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UMA CAUSA VENCIDA Há trinta anos, a poderosa reação inglesa à invasão das Ilhas Malvinas levou apenas dez semanas para enterrar o orgulho patriótico argentino .: O mesmo sentimento volta agora nos discursos de Cristina Kirchner no solo úmido das ilhas. O baque patriótico acabou por derrubar a ditadura argentina. Foi a, segunda vitoria seguida OS últimos meses, ao tocar no assunto das Ilhas Malvinas, um da democracia. território ultramarino da InglaPara escapar do patriotismo cego, conta-se a história. Antes da colonização terra, a presidente argentina das Américas, as Malvinas eram desabiCristina Kirchner denunciou uma suposta militarízação do Atlântico Sul, falou tadas. Pessoas de diferentes nacionalidades se estabeleceram provisoriamente em risco para a segurança internacional e prometeu apresentar uma queixa no nas ilhas are que os ingleses delas tomassem coma, em 1833. Estima-se que haConselho de Segurança das Nações Unidas. As Malvinas, ela insiste, são argenvia entre 100 e 150 pessoas vivendo lá na tinas, e não inglesas. "Isso deixou de ser ocasião. Segundo um funcionário inglês, eram "25 gaúchos de Buenos Aires, cinuma causa dos argentinos, é uma causa global", disse Cristina em fevereiro. In- co índios e uns quinze negros escravos. trigante é que em nenhum momento a Famílias holandesas, uma alemã e uma série de espanhóis e portugueses". O gopresidente menciona os k.e1pers,habitantes doarquipelago há 180 anos. No crís- . verno da Argentina, que se tomara indetínísmo, O que impona é o território e o pendente anos antes, só havia demonsseu valor emocional. Trinta anos atrás, o trado algum interesse pelas ilhas em equívoco foi similar. Em 2 de abril de 1.829,ao enviar um barco de guerra. Estavam todos dentro .da embarcação quan1982, a ditadura argentina ocupou milido os ingleses chegaram, quatro anos tarmente a ilha, ergueu sua bandeira azul-celeste e branca e mudou a mão de depois. Não houve uma invasão militar direção das ruas, que seguia a regra in- que culminou com a expulsão dos argenglesa. De repente, uma população de tinos - algo exaustivamente repetido 1800 pessoas se viu obrigada a trocar a nas salas de aula da Argentina. "Com essa invenção começou o mito nacíonalísdemocracia secular inglesa pela ditadura [a", díz o lustoríador argentino Luis AIde um país com o qual não tinha a menor afinidade. Os kelpers existem, e foi em berto Romero, do Conselho Nacional de defesa deles que a primeira-ministra in- Pesquisas Científicas e Técnicas, em glesa Margaret Thatcher despachou tro- Buenos Aires. "Nunca existiu uma popupas de elite a bordo de mais de 100 na- lação submetida ou subjugada nas ilhas. vios da Marinha Real. Apenas dez sema- Muitos argentinos continuaram por lá, trabalhando", afirma Romero. nas depois da invasão, o arquipélago já tinha sido reconquistado e o orgulho Faturar com o nacionalismo argentiportenho, sepultado. Com a recusa dos no foi o grande motivo para a invasão militares argentinos em receber os ca- das ilhas em 1982. Para realizar a operação, três aviões de transporte de tropas dáveres dos soldados que eles enviaram seriam suficientes. Em vez disso, a ditapara a morte, os kelpers os enterraram DUDA TEIXEIRA

N

o SONHO

ACABOU

Soldados argentinos

feitos prtstoneiros por fuzileiros ingleses aguardam para deixar

o povoado de Goose Green, nas Malvinas: na primeira batalha da guerra, os sul-americanos,

despreparados e famituos,

rendiam-se

como crianças assustadas, segundo os

relatos dos vencedores

veja

I 4 DE ABRll... 2012 I 103


História dura argentina mobilizou todos os quarenta navios de sua Mannha, incluindo um porta-aviões. Foram embarcados 904 homens, contra apenas 81 fuzileiros navais e marinheiros ingleses estacionados no arquipélago. Internamente, a evocação patriótica foi um sucesso. No país onde passeatas de protesto eram proibidas, os generais foram festejados nas ruas tanto por revolucionários de esquerda quanto por ronuradoresde farda. Jovens faziam fila para se alistar, e Leopoldo Galtieri, que assumiu a Presidência no fim de 1981, alcançou níveis inéditos de aprovação. Pela perspectiva externa, a ação foi um fracasso. O presidente socialista francês François Mitterrand e o americano Ronald Reagan foram os primeiros aapoíar uma irredutível Thatcher. Um dia depois da invasão, uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas ordenou a retirada imediara das .tropas argentinas. Em menos de 24 horas, uma frota britânica já se preparava para zarpar. O delírio nacionalista dos argentinos teria consequencías reais. Com a esquadra inglesa se aproximando, um plano de defesa começou a ser montado. Nas quarro semanas seguintes, as Forças Armadas argentinas abarroraram as ilhas com as armas e os soldados disponíveis. Três em cada cinco deles eram conscritos, jovens de 19 anos com apenas três meses de serviço militar obrigatório. Despreparados, com fuzis antiquados, sem roupa apropriada para o frio imenso, mal alimentados e maltratados pelos superiores (principalmeme os judeus), eles se tornariam o maior símbolo da guerra. Eram os chicos. Os combates, iniciados em I de maio, foram marcados por contrastes. Com cinco submarinos nucleares, mais velozes e COlJ1 capacidade para ficar por meses submersos, e uma frota numerosa, os ingleses garantiram a supremacia nas águas. "Os dois submarinos argentinos não tinham condições de operar e os torpedos não funcionavam", diz o hisroriador carioca Roberto Lopes, autor do recém-lançado livro O Código das Profundezas, sobre os confromos subaquáticos na guerra. No dia 2 de maio, o submergível inglês HMS Conqueror afundou o cruzador Belgrano, O

10414DEABRIL,2012

I veja

As etapas da guerra Ao tomar o arquipélago no Atlântico Sul em 1982, a ditadura militar argentina apostava que os ingleses não cruzariam o oceano de alto a baixo para recuperá-Ia. Foi um erro grave. As forças britânicas não apenas vieram, como retomaram o controle das Malvinas (Falklands, para os ingleses) em apenas dez semanas

A OFENSIVA ARGENTINA

1

2 de abril A Marinha argentina invadiu a ilha principal (lsla Soledad para os argentinos, East Falkland para os ingleses)

2 3 de abril As tropas argentinas tomaram a Ilha Geórgia do Sul

O CONFRONTO NO AR E NO MAR

10de

maio

No primeiro confronto aéreo, os caças ingleses derrubaram três aviões argentinos

OIMPASSE

3~Ri

12 de abril Os primeiros submarinos ingleses se aproximaram do arquipélago

4~ 14 de abril Os navios de guerra ingleses chegaram ao Atlântico Sul

5~

25 de abril Os ingleses recuperaram Geórgia do Sul e bombardearam, com helicópteros, um dos dois submarinos argentinos, o Santa Fe

7~ 2 de maio O submarino nuclear HMS Conqueror acertou dois torpedos no cruzador argentino Belgrano


o arquipélago Distância da Argentina ~ 350

lIuilômetros

········~~~~~;~·~~·;~~~~~~~··;· . ..........................................................................................

Oceano Atlântico

.

__

População em 1982

~ 1800

habitantes

População atual

~ 4200

habitantes

(dos quais 1200 militares) .................................

-

-

.Economia L

--::-

~

--f-'O"-~-'·'-=---:---t-1···························

Área

~

_-.- ..-

.

:S::e~~açãO _ 12173 quilômetros quadrados

.

(metade do estado d~ Sergipe)

As forças em jogo ARGENTINA ..................... __

10000 (65% conscritos)

A INGLATERRA VIRA O JOGO

8~

n~~

Na primeira grant:Jebatalha no solo, no povoado de Goose Green, 500 ingleses subjugaram 1500 argentinos

••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••

10

25 de maio Aviões argentinos afundaram o destróier Coventry e o Atlantic Conveyor, de transporte de helicópteros

(100% profissionais)

255 56 bilhões

de

dó/ares* _ •••••••••••••••••••

Porta-aviões

127 2

Submarinos

6

NavioS

2

~

• Valores atuaüzados pela inflação

Quem ficou do lado de quem AFAVOROA ARGENTINA BRASil

13~~ 14 de junho O general argentino Mario Menéndez, empossado governador das Malvinas dez semanas antes, assinou a rendição Caça inglês Sea Harrier

~

42

(75 foram derrubados) (10 foram derrubados) _-_ ......................................................•........ _-_. __

40 1

--

28000

,..••••• !.••••••••••••••••••••••••••••

183 ... __

INGlATERRA __ ._-_ _----_._-------_

(ficou no porto)

a 13 de junho As tropas inglesas cercaram e atacaram as posições argentinas na capital

21 de maio' Três mil soldados ingleses desembarcaram no povoado de San Caríos com oito tanques e uma bateria antiaérea

Casto em cIeIesa

dó/ares*

O des@ier HMS Sheffield foi alvejado por um míssil Exocet, lançado por um caça da Argentina

9-

Mõftos

9 bilbõesde

27 a 29 de maio

JI'.:

Soldados. toíIiIo

655

4·de maiô

~~ 12 n

__

Para fazer política de boa vizinhança, o presidente João Rgueiredo apoiou os argentinos

ÚBIA O ditador Muamar Kadafi estimulou os militares argentinos, que enviaram aviões da Aerolíneas Argentinas a Trípoli para buscar armas

PANAMÁ Foi o único país a votar contra a retirada das tropas argentinas na resolução do Conselho de Segurança da ONU

AFAVOROA INGlATERRA ESTADOS UNIDOS O presidente Ronald Reagan tentou demover os argentinos quando a invasão era iminente. Fato consumado, apoiou a Inglaterra

ONU Uma reunião urgente do Conselho de Segurança pediu a imediata retirada da Argentina. Dez países votaram a favor da Inglaterra

CHILE O ditador Augusto Pinochet se disse a favor dos argentinos, mas ajudou secreta mente os ingleses com informações de radar e permitiu que helicópteros pousassem em Punta Arenas

veja 14DEABRIL. 20121105

.


História VELHAS QUESTÕES Cristma Kirchner (abaixo) acha que o mundo está com a Argentina. O ditador Galtieri (ao lado) Também pensou assim e ficou sozinho em 1982. O primeiro-

ministro Daviâ Cameron (abaixo, à direita) repele

o mantra de Thatcher (acima, à díreíra): o que importa é o desejo dos nabitanies das ilhas

marando 323 rrípuíanres. A reação argentina foi recolher todos os barcos do mar aberto. Nos embates ar-ar, os ingleses também se saíram melhor. Embora os argentinos contassem com alguns caças supersônicos. como o francês Mirage e o israelense Dagger, os ingleses Sea Harrier ganharam lodos os duelos nas nuvens. A diferença estava nos mísseis. Enquanto o inglês acertava o inímígo de qualquer ângulo, o argentino, guiado pelo calor, só funcionava quando lançado por trás do rival. Restou aos caças argennnos mirar os navios ingleses. Os mais eficíences foram os cacas franceses Super Étendard. Armados com mísseis Exocet, capazes de voar rotas pré-programadas e de acionar um radar nos instantes fmais, afundaram dois navios da rainha. A refrega foi decidida no chão. No dia 21 de maio, tropas inglesas desem10614 DE ABRIL. 2012 1 veja

barcaram em San Carlos, no lado oposto ao da capital da ilha, Stanley, fortífícada pelos argentinos. Na primeira batalha, no povoado de Goose Green, mais ao sul, os conscritos argentinos se entregaram como crianças assustadas. Os ingleses, bem treinados, moveramse bastante pelo terreno. Com o apoio de helicõpreros e dos navios no lado oposto da ilha, aproximaram-se rapidamente da capital. Acuados, os argentinos assinaram a rendição. No caminho de casa, os soldados depararam com outra guerra. Enquanto no Atlântico Norte a recepção era majestosa, com os fuzileiros ingleses sendo recebidos com festa na Inglaterra e Thatcher sendo ovacionada, no Atlântico Sul o descaso foi enorme. Nenhuma autoridade foi receber os derrotados. Muitos tiveram problemas até para conseguir emprego. A quase totalidade dos argentinos, aliás,

jamais-questionou os militares por levar o país a uma guerra desnecessária, e sim por tê-Ia perdido. As Malvinas seguem firmes no imaginário. Os mapas publicados na Argentina devem indicar as ilhas e uma fatia generosa e surre ai da Antártica como territórios nacionais. Uma nova guerra é improvável. Nos anos 80, os ingleses construíram uma base militar nas Malvinas, guamecida de caças Typhoon de última geração. As Forças Armadas argentina", por outro lado, estão estagnadas. Em trinta anos, apenas um navio foi comprado. Os caças são os Mirage de 1982 que não caíram no mar. Isso vale como uma boa noticia. Embora o nacionalismo continue intacto, a probabilidade de os argentinos tentarem uma nova ação é pequena. De Londres, o prímeiro-rninistro David Cameron não tem com que se preocupar. É só diplomacia de megafone. _


Guerra das Malvinas - Uma causa vencida