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SÃO MAIS DE 5 HORAS DE MÚSICA E DANÇA, NUMA FESTA CELEBRADA POR CERCA

DE 10000 PESSOAS Festa do Sol é uma das cerimônias

A

religiosas mais

antigas do mundo e a única que manteve intacta a sua tradição - os ritos são realizados

exatamente

como no passado. Nas ruínas de Sacsayhuamán,

sítio arque-

ológico a 2 quilômetros de Cuzco, no Peru, e a 50 de Machu Picchu, a principal referência da cultura inca, 500 nativos encenam

um culto multicolorido,

grande impacto dramático. rituais trazem

musical e dançante,

de

Tem-se a impressão de que os

de volta as vozes de um tempo

perdido.

Épocas em que os incas eram um povo livre e forte.

Os atores encarnam reis, súditos, guerreiros e virgens, numa catarse que culmina com a louvação ao Sol, para eles o pai de todos os seres vivos. Até pouco tempo atrás a festa era realizada no dia 2 J de junho, cientificamente a data do solstício de inverno. Com a crescente influência do catolicismo na cultura peruana, a cerimônia passou para 24 de junho, dia de São João. Encravada no vale do Rio Huatanay, nos Andes sulorientais, a 3400 metros de altitude, Cuzco recebe nesse dia milhares de turistas. A prefeitura local organiza, paralelamente ao evento, pequenas encenações por toda a cidade. A maioria delas é um desfile de guerreiros com suas coloridas mantas de pele de vicunha. Mas o mais interessante é a grande celebração nas ruínas de Sacsayhuamán. Ali se ergue uma arquibancada para 10000 pessoas assistirem ao espetáculo. Longe dela, os peruanos dançam e cantam, preparam seus pratos tradicionais principalmente batata cozida - e se abraçam, orgulhosos de seu passado. A peça - se é que dá para chamar assim um espetáculo com duração de cinco horas e pouquíssimas interrupções - transcorre debaixo de um céu azullímpido e de um sol impiedoso e é toda falada em quíchua, o idioma nativo dos índios peruanos. Os cânticos são entoados com


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Os atores interpretam reis. súditos e virgens (ocimo e à dir.), numa festa repleta de personagens marcantes, como o gueneiro (abaixo). Mais de 500 pessoas participam diretamente da cerimônia

muita emoção e embalados porum rufar de tam-

bores, que batem em ritmo de funeral. A atmosfera fica ainda mais intensa quando gritos de guerra anunciam a chegada de Sapa lnca, rei do povo andino e descendente direto do Sol. Sapa Inca surge carregado num trono de ouro. Os historiadores garantem tratar-se de uma réplica perfeita do trono usado pelos antigos imperadores séculos atrás. O rei manda os feiticeiros trazerem a oferenda principal da festa, o coração ainda quente de uma lhama. Até J 996 a lhama era sacrificada ao vivo, diante de todo o público. Protestos de grupos preservacionistas culminaram com a proibição da matança explícita. Hoje, o animal é abatido atrás do palco, mas seu coração ainda é trazido à luz por um feiticeiro inca. A festa continua até o último raio de sol. Para a maioria do povo peruano, a lnti Raymi tem um valor sagrado. Mais que um festival para turistas - como ele realmente tem se transformado nos últimos anos -, a celebração é a maior esperança de um futuro melhor. Nas ruínas, milhares de pessoas rezam, de olhos vídrados, implorando ajuda ao espírito inca. Não é raro ver grupos de jovens, em pleno festival, gritar o nome de seu país. O peruano tem fé e realmente acredita que o deus Sol irá iluminar o seu caminho. Que assim seja. [] ABRIlf2001

TERRA

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Deus Sol, Salve o - Terra  

SÃO MAIS DE 5 HORAS DE MÚSICA E DANÇA, NUMA FESTA CELEBRADA POR CERCA DE 10000 PESSOAS - REVISTA TERRA.

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