra.

Para você, qual o maior desafio que pais e professores enfrentam na formação do leitor nos dias de hoje? É bom que pais e professores, antes de tudo, sejam leitores. O professor só contagia sua turma com o “vírus” da leitura se ele mesmo for portador da paixão pelos livros. Se a casa tem um cantinho onde os livros moram para serem visitados a qualquer hora, se a escola tem uma biblioteca viva, variada e atualizada, então, é meio caminho andado. Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Luiz Raul Machado, com os livros que mais marcaram sua história, que obras encontraríamos? Por quê? Poesia, poesia, poesia para alimentar bem a alma. Drummond, Pessoa, Bandeira. Cecília, Cora, Adélia. Quintana, Cabral, Manoel de Barros. Um Lobato para me ensinar como se faz.


Mariana Massarani

Ilustradora de mais de 150 obras, 11 das quais também escreveu, recebeu quatro prêmios Jabuti de ilustração. Conheça um pouco mais sobre Mariana Massarani.

Como surgiu o desejo de trabalhar com imagens? Desde de criança gostava demais de desenhar. Rabiscava o tempo todo, vendo TV, durante as aulas, nas paredes, em qualquer lugar mesmo. Cursei Desenho Industrial e acabei no MAM, aprendendo gravura em metal e serigrafia. Pensei em ser gravadora, mas o que achava bacana mesmo era aplicar os desenhos em produtos. E um deles, o meu preferido, era o livro. Você também trabalhou durante treze anos num jornal e disse, em uma entrevista, que quase tinha que fazer mágica para inventar bem rápido muitos desenhos. Como foi essa experiência? De que forma o trabalho em um veículo diário modificou sua forma de lidar com o desenho. Foi a minha verdadeira escola. Eram vários ilustradores numa sala, a gente aprende muito vendo os outros trabalharem. A improvisação e a adrenalina viraram um prazer. Adoro bolar desenhos bem rápido. Éramos como socorristas do desenho.

Você usa diversas técnicas em seus trabalhos de ilustração, como o desenho, a pintura e a colagem. Você acredita que essa mistura deixa suas ilustrações mais próximas do leitor? Por quê? Não, a técnica não influi na empatia do desenho com os leitores. O ilustrador pode ter um trabalho com uma técnica incrível, quase um Rembrandt e o trabalho não ter alma nenhuma, zero de borogodó.

Para você, qual a principal diferença entre as histórias contadas com palavras e as histórias contadas com imagens? Nenhuma! Uma história é sempre uma história. E não querendo puxar a brasa para minha sardinha, o texto veio do desenho.

Nos projetos em que texto e imagens são assinados por você, como normalmente nasce a história: pelo texto ou pelas imagens? Isso é uma regra? Primeiro bolo tudo desenhando, depois vem o texto. Além de escrever e ilustrar livros, você desenvolveu imagens para o musical A casa de Ruth (canções compostas por Hélio Ziskind sobre poemas de Ruth Rocha) e ilustrou a camiseta do Carnaval 2011 do bloco infantil Gigantes da Lira. Para você, qual projeto foi mais desafiador? Por quê? Esses todos foram moleza. Que felicidade chegar num bloco com todo mundo usando a camiseta com meu desenho! O mais desafiador, instigante, até agora: os livros-brinquedos para iPad. Um trabalho multidisciplinar com uma equipe legal demais. Uma felicidade mesmo e, como tudo ainda é novidade nesta área, é como pousar na Lua! Que artistas influenciaram o seu trabalho? Eu gosto de um monte de gente, como Picasso, Matisse, Dufy, Guignard, David Hockney e as pinturas do antigo Egito. E hoje fico pasmada com o Roger Mello, Andrés Sandoval, Geraldo Valério, Beatrice Alemagna e Kitty Crowther.

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a partir de Mariana Massarani*

Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Mariana Massarani, que livros teriam nela? Por quê? Caramba! Acho que o Mania de explicação e o Toda criança gosta, por causa do texto e pelo prazer que me deram na hora de ilustrar. Os livros que nunca canso de ler são o do Salinger, Nove estórias, os da Jane Austen (já li umas dez vezes cada um), as Cartas da Elizabeth Bishop e o livro de contos dela. Truman Capote! Também amo qualquer um sobre viagens, como os do Richard Burton. Há pouco tempo comprei um sobre os exploradores da Royal Geographical Society. Sempre tenho livros para crianças que garimpo na Amazon. Acabei de comprar vários ilustrados pelo Quentin Blake e dois do Planeta Tangerina: O rapaz que gostava muito de aves e A ilha. Todo livro que sai do Agualusa não me escapa. Acabei de ler o melhor dele até hoje, que é o Teoria geral do esquecimento. Traço também todos do Pepetela e do Ondjaki. E os contos da Isak Dinesen, John Cheever, F. O’Connor! Outro que não sai da mesa de cabeceira é Minha vida de menina, de Helena Morley.


Meton Joffily

Ilustrador e animador, seus filmes foram exibidos na Mostra Especial Anima Mundi de Filmes Brasileiros, exibida em diversos países, como Portugal, França, Suíça, Itália, Grécia, Rússia, Eslováquia, México, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Colômbia, Peru, Argentina, Coreia, China e Gana. Conheça um pouco mais sobre Meton Joffily.

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Como foi o menino Meton? Desenhava nas paredes da sala de casa? Sempre soube que habitaria no mundo das imagens? Sim! Na verdade, eu já habitava o mundo das imagens, e ao longo do caminho foi ficando claro que era isso mesmo que eu queria para o meu futuro. Minha maior sorte foi ter muito apoio da minha mãe, lembro de ela comprar os sprays quando eu tive vontade de desenhar nas paredes do meu quarto. Eu tinha várias brincadeiras: desenhava monstros e dinossauros, criava HQs cheias de tragédias e sangue, com um humor negro surreal, também fazia histórias de terror supermacabras. Na escola, fazia caricaturas dos colegas e professores, além de flipbooks nos livros didáticos. Até desenhos eróticos com as fantasias que vinham na cabeça.

Meton por Meton: “Me jogo na água, canto, danço, desenho, pinto, grafito, animo, ando em lugares e conto histórias do que fiz depois...”. Sua maneira de viver é o retrato da sua obra? É no seu dia a dia que você encontra inspiração para suas criações? Atualmente estou trabalhando muito, e a inspiração tem que vir de dentro, mas tudo que vivi está lá de uma forma. Eu me inspiro muito na rua, no Rio de Janeiro, na natureza, em outros artistas, é muito importante estar constantemente me alimentando dessas fontes. O meu estilo de vida repercute na minha arte, e vice-versa. Por isso eu tenho a maioria das roupas sujas de tinta e levo sempre um caderno de desenhos junto comigo, para registrar ideias, extrair personagens e cenários que observo na vida.

O que o curso de Comunicação Visual da PUC trouxe de mais valioso para você? O que eu recebi de mais valioso foi conhecer pessoas e passar por experiên­cias que ampliaram muito a minha visão. Logo no primeiro projeto, a Ana Branco deu uma chacoalhada na cabeça dos calouros, fiz o projeto no Instituto Santa Lúcia, em uma aula de bordado para deficientes mentais, foi uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida. E no decorrer do curso, como eu já estava certo do que queria, minha postura diante dele foi buscar conciliar os trabalhos com as minhas áreas de interesse, provocando resultados superpositivos. Os curtas de animação que eu fiz na época foram todos potencializados pelas matérias que eu escolhi.

Você é sócio do estúdio Mimo. Em seu site, vocês dizem que “fabricam mundos”. Fabricar mundos, a partir das imagens, é a sua maneira de contar histórias? Fabricar mundos é o nosso negócio, nós trabalhamos muito com a imaginação, começamos pelas ideias, se ela não existe ainda, nós mesmos somos encarregados de criá-las. A partir dessa base conceitual, desenvolvemos as narrativas utilizando o desenho como principal ferramenta. Os primeiros desenhos podem ser rabiscos que aos poucos vão ganhando a sensação das ideias que imaginamos. Usamos “n” formas para chegar às imagens que queremos, cada caso vai pedir uma linguagem que potencialize a história. Uma imagem bem-

a partir de Meton Jofilly*

-sucedida é resultado desse processo. E uma narrativa visual bem-sucedida é aquela em que todas as imagens colaboram para dar vida a uma história. Para você, qual a principal diferença entre as histórias contadas com palavras e as histórias contadas com imagens? Na história contada por palavras, as imagens existem apenas na cabeça da pessoa que absorve a história. No caso de uma história contada com imagens, temos a responsabilidade de fazer essa interpretação para o público. As imagens como elementos narrativos não devem ser apenas bonitas, mas devem ser “lidas”, precisam ser convincentes dentro desse contexto, passar emoção, vida! É importante deixar alguma coisa para ser descoberta, algum mistério para que o público possa usar sua imaginação para revelar. Você transformou o longa Histórias de amor duram apenas 90 minutos, do Paulo Halm, em animação, e o “Poema Sujo”, do Ferreira Gullar, em painéis de ambientação usando o grafite. Seus filmes foram exibidos na Mostra Especial Anima Mundi de Filmes Brasileiros em diversos países, como Portugal, França, Suíça, Itália, Grécia, Rússia, Eslováquia, México, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Colômbia, Peru, Argentina, Coreia, China e Gana. Ao mesmo tempo, você ilustrou com o Igor Machado, seu sócio, três livros da série 7 Mares, como O Pescador de Naufrágios e A Nau Catarineta. Qual

a principal diferença entre essas técnicas? Na sua opinião, o que um artista precisa ter para trabalhar com grafites e com animação? As técnicas, e as formas de trabalhá-las, geram uma linguagem única. No caso da animação que aparece no filme de Paulo Halm, ele próprio já tinha a referência: Sin City, de Frank Miller, usei a mesma linguagem e técnica da HQ (nanquim). No caso do “Poema Sujo”, escolhemos os materiais para pintar uma escala maior, permitindo também trabalhar a temática com escorridos de tinta e traços com pincel seco que trazem à tona sensações que o poema de Ferreira Gullar nos trouxe. O artista que vai ter êxito em grandes formatos com grafite, ou em sucessivos desenhos para criar uma animação, antes de tudo, deve dominar o desenho na sua forma mais comum: papel, lápis e borracha. Só a partir daí ele vai conseguir expandir para essas formas mais complexas, que vão exigir muita prática. No caso do grafite, o importante é a atitude, ir para longe da pintura para realmente ver o que está fazendo e pegar as “manhas” do spray ou do material que escolher. Já na animação, é preciso estudar, com­preender os princípios que regem essa arte desde os anos 1940, e como ela acontece no tempo, é preciso captar o público e manter seu interesse.

Você tem um projeto chamado Tá Ligado no Movimento?, que fala sobre um menino que faz malabares num sinal e sobre a sociedade consumista em que vivemos. Ele foi originalmente pensado para ser animação, mas se desdobrou em um projeto multiplataformas, misturando grafite com animação. Qual o principal desafio desse projeto? O principal desafio é conseguir contar bem essa história através de uma mistura de técnicas. Esse projeto vem se adaptando ao longo de anos, é muito difícil conseguir reunir a verba necessária para contar toda a trajetória do personagem, além da temática undeground assustar os patrocinadores. Esse lado pesado tem a ver com o personagem Ratones, cujo papel é instigar Zinho a querer mudar de vida a qualquer custo, também é minha forma de criticar o sistema em que vivemos. O Tá Ligado no Movimento? é uma saga que acompanha o personagem Zinho até a velhice. Daí vem o nome do projeto, o movimento da vida do personagem, que passa pelo “movimento”, que na gíria dos morros é o tráfico de drogas, e também está relacionado com o movimento da animação. O “tá ligado” tem o papel de chamar atenção para a questão do abandono infantil que ainda é sentido no Rio, e busca revelar as ligações entre esse problema e a violência urbana, as drogas, a inocência e a corrupção.

Se você pudesse ocupar os muros da cidade do Rio de Janeiro com as imagens desse projeto, por onde começaria? O Jóquei e a Hípica são sensacionais, pois têm muita visibilidade. Eu tenho grafites nesses muros, mas imagine ocupá-los inteiros contando essa história! Também gosto da ideia de espalhar as cenas de acordo com a localização de cada muro, na Praia do Diabo ou em uma pilastra, em parceria com o Profeta Gentileza? Isso muda tudo. Quem faz grafite sabe e valoriza uma boa escolha de lugar e a interação que rola entre esses elementos. Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Meton Joffily, que livros teriam nela? Por quê? Uma biblioteca Meton? Teria livros com ilustrações fantásticas, como as de Gustave Doré, em Dom Quixote e A divina comédia, muitos quadrinhos e mangás, de mestres como Alan Moore e Osamu Tezuka. Livros que evocam imagens e emoções, como O retrato de Dorian Gray, O admirável mundo novo e Musashi, também teriam o seu lugar. O Rio é assim e Capitães de areia, livros que tiveram influên­cia no Tá Ligado no Movimento? ficariam juntamente com a “bíblia do projeto”… E já que é para imaginar, essa mesa bem que poderia ter um galho que sai dela, de onde brotariam sempre livros novos, como os que eu já estou pensando em ler, os que eu preciso ler, os que seriam boas referências… E obviamente todos os livros que fizemos no Mimo, como o mais recente, a versão em quadrinhos de La balada de Johnny Sosa, e ainda todos os títulos que vamos fazer!


Mirna Pinsky

Jornalista com mestrado em Teoria Literária, a escritora Mirna Pinsky tem hoje quase 50 livros publicados (entre infantis e juvenis), com um total de mais de 3,8 milhões de exemplares vendidos. Recebeu vários prêmios de poesia, crônica e contos, entre eles um INL (1982) e dois Jabuti (1981 e 1995). Três títulos seus foram publicados fora do Brasil. Conheça um pouco mais sobre Mirna Pinsky.

Quando a Mirna descobriu que havia uma escritora na jornalista ou que havia uma jornalista na escritora? O fascínio pela palavra escrita surgiu em mim aos 6, 7 anos, quando me apaixonei pelas histórias que os livros traziam. Aos 8 anos comecei um diário que tenho guardado até hoje, e aos 11, a lápis em papel pautado, ousei uma novela. Cheguei a redigir umas 50 páginas! Aos 13 anos escrevia poemas, o que fiz assídua e continua­ mente até minha filha mais velha ter idade para ouvir histórias. Comecei então a rabiscar contos para ela. Antes disso, cursei a faculdade de Jornalismo porque me parecia a profissão mais condizente com alguém que gostava de escrever. Mas nunca me apaixonei pela carreira. O “clima” de editoras de livros tinha muito mais a ver comigo do que a urgência de redações de jornais/revistas. A jornalista e a escritora ainda deram a oportunidade para uma terceira Mirna, a editora. Como foi essa troca de papéis? Você acredita que o trabalho como editora lapidou seu olhar e sua forma de escrever?

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a partir de Andréa Ramos*

Sim, acho que minha experiência em editoras foi fundamental para aprimorar a qualidade do meu texto. Mas não creio que tenha interferido no meu olhar. O olhar é uma construção mais antiga e muito complexa, que mobiliza toda uma experiência de vida, forma de ser, embates, aconchegos e alianças com o entorno. Eu diria, por exemplo, que ao passar de “mãe” para “avó”, meu “sentir a criança” se modificou em face de tudo que fui incorporando no entretempo. E minhas histórias incorporaram esses ganhos. O jornalista conta uma história, mas precisa manter sempre o compromisso com o fato, com a verdade. O escritor, por outro lado, pode dar asas à imaginação e criar fatos, verdades. Já o editor precisa ter olhar crítico e atento, além de muita sensibilidade na hora de escolher um título para publicar. Qual desses papéis traduz melhor a Mirna? Por quê? Gostei e gosto muito de trabalhar em cima do texto de outros. É desafiador e exige um conhecimento e compromisso com a escrita correta, domínio da ortografia, sintaxe, concordância. Além de alargar meus horizontes com temas que desconhecia ou conhecia pouco. Mas criar é outra coisa, envolve outras ferramentas, mobiliza outras instâncias. Criar é lúdico, aparentado com o brincar da criança que no adulto muda de nome e redireciona sinapses. E mobiliza vivências em todas as direções. Além de ser muito, mas muuuuito mais divertido!

Em 2002, você criou o projeto Escreva Comigo que visa estimular a aproximação do aluno de escolas públicas com livros, leitura e escrita. E desde 2004 desenvolve o projeto Ler com Prazer, um projeto de alfabetização, com o objetivo de auxiliar crianças da rede oficial com problemas em letramento. Em que momento surgiu o desejo de desenvolver esse trabalho com a área de educação? Quem mais influenciou essa iniciativa: a Mirna jornalista, a escritora ou a editora? Sua mãe foi uma professora comprometida com sua missão: isso também influenciou você no engajamento com a educação? Desde sempre escrevi para crianças e jovens respaldada na ideia de que histórias atraentes e bem escritas criam automaticamente pencas de leitores. Pois se fora lendo e me apaixonando pelos livros que cheguei ao ponto de me embrenhar na escrita, assim seria com os outros. Com maior disponibilidade de vida, em 2002 submeti à Diretoria de Ensino — Regional Sul 1, rede estadual, uma proposta voluntária de visitar alunos de 4ª série e escrever histórias com eles. Imaginava que seria uma atividade divertida e profícua para as crianças. Não imaginava que encontraria as tais classes de recuperação de ciclo, 4 as séries com 25, 30 alunos ainda em estágio pré-silábico.

Revisei então minhas concepções sobre papel social e resolvi alargar meu “compromisso”. Realmente não bastava escrever histórias interessantes para formar leitores. O buraco era mais embaixo e talvez eu pudesse intervir ali. Com a parceria de uma pedagoga de larga experiência em alfabetização e formação de alfabetizadores, Lena Bartman, criei e viabilizei um trabalho na direção de auxiliar crianças com defasagem no letramento. Certamente a figura de minha mãe, professora primária da rede estadual, foi uma inspiração para mim. Na época dela, nenhuma criança sem comprometimento passava da 1ª para 2ª série sem saber ler. Você publicou seu primeiro livro para crianças em 1978. Hoje tem 45 livros publicados (entre infantis e juvenis), vários prêmios de poesia, crônica e contos, entre eles um INL (1982) e dois Jabuti (1981 e 1995). Três títulos seus foram publicados fora do Brasil e aqui são mais de 3,8 milhões de exemplares vendidos. Mas você ainda atua como editora, não é?! Como é avaliar a obra de outros colegas de profissão? Fica mais fácil ou mais difícil a escolha dos títulos? Atualmente sou freelance de editoras: faço traduções e copidesque para elas. Quando trabalhava dentro das empresas, fazia coordenação editorial. Não era responsável pela escolha dos títulos.

Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Mirna Pinsky, que livros teria nela? Por quê? Foram incontáveis os livros que me encantaram ao longo da vida. Elenquei uma dúzia, para ficar num número redondo, mas certamente ultrapassaram a casa dos cem. Eis a lista: Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato; As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain; O apanhador no campo de centeio, de J. P. Salinger; Os Maias, de Eça de Queiroz; A legião estrangeira, Clarice Lispector; O quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell; Conversas na Catedral e Tia Júlia e o escrevinhador, de Mario Vargas Llosa; A caixa preta, de Amos Oz; Os papéis de Aspern, de Henry James; O bom soldado, de Ford Madox Ford; As brasas, de Sandor Márai. Mas a verdade é que, para mim, o encanto da primeira leitura não se repete, por isso minha cabeceira está aberta para os novos achados. Foi assim que encontrei Herzog, de Saul Bellow; Olhinhos de gato, de Margaret Artwood; Fazes-me falta, de Inês Pedrosa; No one belongs here more than you, de Miranda July; Open cities, de Alice Munro etc. etc. etc.

Voltando ao ponto de partida: eu penso que é na infância que se aprende a voar e se ensaia os primeiros voos de autonomia. E o domínio da leitura e da escrita é o passe para que os voos sejam mais ambiciosos e a autonomia, mais ampla.


Ninfa Parreiras Quando a Ninfa descobriu que havia uma escritora na psicanalista ou que havia uma psicanalista na escritora? A escritora e a psicanalista andam juntas há muito tempo: são pessoas minhas. Sinto que a minha vida é o curso de um rio, que o tempo ajuda a fazer o caminho, o desenho, as curvas, as quedas. Sigo esse curso de acordo com o que gosto, o que acredito. Gosto de ouvir, gosto de ler, gosto de escrever. Preciso disso. Nunca planejei ser escritora, nem fazia parte dos meus planos. Escrevia muito e demorei a abrir as gavetas e compartilhar os textos. Até hoje isso acontece: o que é publicado em livro ou postado nos blogs é bem menos do que o que crio. Em relação à psicanálise, sim, era meu sonho atender as pessoas, tentar ajudá-las. Fazer isso com o envolvimento da palavra e da escuta (dois instrumentos da psicanálise) foi o encontro com algo que faz todo sentido para mim. Então, no final das contas, ser psicanalista, ser escritora: é tudo a mesma coisa. A gente pode escrever com o olhar, o sentir, o calar: é a linguagem não verbal, com a qual costumo trabalhar. E ainda há coisas que faço e vão ocupando mais ou menos espaço na minha vida: fotografar, cozinhar, viajar... Tudo isso se comunica com o fazer literário e o clínico. É nossa subjetividade! Seu pai escrevia diariamente crônicas, poemas e contos para publicar em diferentes jornais em Minas Gerais. Você acredita que esse ambiente familiar influenciou sua formação literária? Na sua opinião, o ambiente familiar

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a partir de Andrea Ebert*

Professora, psicanalista e consultora de programas de leitura, tem mais de dez obras publicadas para crianças e jovens, e cinco obras de ensaios sobre literatura e psicanálise para adultos, além de textos publicados em jornais e revistas, no Brasil e em outros países. Foi bolsista da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, Alemanha, com pesquisa sobre o desamparo na literatura. Conheça um pouco mais sobre Ninfa Parreiras.

ajuda na formação do leitor? Qual o papel da escola nesse processo? Eu gostava de acompanhar a produção do meu pai: ouvir o datilografar, ver o texto publicado no jornal, apreciar a leitura que ele fazia de um inédito. Sem nomear, sabia que uma crônica era diferente de um poema. E o que eu mais gostava era de ouvir os casos, as conversas, as histórias da gente da roça... O ambiente familiar pode ajudar na formação do leitor sim. Na minha cidade, não havia livrarias. Havia uma biblioteca pública e as bibliotecas das escolas. Na minha casa, a gente tinha contato com a palavra falada, escrita, lida. Isso me encantava. Talvez não tenha encantado meus irmãos como encantou a mim. Trabalho com a palavra. A escola tem um papel importantíssimo na formação do leitor, pois ela vai ampliar o que a família iniciou. Ou vai abrir caminhos para a criança e o adolescente que ainda não puderam ter contato com a literatura. A família e a escola são as responsáveis pela iniciação leitora de uma criança.

lixeira, e ela me pediu para ser escrita: brotava dali uma história.” Esse é o seu processo de escrita? Esse processo tem relação com a sua formação em Psicanálise? Esses dois papéis se misturam no momento em que nasce uma história? Esse é o meu processo de escrita sim. Tem mais a ver com a minha formação familiar. Tive uma avó que seria hoje uma especialista em sustentabilidade. Na sua casa, as coisas não eram jogadas fora: se transformavam em outras. Minha mãe também fazia isso na nossa casa, com quintal, criação de bichos, pomar, jardins. A psicanálise chega na minha criação de textos quando eu me embrenho no silêncio, na escuta. Chega quando o momento pede a solidão, o isolamento. Os papéis não se misturam, não gosto de anotar nada que escuto num atendimento clínico. E quando escrevo, deixo a história chegar. Na verdade, na psicanálise, a gente trabalha pela mudança. E na literatura também, nem que seja a mudança de página.

Em Munique, pude conhecer centenas de livros escritos em línguas diferentes, publicados em países variados que apresentavam o desamparo. O que mudava eram os sotaques, a vestimenta, as línguas. No fundo de cada história (pesquisei em prosa), o desamparo estava lá: no texto, nas ilustrações. O desamparo é a grande marca da infância. E da literatura. Basta a gente pensar nos contos de fadas...

simo, mas o meu prazer é ir lá quando tenho desejo. E o leitor também deve ir lá quando tem desejo. Já temos tantas obrigações na vida, para que mais uma com a leitura? Não sei precisar o resultado dos blogs, justamente porque faço isso por entretenimento. Ponho lá um poema para um amigo que mora longe, para uma amiga que não tenho como ajudar de perto, para crianças que leram um livro meu…

Você tem um blog onde posta versos acompanhados de fotografias, o Blog da Ninfa (ninfaparreiras.blogspot.com.br), e posta resenhas e crônicas no Blog Canto Crônica (cantocro-

“Tenho um sonho, escuto uma fala, vejo uma cena, aquilo me acompanha. Não sai de mim. Chega a me perseguir. Começo a escrever e um processo de mexer nas palavras se instala e pode durar anos. Nesse exercício, me sinto aliviada. Quando os textos ficam prontos, há alguns que ficarão guardados, outros eu retomo com revisões, e poucos seleciono para publicar. Muitas vezes, abandono o texto, esqueço que ele existe (nos cadernos, manuscritos, no computador). Já aconteceu de eu encontrar uma fotografia numa

Você foi bolsista da Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, na Alemanha, com uma pesquisa sobre o desamparo na literatura. Poderia resumir em algumas palavras o tema de sua pesquisa? O desamparo é um dos sentimentos inaugurais dos afetos na infância. A criança vive o desamparo, assim como o adulto o vive a seu modo. Então, o desamparo deveria estar na literatura destinada à infância, pois a literatura é feita de nossas faltas, nossos vazios.

Para você, o blog hoje é uma ferramenta eficaz para se comunicar com o leitor? Quais os principais resultados desse trabalho? Sim, o blog pode ser um veículo de comunicação para o leitor, para quem pesquisa, busca mais informações. É mais uma ferramenta. Também para o leigo, que não costuma ler. E de repente, ele pode descobrir algo relacionado à literatura que lhe agrada. Posto nos blogs sem nenhuma rigidez. Tenho um blog em que posto pouquís-

Você tem um livro intitulado Do ventre ao colo, do som à literatura — livros para bebês e crianças. Na sua opinião, o que deve ter num livro para bebês? Como acessar o imaginário deles? Qual a principal diferença entre livros para bebês e livros para o pré-leitor? Um livro para bebês deve ter textos com sonoridades, com poesia, e imagens instigantes. Não deve ser como uma boate cheia de luzes, de sons, de coisas para fazer. O bebê precisa conviver também com vazios e silêncios. Com pouco. Para acessar o imaginário dos bebês, devemos resgatar os ritmos, as melodias, os embalos, os jogos de esconde-esconde: a brincadeira que encanta os pequenos. Os livros para bebês podem ser os mesmos para o pré-leitor. Tenho dificuldade em lidar com faixa etária, porque o livro não é um remédio que vem acompanhado de bula, posologia e data de nascimento. Gosto de fazer a diferença entre livro e literatura: nem tudo que está publicado em livro é literatura. Precisa de trabalho estético com a palavra, com a musicalidade dela. E trabalho estético com a imagem,

nica.blogspot.com.br). Além disso, coordena o Blog Encontros Novo Nicho pra Santa, especialmente sobre atividades desenvolvidas na Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro (encontrosnovonichosanta.blogspot.com.br).

que avance as linhas dos textos e não se prenda ao que está escrito. A ilustração não pode ser uma mera legenda do escrito. Ela deve trazer outros elementos, outros olhares, o deslocamento dos sentimentos. Então, um livro para o pré-leitor, para o bebê, pode ser um livro de poemas do Drummond. E por que não? Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca, Ninfa Parreiras, que livros teriam nela? Por quê? Poucos livros. Cada vez, percebo que devemos enxugar as nossas ambições, os nossos planos. É no miudinho, é no pouco que a gente vive bem. Teria alguns livros de poesia (de autores clássicos, coisas do Fernando Pessoa, do Rainer Maria Rilke; e também alguns de contemporâneos: Mário Quintana, Adélia Prado, Bartolomeu Campos de Queirós). E aquela poesia que vem em parágrafos, como a que o Guimarães Rosa escreveu, o Graciliano Ramos, o Milton Hatoum, o Orhan Pamuk, a Lygia Bojunga. Para citar alguns preferidos. Na verdade, já tenho uma pequena biblioteca na cabeceira da minha cama. Vez ou outra, entra um livro diferente e sai um para a estante. Além de poesia, há um de ensaios de psicanálise (Winnicott, Freud ou Ferenczi). Ou de filosofia, como algum do Giorgio Agamben. E algo que me surpreende pela edição ou pela tradução (pode ser antiga). Vamos ver se tem um livro lá na estante que pede para ir para a cabeceira…


Olívio Jekupé

Olívio Jekupé nasceu no Paraná, estudou Filosofia e é presidente da Associação Nhe’e Porá na aldeia Krukutu, no estado de São Paulo, onde mora com sua família. Autor de livros infantis e juvenis, viaja pelo Brasil e pelo exterior divulgando a cultura guarani. Conheça um pouco mais sobre Olívio Jekupé.

Você se intitula um “escritor de literatura nativa”. Sim, eu me intitulo como escritor de literatura nativa. Criei essa teoria porque comecei a ver que nós, índios, não somos escritores de literatura indígena, e sim dessa literatura de que falo. Comecei a refletir que nossa escrita vem direto de nós, do pensamento do nosso povo, e não de ideias de fora. Por isso, se nós somos um povo nativo, então nossa literatura tem que ser nativa também. Pois nós aqui na aldeia aprendemos muitas histórias. Por isso o escritor indígena tem que conhecer o seu povo, caso contrário, não pode escrever uma literatura que não seja nativa. Para você, qual a principal característica dessa cultura nativa? Que elementos ela possui, no diálogo com as crianças, que se diferencia da literatura brasileira contemporânea? Primeiramente as crianças, além de conhecer nossas histórias, poderão ver que nós, índios, também somos capazes de escrever. As crianças poderão conhecer diversas histórias que falam muito de animais, da floresta, dos pássaros, dos rios, da importância que nós índios temos com a natureza, dos valores

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a partir de Fernando Vilela*

e respeito aos grandes sábios etc. E são histórias que mostrarão como é aquele povo, isto é, quem é guarani, escreve na visão guarani; quem é xavante, escreve na visão dele, e assim por diante. Pois no Brasil a gente vê que o povo não consegue diferenciar os povos indígenas e por isso pensa que tudo é igual, e não somos. Por isso a literatura nativa tem que escrever de maneira que as crianças entendam melhor as etnias. Você mora em na aldeia Krukutu, na região de Parelheiros, em São Paulo. Por que optou por isso? Essa convivência diária com pessoas que carregam os mesmos valores que você influencia o seu olhar do mundo? Sim, eu moro na aldeia Krukutu, uma comunidade de 300 pessoas, a língua é o guarani e toda a cultura é guarani. Bom, eu moro na aldeia e gosto muito, e muitos acham engraçado, acham que eu devia morar na cidade, por ser um escritor e por ter estudado. Primeiro, eu estudei com essa intenção, para ter conhecimento e lutar em defesa do nosso povo. Sei que tem muitos índios no Brasil que se formam, mas nunca vão morar numa aldeia, pois seu costume é com o povo da cidade. Como moro na aldeia, sou casado com uma guarani e tenho cinco filhos. Todos moram na aldeia, falam e escrevem em guarani. Lutar em defesa do seu próprio ser começa direto com você, por isso é que acredito que temos que seguir nossas raízes, na teoria e na prática.

Você acredita que viver em uma grande cidade poderia transformar o seu olhar sobre suas raízes culturais? No momento, não sonho em morar na cidade, pois estou acostumado com essa vida de aldeia. Mas gosto de ir para passear, pois tem muitas coisas que podem ser vistas. Quando um índio mora na cidade (sei que, por um lado, é bom), culturalmente ele perde muitas coisas, muitos casam com mulheres da cidade e seus filhos aprendem o português. Por não viverem na aldeia, muitas coisas deixarão de aprender, como a língua, a religião, a fazer uma casa tradicional, a caçar, a viver no meio da floresta, a fazer artesanatos, a seguir os costumes do dia a dia. Sei que na cidade tem grandes bibliotecas e que podem ler sobre suas raízes, mas sei que ler não é mesma coisa que viver no dia a dia. Você começou a escrever em 1984, primeiro com poemas, depois romance, e mais tarde contos, sempre sobre a questão indígena. Como surgiu a necessidade de escrever? Sim, comecei a escrever em 1984, mas naquela época eu nunca tinha ouvido falar se tinha algum índio escritor, mas eu acreditava que seria interessante que nós, índios, escrevêssemos também. Mas eu sempre dizia que nós, índios, somos escritores, porque, desde o passado, sempre contamos histórias orais, e isso é o dom de um verdadeiro escritor. Ele apenas não sabia ler e escrever. Naquela época, eu gostava muito de ler e percebi que podia escrever também, por isso comecei e nunca mais deixei de escrever. Mas o

que me fez escrever foi que sempre via alguma matéria na imprensa, televisão e jornais, em que os problemas índigenas no Brasil eram mostrados, invasão de terras por sem terras ou por fazendeiros, muitas vezes com índios sendo assassinados, crianças morrendo de fome, índias sendo estupradas, e isso me deixava revoltado. Por isso, comecei a escrever só sobre assuntos críticos, mas não conseguia publicar. Aí comecei a pensar em escrever literatura infantil, e estou escrevendo mais nessa área, mas os textos críticos, espero que um dia eu consiga publicar também. É preciso que a sociedade saiba mais sobre os povos indígenas — como, por exemplo, nossos parentes guarani kaiowa, que sofrem muito, e diversas pessoas hoje sabem disso graças à internet, ao Facebook. Por isso é interessante que os professores tentem questionar mais a questão dos problemas indígenas no Brasil. Muitos pensam que o dia a dia é um paraíso. Você é presidente da Associação Nhe’e Porã, da sua aldeia, foi estudante de Filosofia na USP e é um dos membros do Nearin (Núcleo dos Escritores e Artistas Índigenas). Para você, qual o maior desafio que a literatura nativa enfrenta nos dias de hoje? Sim, sou presidente dessa associação, e através dela lutamos pelos nossos direitos. Como estudei Filosofia na USP, aprendi bastante e o conheci-

mento ajuda muito na defesa do nosso povo. Também faço parte do Nearin desde o primeiro encontro, em 2004, na cidade do Rio de Janeiro, no evento da FNLIJ, com apoio especialmente da Beth Serra, graças a ela, o Nearin existe e podemos estar lá todos os anos e falar com muitos professores. O maior desafio da literatura nativa é tentar mostrar ao povo brasileiro que nossos livros são importantes não só para nós, mas para todos os brasileiros também. Sei que é difícil, mas temos que mostrar nossa cara através da literatura nativa escrita por nós mesmos. E um de nossos desafios é mostrar uma boa história, para que a sociedade possa nos valorizar mais; e que através de nossa escrita, a sociedade diminua o preconceito que tem contra nós, e muitas vezes por falta de conhecimento, mas agora poderão nos conhecer... Você tem algum grande ídolo na literatura? Sim, dois grandes escritores me influenciaram muito quando era novo. São eles: Jorge Amado e Leonardo Boff. Já como ídolo, tenho um grande líder, Ailton Krenak, um grande homem de história oral. Sempre aprendi com ele, ouvindo o que falava e lendo suas entrevistas em jornais e revistas. Quero dizer que hoje meu ídolo também é meu filho, Jeguaka Mirim, que aos 8 anos começou a escrever e agora não para mais. Tem coisa melhor do que ter seu próprio filho como ídolo?

Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Olívio Jekupé, com os livros que mais marcaram a sua vida, que obras teriam nela? Por quê? Se eu pudesse, gostaria de ter o livro de Jorge Amado, Capitães da areia. Foi um livro que me emocionou muito quando eu era garoto e o li pela primeira vez. Até hoje me emociono quando lembro, porque volto ao passado, que foi muito bom... É um dos melhores livros em minha mente, pois mostra a realidade de uma forma fácil de entender... E também Papillon, um livro francês que li quando era garoto. Mas os autores que me levaram a entender que eu era escritor e me influenciaram muito foram Jorge Amado e Leonardo Boff, pois quando eu era garoto, gostava muito de ler as obras dos dois...


Regina Machado

Para a contadora de histórias Regina Machado, as narrativas servem para hidratar a alma. Formada em Ciência Sociais pela USP, é idealizadora do Boca do Céu, encontro internacional de contadores de histórias. Conheça um pouco mais sobre Regina Machado.

Você vem de uma família leitora. Seu pai, professor de Hitória da Arte; sua mãe, grande incentivadora da leitura. Você se formou na Faculdade de Ciências Sociais da USP, mas escolheu como profissão a arte de contar histórias. Especialmente contos tradicionais de culturas milenares, que têm sua força na tradição oral. De onde nasceu esse desejo. Quais foram suas principais influências? Quando eu era menina, em vez de brincar de escolinha, brincava de escolinha de arte, distribuindo papéis, canetas e lápis coloridos para outras crianças um pouco mais novas do que eu. E continuei a dar aulas de artes depois que cresci, inspirada pela Ana Mae Barbosa, minha professora e amiga desde os meus 18 anos. Eu queria saber por que a arte é importante na vida das pessoas, o que podemos aprender com ela. Mais tarde comecei a querer saber por que a arte de contar histórias é importante e o que ela nos ensina. Aprendi e aprendo sempre com o Machado de Assis, com o Guimarães Rosa, com o Manoel de Barros, com a Amina Shah — uma contadora de histórias fantástica —, com a dona Militana — que já morreu e contava romances cantados — e com todo mundo que põe uma pitada de poesia na sua vida, mesmo sem ser artista. Você faz parte do Boca do Céu, um encontro internacional de contadores de história que tem como público-alvo não só a criança, mas também o adulto. A ideia é reunir pessoas de diversas partes do mundo; cada um traz consigo

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a partir de Joubert*

suas próprias histórias e inventa modos de contá-las em múltiplos estilos de atuação. O projeto tem o objetivo de compartilhar conhecimento, contribuindo para uma reflexão sobre as raízes brasileiras, nos ensinando a respeitar nossa identidade cultural. Quais as experiências mais significativas na vivência do grupo? Fale um pouco sobre a experiência de ter adultos como público-alvo desses encontros. Um dia eu achei que muita gente que gosta de contar histórias poderia trocar suas experiências, seus contos, poderia aprender com contadores de outros países, outros estados brasileiros e pensei que eu poderia inventar um jeito de as pessoas se encontrarem para isso. E foi então que inventei o Boca do Céu. O nome me apareceu, no começo eu não sabia se era um bom nome, é um jogo de palavras com céu da boca, (as palavras do contador saem pela boca, vêm lá do céu onde elas moram, é por aí mais ou menos…). O nome ficou e hoje o Boca do Céu não é mais um sonho meu, é um nome que já faz parte da história de muita gente, existe na vida de muitas pessoas que trabalham para esse encontro acontecer, que esperam o próximo Boca do Céu. O encontro foi projetado para todas as idades. Como é uma espécie de curso intensivo no qual acontecem tantas atividades de fazer, escutar e pensar sobre histórias, nosso público é de educadores, estudantes, bibliotecárias e contadores de histórias, principalmente. E gente grande gosta também de histórias, só que muitas pessoas não sabem disso. Mas basta um bom contador começar a contar

uma boa história que gente adulta esquece tudo e mergulha nas palavras encantadas. No Boca do Céu, a gente viu até um segurança dizer que voltou para casa e começou a contar para a mulher os contos que tinha escutado naquele dia e que ela disse que era a primeira vez que ele voltava do trabalho mais inteligente! “Quem conta história, cria um instante de partilha, segreda os mistérios da alma e faz surgir no céu uma estrela.” Essa frase, de Joana Cavalcanti, mostra quão importante é compartilhar leituras. Você acredita que a leitura compartilhada é uma arma importante para “encantar” crianças e jovens que não possuem o hábito de leitura, ou se afastaram dos livros em função da internet? Em sua opinião, a arte de contar histórias forma leitor? A leitura compartilhada pode ser um momento de grande significado para crianças e jovens, desde que a situação seja proposta com paixão, e a gente já viu algo parecido no livro Como um romance, do Daniel Pennac. E na palavra “paixão” estão incluídas outras, como intenção, pesquisa, experiência, conhecimento, autoconhecimento, capacidade de brincar, de arriscar, de maravilhar-se, de aceitar o erro e muitas outras que fazem parte da formação de um bom educador. Com certeza a arte de contar histórias pode contribuir muito na formação de leitores, principalmente por nutrir a paisagem de imagens internas significativas de cada ouvinte. A vontade de seguir buscando as palavras encantadas pode guiar os passos que

tropeçarão nos livros, que poderão ser abertos com curiosidade legítima, mas isso já é o começo de uma palestra... O que você pensa dos livros digitais para crianças e jovens? De novo, não posso falar genericamente. Acredito na possibilidade que todos os meios têm de serem fornecedores de asas, mas ainda não vi nenhum livro digital que me convidasse a voar. Para você, qual o maior desafio que pais e professores enfrentam na formação do leitor nos dias de hoje? O desafio de olharmos para nós mesmos e perguntarmos como nos preparar para o encontro com as crianças e os jovens de hoje. E isso dá muito trabalho, pois temos que olhar para dentro, encontrar o que serve e o que não serve em nós, exercitarmos nossa percepção, nossa imaginação, nossa intuição, condicionamentos, preconceitos, bom, é um trabalhão, não é todo mundo que tem disposição. Seu livro Acordais fala sobre a aprendizagem da arte narrativa, a importância da arte de contar histórias no mundo de hoje e sobre a utilização pedagógica dos contos tradicionais por meio de uma proposta brasileira. Como surgiu a ideia desse livro? Escrevi esse livro para educadores, bibliotecárias e contadores de histórias, a partir de muitos anos de trabalho de formação de professores. Nessa

obra, trato dos principais conceitos e questões ligados à arte de contar histórias. São fundamentos que chamo de teórico-poéticos: lembranças, pensamentos, perguntas, metáforas e imagens internas se interligam dentro da experiência de aprender. Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Regina Machado, com os livros que mais marcaram sua história, que obras teriam nela? Por quê? Pois já tenho essa biblioteca no meu quarto, uma seleção que vivo fazendo entre os que ficam na minha outra biblioteca. Nessa estante que fica ao lado da minha cama, há livros que estão lá para sempre, outros que vão mudando a cada semana, outros que estão na prateleira de prioridades e assim por diante.

Alguns dos que estão para sempre são: Primeiras Estórias, do Guimarães Rosa; A odalisca e o elefante, da Pauline Alphen — vivo emprestando para as crianças; Sonhos de transgressão, da Fatema Mernissi; A filha de um contador de histórias, da Zaira Shah; Dom Quixote, de Cervantes; José e seus irmãos, de Thomas Mann. Não dá para citar toda a lista, pois é muito, muito grande. Há livros que guardo desde que sou criança, como Juca e Chico, livros que adoro e vivo relendo, outros que estão lá porque quero ler tudo e ainda não consegui, como a A divina comédia, de Dante, outros que ganhei de presente, outros que comprei porque gostei do título, mas não tenho a menor ideia sobre o conteúdo, outros que preciso ler para estudar.


Ricardo Azevedo

Escritor, ilustrador e pesquisador brasileiro, publicou mais de cem livros e recebeu diversos prêmios. Suas obras foram publicadas em países como Portugal, México, Alemanha e Holanda. Conheça um pouco mais sobre Ricardo Azevedo.

Você vem de uma família em que a literatura tem grande valor. Seu pai era professor universitário e na sua casa havia muitos livros. Você acredita que esse ambiente familiar influenciou sua escolha profissional? Sem dúvida! Antes de tudo, meus pais eram leitores e, desde pequeno, sempre me pareceu natural ler e consultar livros. Ainda no colégio, você escreveu o texto “O homem no sótão”, em que o protagonista é um escritor de contos para crianças que vive recluso, escrevendo histórias inclusive aos sábados, domingos e feriados. E os personagens, cheios de vida, discordam dos caminhos dados pelo escritor à história. Escrever, para você, sempre foi um sonho? As idas e vindas dos personagens demonstram a dificuldade do escritor que trabalha com a fantasia? Percebi, fazendo as redações escolares, que gostava de escrever. Tive a ideia de escrever o texto ao qual, primeiramente, dei o título de “Um escritor de contos para crianças” e mandei bala. As questões foram surgindo do próprio texto, enquanto escrevia. Uma delas é a contradição existente entre realidade e fantasia ou quanto a ficção pode ser construída a partir de preconceitos e ideias já prontas. Textos de ficção, creio, no fundo, são sempre uma tentativa de autoconhecimento. A escolha dos assuntos, os conflitos do enredo, as personagens, a linguagem utilizada, tudo, ao ser colocado no papel, de alguma forma vem para esclarecer questões internas do autor.

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a partir de Ricardo Azevedo*

Quando era criança, você foi apresentado a uma série de discos em que poetas como Carlos Drummond de Andrade declamavam seus próprios poemas. Foi seu primeiro contado com a literatura? Como isso o influenciou? Eu amava escutar a voz frágil e firme de Drummond recitando “O caso do vestido”, “José” e “A morte do leiteiro”. Também tínhamos em casa discos de Os jograis de São Paulo, um grupo de quatro atores que recitava poemas de vários autores. Um deles é inesquecível: “Jandira”, de Murilo Mendes. Acho que foram muitas e muito fortes as influências desses discos em mim. Refiro-me ao uso da linguagem, às imagens inesperadas que os poemas traziam, aos assuntos tratados. E vale notar o seguinte: só pude usufruir dos poemas porque eram ditos em viva voz. Se fossem lidos por mim, não haveria condição de me emocionar ou me identificar com eles. Eu tinha menos de dez anos quando tive acesso a essas gravações antológicas.

Como você vê o hábito da leitura na era digital? Com a informação cada vez mais resumida e de fácil acesso, ficou mais difícil seduzir as crianças por meio da literatura? Minha tendência é achar que trata-se apenas de uma questão de diferenças entre suportes. É preciso que as pessoas sejam educadas de modo a saber diferenciar o que é informação e o que é literatura. Tanto faz ler “Jandira” num livro, na telinha de computador ou num e-book. Agora, vivemos num tempo de excessivo individualismo, de valorização do pensamento meramente técnico e utilitário, de consumismo etc. No fundo, tudo isso implica certo desinteresse pela cultura humana e isso tem reflexos. É um mundo que não valoriza o desenvolvimento da interioridade, da reflexão e do pensamento crítico. Talvez as pessoas estejam perdendo o interesse pela literatura porque têm pouco interesse pela voz do Outro ou pela busca de seu autoconhecimento. É uma pena.

Quais livros marcaram sua infância? Há algum em especial que o fez se apaixonar pela literatura? Posso citar vários: a coleção O tesouro da juventude e o Robin Hood traduzido por Monteiro Lobato, entre outros. Na adolescência, li Três contos infantis, do suíço Peter Bichsel. Entrei em contato com esses textos por meio da revista Humboldt, de intercâmbio cultural Brasil-Alemanha. Nela, autores de língua portuguesa tinham seus textos traduzidos para o alemão e vice-versa. Quando li os contos de Bichsel, disse para mim mesmo: “quero escrever que nem esse cara!”. Muito mais tarde, por minha insistência, a Ática publicou o livro que, na verdade, tem sete contos: O homem que não queria mais nada e outras histórias. Muito bom!

Você também é ilustrador. Quando uma história nasce, ela normalmente vem primeiro como texto ou como imagem? Existem regras no desenvolvimento de projetos em que textos e imagens são assinados por você? No meu caso, com apenas uma exceção (O peixe que podia cantar), em todos os meus livros primeiro vieram os textos, depois as ilustrações. Mas vale contar que acho muito diferente ilustrar um texto criado inteiramente por mim e um conto popular, mesmo que a versão seja escrita por mim. Quando ilustro um texto meu, estou livre para inventar a linguagem que me der na telha. O conto popular traz uma tradição dentro dele, tem uma espécie de aura, tem marcas de certa forma, sei lá. Diante dele, sempre recorro a uma linguagem marcada pela iconografia popular, porque ela tem o dom de carregar essa tradição e essa visão de mundo.

Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Ricardo Azevedo, que livros teriam nela? Por quê? Agora você me pegou. Gosto do trabalho que eu faço, mas, para ser sincero, preferia ter na cabeceira livros de outros autores. Todos os meus livros, de certa forma, estão dentro de mim. Acho que ficaria com o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, a obra completa de Franz Kafka, Vitória e Coração das Trevas, de Joseph Conrad, e as obras completas de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Fernando Pessoa. Talvez porque esses grandes artistas da palavra, com diferentes posturas e linguagens, tratam de forma densa e vital de assuntos humanos que me interessam.


Ricardo Filho

Neto de Graciliano Ramos e filho de Ricardo Ramos, desde menino viveu intensamente o universo dos livros, herdou o hábito da leitura e a intimidade com as palavras. Tem livros publicados no formato tradicional e de e-books. Tem hoje o trabalho reconhecido pela crítica literária. Conheça um pouco mais sobre Ricardo Filho.

Você diz que as lembranças de sua infância são todas relacionadas com livros, as estantes do seu pai e todas as aventuras descobertas nelas. Você acredita que isso te transformou em um escritor? Não sei se posso afirmar tão diretamente que isso me transformou em escritor. Certamente não seria um se não tivesse lido bastante, pois acho impossível alguém escrever com alguma qualidade sem ler. Pensando sob esse prisma, foi muito importante. Mas existem outros fatores. Ter visto meu pai escrever, entrado em contato com o método e a disciplina dele, convivido com outros escritores em casa, tudo isso somado ao prazer pela leitura colaborou bastante para que o interesse em escrever se manifestasse. Não existe uma razão isolada. Está mais para uma mistura de várias coisas. Só não acredito em genética, conforme gostam tanto de colocar. Eu não escrevo porque alguma coisa em meu sangue mandou.

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a partir de Mariana Newlands*

Ser neto de um dos maiores escritores brasileiros, Graciliano Ramos, influenciou suas escolhas? Influenciou, embora não diretamente, já que não nos conhecemos. Como nasci depois de sua morte, muita coisa chegou por meio de meu pai. Com ele aprendi, e isso certamente Graciliano ensinou, que o texto precisa ser bem tratado e as palavras, escolhidas exaustivamente. O velho Graça passou para Ricardo Ramos, e ele para mim, a certeza de que existe uma forma ideal de se dizer as coisas. O escritor deve obsessivamente procurar essa qualidade. Tento ser conciso e exato em meus textos, essa talvez seja a maior influência. Na sua memória, quem foi Graciliano Ramos? O que, da sua obra, mais o toca, o emociona, representa suas memórias de infância? Já falei sobre isso algumas vezes. Meu primeiro contato com Graciliano foi por meio das histórias contadas por minha avó Heloísa, viúva dele. Era um relato apaixonado, que o transformou em um herói muito próximo do que eu via nos livros. Ele então nasceu para mim como figura de ficção. Disse outro dia que parecia um Robin Hood alagoano e reafirmo. Seu engajamento político reforçou bastante essa impressão primeira. Só bem mais tarde, já adulto, entrei em contato com sua obra. Foi um alumbramento. Fiquei impressionadíssimo com o fato de ele ser um escritor que dispensava assinatura. Eu era capaz de reconhecer o que ele escrevia, o seu jeito, em qualquer texto isolado. Pareceu-me maravilhoso poder ter essa personalidade. Raríssimos escritores têm.

Seu pai, o escritor Ricardo Ramos, além de escrever, contribuiu muito para a literatura brasileira, organizando concursos literários e sendo presidente da UBE (União Brasileira de Escritores). Quais são suas memórias afetivas dessa relação avô-pai-filho? Graciliano e Ricardo são figuras importantíssimas em minha formação. Os dois representam competência, seriedade, dignidade, amor pela literatura. Se hoje Graciliano é para mim objeto de estudo, afinal eu o trabalho em meu mestrado na USP, e torna-se cada vez menos avô e mais autor, Ricardo é o exemplo, a saudade, o pai que soube me transmitir a paixão pelos livros. Os relatos contados por ele em Graciliano: retrato fragmentado, livro de memórias publicado pela editora Globo, aproximam-se bastante do que seriam minhas memórias afetivas envolvendo esse triângulo avô-pai-filho. Tudo o que está ali, eu cresci o ouvindo contar. Para você, qual o maior desafio que pais e professores enfrentam na formação do leitor nos dias de hoje? Para mim o desafio não mudou, sempre foi o mesmo. Formar leitores é mostrar, de alguma forma, a paixão que temos pelo texto. Basicamente eu não consigo vender uma ideia se não acreditar nela. Eu repito a paixão que vi meu pai e minha mãe terem

pelos livros. Cresci em uma casa onde se lia muito. Desde muito cedo, pelo exemplo, eu fui convencido de que ler era um grande barato. Mais tarde encontrei professores que possuíam essa mesma atitude. Falavam com entusiasmo a respeito de literatura. Só exibindo naturalmente esse gosto conseguiremos formar leitores. Eu nunca fui obrigado a ler. A leitura para mim era alguma coisa que, eu percebia, trazia prazer para as pessoas. Obviamente eu procurei esse prazer. E, é claro, encontrei. Fora disso, não existe possibilidade. Meninos criados por pais não leitores, e que estudam em escolas com professores não entusiasmados pelo texto, dificilmente gostarão de ler. Você tem e-books publicados. O que você pensa dos livros digitais para crianças? Eu gostei muito da experiência de escrever e-books. Foram livros escritos com capítulos semanais, sobre os quais as crianças se manifestavam e ofereciam alternativas para as histórias. Custei um pouco a me acostumar com a ideia de sofrer esse tipo de interferência, mas, quando consegui relaxar, aproveitei bastante a novidade e o resultado foi muito interessante. Acredito que os livros digitais serão mais uma alternativa, poderão acomodar os avanços tecnológicos existentes, transformando-se em um trabalho diferente e válido. Neles o texto visual ganhará cada vez maior importância. Não acho que substituirão o livro de papel, mas serão mais um veículo disponível, capazes de acomodar o interesse que os jovens têm pelo novo.

Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Ricardo Ramos Filho, com os livros que mais marcaram a sua história, que obras teriam nela? Por quê? Puxa, fiquei até com vontade de criar essa biblioteca! Seria uma cabeceira bem grande. Alguns livros e escritores teriam papel de destaque. O livro Saudade, do Tales de Andrade, para mim o primeiro importante escrito para crianças no Brasil, não faltaria. O Cazuza, de Viriato Correa, também estaria lá. Monteiro Lobato e Francisco Marins teriam destaque. Monteiro Lobato ensinou-me a ler aos sete anos, com o seu Reinações de Narizinho, e Francisco Marins me deu de presente o Gafanhotos em Taquara-poca. Esses livros foram o início, acredito que com eles criei o hábito de leitura. Depois vieram muitos outros para consolidar esse prazer: Moby Dick, A ilha do tesouro, As aventuras de Robin Hood, Vinte mil léguas submarinas, Rob Roy, Os três mosqueteiros, Coração, Tom Sawyer, tantos... Uma escritora, Laura Ingalls Wilder, teria um importante espaço reservado. Viajei com esses pioneiros americanos nas memórias dela e de sua família. O pai, a mãe, e as irmãs Laura, Mary, Carrie Grace ainda são até hoje fonte de prazer. Frequentemente releio a coleção, agora em inglês. Anos felizes, no qual Laura se casa com Almanzo, provavelmente foi o livro que mais li. Ia esquecendo da série do cachorrinho Samba, da Senhora Leandro Dupré,

e da coletânea do Tarzan, de Edgar Rice Burroughs. Alguns livros mais recentes, pela temática abordada, e pela qualidade do texto também estariam nessa biblioteca: Sapato de salto, da Lygia Bojunga; O namorado de papai ronca, de Plínio Camillo; O cântico dos cânticos, de Angela-Lago; O dia de ver meu pai, de Vivina de Assis Viana; Meu pai não mora mais aqui, do Caio Riter; O menino e o pinto do menino, do Wander Piroli; Felpo Filva, da Eva Furnari; Ninguém me entende nessa casa!, do Leo Cunha. Um livro bastante recente, de uma autora estreante inglesa, me chamou a atenção: A vida na porta da geladeira, de Alice Kuipers. O delicado Mari e as coisas da vida, de Tine Mortier e Kaatje Vermeire, também faria parte da biblioteca. E, sem dúvida, Nina e o amor, do Oscar Brenifier, com ilustrações de Delphine Perret, também se faria notar. Aliás, na minha biblioteca, a cabeceira teria que ter prateleiras, haveria uma só para ilustradores. Sem eles, a literatura para crianças hoje não existiria. Desde Gustave Doré e John Tenniel eles vêm fazendo a diferença. No Brasil, gente como: Nelson Cruz, Odilon Moraes, Roger Mello, Fernando Vilela, Rosinha Campos, Janaina Tokitaka, Angelo Abu, Mariana Newlands, Jean-Claude Ramos Alphen, não pode ser esquecida quando falamos de literatura de alto nível para crianças e jovens.


Ruth Rocha

Membro da Academia Paulista de Letras desde 2007, ocupando a cadeira 38, sua obra mais conhecida é Marcelo, marmelo, martelo, que já vendeu mais de um milhão de exemplares. Hoje, tem mais de 130 títulos publicados, traduzidos em 25 idiomas. Em 1998 foi condecorada com a Comenda da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura. Recebeu os prêmios Jabuti: de Literatura Infantil, em 1990; de Ilustração e Melhor Produção Editorial, em 1993; e do Livro do Ano de não ficção, em 2002. Conheça um pouco mais sobre Ruth Rocha.

Você é autora de mais de uma centena de títulos para crianças e jovens e tem uma carreira literária reconhecida pela crítica e, principalmente, pelos milhões de leitores de sua obra fartamente premiada. Ainda hoje, existe “o frio na barriga” na hora de lançar um título? Existe ainda a expectativa de como o leitor vai receber a sua obra? Minha expectativa não é muito grande, pois a obra literária demora muito para ser escrita e editada, então, quando um livro é lançado, a gente já está muito separada da escrita. Mas adoro quando o leitor gosta da minha obra.

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a partir de Mariana Massarani*

Como foi seu primeiro contato com a literatura? Como você decidiu ser escritora e como começou? Quando eu tinha 13 anos, meu professor José Aderaldo Castelo pediu para a classe um trabalho sobre o livro A cidade e as serras, de Eça de Queiroz. Como o professor tinha falado muito do livro, fiz o trabalho sem ler a obra e eu tive a nota mais alta da classe. Isso me causou muita vergonha. Tratei de ler o livro e essa leitura não foi um encontro com a literatura, foi uma trombada: percebi o que era um texto de literatura. Esse livro, já li mais de cinco vezes e é importante para mim até hoje.

O que você pensa dos livros digitais para crianças e jovens? Eu penso que ainda não se sabe o que vai acontecer com esses livros. Se vão substituir os de papel, se vão se transformar em brinquedos ou em ferramentas educativas. Mas acredito que essa mídia deve se somar às outras mídias existentes, como mais uma forma de comunicação.

Você, como uma das autoras para crianças mais conhecidas do Brasil, tem um público fiel, que praticamente começou a ler com seus livros e hoje já atingiu a adolescência. Como é a sensação de fazer parte da vida desses jovens? Na verdade, meu público já tem por volta de 50 anos. Hoje eu vejo muitos netos de meus leitores lendo meus livros. Isso me causa muita emoção.

Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Ruth Rocha, com os livros que mais marcaram sua história, que obras encontraríamos? Por quê? Romeu e Julieta, meu primeiro texto escrito e publicado; Palavras, muitas palavras, meu primeiro livro editado; Marcelo, marmelo, martelo, minha obra de maior sucesso. Quando eu comecei a crescer, que é importante na minha vida; Nicolau tinha uma ideia, que eu gosto muito; O que os olhos não veem, da série dos reis, que marca minha obra mais política, e os Dois idiotas, cada qual no seu barril, que eu adoro.

Para você, qual o maior desafio que pais e professores enfrentam na formação do leitor nos dias de hoje? A competição com outras mídias, como TV, games e internet.


Sônia Rosa Profissionalmente, seu primeiro contato com a literatura infantil e juvenil foi como contadora de histórias da Brinquedoteca, espaço lúdico situado nos jardins do Museu da República. Você acredita que de tanto contar histórias de outros autores acabou inventando as suas próprias e teve vontade de compartilhar? Acredito que fui mesmo influenciada pelas inúmeras histórias que contei ao longo da minha vida. Na verdade, sempre gostei de contar histórias. Quando virei professora, fazia isso todos os dias para os meus alunos. Desde menina já fazia poesias e escrevia nos meus diários. Mas a experiência marcante através da partilha da leitura do livro infantil foi me provocando a criar novas ideias e a estreitar ainda mais a minha intimidade com as palavras. Com o tempo, fui secretamente inventando minhas próprias histórias para crianças. Depois desejei compartilhá-las. E foi aí então que nasceu a vontade de virar escritora, desejo que até então nunca havia se manifestado. Como professora e pedagoga, você desenvolve projetos de promoção da leitura e formação de leitor. Você acredita que esse trabalho te ajuda a conhecer melhor os desejos das crianças na busca de novas histórias? Promover a leitura e formar novos leitores são compromissos fundamentais de todo professor. Alguns projetos nessa área podem mobilizar uma escola inteira. Sinto-me

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a partir de Luciana Justiniani Hees*

Sônia Rosa tem em seu currículo quatro bibliotecas escolares batizadas com seu nome, duas obras com o selo Altamente Recomendável da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), nas categorias Criança e Informativo, o diploma Orgulho Carioca, em reconhecimento do desempenho a favor da Educação Pública Municipal, e alguns de seus títulos foram incluídos no White Ravens de 2008 (catálogo anual com a seleção dos melhores livros do mundo) e no catálogo de Bolonha. Conheça um pouco mais sobre Sônia Rosa.

comprometida com esses trabalhos que visam, basicamente, fortalecer, junto aos alunos, os laços de amizade entre eles e os livros de literatura. Nos eventos literários, a atividade Encontro com Autor é sempre bem recebida e agrada a todas as crianças. Nessas oportunidades, os autores conhecem os seus leitores e vice-versa. Nessas conversas amorosas intermediadas com muitas histórias, sempre sobra tempo para os pequeninos leitores expressarem as suas opiniões, revelarem os seus desejos, fazerem perguntas ou outras considerações. Uma temática muito presente em suas histórias é a diversidade afro-brasileira. Por que você resolveu abordar o tema em seus livros? Desde o meu primeiro livro, O menino Nito, de 1995, que personagens negros estão confortavelmente presentes nos meus livros. O que começou de maneira espontânea, como uma forma de homenagear amigos e familiares com variados tons de pele, se tornou, ao longo do tempo, um cuidado especial, um compromisso com a temática afro-brasileira. Para dar conta desse cuidado, fui estudar e aprofundar o assunto. E descobri muitas coisas interessantes e importantes para o fortalecimento do “meu eu” tão afro-brasileiro. Em 2003, foi sancionada a lei 10.639, que obriga esses estudos em todas as escolas públicas e particulares do país. Hoje encontramos nas livrarias muitos livros de literatura que contam histórias africanas, falam de seus mitos, de suas lendas. Nossas crianças agradecem a presença dessa diversidade dentro dos livros destinados a elas!

Você tem quatro salas de leitura com seu nome em escolas municipais do Rio de Janeiro. Conte um pouquinho dessa história e de que forma você acha que essas homenagens marcaram a sua carreira. Recebi essas homenagens como verdadeiros prêmios. Um reconhecimento do meu trabalho. Um marco na minha carreira. Trabalhei, durante muitos anos, no nível central da Secretaria Municipal de Educação, num departamento que tinha como principal objetivo de trabalho promover a leitura e formar novos leitores. Dinamizei muitas oficinas de contação de histórias para professores. Visitei muitas escolas para conversar com alunos sobre meus livros, poesia, outros autores e literatura. Esses encontros foram sempre amorosos e ricos de emoção e encantamentos. Batizar as salas de leitura com meu nome foi uma decisão que envolveu alunos e professores. Essa notícia me deixou mais feliz ainda. Ao final do ano de 2011, ganhei mais um “prêmio”: uma escola pública de Cabo Frio ofereceu uma feijoada com apresentação de uma roda de Jongo para a inauguração da biblioteca escolar com o meu nome. Alguns livros da coleção Lembranças Africanas: Jongo, Maracatu e Ca­poeira e O Menino Nito participaram da primeira série do programa Livros animados, do

canal Futura, como parte do projeto A Cor da Cultura, veiculado ainda hoje pela televisão ou pelo site do canal. O mesmo aconteceu com o livro Cadê Clarisse, que ganhou versão musicada em uma escola mineira. Quando escreveu as histórias, imaginou que esses livros poderiam ser adaptados para outras linguagens? Quando escrevo um texto e ele vira livro, sei que ele vai correr o mundo e, então, perco totalmente o controle sobre sua vida. Para mim é sempre uma alegria cheia de emoção quando aprecio meus livros virarem livros animados, músicas, peças teatrais. Seu livro Traços e Tramas teve um processo de criação diferenciado. Primeiro nasceram as imagens do ilustrador Salmo Dansa e em seguida você criou seis contos distintos. Como foi essa experiência? Foi mais fácil criar as histórias já sabendo as imagens que as representariam? Gostei muito dessa inversão de ordem. Eu e Salmo fizemos ao contrário, ele me enviou os desenhos com históricos distintos de feitura, e então criei histórias para cada um deles. Dei asas à minha imaginação. Deixei me levar por cada desenho. Foi delicioso o processo criativo, porque me deixou leve como uma pluma... Quando escrevi o conto “Porquito”, por exemplo, me diverti bastante. Era como se todos os contos morassem dentro da minha cabeça e aguardassem apenas um desenho para virar letras, palavras…

Seu livro Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta foi baseado numa história real, ambientada no Piauí em 1770. Uma escrava alfabetizada teve a coragem de escrever uma carta ao governador, contando sobre a sua triste vida e cobrando atitudes das autoridades. Como você teve acesso a essa história? Recebi um convite da Fundação Palmares para fazer uma história infantil sobre a temática afro-brasileira. Tinha um prazo curto para a entrega e fiquei muita ansiosa com isso. Depois de três dias pensando insistentemente sobre a tarefa, tive a ideia de uma carta. Foi quase como um sopro no meu ouvido. Era de manhãzinha e eu estava sonolenta ainda. Levantei e escrevi uma carta como se tivesse sido redigida por uma escrava. Depois, criei o contexto para dar conta daquela carta e de seus conteúdos... E foi assim que nasceu o livro Tesouros de Monifa, que anos mais tarde a editora Brinque-Book publicou. O curioso disso é que inventei uma escrava alfabetizada e, em pesquisa, descobri que existiu de verdade uma escrava que escreveu uma carta. E uma carta-petição ao governador! Muito ousada e corajosa essa escrava piauiense. Fiquei animada com a descoberta e me senti com a responsabilidade de contar a história dessa escrava para todo mundo. Em junho de 2012, lancei o livro Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta, obra muito marcante na minha carreira.

Você costuma dizer que “a leitura alimenta as ideias e que quem conta uma história abraça alguém!”. Quais benefícios você acredita que a literatura pode trazer para a vida das crianças e dos jovens? Por quê? A literatura proporciona outras possibilidades de experiência para os leitores. Quem lê, alimenta as ideias, porque a leitura aguça o senso crítico e provoca sonhos. Quem lê com­preende melhor o mundo e também a si próprio. A intimidade com as palavras se solidifica ao longo do tempo, enquanto se constrói o repertório de leitura. Um leitor nunca fica sem palavras porque, por ser amigo delas, sabe como organizá-las para transmitir uma mensagem, uma opinião, um sentimento — e, por que não dizer, uma poesia, um texto literário. Quem conta uma história abraça alguém porque contar história é um ato de amor. Quem se prontifica a oferecer uma história para o outro é como se falasse assim: estou aqui, corpo e alma, para compartilhar uma história, que contarei especialmente para você. Quanto mais leitores, histórias contadas e livros de literatura o mundo tiver, mais sensível, cordial, humano e respeitoso ele será, não tenho dúvidas disso. Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Sônia Rosa, que livros teriam nela? Por quê? Tenho sempre na minha cabeceira alguns livros de contos. E, entre tantos, cito alguns de meus autores preferidos: Mia Couto, Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Mario Quintana e Lima Barreto.


Stela Barbieri

Artista plástica, educadora, escritora e contadora de histórias, é curadora do Educativo da Bienal de Artes de São Paulo desde a 29ª edição. Em 2011, implementou o educativo permanente da Fundação Bienal e realizou a curadoria educativa da exposição Em Nome dos Artistas. Foi finalista do Prêmio Jabuti de Literatura e tem mais de dezoito títulos publicados. Conheça um pouco mais sobre Stela Barbieri.

Artista plástica, educadora, escritora e contadora de histórias. Qual dessas Stelas nasceu primeiro? As Stelas contadora de histórias, educadora e artista plástica nasceram juntas aos 17 anos. Comecei a dar aula, contar histórias e a participar de um coletivo de artistas no mesmo período. Você é artista plástica e atua como assessora de artes de educação infantil e ensino fundamental em algumas escolas. Em sua opinião, qual a principal diferença entre as histórias contadas com palavras e as contadas por meio de imagens? As histórias contadas com palavras inventam imagens. As histórias contadas com imagens inventam palavras. As imagens alimentam as palavras e as palavras alimentam as imagens, aprendi isso com Luis Perez Oramas, que foi curador da trigésima Bienal de Artes Visuais de São Paulo.

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a partir de Fernando Vilela*

Como artista plástica, você trabalha com diversos materiais, como látex, vidros, pigmentos, areia, cera de abelha, argila... Parte de formas orgânicas que, por meio de sua ação, vão ganhando outra natureza corpórea. Você acha que esse seu trabalho também é uma maneira de contar histórias por meio das formas? Os trabalhos catalisam as histórias numa cápsula sintética de sentidos, mas podem disparar narrativas que nem sempre seguirão uma sequência. É preciso que se criem ambientes para que a relação com a arte possa ativar ativar nossas narrativas em nós. Você realiza narrativas de contos autorais e da tradição oral. Já se apresentou na Sala São Paulo com a Orquestra Popular de Câmara. Além disso, é assessora em arte educação para instituições e projetos culturais, como o projeto Escola no Cinema do Espaço Itaú de Cinema. Em sua opinião, qual a principal diferença entre essas linguagens? E qual delas atinge mais rapidamente a fantasia da criança?

A linguagem é integrada ao conteúdo que ela expressa, aos conceitos que cria, aos movimentos que faz. Todas as linguagens podem ser muito mobilizadoras, depende da qualidade daquilo que torna visível uma ideia, uma história. A linguagem não está mais ou menos próxima da criança, depende da maneira como ela traz, como ela toca, como ela desloca. É estar no mundo de uma outra maneira. Tudo depende de qual é o filme, qual é o livro, qual é a música, da qualidade da forma e do conteúdo. Você é diretora da Ação Educativa do Instituto Tomie Ohtake desde 2002. Para você, qual o maior desafio dos professores hoje na formação do leitor? Primeiro, a formação deles mesmos como leitores vivos e da vida. Depois, escutar as crianças, sentir como cada livro reverbera, que palavras as crianças trazem para o convívio, que experiências elas trazem para a vida.

O que você pensa dos livros digitais para crianças? Podem ser tão interessantes quanto os outros. Depende de qual é a história e de que modo será contada. O livro digital ainda precisa ser desenvolvido, porque cada meio tem suas especificidades. Antes de usá-los na sua maior potência, precisam ser feitos vários experimentos. Se for usado de maneira inteligente, o livro digital, assim como todas as outras linguagens, poderá ter bom proveito. Se não, terá vida curta e será descartado pelas crianças, que procurarão algo com potência mais vibrante. Se você pudesse ter na cabeceira da cama uma biblioteca Stela Barbieri, com os livros que mais marcaram a sua história, que obras teriam nela? Por quê? Livros que li na infância: Histórias de tia Anastácia, de Monteiro Lobato, Juca e Chico, Robinson Crusoé e Histórias que ouvi do Zé Macaco e do João Felpudo. Na adolescência e vida adulta: O livro dos seres imaginários, do Jorge Luis Borges, Histórias de Cronópios e de Famas e O Jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, As cidades invisíveis e Fábulas italianas, de Italo Calvino, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, entre tantos outros.


Passeios pelo bosque da juventude: poesia, amor, dor e ousadia!

Uma das perguntas mais frequentes feita por educadores é: como eu faço para o meu aluno gostar de ler? Ora, a resposta é muito simples: leia com ele, leia para ele, apresente bons livros e o deixe ler, sentir, pensar e discutir, sem amarras ou provas de livro. Provas de livro não formam leitores apaixonados. Mas o contato prazeroso com a leitura sim. Acontece que, quando as crianças se tornam adolescentes, parece que esquecemos que os jovens também precisam do contato lúdico com a leitura, e, muitas vezes, acabamos afastando dos livros aqueles que já gostavam de ler. Isso acontece porque na maioria dos casos os livros da escola estão atrelados à obrigação, dever de casa e não a um contato mais intenso com a leitura. Um contato que possa despertar novos olhares para o mundo e para a vida. A juventude é um momento intenso de buscas, dúvidas, questionamentos profundos, amores, dores, perdas, solidão interior, alegria sem medidas, vontades escondidas, reveladas, desejos, e um tanto de ousadia para transgredir valores impostos pela sociedade. Mas também é típico dos jovens mudarem de humor a cada segundo, de humor e opinião, uma vez que estão em busca de significados para suas vidas. No fundo, estamos em eterna busca de significados para nossa vida, sejamos jovens ou adultos. E nada melhor do que a leitura de bons livros de literatura para nos ajudar a ressignificar a vida a cada momento. Mas como os jovens gostam de liberdade de expressão e queremos que eles se apaixonem pelos livros e se tornem leitores para além dos muros escolares, deixemos que eles leiam os livros com possibilidades múltiplas de mergulhar nas histórias, para que estas sejam ponto de partida para novos voos artísticos. Será que na sua sala de aula existe um futuro artista? Separamos para este eixo temático os seguintes livros:

Nó na garganta, de Mirna Pinsk, ilustrado por Andréa Ramos — Atual Contando histórias em versos, de Braulio Tavares — Editora 34 Demônios em quadrinhos, Aluíso Azevedo, por Eloar Guazzelli — Peirópolis

O tesouro de Ana, de Mirna Pinsk, ilustrado por Rosinha — Edições SM Pescador de naufrágios, de Ana Maria Machado, ilustrado por Igor Machado e Meton Joffily — Moderna Com fio, de Ninfa Parreiras, ilustrado por Ricardo A. — Larousse

A árvore dos desejos, de William Faulkner, ilustrado por Eloar Guazzelli — Cosac Naify O pagador de promessas em graphic novel, de Dias Gomes, ilustrado por Eloar Guazzelli — Nova Fronteira Umbu — Coleção Um pé de quê? — texto adaptado por Fabiana Werneck Barcinski, ilustrado por Eloar Guazzelli — WMF Martins Fontes

Um dia de chuva, de Eça de Queiroz, ilustrado por Eloar Guazzelli — Cosac Naify Pawana, de J. M. G. Le Clézio, ilustrado por Eloar Guazzelli — Cosac Naify As 17 cores do branco, de Luiz Raul Machado, ilustrado por Ana Freitas — Galera Record

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Nesses livros, temos de tudo um pouco: busca da identidade, transformações, relações familiares, perdas, afetos, dúvidas, conflitos sobre o crescer, vazios, poesias, dor do crescimento, fantasias, sonhos, morte, vida, meio ambiente, preconceito, questionamentos sobre a vida, sobre famílias, sobre o estar no mundo, histórias recontadas, histórias inventadas, histórias em quadrinhos, histórias em versos, graphic novel… Instigue seus alunos a perceberem que existem diferentes formas de escrever e ilustrar. Converse com eles sobre a identidade de cada artista. Leia para eles as entrevistas dos autores convidados. Convide-os a conhecer a vida e a obra de cada um. Sugerimos que estes livros sejam levados para a sala de aula e circulem livremente entre os alunos. Selecione um ou outro para ler junto com a turma, por que não? Não é porque os alunos crescem que não podemos mais ler com eles! Leitura compartilhada tem outro sabor e pode gerar grandes debates. Determine um tempo (dois meses?) para que os alunos leiam o maior número de livros possível. Ao longo desses meses, promova rodas de leitura para que possam compartilhar suas experiên­cias com os livros. Incentive-os a montar um quadro de opiniões, onde cada um poderá escrever o que achou de cada livro, instigando outros alunos a lerem a história de que gostaram. Após as leituras e os debates, procure um espaço na escola onde possa ser criado um ateliê de criação artística. Poderemos chamá-lo de Território do Aluno. A primeira etapa será definir o espaço. Existe uma sala de artes na escola? Ou, se não existir, será que é possível usar o pátio? Ou um canto da sala de aula? O importante é criar um ateliê contendo diversos materiais, para que os alunos possam criar alguma coisa a partir das leituras dos livros.

Contos de enganar a morte, texto e ilustrações de Ricardo Azevedo — Ática O livro dentro da concha, de Ricardo Filho, ilustrado por Soud — Globo

João Bolão, de Ricardo Filho, ilustrado por Angelo Abu — Editora Globo O violino cigano e outros contos de mulheres sábias, de Regina Machado, ilustrado por Jubert — Cia. das Letras

A Nau Catarineta, de Ana Maria Machado, ilustrado por Estúdio Mimo (Meton Joffily) — Moderna O motoqueiro que virou bicho, de Ricardo Azevedo — Moderna Vovó Benuta, de Sônia Rosa, ilustrado por Anna Bárbara Simonin e Marília Bruno — Galera Record

Para que isso aconteça, disponibilize o máximo de materiais que conseguir: papel sulfite, lápis, canetas, tintas, pincéis, pedaços de tecido branco e/ou telas, papéis coloridos, retalhos, barbante, revistas, jornais, cola, giz de cera, hidrocor, bolinha de isopor, lã, agulha, linha, câmera fotográfica ou filmadora e tudo mais que a imaginação puder alcançar. É nessa hora que o professor precisa ser um bom mediador de leitura, incentivando seus alunos a criar algo a partir das leituras. Pode ser recontando um livro com imagens, pode ser pegando um dos títulos que não é em quadrinhos e transformando a história numa HQ. Pode ser tanta coisa... Imagine, por exemplo, as histórias do livro O violino cigano e outros contos de mulheres sábias sendo pintadas em pedaços de tecido branco e depois essas partes sendo costuradas para formar uma grande colcha de patchwork? Imagine O motoqueiro que virou bicho sendo grafitado no muro da escola? Ou Demônios em quadrinhos instigando um aluno a criar a sua própria história em quadrinhos, contando algo que “invadiu” sua noite (ou sua vida) ou mesmo levando-o a escrever um conto fantástico que poderá ser ilustrado por outro aluno? Podem existir alunos comprometidos com a questão ambiental e quem sabe eles embarcam nas leituras de Umbu e O tesouro de Ana e criam um documentário sobre como vive a população caiçara de Paraty ou sobre as árvores dessa cidade? Será que existe alguma especulação imobiliária em Paraty, como existiu em Santana (da história O tesouro de Ana)? Quem sabe surgem ideias para alguns alunos criarem suas próprias músicas a partir da leitura de alguns livros, em especial de Contando histórias em versos. Quem sabe uma banda surge na turma? Ou quem sabe algum aluno resolve pegar o livro Um dia de chuva para transformá-lo em uma graphic novel, como fez Eloar Guazzelli com O pagador de promessas? Nó na garganta pode virar um projeto chamado: Você não é preconceituoso? Tem certeza?! No qual os alunos poderão criar esquetes com cenas sobre preconceito, questionando o fato de as pessoas falarem que não são preconceituosas, até acontecer algo com seus familiares. João Bolão pode incentivar a criação de bonecos representando o que cada um gostaria de mudar em si mesmo. Mas quem sabe alguém não resolve encenar alguns dos Contos de enganar a morte, apresentando ao final um conto de sua autoria sobre a morte, com base em um fato real paratiense?

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Quantos alunos conhecem uma vovó parecida com a Vovó Benuta? Uma boa pedida é a criação de um livro ilustrado contando histórias de avós. Existem tantas... Pode ser inclusive uma história sobre as avós que gostaríamos de ter tido e não tivemos. As 17 cores do branco é um livro que pode gerar uma série de quadros em que os alunos irão pintar a resposta para a pergunta: será o branco invisível, ou a soma de todas as cores? Ou quem sabe, depois da leitura de A árvore dos desejos (debaixo de uma árvore) a turma não resolve plantar desejos? Que desejos os alunos querem plantar? Poderão ser revelados? Ilustrados? Musicados? Escritos? Outra ideia pode ser um passeio até a praia para uma roda de histórias inventadas, a fim de descobrir as histórias que uma concha do mar pode revelar. Tal como o menino Pedro, de O livro dentro da concha, descobriu. Será que na turma tem algum filho de pescador? Já imaginou a criação de uma história de pescador em HQ? Algum aluno pode querer juntar histórias de pescadores com as histórias dos livros A Nau Catarineta, O pescador de naufrágios e Pawana e criar um livro com o título Os sete mares para além das praias de Paraty. Quem sabe Com fio inspire a criação de uma linha do tempo de cada jovem? Para que possam revisitar sua própria história e contá-la em um blog, com fotos e pensamentos. As possibilidades são sempre múltiplas quando falamos de livros, histórias e vida. Veja só quantas coisas podem ser feitas a partir da leitura dos livros. Ou quantas outras ideias você e seus alunos podem ter! O importante é começar a ler e descobrir os caminhos que os livros podem revelar. Surpresas incríveis podem acontecer nesse percurso, basta acreditar e dar asas à imaginação! Um bom debate para ser feito ao final dos trabalhos é sobre processos criativos: o que e como cada um criou? Por que teve essa ideia? Quanto tempo levou para executá-la? Teve inspiração? E transpiração? Ou seja, teve muito trabalho para conseguir colocar em prática a sua ideia? Ao final, os alunos podem se autoentrevistar e redigir de forma bem bacana essas entrevistas, que, juntamente com os trabalhos, podem gerar uma exposição incrível na escola. Cada um com seu traço, sua cor, sua maneira singular de se expressar, sua identidade! Vamos lá!


Crianças, livros e brincadeiras: o imaginário no poder!

Era uma vez... ... e aí um dragão e uma bruxinha batem à sua porta e... nhacktplackt... de repente Romeu e Julieta viraram borboleta e não fazem mais parte de um conto clássico de Shakespeare. O amigo do rei agora é uma criança, mãe e pai agora sabem surfar e andam fazendo a maior bagunça no mar, e, ai, meu Deus!, cadê Clarisse que ninguém sabe onde foi parar? Talvez esteja nas estrelas com Tati, que é pra lá de especial, mas bem que poderia ser espacial e estar ao lado de Lua, enquanto o porquinho Lino as observa brincar montadas em Adamastor, que um dia fugiu lá para casa do meu avô. Ainda bem que o cachorro Babucho, meu bichinho de estimação, não foi junto, ufa! Ainda bem que a Mel está de bem com a vida e pensando em escrever uma carta para convidar o João Teimoso e a Maria Dengosa para encararem uma maré e um sonho. Mas o problema é que as cartas quase se perderam, junto com a carta errante, da avó atrapalhada e da menina aniversariante. Mas de repente veio um barulhão lá do quintal do meu avô: tchibumbum… nossa!!! Foi um balde de tintas que se espatifou bem dentro do balde de chupetas e dos bichos que andavam pelo jardim. E ainda sobrou para o gato que vivia cantando de galo. Não deu outra, todos foram parar num enorme chuveiro, onde estavam escondidos exatamente um dragão e uma bruxinha, que nhac… comeram toda a história. Fim! O que você acabou de ler é o que podemos chamar de o imaginário no poder. Mas, na verdade, é uma grande brincadeira com os títulos dos livros deste eixo temático.

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De bem com a vida, O balde das chupetas e Bagunça no mar, todos escritos por Bia Hetzel e ilustrados por Mariana Massarani — Manati

Chuveiro, A tinta e Os bichos, Coleção Bagunça, de Karen Acioly, ilustrados por Nathalia Sá Cavalcante — Rocco Jovens Leitores

A bruxinha e o dragão, texto e ilustrações de Jean-Claude R. Alphen — Companhia das Letrinhas Com a maré e o sonho, de Ninfa Parreias, ilustrado por André Neves — Editora RHJ João teimoso, de Luiz Raul Machado, ilustrado por Graça Lima — Nova Fronteira

Lino, texto e ilustrações de André Neves — Callis Maria dengosa, de Luiz Raul Machado, ilustrado por Marilda Castanha — Formato

Agora que você já conhece os livros selecionados, releia o texto inicial. Pronto! Agora podemos continuar. Crianças, livros e brincadeiras: o imaginário no poder! não existe título melhor para um eixo temático. Porque para as crianças o imaginário está sempre no poder, afinal de contas, no mundo do faz de conta, tudo é possível e a imaginação sempre fala mais alto. Mas parte deste título não surgiu do nada, foi inspirado no livro O imaginário no poder, de Jacqueline Held, que nos conta muito sobre o poder da imaginação na vida das crianças. Esse livro faz parte da coleção Novas Buscas em Educação, coordenada por Fanny Abramovich, da Summus Editorial. Outro livro muito bom dessa coleção se chama Quando eu voltar a ser criança, de Janusz Korczak, que conta como é ser criança em um mundo regido por adultos. Recomendamos a leitura desses livros para que cada um possa mergulhar neste eixo temático com o olhar mais aberto para a infância, o livro e a fantasia. Crianças, livros e brincadeiras. Tudo num pacote só, porque bons livros têm a mesma função da brincadeira: fazer a criança entrar no mundo do faz de conta, no mundo da imaginação. É como nos conta Umberto Eco, em seu livro Seis passeios pelo bosque da ficção, publicado pela Companhia das Letras, a respeito das narrativas ficcionais e do brincar: “Entretanto, qualquer passeio pelos mundos ficcionais tem a mesma função de um brinquedo infantil. As crianças brincam com boneca, cavalinho de madeira ou pipa a fim de se familiarizar com as leis físicas do universo e com os atos que realizarão um dia. Da mesma forma, ler ficção significa jogar um jogo através do qual damos sentido à infinidade de coisas que aconteceram, estão acontecendo ou vão acontecer no mundo real. Ao lermos uma narrativa, fugimos da ansiedade que nos assalta quando tentamos dizer algo verdadeiro a respeito do mundo. Essa é função consoladora da narrativa — a razão pela qual as pessoas contam histórias e têm contado histórias desde o início dos tempos. E sempre foi a função suprema do mito: encontrar uma forma no tumulto da experiência humana”.


O cachorro Babucho, de Luiz Raul Machado, ilustrado por Sami e Bill — Globo Adamastor, o pangaré, texto e ilustrações de Mariana Massarani — Melhoramentos

Cadê Clarisse?, de Sônia Rosa, ilustrado por Luna — Editora DCL Carta errante, avó atrapalhada, menina aniversariante, de Mirna Pinsk, ilustrado por Ionit Zilberman — FTD

Dois títulos da Série Vou Te Contar, de Ruth Rocha: O amigo do rei, ilustrado por Cris Eich, e Romeu e Julieta, ilustrado por Mariana Massarani — Salamandra

A casa do meu avô, texto e ilustrações de Ricardo Azevedo — Ática Meu bicho de estimação, de Yolanda Reyes, traduzido por Marina Colasanti, ilustrado por Mariana Massarani — FTD Aula de surfe, texto e ilustrações de Mariana Massarani — Global Editora

Vamos mergulhar no jogo imaginário da leitura e criar possibilidades. Comece separando os livros em um canto da sala e crie momentos de leitura compartilhada, deixe que os alunos levem os livros para ler em casa e comece a inventar histórias com eles. A bruxinha e o dragão; O gato que cantava de galo; Adamastor, o pangaré; O cachorro Babucho e Meu bicho de estimação podem abrir portas para a criação de um zoológico imaginário, onde cada criança terá um bicho, que pode ser inventado ou real. Como é esse bicho? O que come? O que faz? Depois vão criar os bichos e o zoológico imaginário com materiais reciclados. Com tudo pronto, imagine só as novas histórias que podem surgir quando a bicharada se encontrar? Será que vai ter confusão? Todos ficarão amigos? Quem sabe não surge um livro com novas histórias de bichos escritas e ilustradas pelas crianças? Viu só como um projeto já dá ideia para um novo? Paraty tem muitas praias. Que tal um passeio até um delas para a leitura de Aula de surfe, Bagunça no mar e Com a maré e o sonho. Biquíni, sunga, protetor solar, barraca e um lanchinho para uma manhã ou tarde na praia. O que será que pode surgir em uma roda de leitura na praia, com histórias de sol, mar, areia, surfe, sereias, desejos de conhecer o mar nunca antes visto, sonhos e muita diversão? Vamos descobrir? E que tal um momento poesia em prosa e versos? A leitura de Maria Dengosa, João teimoso, A casa do meu avô, Tati é especial e Lino pode se desdobrar num projeto chamado Aprendendo a Ouvir os Silêncios, como disse Luiz Raul em um de seus livros. Como será que se ouve silêncios? Silêncio pode ser barulhento? Luiz também falou sobre ler as coisas no livro da vida. Será que Lino leu? E o menino que foi à casa do avô? E João Teimoso? E Maria Dengosa? E Tati? Para instigar a criançada sobre o fazer poético e a poesia, faça algumas perguntas: o que é poesia? Onde podemos encontrar poesia em nosso dia a dia? E para que serve a poesia? Será que serve para alguma coisa? Qual é a diferença entre poesia em versos e poesia em prosa? Existe isso ou é só uma invenção? A partir dessas perguntas, incentive a turma a criar suas histórias poéticas. Garanto que você vai se surpreender, porque as crianças estão muito mais próximas da linguagem poética do que podemos imaginar. Incentive-as também a criar poesias com imagens, como tão lindamente fazem os ilustradores. Junte texto e imagens e faça uma exposição do material na escola. Carta errante, avó atrapalhada, menina aniversariante pode deflagrar um grande projeto sobre cartas. Leia o livro, bata um papo com a turma, deixe que os alunos falem livremente sobre o que pensaram ou sentiram. Depois inicie uma troca de cartas. Cada aluno irá escolher para quem vai enviar? Terá um

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tema específico? Um motivo especial, qual será? Uma boa pedida é a turma conhecer os correios e postar as cartas. E que tal entrevistar o carteiro, para que as crianças possam conhecer o trabalho desse profissional? Quem sabe as crianças contam para o carteiro a história da avó atrapalhada e perguntam se já aconteceu algo parecido com ele? Chuveiro, A tinta, Os bichos, Cadê Clarisse?, O balde das chupetas e De bem com a vida são livros com textos curtos, interação entre texto e imagem e muita ludicidade. Aqui a sugestão é deixar a turma explorar os livros de forma mais sensorial possível. Leia para as crianças e depois brinque bastante com as histórias. Brinquem com tinta, com pintura a dedo, por exemplo, e depois tomem banho de mangueira. Em De bem com a vida conhecemos os gatinhos da Mel. Junte esse livro com todos os outros de bichos e descubra que bichos as crianças têm ou não têm e/ou gostariam de ter. Já imaginou que boa ideia pode ser cada criança se pintar de um bicho e depois brincar de se esconder como a menina Clarice e, ao final da brincadeira, vir o banho de mangueira no pátio? Festa completa! E será que nessa festa no pátio vai ter uma balde das chupetas? Será que alguém ainda chupa chupeta na sala? O amigo do rei e Romeu e Julieta fazem parte da série Vou Te Contar, que foi toda escrita entre os anos 1969 e 1981. Muitas dessas histórias foram publicadas na antiga Revista Recreio e vinham acompanhadas de jogos lúdicos. Essa série e todos os livros de Ruth Rocha estão reunidos na Biblioteca Ruth Rocha. A dica é que leiam não só esses dois títulos, mas todos com os quais você se encantar e que desejar compartilhar. Será que na biblioteca da escola não tem uma Revista Recreio? Seria muito bacana a turma conhecer o que era feito naquela época. Depois das leituras e troca de ideias, que tal dividir a turma em grupos e cada grupo inventar jogos criativos a partir das histórias. As crianças podem confeccionar os jogos e compartilhar com a turma e depois montar na sala de aula um cantinho das brincadeiras de livros. Esse cantinho pode virar um sucesso, que terá a essência deste eixo temático: crianças, livros e brincadeiras, tudo misturado!


Cultura popular, identidade e ação!

Este eixo temático reúne livros que abordam questões referentes à cultura popular brasileira, literatura de cordel, histórias de origem indiana, indígenas, africanas, orientais, personagens originários do folclore da Turquia, do Japão e de diversos pontos do mundo. Será uma grande oportunidade de visitarmos diferentes culturas, países, mitos, lendas e personagens incríveis.

Armazém do folclore e Meu livro de folclore, um punhado de literatura popular, textos e ilustrações de Ricardo Azevedo — Ática As queixadas e outros contos guaranis, escrito por vários autores, organizado por Olívio Jekupé, ilustrado por Fernando Vilela — FTD

Os livros selecionados para este eixo são: Capoeira, Maracatu, Jongo, Feijoada e O tabuleiro da baiana, Coleção Lembranças Africanas, de Sônia Rosa, ilustrados por Rosinha Campos — Pallas Editora

Iarandu, o cão falante, de Olívio Jekupé, ilustrado por Olavo Ricardo — Peirópolis

A invenção do mundo pelo Deuscurumim, de Braulio Tavares, ilustrado por Fernando Vilela — Editora 34 Os tesouros de Monifa, de Sônia Rosa, ilustrado por Rosinha — Brinque-Book Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta, de Sônia Rosa, ilustrado por Luciana Justiniani Hees — Pallas Editora

O bicho Manjaréu, O boi Leição e A onça e o bode, Coleção O Brinquedo Faz a História, de Stela Barbieri, ilustrados por Fernando Vilela — Scipione

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Recorremos a um trecho de Ricardo Azevedo, em seu Armazém do folclore, para iniciar uma reflexão: “Acredito que os contos, ditados, quadras, brincadeiras e adivinhas populares sejam não algo para ser conservado só por ser antigo ou tradicional, mas muito mais que isso: um riquíssimo depósito de conhecimento humano a respeito da vida e do mundo, criado a partir de uma forma de pensar, ao mesmo tempo pragmática, intuitiva, lúdica e corporal, sempre atual e em permanente estado de recriação. Nesse sentido, a cultura popular brasileira, mesclando as influências europeia, indígena e africana, é sempre valiosa, complexa e patrimônio único”. É! Estamos diante de “um riquíssimo depósito de conhecimento humano a respeito da vida e do mundo”. Tantos conhecimentos nas páginas dos livros selecionados... Tantas histórias diferentes, caminhos e possibilidades... Mas o que fazer com tudo isso? A primeira coisa é ler e descobrir o que as histórias podem nos contar. Quem sabe a leitura desses livros traz alguma inspiração para a criação de um projeto? Iremos sugerir alguns caminhos, mas como gostamos de dizer desde o primeiro manual, cada professor precisa ter autonomia e criatividade para inventar seus próprios projetos de leitura e saber o que pode dar certo com sua turma. Estamos dando apenas sugestões, abrindo o olhar para algumas nuances dos livros, mas cabe a cada professor escolher como e o que fazer com os livros.


Para este eixo temático, pensamos na criação do projeto Conhecendo o Mundo e dividimos os livros em cinco grupos. São eles: Conhecendo o mundo pelo olhar da cultura africana: Coleção Lembranças Africanas; Quando a escrava Esperança Garcia escreveu uma carta e Os tesouros de Monifa. Conhecendo o mundo pelo olhar de algumas culturas que poucos conhecem: ABC do Japão; O livro das cobras; Simbad, o marujo; A formiga Aurélia e outros jeitos de ver o mundo e Nasrudin. Conhecendo o mundo pelo olhar da cultura indígena: Tekoa, conhecendo uma aldeia indígena; Iarandu, o cão falante; A ajuda do Saci; Kamba’i e A invenção do mundo pelo Deus-curumim. Conhecendo o mundo pelo olhar da literatura de cordel: A pedra do meio-dia ou Artur e Isadora, literatura de cordel. Conhecendo o mundo pelo olhar da cultura brasileira: Armazém do folclore; Meu livro de folclore; Coleção O Brinquedo Faz a História. Comece apresentando os livros. Peça a cada aluno para escolher um dos cinco grupos. Com os alunos divididos, instigue-os a ler e conhecer mais profundamente a cultura e a identidade de cada um dos povos. Os alunos podem explorar os livros através de diferentes linguagens artísticas. A turma poderá montar uma grande feira de cultura para apresentar o resultado do projeto Conhecendo o Mundo. Pode ter comidas de diversos pontos do Brasil e do mundo. Cartas inventadas contando sobre personagens da época da escravatura. Brinquedos criados pela turma a partir da coleção O Brinquedo Faz a História. Roda de leitura. Pinturas de temáticas indígenas que poderão ser feitas em telas ou no próprio corpo, utilizando tintas específicas. Textos em cordel a partir de histórias da cultura paratiense. Ou quem sabe uma adaptação de Nasrudin ou A formiga Aurélia e outros jeitos de ver o mundo para o cordel? O professor de Educação Física pode entrar no projeto usando o livro Ca­poeira. Quem sabe alguns alunos inventam uma história a partir da capoeira e contam essa história jogando capoei­ra e representando uma narrativa corporal? O professor de História pode embarcar no projeto trazendo novas histórias da cultura de cada um dos povos. O professor de Artes pode montar com os alunos alguns painéis

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ilustrados representando a pintura desses povos. Mas para que as pinturas tenham qualidade artística, recomendamos que o professor apresente técnicas diferenciadas aos alunos, que estude com a turma a melhor maneira de representar em imagens a história de cada cultura. Vale mergulhar nas ilustrações dos livros, mostrando que existe um leque diferenciado de ilustrações, e levantar a seguinte questão: por que será que esse ilustrador utilizou essa técnica e não outra? Essas cores e não outras? Cada aluno poderá escolher como vai criar a sua pintura. Quem sabe os alunos criam xilogravuras? Conforme nos conta o site www.paratyvirtual. com.br/indios.asp, em Paraty existem duas reservas tupi-guaranis. Que tal os alunos visitarem essas reservas para conhecer como vivem esses indígenas e conhecer um pouco da cultura. Será que existe alguma relação entre a aldeia desses indígenas e a aldeia de Olívio Jekupé, que também é guarani? Que tal o grupo responsável por esse tema mergulhar na pesquisa e apresentar algum resultado do encontro com esses indígenas de Paraty. Os jovens de hoje estão totalmente conectados. Precisamos também oferecer a eles a possibilidade de criação de alguma releitura das histórias utilizando os recursos audiovisuais, virtuais, tecnológicos. Quem sabe os alunos podem criar um vídeo sobre A invenção do mundo por um curumim paratiense? Ou um booktrailer de Simbad e suas aventuras? Ou um blog inventando um Armazém do folclore paratiense? Ou uma comunidade virtual chamada Para Além das Fronteiras, apresentando histórias a partir de O ABC do Japão ou de qualquer um dos livros de outras culturas?

A formiga Aurélia e outros jeitos de ver o mundo e Nasrudin, de Regina Machado, ilustrados por Angela-Lago — Companhia das Letrinhas

A ajuda do Saci, Kamba’I, de Olívio Jekupé, ilustrado por Rodrigo Abrahim — Editora DCL Simbad, o marujo, de Stela Barbieri, ilustrado por Fernando Vilela — Cosac Naify

A pedra do meio-dia ou Artur e Isadora, literatura de cordel, de Braulio Tavares, ilustrado por Cecilia Esteves — Editora 34 ABC do Japão, de Stela Barbieri, ilustrado por Fernando Vilela — Edições SM Tekoa, conhecendo uma aldeia indígena, de Olívio Jekupé, ilustrado por Maurício Negro — Global O livro das cobras, de Stela Barbieri, ilustrado por Fernando Vilela — Editora DCL

Quem sabe os jovens não começam a perceber que as diferenças entre os povos também estão repleta de igualdades? Um excelente trabalho pode ser a criação de um documentário sobre a cultura africana, contando sobre a escravatura e suas nuances. Mas o grande barato desse documentário será fazer um paralelo entre os livros lidos e os acontecimentos do tempo em que os escravos viveram em Paraty. Quem sabe uma visita à comunidade quilombola do Campinho da Independência (projetonegrosenegras.blogspot.com.br/2008/07/ comunidade-quilombola-de-paraty-rj-une. html) não seja um caminho para essas descobertas e outras que certamente virão? O livro das cobras pode inspirar a criação de histórias a partir do olhar da cidade de Paraty e seus arredores. Quem sabe a inspiração não venha com histórias de origem indígena, africana, caiçara, ou mesmo com histórias de folclore contadas através dos tempos pelos avôs ou pelos contadores de histórias locais? A criação de livro virtual contando essas histórias pode gerar um resultado muito interessante. Acreditamos que ficou claro que cada livro pode abrir muitos caminhos e que o papel do professor mediador de leitura nunca deve ser o de fechar os caminhos, mas sim o de abrir novos horizontes, para que livros e vida se entrelacem trazendo novos olhares para a história de cada um. Estes livros podem mexer muito com o imaginário dos alunos. E reconhecer que temos olhares diferenciados é muito bom. Conhecer novas culturas, revisitar as culturas com um novo olhar, pode ser maravilhoso. Terminaremos com algumas palavras que Ailton Krenak usou na apresentação do livro Tekoa. Ailton nos coloca como viajantes de mundos imaginários. “Atravessamos fronteiras para capturar histórias, imagens, seres, memórias.” Temos poesia, vento nos olhares e olhares abertos para o deslumbramento do tempo. Vamos então nos abrir para esse deslumbramento do tempo, das histórias e permitir que elas nos levem a conhecer outras terras, outras culturas, nossa própria cultura, que tantas vezes mal conhecemos... Sejamos viajantes do tempo e dos livros! E deixemos que tudo isso nos conte novas histórias, nos reinventando a cada momento um pouco mais.


Tudo pode ser diferente!

Vento entende de tempo? O que o vento sabe inventar se só ele sabe quanto sentimento o tempo tem? Pode um lago morar num cartão-postal? E dentro desse cartão pode morar uma fada? E menino? Pode morar num cartão-postal? E pode alguém com tanta liberdade sentir tanta tristeza? Você sabe como alguém pode ter o olhar parado no tempo? O menino Tom sabe... Você conhece alguma criança que ame fazer perguntas? Ruth Rocha conhece. Marcelo vivia perguntando por onde a chuva cai, por que o mar não derrama, por que cachorro tem quatro patas e muito mais. Será que chegadas e partidas possuem cores e cheiros? E sentimentos? Existe um artista em cada um de nós? E um quê de preguiçoso, solitário e guloso? E será que temos ou não qualidades? Será que um só menino pode empinar a travessia do tempo? O que pode acontecer quando uma velha perde sua mala e seus cocos numa viagem de ônibus? O pai partiu levando uma enorme mala. Para onde será que foi? Fazer o quê? Com quem? Será que vai voltar? O que será que levou na mala? E por que fez a mãe chorar, se ela nunca chorava? Pode o céu ser teto de alguma coisa? E será que o sempre pode acabar? Pode existir chuva num cartão-postal? Será mesmo que o que os olhos não veem o coração não sente? E o que será que pode acontecer quando um rei adoece e não consegue mais enxergar o seu povo, quer dizer, só consegue enxergar os grandes e fortes e esquece os pequeninos que falam baixinho?

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Quantas mães cabem em uma única mãe? Complexa essa pergunta, você não acha? E será que avó sabe contar lorotas? Ou desde quando um cachorro tem um balde na cabeça? Pode cair do céu uma chuva de flores? Obax sabe que sim, mas será que vão acreditar na menina? Só que todos se perguntam: como pode chover flores onde pouco chove água? Como se pode provar que uma história é verdadeira? Rostos e máscaras? Para que servem? Uma farra pode virar bloco? Uma rima pode virar música, com tambor e zabumba? Como nasce o carnaval? Ah! Pergunte ao Zé Pereira. E como será que um menino reinventa a sua própria história? Pergunte ao Tuhu, o menino Villa-Lobos. E você consegue imaginar o que vai acontecer quando Júlio Verne encontrar Santos Dumont? Só para adiantar, contamos que os dois juntos descobrem como dar asas ao homem e fazer voar o coração e o pensamento através dos ventos e inventos com os seus balões.

Um pé de vento, escrito e ilustrado por André Neves — Editora Projeto Um sujeito sem qualidades, escrito e ilustrado por JeanClaude R. Alphen — Scipione

Cartão-Postal, de Luiz Raul Machado, ilustrado por André Neves — Editora DCL O menino do beco da pipa, de Ninfa Parreiras, ilustrado por Andrea Ebert — Larousse

Tom, escrito e ilustrado por André Neves — Editora Projeto A velha dos cocos, de Ninfa Parreiras, ilustrado por Marcelo Ribeiro — Global Editora

Bem, comecemos agora a explicar de onde surgiram essas perguntas. Já imaginou, não é mesmo? Dos livros deste eixo temático, é claro! Vamos agora colocar os títulos referentes às perguntas e depois pensar como Tudo pode ser diferente! Como podemos inventar o avesso das coisas e descobrir o que mora nos vazios e nos sonhos.

Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias, Biblioteca Ruth Rocha, Série Marcelo, marmelo, martelo, de Ruth Rocha, ilustrado por Mariana Massarani — Salamandra A mala do meu pai, de Mirna Pinsky, ilustrado por Patrícia Lima — Scipione Um teto de céu, de Ninfa Parreiras, ilustrado por André Neves — Editora DCL


Este eixo temático agrupou livros que podem nos mostrar novos olhares sobre cada um dos temas que abordam. O mais gostoso aqui será ler todos os livros e descobrir o que pode ser diferente, seja na linguagem, na abordagem do tema, nas entrelinhas das histórias. Com que livro será que cada aluno irá se identificar mais? Por quê? Seguindo a linha do imaginário no poder, que é um pouco a tônica do manual deste ano, crie coisas mágicas com seus alunos, faça inventos imaginados, deixe que eles usem todo o potencial criativo para viajar ao máximo com as histórias. Para dar asas à imaginação, crie o Território do possível, onde Tudo pode ser diferente! Invente um pé de vento e descubra o que pode nascer dessa árvore. Mergulhe com a fada no cartão-postal e confeccionem cartões-postais para serem trocados entre os alunos, contando sobre tristezas, liberdade e sonhos. Pense com a turma como podemos ter o olhar parado no tempo, o que será isso? E o que será que quem tem esse tipo de olhar consegue ver? Crie um painel com ilustrações de quem tem o olhar parado no tempo ou pequenos vídeos com os alunos entrevistando pessoas e fazendo esta pergunta: você sabe o que é ter o olhar parado no tempo? Ao final das entrevistas, um aluno pode contar a história do livro Tom, no vídeo, deixando no ar a possível resposta para essa pergunta. Crie uma sala das palavras pelo avesso, onde tudo pode ganhar novas possibilidades, reinventando a linguagem e o nome das coisas e dos alunos. O que será que chega e parte na vida da cada um? Crie um álbum ilustrado com As coisas que chegam... e as coisas que partem... Cada aluno irá contar com palavras e imagens o que chega e o que parte em sua vida. Confeccionem pipas com mensagens de amor e esperança e soltem em algum lugar bem bonito e seguro. Confeccionem cartões-postais com sonhos que podem ser libertados e enviem para alguém especial.

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Descubram juntos um jeito especial de contar aos adultos que uma história inventada pode ser verdadeira. Você sabe como e onde isso acontece? Quem sabe o sujeito sem qualidades pode ajudar! Quantas mães cabem nas mães de cada um? Crie um inventário sobre as mães. Pense em uma maneira criativa de registrar esse inventário. Pode ser em um livro, um álbum ilustrado, em vídeos, blogs, fotos das mães em diferentes momentos. Use a imaginação, mas permita que cada aluno registre o inventário de sua mãe (ou mesmo da ausência dela, se for o caso) à sua maneira. O que cabe na mala de quem parte? E o que será que quem fica sente com as partidas? Leve uma mala vazia para a sala de aula e deixe que cada aluno guarde nessa mala suas dores e tristezas, para que fiquem morando lá para sempre. Que tal criar músicas ou poesias contando o que os olhos não veem: o que os olhos dos seus alunos não veem? O que os seus olhos não veem? O que os olhos dos políticos não veem? E por aí vai... Pode-se fazer um sarau para a apresentação do resultado dos trabalhos. Paraty é uma cidade tão convidativa para saraus musicais poéticos. Que tal a criação da Companhia de Teatro Caras e Máscaras para dar asas ao homem e fazer voar o coração e o pensamento através dos ventos e inventos? Que inventos serão esses? Como o coração pode voar? Como se alcança os limites dos sonhos? Como se inventa algo nunca antes inventado? Como podemos fazer tudo ser diferente? O que precisamos alçar voo (ou seja, o que precisamos ousar ou fazer diferente) em nós para ver o mundo com o olhar renovado? Será que o cientista é também um artista? Os alunos que integrarem essa companhia teatral podem criar um espetáculo contando tudo isso e mais um pouco. Para terminar este eixo temático, recorremos a dois autores, para que suas palavras sirvam de reflexão para você, professor, entender que as coisas podem sim ser diferentes e que muitas vezes as crianças possuem olhares para o mundo que nós, adultos, desconhecemos ou negligenciamos. Que possamos entender as alegrias, os vazios e as tristezas das crianças. Que possamos dar asas à imaginação dessas crianças, para que possam de fato reinventar seu mundo e suas histórias a partir do que a leitura destes livros poderá provocar em cada uma. Fiquemos então com a fala dos dois autores.

O que os olhos não veem, Biblioteca Ruth Rocha, Série Reizinho Mandão, de Ruth Rocha, ilustrado por Carlos Brito — Salamandra OBAX, escrito e ilustrado por André Neves — Brinque-Book

As muitas mães de Ariel e outras histórias, Coleção Mindinho e seu Vizinho, de Mirna Pinsky, diversos ilustradores — Atual Coisas que chegam, coisas que partem, de Ninfa Parreiras, ilustrado por Claudia Ramos — Cortez

Viva o Zé Pereira!; Tuhu, o menino Villa-Lobos e Os meus balões, o incrível encontro de Júlio Verne com Santos Dumont, Coleção Caras e Máscaras, de Karen Acioly, projeto gráfico original de Marcelo Martinez/Laboratório Secreto — Rocco Jovens Leitores

Janusz Korczak, em seu livro Quando eu voltar a ser criança: “Fico sentado, pensando. Eu e milhares de crianças em milhares de quartos pensando, ao anoitecer, nos milagres e nas tristezas da vida. Naquilo que acontece dentro e em volta de nós. Os adultos desconhecem estes nossos pensamentos. No máximo: O que é que você está aprontando aí? Por que não está brincando? Por que está tão calado? Acontece que a criança, depois de um pouco de bagunça, correria e descobertas de coisas novas, sente desejo de conversar em silêncio consigo mesma. Mas só uma, em cada mil, encontrará apoio num adulto. Ou num amigo.” E Fayga Ostrower, em seu livro Acasos e criação artística: “Basta ver a alegria contagiante das crianças, inteiramente absorvidas em seu fazer, para se ter uma idéia da grande aventura que é criar. Aventura, entrega e conquista; rumo a novas experiências e novos mundos. É como se as crianças desde sempre soubessem colher a essência do ser. E em nós, adultos, perdeu-se o olhar aberto das crianças? Terá cessado para sempre o senso da aventura do viver, a curiosidade ou a coragem de tentar com­preender? O potencial criador não é outra coisa senão esta disponibilidade interior, esta plena entrega de si e a presença total naquilo que se faz. Ela vem acompanhada do senso do maravilhoso, da eterna surpresa com as coisas que se renovam no cotidiano, ante cada manhã que ainda não existiu e que não existirá mais de modo igual, ante cada forma que, ao ser criada, começa a dialogar conosco. É nossa sensibilidade viva, vibrante.” Dito isso, vamos então mergulhar no mundo das histórias e embarcar ludicamente no Território do possível, onde Tudo pode ser diferente!


Qual é a cor do seu traço?

Este eixo temático é focado no trabalho dos ilustradores. Os livros selecionados para o manual são lindamente ilustrados e poucos são os leitores que leem as imagens dos livros com o devido valor que merecem. Precisamos aprender a ler as imagens, sobretudo nos livros para crianças, nos quais existe uma grande interação entre texto e ilustração. Muitas vezes a história está sendo contada exatamente na interseção entre essas duas linguagens. Não sei se você já reparou, mas é muito comum escutarmos crianças, jovens e adultos falarem: ah! Eu não sei desenhar... Mas o que será não saber desenhar? O que será que nos impede de desenhar e experimentar usar lápis, pincel, tinta, papel para criar imagens? Muitas vezes o medo e a insegurança nos impedem. Ou o fato de não sabermos desenhar alguma coisa específica ou acharmos que todos precisam seguir um padrão de desenho. O fato é que todos, alunos e professores, podem resgatar a cor do seu traço. Não para virarem ilustradores! Se alguém quiser virar ilustrador, vai precisar estudar, se aprofundar, mergulhar cada vez mais nas questões que envolvem a arte da imagem, as técnicas e tudo o mais que for necessário. Mas podemos perfeitamente usar os materiais de artes visuais apenas para nos expressarmos e resgatarmos a cor do nosso traço e dos nossos desenhos. Daqueles que sabíamos fazer tão livremente quando éramos pequenos, antes de nos depararmos com uma censura imensa.

Por isso, sugerimos que, antes de mergulhar nos livros deste eixo temático, você crie um trabalho com os alunos, mostrando diversos livros sobre a vida e obra dos grandes pintores. Para que eles percebam que existe uma diferença imensa entre o trabalho de cada um. Não só pela época em que viveram, mas também pelas tendências e pela maneira de se expressar artisticamente. Existem tantos livros sobre História da Arte e boas biografias, como as de Picasso, Monet, Van Gogh, Modigliani, Paul Klee, Michelangelo, Da Vinci, Miró e tantos outros. Certamente na biblioteca da Casa Azul há alguns livros com a história desses artistas para jovens leitores. Pegue emprestado alguns, leve para a escola e compartilhe com seus alunos. Mostre como cada um dos pintores tinha um jeito de se expressar. Isso pode fazer com que cada aluno entenda que não somos iguais, não nos expressamos de forma igual e que toda criação artística é realmente muito singular. Leiam os livros e discutam sobre traços, cores, formas, estilos. Só depois mostre os livros selecionados para este eixo, para que possam ver como cada ilustrador também tem seu próprio traço, sua cor, sua identidade visual.

Vic, de Cristiane Dantas, ilustrado por Jean-Claude Alphen, Coleção Barco a Vapor, Série Laranja — Edições SM As crianças vão ficar doidas!, de Tino Freitas, ilustrado por Mariana Massarani — Manati Do outro lado da rua, escrito e ilustrado por Cris Eich — Editora Positivo

O menino que caiu no buraco, de Ivan Jaf, ilustrado por Cris Eich e JeanClaude Alphen, Coleção Barco a Vapor, Série Laranja — Edições SM A cabeça de Sol, de Pauline Alphen, ilustrado por Jean-Claude Alphen — Rocco, Selo Fio O vampiro Argemiro, de Dilan Camargo, ilustrado por Eloar Filho (agora assinando Eloar Guazzelli) — Editora Projeto Os pescadores e as suas filhas, de Cecília Meireles, ilustrado por Cris Eich — Global Editora A troca, de Bia Hetzel, ilustrado por Jean-Claude Alphen — Manati Os doze trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato, ilustrado por Cris Eich — Editora Globo/Globinho

Vamos então aos livros selecionados para este eixo temático:

As orelhas de Mariposa, de Luisa Aguiar, ilustrado por André Neves — Callis Casulos, de André Neves — Global Editora Diário de um guri, de Carlos Urbim, ilustrado por Eloar Filho (agora assinando Eloar Guazzelli) — Editora Projeto

Vizinho, vizinha, de Roger Mello, ilustrado por Graça Lima, Mariana Massarani e Roger Mello — Companhia das Letrinhas

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Pescador de naufrágios, de Ana Maria Machado, ilustrado por Igor Machado e Meton Joffily — Moderna A Nau Catarineta, de Ana Maria Machado, ilustrado por Estúdio Mimo (Meton Joffily) — Moderna

Um dia de chuva, de Eça de Queiroz; A árvore dos desejos, de William Faulkner, e Pawana, de J. M. G. Le Clézio, ilustrados por Eloar Guazzelli, Cosac Naify

Meu bicho de estimação, de Yolanda Reyes, traduzido por Marina Colasanti, ilustrado por Mariana Massarani — FTD

O pagador de promessas em graphic novel, de Dias Gomes, ilustrado por Eloar Guazzelli — Nova Fronteira Umbu, Coleção Um pé de quê?, texto adaptado por Fabiana Werneck Barcinski, ilustrado por Eloar Guazzelli — WMF Martins Fontes Demônios em quadrinhos, de Aluíso Azevedo, por Eloar Guazzelli — Peirópolis

Os livros nesta página também estão presentes no eixo temático Passeios pelo bosque da juventude: poesia, amor, dor e ousadia!, mas estão neste eixo temático por conta de seus ilustradores.

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Leiam os livros, promovam debates sobre as ilustrações. Façam uma análise de cada livro, cada traço, cada estilo dos ilustradores. Anotem os nomes dos ilustradores desse eixo temático e procurem outros livros deles nos outros eixos. Descubram se possuem semelhanças de traço de um livro para outro (do mesmo ilustrador) ou se são muito diferentes. Pensem e discutam se a diferença de traço de cada ilustrador tem a ver com o texto que ele está ilustrando. Percebam todas as nuances que envolvem a relação texto-imagem em cada livro. Observem o projeto gráfico de cada livro, a escolha do papel, do formato, se as capas possuem uma orelha diferenciada, alguma textura. Por que será que cada um desses livros foi pensado dessa maneira e não de outra? Por que será que algumas ilustrações são em preto e branco e outras são coloridas? Leiam as imagens e descubram o que elas têm para contar. Com quais ilustradores os alunos se identificam mais? Por quê? Depois, “mergulhem” nos livros, nas ilustrações e vejam o que elas podem contar. A partir daí montem um grande ateliê de artes na escola, seja transformando a sala de aula num ateliê ou, se a escola tiver sala de artes, incrementando ainda mais esse espaço. Como se a escola por alguns dias pudesse virar um grande ateliê e as artes andassem em pé de igualdade com as ciências. A partir daí, comecem a criar pinturas, desenhos, grafites, fotografias, enfim, tudo que a imaginação puder alcançar. Quem sabe a partir dos livros lidos, os alunos não resolvem criar pinturas em telas ou tecidos? Ou quem sabe não preferem grafitar os muros da escola, se for possível e permitido? Ou criar uma graphic novel ou um livro de imagens? Ou uma exposição de fotografias? Quem sabe resolvem pegar textos clássicos e adaptar para os quadrinhos? São tantas as possibilidades… mas o mais importante neste eixo é permitir que cada aluno se expresse por imagens, descobrindo, ou resgatando (caso um dia tenham perdido), a cor do seu traço e da sua identidade visual (que pode ser bem diferente da de seu colega de turma). Por isso, insistimos que o mais importante é que os livros permitam esse mergulho na busca de uma identidade visual, para que cada um possa criar suas próprias histórias com imagens. Então vamos lá: vamos brincar de pintar o sete com a moçada? Mãos à obra para criar um ateliê de artes supertransado e deixar que os alunos criem suas imagens livremente a partir dos livros.


Edições SM

Ática / Scipione Evocação Marcia Kupstas

Aperte aqui Hervé Tullet

Magda decide narrar sua primeira experiência com o sobrenatural, ocorrida seis anos antes em uma viagem à praia com uns amigos e a avó. Durante o passeio, a convivência e o ciúme a fizeram alimentar ódio por Bárbara, e ela resolveu pregar uma peça na colega. Aproveitando a história sobre a morte de um adolescente surfista, Magda propôs que tentassem se comunicar com ele. Mas a brincadeira ganha contornos de realidade quando elas começam a vivenciar eventos sobrenaturais.

Tudo começa com uma bola amarela no centro de uma página branca e um convite: aperte a bola e vire a página... Como num passe de mágica, surgem duas bolas na página seguinte. A partir daí, novos convites e novas surpresas se descortinam a cada página. Hervé Tullet criou um universo visual simples e convidativo, em que bolas coloridas se multiplicam, mu­dam de lugar, se iluminam, se apagam, mu­dam de tamanho... Para que isso aconteça, a criança precisa interagir com o livro, esfregando, soprando, apertando ou batendo palmas. Uma brincadeira deliciosa para pais e filhos compartilharem muitas e muitas vezes.

Companhia das Letrinhas

O menino Fabrício, de 7 anos, passa férias com o avô enquanto seus pais tentam se reconciliar após várias brigas. Durante a visita do neto, o avô conta a história de Votupira, criatura temível: rápida como onça, enganadora como cobra, pior que fantasma. Feito moleque, Votupira brinca de esconde-esconde, assusta crianças, mas também cria o eco, faz bolhas de sabão, acaricia o rosto dos ciclistas e, como o amor, está por toda parte.

Bichos da cidade Heitor Ferraz Mello — ilustração Béa Meira Desde cedo, quando o dia começa, até a noite, na hora de dormir, eles passeiam soltos e barulhentos. Guarda-chuvas, celulares, guindastes, aviões, carros, motos... Mas que bichos esquisitos são esses? É tamanduá ou aspirador de pó? É besouro ou helicóptero? É cobra ou parede? Bichos domésticos, bichos de rua, há um monte deles por aí e outros bem debaixo do nosso nariz! Basta prestar atenção, como mostra este divertido livro de poemas e desenhos.

Editora 34

Quem soltou o pum? Blandina Franco

João e o bicho-papão Sinval Medina

Felizes quase sempre Antonio Prata — ilustrações de Laerte

A história é simples, mas a sacada é das boas: imagine um cachorrinho de estimação que se chama Pum! Disso dá para tirar diversos trocadilhos, criando frases e situações realmente hilárias. É um tal de não conseguir segurar o Pum, que é barulhento e atrapalha os adultos, de dizer que o Pum molhado, em dia de chuva, fica mais fedido ainda, o que faz o menino passar muita vergonha. Pobre Pum. E pobre dono do Pum! Mas não tem jeito, com o Pum é assim mesmo: simplesmente ninguém consegue evitar que ele escape e cause certos inconvenientes.

João quer virar um caçador conhecido e, para isso, nada melhor do que encontrar o horripilante bicho-papão! Assim, cheio de coragem, mas sem muita certeza de que o monstro existe de verdade, o garoto começa a sua jornada. Pelo caminho, cruza com índios, macacos, cegos e outros seres, que o ajudam — ou o atrapalham — a chegar mais perto do bichano misterioso. Será que ele vai conseguir? O final da história é surpreendente… Escrito em versos, o livro reproduz a estética do cordel, assim como as ilustrações de Renata Bueno, que mostram os mapas que o garoto desenha ao longo de sua viagem. Ao final da história, um texto explica as origens da literatura de cordel.

Todo mundo sabe que um bom conto de fadas acaba com a princesa e seu príncipe encantado vivendo felizes para sempre. Mas o que pouca gente sabe é o que acontece ou deixa de acontecer quando a história termina. Antonio Prata e Laerte mostram em Felizes quase sempre, em deliciosos detalhes, como é essa tal vida perfeita e como a felicidade “para sempre” pode se transformar num problemão. E provam, com muita graça, que até no mundo encantado uma infelicidadezinha de vez em quando não faz mal a ninguém.

Cosac Naify

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Votupira, o vento doido da esquina Fabrício Carpinejar – ilustração Elizabeth Teixeira

Animais Arnaldo Antunes e Zaba Moreau — ilustrações do Grupo Xiloceasa O que as palavras e os bichos têm em comum? Acima de tudo, uma grande vontade de se divertir. Foi isso que Arnaldo Antunes e Zaba Moreau descobriram quando começaram a compor os micropoe­mas deste livro. Em Animais, cada página traz uma palavra inventada que condensa uma multiplicidade de sentidos. Acompanhando a brincadeira, os jovens artistas do Grupo Xiloceasa realizaram cerca de trinta gravuras em madeira e combinaram letras de formas e tamanhos diferentes para ilustrar poeticamente esse zoológico fantástico.

Editora do Brasil

Uma princesa nada boba Luiz Antonio — ilustração Biel Carpenter

Cafundó da infância Carlos Lébeis — ilustração Anita Malfatti

Adivinha só! Rosinha

E algo aconteceu naquele dia… Jonas Ribeiro — ilustração Lúcia Brandão

“Por que eu não podia ser igual a uma princesa?”, é a pergunta da protagonista deste livro e de muitas meninas reais que aparentemente não se encaixam nos padrões de beleza que veem na televisão e nos livros: cachos dourados, rosto fino, pele clara... Quando vai até a casa da avó com esse questionamento na ponta da língua, a menina vive uma transformação ao descobrir a história de princesas africanas que existiram de verdade e até vieram para o Brasil. Explorando elementos poucos conhecidos da cultura africana, Luiz Antonio fala de busca da identidade. Para princesas de todas as etnias.

Uma obra rara em todos os sentidos: Cafundó da infância traz um texto nunca publicado de Carlos Lébeis, ilustrado com seis aquarelas também inéditas de Anita Malfatti. No livro há a mesma inquietação que vemos em Monteiro Lobato — contemporâneo e amigo de Lébeis —, um ideal de literatura moderna para crianças. Datado de 1936, trata, também, de algo bastante atual: a preservação do meio ambiente.

Charadas são legais, claro, mas João gosta delas até demais. Ele só pensa por meio de enigmas. Além disso, é apaixonado por uma linda princesa, que, por sua vez, é muito complicada. Um dia, porém, a princesa é raptada, e ele, apaixonado, decide fazer o que for preciso para salvá-la. No caminho, João irá resolver várias adivinhas difíceis para alcançar seu objetivo. Será que ele conseguirá? Você também participará dessa aventura ajudando João a resolver os enigmas dessa história divertida e surpreendente.

Esta história, aparentemente singela, revela como pequenos gestos podem fazer a diferença na vida das pessoas. Um ato de honestidade, uma palavra amiga, um cuidado especial, uma atitude generosa, um voto de confiança… Em apenas um dia, várias pessoas e situações vão se cruzar para nos mostrar como na vida não podemos, nunca, perder a fé nem a esperança.

As sugestões de leitura acima foram feitas pelas editoras parceiras da Flipinha, que apoiam o programa permanente de incentivo à leitura da Associação Casa Azul


Editora Globo

Escala Educacional / Editora Lafonte

Reinações de Narizinho Monteiro Lobato

O picapau amarelo Monteiro Lobato

O canto do uirapuru Marcelo Cipis

O amigo dos animais Stela Barbieri e Fernando Vilela

Reinações de Narizinho, um clássico da literatura infantil brasileira, foi publicado originalmente em 1931. O livro narra as primeiras aventuras no Sítio do Picapau Amarelo e apresenta Emília, a boneca de pano tagarela, Tia Nastácia, famosa por seus deliciosos bolinhos, Dona Benta, uma avó muito especial, e sua neta Lúcia, a menina do nariz arrebitado. Lúcia, mais conhecida como Narizinho, é quem transporta os leitores a incríveis viagens pelo mundo da fantasia. Com este livro, Lobato inventou um jeito especial de escrever para as crianças que até hoje serve de inspiração aos autores infantis.

Depois de receber uma carta do Pequeno Polegar, Dona Benta aceita ter os habitantes do País das Maravilhas como moradores do Sítio do Picapau Amarelo. Com a presença de Peter Pan, Dom Quixote, Branca de Neve, Aladim, Gata Borralheira, o Sítio se torna palco de grandes aventuras, como quando o Mar dos Piratas transbordou e alagou o castelo da Branca de Neve, causando medo na princesa e nos anões. Essa e muitas outras reinações estão em Picapau Amarelo, o incrível sítio onde tudo pode acontecer.

Quase o ano todo, o uirapuru fica quieto no seu canto. É quase, e não o ano todo, porque tem um dia, só um dia, que ele resolve cantar e espalhar pelos cantos o seu canto... Será que é hoje? Canta uirapuru! Neste livro, brincando com o canto da ave e os cantos nos quais se vive, sempre com muito humor, Marcelo Cipis apresenta o uirapuru — ave característica da região amazônica.

Cauã era um sábio indiozinho que, quando sonhava, encontrava os animais da floresta e com eles conversava de igual para igual. Como a ação do homem branco provocou um grande desequilíbrio na cadeia alimentar da tribo, a sabedoria do pajé da tribo e os sonhos de Cauã ajudaram a restaurar o equilíbrio da natureza.

Editora Projeto

Melhoramentos

A princesa desejosa Cristina Biazetto

Museu desmiolado Alexandre Brito — ilustração Graça Lima

Narrativa infantil que marca a estreia da ilustradora como autora. É a história de uma princesa, que nasceu numa manhã de cores fortes e perfumes intensos, e de um príncipe, que chegou tempos depois, cheio de curiosidades de viajante. Mas antes desse encontro, muita coisa acontece... Desde que nascera, a Desejosa Princesa queria tudo o que via. À medida que crescia, cresciam também suas ambições e o medo de seus súditos, que acabam por fugir do reino. Sozinha, um dia ela se vê tomada por um desejo diferente e descobre algo que importa mais que tudo.

Poemas que falam de divertidos e intrigantes museus: museu do silêncio, museu do fim do mundo, museu das palavras esquecidas, museu do chulé, entre outros. Através das brincadeiras com o sentido das palavras e das imagens que surpreen­dem, poeta e ilustrador nos fazem pensar para que servem, afinal, os museus. Ao mesmo tempo que brinca com a ideia de museus tão estapafúrdios, o autor o faz de um modo muito a sério: com uma linguagem bastante requintada, apostando na inteligência e na curiosidade do leitor.

Editora Saraiva / Selo Formato

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Teimosinha Fabricio Carpinejar — ilustração Guto Lins Em primeira pessoa, a personagem Lucila nos conta por que o aniversário é o dia mais triste da vida dela. Um relato poético e envolvente, vestido com ilustrações lúdicas e inusitadas, que revela, página a página, emoções escondidas por trás de belíssimas decorações de festa.

O cravo brigou com a rosa Ricardo Filho — ilustração Tatiana Móes Uma das cantigas mais populares do nosso país, O cravo brigou com a rosa está sempre presente no cotidiano e no imaginário de toda criança. Ricardo Filho se viu às voltas com essa ciranda e, em meio ao jardim de nossa infância, recontou a história. Tatiana Móes chegou com seu traço e suas cores, revelando o seu canto. Foi um encontro de muitos caminhos, para nova brincadeira de roda.

Moderna / Salamandra

A menina e o sol Madalena Freire e Constança Lucas

Cores em cordel Maria Augusta de Medeiros

A menina e o sol retrata, de maneira sensível e poética, os “porquês” das crianças. Perguntas simples, e, por isso mesmo tão profundas, sobre a existência, o mundo, os afetos e a vida. Muitas das perguntas que as crianças se fazem, têm a possibilidade de um aprofundamento bem lapidado e sensível, dentro de um curto diálogo na essência que o fio da pergunta lança. É um diálogo que instiga o “desembrulhar” da menina para outras e mais outras perguntas... sendo fiel às inquietações das crianças ao se debruçarem, curiosas, para conhecer o mundo.

As cores são presentes oferecidos ao nosso olhar. Porém, é o dom da palavra que permite dar a cada cor um nome que faz com que ganhe alma e significado tão certeiros. Isso nos permite enxergar as cores e, mesmo sem vê-las, apenas com os olhos do coração. Em Cores em cordel, do selo Formato, Maria Augusta de Medeiros contempla os leitores com uma singela descrição das cores, começando por aquela que é a ausência de todas elas, o branco, viajando pelas cores primárias e as composições que formam as secundárias e terciárias, aliando o cordel às belíssimas ilustrações de Gilberto Tomé.

As sugestões de leitura acima foram feitas pelas editoras parceiras da Flipinha, que apoiam o programa permanente de incentivo à leitura da Associação Casa Azul

Os miseráveis de Victor Hugo — tradução e adaptação Walcyr Carrasco Após cumprir pena de trabalhos forçados por quase vinte anos, Jean Valjean é posto em liberdade. Seu coração está cheio de ódio e rancor. Sem ser aceito em nenhum lugar, encontra abrigo na casa do bispo, que lhe oferece comida e pouso. Mas a amargura e a revolta que traz no coração fazem com que Jean Valjean não reconheça a generosidade recebida. A partir desse acontecimento, Jean Valjean vai descobrir uma fé que julgava morta dentro dele, e qualidades que também desconhecia haver em si próprio.

Quem tem medo de quê? Ruth Rocha Todo mundo tem medo — e isso pode ser bom. O que a gente não precisa é ter medo das coisas que não existem. Nos livros desta série, você vai conversar com Ruth Rocha sobre seus medos... E descobrir outros que nem imaginava que existiam. E, principalmente, vai aprender que o humor é a melhor maneira de enfrentá-los!


Fundação SM

Paulinas

Rita distraída Armando Antenore e Rita Taraborelli

Mestre gato e comadre onça Carolina Cunha

Rita deseja se distrair, esse é o jeito que encontrou para “escapar das garras do chão”. Como é uma menina muito criativa, consegue fazer isso de formas incríveis: flutua no vapor de uma chaleira, varre o espaço numa banana zepelim e até atravessa um céu de frutas com sua bicicleta-balão. Assim, percorre lugares inusitados, cheios de novos sabores, texturas e cores.

Mestre gato, exímio capoeirista, se aventura no mundo com seu berimbau. Toma um caminho nunca antes trilhado no meio da mata e se depara com uma clareira boa para botar capoeira. Instala-se ali, coloca uma placa no pau-pereira oferecendo aulas e logo chegam vários animais. “Venham vadiar, vamos jogar capoeira!”, convida o Mestre. Mas os bichos temem a onça que anda pela área. E se estiverem jogando, distraídos, e a danada aproveitar para abocanhar todos de uma vez? Ca­poeira é jogo mandingueiro, com ela nenhuma onça pode, diz Mestre gato. E não é que ela aparece, pedindo aulas de capoeira?

Nova Fronteira

Maroca e Deolindo e outros personagens em festas André Neves

Uma menina encontrou um livro nada comum, com apenas uma frase: “Era uma vez…“ Intrigada, ficou imaginando que história poderia ser contada. Passou uma cigarra, uma princesa de carruagem, dois irmãos jogando migalhas, um gato de botas, um menino do tamanho de um polegar... Personagens que caberiam naquele livro, não fosse o seu desejo de contar a SUA história. O livro é quase uma metalinguagem dos contos de fadas clássicos.

Maroca e Deolindo, de André Neves, é uma viagem pelo Brasil através das festas regionais. São 12 festas que servem de palco para os contos: Senhor do Bonfim (BA); Carnaval (PE); Procissão do Fogaréu (GO); Marabaixo (AM); Cavalhada (GO); São João (PB); Sairé (PA); Romaria (BA); Farroupilha (RS); Círio (PA); São Benedito (Paraty/RJ) e Nossa Senhora do Rosário (RN). Na obra, André Neves costura poesia e reflexões, ancoradas no barco das tradições folclóricas e as reveste com ilustrações mágicas que confirmam seu estilo singular e talentoso.

Record

Nana pestana Sylvia Orthof — ilustração Rosinha

As margens da alegria João Guimarães Rosa — ilustração Nelson Cruz

Não tem cantiga de ninar? Que ajuda a gente a deslizar do acordado para o sonho? Aqui, a avó Sylvia Orthof faz poesia de ninar. E a gente aprende que sonho escorrega igual casca de banana, que a noite é pastora que conta carneiros, que no mar dos sonhos tem navio e sereia, tem fada e cavalo que voa, vassoura, pudins e purpurinas. Duvida? Mergulhe na poesia de Sylvia e veja se não é um sonho. Dos bons.

“As margens da alegria”, um dos contos do clássico Primeiras estórias, ganha ilustrações de Nelson Cruz e projeto editorial diferenciado para conquistar outras gerações de leitores e possibilitar novas leituras. As margens da alegria desenrola-se numa re­gião não especificada, mas reconhecível, embora o seu cenário seja apenas esboçado. Em Guimarães Rosa, o cenário, os personagens, o mundo, o sertão e a cidade são míticos, mesmo quando revelam suas facetas.

O fio da palavra Bartolomeu Campos de Queirós

Biscoitinho chinês Antonio Skarmeta

Em O fio da palavra, com palavras cheias de musicalidade: fio, novelo, sonho, pedra, fruto, miolo, o autor nos faz pensar sobre a nossa existência, cujo fio é mais fino do que a teia da aranha. Como uma metáfora da vida, seu texto dirige-se para todas as idades, pela força poética, pelos jogos de palavras e pelo trabalho com questões tão universais: a vida, a morte, o amor, o brincar, o desenhar, o inscrever-se na literatura. Ser sujeito que lê e que escreve.

A padaria de Jorge da Silva tem um ótimo ajudante! Nas horas livres, Pedro Amaro adora fazer pães ao lado dos pais, que trabalham na Borboleta Branca. Com as boas vendas, Jorge convida a família do menino e a caixa Maria do Socorro para jantar no restaurante Hong Kong. É lá que os funcionários conhecem os famosos biscoitinhos chineses e onde Pedro recebe uma mensagem inspiradora capaz de mudar seu futuro.

Rocco

Pallas

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Era uma vez… Cacau Vilardo — ilustração Bruna Assis Brasil

A bicicleta que tinha bigodes Ondjaki

Falando tupi Yaguarê Yamã

O leão de tanto urrar desanimou Paulo valente

O tapete voador Caulos

Este livro é um verdadeiro abraço de amizade e de solidariedade. A Rádio Nacional de Angola promove um concurso e oferece como grande prêmio uma bicicleta para a criança que escrever a melhor história. Esse é o pano de fundo para a ficção emocionante de Ondjaki, que nos remete à fantasia presente na infância — amizade, ternura, descobertas —, mas também ao reflexo nas crianças do processo político do país. Nos damos conta de que a busca por algo pode ser mais valiosa que a própria conquista. E que viver boas histórias pode ser tão ou mais emocionante que saber inventá-las.

Estima-se em mais de dez mil palavras a contribuição da língua tupi para o português falado no Brasil. Nomes de lugares, rios, montanhas, plantas e frutas hoje fazem parte da cultura brasileira por todo o território do país. E essa mistura supera as influên­cias de todas as outras línguas faladas no mundo em nosso dia a dia. Falando tupi é uma iniciação ao universo da língua que falavam os que habitavam Pindorama antes de sua descoberta pelos portugueses. Uma forma divertida de apresentar às crianças um pouco da origem das palavras faladas e escritas pelo nosso povo.

Inspirado na peça musical Carnaval dos animais, do francês Camille Saint-Saens, O leão de tanto urrar desanimou é uma divertida fábula que aborda questões como política e democracia de forma bem-humorada. O livro mostra o rei da selva cansado das preocupações e compromissos que o trono real lhe reserva. Mas a busca de um sucessor não é tão simples quanto parece, e em meio aos prós e contras de cada espécie, e aos puxa-sacos e interesseiros de plantão, a convocação de uma eleição entre os animais para escolher seu novo rei mostra-se o melhor caminho para o merecido descanso do leão.

Que criança nunca sonhou em passear por aí num tapete voador? Pois em seu novo livro, o artista plástico, escritor e ilustrador Caulos convida os pequenos a embarcar numa divertida aventura a bordo de um deles. Com seu novo livro, O tapete voador. Com seu traço inconfundível — simples, preciso e bem-humorado —, Caulos percorre diferentes mundos e revisita histórias que fazem parte do imaginário infantil há várias gerações. Um passeio lúdico que dispensa palavras, e ainda assim oferece inúmeras possibilidades de leitura, e que é também uma bela homenagem a todos os livros do mundo.

As sugestões de leitura acima foram feitas pelas editoras parceiras da Flipinha, que apoiam o programa permanente de incentivo à leitura da Associação Casa Azul


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Manual da Flipinha 2013

Associação Casa Azul Diretor-Presidente Mauro Munhoz Direção Executiva Izabel Costa Cermelli (Belita) Núcleo de Educação e Cultura Cristina Maseda supervisão Gabriela Gibrail curadoria Andréa Maseda produção e mobilização comunitária Zulmira Gibrail Costa voluntária Núcleo de Literatura Joana Fernandes supervisão Miguel Conde curadoria Núcleo do Território André Leirner supervisão Juliana Antunes gestão Antônia Moscoso Fernanda Sophia Frederico Teixeira Marina Canhadas Penelope Casal de Rey arquitetura Alexandre Benoit Marcela Souza design

Desenvolvimento Institucional André Leirner planejamento Paloma Cavalcanti gestão Bernadete Passos Pauline Hartmann relações institucionais Lucia Rodrigues parcerias privadas Christopher Mathi Antonia Moura assistentes Produção Sueleni de Freitas produção executiva Roberta Val produção Administrativo-Financeiro André Kim coordenação geral Andrea Marcondes dos Santos Andressa Prado Luciene Silva Priscila Zacharias Roberta Monsalles Thamires Deornellas Wellington Leal Assessoria

Mauro Munhoz direção de criação Atelier Vila das Artes Anna Claudia Ramos Verônica Lessa concepção de conteúdo e produção de textos Vivian Miwa Matsushita revisão Alexandre Benoit Marcela Souza design Dárkon Roque identidade visual André Conti Horácio Moreira Nelson Kon Nelson Toledo Fotos dos autores nas páginas 8 a 45: ©divulgação * As imagens utilizadas nas páginas 8 a 45 são adaptações de ilustrações dos artistas citados no rodapé de cada página As sugestões de leitura das páginas 66 a 71 deste manual foram feitas pelas editoras parceiras da Flipinha, que apoiam o programa permanente de incentivo à leitura da Associação Casa Azul. Entre as ações desse programa estão a criação de bibliotecas e espaços de leitura em mais de 40 escolas paratienses. Imprensa Oficial do Estado de São Paulo CTP, impressão e acabamento Agradecimentos Agradecemos aos autores e a todos os educadores da rede escolar de Paraty.


Associação Casa Azul Paraty Rua João Aires Martins 14 Ilha das Cobras 23970-000 Paraty RJ T +24 3371-7082 F +24 3371-7084 São Paulo R Capitão Antônio Rosa 376 conjunto 91 01443-900 São Paulo SP T +11 3081-6331 F +11 3081-6331

Apoio

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Realização

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Manual Flipinha 2013  

FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty/RJ) - 2013

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