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Anna Carey – EVE – Dark Knight Este livro foi traduzido pela Dark Knight para proporcionar a leitura daqueles que não puderam pagar e para ler livros ainda não lançados No Brasil. Nosso grupo de tradução é uma organização sem fins lucrativos e, por favor, não venda e nem troque. Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquiri estará incentivando o autor e a publicação de novas obras. Dark Knight www.facebook.com/Darkknightradu

Tradutores Matheus Jorge Daniel

Revisor Jeh

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Anna Carey – EVE – Dark Knight

Sete Passamos muito tempo em silêncio. Quando por fim deixamos o perigo para traz, recuei na garupa do cavalo, me afastando o máximo possível do garoto. Pertencia a uma espécie estranha, meio selvagem. Não era um tipo sofisticado como os que povoavam as páginas de O Grande Gastby. Também não se parecia com os homens violentos que havia visto em meu primeiro dia de liberdade. Ao menos havia me salvado a vida, ainda que acreditasse que por motivos inconfessáveis. Vestia calças manchadas e rasgadas em seus tornozelos, os cabelos, trançado em dreadlocks, chegavam até os ombros. Diferentemente dos bandidos, não usava uma pistola, o que não me consolava muito, pois era tão forte e musculoso quanto eles. Eu não sabia que pensamentos ruins nutriam comigo, uma garota que havia encontrado sozinha na floresta, assim comecei a descolar a camiseta de meus seios. — Não sei o que pensa em fazer, mas não fará – disse, empertigando—me para parecer mais alta. Pelo canto do olho vi três coelhos mortos pendurados no pescoço do cavalo; tinham as patas amarradas com cordas. Ele voltou—se para me olhar e sorriu. Apesar de sua higiene deficiente, tinha os dentes retos e brancos. — E o que penso em fazer? A verdade é que ficaria muito contente em saber. Trotamos por uma estrada, cujos corrimões mal se viam por baixo do mato. A distância se via uma ponte meio destruída. — Estou certa que quer ter relações sexuais comigo – respondi com toda naturalidade. O garoto riu, dando uma gargalhada grave e retumbante, enquanto dava algumas palmadas no pescoço do cavalo. —Quero ter relações sexuais com você? — Repetiu, como se não tivesse ouvido bem. — É claro – afirmei em voz alta – E fique logo sabendo, não permitirei. Nem que... — Busquei a metáfora adequada. —... Fosse o último homem sobre a face da terra? — Olhou para a vasta paisagem desolada e esboçou um sorrido maldoso. Seus olhos eram da cor uva verde.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight — Isto mesmo – confirmei. Fiquei satisfeita que falasse pouco e soubesse utilizar as palavras. Não teríamos tantos problemas para nos comunicar como havia imaginado. — Fico contente – respondeu—. Porque não tenho a mínima intenção de encostar em você. Não faz meu tipo. Ri, até que me dei conta que o garoto não estava brincando. Mantinha o olhar fixo no horizonte a frente enquanto guiava o cavalo para fora da estrada e o conduzia até uma rua coberta de musgo, encorajando—o para que não tropeçasse nos buracos da calçada. — O que quer dizer com isto de que não sou tipo? — Quis saber. A epidemia havia matado muito mais mulheres do que homens. Eu era uma das poucas mulheres que existiam em Nova América, uma garota culta e de boa aparência e por isto sempre soube que seria o tipo para qualquer homem. O garoto me deu uma olhada e encolheu os ombros. —Psss! – murmurou. Como que psss. Uma garota tão inteligente e trabalhadora como eu. Me haviam dito que era bonita. Eve era a mais inteligente do colégio! Não lhe ocorria dizer algo mais que ―psss‖? Percebi um ligeiro movimento de ombros e me esforcei para olhar seu rosto, percebi, pela primeira vez, que estava mexendo comigo: enganada. — Se acha muito bonito, não é verdade? — Provoquei, desviando o rosto, para não visse que estava vermelha. Puxou as rédeas e dirigiu o cavalo para a ponte em direção do sol poente. Com já era o entardecer, o céu adquiriu uma tonalidade azulada dos hematomas; havia nuvens carregadas e ao longe se ouvia o estrondo de uma tempestade. — Será melhor que leve de volta onde me encontrou. Meu gigantesco amigo está me esperando. Ele é perverso e... Sanguinário – Acrescentei ao final repetindo a que havia ouvido os bandidos dizerem. O garoto respondeu em jocoso: — Estou te levando pra lá. —Bom assim, já sei— afirmei olhando ao redor. Não sabia exatamente onde estávamos. Ainda não havíamos chegado ao WALL MART, e não se via a estrada

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Anna Carey – EVE – Dark Knight por perto. A esquerda se erguiam dois postes que amarelos que assinalavam um antigo campo de futebol onde cresciam pés de milho. — Há algo que não saiba? —Perguntou virando—se e esboçando outro sorriso. Desviei o olhar e fingi que não vi a covinha na bochecha direita nem o brilho nos seus olhos, como se estivesse iluminado por dentro. A professora Agnes chamava de ―ilusão da intimidade‖. Seria aquilo? Permanecemos em silêncio por um tempo, escutando a tempestade distante, até que chegamos ao lugarejo onde havia visto Arden da última vez. Reconheci um balanço quebrado que tinha a borracha do pneu queimada. Uma gata selvagem, com a barriga enorme, vagava pela rua. O garoto parou olhando um jardim coberto de ervas e apontou para uma pequena figura, oculta atrás da folhagem. — Este é seu ―gigantesco amigo‖? Arden saiu pouco a pouco de seu esconderijo. Tinha os joelhos das calças molhadas e manchadas de barro, como se estivesse engatinhando pelo chão. Desci do cavalo, esperando que ela me interrogasse, mas estava muito absorta observando o garoto para reparar em minha presença. Ficamos os três calados um instante; somente se ouvia a refestelar do cavalo. Arden acariciou sua faca com a mão. O garoto fez um gesto negativo com a cabeça, e disse: — Também é paranoica? Vamos ver se acerto: acabou de abandonar o colégio? Verdade? – Desmontou com grande agilidade. O céu trovejou, e o garoto acariciou o pescoço do cavalo para tranquiliza—lo. – Chiss, Lila – sussurrou. — O que você sabe do colégio? – perguntou Arden. — Mais do que você acredita. Me chamo Caleb – respondeu estendendo a mão para cumprimenta—la; ela permaneceu imóvel, observando a sujeira acumulada embaixo das unhas e entre os nós dos dedos do garoto. Logo relaxou os ombros e pouco a pouco retirou a mão da faca. Meu olhar ia de um para o outro sem parar. Ele a havia impressionado. —Arden... — sussurrei esperando que não tocasse o garoto. Ela percebeu uma tatuagem que ele tinha no ombro: um círculo com o emblema de Nova América— Arden, vamos preparar o jantar – Dava conta que aquela presença masculina era tão surpreendente para ela como para mim, mas não podíamos continuar ali, a escassos centímetros dele. Em perigo. Comecei a caminhar e fiz sinais para que ela me seguisse, mas ela não se moveu.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight — Não consegui caçar nada – disse, e se afastou de Caleb. Deu uma olhada nos três coelhos que estavam pendurados no pescoço do cavalo. Em seguida, abriu a bolsa que levava pendurada da cintura e mostrou seu interior: estava vazia. As nuvens da tempestade nos cercavam. Um trovão estremeceu o ar. Deu uma topada em pedra do caminho. Se soubesse teria pegado uma das latas que brinquei com o filhote. Tínhamos em perspectiva outra noite gelada e chuvosa, sem nada para comer. Caleb montou de novo e disse: — Em meu acampamento existe muita comida se lhes quiser vir. Ri do convite, mas minha companheira olhou para mim, para Caleb e para os coelhos. — Não... — murmurei entre os dentes. Peguei em um dos seus braços, para afastá—la do cavalo, mas tinha dos dois pés firmes no chão. — Que tipo de comida? — Perguntou. — De tudo: javalis, coelhos, frutas silvestres... Há pouco tempo matei um cervo. — Apontou para o horizonte cinza, estendendo a mão par uma lugar invisível—. Está a menos de uma hora a cavalo. Continuei retrocedendo, passo a passo. Mas Arden, com a cabeça inclinada, tentava desfazer um nó de seus curtos cabelos negros. Quando a segurei, ficou tensa. — Como sabemos que é de confiança? – Perguntou Arden. — Não sabem – Respondeu Caleb, encolhendo os ombros – Mas nem tem nem cavalo nem comida e se aproxima uma tempestade. Talvez valha a pena tentar. — Minha companheira levantou os olhas para as nuvens carregadas e depois dirigiu um novo olhar para sua bolsa vazia. Após alguns instantes se solte de mim. Deu a volta no cavalo e montou atrás de Caleb. —Aceito sua oferta – disse acomodando—se. Fiz um movimento negativo com a cabeça, decidida a não me mover. — Que nada. Não iremos ao seu ―acampamento‖. – Desenhei no ar os aspas. Tinha certeza que se tratava de um truque. — Está bem. Mas se estivesse em seu lugar, não gostaria de estar só e muito menos com este tempo. – Caleb apontou para as densas nuvens de tempestade, que avançavam rápido e cresciam, ameaçando despejar agua sobre a floresta; logo fez o

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Anna Carey – EVE – Dark Knight cavalo girar e se foi trotando. Arden me acenou um adeus com a mão, sem se incomodar em virar a cabeça. Olhei o campo pelo qual havíamos passado: os girassóis se inclinavam, empurrados pelo vento. Não sabia onde ficava a casa nem se estava muito longe; não sabia ascender um fogo, nem caçar e sequer tinha uma faca. Cravei as unhas na palma de minhas mãos. — Espera – gritei, e sai correndo atrás do cavalo – Espere—me.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight

OITO Nunca tinha visto uma noite tão escura, iluminada unicamente pelos raios que de vez em quando cortavam a escuridão do céu. Levamos duas horas no trajeto. Abracei Arden com os braços, agradecida pelo espaço que me separava de Caleb. Enquanto avançava por uma estrada coberta de mato, permaneci em silêncio, repassando todas as formas pelas quais o garoto poderia nos matar ou nos obrigar a fazer coisas erradas. Entre todas as mentiras que as professoras havia nos contado, havia algo de verdade. Depois de ver como os bandidos esfolaram o animal vivo, compreendi que os homens eram tão violentos e cruéis como nos haviam dito. Lembrei—me da inocente Ana Karenina, oprimida por seu marido Alexei e logo seduzida por seu amante Vronsky. Demonstrando sua pena, a professora Agnes nos havia lido a cena do suicídio da protagonista. ―Quem dera Ana soubesse vocês sabem! — dizia – Quem dera!‖ Não me deixaria enganar. E quando chegássemos ao acampamento de Caleb, comeríamos e esperaríamos a tempestade amainar. Não tinha a intenção de dormir, e sim permaneceria acordada e alerta, encostada contra uma parede. E pela manhã, quando o céu recuperasse sua perfeita cor azul, nós marcharíamos. Ardem e eu, sozinhas. — Como e que conhece nosso colégio? — Perguntou minha companheira, que apenas havia falado para perguntar a Caleb detalhes sobre o caminho que havíamos tomado. Afastei meu rosto das costas de Arden, sentindo um repentino interesse pela conversa. — Sei mais coisas do que gostaria sobre os colégios, — Caleb mantinha os olhos fixos nos caminho – Ele também era órfão. — Então também existem colégios para garotos – concluiu Arden—. Eu sabia. Onde? — A cento cinquenta quilômetros ao norte. Mas não colégios, são mais campos de trabalhos. Sei as coisas que viram em seu colégio: as atrocidades que se acometem e a utilização das garotas como bestas de cria. Mas asseguro... – Fez silêncio por um momento. Logo falou lentamente e com profundidade, como se conhecesse aqueles segredos há muito tempo – Garanto que os garotos também têm sofrido, talvez até mais.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight Duvidei de suas palavras. Sempre eram a mulheres as que sofriam nas mãos dos homens: eles iniciavam as guerras, eles haviam contaminado o meio ambiente e o mar com fumaça e petróleo, haviam arruinado a economia e superpovoado o antigo sistema carcerário. Mas Arden me beliscou o braço com tanta força que soltei um gemido. — Tem que desculpa—la – explicou — Era a sabichona do colégio. Caleb fez um gesto afirmativo, como se aquilo revelasse uma grande verdade sobre mim. Logo em seguida, se inclinou para frente e incitou o cavalo para que acelerasse o passo. Subimos a galope uma grande ladeira, cujo topo estava a uns quinhentos metros. As árvores estendiam seus galhos pelo terreno cheio de mato, criando sombras ameaçadoras, e chovia cada vez mais; as gotas caiam como pedrinhas, golpeando minha pele. — Oh não – Caleb freou o cavalo no meio do barro. Segui seu olhar: havia um 4x4 do governo a menos de cem metros de nós. Apesar da chuva, distingui os faróis traseiros vermelhos. O garoto tentou que o cavalo desse a volta, mas era muito tarde. Um raio de iluminou a riscou a escuridão e iluminou nossos rostos. — Estão presos! Por ordem do rei de Nova América! – gritou uma voz pelo megafone. — Vamos! — Pressionou Arden – Já! Caleb fez o cavalo girar e voltamos pelo caminho pelo qual havíamos subido. Eu não podia deixar de olhar para traz. O 4x4 também estava fazendo a volta e, ao fazê—lo, seus pneus salpicavam no barro. Estavam nos perseguindo, e os olhos destemidos dos faróis dianteiros iluminavam nossas costas. — Parem em nome do rei ou usaremos a força! Não, não; não pode estar certo, disse para mim mesmo agarrando—me as costas escorregadias de Arden. Talvez fosse pelo aguaceiro, pelo barro ou o peso da terceira pessoa, mas o cavalo ia mais lento do que antes. O 4x4 ia se aproximando. —Não podemos seguir por este caminho – disse Caleb – Irão nos alcançar. – Apontou para um bosque denso, e o cavalo galopou em sua direção – Obediente! Me agarrei a Arden desesperadamente. O cavalo se afastou do caminho, e em questão de segundo estávamos no meio do denso bosque. Os grossos galhos das árvores açoitavam meus braços e costas. — Abaixa a cabeça! – Ordenou Caleb.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight As luzes do 4x4 desapareceram atrás de nós. O veículo havia parado no caminho. — Não falta muito para chegar – comentou Caleb, enquanto pulávamos por causa dos desníveis do terreno. Não sabia para onde íamos, mas confiávamos que chegaríamos logo. O cavalo serpenteava entre as árvores, até que por fim parou diante de um rio de uns nove metros de largura. Caleb desmontou e ajudou a mim e Arden a desmontar. Deu uma palmada na garupa do animal, e este saiu correndo. Durante alguns momentos o bosque ficou em silêncio. Olhei para traz: os faróis dianteiros do veículo iluminavam a enevoada noite; nos homens haviam fechado os portos. — Por aqui! – gritou um deles. — Por que te perseguem? — Perguntou Caleb. Ele nos levou até um penhasco junto à margem do rio, e nos abaixamos. — Não perseguem a mim — respondeu, e eu olhei confusa—. Perseguem você. – Retirou um pedaço de papel do bolso da calça. Arden arrancou o papel de suas mãos. Se tratava de uma fotografia em branco e preto de uma menina de compridos cabelos castanhos e lábios generosos em forma de coração. O papel dizia: Eve. 1,70 metros. Olhos azuis e cabelo castanho. Procura—se, viva. Se a virem, avisem o destacamento do noroeste. Arden o manteve nas mãos, até uma grande gota de chuva borrou meu nome. Caleb pôs a cabeça sobre o penhasco; o carro dava voltas lentamente. — O encontrei esta manhã na estrada. Arranquei o papel das mãos de Arden e contemplei meu próprio rosto. Era minha fotografia da formatura, a única que haviam feito no colégio. No mês anterior uma funcionária do governo se apresentou e escolheu trinta garotas e fotografou uma a uma. Na foto estava diante do lago, e ao fundo se via o edifício sem janelas. — E por que me perseguem? Arden também havia fugido. Caleb abaixou o olhar; seus cabelos castanhos ocultavam parte de seu rosto. — Que? – perguntou Arden— O que ocorre? O garoto secou a chuva que molhava seu rosto, e explicou:

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Anna Carey – EVE – Dark Knight — É uma notícia da Cidade de Areia... A princípio acreditávamos que se tratava de um rumor. – Seus olhos buscaram lentamente os meus— O rei quer um herdeiro. Arden negou com a cabeça enquanto olhava para a fotografia. — Oh, não...! — Murmurou. — O que está acontecendo? Perguntei, o pânico tomando conta de mim. Arden voltou seus olhos para o caminho, onde várias lanternas iluminavam as árvores. — ―Eve se mostrou uma das melhores e mais brilhantes alunas que já tivemos no colégio. E ainda, é bonita, muito inteligente e muito disciplinada‖ – As palavras da diretora Burns soaram diferentes nos lábios de Arden. Quase sinistras—. Isso é que havia conseguido pela medalha de aplicação, Eve. Não ia acabar naquele edifício. Pertence ao rei. Náuseas me reviraram o estomago. — O que quer dizer com... Pertencer? — Que lhe darias seus filhos, Eve –respondeu, quase rindo. Havia retratos do rei nos salões do colégio. Era velho, de têmporas grisalhas, lábios finos e secos, as rugas marcavam seu rosto. Recordei que Maxine havia falado de uma suposta visita do monarca no dia da formatura. Logo me pareceu possível que viesse... Por mim. — Claro que os teria. E um espécimen perfeito. Tendo em conta sua educação e todos os elogios das professoras... — continuou Arden, e apertando as têmporas com os dedos. Amacei o papel. Não conseguia respirar e o peito me doía. Não quero dar a luz aos filhos de ninguém, e ainda menos dos do rei. Mas ao que parece que já haviam decido por mim. Caleb sentou—se junto ao penhasco sem desviar a vista de nossos perseguidores, que abriam caminho entre as árvores, fazendo grande barulho enquanto esmagavam a vegetação. — Não estamos seguros – Disse o garoto enquanto olhava o rio as suas costas – Vamos... Agora. – Como uma expiração correu até a margem do rio e mergulhou em suas águas agitadas, enquanto a chuva batia em suas costas nuas. Arden o seguiu de perto e eu demorei um momento para compreender: queria que cruzássemos o ria a nado.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight Me abaixei na margem do rio, imóvel, enquanto Arden mergulha sem nenhuma dificuldade. Atrás de mim as lanternas esquadrinhavam os grossos troncos. As vozes dos soldados estavam cada vez mais próximas. —Vamos! — Ordenou Caleb. Parou, com a altura do peito, para deixar espaço para Arden, que continuou nadando e voltando a superfície para respirar. Ele voltou à margem para me buscar. — Rápido – Me animou, segurando pelo braço. As corredeiras se moviam depressa, mas Arden avançava rio abaixo, arrastada pela corrente. — Não sei nadar – confessei, e afastei meu cabelo molhado do rosto. Minha expressão mudou quando minha companheira chegou à outra margem; estava bem, com a roupa e a mochila encharcadas, mas a salvo— Não me atrevo – acrescentei com a voz hesitante. Os soldados se aproximavam cada vem mais, focando suas lanternas no rio —. Vá – consegui dizer, ainda que não pudesse reprimir as lágrimas; estava perdida. Empurrei Caleb —. Vá. Mas ele não se moveu. Voltou seus olhos para as sombras no bosque, após me olhou e segurou minha mão. — Não tem problema, Eve – afirmou. Parei de chorar, surpresa com o calor de sua pele sobre a minha. Estava tão próximo que sentia sua leve respiração. Seus olhos brilharam, iluminados pelo brilho repentino de uma lanterna. —Não penso em te abandonar.

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NOVE Caleb me ajudou a saltar sobre um fosso, sem soltar minha mão. Corremos sobre as rochas e troncos partidos. Chegavam até mim os ruídos que os homens faziam abrindo passagem com dificuldades pelo espesso bosque. — Vão até a margem! — gritou um deles. Caleb continuou avançando como se conhecesse todas as fendas das pedras caídas, os lugares cobertos de musgo dos troncos podres. Eu não tirava os olhos de suas pernas, para seguir suas pegadas. Viramos em uma curva e perdemos as lanternas de vista. Através da chuva consegui apenas divisar uma estrutura a nossa frente, desmoronado junto à margem do rio. Parecia uma imensa barata morta. Caleb correu até ele. Eu só tinha visto um helicóptero uma vez em minha vida, nas páginas de um livro da biblioteca, mas reconheci os hélices dobrados e a cabine semelhante a uma capsula. — Depressa... Entre— murmurou, e quebrou os restos de uma janela. Me encolhi para entrar na concha enferrujada, e a escuridão me envolveu. O garoto entrou atrás de mim, pisando na poeira do chão. —Ai vem eles – sussurrou enquanto me arrastava para os assentos dianteiros. A chuva que açoitava o para—brisa produzia um som ensurdecedor e incessante. — Temos que nos esconder – disse, e enquanto apalpava as entranhas mofadas do aparelho, toquei um objeto bolorento, da metade de meu tamanho: seguramente um assento do passageiro que havia se quebrado durante o acidente. Nos metemos debaixo, e o som da tempestade silenciou nossa respiração. Me amontoei junto a Caleb na escuridão, debaixo do assento que cheirava a umidade, e percebi o contato de seu corpo: meu ombro contra o seu, minha perna contra a sua. A proximidade era alarmante, mas não me atrevi a me mover. As vozes dos soldados ganharam intensidade quando chegaram a margem. Uma lanterna iluminou a parte superior do helicóptero, e os vidros quebrados cintilaram. Caleb, a quem quase não se distinguia apesar da luz, levou um dedo aos lábios em sinal de silêncio. — Devem ter dado a volta no bosque. Vou à margem e te espero na estrada – disse um homem muito próximo. Sua lanterna iluminou o interior do helicóptero, e a luz pousos em um monte de lixo. Depois baixou para a cabine acidentada e ao

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Anna Carey – EVE – Dark Knight esqueleto do piloto, ainda preso ao acento. Por fim iluminou meu sapato direito, a única parte de mim que não havia escondido. Vá embora – pensei, e rezei para que a luz se afastasse de meu pé—. Não está vendo nada. Fechei os olhos e ouvi outra voz distante, gritando algo. A luz sumiu —. Nada. Ouvi passos do outro lado do para—brisa, e pouco depois o bosque ficou em silêncio. Ficamos ali, amontoados debaixo do assento destruído, até que parou de chover. — Talvez haja comida aqui dentro – disse Caleb ao fim e, esticando as pernas, se afastou do assento. – Ajude—me a procurar. Tateei na escuridão procurando me afastar do esqueleto do piloto. Pouco depois encontrei uma espécie de corda amarrada a uma caixa metálica bastante grande. — Isto? – perguntei entregando minha descoberta a Caleb. Ele agitou a caixa. Após um som alto, uma luz se acendeu. — Muito bem— respondeu com um sorrido. – Uma lanterna. Talvez? —A segurou e começou a abri—la, a luz se tornou mais intensa. Enquanto esvaziávamos o conteúdo da caixa no chão, procurando entre latas e sacos de papel de alumínio, estudei seu rosto. O rio havia limpado quase toda a sujeira de sua pele, que nesse momento era brilhante e suave; umas poucas sardas manchavam seu nariz. Mas se mostrava impossível deixar de olhar para detalhes fortes e angulosos de seu rosto, nem dos ossos que se deixavam perceber por baixo da pele. Sabia que devia temê—lo, mas, apesar disto, sentia uma fascinação. Qual palavra a professor a tinha usado para descrever seu marido, aquela que Eu e Pip riamos nos colégio? Caleb, apesar das unhas negras e do cabelo embaraçado, era quase... Belo! Me deu um pequeno saco de papel alumínio. — E agora por que está rindo?— Perguntou com curiosidade. — Por nada – me apressei em responder. Aproximei o saco de meus lábios e bebi a agua quente. — É esta a cara que faz quando soldados armados a perseguem? — Esfregou a pele para secar a chuva de seus braços, ombros e rosto. Por acaso é divertido? — Esqueça.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight Abriu então uma lata com uma pasta marrom. — Por acaso... –continuou enquanto lambia a tampa—, ria de mim? —Nem de brincadeira— Observei como levava a lata até a boca e a esvaziava o conteúdo com a língua. Fazia barulho para mastigar com a boca aberta, de modo que qualquer atração desapareceu imediatamente— Que nojo! – murmurei. — Não parece apetitoso? Pois então tem ervilhas desidratada — Me atirou outro saco. Comi as ervilhas secas em silêncio, mas não deixava de me olhar—Você e essa garota... — Apontou com a cabeça—. São amigas ou não? Enfiei outra ervilha na boca, mas não engoli até conseguir umedece—la. Lembrei—me perfeitamente do momento em que havia decidido que Eu e Arden éramos tão diferentes que nunca seriamos amigas: participávamos de uma corrida no jardim. Cursávamos o sexto ano do colégio, e como Pip tinha menstruado esta manhã, se sentia muito incomodada com os absorventes que a doutora Hertz havia lhe dado, mas Eu e Ruby a havíamos convencido a correr conosco, embora não quisesse. Quando chegou próximo ao lago e esperava sua volta, Arden abaixou seu short. Antes, já havia dado muitas oportunidades a Arden: Quando brigou com Maxine no banheiro e machucou seus lábios, jurei que se tratava de um acidente; a defendi de outras meninas quando enfrentou a professora Florence e lhe disse que não era sua mãe, que tinha uma fora do colégio e estava viva e que, por tanto, não lhe fazia falta outra mentora; inclusive lhe havia levado algumas frutas silvestres em seu quarto de castigo...Mas o que havia feito com Pip passava do limite. ―Tenho certeza que está muito orgulhosa de você mesma – gritei, enquanto Pip corria para o dormitório com os olhos inchados e vermelhos—. Durante um segundo conseguiu que alguém fosse mais patética que você.‖ Depois desse dia, fiz todo possível para demonstrar quão pouco me importava e a pena que me dava. Na verdade quase ninguém falava com ela, nem sequer para escutar as estórias sobre sua mansão ou sobre seus pais que trabalhavam na cidade. Engoli a saliva; a comida sem gosto por fim havia se umedecido em podia engoli—la. — Não..., não se pode dizer que somos amigas. Caleb sentou—se, apoiando—se na parte traseira do assento do piloto, e apoiou a nuca. — Por isso fugiu nadando. Não se importa com... — Sim – interrompi— Ela só se importa com ela mesma. Sempre foi assim.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight Me observou um instante, surpreendido, e pois as latas vazias na caixa. Depois pôs a cabeça para fora pela janela quebrada, dando uma olhada, afirmou: — Creio que deveríamos passar esta noite aqui. É possível que volte a chover e os soldados não voltarão até que aja dia. Talvez amanhã Arden apareça. —Não aparecerá – murmurei. Havia custado muito para me aceitar e agora que sabia que me procuravam, certamente fugiria para a floresta, afastando—se de mim o mais que pudesse. Tiramos algumas mantas finas da caixa de emergência e as estendemos no extremo oposto ao da humidade da cabine. — Faltam apenas algumas horas para que amanheça – disse Caleb—. Não tenha medo. — Não tenho – afirmei. A luz da lanterna ficou mais fraca e finalmente se apagou. — Ótimo – acrescentou Caleb. Mas quando dormiu pensei na Cidade de Areia e no homem que esperava lá. O rei sempre havia sido uma figura reconfortante para nós, um símbolo de força e proteção. Mas, naquele momento, seu retrato do colégio, em que se destacavam suas flácidas feições e reluzentes olhos que pareciam me perseguir, parecendo me ameaçar. Por que havia me escolhido para ter seus filhos se era mais velho que eu mais de trinta anos? Por que eu dentre todas as garotas do colégio? As professoras diziam que o rei era uma exceção, o único homem em que se podia confiar. Mais uma mentira. Sabia que continuariam a me procurar. Ele não desistiria, pois o impulsionava seu compromisso com Nova América. A diretora Burns cruzava suas mãos sobre o peito quando nos explicava o trabalho do monarca, que havia salvo o povo da incerteza depois da epidemia. O rei afirmava que não havia tempo para discutir, que teríamos que continuar sem olhar para traz, sem parar, sempre adiante. ―É uma oportunidade – repetia a diretora, com os olhos molhados de lagrimas patrióticas—, Só temos uma oportunidade de reconstrução.‖ Minha roupa estava molhada. Espremi a bainha de minha blusa e as calças lenta e cuidadosamente, e a agua gotejou o solo. Quando era pequena, Ruby me perseguiu pelas calçadas, fazendo—se passar por um monstro de garras afiadas e dentes terríveis. Empenhada em fugir a todo o custo, corri entre os baldes de lixo, abri e fechei portas sem parar de gritar. Pedi que parasse, gritando aterrorizada, mas Ruby achava muito engraçado. Quando me alcançou, cai sem folego. A brincadeira havia sido muito real. Jamais esqueci o terror que senti ao ser capturada. Me encolhi na fina manta e fechei os olhos, sonhando com o conforto de minha antiga cama, cujos lençóis brancos me convidavam a dormir. Não senti o

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Anna Carey – EVE – Dark Knight odor familiar da carne de veado do jantar, as soleiras das janelas da biblioteca, onde Eu, Pip e Ruby nos sentávamos para escutar a fita proibida da Madona escondida por traz do volume da Arte Americana: uma história cultural; e senti o contato do velho rádio toca fitas a pilha em minhas mãos e a espuma dos fones em meus ouvidos enquanto tentava recordar a canção que falava de um homem em uma ilha. Estava pensando nos movimentos de Pip, distraída em uma espécie de baile secreto quando ouvi um ruído do lado de fora. Me encolhi em um canto. Caleb continuava dormindo; o rosto estava relaxado por causa do cansaço. Ouvi de novo o ruído: Três galhos se partiram. — Caleb— Sussurrei. Mas ele não acordou. Fechei os olhos enquanto o ruído se ouvia mais próximo, cobri o rosto com a manta e fiquei tensa, morta de medo. Um click, uns ramos quebrados. O inconfundível som da pisada na mata. Afastei a manta de meu rosto e fiquei paralisada. Não podia me mover. Havia alguém fora do helicóptero, a poucos metros de mim, uma silhueta recortada contra a lua. E estava me olhando.

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Dez A manta escorregou de meu rosto, eu não me atrevi à pega— la nem a me mover por medo de ser vista. No outro extremo da cabine, Caleb se voltou, e a imensa casca de metal balançou. A silhueta deu um passo e apoiou a mão na porta quebrada. Fechei os olhos temendo o que se aproximava: uma fria pistola apontada, algemas me prenderiam os pulsos... — Eve— Sussurrou por fim uma voz familiar. Olhei pela janela quebrada: Arden tinha a roupa encharca e os cabelos colados na cabeça. Por baixo da tênue luz, distingui seu rosto, crispado de preocupação. — Está ai? Está bem? — Sim, sou eu. — Apareci em um lugar visível sob a luz da lua—. Estou bem. Subiu em um salto para o helicóptero, afundando as botas no lixo. Me deu um olhada em seguida reparou em Caleb dormindo, como se uma pergunta que tivesse em mente tivesse sido finalmente respondida. Por fim se instalou em um assento. — Você voltou... — Mexi na lanterna de plástico sem tirar os olhos de Arden, que tremia de frio e pingava como se tivesse acabado de sair do rio. Dei-lhe minha manta. Ela se abaixou sobre uma caixa e abriu um pacote de comida desidratada. — Enfim... — Encolheu os ombros— Estou morta de fome. Mordeu uma cenoura seca, sem tomar conhecimento de mim. — Estava preocupara comigo? — Perguntei me inclinando para ela. Parou de comer e virou a cabeça para observar Caleb. — Não— se apressou em dizer — Mas não sabia se estaria a salvo com ele. Quis lhe dizer que lhe importava minha segurança, e que por isso a resposta certa era sim, estava preocupada comigo, mas me contive. Ao ver sua roupa encharcada, me perguntei se não a havia julgado mal. Talvez fosse algo mais do

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Anna Carey – EVE – Dark Knight que a garota que levou anos insistindo que preferia comer sozinha a perder tempo com as outras.Tirou os sacos de alumínio vazios e soltou um breve arroto. — Quer a manta? – perguntou oferecendo—a, e, momentaneamente ficou pendurada como uma cortina entre nós. Neguei com a cabeça e disse: — Fique com ela. A luz da lanterna atenuou porque restava pouca carga na bateria; antes de se apagar de todo e de ser vencida pelo sono, a última coisa que vi foi o rosto pálido de minha companheira. No dia seguinte Caleb se adiantou e foi afastando o mato com facão para abrir o caminho. Esperamos que seu cavalo voltasse para a margem, mas quando o sol saiu, tivemos que partir. — Levaremos todo o dia para chegarmos até o acampamento – informou – com um pouco de sorte estaremos lá antes da noite. Caminhamos por uma rua coberta de musgo. O sol havia saído compondo um amanhecer rosa amarelado, mas nesse momento o céu voltou a cobrir com nuvens. — Não podemos ficar muito no acampamento – disse dignando—se a conversar com Arden— Servirá para nos abastecer, mas devemos seguir caminho para CALIFIA. Seguia obcecada com o encontro com os soldados do rei. Ainda era muito cedo e não havia rastros do 4x4, olhava com frequência para traz e estremecia ao ouvir os estridentes trinados dos pássaros nas copas das árvores. Arden espantou uma mosca com a mão. — Não me importo que me diga – murmurou e começou a tossir e espirrar – Este caminho tem partes mais fáceis? — perguntou ao mesmo tempo em que afastava um galho de seu rosto. — Não demoraremos a encontrar um povoado. – Caleb se abaixou para passar por baixo de um galho — Cuidado. – E olhou para o céu, coisa que fazia continuamente. Antes de começarmos a andar, Eu e Arden tivemos que aguardar, enquanto brincava com uns gravetos na terra e observava durante vários minutos as sombras que projetavam. Após decidiu qual a rota que devíamos seguir, como se tivesse conversado com a terra em um idioma estranho que nós ignorávamos. — Parece que consulta um relógio – E apontei para o sol.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight — Claro, é minha bússola e meu calendário. — E levou o dedo ao queixo em uma surpresa fingida – Pelo visto existem coisas que não sabe... Me voltei para observar Arden, que limpava a sujeira das unhas, sem interesse em nada. Me convenci que Caleb era melhor para nossa segurança: havia ficado comigo no rio e me havia escondido no helicóptero, ainda não entendia porque? Não compreendia suas motivações nem acreditava que podíamos confiar cegamente nele. Também não gostava da forma que zombava de mim, nem na sua insistência na noite anterior de fazer perguntas que não queria responder. — Escuta, Caleb – Falei dizendo seu nome – Agradecemos sua ajuda, mas não te pedimos nada. — Sim, já me disse isto antes: faz uma hora..., esta manhã... e quando aceitou ir para o acampamento – respondeu ele – Vocês ficarão uma noite, se abastecerão com nossa comida, e logo as acompanharei até a Estrada oitenta para que continuem até Califia. Já entendi perfeitamente. Nos conduziu até outra estrada que desembocava em uma fila de casas arruinadas. O rio as havia inundado, deixando uma marca marrom na altura do telhado a trinta centímetros acima das portas. Sobre uma fachada de tijolos havia uma mensagem escrita com Spray: ―Estou morrendo, Socorro?‖. — Têm fome? Perguntou Caleb. Sem nos dar tempo para a resposta, subiu uns degraus podres e entrou na casa. — Suponho que seja a hora de comer... – murmurou Arden, e o seguiu. O chão de madeira do interior da casa estava tombado e partido, nas paredes crescia um mofo negro. Tapei o nariz com a camiseta para me proteger do odor. Em um canto do lugar havia um gigantesco armário do que não sabia o que, cujo o painel dianteiro caído tinha uma forma de estrela. — Que isso? – quis saber, apontando—o. Caleb voltou para sala pisando em livros encharcados e montes de coisas apodrecidas, Eu e Arden o seguimos com certa cautela. — Uma televisão – respondeu quando chegamos perto da porta da cozinha. Concordei, ainda conhecia a palavra vagamente. Tinha a aparência de ter contido algo valioso. O desgastado sofá estava em frente dele, como se a família se sentasse em frente dele para olha-lo. Todos os armários da cozinha estavam abertos e as estantes cobertas por plásticos sujos e latas vazias. Havia várias poltronas jogadas ao chão, cujos

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Anna Carey – EVE – Dark Knight assentos deixavam a vista suas entranhas cinzentas e mofadas; o teto caia em pedaços. — Vai com cuidado – sussurrou Arden, me puxando e apontando um buraco no chão que por pouco não havia caído. Caleb pulou uma vala e se dirigiu a uma escada que conduzia a um porão escuro. — Vou ver se a algo lá embaixo. Enquanto Arden perambulava pela sala, me aproximei de uma geladeira que se encontrava em um canto, sobre a qual havia algumas fotografias e retratos antigos. Em uma das fotos se via um casal jovem com um bebê nos braços; a mulher tinha a franja colada em seu rosto suado, mas a câmera havia captado seus grandes e brilhantes olhos. Abaixo havia um desenho infantil de uma família: os três, o pai, a mãe e a menina estavam cercados por perversos fantasmas, com os contornos pintados a lápis. Durante aqueles últimos dias junto a minha mãe, eu desenhava tudo o que me ocorria. Me sentava no andar de baixo, diante de minha mesinha de plástico azul, pegava um papel e pintava coisas para ela: desenhos em que estávamos em um parque infantil próximo a casa, como era o carrossel em ela me fazia dar voltas e voltas sem parar. Também a desenhava na cama e punha um médico com uma varinha mágica em suas mãos para que a curasse; outras vezes a representava fora de casa com uma cerca para que o vírus não entrasse. Uma vez feitos, eu os deslizava por baixo da porta de seu quarto para que os visse: seus presentes especiais. ―Beijos – dizia ela, dando pancadinhas do outro lado da porta – Daria um milhão de beijos se pudesse.‖ Olhei para o rosto da mulher uma última vez e voltei para a sala vazia. Ouvi um ruído em cima e senti curiosidade. — Arden... — Chamei, e sai silenciosamente. O chão rangia a cada passo, e uma brisa gelada entrava pela janela aberta. Onde esta você? Entrei em um minúsculo banheiro sem telhas nem piso. — Arden! – Insisti, o eco repetiu minha pergunta. Ao fundo do corredor havia uma porta entreaberta. Me dirigi para ela, e no caminho passei por um quarto em havia uma cama quebrada e as molas do colchão estavam a vista. Me aproximei, junto a parede. O papel de parede havia se soltado em algumas partes e roçava meus ombros nus. Meu pulso se acelerou e comecei a transpirar. Havíamos entrada em uma casa com pressa, mas devíamos ter pensado

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Anna Carey – EVE – Dark Knight duas vezes antes de irromper por ela. Sempre havia a possibilidade de que nos vigiassem. A porta entre aberta estava queimada. Olhei o que havia dentro: era um quarto de criança com um baú cheio de brinquedos empoeirados e as paredes pintadas de um azul brilhante. Havia bichinhos caídos sobre a pequena cama. E peguei um ursinho manco que devia ser muito velho antes até do que a epidêmia. Tudo aconteceu muito rápido: ouvi passos a minhas costas e cai ao solo com um baque surdo. Gritei quando alguém oculto por uma mascara de palhaço se colocou em cima de mim, me aterrorizando com seu desfigurado sorrido vermelho. — Não me mate, por favor! – implorei – Não me mate! O palhaço se deteve um instante, pressionando meu ombro contra piso quadriculado. Logo ouvi risadas sufocadas. Arden retirou a mascara e caiu sobre mim se contorcendo em risadas. — Por acaso é maluca? – reclamei, e me levantei de um pulo—. Por que fez isso? Caleb apareceu na porta, transtornado. — Que aconteceu? Ouvi você gritar. — Levava uma lata enferrujada em cada mão. Apontei para Arden, que virou para o lado enquanto dava grandes gargalhadas. Acabou chorando de rir e secando as lágrimas com as dobras da camisa. — Arden me deu um susto de propósito. Isto foi o que aconteceu. Caleb olhou para nós duas. Tentou dizer algo, mas não foi capaz de articular uma palavra. Meu coração parecia que ia saltar do peito. — Não tem garça – exclamou por fim –Se tivesse uma faca poderia ter te matado! Andei de um lado para outro, batendo as mãos para enfatizar as palavras. Arden se ajoelhou e dobrou as costas e encostou o rosto no chão —. Arden olhe para mim; Se importa de levantar—se e me encarar? — Gritei. Caleb me segurou pelo braço e me obrigou a afastar—me. No entanto, ela segui de cabeça baixa, seus cabelos eram um emaranhado de fios. Retorcendo—se, bateu no chão com a palma da mão. —Arden... – repeti mais amável. Tinha os olhos fechados e a face contraída.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight Se levantou afinal, respirando com dificuldade. Estendi—lhe as mãos, mas ela não as apertou, sendo que, fazendo um grande esforço, se curvou até se converter em um novelo. Tossia muito forte; não mais nada que seus estertores. Me agachei e apoiei minhas mãos em suas costas, enquanto ela tinha convulsões, tentando liberar os pulmões do peso que a sufocava. Quando se acalmou, ambas baixamos os olhos. Ela tinha as mãos ensanguentadas.

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Onze —Ontem a noite estava encharcado-expliquei a Caleb quando chegamos à floresta que rodeava seu acampamento. As tosses Arden se tornaram mais violentas à medida que avançávamos, e seu passo ficou mais cansado, até que parou de caminhar. O garoto e eu fazíamos turnos para leva-la em um carrinho que ele havia encontrado, cujo em um dos lados havia escrito o nome RADIO FLYER. Enquanto os dentes batiam se inclinou na borda do carrinho para empurrar o muco sangrento dos pulmões. Acabou caindo adormecida, prendendo entre os braços as latas de comida resgatadas do lixo— Certamente se infectou no rio e na chuva. —Conheci um garoto que se infectou assim — comentou Caleb. A levantamos entre nós dois; os braços caíram sobre os nossos ombros. —E o que aconteceu? —perguntei, mas ele não respondeu— Ouviu-me Caleb? —Tenho certeza que isto é diferente — afirmou, ainda que detectei tensão em seu rosto apesar da escassa luz do anoitecer. —Eu estou bem — murmurou Arden, tratando-se de por direita. Tinha deixado saliva seca nos cantos dos lábios. Caminhamos pelo espesso bosque cinza, entre folhas que me faziam cócegas no pescoço. Os animais corriam embaixo da grama, e ao longe uivou uma matilha de cães selvagens famintos. Por fim o bosque desembocou num claro, e descobri a visão mais deslumbrante da minha vida: em nossa frente estendia um lago imenso em cuja superfície escura se refletia mil estrelas. —O lago Tahoe — informou Caleb. Ergui a vista para observar as estrelas brancas piscando. Algumas delas brilhavam tanto, que pareciam quase azuladas; outras borradas na distancia como poeira cintilante. —Que esplendor! —Mas a palavra não bastava para descrever o assombro que senti naquele momento, dominada pela imensidão do céu— Olha Arden. —Lhe dei um ligeiro empurrão. Gostaria que tivesse meus quadros e pinceis para capturar ainda que só fosse uma levíssima impressão daquela cena. Mas ali só estamos nós, o negro anel de terra e a brilhante abóboda celeste. Mas ela se limitou em fazer uma careta, presa na dor. —Onde está o acampamento? —perguntei, amedrontada por causa do assombro inicial— Devemos leva-la para dentro.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight —Ali esta ele — respondeu Caleb, aproximando-se de uma íngreme e lamacenta encosta, coberta de matos e galhos quebrados. Confusa, olhei o garoto, que pegou um pedaço de madeira podre escondido na terra e, tirando dele, deixou descoberto uma tabua do tamanho de uma porta. O abriu batendo. Depois dele tinha um buraco que penetrava em um lado da montanha. —Vamos — disse indicando-me que entrasse. Encolhi o estomago, e a minha cabeça deu voltas. Em frente à escuridão regressaram todos os meus medos, pois já me havia arriscado muito ao seguir aquele garoto. Não me imaginava que o acampamento fosse uma caverna. Sobre a terra, sempre poderia lançar a correr, mas ali embaixo e no escuro... —Não... —murmurei retrocedendo—Não posso. —Eve, sua amiga precisa de ajuda... Imediatamente—Me estendeu a mão— Entra. Nada vai te machucar. Arden estremeceu ao meu lado; tossiu e abriu os olhos um instante para dizer algo que soou Cuidado. Apoiou-se em mim, e eu, tremendo as mãos, a guiei pelo tenebroso túnel. Caleb fechou a porta atrás de mim. —Por aqui — indicou ele, abaixando-se para que Arden apoiasse o outro braço em seus ombros, e assim ajudar-me a leva-la. Avançamos na escuridão; a fria parede de terra me arranhava o lado, e notava a dureza do chão em baixo dos meus pés. —Este túnel... Você que encontrou? —perguntei, e minha voz ressoou na caverna. Caleb virou à direita e nos conduziu por outro túnel, procurando o caminho na escuridão. —O fizemos. —Ouvi ruído de gente a certa distancia. Murmúrios, barulho de panelas, risos baixos. —Construíram um túnel na montanha? —insisti. Arden voltou a tossir; os pés já não à mantinha. Caleb guardou silencio um pouco. —Sim — afirmou enfim, e notei sua respiração enquanto andávamos— Depois da epidemia, me levaram a um orfanato improvisado em uma igreja abandonada. Os meninos, garotos e garotas, dormiam nos bancos e nos armários, e às vezes nos juntávamos de cinco em cinco para se aquecer. Só lembro-me de uma pessoa adulta: a mulher que nos abria as latas de comida; chamava-nos de restos. Alguns meses apareceram os caminhões e levaram as garotas aos colégios. Os

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Anna Carey – EVE – Dark Knight garotos foram para acampamentos, que eram campos de trabalho, onde nós passávamos o dia inteiro construindo de tudo. —Quase cuspia as palavras, sem tirar a vista do chão. —Quando você escapou? —perguntei. Avançávamos pelo túnel em direção a uma luz que brilhava mais enquanto nos aproximávamos. —Faz cinco anos. Estavam começando a escavação quando cheguei — explicou Caleb. Eu queria perguntar-lhe mais coisas, saber quem o havia o organizado e como, mas me dava medo de insistir. Dobramos uma curva e a passagem desembocou em uma ampla sala circular na qual havia uma fogueira no centro. A caverna me lembrava a toca de um animal. As paredes de barro estavam revestidas de lajes cinza, e do recinto central saiam outros quatro tuneis. Antes que seguíssemos avançando, uma flecha me roçou o rosto e a ponto de rasgar-me uma orelha. —Olha onde você anda! —exclamou rindo um garoto, de músculos grandes e fibrosos, e se aproximou da parede que tínhamos ao lado, onde dois gigantescos círculos formavam um alvo. Cravou os olhos em mim enquanto arrancava a flecha em seguida. Nu da cintura pra cima, um grupo de garotos rodeava a fogueira. Quando viram Caleb, se puseram a gritar. —Não sabíamos onde você estava — disse um deles, de espessos cabelos negros recolhidos na parte de cima da cabeça. Os demais golpearam o peito com os punhos um modo de saudação primitivo. Me arrepiou a pele quando repararam em mim e me olharam sem piscar. —Ao menos a caça foi um sucesso — comentou o da flecha, fixando em minhas pernas nuas e na camisa de manga larga que caía sobre meu peito. Cruzei os braços, desejando ter algo mais com que me cobrir— Olha o que temos aqui, rapazes! Uma senhorita... —Se aproximou, mas Caleb levantou a mão para-lo e o advertiu: —Já basta, Charlie. Outros dos garotos, de uns quinze anos, saíram de um túnel lateral carregando um javali. Deixaram a presa no chão e, atrás deles, ficou uma trilha de sangue coagulado a partir das entranhas do animal. —Leif tem conhecimento? —perguntou um garoto alto e magro, que usava óculos quebrados. —Não tardará para ouvir — respondeu Caleb. Outro dos ali presentes se ajoelhou junto ao animal morto e afiou duas facas entre si; o ruído agudo e áspero que produziu me pôs os cabelos em pé. Olhou Arden

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Anna Carey – EVE – Dark Knight de cima abaixo e, quando se cansou dela, voltou a concentrar-se no javali e fez um corte no pescoço. Lascas de ossos lhe saltaram ao rosto. Fincava a faca uma e outra vez descontroladamente na junta entre a cabeça o corpo do animal. A cada golpe eu estremecia. Não parou até que a cabeça do javali se desprendeu e rolou pelo chão. O animal, que uma névoa cinza velava as pupilas, me olhava. Senti vontade de correr pelo corredor, refazer o caminho, de não parar até estar em pleno ar livre. Mas Arden continuava invalida a meu lado, e lembrei por que estávamos ali. Em quando ela melhorasse, nos iríamos muito longe daquele doentio refugio subterrâneo habitado por uns garotos que me olhavam como se quisessem devorarme. Um jovem corpulento, de cabelos loiros emaranhados, jogou lenha no fogo e examinou a frágil figura de Arden. —Podem ficar no meu quarto — ofereceu rindo-se, e eu balancei a minha protegida —Não tenho nenhuma objeção em dividir a cama. —Não vão ficar no quarto de ninguém — gritou uma voz rouca— Não vão ficar e acabou. Um garoto maior saiu de um dos tuneis. Usava calças que chegavam abaixo do joelho; um cabelo cacheado cobria seu peito, ele recolheu o cabelo —negro— em um coque que deixava descoberta a parte superior da costa, sulcada de grossas cicatrizes. O seguia uma fila de garotos maiores, que se dispersaram pela sala. Do medo que tinha, tive arrepios. Eram uns dez, todos mais altos e gordos que eu, e tinham cara de poucos amigos. —Isto não vai bem — murmurou Arden. Caleb se colocou entre e nós, e manifestou: —Não a nada que discutir, Leif. As encontrei no bosque. A garota foi atacada por um urso — Baixei a vista para se esquivar das olhadas—Tem que ficar. Uns grossos cílios negros rodeavam os olhos de cor castanho escuro de Leif, que sentenciou: —É muito perigoso. Já sabe como o rei fica com o assunto das cerdas. Com certeza a estarão procurando. —Se aproximou, parando a uns poucos centímetros de Caleb. Estava tão perto que vi pedaços de folhas entre seus cabelos, e percebi o cheiro de cinzas que saiam de seus tensos e musculosos braços. —Cerdas? —sussurrou Arden, cujo quente respiração roçou meu pescoço—. Isso é o que somos? —Assim é como eles nos chamam —respondi—Mas não somos.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight O grupo de garotos nos rodeou, bloqueando nossa via de escape. Arden tossiu, estremecendo o corpo por causa do esforço. —Esta doente? —perguntou um garoto desdentado, suavizando o gesto. Me fixei na tatuagem que levava no ombro: um circulo com o emblema da Nova América, igual a de Caleb e no mesmo lugar. Dei uma olhada e percebi de que todos os garotos eram tatuados. —Muito — respondi. Retrocederam ao ouvir esta palavra e cochicharam; um garoto baixinho e bochechudo disse algo que soou à epidemia. Arden ergueu a cabeça e a apoiou em meu ombro. Caleb continuava frente à Leif. —Se a deixarmos, a garota morrera. Não deixarei. Leif fez uma careta de desagrado que me lembrou dum cão rabugento. —Ficarão no quarto de hóspede, separadas dos demais — disse enfim. Arden que quase não podia levantar a vista se limitou a olhar-me com os olhos semicerrados—. Não podem subir a superfície sem permissão. E nada de bisbilhotar ou andar incomodando. Entendido? Deu uma olhada no garoto que estava a seu lado, que carregava uma pilha de tigelas. Como se fosse algo instintivo, o rapaz se ajoelhou e, enchendo-as de feijão de uma panela que estava no fogo, e os entregou a Leif. Dei um passo, e meus olhos caíram à altura de seus enormes ombros. Me ofereceu uma tigela. Eu a peguei, mas ele não soltou. —Bem vindas — disse em um tom que significava tudo ao contrario. Empurrou-me e examinou meu rosto até que percorreu com a vista meus peitos, minha cintura e minhas pernas. Senti uma onda de pânico e puxei a tigela para me livrar daquele olhar. O soltou de repente, e eu caí para trás. Os feijões derramaram sobre minha camisa. Outro garoto começou a rir às gargalhadas. Minhas bochechas arderam, observei a mancha. Não bastava que eu me sentisse desprotegida naquele acampamento, nem que Leif me aterrorizasse, mas Também tive que me humilhar. —Vamos — disse Caleb, pegando a janta para Arden—Vou mostrar o seu quarto. —Rodeou com um braço Arden, e caminhamos por um túnel iluminado por filas de lanternas colocadas no chão—. Leif é assim — sussurrou. Verei a cabeça e vi que este dava um chute na cabeça do javali. Os garotos recomeçaram suas atividades: de mais alto lançou outra flecha, dois rapazes muito magros se puseram a lutar, enquanto outros se dedicavam, ativamente, a colocar pedaços de carne em palitos afiados. Me lembrei de O senhor das moscas e do dia em que a professora Florence nos havia lido a cena em que Simon é atacado pela horda de garotos selvagens obedecendo ao líder da quadrilha. ―Quando os homens

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Anna Carey – EVE – Dark Knight estão isolados, e o único incentivo é a violência dos demais, é quando são mais perigosos‖, havia dito a professora sentada na borda de sua mesa, com o livro aberto sobre o colo. Lembrei o coro de gritos, os olhos que desnudavam meu corpo com avidez, a troca de sussurros..., e supus que algumas coisas das que nos haviam dito eram certas. Apesar de tudo.

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Doze —Quer mais? —perguntei segurando a colher de feijão diante dos lábios rachados de Arden. Murmurou algo parecido com um não, se pôs de lado, tirou a colcha das pernas cheia de manchas e fechou os olhos. Toda noite era assim. Ela acordava de vez em quando, pedia comida e água e depois desmoronava no colchão afundado. Às vezes se retorcia de calor, queixando-se de um mal estar que subia pela coluna. Caleb havia trazido arrastando uma banheira cheia de água do lago, e eu havia conseguido manter Arden acordada o tempo suficiente para limpar o suor que lhe impregnava a pele e tirar-lhe as folhas do cabelo com um pente quebrado. A caverna de terra estava no final de um dos tuneis principais; era uma estadia sufocante que contava com um colchão e uma mesa cheia de livros infantis amarelos. Verifiquei as gavetas da mesa procurando, contra toda a lógica, medicamentos. Como no colégio tínhamos muitíssimos, nunca me havia dado conta de seu valor. Dávamos por sua existência e a facilidade para tratar qualquer problema: a tosse, uma infecção, um corte feito por um farol quebrado... Dispúnhamos de pastilhas, de injeções para anestesiar a pele antes de te darem pontos de sutura, e de doce xarope de cor rosa chiclete que se deslizava pela garganta. Quando Ruby caiu paralisada no jardim devido a uma perfurante dor no lado, levaram-na à enfermaria, de onde saiu dias depois usando uma marca de costuras negras na barriga, no lugar onde lhe haviam retirado o apêndice. ―O que lhe haveria ocorrido fora dos muros do colégio? perguntamo-nos em voz alta enquanto lhe examinávamos a cicatriz. Maxine sugeriu que teria que remove-lo, seguramente com umas tesouras enferrujadas. Não; vocês estão enganadas —corrigiu a diretora, que vigiava as nossas mesas no corredor para verificar de que todas tomássemos as vitaminas—. Simplesmente haveria morrido. Retirei o espesso cabelo preto do rosto de Arden e notei a sua pele queimava. Lembrei então a primeira vez que havia visto: nos anos posteriores a epidemia, chegavam novas alunas de vez em quando; algumas delas apareciam na floresta e outras eram enviadas por adultos que não podiam cuidar delas. Arden era uma garota alta que vestia um gasto vestido azul, uma menina de oito anos que havia entrado pela porta lateral do colégio três anos depois que eu. Ficou um mês na sala de quarentena, só, igual a todas nós quando chegamos. Pip e eu a havíamos observado pela pequena janela de vidro da porta, enquanto escovava os dentes; cuspia a espuma branca na lata de lixo, mas não sabíamos se seria diferente de nós. Era um jogo habitual entre as alunas: todas parávamos em frente esta sala quando passávamos pelo corredor, olhando para ver se apareciam os reveladores hematomas azuis em baixo da pele, ou esperando que o branco do olho adquirisse

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Anna Carey – EVE – Dark Knight um tom amarelado como consequência do muco. Mas nunca ocorreu nada semelhante. Arden dava voltas na cama e se queixava com uma profunda voz gutural que me aterrorizava. Lembrava-me a minha mãe ao final de sua vida, cujos sintomas repassei mentalmente na escura e fria sala. Arden tinha perdido peso, ainda que não de forma exagerada; não sofria hemorragias nasais, nem tinham inchado suas pernas, nem tinha bolhas de pus, coisa que haveria formado poças em torno de seus pés. Sem dificuldade, tinha umas tosses espantosas, os calafrios a estremeciam, pós os olhos em branco... Apertei-lhe a gélida mão, desejando que melhorasse, acordada e mais viva que nunca, que me dissesse que não rondasse ao seu redor e que me espantasse com um gesto. Mas nada. Somente outro estremecimento nas pernas, outro gemido. Pronunciei as palavras que não havia dito a minha mãe, as que me queimava a garganta aquele dia de julho em que os caminhões cruzaram a barricada, as que desde então se havia deixado aqui, junto ao meu coração, convertidas em um grande quadro. Minha memória regressou a época de meus cinco anos, quando descia a escada sem fazer barulho: minha mãe tinha deixado de esperar que os médicos a visitassem depois de escutar nas noticias que só atendiam os ricos. Aquele dia abriu a porta de seu quarto e eu corri abraça-la, mas me tampou a boca com um plástico e me arrastou até a rua, gritando com a voz afogada, pedindo aos caminhões que parassem. Agarrei à caixa de correio quando ela voltou correndo para a casa, sem beijar-me sequer por medo do contagio. Tentei agarrar-me ao poste de madeira, mas me soltaram dele e me colocaram na parte de trás do caminhão; caí indefesa entre os fortes braços da mulher que me segurava. —Por favor, não me deixe — pedi a Arden com os olhos fechados, balançando com o som da minha própria voz. Lhe apertei a mão outra vez e a coloquei de boca pra cima—Preciso de você. Como não se moveu, afundei a cabeça na almofada e me rendi às lagrimas. Talvez nunca mais se recuperasse e talvez nunca regressássemos juntas a estrada que conduzia à Califia. Horas depois uma luz cegante me acordou. Havia alguém na porta do quarto, apontando o meu rosto com uma lanterna. A silhueta se moveu e a luz iluminou o chão. Esfreguei os olhos, tratando de identificar a minúscula figura que tinha em frente: apenas me chegava a cintura, os cabelos lhe caiam sobre os ombros, e um amplo e vaporoso tutu lhe rodeava a cintura. Pisquei na escuridão, mas a pessoinha continuava ali, era real, em vez de ser fantasmagórico resto de um sonho.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight —Como se chama? —perguntei a menina, enquanto minha vista se adaptava a escuridão. Ele retrocedeu— Venha, se aproxime. —Fiz um gesto com o braço para anima-la, mas antes que pudesse adicionar nada, saiu correndo pelo corredor em penumbra. Levantei na cama, totalmente acordada. Não sabia como havia entrado a pequena naquele acampamento masculino, mas compreendi que tinha que segui-la. Fui correndo ao corredor: ela se distanciava pelo túnel, apenas visível entre as luzes das lanternas. —Espera! —gritei — Volte! Desapareceu atrás de uma brusca curva. Contemplei o corredor vazio: o túnel corria entre curvas e as percorri, procurando através dos ocos negros dos lados, nos que dormiam os garotos. A menina continuava correndo na minha frente. Em um dado momento, o túnel se dividiu, e ela virou por um caminho escuro. Fui atrás da pequena, acelerando o passo. —Não vou te fazer mal — sussurrei, urgente—Pare, por favor! Eu andava com rapidez e facilidade, mais rápida que nunca. Me sentia bem estar de pé, mover-me; a cada metro que corria, minha mente se acalmava, e não ouvia mais o som da minha própria respiração. Não tardei muito em ver a difusa silhueta diante de mim. Então me encontrei ante uma nova curva do túnel, que desembocou no exterior embaixo de um céu cheio de estrelas. A menina correu entre as árvores, gritando como se si tratasse de um divertido jogo. Fui atrás dela até que chegou à outra encosta da colina e se meteu em um vasto terreno de elevados arbustos. Inclinei para respirar, quase vencida pelo esforço. Quando me levantei, me dei conta de que a menina tinha desaparecido. Me encontrava só na escuridão e fora do refugio. Não devia continuar; seria uma loucura vagar pelo bosque, procurando à pequena pelas colinas. Se pudesse retornar ao túnel, contaria a Caleb que aquela criatura havia escapado e estava só. Mas quando dei a volta, não vi mais que sombras. Caminhei para as arvores, mas a floresta era demasiada densa. As folhas sussurravam embaixo dos meus pés e os galhos rangiam sobre minha cabeça. Quando cheguei ao lugar que achei que estava a saída, não encontrei a colina, mas uma costa rochosa que descia até o lago. Girei e corri para o outro lado do bosque, quase sem respiração, lembrandome de quando estava junto ao rio, molhada da chuva e os soldados que me caçavam com as armas na mão, e de quando vi Caleb de costa diante de mim, meu rosto no anuncio, as palavras que Arden tinha pronunciado: Pertence ao rei. Como podia ter sido tão estúpida e ter abandonado o refugio e saído em plena noite, enquanto os soldados continuavam me procurando? Haviam me advertido.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight Diante de mim se elevava um muro rochoso de uns três metros de altura. Comecei a correr tão depressa para ali, que estava a ponto de chorar contra ele. Devia encontrar-me atrás da montanha, mas a escuridão não permitia comprova-lo. Caminhei junto ao muro na esperança de rodear o montinho cheio de grama que ocultava a entrada do refugio quando ouvi um ruído atrás de mim. Não tive tempo de virar-me nem de correr. Em um instante uma mão me pegou o braço. —Que diabo faz aqui? —perguntou Leif, sacudindo-me. A difusa luz das estrelas apenas permitia ver rosto tenso. Tentei soltar-me, mas me segurou com mais força—.Te disse para não sair do refugio. —Já sei — murmurei, atormentada pela dor que sentia no pulso—Sinto muito. — Não me atrevi a adicionar nada mais. Nem sequer me atrevia a respirar. —Quem te disse que podia sair? —me agarrou. Seu lábio superior esboçava uma careta de desgosto, deixando descoberto um dente quebrado—Por acaso foi o Caleb? —Não, não... Saí atrás de uma menina, que começou a correr e desapareceu por aqui, mas não... —Uma menina? —Leif riu, ainda que o riso soasse mais bem um escarnio— No acampamento não tem meninas. —Esta me machucando — disse, mas ele não soltou meu delicado pulso. Me arrastou para frente; seus energéticos passos ressonavam no caminho. —Cometeu uma estupidez saindo. Por isso estou de guarda. Durante a noite somos mais vulneráveis..., acima de tudo tem vocês. —Eu sei — afirmei, cansada do assunto. Enquanto puxava e para a encosta oposta da colina, senti como se me paralisava a circulação do sangue na mão devido a preção que exercia com os dedos. Por fim me soltou. Apalpou a lateral de um montículo coberto de grama, e me revirou o estomago ao pensar no que podia fazer-me. Mas retirou um pedaço de madeira, revelando outra entrada ao refugio. —Esta noite eu vi os soldados — disse com calma, para que me inteirasse bem das palavras—. Fazia meses que não apareciam por aqui. E, de repente, estão aqui, percorrendo aquela saída —Mostrou uma montanha atrás das árvores. Esperou que eu dissesse algo, talvez que raciocinasse e me desculpasse; e ainda que o tentei, não consegui pronunciar a palavra. —Vamos, entra—rosnou— Não queremos que aconteça nada a nossa querida Eve, verdade?—Seus olhos eram frios pedaços de mármore negro afundados nas bacias.

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Anna Carey – EVE – Dark Knight —Não — respondi desviando seu olhar— Claro que não. —Me meti no túnel, encantada de livrar-me dele. —Seu quarto é o terceiro à direita — indicou. Em seguida a pedra coberta de musgo se fechou na minha costa e me trancou de novo no estreito corredor. Quando cheguei à caverna, me aliviou ver o resplendor do familiar rosto de Arden a tênue luz da lanterna. Ainda assim me estremeci; tremia e notei o coração a ponto de arrebentar. Leif havia indicado onde estava meu quarto muito rápido. Rápido demais. Mantendo a costa colada na fria parede, ouvi ecos no túnel e temi que aqueles olhos negros, parecidos com duas gotas brilhantes, aparecessem e me pegasse quando menos o esperasse.

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