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uand la Chine se réveillera, le monde tremblera", diz O adágio francês atribuído a Napoleão Bonaparte. Em português: quando a China acordar, o mundo vai •••••• _~ tremer. Parece que hoje já não resta dú• vida disso. Mas quando será? E como? É cedo para saber se a emergente China da dinastia Mac (a dos jovens que agora descobrem o McDonald's) vai repetir a grandeza da dinastia Ming. Esta última corresponde, no Ocidente, à passagem da Idade Média para o Renascimento. Nessa época, a China era, em muitos sentidos, mais avançada que Portugal e Espanha, potências européias que enfunavam suas velas para se lançar às grandes navegações oceânicas. Considerada um dos quatro berços da civilização, a China sempre ofereceu ao mundo, ao longo de 4 mil anos, prodígios que viraram lenda ou foram imitados em terras longínquas. Vejamos. Quase 1200 anos antes de Cristo, os chineses conseguiram debelar a varíola usando uma vacina feita com fragmentos de ferida da própria doença. Secos e triturados, eram colocados

À esquerda, insígnia usada pelos oficiais imperiais do século 18. À direita, figura em marfim do deus da longevidade, Shou-Xing (século 16).

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À esquerda, pintura do início do século 16. À direita, incensário em forma de leão usado durante a dinastia Ming

nas narinas das pessoas a serem curadas ou imunizadas. No ano 2 a.c., os chineses já usavam perfuradores metálicos para extrair sal do subsolo e depois distribuí-Io pelas regiões afastadas do mar. No século 5, Zu Chongzhi calculou o número pi até o sétimo dígito - e muitos conceitos matemáticos foram aplicados na geografia e na arquitetura. Séculos antes de os ocidentais conhecerem a bússola, na Idade Média, os marinheiros chineses já se orientavam por uma agulha magnetizada que boiava num prato com óleo. Inventaram a pólvora, misturando enxofre com salitre; o papel, a partir de uma massa feita de trapos molhados; e a imprensa, numa forma primitiva, com entalhes em pedra e depois com tipos esculpidos em madeira. Criaram instrumentos ópticos, engrenagens de catraca, o ábaco oriental, a roda de fiar e o estribo, que, ao permitir ao soldado lutar sem cair da sela, deu grande impulso ao desenvolvimento da cavalaria na Europa, por volta do ano 700. Outra invenção chinesa fundamental na arte da guerra foi a besta, arma portátil dotada de arco, capaz de arremessar setas curtas com grande precisão. Tão preciso quanto a flecha é o pincel chinês. Próxima à arte abstrata e ao ritmo da música, a caligrafia reproduz as idéias e emoções por meio de uma rica variedade de formas, os ideogramas. Os calígrafos, pintores e pensadores chineses influenciaram todo o Extremo Oriente. Seu sistema de escrita foi adotado na Coréia, no Japão e no Vietnã. A civilização chinesa, enfim, foi muito além de seus limites - mesmo nas épocas em que estava mais voltada para si mesma. A história chinesa nos fala de um país que, ao longo dos séculos, como uma sanfona, se abre e se fecha ao olhar do Ocidente, em perpétua altemâncía. No século 14, após a China ter-se libertado do domínio mongol, a subida ao poder da dinastia Ming (1368-1644) marcou o início de um isolamento do país em relação à Europa que só faria intensificar-se ao longo de três séculos.

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Os mongóis devastaram a China, sobretudo o norte, até meados do século 13. Cidades, indústrias e plantações foram varridas do mapa. A missão inicial da dinastia Ming foi recuperar o país e restaurar a vida nomi.al. Promoveu obras de drenagem e irrigação, reflorestou áreas importantes e deslocou contingentes de pessoas para reocupar o norte arrasado. Além disso, concluiu a construção da Grande Muralha, a maior obra militar do planeta, iniciada por volta de 220 a.c. por ordem do primeiro imperador chinês, Qin Shin Huang. Na dinastia Ming, usaram-se pela primeira vez tijolos (alguns de 12 quilos) produzidos em olarias, uma invenção chinesa. A estabilidade interna conseguida durante esse período permitiu que a população, mesmo duas vezes dizimada pelas pestes, saltasse do patamar de 60 milhões, por volta de 1393, para 130 milhões, em 1580. Foi possível alimentar toda essa gente graças ao aprimoramento das técnicas agrícolas. Às culturas mais tradicionais, como o sorgo e o algodão, vieram somar-se a da batatadoce, do milho, do amendoim e da batata-inglesa, além do tabaco, introduzi das pelos espanhóis e portugueses. O sistema de transportes chinês foi revigorado com a construção de um conjunto de canais ligando Pequim (capital a partir de 1421) ao Vale do Yang-tsé, que fica mais ao sul. Em cidades dessa região, como Nanquim (a antiga capital), Suzhou, Wuxi, Songjiang e Hangzhou, a indústria - sobretudo a têxtil- teve forte impulso. No fim do século 16, o comércio foi ainda mais estimulado pela entrada da prata proveniente da América, que passou a ser utilizada para pagamento do chá, da seda e da cerâmica exportadas pela China. Nessa época, a dinastia Ming já acumulara um grande poder naval, com capacidade de intervenção em terras distantes. E de fato, durante certo tempo, adotou uma política externa agressiva. Além da campanha contra os mongóis, no norte, submeteu a Coréia, ocupou Anã (atual Vietnã) e lançou-se em expedições marítimas que retomavam com prisioneiros, cargas preciosas, informações sobre os diferentes reinos visitados, os portos e as vias de navegação. O imperador Zhu Di, o terceiro da dinastia Ming, despachou uma esquadra sob o comando de Zheng He - um almirante eunuco, como vários outros chefes a ele subordinados - para cumprir a missão de esquadrinhar os oceanos e impor seu domínio a povos remotos. A frota chinesa era a maior do mundo nessa época. Além dos navios de guerra e mercantes já em atividade quando assumiu o poder, Zhu Di encomendou a construção de 1681 novas embarcações. Calcula-se que o número total da frota tenha atingido 3 500 unidades. Entre essas, contavam-se 250 navios-tesouro (assim


chamados por sua enorme capacidade de transporte), com nove mastros, e barcos menores para patrulha e combate. Com popa elevada, leme profundo, pouca quilha e mastros bem altos, os barcos chineses - chamados de juncos - eram verdadeiros portentos em matéria de design náutico. Media-se sua capacidade de carga pela quantidade de cântaros (vaso de barro ou metal, com bojo largo, gargalo e duas asas) que podiam levar a bordo, assim como os barcos ibéricos usavam como referência os tonéis (daí, tonelagem). Os navios-tesouro podiam ter quase 150 metros, perfazendo cinco vezes o comprimento de uma caravela ibérica. Nem o grande patrono das navegações lusitanas, o infante dom Henrique - filho do rei dom João I -, mentor de estudos náuticos e expedições oceânicas, seria capaz de sonhar com algo semelhante. Os engenheiros navais chineses acabaram desenvolvendo uma estrutura resistente com base numa madeira asiática amarela e marrom, chamada teca. O interior do casco era dividido em várias seções, semelhante à parte interna dos bambus. Cada uma delas era limitada por paredes compostas de placas de madeira de lei e teca, acopladas com pregos de bronze que pesavam vários quilos. A calafetagem era feita com fibras de coco e uma mistura de óleo e extratos vegetais. Com essa tecnologia, os chineses produziram barcos capazes de navegar em

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águas rasas, costeiras, e também nos mares tempestuosos que levavam a [ava, Camboja, Sri Lanka e Índia. Sob a proteção de Shao Lin, deusa do mar, o almirante Zheng He zarpou em 8 de março de 1421 com centenas de velas de seda vermelha. Seus marinheiros não eram muito diferentes dos ibéricos; grande parte deles era formada por criminosos que trocavam as penas que teriam de cumprir em terra, em prisões infectas, pela relativa liberdade no navio, sem saber se um dia haveriam de voltar para casa. Mas comida, pelo menos, havia. A frota chinesa era dotada de navios graneleiros (soja, arroz, trigo, etc.) e outros que eram como estábulos flutuantes, com animais para abate. Isso lhe garantia o abastecimento por meses a fio, sem necessidade de atracar para recompor os estoques. Os ocidentais, por sua vez, tinham bem menos autonomia. Não raro as tripulações ficavam à mercê da sorte, tendo de subsistir com porções reduzidas de água e biscoitos esfarelados, cheios de vermes e úmidos de mina de ratos. Em meio às tempestades, portanto, era bem fácil chegar à conclusão de se ter feito mau negócio ao embarcar, mesmo que fosse para escapar da prisão. Já os chineses levavam pequenos cães para caçar os ratos dos navios; e arsênico para matar pulgas, insetos e estimular o crescimento das plantas.

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TECNOLOGIA O junco chinês permitia viagens muito mais lon MASTROS

NAVAL e seguras que as caravelas européias ESTRUTURA - Os barcos chineses podiam ter quase 150metros de comprimento, o que Ihes dava grande capacidade de carga. As caravelas chegavam no máximo a 30 metros.

- A propulsão do barco era

garantida por mastros altos e numerosos (chegavam a nove, nos navios-tesouros), que recebiam velas de ~da vermelha.

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CALAfETAGEM

Eram usadas fibras de coco misturadas com

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INTERIOR - A parte interna do barco era dividida, com placas impermeáveis, em várias seções independentes, o que garantia mais segurança ao barco.

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impermeável à água.

LEME - Uma das características dos navios

chineses era um leme em posição bem baixa, conferindo-lhe bastante

dirigibilidade.

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CASCO - Madeiras de lei eram usadas juntamente com uma outra, a teca, de origem oriental, na fabricação de um casco muito resistente às tempestades. Uma caravela ibérica, em geral, não agüentava mais de três grandes viagens.

QUILHA - Os barcos chineses tinham pouca quilha, ou 'mesmo nenhuma. Isso facilitava seu deslocamento em águas de pouca profundidade.

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escorbuto, doença dos navegantes devida à carência de vitamina C, sempre fora um tormento para os ocidentais, capaz de lhes fazer perder os dentes ou até mesmo entregar a alma a Deus. Por isso, em cada porto, desembarcavam ávidos por suco de limão. Os chineses tinham um macete. Provocavam a germinação da soja, a bordo mesmo, obtendo a riboflavina e os ácidos que constituem a base da vitamina C, prevenindo-se contra o escorbuto. Ainda assim, a frota de Zheng He levava nada menos que 180 médicos - um para cada 150 homens, proporção utópica até para os nossos modemos planos de saúde. Com todos esses recursos, não é difícil entender que os chineses, nessa época, tenham dominado a navegação no Oceano Índico. "A técnica náutica deles era muito superior à dos portugueses", afirma Janice Theodoro, professora titular de História, da USP, que já morou na Chi. na. "Quase todo o conhecimento sobre navegação veio dos chineses e dos árabes. Se nem sempre levamos isso em conta, é porque fazemos uma História européia. Mas eu sempre digo aos meus alunos que as grandes navegações foram chinesas. As portuguesas foram médias." Quando os portugueses apartaram na China, em 1514, depararam com o mundo maravilhoso - no micro e no macro - descrito por Marco Pala, dois séculos antes. Conheceram minuciosos objetos de adorno e decoração executados com paciência e habilidade em materiais difíceis de serem trabalhados, como bronze, jade, laca e marfim.


~ y::CHINA MEDIEVAL

Do P to de vista artístico, entretanto, a dinastia Ming se tomou mais conhecida pela cerâmica, em especial a azul e branca, depois bastante imitada no Japão e na Europa. Nas cidades, os europeus encontraram prédios com telhados de pontas curvas que se integravam à paisagem com um senso de harmonia diferente das cidades ocidentais. Uma das construções mais grandiosas da dinastia Ming foi o palácio imperial chinês, conhecido como Cidade Proibida, que ocupa urna área de 720 mil metros quadrados na região central de Pequim (quase a metade de Parque do Ibirapuera, em São Paulo). Recebeu esse nome porque o acesso a suas dependências era restrito até para altos funcionários do governo e parentes do imperador - só ele podia circular por todos os seus domínios. A construção, autorizada em 1406 por Zhu Di e ocupada pela corte em 1420, foi sede do poder chinês durante cinco séculos; desde 1987 aparece na lista da Unesco entre os Patrimônios da Humanidade. No começo do século 15, Pequim (também conhecida como Beijing) era não apenas a maior cidade do mundo, mas também um formidável pólo cultural. O imperador encarregou dois de seus assessores de confiança, Yao Guang Xiao e Lui Chi'ih, de levar adiante um projeto chamado de Yong-le-Dadian, cujo objetivo era reunir e preservar toda a literatura e o conhecimento até então disponíveis. Esse foi possivelmente o maior projeto acadêmico de todos os tempos, concluído pouco antes da

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inauguração da Cidade Proibida. Nada menos que 2180 sábios produziram uma enciclopédia de 4 mil volumes, contendo cerca de 5 milhões de caracteres. Um dos tratados copiados, por exemplo, foi o clássico Matéría Médica (Pen Ts'ao Kang Mu), que descreve 1892 tipos de medicamentos. Traduzido em vários idiomas, ele abriu uma nova era na farmacologia mundial. Os empreendimentos navais chineses tinham objetivos mais amplos e menos predatórios que os ocidentais. Enquanto por muito tempo os portugueses e espanhóis mostraram-se interessados apenas em saquear e pilhar os povos de outras terras, os navegadores da dinastia Ming tinham metas no plano do conhecimento. Levavam a bordo metalurgistas para buscar novos minerais nos países visitados; médicos para pesquisar outros tratamentos para doenças e epidemias; botânicos para difundir plantas comestíveis desenvolvidas dentro de uma agricultura com séculos de experiência na produção de híbridos. Em certos barcos havia cabines que, quando desocupadas de passageiros, eram usadas para experiências científicas. Os chineses pensavam não apenas em domínio, mas em intercâmbio. Levavam gaiolas com galinhas asiáticas para dar de presente a líderes de povos distantes, aos quais esses animais se afiguravam como raridades; e eram capazes de aceitar uma girafa como pagamento de tributos. Entre os exploradores europeus, esse sentido de pesquisa científica nas viagens oceânicas só viria a se manifestar de forma clara no século 18, com o inglês James Cook. Os barcos comandados por Zheng He somavam algumas centenas, numa época em que muitas das esquadras européias que faziam viagens exploratórias podiam ser contadas nos dedos das mãos. Passaram dois anos viajando pelo mundo, entre 1421 e 1423, sem contato com Pequim. Quando voltaram à China, muita coisa havia mudado. Pouco depois da partida dos navios, havia dois anos, um grande incêndio na Cidade Proibida sinalizara o início de uma fase turbulenta, com a disputa pelo poder entre os mandarins (burocratas imperiais) e os eunucos que assessoravam o imperador. A morte de Zhun Di, em 1424, decretou o fim da era das grandes navegações. A sanfona começava a se fechar. No fim da dinastia Ming, dois séculos depois, a grande China já se tornava quase invisível aos olhos do Ocidente. Porém, ao contrário do que Napoleão imaginava, ela talvez nunca tenha estado dormindo. Nós, sim. Agora tocou o despertador. I G PARA IR MAIS LONGE I 1421: THE YEA~ CHINA DISCOVERED de Gavin Menzies, Ed. Perennial I THE CAMBRIGE ILWSTRATED HisTORY OF CHINA, de Patricia B. Ebrey e .Kwaang-Ching Liu, Ed. Cambridge University I WHEN CHINA RULED THE SEAS, de Louise Levathes, Ed. Oxford University I THE GENIUS OF CHINA, de Joseph Needham e Robert K. G. Temple, Ed. Prion AMERICA,

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A grande China que o Ocidente esqueceu  

Enquanto assistimos ansiosos ao despertar da nova China, é hora de recordar o império que se tornou a nação mais avançada de seu tempo. No m...

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