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A estrada é rude e longa. Nos meses mais secos, transforma-se num extenso areião qUI: exíge um jipe com tração nas quatro ro-

pesquisadores

das. As cidades e os povoados ficaram para trás. e a impressão é de que até mesmo os bichos se esqueceram deste lugar. A estrada não tem curvas; segue implacável de encontro ao horizonte. E. combinada com o calor e a aridez. provoca uma espécie de torpor que

É o caso. para citar apenas alguns exemplos. de onças pardas e pintadas.lobos-guará. tamanduás-bandeira. veados-carnpetros e cervos-do-pantanal. Entre os pássaros que correm o risco de desaparecer em outros lugares. mas ainda são encontrados no [alapão. destacam-se a águia-cinzenta (uma das mais raras aves de rapina do Brasil) e a arara-azul-grande (famosa entre os orru-

confunde a

vista.

Quando. subitamente.

dunas de 40 metros de

alrura erguem-se no meio desse cenário agreste. ninguém fica imune à sensação de que tudo não passa de alucinação. Quem imaginaria encontrar um pedaço de deserto em pleno sertão brasileiro? Pois

Santo e vizinho a

bi-

prová-Ias com os próprios olhos. O [alapão

uma lagoa cercada de buritis. um dos cenários mais insólitos e estarrecedores do país. Este é o deserto que nos falta. E. como tal.

está longe de ser um bom destino para safáris fotográficos ou observação de animais em seu hábítat natural,

exibe a beleza rnutante e hipnótica peculiar às grandes concentrações

Você pode passar uma semana inteira circulando pela região. andando para cima. para baixo e para os lados. sem avistar uma única coruja para contar a história. Ainda assim. a

de areia. À medida que o sol avança, a luz do dia vai emprestando

novas

cores às dunas. Pela manhã, elas são alaranjadas. À tarde, fi-

bicharada nunca deixa

cam amarelas. E.pouco antes do anoitecer. parecem pegar fogo de tão vermelhas. Criadas pela decomposição do arenito que

de mandar sinais. NO RASTRO DA BICHARADA "Ta vendo este rastro aqui?". pergunta o guia turístico. "É de

forma a Serra do Espírito Santo, as dunas são apenas um dos vários

ema. Uma das grandes passou por aqui há pouco tempo". Ao lado das pegadas ainda frescas. deixadas num ca-

monumentos naturais espalhados pelos 34 000 qutlômctro s quadrados do [alapâo. Maior que países inteiros. como a Bélgica. esta região isolada do Estado de Tocantins. mais ou menos perto de onde Bahta. Piauí e Maranhão se encontram. desperta cada vez mais o interesse de biólogos e ambientalistas. O motivo? Ela é considerada uma das trés áreas prtorítárias para a conservação do cerrado brasileiro. ESPÉCIES EM EXTINÇÁO Em meio a esta vegetação aparentemente podre. de árvores baixinhas e rerorcidas. uma impressionante população animal encontra refúgio. No mais recente dos levantamentos feitos por aqui.

g

tólogos por se tratar da maior espécie de arara do mundo), Esses e outros

chos. garantem os relatórios científicos. estão todos lá. Mas é muito difícil. para não dizer impossível. com-

aqui está. aos pés da magnífica Serra do Es-

píríto

identificaram nada menos que 124 espécies de aves

e 56 espécies de mamíferos. várias delas ameaçadas de extinção.

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minho de areia fofa. há rastros da passagem de outros animais pelo mesmo local. "Isto aqui é pisada de seríerna", diz o guia. "Eestas marcas maiores devem ser de um cachorro-domato." Mais adiante. quando o jipe torna a pedir água diante de estradas tão traiçoeiras. lá vem nosso amigo de novo - desta vez. apelando para o olfato digno de um índio sioux em filme de Iaroeste. 'Tô SEntindo catinga de lobo-guará," Todo mundo olha ao redor. examinando cada moita em absoluto silêncio. E nada. "O [alapão é assim mesmo". completa o sujeito. com um sorrtsínho sem graça no canto da boca. "Este lugar vive dando as pistas do tesouro. mas nunca entrega o ouro."


~ Corredei ras do R io Novo Que tal aproveitar sua visita ao Jalapão para descer o Rio Novo a bordo de um bote inflável? Este é considerado um dos melhores raftings do Brasil, com boas corredeiras que variam de nível 2 a nível 4. Ou seja: algumas delas são relativamente

tranqüilas.

Outras, nem tanto. Pelo menos três agências de São Paulo vendem pacotes de sete dias para o Jalapão que incluem a descida do rio. No total, são três dias de rafting. O primeiro deles é leve, com corredeiras suaves e tempo de sobra para contemplar a paisagem. Mas, prepare-se para fortes emoções nos dois dias seguintes. As paradas para almoço e pernoite (em barracas de acampamento) acontecem em praias ao longo do rio. Os demais dias do pacote são reservados à visitação a algumas das principais atrações do Jalapão, como a Cachoeira do Rio Formiga, o Poço do Fervedouro e as dunas. A temporada de rafting no Jalapão vai de maio a setembro. Saiba com Quem descer as corredeiras do Rio Novo:

Biotrip, (1113862-2202, www.biotrip.com.br. Canoar, (11) 3671-2262, www.canoar.com.br. Venturas e Aventuras, (1113872-0362, www.venturas.com.br.

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Se a população animal. ainda que invisível para a maioria dos visitantes, impressiona pelo número, a de seres humanos é quase insignificante, O Jalapão está entre as regiões menos povoadas do Brasil, com média de L3 habitante por quilômetro quadrado, E. tornou-se destino turístico há bem pouco tempo, de quatro ou cinco anos para cá, Isso explica, em parte, o excepcional estado de preservação arnbrentai Ludibriado pela aridez das dunas e pela vegetação rala do cerra' do, engana-se quem enxerga o Jalapão como um imenso deserto. Todo esse território é pontilhado por nascen tes de águas cristalinas, quase sempre denunciadas pela presença de exuberantes vere-

períodos de estiagem, Pelo menos outras quatro quedas-d'água

estão ao alcance dos visitantes no [alapão, A Cachoeira do Rio Formiga, por exemplo, tem um poço de águas tão azuis e transparentes que só estando

das onde imperam majestosos buritts. Uma dessas nascentes, o Poço do Fervedouro, aca-

para acreditar. Já a Ca' choeira da Sucuapara, cujo nome faz referência a uma espécie de veado que tempos atrás teria feito dela

bou atraindo centenas de turistas em busca do prazer único de ati-

sua moradia, é formada por um pequeno cór-

rar-se num olho-d'água em que é impossível afundar, graças ao in-

rego que ao longo de milhares de anos foi abrindo caminho entre as rochas, Resultado: para alcançá-la, é prectso atravessar um cá,

cessante

fluxo de água mineral que jorra do subsolo. Dizem os moradores daqui que, como este, existem outros tantos fervedou-

nion estreito e de pa' redões úmidos, sem, pre cobertos de rnus-

ros espalhados pelo jalapão - todos. porém, fora do alcance de

go. As cachoeiras

visitantes por estarem em propriedades particulares.

cam bem perto uma da

do Lajeado e do Brejo da Cama, por sua vez, fi, outra, E o acesso também é mais fácíl, já que

CACHOEIRAS

elas estão a aproxima, damente 30 quílõrne-

À VONTADE

Esta região

funciona

tros de Ponte Alta do Tocantms. uma das duas portas de entrada do [alapão,

como uma espécie de berçário para duas gran-

des bacias hidrográficas, Importantes afluentes dos rios Tocantins e Parnaíba nascem aqui.

"Acesso fácil". na ver'

mundo em volume de água 100% potável o principal responsável

dade, é modo de dizer. Chegar ao [alapão por si só implica uma viagem ao coração do Brasil selvagem. uma das últimas áreas do país a ser desbravadas, Por sorte elas estão sendo conquistadas pelo turismo consciente, que chegou bem antes do

pelo crescente número de visitantes que têm vindo ao [alapão nos últimos anos, Para quem gosta de boas doses de adrenalína correndo nas veias, suas corredeiras rendem um dos raftings mais eletrizantes do Brasil (leia quadro na páq. 9).

progresso e teve a chance de deparar com a natureza em estado bruto, Uma vez aqui, resta ainda ao visitante enfrentar as longas estradas de areia fofa que conduzem ãs dunas e às belezas que o jalapão até agora permitiu mostrar,

o que só reforça a preocupação dos ambientalistas com a preservação do lugar, Mas é o Rio Novo, considerado um dos maiores do

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Entre a Estação Ecológica da Serra Geral e a Área de Proteção Ambíental do [alapão (duas das várias unidades de conservação recentemente criadas aqui), as águas do Rio Novo despencam de aproximadamente 12 metros de altura para dar origem a outro espetáculo natural: a Cachoeira da Velha, Em forma de ferradura e com aproximadamente 100 metros de largura, ela está entre as mais belas cachoeiras do país, Seu volume impressiona mesmo nos

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ar tguando voce or

1. Cachoeira lia Suçuapara 2. Cachoeira

do Lajeado

3. Cachoeira

do Brejo da Cama

4. Cachoeira 5. Dunas

da Velha

Viajando de caminhão

6. Fervedouro 7. Cachoeira do Formiga

Caminhões 4 x 4, adaptados para transportar turistas em vez de carga,

QUEM LEVA Quatro agências de São Paulo levam você ao Jalapão. em pacotes

com

de 7 dias

passagens, hospedagem, alimentação e traslado

incluídos no preço. » Ambiental, (11)3819-4600,

» 8iotrip, (11) 3862-2202,

www.ambiental.com.br

www.biotrip.com.br

~~ Canoar, (11) 3871-2282, www.canoar.com.br

»

é deixar de lado o conforto das poltronas e se onde alguns assentos estão reservados a

A base do Korubo no Jalapão é o Safar i Campo uma atração à parte durante

Venturas e Aventuras, 111) 3872-03&2, www.venturas.com.br e Biotrip conhece o

Jalapão a bordo do caminhão Korubo. Já os clientes da Venturas e Aventuras e da Canoar são transportados

Bom mesmo. entretanto,

encarapitar no teto do caminhão -

a viagem. As margens do Rio Novo. o acampamento

Trekking. (11) 5052-4085. www.pisa.tur.br

Quem viaja com as agências Ambiental

Um deles é o Korubo. Equipado com poltronas reclináveis e ar-condicionado, ele encara as piores estradas da região como se andasse sobre asfalto.

quem não se importa com sol. vento e poeira na cara.

» Free Way, (11) 5088-0999, www.freeway.tur.br

» Pisa

são a maneira mais divertida, segura e confortável de conhecer o Jalapão.

pelo Carcharodon,

um carro de bombeiros adaptado.

mordomia que ninguém imaginaria refeições. O café-da-manhã

é rústico mas oferece

num lugar tão isolado. A começar pelas

é digno de um hotel e o almoço não fica devendo

nada ao de qualquer restaurante da cidade. Mas é na hora do jantar que a cornllança rola solta. Todo mundo chega esfomeado ao acampamento

e o

cozinheiro dá aquela caprichada nas panelas. A cada noite o cardápio muda: estrogonofe, tasanha, carne assada, picadinho ... Esteja preparado para dormir em barracas e não se esqueça de levar

COMO CHEGAR É preciso voar até Palmas, a capital de Tocantins. Se você vai ao I

uma lanterna com pilhas sobressalentes, pois não há energia elétrica. Ainda

Japalão por conta própria. terá de alugar um veículo 4 x 4. De

assim, seu banho quente está garantido graças a uma engenhoca criada

Palmas até Ponte Alta, uma das entradas para o Jalapão, são

pelos administradores

198 quilômetros

que ferve num enorme caldeirão para um reservatório instalado na copa de

de asfalto. Dali em diante. você enfrentará

do acampamento.

Um compressor

manda a água

algumas das piores estradas de terra de sua vida. É imprescindível

uma árvore. Lá em cima, água fria e água quente se misturam.

a contratação de um guia. Entre em contato com Mauro. tel, (63)

seguida descer até seu chuveiro.

378-1204,

em Ponte Alta do Tocantins.

ONDE FICAR Em Palmas: »

Pousada dos Girassóis, (&3)215-1187,

www.pousadadose;irassois.com.br

» Hotel Rio 110 Sono. (63) 215-1733 Em

Ponte

Alia;

» Pousada Planalto, (63) 378-1141

» Pousada Portal do Jalapão. (63) 378-1175. www.portaldojalapao.com.br Em Mateiros:

,,~ fazenlla Santa Rosa. (63) 534-1033

para em

Jalapão - O coração selvagem do Brasil  

No Tocantins, a aventura de desbravar um dos cenários mais insólitos do Brasil. Revista "Os Caminhos da Terra", outubro 2004, ano 12, nº 150...

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