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E.M.Prof. Honor Figueira – Ubatuba/SP Prof. Jefferson Daruich da Gama Aluno: Série: Ano:

De Ubatuba a Paraty Um passeio pela história do Brasil Ubatuba 1885

Paraty [1940?]

Ubatuba – SP 2008


Ubatuba/SP Fundação: 28 de outubro de 1637

SÍMBOLOS MUNICIPAIS

Bandeira

Criada pelo Decreto Nº. 174, de 19 de Outubro de 1968, a bandeira da Estância Balneária de Ubatuba obedece às mesmas proporções oficiais de Bandeira Nacional. Suas cores são o azul e branco, listradas 13 vezes alternadamente, sendo que num canto há um retângulo vermelho, tendo no centro deste a Cruz Flamejante. Tem como fonte de inspiração a Bandeira do Estado de São Paulo, do qual Ubatuba, município dos mais antigos, orgulha-se de ser parte integrante. As cores da bandeira simbolizam, segundo o Decreto Nº. 174:  azul: a sabedoria, a lealdade e a clareza, e lembram também as águas que banham a orla do município;  branco: a beleza, a alegria, a vitória e a pureza;  vermelho: a grandeza, audácia e bravura de seus habitantes; A Cruz Flamejante é o símbolo cristão da Exaltação da Santa Cruz e simboliza justiça, fé, força e constância, além de ter relação com o primeiro nome da cidade.

Brasão No brasão de Ubatuba, criado originariamente pelo projeto-lei de 28 de Outubro de 1937, os 5 índios representam Cunhambebe, Coakira, Pindaboçú, Aimberê e Araraí, os chefes da Nação Tupinambá na época da Confederação dos Tamoios, por volta de 1560-1570. Os dizeres em latim significam: "Conservou a Unidade da Pátria e da Fé ". Os ramos verdes simbolizam as folhas de ubá (cana silvestre), muito comum em Ubatuba e que significam segundo alguns estudos, o próprio nome da cidade. A cruz simboliza o nome que foi dado à cidade por seu fundador, Jordão Homem da Costa: Vila Nova da Exaltação à Santa Cruz do Salvador de Ubatuba. Em memória, diz-se que a cruz foi empunhada pelos missionários José de Anchieta e Manoel da Nóbrega. Por fim serve de timbre ao escudo a coroa mural de ouro, convencionalmente adotada para caracterizar as armas dos municípios e cidades, simbolizando a segurança e força.

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HISTÓRIA DO MUNICÍPIO Nome A palavra Ubatuba e formada por duas palavras indígenas: Ubá = canoa, cana silvestre ou caniço para flechas + Tuba = muitas.

Início Os í n d i o s tupinambás foram os primeiros habitantes de Ubatuba e eram excelentes canoeiros, construíam embarcações para o transporte de até 30 pessoas. Costumavam construir suas casas em pontos altos, nas margens dos rios, para sua proteção. Alegres, amantes da música e da dança, usavam instrumentos de sopro e percussão, nas freqüentes festas onde utilizavam o cauim (espécie de bebida preparada com a mandioca cozida e fermentada). Viviam em paz com os índios tupiniquins da região de São Vicente até a chegada dos portugueses e franceses. Naquela época Ubatuba era conhecida como Aldeia de Iperoig, passou a categoria de vila somente em 1554, com o nome de Vila Nova da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba. Já em 28 de Outubro de 1637 passou a categoria de Município pelo Governador Geral do Rio de Janeiro. Aqui se travou uma batalha diplomática fundamental para se decidir o futuro do Brasil pois os portugueses e franceses disputavam essa região. Os franceses eram apoiados pelo seu Rei Henrique II e pelos índios Tupinambás sendo que para conquistar essas terras, precisavam enfrentar o poderio militar português, que na época era muito forte. Os portugueses mantinham relações de amizade com os tupiniquins e com a prisão do chefe tupinambá Aimberê, que depois de ter sido condenado a morte conseguiu escapar, tornando-se um dos maiores inimigos da Coroa. Os tupinambás, sob o comando de Cunhambebe, fizeram aliança com outras tribos, de Bertioga à Cabo Frio, para lutar contra o domínio Lusitano. Formaram assim, a Confederação de Tamoios (verdadeiros donos da terra). Para evitar o conflito, os portugueses convocaram, em 1563, uma dupla de negociadores, os jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta. Eles partiram de São Vicente para a Aldeia de Iperoig e sua missão de paz foi lenta e difícil. Anchieta ficou p r i s i o n e i r o d u r a n t e aproximadamente quatro meses e nesse período escreveu vários poemas, dentre eles o célebre "Poema à Virgem " nas areias da praia do Cruzeiro, enquanto Manoel da Nóbrega voltava à Aldeia de São Paulo para concluir o Tratado da Paz da Iperoig; o primeiro tratado de paz das Américas. Em 14 de Setembro de 1563 foi assinado o tratado que para algumas tribos significou sua aniquilação. Os franceses foram expulsos e os índios pacificados. Assim vieram alguns colonizadores, dentre eles Jordão Homem da Costa, nobre português das Ilhas dos Açores, fundador de Ubatuba, chegando no início do século XVII para começar seu povoamento. Depois vieram Gonçalo Corrêa de Sá, Salvador Corrêa de Sá, Arthur de Sá, Belchior Serqueira, Miguel Pires de Isosa, Antônio de Lucena, Inácio de Unhate e Miguel Gonçalves, que ganharam terras com o compromisso de povoá-la e defendê-la com amor e coragem.

A Confederação dos Tamoios O principal motivo da Confederação dos Tamoios, que reuniu diversos caciques da região litorânea (hoje Litoral Norte Paulista e Sul-Fluminense), foi a revolta ocasionada pela a ação violenta dos portugueses contra os índios tupinambás, causando mortes e escravidão. Na língua dos tupinambás tamuya quer dizer o avô, o mais velho, o mais antigo. Por isso essa confederação de chefes chamou-se Confederação dos Tamuya, que os portugueses transformaram em Confederação dos Tamoios. Cunhambebe foi eleito chefe e junto com Pindobuçu, Coaquira, Araraí e Aimberé resolveu fazer guerra aos portugueses.

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O problema entre tupinambás e portugueses tem início com o casamento de João Ramalho, português e braço direito de Brás Cubas, governador da Capitania de São Vicente, com a filha de Tibiriçá, chefe dos índios guaianazes. Desse casamento nasceu uma aliança entre brancos e guaianazes contra as outras nações indígenas. Quando a nação Tupinambá foi atacada, o chefe da aldeia de Angra dos Reis, Cunhambebe, investiu contra as propriedades portuguesas. Enquanto isso, Brás Cubas continuava a escravizar índios e aprisionou um chefe tupinambá, Cairuçu, e seu filho Aimberé. Cairuçu morreu dos maus tratos recebidos e Aimberé conseguiu organizar uma fuga em massa das propriedades de Brás Cubas. Livre do cativeiro, Aimberé encontrou-se com Pindobuçu, da aldeia tupinambá do Rio de Janeiro, Cunhambebe, da aldeia de Angra dos Reis, Coaquira, da aldeia de Ubatuba e Agaraí, chefe dos guaianazes, e ainda com os índios goitacazes e aimorés. Assim, em ataque aos portugueses, foi formada a Confederação dos Tamoios, chefiada por Cunhambebe. Nessa ocasião chegaram os franceses ao Rio de Janeiro. Villegaignon, o chefe francês, aliou-se aos tupinambás para garantir sua permanência no Rio de Janeiro e ofereceu armas a Cunhambebe para lutar contra os portugueses. Um surto de doenças, contraído pelo contato com o branco, dizimou centenas de índios, entre eles Cunhambebe. Aimberé foi escolhido o novo chefe e a luta continuou. Aimberé procurou o apoio de Tibiriçá e, juntos, combinaram lutar contra os portugueses num prazo de três luas. Acirrou-se assim a luta entre os tupinambás e seus aliados contra os portugueses.

A Confederação dos Tamoios e a Paz de Iperoig O Primeiro Tratado de Paz da América As negociações de paz só vieram a acontecer pela interferência dos padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, que se encontravam em São Paulo em missão catequista. Em 5 de maio de 1563 Anchieta e Nóbrega chegaram à aldeia de Iperoig. Iniciaram-se os entendimentos, mas os índios, cautelosos e desconfiados, exigiam provas concretas de sinceridade por parte dos padres, e para que isso se confirmasse, Nóbrega regressou a São Vicente, levando Cunhambebe, enquanto Anchieta permaneceu em Ubatuba como refém. Foi nessa época que Anchieta, invocando a proteção da Virgem, escreveu grande parte do famoso Poema à Virgem nas areias de Iperoig. As condições foram impostas por Aimberé, desconfiado das intenções portuguesas. O acordo de paz foi selado. Os portugueses se comprometeram a não mais atacar e nem aprisionar os índios e a libertar os que estavam presos em São Vicente. Finalmente foi estabelecida a Paz de Iperoig, em 14 de setembro de 1563. A paz durou pouco. Um dia chegou a Aimberé a notícia de novo ataque português à aldeia de Iperoig. Novamente a Confederação mostrou sua força e respondeu ao ataque, invadindo fazendas e engenhos em pequenos grupos organizados. O rei de Portugal mandou Estácio de Sá, sobrinho do governador do Brasil, para enfrentar os índios, com soldados e armas. A tropa ficou no Rio de Janeiro. Enfrentar o homem branco armado tornou-se cada vez mais difícil. Aimberé chamou os franceses em busca de ajuda e alguns deles lutaram ao lado de Aimberé. O desequilíbrio de forças levou os portugueses à vitória e na aldeia de Uruçumirim os tamoios foram derrotados completamente, deixando a terra livre para a colonização portuguesa. FONTE: Washington de Oliveira (Seu Filhinho)

Quem foi Cunhambebe? Há vários relatos de escritores que conviveram com Cunhambebe - O livro de Jean de Lery, ―Viagem à terra do Brasil‖, o padre André Thévet, que chegou a desenhar o guerreiro Cunhambebe em seu livro ―Cosmographie Universelle‖, o livro de Hans Staden, que esteve preso na tribo de Cunhambebe e que faz vários relatos em seu livro ― História de uma terra chamada América‖. De acordo com os diferentes relatos Cunhambebe era alto e membrudo, e que não era possível suportar muito tempo o brilho dos seus olhos. O grande morubixaba tinha um aspecto que impunha respeito e causava pavor.

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Quando dentro da grande praça da ocara, Cunhambebe presidia uma assembléia de chefes, o seu vulto destacava-se entre os demais. Quando o seu cocar aparecia, todos os outros cocares se curvavam. Não tinha número as suas canoas de guerra. Finas e ligeiras, agilmente impelidas pelos remos fortes essas igaras percorriam a costa, davam combate aos portugueses, assaltavam colônias e não receavam dar batalha às grandes caravelas européias. Muitas vezes, uma dessas grandes naus, artilhada e muito poderosa, se via de repente cercada por muitas canoas que agilmente a incendiavam com flechas incendiárias e logo sumiam da vista, tão rápidas eram nas manobras. Em geral as canoas continham 40 guerreiros e nos momentos de ataque 20 continuavam a remar enquanto outros 20 travavam combate atirando flechas certeiras.

Elemento Europeu Quando da divisão do Brasil em Capitanias Hereditárias, o território do atual Município de Ubatuba ficou incluído no da Capitania que mais prosperou - a de São Vicente - doada por D. João III a Martim Afonso de Souza. Até o início do século XVII, a região era habitada pelos tamoios, que ai tinham numerosas e populosas aldeias, entre as quais se destacava a de Iperoig. Ao que se sabe, o primeiro civilizado a chegar a Ubatuba foi o alemão Hans Staden, que serviu como artilheiro no forte de Bertioga, nas lutas entre portugueses e tamoios.

Hans Staden Hans Staden nasceu na Alemanha, veio para o Brasil num navio mercante português, em 1547, depois de uma viagem acidentada e difícil, tanto que a embarcação, fugindo de um temporal violento e se acostando ao litoral brasileiro, colhida pela vaga naufragou nas proximidades de Itanhaém. Staden e seus companheiros conseguiram salvar-se, penetrando o interior da terra desconhecida. Uma vez salvo, corajoso, Staden procurou a amizade dos portugueses ali estabelecidos, conseguindo o seu intento, tanto que, conhecedores da coragem e ousadia do germânico, os lusos não tiveram dúvidas em entregar-lhe o governo do Forte de São Felipe que guarnecia o povoado de Bertioga. Nesse cargo de tanta responsabilidade, Hans Staden deu logo provas cabais de valor e astúcia, tanto que, com apenas três companheiros, permanecia no posto avançado de um forte pouco seguro, sempre mais em contato com o inimigo selvagem do que com o amigo cristão... Certa manhã distancia-se do forte em busca de uma caça indispensável para alimento, que pouca era a provisão, e, quando em plena mata, é surpreendido e cercado pelos íncolas Tupinambás, que o ferem, despedaçam-lhe as vestes, pondo-o nu para melhor ferirem-no e ensangüentá-lo, maltratando-o impiedosamente. Levam-no, em seguida, para a taba da tribo, em lugar distante e de marcha penosa, onde havia sete casinholas de palha e a que denominavam Ubatuba. Prisioneiro desses índios ferozes passou pelos mais atrozes sofrimentos, enfrentado o martírio com inquebrantável fé cristã. Apesar de muito sofrer, tinha a vida respeitada pelo selvagem, acreditando ele que pelo fato de possuir a pele muito alva e basta pilosidade ruiva... Durante o seu cativeiro na taba tupinambá, viu, um dia, aportarem nestas praias pitorescas, dois navios - um português e outro francês, os quais lhe deram uma vaga esperança de o virem buscar mais tarde. Contudo, vira dois núcleos ambulantes de civilização, chegarem bem perto do seu posto de amargura e depois partirem furando as ondas sem deixarem, sequer, o rastro por onde pudesse, através da imaginação sofredora, vislumbrar o caminho de sua terra. Numa tarde primaveril de 1554, sete anos depois de cativo, aportou nas proximidades do acampamento indígena um navio gaulês, cujo comandante, Guillaume Moner, condoído com a desgraça de Staden, resgata-o aos selvagens e o leva para o continente europeu. No ano de 1555 chega a sua pátria, e aí, na pacífica Alemanha do século XVI, escreve as suas memórias, intitulando-as "Meu cativeiro entre os selvagens do Brasil", páginas que são um verdadeiro monumento de fé cristã e de coragem humana. FONTE: Jetter Sotano em Terceiro Centenário de Ubatuba - Edições do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - 1938

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José de Anchieta José de Anchieta marcou a história, a educação e a cultura do nosso povo, com o qual partilhou sua vida e seus talentos. Incansável, criativo, piedoso, ousado, profético, polivalente, benfeitor. Anchieta nasceu em 19 de março de 1534 em San Cristobal de Laguna, Tenerife, nas Ilhas Canárias, Espanha. Em 1548 iniciou seus estudos em Coimbra, célebre centro intelectual de Portugal, onde ingressou na Companhia de Jesus (1551), recém-fundada por Santo Inácio de Loyola, sonhando ser missionário. Nessa época Anchieta tinha apenas 14 anos. Em 8 de maio de 1553 o jovem jesuíta partiu para o Brasil na 3ª Expedição de Missionários Jesuítas, chefiada pelo padre Luiz de Grã. Chegou em 13 de julho do mesmo ano em Salvador, na Bahia, onde permaneceu alguns meses. Em outubro partiu para o sul do Brasil, a caminho da Capitania de São Vicente. Visitou pela primeira vez a aldeia de Reritiba, hoje cidade de Anchieta, no Espírito Santo. Em 25 de janeiro de 1554, ainda noviço jesuíta, esteve presente na fundação da Vila de Piratininga, berço da futura metrópole de São Paulo, no atual Pátio do Colégio. Em 5 de maio de 1563, Anchieta chegou à praia de Iperoig em Ubatuba, em companhia do Padre Manoel da Nóbrega, a fim de negociar uma trégua com os índios tupinambás. Regressando Padre Manoel da Nóbrega a São Vicente, Anchieta permaneceu refém. Aqui iniciou seu famoso Poema à Virgem, com 5.732 versos latinos, alguns dos quais tracejados nas areias da praia de Iperoig. Em setembro do mesmo ano voltou a Bertioga em companhia do índio Cunhambebe. A Paz de Iperoig foi estabelecida em 14 de setembro de 1563. Dois anos mais tarde, participou da fundação da cidade do Rio de Janeiro, ao lado de Estácio de Sá. No dia 9 de junho de 1597, aos 63 anos, Anchieta faleceu em Reritiba - atual cidade Anchieta (ES) -, após 44 anos de incansável trabalho apostólico-pastoral realizado no Brasil. Catequista onipresente, poeta, tupinólogo e professor. Músico, enfermeiro, construtor de capelas, conselheiro espiritual. Em 1611 os ossos de Anchieta foram transladados em parte para o Colégio da Bahia e alguns para Roma. Deixou, entre suas obras: "Arte da Gramática da Língua mais usada no Brasil", "Vida dos Religiosos da Companhia dos Missionários no Brasil", "Dissertação sobre a História Natural do Brasil" etc. FONTE: Revista Serviço de Guarapari e folheto dos Jesuítas de Anchieta

Colonização Por volta de 1600, Iperoig começou a despertar o interesse dos europeus. Nessa ocasião, era governador do Rio de Janeiro, Salvador Corrêa de Sá e Benevides, e a donatária da Capitania de São Vicente a Condessa de Vimieiro. Ali se foi estabelecer, com sua família e aderentes, a mando do governador, o português Jordão Homem Albernaz da Costa (ou de Castro), natural da Ilha Terceira, nos Açores. Havendo construído logo uma capela, sob a invocação de Santa Cruz do Salvador, deve ser considerado o fundador da cidade e município de Ubatuba. Os primeiros que, em 1610/11, obtiveram sesmarias em território ubatubense foram Gonçalo Correia de Sá, Martins de Sá, Salvador Correia de Sá, Artur de Sá, Belchior Cerqueira, Miguel Pires Isasa, Antônio de Lucena, Inocêncio de Inhatete e Miguel Gonçalves. A antiga aldeia de Iperoig foi elevada à categoria de Vila em 28 de outubro de 1637, com o nome de Vila Nova da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba.

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Participação Francesa A partir de 1870, um acontecimento passou a influenciar a vida do município. Dezenas de famílias de nobres franceses transferiram-se com seus cabedais para Ubatuba, onde compraram grandes extensões de terras e organizaram fazendas, entregando-se ao cultivo do café, do fumo, da cana-de-açúcar, de frutas tropicais, de especiarias como a pimenta-do-reino e o cravo-da-índia. Alguns montaram olarias, outros ingressaram na Marinha Imperial. Em Ubatuba, construíram mansões e um teatro.

Primeiros Italianos Em 1874, uma certa Clementina Tavernari, de Concórdia de Modena, regressou do Brasil Imperial, onde era conhecida como Adelina Malavazi, com a incumbência de recrutar cinqüenta famílias de lavradores do norte da Itália. A intenção era fundar, na então província de Santa Catarina, um núcleo colonial que seria denominado Maria Tereza Cristina em homenagem a Sua Majestade a imperatriz, de origem italiana e casada com D. Pedro II. Trata-se do primeiro experimento de colonização italiana no país.

Apogeu No final do século XIX , que marcou, também, o final do Império, o crescimento de São Paulo agigantou-se. O Norte do Estado, com o Vale do Paraíba, tornou-se verdadeira potência econômica. E o Sul de Minas, região vizinha, acompanhou esse surto de progresso. Ubatuba tornou-se o porto exportador por excelência dessa rica região econômica, onde imperava o café. Como porto de grande movimento, era o ponto final litorâneo, da chamada rota do café, vinda do Sul de Minas e do Vale do Paraíba. Por aí, nesse período áureo de florescimento econômico, entraram mais de 70 mil escravos. Tão intenso era o seu comércio ultramarino que muitos consulados estrangeiros aí se instalaram, para o serviço de vistos. Houve um período em que 600 navios transatlânticos entravam anualmente no Porto. Ubatuba figurava à frente dos municípios de maior renda da Província. Até a primeira máquina de tecelagem do Estado foi importada por Ubatuba para Taubaté. Ilustração: Tom Maia

As ruas fervilhavam de gente da terra, viajantes, negociantes, tropeiros, aventureiros e demais forasteiros; nos solares, as festas e bailes adquiriam quase que o mesmo esplendor e luxo da Corte; no seu teatro, afamadas companhias nacionais e estrangeiras, de passagem para outras cidades portuárias de importância, nele representavam dramas, comédias e até óperas mais em voga; e, também, cultuavam-se as Musas - no célebre Ateneu Ubatubense, que funcionava como escola e centro literário, dispondo de notável biblioteca de mais de 5.000 volumes apresentados em bem impresso catálogo, grande parte dela doada por S. M. Sereníssima, o Imperador Dom Pedro II.

Declínio A marcha do café para o Oeste - regiões de Jundiaí e de Campinas - à procura de terras virgens e férteis e a construção das ligações ferroviárias Rio de Janeiro-São Paulo e São Paulo-Santos e do Porto de Santos, fizeram definhar a antiga estrada da rota do café - que do Sul de Minas demandava o Porto de Ubatuba - e, naturalmente o próprio porto e cidade. A decadência também é atribuída à ordem do Capitão Bernardo José de Lorena, que, intercedendo a favor do porto de Santos, determinou que todas as embarcações em demanda do litoral paulista tocassem em Santos, porto até então abandonado e privado de contados comerciais. Querendo ainda frear a decadência advinda das transformações econômicas que se haviam operado na Província de São Paulo, os grandes proprietários da região ubatubense (sobretudo os franceses) reconheceram que apenas uma providência poderia salvar o porto, a cidade e, por conseguinte, os seus

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interesses - um ramal ferroviário que ligasse Ubatuba a Taubaté -, no Vale do Paraíba, e, dali, alcançasse o Sul de Minas Gerais. Só assim Ubatuba conseguiria manter sua posição de porto regional, exportador da produção do Vale do Paraíba e da região Sul-Mineira. No dia 28 de setembro de 1890, tiveram início as obras de construção. Entretanto, com a falência do Banco de Taubaté, que apoiava o grupo interessado no empreendimento, malogrou-se a iniciativa. As obras, cerca de 80 quilômetros de estrada construída e material ferroviário, foram abandonados. Alguns anos depois, houve uma tentativa infrutífera de concluir a estrada. Em 1917, novo grupo financeiro pleiteou o privilégio da construção da importante via de comunicação. Como das vezes anteriores, não houve resultados práticos.

Ressurgimento A partir de 1933, com a abertura de uma estrada de rodagem entre Ubatuba e São Luiz do Paraitinga, aproveitando o velho caminho das tropas, fez com que a Cidade fosse descoberta para o turismo, iniciando-se novo surto de desenvolvimento. A estrada Caraguatatuba-Ubatuba, aberta em 1954, reduziu consideravelmente o tempo de viagem. Visitantes, encantados com as belezas naturais da região, ali começaram a passar as férias, adquirindo terrenos para construção de suas casas de praia. A construção da estrada de rodagem Rio-Santos (BR-101), abriu para Ubatuba excelentes perspectivas econômicas, para ao aproveitamento de uma das regiões turísticas mais belas do país.

HISTÓRIA ECONÔMICA E A ESCRAVIDÃO EM UBATUBA Agricultura de subsistência Ubatuba caracterizou-se, nos primórdios de sua vida econômica, pelo predomínio do campo sobre a cidade, ou melhor, da vida rural sobre a urbana. Tomando-se como exemplo o ano de 1776, nota-se que havia 1196 elementos constitutivos da população, entre livres e escravos. Essa população se distribuía num total de 258 famílias, das quais 170 se dedicavam à lavoura, 25 à pesca e 25 em outros negócios. A população que se dedicava à lavoura constituía a maioria. Plantava mandioca, milho, arroz, feijão, cana - de- açúcar e farinha. Era a mandioca o produto mais cuidado, quer fresca, quer como farinha. Constituía seu cultivo um dos aspectos bem nítidos da herança indígena. Visava ele acima de tudo, à manutenção, mas havia também exportação. O mesmo sucedia com os demais produtos de subsistência, os quais, quando produzidos em quantidade superior ao consumo, destinavam-se a outros portos. A farinha, embora com grande consumo, tinha possibilidades de exportação. O mesmo não sucedia quanto ao feijão e ao milho, cuja produção geralmente se limitava ao consumo. O arroz teve, nos primeiros anos do século XIX, sua exportação garantida anualmente, embora pequena em geral. Como a farinha, o peixe era também muito consumido e exportado. Os demais produtos de subsistência pouco se desenvolveram, se bem que plantados por quase todos os lavradores. A economia de subsistência persistiu mesmo durante a época do açúcar e mesmo do café. Com o declínio do açúcar, do café e o enfraquecimento da economia portuária, só restava a Ubatuba os produtos que se mantiveram constantes através dos anos, mas dos quais o município não podia esperar grandes riquezas. Arruinados o açúcar e o café, a agricultura de subsistência persistiu e com ela o litoral estagnou. O escravo, que colaborava com o pequeno proprietário para obtenção da farinha de mandioca, do milho, do feijão, do arroz e algum açúcar, não aparecia em todos os lares, mas apenas numa minoria deles. A regra geral, porém, principalmente durante a fase de economia de subsistência, era o auxílio dos agregados aos lavradores com quem viviam. Importa frisar que na economia de subsistência, a vida do escravo foi menos dura, já que o número reduzido deles tornava a relação entre o seu senhor mais pessoal e mais íntima.

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Cana-de-açúcar A região quente e úmida do litoral norte paulista foi um fator a propiciar o desenvolvimento do açúcar, que aliás se adapta a quase todo litoral do Brasil. Encontrando ambiente favorável, a cana de açúcar desenvolveu-se em duas modalidades: a cana de açúcar e aguardente de cana. Da documentação consta que, a partir de 1760, Ubatuba florescia em ritmo acelerado, favorecida por uma situação a que se ligava o açúcar. Em poucos anos se levantaram no município mais de vinte engenhos de fabricar aguardente e também de fazer o açúcar. Para o trabalho na lavoura do açúcar era empregado o elemento escravo, seja para o cultivo da cana, seja na preparação da aguardente. Os escravos do açúcar eram, na maioria, crioulos ou mulatos, indivíduos já nascidos no Brasil. A existência diminuta de africanos autênticos no engenho de açúcar mostrava a pequena importação de escravos em Ubatuba. A exigência de escala obrigatória em Santos, ocasionada por leis, foi benéfica para esta localidade e para a capitania paulista, mas prejudicou Ubatuba, que comerciava com o Rio de Janeiro, onde conseguia grandes vantagens nas vendas de seus produtos. Assim, Ubatuba que possuía 14 engenhos em 1778, só contava com 5 em 1779, entrando em declínio a sua fase açucareira. É preciso considerar ainda que o período da economia do açúcar em Ubatuba foi pequeno. Durou todo ele, sem se considerarem a fase de decadência, pouco mais de meio século.

Café

Fonte: Silvia Szterling. Estado de São Paulo: História,3ª série. São Paulo:FTD,2005.p.52.

Desde 1798, quando da época do predomínio da economia açucareira em Ubatuba, começaram a aparecer na documentação as primeiras referências ao café. Nos primeiros anos do século XIX, alguns lavradores conseguiam uma produção razoável. Mas a partir de 1813 o plantio do café cresceu muito. A lavoura cafeeira não substituiu a açucareira, mas foi-se sobrepondo-se a ela. À medida que o café se firmava como produção as demais lavouras eram destinadas ao consumo e uma pequena parte delas à exportação. Em 1808, com a chegada da Família Real ao Brasil, por ordem de D. João VI, todos os portos do Brasil são abertos, isto é, os brasileiros podem negociar livremente seus produtos com outras regiões brasileiras e estrangeiras. Tal acontecimento, aliado ao cultivo do café em Ubatuba, vai representar uma grande arrancada econômica da vila. Já em 1822, época da Independência do Brasil, o café passa a ser produzido em escala comercial em Ubatuba. A atividade cafeeira se constituirá na principal riqueza da vila, permitindo que parte dos seus habitantes, pela primeira vez, conheça a fartura e a riqueza.

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Foi nessa fase de prosperidade da economia cafeeira que chegaram a Ubatuba os elementos novos: os emigrantes ( Cunha, Rio de Janeiro) e imigrantes ( Portugal, França, Inglaterra), que aqui compraram terras e começaram o plantio do café. O crescimento da economia cafeeira no município durou aproximadamente cinqüenta anos. A partir daí, o cultivo do café em algumas regiões do Vale do Paraíba está em crescimento e em Ubatuba em declínio. Além da ausência de braços , em virtude da saída de escravos, e a ausência de trabalhadores livres, que foram trabalhar nas lavouras cafeeiras no Vale do Paraíba, o que levava os próprios produtores a cuidar da lavouras, outra dificuldade surgiu com a praga dos cafezais. Assim, ao longo dessa época, a produção cafeeira em Ubatuba, aos poucos, dá espaço ao comércio portuário. A decadência, tanto da cana, como do café, também se deve a fatores geográficos. Poucas áreas realmente permitiam grandes plantações. Desse modo a região não podia concorrer com o Vale do Paraíba ou com o oeste paulista, que apresentavam terras mais favoráveis e extensas. Assim se extinguiu a fase próspera da economia cafeeira de Ubatuba, a única a dar riqueza e prosperidade à região.

A economia portuária O desenvolvimento da economia portuária de Ubatuba ocorreu durante a fase cafeeira. Ao desenvolvimento agrário ligou-se ao comercial. Logo Ubatuba prosperou, já que o porto se desenvolvia, graças às transações comerciais do município com outras vilas ( Santos, Paraty, Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga etc.), vinham para o porto de Ubatuba grande quantidade de café e outros gêneros decorrendo daí prosperidade e riqueza para o município. Com as péssimas condições das estradas que ligavam os municípios de serra acima com o porto de Ubatuba, o comércio foi sendo desviado para o porto de Caraguatatuba. Foi diminuindo as transações comerciais com Ubatuba até que cessou, de todo. Iniciava-se o processo de estagnação do município.

O escravo O regime escravocrata existiu em Ubatuba desde época mais remota, pois, antes do negro, já era utilizada mão de obra indígena no trabalho agrícola. Durante o século XVII, foi o índio trabalhador escravo do lavrador de Ubatuba. O índio foi escravizado para o trabalho agrícola num regime de economia de subsistência, portanto, na primeira fase da história econômica de Ubatuba. Com o correr do tempo, o índio foi desaparecendo e um novo escravo passou a ser adquirido, o negro trazido da África. O negro como substituto dos indígenas, foi mão-de-obra construtora das etapas do desenvolvimento econômico da região, principalmente na lavoura cafeeira. A mão-de-obra escrava, que durante muitos anos foi indispensável ao município, sofreu sem violência o processo de desagregação, o qual ocorreu pela entrada dos imigrantes e pelo abolicionismo.

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TIPOS CARACTERÍSTICOS OS CAIÇARAS

Desenho arq. Giolmar Rocha

Origem dos Caiçaras No Brasil, há inúmeras nações indígenas. No entanto, no ato da colonização, os índios foram gradativamente sendo exterminados de nosso litoral, deixando heranças que ainda hoje se perpetuam. Os caiçaras são um exemplo vivo desta combinação índio/colono - que se estabeleceram nos costões rochosos, restingas, mangues e encostas da Mata Atlântica. A palavra caa-içara é de origem tupi-guarani. Separadas, as duas palavras sugerem uma definição: caa significa galhos, paus, "mato", enquanto que içara significa armadilha. A idéia provinda desta junção seria, à primeira vista, uma armadilha de galhos. O termo, porém, denomina as comunidades de pescadores tradicionais dos Estados de São Paulo e Paraná e sul do Rio de Janeiro (Paraty). Com poucos contatos com o "mundo de fora", os caiçaras evoluíram aproveitando os recursos naturais à sua volta, que resultou numa grande intimidade com o ambiente. pequenas comunidades tentam, ainda hoje, preservar seus valores de grupo. Seus territórios - praias e enseadas - são de difícil acesso, por vezes protegido por Unidades de Conservação. Atualmente estas terras são alvo da especulação imobiliária, devido à sua beleza e excelente estado de conservação. Cotidianamente, turistas e aventureiros que buscam o litoral Sudeste como abrigo para as suas férias, travam contato, sem saber, com uma das mais belas e antigas culturas brasileiras.

Cultura Caiçara Apresentamos um pequeno panorama desta cultura que viveu quase um século em parcial isolamento e hoje passa a travar contatos, cada vez maiores, com o universo urbano:

Pesca Os pequenos e médios barcos a motor vieram fazer parte desta cultura nos meados da década de 60. Antes deste período, a agricultura era a atividade primária. O homem caiçara passou de lavrador para pescador e, hoje, podemos dizer que a pesca é a principal atividade do homem caiçara. O aparelhamento e as embarcações sobreviveram de processos indígenas, ao passo que, na captura, predominam os elementos da cultura portuguesa. A poita, indígena, é nada mais do que uma âncora primitiva, empregada para canoas e redes. É dela que provêm expressões comuns dos caiçaras como: canoa poitada, poitado na cama, saiu da poita etc. O termo em tupi significa parar ou estar firme. Também é possível identificar heranças na pesca provindas da imigração japonesa, como é o caso do cerco. Os aparelhos de pesca são divididos em três grupos:

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1) destinados a ferrar o peixe (arpão, fisga, anzol, espinhel); 2) as redes de emalhar e as de envolver e 3) armadilhas, fixas ou flutuantes. Com estes, o homem caiçara pesca no "mar de dentro" para sua subsistência. O arrasto da tainha merece atenção especial, pois se trata de um momento de congregação da comunidade, onde todos trabalham para todos. Com uma rica noção de pesca adquirida ao longo do tempo, os caiçaras começaram a trabalhar em barcos pesqueiros há 30 anos. Hoje, a maioria dos homens adultos são empregados em grandes barcos de sardinha, levando-os a pescar no "mar de fora", desde Cabo Frio até a divisa com o Uruguai. Recebem porcentagens da pesca de acordo com sua especialidade e, em épocas de proibição da pesca ("defeso"), desembarcam de volta aos seus lares.

Agricultura O sistema de cultivo utilizado pelos caiçaras tem marcada influência indígena. Comumente chamada de coivara ou roça de toco, esta técnica itinerante consiste, basicamente, na derrubada e queima da mata para utilizar o terreno para cultivo, seguindo-se um período de pousio, isto é, um "descanso" da terra. A agricultura caiçara serve como complemento alimentar dos pescadores e seu principal produto é a farinha de mandioca - consumida em quase todas as refeições. Há ainda, uma infinidade de produtos secundários e ervas medicinais. Seus principais produtos são: mandioca, milho, cana, feijão, guandu, inhame, entre outros. Ao contrário do que possa parecer, a roça caiçara não se trata de uma agricultura "primitiva", mas uma tecnologia aprimorada que se desenvolveu frente às condições tropicais. No entanto, a agricultura vem perdendo espaço e interesse dentro das comunidades, por causa da perda da noção do poder aquisitivo que acarreta na compra de alimentos nas cidades mais próximas. A extração de madeira para diversos fins como lenha, construção de canoas e casas etc., esbarra muitas vezes em proibição das leis que regem algumas Unidades de Conservação. Os caiçaras ficam assim limitados em seu próprio território. No entanto, uma das interessantes extrações é verificada na Comunidade do Aventureiro (Ilha Grande - RJ) onde os caiçaras retiram a casca do cobi (Anadenanthera colubrina) e a levam ao fogo para retirar sua resina. Esta é aplicada nas redes de pesca com a finalidade de fortalecer a malha, ficando com uma tonalidade vermelha. Plantas são também usadas para uma grande variedade de propósitos, como alimento, medicina, construção, entre outros. O conhecimento dos caiçaras sobre ervas medicinais é bastante vasto, sendo objeto de inúmeras pesquisas.

Artesanato O artesanato tradicional de Ubatuba tem suas raízes nos trabalhos em taquara, palha e vime, desenvolvidos pelos índios. Depois mesclou-se com o barro e a madeira, utilizados com elegância pelos franceses que aqui se instalaram. Os artesãos do município em sua maioria produzem cestaria, trançado, entalhe e escultura em madeira. Os pintores tradicionais utilizam cores vivas e vibrantes sobre peças de cerâmica ou madeira, modeladas e estruturadas com as mesmas formas desenvolvidas por seus antepassados. O comércio de artesanato local concentra-se basicamente nas lojas do centro e nos sertões espalhados pelo município. Ubatuba também participa de feiras e exposições em vários Estados do Brasil, mostrando a arte desenvolvida por várias gerações do povo caiçara.

Cestaria Os cestos são feitos de imbé, taquara, palha, em tamanhos variados, para finalidades diferentes. A trama aberta ou fechada depende da inspiração de quem faz. Em cada bairro há um tipo de trabalho. No Sertão da Quina a trama é aberta e leve. No Sertão do Araribá, Almada, e Ubatumirim, o forte é o cesto, grande ou pequeno. No Ipiranguinha faz-se peneira. No Perequê-Açú, as cestinhas com tampa e o abajur, de vários modelos.

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Madeira Entalhes, esculturas e móveis rústicos compõem o artesanato em madeira de Ubatuba. Os temas quase sempre são inspirados na natureza, como as flores, os animais etc. Foices, machados, facões, gamelas, pilões e móveis rústicos podem ser encontrados no bairro do Taquaral e da Casanga. O conhecimento para a elaboração de canoas, é detido por pouquíssimas pessoas. A legislação de proteção ambiental impede o desenvolvimento desta atividade.

Trançado A trança pode ser feita de embira, palha ou taboa. A primeira é extraída da mata e requer esforço para o corte. O processo de secagem e a trança encarecem os tapetes, redes, porta-vasos, etc. Trabalhos trançados podem ser encontrados no Sertão da Quina, nas Toninhas, no Itaguá, Morro das Moças, Marafunda e Ipiranguinha.

Religiosidade Os caiçaras são, originalmente, um povo de religião católica, herança esta gerada pelo colono português. Há várias festas relacionadas ao catolicismo, porém a mais famosa acontece no mês de maio em homenagem à Cruz (Santa Cruz). A cada ano é escolhido o festeiro - figura central na organização da festa que, por sua vez, escolhe outros responsáveis. Durante três dias, a comunidade estará ocupada na realização da Festa de Santa Cruz. Atualmente várias comunidades caiçaras fazem parte de Igrejas denominadas ―evangélicas‖ ou ―crentes‖ causando um enfraquecimento no Catolicismo tradicional, suas festas e rituais vão se tornando cada vez mais raros e, também, são responsáveis por alguns conflitos entre comunidades.

OS ÍNDIOS Tekoa Nãndeva'e - Boa Vista, em tradução livre. No fim do século XIX os guaranis iniciaram um processo de migração rumo ao litoral, até que no final da década de 60 surgiu a Aldeia Boa Vista, em Ubatuba, com a chegada de três famílias trazidas para o Prumirim por Octacílio Dias Lacerda. Até chegarem ao Prumirim, a saga dos guaranis pode assim ser resumida: Do Paraguai eles emigraram para o Paraná, sendo trazidos para Paraty. De Paraty eles foram para a Fazenda do Maia, no bairro do Taquaral, já em Ubatuba. Um desentendimento na fazenda tirou-os de lá para a Ponta do Piúva, no bairro da Casanga, até que Lacerda ajudou a escrever a história recente dos índios Guaranis em Ubatuba, estabelecendo assim a Aldeia Boa Vista da Nação Guarani. Numa estratégia montada por Lacerda, a Funai acabou legitimando a posse da terra para os índios, resgatando assim a dívida que

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Ubatuba tinha com os primeiros habitantes desta terra (os índios tupinambás extintos na época da colonização). Hoje, são pelo menos 119 índios vivendo na aldeia. A Prefeitura de Ubatuba e a Funai têm oferecido apoio logístico e nota-se uma mudança significativa no modo de vida dos Guaranis, sem que eles percam a identidade com seus antepassados. Nenhum dos índios vai trabalhar na cidade - todos vivem do artesanato, comercializado na beira da estrada, e da venda de palmito aos sábados, na feira de Ubatuba. Para comer, se viram com o que a mata oferece, como palmito e banana. O que falta, como o arroz e o feijão, compram na cidade. Alguns rituais indígenas, como as rezas, também são mantidos. A aldeia conta com um posto de saúde, uma escola que oferece merenda, placas solares para a captação de energia elétrica, fossa séptica e um telefone comunitário. Graças a essas melhorias, a comunidade conseguiu controlar doenças como gripe e verminose e baixar consideravelmente a taxa de mortalidade infantil. Outra prova de que a cultura indígena está sendo preservada é a música. Em fevereiro de 1999, a aldeia Boa Vista, junto com outras três aldeias guaranis de São Paulo e do Rio de Janeiro, lançaram o CD Ñande Reko Arandu (Memória Viva Guarani), composto de canções infantis indígenas, algumas de temática religiosa. A aldeia Boa Vista está localizada no bairro do Prumirim e conta com uma área de 801 hectares. FONTE: Ubatuba - 361 anos - Outubro/1998 - Comunicação Versátil

Artesanato Indígena O Sertão do Prumirim abriga uma aldeia de índios guaranis. Embora prefiram a distância dos brancos, esses índios expõem seu produto artesanal na rodovia Rio-Santos, nos fins-de-semana, próximo à cachoeira do Prumirim. São cestos, balaios, arco e flecha, machadinha, chocalhos, colares de penas, conchas e contas, utilizando o cipó, o imbé e a taquara.

OS NEGROS - OS QUILOMBOLAS

Foto: Revista Isto É / nº. 1782 de 26/11/2003

Segundo pesquisas documentais e bibliográficas, no século XIX, século do café, a mão-de-obra escrava foi largamente utilizada nas fazendas cafeeiras do litoral norte de São Paulo. Além disso, a região de Ubatuba serviu de ancoradouro para o desembarque clandestino de escravos destinados ao Vale do Paraíba e a Minas Gerais. No decorrer deste século, com o fim da era do café, as fazendas foram abandonadas pelos antigos proprietários e ocupadas por núcleos de escravos e/ou ex-escravos, nativos dali mesmo ou fugidos de outros lugares.

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O Quilombo do Cambury A Fazenda Cambory deu origem ao nome atual da praia ou bairro de Cambury, que em tupiguarani significa ―rio que muda‖. Esta fazenda teve muitos escravos. Provavelmente , pelo menos em parte, a formação inicial do Cambury foi resultado da ocupação pacífica da antiga fazenda do Cambory por núcleos de escravos que nela trabalhavam, ou mesmo através de compra ou doação. No local estão preservados os alicerces desta fazenda e de serraria inglesa que explorava o comércio de madeira nobre. Nenhum morador cita a existência da Fazenda Cambory nem de descendentes dela. A versão construída a partir do relato dos moradores mais velhos diz que o bairro é formado por um grupo de escravos liderados por uma certa escrava Josefa que teria fugido de fazendas localizadas no litoral do município de Paraty, no Rio de Janeiro, e ocupado parte da região do atual bairro do Cambury, perto do final do século XIX. Alguns moradores se identificam como parentes distantes dela. Uma outra personagem teria dado origem a um dos troncos familiares mais antigos do Cambury a escrava Cristina. Personagem quase tão mítica quanto a escrava Josefa, a ―Velha Cristina‖ morreu com cerca de 115 anos, por volta de 1950. Já um outro grupo de moradores, que não se reconhecem quilombolas, dizem serem descendentes de caiçaras e de índios chamados Karapeva. Não há documentação desta etnia, o que não significa que não tenha existido.

O Quilombo da Caçandoca Caçandoca e Caçandoquinha guardam, além da beleza natural e exuberante, histórias dos negros quilombolas de Ubatuba. Caçandoca e Caçandoquinha abrigam famílias, moradores que são descendentes dos quilombolas. A colonização desse trecho foi feita por José Antonio de Sá, que tinha o monopólio de Caçandoca em 1881. As terras foram deixadas, depois, como herança a seus filhos.

FESTEJOS POPULARES As manifestações populares tradicionais podem ser vistas na ocasião dos festejos populares. Nestas oportunidades são apresentadas danças folclóricas, de origem portuguesa como o Xiba, (também chamada Bate-pé ou Cachorro do Mato), a Folia de Reis, a Ciranda e a Dança da Fita, ou as de origem afro-cristã como a Congada de São Benedito. Entre as manifestações folclóricas destacam-se o Boizinho, a Malhação de Judas e João Paulino e Maria Angu.

Festa do Divino A Festa do Divino, como é popularmente chamada a comemoração da descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, é realizada em homenagem à terceira pessoa da Santíssima Trindade: O Espírito Santo. Realizada quase sempre no dia de Pentecostes (em grego Pentekoste significa cinqüenta), isto é, cinqüenta dias após a Páscoa, como é comemorada na vizinha cidade de São Luiz do Paraitinga. Segundo a tradição da Igreja, o dia de Pentecostes significa que após cinqüenta dias da Ressurreição do Senhor, o Espírito Santo desceu sobre os apóstolos. Todavia em Ubatuba, a Festa do Divino quase sempre não foi comemorada no dia de Pentecostes, e a explicação que encontramos para tal fato, é que no passado, devida a grande importância que desempenhava a pesca da tainha durante os meses de maio, junho e até mesmo princípio de julho, obrigava a população local a transferir as comemorações do Divino Espírito Santo para o mês de julho. Hoje a pesca da tainha está praticamente exterminada, porém a tradição de se realizar a Festa no mês de julho continua. Fonte: Euclides Vigneron ( Zizinho)

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Festa de São Pedro Pescador A comemoração ao Santo Padroeiro dos Pescadores na cidade de Ubatuba teve início no dia 29 de junho de 1923. Às 10 horas de uma sexta-feira com muito sol o padre caiçara Francisco Lino dos Passos celebrou uma missa no mar. Um fato interessante é que apesar das missas serem dedicadas ao Padroeiro Pescador, a imagem de São Pedro chegou a Ubatuba somente em 1942, trazida pelo padre alemão Hans Beil. A Festa de São Pedro sempre ocorreu no momento em que a pesca da tainha está no auge. Durante os meses de maio a julho, a tainha, proveniente do Rio Grande do Sul, faz uma migração na costa brasileira, passando por Ubatuba e possibilitando ao caiçara uma "abastança" (fartura) nas Festas de São Pedro. Daí a tradição de fazer a "sobrepau" (tainha assada sobre brasas, colocada em cima de galhos de goiabeira verde). Já a Procissão Marítima, teve início somente em 29 de junho de 1954, uma segunda-feira, com poucos barcos, mas uma quantidade enorme de canoas. Como era uma novidade, o povo se aglomerou na entrada da barra do Rio Grande, agitando lenços brancos, enquanto o foguetório anunciava a saída do andor que estava sendo levado pelo barco do Sr. Freitas. Aos poucos esta tradição da procissão no mar foi se firmando, com barcos todos enfeitados. Atualmente o dia 29 de junho é feriado municipal e, neste dia, os pescadores trazem São Pedro em procissão da Igreja Matriz até a barra do Rio Grande, onde, já com seus barcos enfeitados, seguem procissão. Um dos barcos leva a imagem do Santo e todos percorrem a baía de Ubatuba, onde é feita a Benção dos Anzóis. A partir de 1960 novos fatos foram introduzidos: o concurso da Rainha dos Pescadores, barraquinhas, danças de quadrilha etc. Em 1987, com a criação da FUNDART - Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba, a entidade passou a organizar a parte cultural da Festa, promovendo inclusive a corrida de canoas entre os pescadores e o levantamento de mastro com efígie de São Pedro na hora da missa. De acordo com o calendário religioso, o dia 29 de junho é o Dia de São Pedro e foi sempre muito comemorado em Portugal e Espanha, países cristãos e de muita tradição marítima. São Pedro é considerado o Santo Protetor dos pescadores, viúvos, chaveiros, porteiros e das telefonistas. FONTE: Euclides Luiz Vigneron (Zizinho) e Sidnei Martins Lemes

DANÇAS Dança do Boi de Ubatuba A Dança de Boi de Ubatuba é uma das variantes do Bumba Meu Boi Bumbá do Estado do Maranhão espalhada pelo Brasil. Este folguedo folclórico, de maior incidência no Brasil, tem como centro o boi, divindade que representa força e fertilidade. Entremeou-se depois com as festas profanas do carnaval e em combinação com as festas do Divino e São João, espalhou-se pelas terras brasileiras. Ao difundir-se no Brasil, recebeu denominações, formas e enredo diferentes. Sempre a figura maior é o boi, representado por modelo em armação com cabeça verdadeira ou modelada, o corpo revestido com pano pintado, bem colorido, em conformidade com os recursos financeiros dos grupos. Em Ubatuba essa manifestação começou a fazer parte do nosso carnaval lá pelos anos trinta, como mostra o jornal da época "Echo Ubatubense". A Dança de Boi era apresentada pelo senhor Carlinhos, ou Carrinho, filho de Armindo Canos, um oficial aposentado do exército. Esse senhor era de origem nordestina (maranhense). Com ele Carlinhos aprendeu a confeccionar o boizinho e também os cavalinhos para brincar o carnaval. Com estes fatos podemos deduzir que a Dança de Boi de Ubatuba é sem dúvida uma das variantes do Bumba Meu Boi Bumbá do Maranhão. A música usada para a Dança de Boi é composta de versos de improviso, mas o refrão sempre foi o mesmo, e diz o seguinte: Investe, investe meu boi, pro lado que tem mais gente. E nesse momento o boizinho corre para cima do povo e tem que ser contido pelos cavalinhos e toureador. Com o desenvolvimento chegando em Ubatuba numa velocidade muito grande, as ruas por onde desfilava a Dança de Boi sendo tomadas por veículos motorizados e os espaços diminuídos, o carnaval ubatubense foi perdendo a pureza da folia caiçara feita de mascarados, dança de boi, sacis e pequenos blocos.

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Para sobreviver nesse espaço, agora limitado, a Dança de Boi foi se adaptando, ganhando novos conceitos. De 1985 a 1996 não se viam mais as violas e nem se ouvia mais a música da Dança de Boi. De lá para cá novos instrumentos foram introduzidos na Dança de Boi, as violas e rebecas, foram substituídas por uma bateria de escola de samba e a música pelos sambas de enredo das grandes escolas de São Paulo e Rio de Janeiro. Só restou o boi, mesmo assim, já não dança como antigamente. De 1950 a 1962, a Dança de Boi era tão importante no carnaval caiçara, que chegavam a sair diversos grupos pelas ruas da cidade. Nomes importantes são lembrados, como Augusto do Cristino com seu grupo do Morro da Pedreira, Sidônio e seu grupo da praia do Perequê-Açú, mestre Veiga com seu grupo do Sertão do Taquaral, mestre Diniz com seu grupo da antiga Rua da Adutora, Emilio Graciliano e seu grupo da Rodovia Osvaldo Cruz, Albado com seu grupo do bairro da Estufa. Nessa época havia uma competição entre os grupos de Dança de Boi. A partir de 1983, a Seção de Cultura da Prefeitura Municipal, e posteriormente a FUNDART, iniciou um trabalho de resgatar, preservar e apoiar os grupos folclóricos de Ubatuba. Em 1985, a Dança de Boi voltava aos festejos populares, nos moldes dos anos 40. A Dança de Boi apresentou-se na Praça Exaltação a Santa Cruz no dia 22 de agosto, dia Nacional do Folclore. O boizinho e os cavalinhos foram feitos pelo senhor Emilio Graciliano. De lá para cá, essa manifestação folclórica é presença garantida em todas as festas populares do município. FONTE: Sidnei Martins Lemes

Dança da fita Um mastro ao centro do tablado traz um número certo de fitas coloridas. Os dançarinos colocamse ao seu redor, cada um segurando uma fita. Ao som do cantador trançam as fitas e formam desenhos coloridos no mastro. A Dança da Fita, manifestação milenar de origem européia, instalou-se em nosso país nos estados do sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, através dos imigrantes no século passado. Essa manifestação, segundo a Revista "Brasil - Histórias, Costumes", é uma reverência feita à árvore, após o rigoroso inverno europeu. Nas aldeias, os colonos, no prenúncio da primavera, realizavam a Dança da Fita para homenagear o renascimento da Árvore. Em Ubatuba tudo indica que o Sr. João Vitório, um pescador famoso da Enseada, que fazia muitas viagens para Santos com seus amigos, foi quem conheceu a dança da fita no litoral sul e a trouxe para Ubatuba.

Fandango e Xiba O Fandango é um conjunto de danças de salão muito apreciado nos estados do sul do Brasil, entre elas há uma dança denominada Xiba e que ainda é dançada em Ubatuba. No Brasil o Fandango foi introduzido através dos açorianos por volta de 1774 no Rio Grande do Sul e daí chegou até o Litoral Paulista e Interior. Algumas danças que compõem o Fandango de Ubatuba: Xiba (também conhecido pelos caiçaras ubatubenses como Bate-pé e Cachorro do Mato), Recortado, Ciranda de Roda, Tontinha, Cana Verde, Mangericão, Vilão de Lenço, Vilão de Mala, Serrabaile ou Serrabalha, Anuzinho, Marrafa, Ubatubana, Canoa etc. Para dançar uma roda de Xiba são usados diversos casais, sempre em número par, oito ou dez, e assim por diante. Em determinados momentos os homens fazem o sapateado e batem palmas, sempre no ritmo da música ditado pela viola. As mulheres participam dos movimentos coreográficos que são formados no decorrer da dança. O Xiba é cantado em versos tirados pelo mestre da dança e são usados os seguintes instrumentos: viola de dez cordas, cavaquinho, rebeca ou rabeca e adufe (pandeiro). Antigamente os dançadores de Xiba usavam tamancos feitos de pau de laranjeira para ritmar a dança. O Fandango em Ubatuba foi muito apreciado até os anos 70 e não havia uma data específica para se dançar. Havia Xiba nos batizados, noivados, casamentos ou visitas da romaria do Divino Espírito Santo. Atualmente o Xiba é dançado na comunidade do Prumirim, ao norte do município. Fandango: palavra que tem origem no latim, FIDICINARTE, e quer dizer tocar lira.

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FONTE: Sidnei Martins Lemes

Moçambique ou Congada de Bastão São grupos formados pelos devotos de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, santos protetores dos negros. As congadas e moçambiques foram muito difundidas na região do Vale do Paraíba e mesmo com a industrialização dessa região existem ainda muitos grupos. A congada do Sertão do Puruba tem suas raízes presas ao moçambique da cidade de Cunha (SP), e essa por sua vez, a de São Luiz do Paraitinga, como mostra citação feita pelo pesquisador Emilio Willerms no Caderno de Folclore escrito por Maria de Lourdes Borges Ribeiro: "A moçambique chegou em Cunha através dos luizenses na década de trinta". Em Ubatuba o surgimento dessa manifestação folclórica ocorreu na década de 40 no sertão do Puruba. Nessa época o espanhol Benigno Castro instalou na praia do Puruba uma serraria para beneficiar caxeta, madeira que havia em abundância no sertão purubano. Essa madeira, após seu beneficiamento, era levada para a praia do Ubatumirim em lombo de burros. De lá era transportada pela lancha Santense até Santos para a fábrica de lápis. Para a retirada dessa matéria prima foram contratados aproximadamente 150 homens, que na sua maioria vinham de Cunha, da região do Vale do Paraíba. Com o surgimento da FUNDART, Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba, criada para ser um sustentáculo da cultura popular no município, até então fadada a desaparecer, despontava uma nova aurora para a congada do Puruba.

Folia de Reis ou de Santos Reis "Folia de Reis ou de Santos Reis, manifestação folclórica de cunho religioso introduzido no Brasil através da colonização portuguesa. Essa manifestação em Portugal no século XVII tinha como finalidade o divertimento do povo. Ao chegar no Brasil no século XVIII a Folia de Reis passou a ter um sentimento mais religioso do que profano". FONTE: Thereza Regina de Camargo Maia e Tom Maia - Caderno Vale do Paraíba - Festas Populares

"Quando, no mês de novembro, as cigarras começavam a cantar, Papai dizia: - Meu filho, tá na hora de afiná a viola prá cantar Reis. Eu era rapazinho e ficava contente, porque eu acompanhava Papai nas andanças da cantoria de Reis. Naquele tempo não tinha estrada e nem luz, a noite eram usados fifós (tochas feitas de gomo de bambu com azeite de nogueira dentro) para clarear o caminho. Então as pessoas que não cantavam Reis, carregavam os fifós, era aquela procissão de madrugada, era uma beleza. Oh meu Deus, que saudade!" Depoimento de Ozório Antonio de Oliveira, nasc. em 10/02/1899, morador do sert. do Prumirim.

Folia de Reis em Ubatuba Em Ubatuba existe Folia de Reis que teimosamente caminha com dificuldades, mas está aí a cantarolar versos exaltando o Deus Menino. As Folias de Reis ou de Santos Reis em Ubatuba são diferentes das folias do Vale do Paraíba. No litoral, especificamente em Ubatuba, o toque de folia, seu canto, sua composição, se diferencia do interior do Estado. Até mesmo dentro do próprio município existem diferenças no modo de se cantar e tocar. As folias da praia Vermelha do Norte até a praia do Camburi se apresentam com apenas duas vozes, ou seja, primeira e segunda, mais o tripé ou tipe. No instrumental apenas duas violas. No bairro do Perequê-Açú a folia é cantada pelo senhor Octávio, no estilo paratiano, composta de viola, cavaquinho, triângulo e na parte vocal. No centro urbano ainda encontramos resquícios de uma famosa Folia de Reis do senhor Manoel Barbosa (Mané Barbeiro). Alguns remanescentes do grupo ainda relutam para manter a música e a orquestração, como é chamada por eles. Essa Folia de Reis era uma Folia de Reis de Banda de Música, pois era composta de violão simples, violão de sete cordas, cavaquinho, violino (rabeca), clarineta, sax-tenor, trompete, pandeiro e chocalho. No vocal apenas primeira e segunda voz. No sul do município temos no Sertão da Quina o Grupo de Folia de Reis do Zéca Pedro e seus familiares. Esse grupo é bem parecido com os grupos do lado norte da cidade. Na Maranduba existe hoje um grupo que é uma mistura de dois estilos, o caiçara e o mineiro. Antunes, responsável pelo grupo, é caiçara e sua esposa Victória, que também compõe o grupo, é mineira.

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Nesse grupo podemos notar que não existem divisões de vozes, é afinadíssimo, mas é unissonante no cantar. Na parte instrumental tem violões, cavaquinho, timba, pandeiro e chocalhos.

As Máscaras em Ubatuba Em Ubatuba, as máscaras participam do carnaval desde o século XIX. Havia os mascarados que em bando desfilavam pelas ruas centrais da cidade. As máscaras eram feitas pelos próprios foliões que utilizavam um molde de barro, cola de polvilho azedo, papel higiênico, jornal velho e muita criatividade. Eram feitas centenas de máscaras todos os anos. Alguns mascareiros se destacavam pela qualidade de seus trabalhos, como José Carneiro Bastos (Zé Cabé), Manoel Nunes de Souza (Manequinho Carcereiro), Antonio Felix de Pinho (Seu Pinho), José Luiz Pimenta (Zé Pimenta), e mais recentemente João Teixeira Leite. A máscara teve um papel importante no carnaval ubatubense até os anos 70, mas hoje podemos apreciar essa manifestação popular somente no grupo da Dança de Boi que se apresenta nas tradicionais festas populares de nossa cidade. A FUNDART costuma promover no mês de agosto uma oficina de confecção de máscaras com o objetivo de preservar e incentivar essa arte. FONTE: Sidnei Martins Lemes

LENDAS UBATUBENSES        

Boi de Conchas Lenda do Corcovado A mina de ouro O corpo seco Lenda da Sununga Gruta que Chora Lenda da Cruz de Ferro da Serra A lenda de Nossa Senhora aprisionada

CULINÁRIA CAIÇARA Comida de Branco Nos tempos do descobrimento, os índios provaram a comida de branco. Não gostaram. Segundo Pero Vaz de Caminha, dois tupis foram levados à nau capitânia, e recebidos pelo próprio Pedro Álvares Cabral. Provaram peixe cozido, confeito, fartéis (um doce delicado, envolvido em capa de massa de trigo), mel e figos secos. Não comeram quase nada. Quando provavam algo, logo cuspiam enojados. Nem o vinho apreciaram. Em compensação, os portugueses gostaram dos camarões, que já conheciam, mas não tão grandes. Caiçaras e viajantes do Litoral Norte levavam sua própria comida nas longas viagens a pé ou de canoa, quando a região ainda não contava com os espetaculares restaurantes de hoje. Eram recebidos com café, banana e muito carinho. Todos se conheciam, de Bertioga a Paraty. Nas viagens de canoa, antes das estradas e do turismo, alguém era sempre o filho da dona fulana, o primo do seu sicrano. Como o caiçara preferia não dar muito trabalho, levava comida. Sem geladeira, usava o sal como principal conservante do peixe, item básico da alimentação, ao lado da banana e da farinha de mandioca ou milho. Sua cozinha misturava hábitos

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portugueses e indígenas, com pouca ou nenhuma influência inicial dos negros. Com o início da plantação de cana, vieram a pinga e os escravos, com suas receitas africanas. Paraty, aliás, virou sinônimo de cachaça. A mudança de costumes eliminou também a tanajura ou içá, iguaria elogiada no tempo dos nossos avós. Mas a tradição caiçara se mantem nos pratos típicos da região, temos: arroz com mariscos lambelambe à moda caiçara, ostras, bobó de camarão, ovas de peixe, peixe assado na folha de bananeira, bolo forrado de banana, beiju (tapioca), caranguejo, siri, peixe com banana, no famoso azul-marinho; camarões à paulistinha, caldeiradas e afogados fazem a alegria de todos.

O PATRIMÔNIO HISTÓRICO Dos antigos casarões de outrora se salvaram apenas dois, o Casarão do Porto (sede da FUNDART) e o prédio que abriga a Câmara Municipal de Ubatuba.

Casarão do Porto O edifício foi construído 1846 pelo armador português Manoel Baltazar da Cunha Fortes. A construção é uma versão litorânea da arquitetura urbana que começava a aparecer, na Europa, a partir de 1840, riquíssima em detalhes arquitetônicos. , Foi tombado pelo CONDEPHAAT e pelo SPHAN como patrimônio histórico nacional e estadual. Atualmente abriga a Fundação de Arte e Cultura - FUNDART Além de morada de Baltazar Fortes, o Casarão funcionava comercialmente como mercado alfandegário. Por ele passavam produtos de toda a região que seguiam exportados e as importações eram recebidas e armazenadas. Entretanto, todo o tráfego que movimentava o porto de Ubatuba foi desviado para Santos, com a construção da estrada de ferro que interligou São Paulo ao Rio de Janeiro ao longo do Vale do Paraíba. Nesta época deu-se a falência do Banco de Taubaté, que apoiava o grupo interessado na construção de um ramal ferroviário que ligaria Ubatuba a Taubaté, no Vale do Paraíba. Ubatuba encerra assim suas atividades portuárias e exportadoras. Por volta de 1890 a família de Baltazar Fortes muda-se para o Rio de Janeiro deixando o prédio abandonado. O Casarão ficou fechado durante um longo período. Júlio Kerkis, húngaro refugiado do regime comunista, chega a Ubatuba em 1926 e transforma o Casarão em hotel e restaurante. Mais tarde (1936) é comprado por Félix Guisard, industrial de Taubaté, que o utilizou como residência de veraneio. Com entrada independente para o andar superior, o salão térreo foi transformado em pontos comerciais. Funcionou como Casa da Lavoura e loja de artesanato. Na administração Benedito Rodrigues Pereira Filho (1983) houve a desapropriação do prédio, que já havia sido tombado como Patrimônio Histórico anteriormente (1959). O prefeito Pedro Paulo Teixeira Pinto promove a sua restauração e cria, em 1987, a Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba - FUNDART, atualmente abrigada no Casarão do Porto. Palco de atividades culturais, hoje o Casarão do Porto passa por um processo de manutenção e restauração, funcionando parcialmente para visitações públicas. Para quem quiser conhecer e ver de perto seus belíssimos detalhes fica na Praça Anchieta, 38, centro.

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Sobrado da Câmara Municipal Antiga residência tombada como patrimônio histórico estadual. O uso descaracterizou a parte interna, mas a fachada se manteve inalterada. O Sobrado da Câmara fica situado na Av. Iperoig esquina com a Rua Conceição, no centro. Em meados do século XIX a Câmara Municipal de Ubatuba adquiriu o sobrado que na época pertencia ao Dr. José Paulo da Rosa e Bonsucesso Galhardo, instalando-se nele em 05 de janeiro de 1864. Não se sabe ao certo o ano de construção do mesmo. No dia 06 de abril de 1872, o Fórum foi instalado em uma das dependências do prédio e em 1908, com a reforma administrativa que estabeleceu a função executiva dos primeiros prefeitos, a Prefeitura Municipal também passou a funcionar cumulativamente no mesmo lugar. Em 1959 o prédio do Fórum foi construído e finalmente em 1964, Francisco Matarazzo Sobrinho, prefeito na época, construiu a sede da prefeitura, quando a Câmara voltou a ocupar totalmente o Paço. O Paço Nóbrega, como é conhecido, segundo informações de Washington de Oliveira (Seu Filhinho), em um de seus livros, em 1936 sofreu reformas que resultaram nas divisões de espaços da área, mas a fachada é a mesma desde o começo do século passado. Por volta de 1960 algumas reformas internas foram feitas para a recuperação do telhado, forro, piso e esquadrias. Em janeiro de 1985 a solicitação de tombamento foi feita pelo vereador Cícero José de Jesus Assunção, ano em que foi presidente da Casa.

Cadeia Velha A Cadeia Velha localiza-se na Praça Nóbrega. Abriga a sede do Museu Histórico de Ubatuba desde 2001. A Cadeia Velha, considerada a primeira construção de linhas modernas de Ubatuba no século XX foi projetada por Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha (Euclides da Cunha – 1866 1908) – engenheiro, militar, jornalista e escritor. Euclides da Cunha foi o responsável pela elaboração da planta, aprovação e inspeção da construção iniciada em 1901, na Praça do Programa, atualmente Praça Nóbrega, quando foi funcionário da Secretaria da Agricultura, Indústria, Comércio, Viação e Obras Públicas do Governo do Estado de São Paulo. "Por conta deste cargo, ele teria efetuado uma visita de inspeção e inaugurado o prédio em nome do governador. (1902) O construtor do edifício foi o português Silva (cujo primeiro nome é desconhecido). O mestre pedreiro era conhecido por Manuel Sapão". Nas primeiras décadas do século XX hospedou desde presos a caminho da Colônia Correcional do Porto das Palmas, na Ilha dos Porcos (Presídio da Ilha Anchieta – projeto de Ramos Azevedo, hoje parte do PEIA – Parque Estadual da Ilha Anchieta) até viajantes. A cadeia funcionou no local até 1976, quando foi transferida para a nova construção da Rua Thomaz Galhardo. Após uma reforma sediou o Centro Municipal de Cultura, Esportes e Turismo da Prefeitura, e de 1984 a 2000 pela CETESB – Companhia Estadual de Tratamento de Esgoto e Saneamento Básico. A partir de 2001, ao início da administração do prefeito Paulo Ramos, a Cadeia Velha, reconhecida como Patrimônio Histórico Municipal, passou a ser a sede do Museu Histórico de Ubatuba. O Museu Histórico de Ubatuba conta com acervo composto por materiais heterogêneos que vão desde vestígios arqueológicos dos primeiros habitantes de Ubatuba, encontrados nos terrenos que deram origem aos bairros do Tenório e Itaguá, até os móveis e objetos pessoais de Madre Glória – seu piano e armário, e do farmacêutico Washington de Oliveira (Seu Filhinho) – sua máquina de escrever manual e outros.

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Exaltação da Santa Cruz O começo da construção da igreja da EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ data de 1798, mas as obras só foram concluídas por volta de 1866. Fica situada na praça que também tem o seu nome, no centro da cidade. A primeira Igreja Matriz de Ubatuba, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, localizava-se onde hoje se encontra o cruzamento das ruas Conceição e Salvador Correa, correspondendo aos fundos da Câmara Municipal. Por ser pequena e achar-se em mau estado de conservação, providenciou-se a construção de uma nova Matriz, a atual, em melhor localização, de maiores dimensões e nova arquitetura. Isso se deu na segunda metade do Século XVIII (1700). De fato em Ofício de 09 de março de 1790 o Secretário do Governo da então Província de São Paulo, dirigiu-se ao Capitão Mor da Vila de Ubatuba, autorizando "a cobrar subsídios para a construção da nova Matriz". Em 20 de junho de 1834, a Câmara Ubatubense solicitou do Governo da Província providências em favor daquelas obras. Em 10 de janeiro de 1835 a Câmara dirigiu-se ao mesmo solicitando providências para "ereção ou mesmo a reedificação da Matriz, da qual só existe a capela-mor". Em 1835 a matriz estava ainda em início de construção, as obras prosseguindo em moroso andamento, enfrentando as dificuldades da época e a grandiosidade do templo. Atualmente a Igreja tem uma torre: uma apenas que lhe dá a característica de inacabada. Por informação de pessoa vivida nos fins do século passado, ficamos sabendo que esta torre foi construída entre os anos de 1885-90. Na torre havia um relógio de amplas dimensões que por muitos anos marcou a hora oficial da cidade. Foi há pouco substituído por outro de idênticas dimensões, atualmente inativo. Contudo a Matriz continuava necessitando de obras para a sua conclusão. Até 1913, muita coisa estava por fazer. Em 1913 o Pe. Paschoal Reale, não podendo restaurar também a Igreja do Rosário que existia na atual Praça Senhora da Paz, demoliu-a e com o material aproveitável e auxílios angariados, fez rebocar e dotar de piso a capela-mor, transferindo para lá o altar-mor. Em 1915 o Pe. Reale, mais uma vez aproveitando peça dos antigos altares da Igreja demolida, do Rosário, fez construir o atual altar-mor, onde a par de peças novas se podem observar colunas e molduras em outro estilo. Em 1940 o Pe. Hans Beil, Pe. João como era conhecido, pretendendo substituir o velho assoalho de madeira por piso ladrilho, arrancou as largas tábuas já apodrecidas, deixando a nave em pleno areal. Mas o estado de guerra entre nosso País e a Alemanha, impôs ao Pe. João deixar a Paróquia antes de concluir o seu intento. Substituiu-o Pe. Ovidio Simon que realizou a obra. Desde 1980 até 1992, o pároco foi Frei Angélico Manenti que corajosamente empreendeu a execução das mais ousadas obras de restauração da nossa Igreja ( substituição do madeiramento superior, restauração dos corredores laterais, substituição de todo o reboco externo, pintura externa, etc.).

Fazenda Bom Retiro - Ruínas da Lagoinha As ruínas em pedra e cal da Fazenda Bom Retiro estão localizadas próximo ao km 72, da Rodovia Rio-Santos, sentido serra. Construídas, segundo estudos recentes, provavelmente no início do século XIX. São remanescentes de uma Ubatuba próspera, quando em seu porto eram negociados e exportados a produção valeparaibana, trazida pelos tropeiros (aguardente, açúcar mascavo, milho, fumo...). As Ruínas do Antigo Engenho da Fazenda Bom Retiro da Lagoinha do Município de Ubatuba, foram tombadas pelo CONDEPHAAT Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo em 16 de dezembro de 1985, para sua proteção e valorização enquanto Patrimônio Histórico de suma importância para o Município. Foi classificado como engenho devido ao grande aqueduto existente e ao que restou das instalações de uma roda d'água. O terreno onde se encontram as Ruínas foi doado pelo senhor

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Jamil Zantut e sua esposa Benedicta Corrêa Zantut à FUNDART em 19 de outubro de 1989. O engenheiro francês João Agostinho Stevenné ou Stevenin, no início do século, proprietário, também, da Fazenda Maranduba e Sapé, criou na Lagoinha um engenho de açúcar - uma grande fazenda modelo, escola para o ensino de novas técnicas para a fabricação de açúcar e introdução e propagação de carneiros merinós para a produção de carvão animal. A fazenda modelo na Lagoinha entrou em decadência por volta de 1850 com a evolução das técnicas agrícolas. As datas de compra e venda da propriedade por Stevenné são desconhecidas. Segundo relatos orais e recentes pesquisas, outro importante proprietário foi o Capitão Romualdo, já no final do século, possuidor de vasta cultura de café e cana de açúcar, fabricante e exportador de aguardente e açúcar mascavo. Seus escravos teriam ganhado a liberdade com a abolição da escravatura, mas sem terem para onde ir e por gratidão e amizade, permaneceram até o falecimento do fazendeiro. O Capitão Romualdo ainda teria iniciado a construção da primeira fábrica de vidros no Brasil, para embalar a aguardente para exportação, fato não comprovado, nem mesmo pela existência de três colunas de sustentação, na entrada do condomínio Lagoinha, do lado da praia. Foram encontrados registros de batizados de escravos de Romualdo Antonio de Oliveira, na Lagoinha, de 1836 a 1883, juntamente com de membros da família Oliveira e família Prado. FONTE: Fundação de Arte e Cultura de Ubatuba - FUNDART

Ruínas da Lagoinha

Ao lado esquerdo da rodovia que liga Ubatuba à Caraguatatuba, no bairro da Lagoinha encontra-se as ruínas do que um dia foi a primeira Fábrica de Vidros do Brasil. Caracterizado por colunas, as ruínas marcam as atividades da primeira fábrica do país, destinada ao engarrafamento da aguardente produzida na cidade nos idos do século XIX. O negócio apenas não prosperou porque o Governo de Portugal exigiu que as garrafas fossem importadas. É um lugar histórico que nos faz voltar ao passado, sempre em contato com sua beleza marcante e natural.

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Paraty/ RJ Data de fundação: 28 de fevereiro de 1667

SÍMBOLOS MUNICIPAIS Brasão Criado por lei municipal em 1960, possui a seguinte descrição heráldica: O escudo do brasão está divido em quatro partes. Na primeira, em cor dourada, há um cocar de penas sobre duas flechas cruzadas. Na segunda, em vermelho, um antigo carimbo na forma elíptica com o brasão de armas de Portugal, ladeado pela palavra "Remédios", no sentido vertical, sendo metade de cada lado. Na terceira parte, em dourado, o contorno do município, tendo como fundo a esquerda um campo na cor prata, e a direita, com fundo azul, o mar e um peixe na cor prata. Na quarta parte, o por menor de uma casa colonial, mostrando um beiral, tudo prateado sobre um campo azul, tendo à direita a contorno de uma árvore. Na parte de fora do escudo, há do lado esquerdo um galho de café, e do lado direito uma haste de cana, ambos na cor verde. Abaixo do escudo, unindo o café e a cana, há uma faixa vermelha com os seguintes dizeres na cor prata: "1660 - Paraty - 1844‖. Acima do escudo há uma coroa formada de pedras com cinco torres, na cor prata, representando a cidade, tendo ao centro uma Flor de Liz, na cor dourada com fundo vermelho. A palavra em português lembra a origem lusitana de nossa Pátria e o santo padroeiro da cidade. O cocar e as duas setas lembram que os índios foram os primeiros habitantes da região. O carimbo era usado no tempo colonial para autenticar a documentação de atos governo municipal, sob a invocação de N. S. dos Remédios, protetora dos munícipes, desde 1646. O peixe simboliza a piscosa e alentada orla marítima, uma das muitas riquezas regional. O beiral é uma esplendorosa característica do velho casario, cuja autenticidade e beleza arquitetônica levaram o governo federal a elevar a cidade de Parati à dignidade de Monumento Nacional. O café e a cana são riquezas naturais, desde longa data, sendo que a segunda proporcionou a fabricação de aguardente, a melhor e a mais reputada do Brasil. A Flor de Liz recorda que o orago da cidade é N. S. dos Remédios. A data 1660 foi quando o povoado foi elevado à categoria de vila e, 1844 foi a data em que adquiriu foro de cidade. As cores representam os seguintes adjetivos: dourado: força / prata: candura / vermelho: intrepidez / azul: serenidade / verde: abundancia.

Bandeira Criada pela lei municipal n. 373 de 1967, a bandeira do município de Paraty possui a seguinte descrição heráldica: De formato normal das bandeiras oficiais, possui três faixas verticais com cores diferentes (vermelho, branco e azul - cores que a séculos ornamentam as casas), tendo na do meio o brasão de armas do município. Na faixa vermelha, próxima ao mastro, uma estrela maior simbolizando o primeiro distrito, e na azul, duas estrelas menores, simbolizando o segundo e terceiro Distrito. As estrelas estão colocadas em forma triangular, lembrando a grande influencia que a maçonaria exerceu na história do Paraty.

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HISTÓRIA DO MUNICÍPIO

Nome Paraty – nome em tupi –guarani de um peixe da região, da família da tainha.

O território do atual Município de Paraty era ocupado, à época do Descobrimento, pelos indígenas guaianás. Desde princípios do século XVI, portugueses vindos da Capitania de São Vicente instalaram se na região. Com a descoberta do ouro nas ―gerais‖, Paraty tornou-se ponto obrigatório para os que vinham do Rio de janeiro em demanda das minas, uma vez que esse era o único local em que a Serra do mar podia ser transposta, através de uma antiga trilha dos guaianás, pela Serra do Facão e o local em que hoje fica a Cidade de Cunha, em São Paulo, e atingindo o Vale do Paraíba, em Taubaté - depois em Pindamonhangaba e Guaratinguetá - e daí os sertões das ―gerais‖. Foi esse o caminho trilhado por Martim Correia de Sá, filho do governador Salvador de Sá, à frente de 700 portugueses e 2.000 índios tamoios na região das minas. Segundo a tradição, as primeiras sesmarias em terras de Paraty foram concedidas pelo CapitãoMor Joaquim Pimenta de Carvalho, em nome do Conde da Ilha do Príncipe, donatário da Capitania de São Vicente, a alguns moradores da Vila de N.Sª. da Conceição de Angra dos Reis da Ilha Grande, a cuja jurisdição pertenciam. O primeiro núcleo organizado de povoamento surgiu num morro ―distante 25 braças para o Norte do rio Perequê-Açú‖, onde, em princípios do século XVII, foi São Roque. Posteriormente, seus moradores transferiram-se para local mais favorável e construíram, por volta de 1646, um templo sob o orago de N.Sª. dos Remédios, em terreno doado por Maria Jácome de Melo. Graças à sua situação de caminho único para o Vale do Paraíba e as Minas para quem vinha do Norte, a povoação prosperou rapidamente. Os paulistas do Vale desciam a Serra com os produtos de sua lavoura para negociá-los e ali adquirir os artigos de que necessitavam. Seu porto era muito freqüentado, fazendo-se grande comércio de café, arroz, milho, feijão, aguardente e farinha. Por ali escoava-se grande parte do ouro das Minas, tanto que uma Carta Régia de 9 de maio de 1703 nela criou um Registro de Ouro, extinguindo todos demais, salvo o de Santos. Em 1660, um Paratiense decidido, o Capitão Domingos Gonçalves de Abreu, levantando-se contra a Vila de angras dos Reis da Ilha Grande, a cuja jurisdição estava sujeito o povoado, requereu diretamente ao Capitão-Mor da Capitania de São Vicente a sua elevação à categoria de Vila e, sem esperar resposta, erigiu às suas custas o pelourinho, símbolo de autonomia e autoridade. Durante sete anos a Câmara de Angra dos Reis lutou contra esse ato de rebeldia, mas uma Carta Régia de 28 de fevereiro de 1667 reconheceu a autonomia já de fato conquistada pelos ―levantados‖ de Paraty. Criada em 1720 a capitania de São Paulo, desmembrada do Rio de Janeiro, a ela foi adjudicada a Vila de Paraty. No entanto, como a administração da justiça continuasse a cargo do Ouvidor-Geral da capitania do Rio de Janeiro, que dela não abria mão, a Câmara da Vila, diante dos inconvenientes que surgiam dessa dualidade de jurisdição, solicitou sua anexação à última, o que foi concedida por Ordem Régia de 8 de janeiro de 1827. Um Paratiense, o Capitão Francisco do Amaral Gurgel, que partira às suas custas com um reforço de 500 homens e 80 escravos em defesa da Cidade do Rio de janeiro, atacada pela esquadra francesa de Dugiay-Trouin, que a ocupara em 12 de setembro de 1711, negociou o resgate exigido pelos franceses para se retirarem: 610 mil cruzados, mil caixas de açúcar e 200 bois. Depois da abertura, na segunda década do século XVIII, do ―caminho novo‖ para as Minas Gerais, o qual partindo do rio de janeiro através da Serra dos Órgãos, Paraíba (do Sul) e Borda do Campo (Barbacena), encurtava para 15 dias a jornada para os sertões do ouro, Paraty sofreu o primeiro declínio. Ainda assim, continuou importante porto de mar até fins do século XIX. As caravelas que vinham da Europa ali faziam escala quase obrigatória. Companhias líricas vinham da Europa representar no teatro de Paraty, que também recebeu atores nacionais do vulto de João Caetano. Continuavam a chegar imigrantes às suas terras férteis. Por volta de 1863 ainda existiam 12 engenhos e 150 fábricas de aguardente. Com a abolição da escravatura, em 1888, e o êxodo dos trabalhadores rurais, verificou-se o colapso de sua economia, baseada na cultura da cana e do café. Em conseqüência do abandono das terras, vários cursos de água tiveram seus leitos obstruídos, ficando as várzeas férteis sujeitas a inundações.

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A partir de 1954, com a abertura de uma estrada carroçável para Cunha, na direção do antigo caminho colonial da Serra, vem-se processando lentamente o soerguimento econômico do Município, tanto pela recuperação das lavouras, como pela afluência de turistas, vindos principalmente de São Paulo. A precariedade do transporte marítimo, único meio de comunicação de Paraty com os demais Municípios fluminenses, provocou, no princípio da década de 1960, um movimento a favor de uma revisão administrativa que desmembrasse o Município do Estado do Rio de Janeiro e o fizesse voltar a integrar o território do Estado de São Paulo. A abertura da estrada para Angra dos Reis veio romper esse isolamento e permitir prever para breve novo surto de progresso para o Município. Pela sua situação geográfica e riqueza de suas terras, Paraty tem condições excepcionais para retomar o lugar de relevo que ostentou outrora no conjunto das localidades fluminenses. Vários foram os ciclos econômicos de Paraty:     

Ciclo Portuário ---------------------- 1600/1880 Ciclo do Ouro ----------------------- 1700/1750 Ciclo da Cana - de- Açúcar ------- 1700/1900 Ciclo do Café ----------------------- 1800/1900 Ciclo do Turismo ---------------- 1960 até hoje

O caminho do Ouro ou Estrada Real Os Guaianás, primeiros habitantes de Paraty, usavam uma trilha na serra que ligava suas duas aldeias, a de Paraty e a do Vale do Paraíba, na região de Taubaté. Em meados do Século XVII, o governo mandou abrir e melhorar este caminho, ligando-o a São Paulo e às minas da região. Foi então que através dele as riquezas produzidas nas Minas Gerais desceram para o porto de Paraty e foram enviadas para o Rio de Janeiro e de lá para Portugal. Por ele subiram os que buscavam enriquecer nas minas de ouro e diamante e as tropas de muares e escravos com gêneros alimentícios, vestuários, móveis e utensílios destinados àquela região. Para a fiscalização dos tributos e do fluxo dos viajantes foram instalados ao longo do trajeto Casas de Registro. No Século XVIII este caminho chegava até a cidade de Diamantina (MG). Depois, foi por esta mesma estrada que trafegou o café produzido no Vale do Paraíba paulista. O caminho da Serra foi alargado e melhorado durante seu uso. Alguns trechos foram calcados, estivados e alargados. Seu trafego permanente foi de vital importância para o progresso de Paraty, que sempre viveu do comercio e do movimento de seu porto. Mapa: Instituto Estrada Real

Sem uso, no final do Século XIX, aos poucos foi sendo coberto pela mata e sofreu vários desbarrancamentos. Restam no município aproximadamente 12 km desta estrada, em sua maior parte dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Do caminho original, calçado, restam alguns trechos nas cidades por onde passava, porém os mais longos e mais conservados encontram-se em Paraty e Diamantina.

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TIPOS CARACTERÍSTICOS OS INDÍOS Existem no município duas reservas indígenas: a Aldeia Araponga, na localidade do Patrimônio e a aldeia do Paraty Mirim. São índios vindos do sul do país, da etnia tupi-guarani, que aqui chegaram há pouco mais de 20 anos; pertencem ao grupo Mbyá e se auto denominam ―nhandeva‖, que quer dizer: ―gente nossa‖ ou ―verdadeiro guarani‖. Apesar das dificuldades buscam preservar a identidade e a cultura de suas nações e produzem rico e variado artesanato em cipós, madeira, sementes, que vendem na cidade.

OS NEGROS - OS QUILOMBOLAS O Quilombo do Campinho da Independência é uma comunidade formada por negros descendentes de escravos das fazendas da região que se reuniram nas terras da antiga fazenda da Independência, após a libertação da escravatura. Isolados, mantiveram algumas formas de tradição e cultura e perderam outras que procuram atualmente resgatar, como a dança do jongo e a capoeira. A comunidade foi reconhecida, no ano de 1999, como remanescente de quilombolas e recebeu a titulação definitiva da posse das terras que ocupam. Lá se realiza, no mês de novembro, a Semana da Cultura Negra, com palestras, reuniões, apresentações de danças e shows musicais.

FESTEJOS POPULARES Eventos Tradicionais    

Carnaval O Festival da Pinga A Festa Literária Internacional de Paraty Reveillon

Festas Religiosas        

Festa do Divino Semana Santa Festa de São Pedro Festa de Santa Rita Festa de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário Festa de Nossa Senhora dos Remédios Procissão de Corpus Christi Oficina de Idéias - Encontro Evangélico Nacional - www.evangelicosemparaty.com.br

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Semana Santa Ainda hoje Paraty mantém muitas manifestações tradicionais como nos séculos XVII e XVIII, algumas foram adaptadas, como é o caso da "Procissão do Encontro" que antes era realizada uma semana antes da Sexta-feira Santa e hoje acontece na própria sexta-feira. Os Passos são como portas embutidas nas paredes dos sobrados e casas, neles estão representados os principais momentos da Paixão de Cristo como o horto das oliveiras, a prisão, a coroação de espinhos, Jesus na varanda de Pilatos, com a cruz nas costas, a crucificação e o último, representa o calvário e fica no interior da Igreja Matriz. Os Passos vieram da tradição de Via-Crucis existente em Portugal, ainda no período colonial, quando diversos Passos da Paixão foram construídos em cidades brasileiras como Tiradentes, São João Del Rei, Ouro Preto e Congonhas do Campo.

Folia de Reis Dezembro e Janeiro Em Paraty, a Folia de Reis tem início no dia 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição e termina em 20 de janeiro. Durante este período, os grupos de violeiros e cantadores de música tradicional se reúnem em locais previamente agendados para recitar versos antigos que contam a história do nascimento de Jesus.

Festa do Divino Espírito Santo Paraty está entre as cidades brasileiras que souberam manter, enriquecer e trazer até nós, com renovada beleza, a secular festa do Divino Espírito Santo, presente na região fluminense desde o século XVII(...).

Danças, Músicas e Grupos Folclóricos Xiba-Cateretê - A expressão "xiba", em Paraty, tem duplo significado; genericamente, designa qualquer baile da roça, "puxado à viola"; em sentido restrito, é o nome de uma dança muito praticada nas roças, atualmente em desuso. Xiba era a dança mais esperada e de maior destaque; assim, não se convidava uma pessoa para um baile, e sim, para uma xiba. Hoje, convidam-se as pessoas para uma ciranda, pois o xiba somente é dançado em no Bairro da Tarituba. Ciranda - Genericamente, significa qualquer baile à viola na cidade ou na roça. No entanto, em sentido específico é uma dança de adulto, citadina, composta de canto de roda, marcado pelos versos de um mestre, ao velho estilo das quadrilhas (tanto em Paraty como em Portugal). As ordens podem ser dadas em português - "vamos dar a meia-volta; cavalheiro, adiante, trocar o par" — ou em francês aportuguesado — "anavan" (en avant) , "changê", "anarriê" (en arrière). Quando o cantador grita "trocar de par" ou "mesmo par", sempre ocorre grande confusão, sobrando cavalheiros e às vezes damas, permitindo que novas pessoas entrem na roda.

Cana Verde de Mão - É uma dança de origem portuguesa, que adquiriu, no Brasil, características próprias, que a tornaram diferente da caninha-verde-de-Portugal. Em Paraty, há dois tipos de cana verde: a valsada e a de mão. Do ponto de vista musical pouco difere; a diferença está no modo de dançar. Na cana verde de mão os dançarinos dispõem-se em grupos de dois pares, cavalheiros e damas defrontam-se, entrelaçando-se. O cavalheiro, dando a mão direita à sua dama (aquela que fica à frente), com ela descreve um giro completo e, sem deter-se, dá a mão esquerda à dama do vizinho, com quem executa outro giro

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completo, voltando a fazer o primeiro movimento com a sua dama. Na cana-verde-valsada os pares dançam juntos o tempo todo sem nenhuma evolução.

Caranguejo - É uma dança de roda em que participam ambos os sexos, em salões ou terreiros. O violeiro anuncia que vai tocar o caranguejo e que vai parar quando quiser. O cavalheiro dá a mão para a dama à sua direita, enquanto o violeiro canta: "Pé, pé, pé / mão, mão, mão / Olha a roda minha gente / caranguejo no salão." De mãos soltas, ao cantar os dois primeiros versos do estribilho, todos batem com o pé direito, compassadamente, três vezes no chão; ao segundo verso, batem palmas. Ao cantar os dois últimos versos do estribilho, o cavalheiro balanceia com a dama que está à direita, fazendo com ela volta e meia. Com esse balanceio, troca-se de posição e de par, continuando a dança até que se refaçam os pares originais.

Marrafa - Hoje, quase esquecida, é a dança de rodas em que as damas se colocam em frente aos cavalheiros, com os tocadores ao centro do círculo. A música da marrafa é particularmente alegre. O cantador intercala sempre nas quadrinhas a expressão "oi quebra na marrafa", momento em que os homens dão um passo à direita, para balancear à frente da dama seguinte.

Dança das Fitas - Em Paraty, essa dança é executada por crianças - distribuídas em onze pares - e é dividida, basicamente, em três partes distintas. A primeira consiste na entrada dos dançarinos, que ingressam no salão levando um mastro sobre os ombros; dele, pendem vinte e duas fitas coloridas. O mastro é colocado de pé, no meio do salão, e as crianças ficam ao seu redor, segurando as pontas das fitas. A segunda parte tem lugar quando os meninos passam a circular, dançando, num determinado sentido, enquanto as meninas dançam no sentido inverso, tantas vezes quanto necessário para que se destrancem as fitas em torno do mastro. Ainda nesta segunda parte, as crianças repetem a dança no sentido inverso, tantas vezes quanto necessário para que se destrancem as fitas. Quando elas estão totalmente livres é executada a terceira parte: repete-se a música de entrada e os dançarinos saem conduzindo o mastro.

Dança dos Velhos - Em Paraty, é apresentada na mesma época em que se realizam as festas do Divino e de Nª Sª do Rosário e São Benedito. É protagonizada por rapazes e moças fantasiados de velhos, com perucas de algodão, barbas e bigodes, enquanto as moças vestem saias compridas e bata franzida, todos apoiados em bastões. A melodia consta de três partes: marcha, allegro, e fadinho. Durante a marcha, "velhos"e "velhas", em coluna de dois, cunprimentam-se enquanto avançam, "trôpegos", marcando o tempo com fortes batidas de bastão. Fazem-se diversas mudanças de posição com repetidas meias-voltas. Na marcha, acontece igualmente o "garranché", que termina com um contra-marcha: os pares avançam e recuam com passos miúdos, ligeiros, conforme o compasso da música. O fadinho é mais lento que o allegro. Os "velhos" apoiam-se novamente nos bastões, trocando passos para a direita e para a esquerda, repetindo-se a contra-marcha e as meias-voltas. A dança termina com a repetição da primeira parte: a marcha.

Tira o Chapéu - Nesta dança, os grupos se formam em dois círculos concêntricos, defrontando-se: damas por dentro e cavalheiros por fora. Cada dama traz na cabeça o chapéu de seu par. Os dançarinos dão dois passos arrastados para a esquerda e dois para a direita, repetindo-os duas vezes. Na primeira parte do estribilho, as dama cumprimentam os cavalheiros, tirando e tornando a tirar o chapéu. Na segunda parte, os pares enlaçados balanceiam, dando uma volta. A dama retorna ao mesmo lugar, enquanto o cavalheiro progride para a direita até colocar-se à frente da dama seguinte. A dança continua até que as damas tenham novamente como par os donos dos chapéus que trazem à cabeça.

Marra-Paiá - Em Paraty, chama-se marra-paiá o Grupo de Moçambique, certamente em consequência da associação com os guizos ou "paiás", atados com cintas de couro às pernas dos dançadores. Ë velho costume da cidade a vinda desses grupos de dançarinos de Cunha para as festas do Divino e de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. O moçambique é originário de uma dança de escravos, em louvação a São Benedito, considerado um símbolo de humildade e dedicação ao trabalho. Os "paiás" são acessórios formados por um conjunto de três ou quatro guizos de bronze, cada um com um timbre. Cada grupo possui um estandarte benzido pelo padre. No pano é pintada a efígie de São Benedito e é escrito o nome da Confraria ou da Companhia. Cada grupo tem, além do rei e da rainha, um mestre e um contramestre — que cantam de improviso — o capitão-geral e o diretor. Uma Companhia é geralmente composta de 40 integrantes, contando com dois sanfoneiros, dois cavaquinhos, dois violeiros-pares e um pandeiro. A Companhia também é chamada de "congada moçambique". Folguedo de origem afro-brasileira, com resíduos da cultura negra de Angola e do Congo, é uma reminiscência da antiga coroação dos "Reis do Congo", no Brasil, e consta de coreografias de manobras

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guerreiras, sendo que, no Moçambique, destaca-se o uso de bastões que se entrechocam e que, em outras vezes, são colocados no chão, formando desenhos sobre os quais os moçambiqueiros dançam. Sua ocorrência coincide com as festas do Divino.

Atualmente, existem quatro grupos de cirandeiros em Paraty, tocando em todas as festas tradicionais da cidade e fazendo também a Folia de Reis:

LENDAS PARATIENSES Várias lendas povoam o imaginário de Paraty, algumas ligadas a tesouros enterrados, encantos e outras comuns a diversas regiões do Brasil como o Boitatá, Mula-sem-cabeça, o Lobisomem, o Curupira, etc. As mais conhecidas hoje são:      

A Serpente da Matriz O Tesouro da Trindade A Noiva da Igreja Santa Rita A Mãe do Ouro A Praga do Irmão Joaquim O Corpo Seco da Toca do Cassununga

CULINÁRIA PARATIENSE Como Ubatuba e Paraty, as cidades praianas brasileiras com tradição pesqueira, a culinária local gira em torno da pesca e principalmente dos chamados frutos do mar. Entre os pratos típicos locais e regionais, encontram-se o famoso ―Peixe Azul-Marinho‖ tendo como ingredientes básicos o peixe e a banana verde, de preferência a nanica, o peixe é cozido junto com as bananas, obtendo após a fermentação coloração azulada; camarão casadinho, sopa d’água , caranguejo cozido, farofa de camarão,pastel de lula, lula recheada, casquinha de siri e muitos outros. Destacam-se também os doces caseiros: compotas de laranja, laranja com melado, doce de banana, doce de mamão, doce de abóbora, goiabada, cocada branca e preta, pé-de-moleque, manuê- de- bacia, puxapuxa, entre outros.

ARTESANATO O artesanato paratiense é muito variado. São peças confeccionadas em diversos materiais e que são utilizadas no dia-a-dia do povo em seus trabalhos, decoração, brincadeiras e festas:    

madeira - canoas, remos, gamelas, fusos, moendas, colheres, miniaturas de barcos; taboa e bambu - covos, cestos, peneiras, esteiras, pipas e bonecos folclóricos; linhas e tecidos - redes de pesca, tarrafas, crochê, tricô, bordados, colchas de retalhos e bonecas; papel - pipas, flores, máscaras ( utilizadas nas brincadeiras infantis, na decoração de casas, comércios, igrejas e no carnaval).

As Máscaras em Paraty As máscaras do carnaval paratiense são feitas em papel machê, porém, a técnica paratiense consiste em se cortar pequenas tiras de papel que são levemente molhadas e, com a ajuda de cola de trigo ou maisena, coladas uma sobre as outras, dando-lhes o formato da forma de barro, que lhe serve de molde. São

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usadas pelas crianças e adolescentes no período entre o Dia de Reis e o Carnaval. As formas e máscaras são as mais diversas: caras de animal, monstros, caveiras ou simplesmente rostos humanos. Depois de secas as máscaras são pintadas com cores vivas, ao gosto do artesão. Geralmente são feitas pelos próprios brincantes, no quintal de suas casas, para que não sejam depois reconhecidos na rua. Os mascarados costumam andar em grupos, vestem-se com roupas grandes e velhas para evitar que sejam reconhecidos e, habitualmente, levam uma vara ou um bastão para atingir alguém. Às vezes se vestem de mulheres.

Os personagens tradicionais Figuras Carnavalescas 

O Voronoff - fantasia que consiste em uma grande e redonda cabeça, feita em papel machê, usada sobre os ombros do brincante que usa túnica fortemente colorida e capa sobre as costas. Diz a tradição tratar se de um médico russo que fazia experiências de transplante de órgãos em homens e animais.

O Peneirinha - consiste a fantasia em uma grande peneira colocada sobre a cabeça, recoberta com um grande pano branco, amarrado à cintura. Veste calça com braguilha para trás e prende uma vara à altura da cintura, onde veste o paletó, com o abotoamento para trás. Fica parecendo um duende: uma imensa cabeça sobre um corpo de anão, parecendo andar de costas.

A Minhota ou Miota - é uma grande boneca feita com armação de bambu que é recoberta com blusa e saia longa e rodada. Sua cabeça é feita em tecido e tem um longo e fino pescoço, móvel, que se movimenta sob o controle do brincante que está dentro da armação. Seu nome original ―Miota‖, mostra sua origem, a região do Minho, em Portugal, onde estes bonecos são chamados de gigantões. Em Paraty se diz que ela é muito faladeira e fofoqueira, estica o pescoço para ver o que se passa no interior das casas e contar aos outros. Costuma participar das brincadeiras da Festa do Divino. Hoje o Bloco Carnavalesco ―Assombrosos do Morro‖, desfila no carnaval somente com grandes bonecos inspirados nesta figura folclórica.

Figuras da Festa do Divino 

O boi - conhecido como ―Boi-da-Festa‖ ou ―Boi-Bumbá‖ é uma armação de bambu, com o formato do dorso do animal, cabeça e chifres. Esta armação é recoberta por tecido estampado que cai até o chão, como uma grande saia. Por baixo desta armação, vai uma pessoa que imita os movimentos de um boi, investindo contra o povo, ameaçando chifra-lo e fazendo-o correr. O boi é sempre acompanhado por seu dono, o capinha, vestido de vaqueiro.

O Cavalinho - é uma armação de bambu, no formato de um pequeno cavalo, recoberta por papel machê ou tecido em toda armação e à sua volta. No centro, uma abertura permite que o brincante possa vesti-lo até a altura da cintura, de modo que suas pernas fiquem escondidas e possam movimentar o brinquedo. Assim, cavaleiro sobre seu cavalo, ele dirige o boi em suas brincadeiras evitando que ataque o povo. O cavaleiro veste-se de peão: camisa Xadrez, lenço colorido ao pescoço e chapéu de palha na cabeça. Às vezes usa chicote de couro para ameaçar o boi. São acompanhados por um tocador de caixa, e pelo povo que canta o refrão: ―É o boi, é o boi, é o boi, é o boi, é o boi...‖.

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PATRIMÔNIO HISTÓRICO Considerada um dos conjuntos arquitetônicos coloniais mais perfeitos e harmoniosos do país, é no Centro Histórico que a maioria das coisas acontecem, concentrando as mais diversas atividades e festejos.

Igreja da Matriz de N. S. Remédios - A primeira edificação de 1668 foi demolida e em seu lugar foi iniciada outra maior, construída em 1712, que por sua vez deu lugar à construção atual, iniciada em 1789 e concluída em 1873. É a maior igreja de Paraty, sendo a igreja da padroeira da cidade. A festa de N. S. dos remédios é a segunda maior festa religiosa da cidade, e é comemorada dia 8 de setembro.

Igreja de N. S. Rosário - Dedicada também à São Benedito, teve a sua construção iniciada em 1725 e destinava-se aos negros escravos que ajudaram na sua construção. Possui nos altares de São Benedito e São João Batista a mais importante talha das igrejas de Paraty, de sóbria elegância e unidade formal, destoando do altar principal, de feitura bem posterior.

Igreja de N. S. das Dores - Construída por piedosas senhoras em 1800, é dedicada aos santos da paixão.

Igreja de Santa Rita - Construída em 1722 pelos pardos libertos, a arquitetura jesuítica apresenta nos elementos internos as características do barroco rococó. Nela funciona Museu de Arte Sacra de Paraty.

Casa da Cultura - Usado como escola pública até o final do século XIX, atualmente abriga a Casa da Cultura, com exposição permanente sobre a cultura paratiense, utilizando recursos multimídia, um auditório, e exposições.

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Quartel da Patitiba – Situado no Largo de Santa Rita, ao lado da Igreja de mesmo nome, nele funcionou a cadeia pública. Hoje abriga o Instituto Histórico e Artístico de Paraty e a Biblioteca Municipal Fábio Vilaboim.

Forte Defensor Perpétuo – Construído em 1703 e reformado em 1822, fica situado no Morro do Forte, apresentando uma vista privilegiada da Baía de Paraty. Atualmente funciona no local o Centro de Artes e Tradições Populares de Paraty e a exposição permanente Modo de Fazer. Importante não deixar de conhecer o paiol do forte.

Capela de Santa Cruz da Generosa - Construída no ano de 1901, em memória a um escravo liberto que morreu afogado no Rio Pereque-Açu, ao lançar tarrafa numa Sexta-Feira santa, quando a tradição não recomenda pesca em tal dia.

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Apostila "De Ubatuba a Paraty 2008"