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B U E H L M A N C H R I S T O P H E R

BEM-VINDO

“BELO E ATERRORIZANTE, MÁGICO E REALISTA, LITERALMENTE MARAVILHOSO.” — ANDREW PYPER — autor de O Demonologista

À CASA DOS ESPIRITOS

C H R I S T O P H E R B U E H L M A N

BEM-VINDO

a CASA dos

ESPIRITOS


Copyright © 2013 by Christopher Buehlman Publicado mediante acordo com Folio Literary Management, llc e Agência Literárua Riff. Tradução para a língua portuguesa © Carolina Caires Coelho, 2018 Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e não emitem opinião sobre eles.

Diretor Editorial Christiano Menezes Diretor Comercial Chico de Assis Gerente de Novos Negócios Frederico Nicolay Gerente de Marketing Digital Mike Ribera Editores Bruno Dorigatti Raquel Moritz Editores Assistentes Lielson Zeni Nilsen Silva Design e Capa Retina 78 Ilustração Arthur Rackham Designers Assistentes Marco Luz Pauline Qui Revisão Gustavo de Azambuja Feix Marlon Magno Ulisses Teixeira Impressão e acabamento RR Donnelley

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (cip) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Buehlman, Christopher Bem-vindo à casa dos espíritos / Christopher Buehlman ; tradução de Carolina Coelho. — Rio de Janeiro : DarkSide Books, 2018. 384 p. ISBN: 978-85-9454-008-9 Título original: The Necromancer's House 1. Ficção norte-americana 2. Fantasia I. Título II. Caires Coelho, Carolina 16-0591 Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção norte-americana

[2018] Todos os direitos desta edição reservados à DarkSide® Entretenimento LTDA. Rua do Russel, 450/501 — 22210-010 Glória — Rio de Janeiro — RJ — Brasil www.darksidebooks.com

CDD 813


CHRISTOPHER BUEHLMAN

TRADUÇÃO

CAROLINA CAIRES COELHO


Para Ginny


PRÓLOGO

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O velho caminha do casebre até a varanda atrás, segurando o copo de uísque e remexendo o gelo. Uma gota d’água pinga de seu dedo e cai na cabeça do vira-lata com um quê de beagle perto de seus pés, distraindo o cachorro que para e se abaixa, quase levando o velho a tropeçar. Ele diz palavrões em um russo que poderia ser vociferado por Khrushchov e então se desculpa no tom dos mais doces poemas de Pushkin. O cão balança o rabo meio desanimado, mas caminha para a direita, a fim de não ser chutado pelo dono. Como os pontapés não são frequentes nem tão fortes, ele escapa devagar, evitando o chute. Um bom observador perceberia como a interação é harmônica entre os dois, como uma dança bem realizada por cada um. Mas ninguém observa o velho e o animal. Ainda não. O homem dá um gole no uísque e se senta de frente ao pôr do sol. O cachorro se encolhe a seus pés e começa uma caçada com resmungos e mastigações a uma pulga que o mordeu perto da base de seu rabo. — Mate essa merda — diz o homem com um rosnado eslavo jovial, coçando a parte inferior do mamilo esquerdo em solidariedade. O sol já havia realizado seu mergulho noturno em câmera lenta para dentro do lago Ontário: desceu atrás de seu véu azul como uma bola de vidro derretido, de um modo tão lindo que um homem na praia Fairhaven, uma cidade a oeste, decidiu pedir a namorada de menos de seis meses em casamento e um grupo de atores na ribanceira McIntyre, perto do santuário de aves a menos de dois quilômetros dali, interrompeu o ensaio do dia e começou a aplaudir. Agora, o pós-espetáculo está sendo finalizado: a superfície do lago voltou a assumir uma cor brilhante, semelhante a madrepérola, um tom impossível de ser reproduzido com aquarela, um tom de prata arroxeado e efêmero que nem mesmo a Kodak, cuja grande sede fica a uma hora dali, na cinzenta Rochester, conseguiria copiar. O vizinho mais próximo do velho russo, um ex-professor de religião comparada que mora em um casebre quase idêntico ao dele, a cerca de cem metros da montanha, disse, certa vez: — Esse pôr do sol foi classificado o segundo mais bonito do mundo. — Classificado? Quem classifica um pôr do sol? — perguntara o russo. — Os fotógrafos da National Geographic. — Ah — anuíra ele, fazendo um bico e assentindo.  9


O professor, que tem um contrato de aluguel longo, pois está realizando uma magnum opus ateísta, adora compartilhar esse conhecimento com outros visitantes para vê-los primeiro rejeitar e então aceitar a ideia de que um pôr do sol pode ser categorizado. Como havia se sentido desapontado porque o russo não fez a pergunta que costumava vir em seguida, respondeu mesmo assim. — O pôr do sol mais bonito acontece no Mar do Japão, voltado para a Rússia. Agora, o lago espalha tinta de polvo sob o céu, como um hematoma luminoso. O russo quer um cigarro, mas é um desejo fraco, que só surge quando ele bebe e desaparece se ignorado. Ele olha para o cão, para a parte branca de sua cara, que se destaca da preta e do corpo marrom como uma máscara de fantasma de plástico barata. — Vá buscar um maço de Marlboro, Gasparzinho. Gasparzinho, o fantasminha filho da puta. Ele pensa na esposa. Ela dera o nome de Gasparzinho ao cão. Ela havia feito o marido parar de fumar e o ensinado a dizer filho da puta corretamente, separando e enfatizando o puta, quando antes ele sempre dizia as palavras juntas com ênfase no filho. Essa vontade de uma mulher morta será mais difícil de afastar do que a vontade de nicotina. Que problema! A noite está linda demais para se entregar à melancolia de novo. Talvez o professor concorde em jogar uma partida de xadrez? Essa ideia faz com que se sinta entediado: aquele homem sabe conversar, mas não consegue perceber uma armadilha, é preguiçoso demais para pensar além de dois lances e não sabe nada sobre poupar esforço — fala sem parar sobre os Upanixades ou sobre a estupidez de cristãos evangélicos e avança os peões longe demais. Sem falar que a luz brilha em sua careca, em sua barba cheia ortodoxa, e que ele cruza e descruza as pernas dizendo “huh” como se estivesse surpreso ao ver que o centro do tabuleiro, que pensou ter dominado, está se transformando em um matadouro. Além disso, o velho está aproveitando a brisa da noite e não está a fim de ir a lugar algum. Pensa em ligar o computador e procurar uma companhia, mas a conexão é lenta, para dizer o mínimo, e esperar até que as fotos do  10


site de acompanhantes carreguem seria um calvário. Além do mais, depois de escolher uma, supondo que possa convencê-la a participar de um encontro em cima da hora num local distante e com um cliente desconhecido, ela terá de vir de Syracuse ou Rochester, o que demoraria duas horas, talvez três. Quem sabe não há prostitutas em Oswego, meia hora a leste, mas ele sente calafrios pensando em como elas podem ser: o perfil, tão mal escrito que até um russo conseguiria corrigir, o levará a uma garota pálida e de rosto comum criada à sombra de uma usina nuclear e engordada com pizza. Ele consegue imaginá-la com as tatuagens feias e os cabelos duros e castanhos, despindo-se de modo desajeitado, fazendo perguntas sobre sua vida e interrompendo as respostas com “aham”. Então, depois de dez minutos de uma transa sem graça, ela enfiaria uma das garrafas de bebida na mochila, enquanto ele descartaria o preservativo e se esforçaria para urinar depois do coito. Oswego tem asas de frango e cerveja. Oswego não tem garotas bonitas. Não que ele seja bonito, com a camisa aberta sobre a barriga dura, redonda e bronzeada pelo sol da Flórida, ou com as unhas dos pés que mal se encaixam no cortador, mas um homem não precisa ser um cavalo para comprar outro. Seu pai dizia essas coisas. Seu pai viajara sem camisa para Berlim em um tanque e pagara o salário de um mês pelo privilégio de cagar no bunker de Hitler. Se seu pai estivesse ali, ele chamaria a acompanhante de Rochester e a prostituta de Oswego e mandaria a mãe dele comprar cigarros. E por isso ainda sente amor e ódio trinta anos depois de sua morte. Ele não vai chamar acompanhante nenhuma. — Gasparzinho, cachorro filho da puta. Vá nos arranjar uma mulher. Gasparzinho fecha os lábios negros e geme baixinho, como costuma fazer quando a palavra de ordem vá é seguida por algo que ele não entende. O cão remexe o focinho. O russo também sente o cheiro. Podre e forte, como se algo tivesse sido tirado do lago. Ele estava dizendo como estava agradável a brisa da noite, e agora essa merda. Será que uma baleia encalhou?  11


— Não há baleias em lagos — diz ele a Gasparzinho, apontando-lhe com seriedade um dedo gordo. Como o cachorro pareceu não compreender, ele repete a mesma coisa em russo. Agora, Gasparzinho olha na direção do lago. Ele balança o rabo um pouco, como faz, em vez de latir, quando um desconhecido se aproxima. — Pensei ter ouvido russo — diz uma mulher, em russo. A luz do casebre ilumina a área da varanda até os corrimãos, no alto da escadaria que leva até a praia. Como se o mundo terminasse com aqueles corrimãos. À frente, existe lago e noite, tão negros quanto o negro atrás de uma estrela. — Ha! — diz ele, e então, em russo: — Você ouviu. E eu também. Suba a escada para me cumprimentar. — Já, já — diz ela, num inglês carregado. — Estou me trocando. Pela voz, ela parece jovem. Ele experimenta a leve emoção que um homem sente quando tem certeza de que está prestes a ver uma mulher bonita. Claro que é possível se decepcionar com tais ideias, assim como ela se decepcionará caso pense que ele é bonito, com base em sua voz grossa e grave. Aquele cheiro de novo. — Gosta de uísque? — pergunta ele, combinando com o inglês dela, suprimindo o resmungo de velho que costuma emitir quando se levanta. — Ah, muito — responde a mulher. — É escocês? — Oban. Você conhece? — Não, mas o cheiro é bom. — Consegue sentir acima desse… — não adiantaria dizer besteiras antes de conhecer a personalidade dela — …outro cheiro? — Consigo. Tem cheiro de turfa e alga queimada. — Gelo? — Por favor. Ele entra na casa e prepara dois copos, satisfeito com o rumo que a noite está tomando. Olha para o próprio reflexo quase transparente na cristaleira, pensando que não tem uma aparência muito boa. Mas até que não está ruim para seus quase setenta. Caminha para fora de novo, abrindo a porta de tela com mais dificuldade, por estar carregando dois copos cheios. Ainda não apareceu nenhuma mulher.  12


Os corrimãos de madeira se destacam, muito iluminados contra a escuridão detrás. O velho olha para baixo para ver se Gasparzinho ainda está balançando o rabo para ela. Mas o cachorro sumiu. Ele apoia os copos e assovia. Caminha até a escada bamba e desce até a praia, deixando para trás a varanda iluminada, que a cada passo fica mais distante. Pisa na areia que logo abre espaço para pedras, com os olhos se ajustando à escuridão. Tenta apurar o ouvido para escutar o som da coleira de Gasparzinho, o tilintar da medalha — com o nome do cão, a informação sobre o dono e a inscrição Ajude-me a chegar em casa! —, mas só ouve o sussurro lânguido do lago Ontário e uma brisa suave sobre os bordos e as bétulas às suas costas. A sandália no pé acaba dentro de uma poça, que uma parte pré-civilizada de seu cérebro registra como incorreta — a maré não sobe tanto e não choveu —, mas ele segue andando. — Garota, você não pegou meu cachorro, não é? — pergunta ele, em russo. Nada. Avança ainda mais para a praia, para perto da água, as pedras lisas contra a sola da sandália. — Garparzinho? — chama ele, cada vez mais preocupado com o animal, uma preocupação misturada com raiva. Será que a vaca com sotaque do Leningrado pegou seu cão? Existiria um mercado em Nova York para velhos vira-latas que peidam como mães moribundas? Que problema, pensa ele. Agora, o homem escuta o tilintar da coleira às suas costas. Será que o safado está subindo a escada sozinho em vez de gemer para ser carregado? O velho se lembra do cheiro do uísque e fica feliz por estar voltando a ele. Sobe, ouvindo o tilintar da coleira dentro da casa. — Seu safado — diz ele, sorrindo. A luz quente se derrama vinda das janelas e da porta do casebre. Ele procura o uísque e só encontra duas marcas molhadas de copo sobre a mesa. Isso não está certo. Mais um som parece incorreto, apesar de familiar.  13


O chuveiro está ligado. Um sorriso astuto desponta em seu rosto. A garota. Que brincadeira ela está fazendo? Aquela noite poderá ser muito boa ou muito ruim, mas pelo menos renderá uma história. Era o tipo de coisa que seu pai dizia. Ele tira as sandálias, abre a porta de tela e entra. Encontra o chão molhado. Caminha até o corredor e permanece de pé diante da porta fechada do banheiro — Deus do céu, o fedor do lago está ali —, antes de girar a maçaneta. O chuveiro está aberto, e a cortina afastada, mostrando o aparelho enferrujado e o reboco malfeito. Mas não tem vapor. A água está fria. Ele fecha a torneira. Há um copo vazio dentro da pia, com um fio de cabelo ruivo comprido perto dele. O velho tira o cabelo da pia de porcelana branca e olha para ele — é crespo! Ao ouvir o tilintar da coleira de Gasparzinho, ele volta para o corredor, com o coração acelerado. Há uma mulher ali, pálida e nua, com pesados e molhados cabelos castanho-avermelhados caindo pelos ombros e seios. Os olhos do velho descem para a coxa e o umbigo dela: abaixo há um monte de pelos encaracolados que levam ao tipo de embaraço que não se vê em jovens hoje em dia, a não ser em sites especializados na internet. O segundo copo de uísque pinga na mão dela. Com o dedo indicador da outra mão, ela faz a coleira tilintar. Mais precisamente a coleira de Gasparzinho, que ela usa no pescoço. O homem alterna entre o choque, a preocupação, a raiva e a surpresa agradável tão precipitadamente que, ao falar, parece velho e transtornado: — Onde está a porra do meu cachorro? — Ajude-me a ir para casa — diz ela, mostrando dentes amarelados e verdes que não combinam com uma menina de Primeiro Mundo. — Isso é muito bom, Misha. O cheiro que está impregnando sua casa vem dela, talvez daqueles cabelos molhados e grossos, talvez até da boca ou da vagina. Como algo tão bonito pode feder tanto? Ele percebe como ela é cheia de cicatrizes e de músculos, como seus membros são fortes.

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— Você não o machucou, certo? — pergunta, em russo. — Você vai me beijar agora, mesmo que eu tenha feito isso — responde ela em inglês, aproximando a boca de dentes feios e lábios belos. Ele pensa em se afastar, mas não se afasta. Algo naqueles olhos o deixa paralisado. Eles são muito verdes. Os lábios dela são frios. Ele tenta se afastar, mas a mão dela já encontrou sua nuca, controlando-a como quer. A boca do velho está preenchida por uma língua fria, de modo que não consegue gritar. Atrás dela, ele vê o cão sem coleira sair da cozinha, se espreguiçar e balançar o rabo devagar, sem saber o que pensar da cena no corredor. Quando ela arrasta o velho russo escada abaixo até o lago, o cachorro segue, até mesmo na escada. Ainda assim, acompanha apenas até a beira da água e fica andando de um lado para o outro enquanto a mulher, que não tem cheiro de mulher, empurra a cabeça de seu dono para dentro da água. O velho se debate, mas ela o mantém submerso com facilidade. O vira-lata tem um quê de beagle muito forte que o faz uivar. Auuuuuuuu! Ela uiva de volta de modo brincalhão até mergulhar na água e o cachorro ficar sozinho.

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Bem-Vindo à Casa dos Espíritos - Christopher Buehlman (book preview)  

UM LUGAR QUE ESCONDE OS MAIS SOMBRIOS SEGREDOS. SEJA BEM-VINDO. Você é o nosso convidado de honra para ler o que poucos conseguem ver. Uma...

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