Issuu on Google+

l

FOTOGRAFIA

Realidades paralelas Livro sobre Borís Kossoy traz cenas regístradas ao longo de cinco décadas , L

Considerado, ao 'lado de Geraldo de Barros (1923-1998), German Lorca e Thomaz Farkas, um dos nomes fundamentais da fotografia brasileira no século XX, o paulistano Boris Kossoy, de 69 anos, tem sua trajetória revisitada em Boris Kossoy: fotógrafo (216 páginas, R$ 69,00). Apurado visualmente, o livro, que a Cosac Naify lança nesta semana, reúne obras registradas entre 1955 e 2008, alem de entrevistas com o artista· e 'um texto de apresentação do critico Jorge Colí. Filho de um casal de imigrantes judeus, Boris Kossoy nasceu em São Paulo, mas morou em Guarulhos durante seus primeiros cinco anos de vida Ao voltar para a capital, passou por alguns bairros até se fixar com os pais nos Campos Elíseos. Ali, o jovem Boris, ~

4

de agosto, 2010

apaixonado por fotografia uma residência numa' rua depois d.e admirar veículos sossegada do Brooklin Vede imprensa como a revista lho, onde mora desde 1975, e uma casa em FlorianópoO Cruzeiro. clicou as primeiras imagens com uma lis. "Sinto nostalgia pela cãmera de fole, até hoje São Paulo que se perdeu", afirma. "Ela virou um paviguardada. Uma foto desse período integra o livro - o lhão de desconhecidos. Uma registro à contraluz da Avepessoa é capaz de passar a vida inteira aqui e não conida São João em 1955. nhecer dezenas de bairros." Além de simbolizar o Estabelecido como fotóinício de uma carreira proKossoV: importante grafo na década de 60, Bolífica, a cena ressalta o catambém como teórico rinho de Kossoy pela ris Kossoy assinou poucos anos depois seu mais imdade e, sobretudo, pelos tempos áureos do centro. "Hoje posso portante trabalho: a série Viagem pelo definir minha relação paulistana como . Fantâstico, publicada em livro em 1971 sendo de amor e ódio, em doses iguais", com prefácio do então diretor do Masp, define. Diz ter saudade de "andar de Píetro Maria Bardi (1900-1999), e parbonde, ir até o Largo doPaissandu, olhar cíalmente recuperada em Boris Kossoy: as lojas, avenidas, cinemas, praças e au- fotógrafo. Nela, a forografia documentomóveis". Divide-se atualmente entre tal e jornalística, em voga na época, é

ci-

59


Avenida Sãõ.loãó em lm-r~ o fotógrafo tinha 14 anos: "Saudade dOs bQQdeS, lojas, avenidas, cinemas, praças e automóveis do temto"

abandonada em favor de cenas com

AiYtJjJlJfto

(adlDfl) e V'lDduto personagens e acontecimentos surreais, (ã dít:): da série a exemplo de um maestro regendo em fIio~jielo um cemitério vazio ou de um sujeito Rmtóstíco vampiresco dançando em um salão deserto do Aeropono de Congonhas. "Em Viagem pelo Fantástico, ele constrói gene Atget, o fotógrafo se considera ficções à maneira de um grande teatro ínfíuenciado por cineastas (Stanley Kuno qual é o diretor", afirma o crítico brick e Alfred Hitchcock), escritores Rubens Fernandes Junior. "As pessoas (Jorge Luis Borges e Adolfo Bíoy Casatendem a pensar na fotografia somente res) e artistas plásticos (Edward Hopper como um modo de mimetízar a realidade e mostrar paisagens bonitas", diz . e M.C. Escher). Ele dedicou-se com sucesso também Kossoy. "Minha intenção era construir representações paralelas do real, um à teoria. Ainda nos anos 70, comprovou que o desenhista francês radicado no universo fantastíco e subjetivo." Além de nomes célebres das lentes, como o Brasil Hercules Florence (1804-1879), húngaro Andre Kertész e o francês Eu- integrante da Expedição Langsdorff, 60

usava técnicas fotográficas antes mesmo de Louis Daguerre (1787-1851). Desde 1987, Kossoy é professor da USP aposentado há dois anos, segue lecionando na pós-graduação. Não resistiu às câmeras digitais. "Procuro utilizá-Ias, mas com parcimônía, e fotografo apenas o necessário", coma. "As digitais costumam fazer as pessoas transformar a cãmera em metralhadora." JONAS LOPES ~

4

de agosto, 2010


Boris Kossoy - Realidades paralelas