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GOLIAS ALEXANDRE PODEM TER CAMINHADO

PELAS RUAS DE

ASCALON A ANTIGA CIDADE DOMAR


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memória da cidade Na temporada anterior, membros de um desses grupos realizaram um protesto quando souberam que arqueólogos estavam desenterrando esqueletos de túmulos de cananeus ricos, ocupantes pré-israelitas da Palestina antiga. Por esse motivo, nesta temporada os membros da equipe decidiram adotar um código. Hoje, fora de Israel, Ascalon é um nome esquecido e mesmo lá as pessoas o associam mais a uma cidade à beira-mar, cujo parque nacional fica repleto de banhistas e pessoas fazendo piquenique nos fins de semana. Porém, já em 3500 a.C; Ascalon era um importante porto marítimo. Localizada estrategicamente nas rotas de comércio que iam da Turquia e da Síria para o Egito, Ascalon assistiu à ascensão e queda de várias culturas, como as dos filisteus, fenícios, gregos, romanos, bizantinos e cruzados. O Golias bíblico provavelmente andou por suas ruas, assim como Ricardo Coração de Leão, Alexandre Magno, Herodes e Sansão antes de ter encontrado Dalila. A cidade foi destruída em 604 a.C, pelo rei babilônico Nabucodonosor e depois, em 1270 d.C.; pelos mamelucos, dinastia islâmica que então governava o Egito. Enterrada durante séculos sob o acúmulo de ruínas e estendendo-se por uma área de cerca

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Quando defenderam Ascalon dos cruzados em 1153 d.e., os muçulmanos alicerçaram suas fortificações sobre baluartes erguidos pelos cananeus 3 mil anos antes. Situada num afloramento de arenito por cima de um rio subterrâneo, a cidade era um ponto estratégico nessa região disputada e árida. ILUSTRAÇAO

ASCALON

DE CHAJ$TOPHEA

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TE na cidade

de 60 hectares, recentemente Ascalon passou a sair das sombras. Desde 1985, uma equipe de arqueólogos dirigida por Lawrence Stager, da Universidade Harvard, vem descobrindo um tesouro em artefatos que revelam detalhes sobre a vida de seus moradores, desde seus rituais funerários até suas práticas sexuais. No setor 50, que dá para o Mediterrâneo, Tracy e eu encontramos Stager. Encorpado e alegre, nada faz seus olhos brilharem com maior rapidez do que a notícia de um novo achado. Apesar das temperaturas que atingem 40°C, ele se atira pelo caminho que, durante anos, sua equipe escavou, revelando traços de ocupadores romanos, bizantinos e islâmicos. 60

Descemos acompanhando camadas que contêm os alicerces de armazéns destinados - durante o período persa-fenício de Ascalon - a guardar os abundantes artigos importados e exportados da cidade. Depois passamos por um grupo que está desenterrando uma construção do século 13 a.c., a época que encerrou o período cananeu de Ascalon. Os cananeus,um povo provavelmente originário da Síria oriental, haviam começado a migrar pelo litoral do Mediterrâneo cerca de sete séculos antes. "Eles chegavam em barcos lotados", diz Stager. "Traziam mestres-artesãos e uma idéia precisa do que queriam construir grandes cidades fortificadas." Os cananeus fizeNATIONAL

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dos filisteus Na Bíblia, os filisteus são retratados como destruidores tão ferozes que o nome deles passou a designar os piores inimigos da arte e do conhecimento. Mas o que Ascalon revela a respeito deles é bem diferente. Enquanto os israelitas faziam objetos de cerâmica crua e sem adornos, os filisteus decoravam seus objetos em estilos sofisticados, semelhantes aos dos gregos micênicos. Mais tarde eles importaram cerâmicas gregas, como estas peças do século 7 a.C., no estilo "bode selvagem" (à esquerda). Na verdade, é quase· certo que eles fossem de origem grega, elaborando

peças como

esta deusa-mãe de Micenas (à direita). Um dentre os vários povos do mar que assolaram o litoral do Mediterrãneo oriental por volta de 1175 a.C., os filisteus governaram Ascalon por 600 anos.

ram de Ascalon um importante centro mercantil que exportava vinho e azeite de oliva para todo o Mediterrâneo oriental. Um estudante voluntário saúda animadamente Stager com um amuleto do deus-macaco egípcio, Thoth. Um voluntário mais velho lhe traz um caco de cerâmica pintado com um símbolo que se ramifica. Num relance ele o identifica: "É uma árvore da vida do final da Idade do Bronze". Depois de chegarmos ao fundo do setor, entramos na Cidade dos Mortos - um agrupamento de câmaras mortuárias cananéias. Até agora a equipe já encontrou 16 câmaras, e Stager acredita que ainda possa haver muitas ouASCALON

tras mais. Cada uma delas era diretamente ligada por um poço à superfície. "As famílias traziam seus mortos para cá", diz Stager,"e os colocavam no centro da câmara até que a carne se decompusesse. Isso poderia levar vários meses. Depois elas punham os ossos nos recessos e nos cantos. Ao longo do tempo, essas famílias acabavam com uma boa quantidade de ancestrais enterrados aqui." Numa câmara com cerca de 3 metros de diâmetro, três membros da equipe olhavam um esqueleto que haviam encontrado pela manhã - uma criança com cerca de 2 anos de idade. O esqueleto cananeu mais jovem desenterrado até então. Ele recebeu o apelido de "Baby" 61


Baby proporciona aos arqueólogos mais um dado sobre a cultura cananéia. Foi enterrado com amuletos mágicos, em forma de escaravelhos egípcios, ao redor do pescoço, indicando que as crianças eram tão consideradas quanto os adultos na cultura cananéia. Em achados subseqüentes, crianças até mais novas tinham sido enterradas de modo semelhante. Netta Lev-Tov,uma estudante de antropologia física, está trabalhando com os restos mortais de três homens adultos. "Eram homens robustos", diz ela. "Eram musculosos e tinham mandíbula muito máscula. Esse pessoal comia poeira todos os dias. Entrava areia na comida deles e seus dentes logo se desgastavam." O DNA dos dentes poderá um dia permitir que os cientistas determinem o grau de parentesco entre essas pessoas enterradas, assim como entre outras populações mediterrâneas, tanto antigas como modernas. Os cananeus fascinam Stager, em parte porque se sabe muito pouco sobre eles. Foram so62

bretudo os cananeus e os filisteus que o atraíram a esse local esquecido. Em 1985 ele teve uma oportunidade que poucos arqueólogos têm. Leon Levy,um rico empresário americano e conhecedor da arte antiga, ficou impressionado com o currículo de Stager e ofereceu -se para financiar a escavação de qualquer local escolhido pelo arqueólogo. Ele ficou com Ascalon.

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os ARQUEÓLOGOS conhecessem a localização exata de Ascalon devido aos esfacelados muros medievais, poucos haviam escavado os escombros. Em 1815, uma inglesa rica, lady Hester Stanhope, encontrou parte de uma basílica da época romana enquanto procurava um tesouro assinalado no mapa de um monge medieval. No início da década de 20, o arqueólogo britânico Iohn Garstang tentou chegar às camadas que continham construções filistéias. Embora sua equipe tivesse descoberto artefatos filisteus no fundo de duas trincheiras que escavaram, o projeto acaMBORA

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A pouco mais de 1 quilômetro da moderna Ascalon, a cidade antiga foi tombada como parque nacional israelense. Pequenos trechos foram explorados desde O início do século 19, mas pouco foi feito até 1985, devido à dificuldade de esquadrinhar tantos séculos e tantas culturas. Apenas cerca de 2% do local foi escavado. E boa parte dele já foi engolida pela subida do nível do mar.

bou sendo abandonado. Seria preciso atravessar um número muito grande de estratos relativos a culturas mais recentes. Stager encontrou os cananeus muito antes do que havia esperado. "Foi aqui que começamos a nos dar conta da magnitude deste lugar", comenta Stager quando chegamos a um antigo fosso distante uma centena de metros da praia. Diante de nós ergue-se um baluarte inclinado de terra que chega a 15 metros de altura, coberto por fileiras de pedras. Por mais imponente que seja esta barricada, ela é apenas a base de uma grande muralha torreada construída pelos cananeus em 1850 a.c., um século depois de terem chegado a Ascalon. Esta muralha provavelmente elevava-se por mais uns 25 metros e formava um arco de 2 quilômetros em torno da cidade. Protegidos por ela, viviam cerca de 15 mil habitantes - uma população bastante grande para uma cidade antiga. Na mesma época a Babilônia teria uma população de 30 mil pessoas.

ASCAL,ON

o baluarte era extraordinariamente largo, com 45 metros - imprescindível à defesa, diz Stager. "Os exércitos sitiantes costumavam cavar túneis sob as muralhas das cidades para introduzirem-se nelas ou para solapar-lhes a estrutura, provocando o desmoronamento de um trecho da muralha." A equipe de Stager descobriu o baluarte por sorte, em 1987. O responsável por um resort de veraneio nas proximidades havia mandado ilegalmente ao local um trator a fim de coletar areia para fazer concreto. O material raspado pelo trator revelou tijolos de barro e algumas cerâmicas que os antigos haviam colocado na base da muralha. Munidos de picaretas e carrinhos de mão, ao longo de 12 temporadas de escavação, cada qual com cerca de dois meses no verão, os membros da equipe trouxeram à luz um trecho de 275 metros da muralha, além do fosso que a acompanha. Descobriram também o mais antigo portal em arco que se conhece no mundo. Com mais de 2 metros de largura, 4 metros de altura e revestido de tijolos de barro, ele foi construído em 1850 a.c. como parte da grande muralha com torres. Em seu auge, esse portal deve ter fervilhado de atividades. Carros de boi e burros carregados com produtos do campo ou com mercadorias destinadas aos navios no porto teriam passado por uma estrada em ladeira para chegar aos portais. Marinheiros e mercadores falando uma babel de línguas entravam com mercadorias do Egito, de Creta, da Turquia e da Síria. As mercadorias exportadas por Ascalon também teriam passado sob esse portal. Em 1990, perto da ladeira íngreme que leva ao portal, foi descoberto um santuário. Enquanto avançavam em meio ao entulho desmoronado, os escavadores encontraram a imagem de um bezerro de bronze recoberta de prata - um símbolo de Baal, o deus cananeu da tempestade. Com cerca de 10 centímetros de altura e datando de 1600 a.c., o bezerro tinha seu próprio santuário, um recipiente de cerâmica com o formato de uma colmeia. Pelo jeito, os viajantes faziam uma pausa ali para pedir proteção ao deus da tempestade ou para agradecer pela chegada em segurança. Atualmente em exposição no Museu de Israel, em Jerusalém, esse pequeno bezerro, que perdeu um dos chifres e grande parte do revestimento de prata, evoca a adoração idólatra do bezerro pelos israelitas que, segundo a Biblía


tanto indignou Moisés. Embora os israelitas não tivessem aparecido senão vários séculos depois que a estátua descoberta em Ascalon tivesse sido feita, eles provavelmente descendiam do mesmo grupo cultural dos cananeus. Enquanto a Ascalon cananéia prosperava, seu exército tornava-se cada vez mais poderoso. Por volta de 1650 a. c., um misterioso grupo de guerreiros, os hicsos, invadiu o delta do Nilo, governando-o por um século. Ninguém sabe de onde vieram os hicsos, termo que quer dizer "governantes estrangeiros" em egípcio antigo. Escavações recentes em Avaris, a capital dos hicsos no Egito, revelaram artefatos idênticos aos encontrados em Ascalon, levando Stager a supor que os hicsos eram na verdade cananeus e que muitos deles saíram da região de Ascalon. Antes de os hicsos conquistarem o delta, os egípcios já tinham problemas com os cananeus. Faraós da 12a dinastia (1938-1755 a.c.) amaldiçoaram três reis de Ascalon nos chamados textos de execração. Escribas firmavam o nome dos reis em tigelas de cerâmica ou em imagens humanas e, depois, o faraó as quebrava, a fim de destruir pela magia o poder deles.

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da aparência dos cananeus graças a pinturas numa parede egípcia, por volta de 1900 a.c., que representam dignitários cananeus em visita ao faraó. Eles tinham feições semíticas e cabelos escuros, que as mulheres usavam em longas tranças e os homens, penteados em coque em forma de cogumelo, no alto da cabeça. Os homens tinham a barba aparada. Ambos os sexos usavam roupas vermelhas e amarelo-vivas túnica longa para as mulheres e saiote pregueados para os homens. Por volta de 1550 a.c. os egípcios expulsaram os hicsos e, por mais de 300 anos, dominaram Canaã, a região que vai do atual Líbano à península do Sinai. A partir do .final do século 13 a.c., numerosos grupos de invasores tumultuaram todo o Mediterrâneo oriental. Por volta de 1175 a.c. um desses povos, os filisteus, conquistou Ascalon e fundou pelo menos mais quatro outras grandes cidades na região, que se tornou conhecida como Filistia. Como suas cerâmicas e outros artefatos se parecem com os dos gregos de Micenas, os guerreiros que saquearam Tróia nas epopéias homéricas, Stager acredita que os filisteus eram, na verdade, imigrantes gregos. O herói EMOS UMA IDÉIA

filisteu Golias, diz Stager, usava equipamento de batalha semelhante ao micênico. O Sansão bíblico, acrescenta ele, comportou-se como o herói grego Hércules. E a perda da força de Sansão, depois que a filistéia Dalila lhe cortou os cabelos, ecoa um mito grego anterior. As análises de ossos de animais encontrados na Ascalon filistéia indicam que os recémchegados comiam porco freqüentemente, uma prática pouco comum entre os cananeus mas habitual entre os gregos antigos. "Acho que o porco tornou-se tabu entre os israelitas', diz Stager, "em parte porque isso os ajudava a se diferenciar de seus arquiinimigos - os filisteus não circuncidados." A Bíblia é a única fonte escrita que trata dos filisteus com atenção e, como os israelitas estiveram em guerra com seus vizinhos durante dois séculos, o termo filisteu tornou-se sinônimo de gente pouco sofisticada e grosseira. Porém, as escavações em Ascalon e em outros sítios filisteus indicaram que eles eram, na verdade, cosmopolitas, apreciadores de cerâmicas artísticas e produtores de bons vinhos. Mesmo assim, ainda há muito a ser aprendido, e os filisteus são agora o foco principal em Ascalon, sobretudo porque a equipe está cavando nos níveis cujas datas coincidem com a chegada deles à região. Stager tem a esperança de logo encontrar uma camada de destruição com madeira carbonizada e ruínas -, que assinalaria o incêndio da cidade cananéia durante a invasão dos filisteus. Ele me conduz ao setor 38, que ocupa meio hectare e é o maior sítio arqueológico na escavação. É ali que sua equipe está mais perto dos primeiros filisteus. "Essas ruas todas são filistéias", diz Stager enquanto caminhamos por um complexo de alicerces de construções de adobe que remontam ao século 12 a.c. Em temporadas anteriores nesse setor, a equipe escavou um edifício comercial do século 7 a.c., medindo 28 metros por 11 metros. Stager suspeita que ele tenha abrigado uma vinícola com seus depósitos. Nessa temporada foram descobertos mais indícios das tradições filistéias: um pote com o esqueleto de um cachorrinho. Enterrado sob as fundações de um edifício, o achado desperta a curiosidade do grupo de especialistas em ossos de animais liderado por Paula Wapnish, da Universidade do Alabama. ''Achamos que alguém o matou, colocou-o no pote e, em seguida, num buraco no chão",

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explica Brian Hesse, um dos membros do grupo. "O jarro está chamuscado. Provavelmente alguém estava cozinhando o cachorrinho para comê-lo, mas mudou de idéia e o deixou lá." Ou, contrapõe Stager, o cachorro foi enter.rado num pote já chamuscado, como uma oferenda para trazer boa sorte para a construção. Pouco antes de chegarmos ao setor 38, os escavadores haviam encontrado outra sepultura filistéia. No canto de um aposento, Lev- Tov senta-se com cuidado, espanando a terra do esqueleto de um bebê humano que havia sido enterrado numa cova. Parda centos e minúsculos, os ossos e o crânio mal haviam emergido da terra que os envolvera por tanto tempo.

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na

Os escavadores estão tentando determinar se a criança havia sido enterrada de propósito no interior da casa, talvez para dar sorte, como o cachorrinho no pote. Ou, por outro lado, se havia sido enterrada num pátio, mais tarde coberto por outras construções. Todavia, há poucas dúvidas quanto ao significado de uma determinada camada filistéia em Ascalon - correspondente à destruição total da cidade em 604 a.c. pelos exércitos de Nabucodonosor, rei da Babilônia. De pé no nível do piso de uma casa filistéia mais antiga, no setor 50, Stager aponta uma camada de madeira carbonizada e entulhos na altura do seu ombro, na trincheira de escavação.

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cidade dos fenícios No final do século 6 a.C., os persas tinham o maior império já conhecido no mundo, estendendo-se desde a índia até o Mediterrâneo oriental. Embora sob o domínio persa, os fenícios definiram a cultura de Ascalon durante a era persa. Escavadores encontraram símbolos religiosos fenícios, como o "sinal de Tanit" (no centro), e artigos comprovando trocas com regiões distantes, como esta xícara grega (abaixo). O mais intrigante é o cemitério de cães: mil cachorros arrumados cuidadosamente, sugerindo uma reverência que pode ter beirado a idolatria.

Ao que tudo indica, Nabucodonosor incendiou Ascalon para assustar outras cidades que poderiam se aliar ao seu rival, o Egito. Os soldados dele levaram para a Babilônia muitos dos sobreviventes. Cerca de 75 anos mais tarde, os babilônios foram conquistados pelos persas, que incentivaram os aliados fenícios de Tiro, uma cidade localizada no território atual do Líbano, a reconstruir Ascalon. Por ironia, esse povo do litoral era descendente dos cananeus. Os fenícios eram grandes mercadores e um dos povos mais ativos do Mediterrâneo. A era fenícia trouxe de novo prosperidade a Ascalon e deixou um legado inesperado para os arqueólogos - um cemitério com mil cachorros. ASCALON

"Os cachorros aparentemente morreram de morte natural", diz Hesse. "Não apresentam traumas ou marcas de cortes como se tivessem sido abatidos, Foram cuidadosamente deitados de lado numa cova rasa, com o rabo enrolado em torno das pernas traseiras." Os cães foram enterrados na primeira metade do século 5 a.c., e Stager acredita que o sepultamento reflita um culto historicamente curto aos cães, "Em diversas culturas, os cães eram associados à cura, pois lambiam seus machucados e feridas", diz ele. Nessa mesma época, os habitantes de Ascalon também começaram a usar moedas e tiveram uma das oficinas de cunhagem mais ativas


SEXO na cidade

da Palestina, emitindo moedas quase continuamente desde o século 4 a.C, até o século 12 d.C, A equipe de Stager desenterrou vários tesouros que agora estão no Museu de Israel. A prosperidade da era fenícia e, logo em seguida, o breve domínio de Alexandre Magno terminaram de modo abrupto por volta de 295 a.C., quando o soberano egípcio Ptolomeu I destruiu a cidade. Ascalon conseguiu, no entanto, se recuperar e ganhou fama não mais apenas como entreposto comercial, mas também como centro intelectual. Um nativo de Ascalon chamado Antíoco chegou a dirigir em Atenas a academia filosófica, onde tentou conciliar as teorias de Aristóteles, de PIa tão e dos

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estóicos, estes filósofos posteriores que enfatizavam a importância tanto do destino como da razão na determinação da vida humana. Doroteus de Ascalon escreveu um dicionário de grego ático, o dialeto falado em Atenas. Registros de outros nativos de Ascalon ficaram gravados numa grande variedade de inscrições encontradas no Mediterrâneo oriental. CONTINUOU A FLORESCER sob o domínio romano, que começou em 37 a.C. Os romanos imprimiram fortes marcas em Ascalon, construindo casas de campo, teatros e grandes basílicas. Alguns estudiosos afirmam que o rei Herodes, o Grande, CALON

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dos romanos Os romanos deixaram ali marcas em chafarizes, teatros e basílicas, em mansões com terraços e jardins e - pelo menos num caso - em candeeiros eróticos. Dezenas de candeeiros a óleo, feitos de cerâmica com temas mitológicos

e sexuais (à esquerda), estavam numa

mansão na parte abastada da cidade. Provavelmente

faziam parte

de uma coleção particular que pode ter inspirado o ocupante seguinte do terreno - uma casa de banhos do século 4 a.C. que talvez funcionasse também como bordeI. Perto dali, os escavadores acharam os restos de mais de uma centena de bebês que podem ter sido a prole indesejada das prostitutas. Não se sabe se, em Ascalon, os romanos tinham escravos africanos como em outros locais, mas a imagem núbia (à direita) indica familiaridade com os africanos, considerados exóticos.

nasceu na cidade e que, portanto, ela teria se beneficiado do entusiasmo dele por edificações públicas. Segundo o historiador judeu Flávio Iosefo, Herodes construiu banhos públicos, chafarizes rebuscados, grandes colunatas e um palácio destinado ao imperador Augusto. Durante a época romana, Ascalon expandiu suas atividades como entreposto internacional, beneficiando-se das exportações de produtos agrícolas, sobretudo vinho e azeite de oliva, trigo, hena, tâmaras e cebola. A prosperidade trouxe mansões grandiosas com vastos terraços e jardins dando para o mar. Numa dessas mansões, a equipe de Stager desenterrou cacos de cerca de 150 candeeiros ASCALON

de cerâmica, muitos com temática sexual. As práticas representadas nos candeeiros parecem ter saído diretamente de Sodoma e Gomorra: os costumes sexuais romanos na Ascalon pagã eram muito mais livres do que os das comunidades vizinhas, judaicas e cristãs. Stager suspeita que os candeeiros pertenciam a um colecionador. No século 4 d.e., uma casa de banhos foi erguida sobre a mansão na qual foram achados os candeeiros. A equipe de Stager desenterrou parte da beirada de gesso de uma banheira onde se lia "Entre, desfrute e... " É bem possível que a casa de banhos tenha sido um bordei na zona de prostituição de Ascalon. 71


G

A escavação de um antigo esgoto embaixo da casa de banhos revelou uma das descobertas mais perturbadoras feitas por Stager - os frágeis ossos de mais de uma centena de bebês. Os recém-nascidos tinham sido lançados numa valeta, juntamente com ossos de animais, cacos de cerâmicas e .algumas moedas. "Sabemos que o infanticídio era uma prática bastante difundida entre os antigos gregos e romanos", diz Pat Smith, uma antropóloga física da Universidade Hebraica em Jerusalém que estudou os ossos. "Era visto como um direito dos pais se não quisessem a criança. Em geral eles matavam as meninas. Os meninos eram considerados mais valiosos - como herdeiros 72

FITI

na

ou para sustentar os pais na velhice. Às vezes as meninas eram tidas como um fardo, sobretudo se precisassem ter um dote para ser casar." Duas colegas de Pat, Marina Faerman e Gila Kahila Bar-Gal, identificaram o sexo dos bebês usando técnicas baseadas em DNA. Muitos esqueletos estavam incompletos, mas as duas cientistas recuperaram 43 fêmures esquerdos, ou ossos da coxa. Dezenove deles proporcionaram DNA que pôde ser analisado. Desses, 14, ou 74%, eram de meninos. Intrigadas com essa porcentagem aparentemente alta de meninos mortos, as pesquisadores especulam que esses bebês eram os filhos indesejados das cortesãs que serviam na casa de banhos. O proprietário NATIONAL

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cidade dos cruzados Os cruzados chegaram à Palestina no final do século 11, mas Ascalon foi a última cidade litorânea a cair em seu poder. Só em 1153 a cidade foi tomada, encerrando 500 anos de domínio muçulmano. O sultão Saladino conseguiu retomar Ascalon em 1187, mas, quando pressentiu uma derrota certa para os cruzados em 1191, decidiu que ele mesmo iria destruir a cidade. Por volta de 1240, quando os cruzados reconstruíram Ascalon, um cavaleiro inglês gravou suas armas sobre a inscrição em árabe no mármore (à esquerda), feito em 1150 pelos muçulmanos. Restos de um cinto de ouro (à direita) encontrados no entulho de Ascalon atestam a excelência artística da época.

ou as cortesãs poderiam ter criado algumas das crianças para seguirem a mesma profissão; o excesso teria sido morto e descartado. Embora no mundo romano a prostituição não fosse exclusivamente feminina, as pesquisadoras acreditam que provavelmente havia uma demanda maior por mulheres. No ano 324 d.C., quando o imperador Constantino reconheceu oficialmente o cristianismo, uma nova moralidade tomou conta da Palestina. Monastérios floresceram perto de Ascalon e por toda a região. Peregrinos cristãos começaram a afluir à Terra Santa, vindos da Europa, e desembarcavam em Ascalon, a caminho de Jerusalém. Ascalon registrou então um ASCALON

novo surto de crescimento, baseado na economia do turismo e aumentado pela demanda internacional por seus bons vinhos. Ânforas da época bizantina da cidade foram encontradas até em Londres. No entanto, recém-chegados iriam mudar, mais uma vez, a face de Ascalon. Os exércitos do Islã começaram a atacar o mundo bizantino no século 7, e no ano 640 d.e. a cidade rendeuse ao domínio muçulmano. A transição pode ser vista com clareza no setor 23 do sítio arqueológico, onde, no final de uma manhã, escavadores banhados em suor desenterravam uma mansão islâmica. "Na semana passada achamos a perna de uma estátua 73


romana quebrada durante o período islâmico'; diz Ross Voss, supervisor do setor. "Descobrimos, além disso, três tigelas estampadas com cruzes. Talvez aqui houvesse uma igreja ou a residência de algum bispo, antes da chegada dos muçulmanos." Hoje a equipe está animada porque acabou de suspender o piso de lajotas feito pelos muçulmanos e descobriu diversos ladrilhos pretos, brancos e em outras cores de um mosaico ornamental bizantino. "O mosaico foi destruído antes de ser enterrado pelos muçulmanos", diz Stager. Fica claro que os recém-chegados islâmicos planejaram reconstruir Ascalon, e fizeram isso com grande estilo, corno se vê pelas jóias em filigranas de ouro e pelas mansões decoradas com estátuas e pisos de mosaico. Por mais de 500 anos Ascalon brilhou sob o domínio islâmico, até que, ao final do século 11, os cruzados começaram suas incursões à Terra Santa. Ao longo do século 12, os muçulmanos da dinastia fatímida reforçaram as muralhas de Ascalon, utilizando antigas colunas romanas para' fortalecer a alvenaria e construindo ou reconstruindo mais de 50 imponentes torres de vigia.

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MATARDE, Tracy Alsberg me levou até o local em que essas torres já estiveram de pé. Cruzamos um fosso seco e contemplamos a muralha inclinada, de blocos de arenito meticulosamente cortados. Ela retira os sacos de areia que protegem uma pedra gravada, embutida no muro. Seus decorativos caracteres arábicos dizem "Al-mulk lí-llah- O domínio é de Alá". É provável que a pedra tenha sido posta no muro durante a reconstrução. Ainda mais significativa é uma placa de mármore gravada, medindo 1,5 metro, encontrada aos pedaços no fosso. Sua inscrição descreve a construção da torre e registra a data do término da obra - 2 de março de 1150. Agora remontada e em exibição no Museu de Israel, a placa dá testemunho da devastação sofrida por Ascalon durante as Cruzadas. Tanto os cruzados quanto os muçulmanos viam Ascalon como um ponto estratégico para O controle do Mediterrâneo oriental, e durante os 120 anos seguintes a cidade trocou de mãos com freqüência. Em 1153 d.C., os cruzados tomaram a cidade pela primeira vez, após sete meses de sítio. Mantiveram-na por 34 anos, antes de serem expulsos, em 1187, pelo sultão

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muçulmano Saladino. Quatro anos mais tarde, urna nova onda de cruzados, liderados por Ricardo Coração de Leão, avançou na direção da cidade. A contragosto, Saladino decidiu, ele mesmo, destruir a cidade. Temia o poder naval dos cruzados e queria privar seus inimigos de uma cidadela que lhes poderia servir de base para marchar sobre Jerusalém ou sobre o Egito. Em 12 de setembro de 1191, ele ordenou às suas tropas que começassem a demolir a muralha e as torres. Em seguida, Saladino decretou que a cidade fosse incendiada pelos soldados. Em 21 de setembro a destruição estava concluída, e Saladino saiu de Ascalon. Indícios dessa destruição ainda podem ser vistos ao longo das praias de Ascalon. As ondas quebram por cima de grandes placas de pedra e de colunas romanas que o exército de Saladino retirou dos muros que cercavam a cidade e usou para bloquear o porto. Apesar dos esforços do sultão Saladino, Ricardo Coração de Leão ocupou a cidade abandonada em 1192, transformando-a em uma fortaleza por um breve período. Em 1270, os conquistadores mamelucos, do Egito, arrasaram a cidade pela última vez. A essa altura, as Cruzadas já haviam terminado e a região perdera sua importância estratégica. Mas Ascalon está novamente em ascensão. Um perfil moderno de arranha-céus ergue-se agma por trás das ruínas. Na última década, multidões de recém-chegados, na maioria imigrantes judeus da Rússia e da Etiópia, mudaram-se para uma cidade renascida. "Hoje vivem aqui quase 100 mil pessoas'; diz Tracy Alsberg enquanto caminhamos, no início da noite, ao longo de um novo calçadão à beira-mar. Ouve-se música de rock e grupos de jovens imigrantes animados misturam-se a outros israelenses em bares e cafés. Parece haver tantos cartazes em russo quanto em hebraico. A tradição de Ascalon persiste como entreposto mercantil e caldeirão cultural. Esses recém-chegados estão criando suas próprias culturas singulares no MAIS EM NOSSO SfTE alvorecer deste milênio, tão certo quanto Aprenda mais a respeito os filisteus, os fenícios da vida na antiga cidade de Ascalon e descubra e os muçulmanos o fizeram em épocas outros sites e fontes sobre o tema em passadas. A história www.nationalgeographicBR. de Ascalon ainda está com.brjOl0l sendo escrita.

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Ascalon - A antiga cidade do mar  

Durante quase 5 mil anos Ascalon foi um dos grandes portos marítimos do Mediterrâneo - National Geografic Brasil.

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