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Revista R10

Mulher Março 2018 Ano 3. Nº 4

R$ 6,00

ENTREVISTA ESPECIAL COM A DEPUTADA FEDERAL

IRACEMA PORTELLA

“A violência contra a mulher é nossa luta mais desafiadora”.

Mulher protagonista de sua história


ÍNDICE

CAPA

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EDITORIAL

A revista R10, em parceria com o PortalR10, tem o prazer de apresentar em sua edição especial “Mulheres”, nomes e personalidades inspiradoras do estado do Piauí. São mulheres que protagonizam suas histórias com trajetórias cheias de obstáculos superados pela própria condição do gênero. Em nossa matéria de capa e destaque da edição, trazemos uma entrevista exclusiva com a deputada federal Iracema Portela, onde fala sobre seus projetos e os desafios na luta pelos direitos femininos. Reúne protagonistas com histórias variadas, como a dona Raimundinha, artesã, que representa as mulheres ceramistas do Poti, além de matérias com a secretária de Educação Rejane Dias e a prefeita de Altos-PI, Patrícia Leal , evidenciando o protagonismo da mulher na política, além de entrevistas com a delegada Anamelka Cadena e a Coronel Júlia Beatriz, destacando a atuação da mulher na polícia. Outra figura feminina que teve sua história destacada nesta edição foi a Lena Rios, também conhecida como (Barradinha), cantora, jornalista, radialista, que conquistou um espaço no cenário musical que poucos artistas conseguiram. Temos ainda artigos bem interessantes sobre a mulher simples e a mulher negra.

PARCERIAS:

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REJANE

DIAS

“Sempre tive como bandeira a inclusão.”

Protagonismo da mulher na política e gestão pública Como secretária da SEID, implantou a Rede Estadual de Reabilitação com 37 clínicas especializadas e o Centro Integrado de Reabilitação (CEIR), que possui uma oficina de Órteses e Próteses, e o Centro de Diagnóstico, que realiza exames complexos para detecção de diversas deficiências.

Sempre ao lado do governador Wellington Dias, Rejane Dias nunca passou despercebida. Aos 45 anos, a deputada federal licenciada e atual secretária de Estado da Educação vem mostrando que as habilidades e características femininas começam a ser reconhecidas pela sociedade, fazendo com que a mulher deixe de lado o papel de mera coadjuvante e assuma, cada vez mais, o protagonismo político. Nascida em São João do Piauí, Rejane Ribeiro Sousa Dias é filha de Ivone e Miguel de Sousa Filho. Formada em Administração e Direito, a atual secretária de Educação tem vasta experiência em gestão pública. Rejane Dias foi secretária para Inclusão da Pessoa com Deficiência (SEID) e secretária de Assistência Social (SASC). As ações em favor das pessoas com deficiência se tornaram referência nacional, dando base para o Plano Viver sem Barreiras, implantado em 2013 pelo Governo Federal. 6

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de Inclusão Social, concedido pela Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB).

Foi eleita deputada estadual na legislatura entre 2011 e 2014 e teve atuação destacada por apresentar mais de 400 requerimentos e 85 projetos, com 50 aprovados. Mais de 25 projetos na área dos direi“Sempre tive como bandeira a tos das pessoas com deficiência e inclusão. Garantir atendimento a criação do Estatuto Estadual da qualificado e, principalmente, hu- Pessoa com Deficiência, sancionamano às pessoas com algum tipo do em 2015. de deficiência sempre me emocioEm 2014, Rejane Dias foi eleinou muito. Ver a evolução de uma criança atendida pelo Centro Inte- ta deputada federal com a maior grado de Reabilitação (CEIR), que votação do Piauí e, mesmo licenfoi uma luta nossa para que existis- ciada para assumir a Seduc, já se, ou poder olhar nos olhos de um destinou emendas que beneficiam pai e de uma mãe e ver a felicidade mais de 30 municípios, apresena cada pequena vitória conquistada tou seis projetos de lei para apreé muito gratificante. Só quem tem ciação da Câmara e destinou cerca um filho com algum tipo de defi- de R$ 59,5 milhões em emendas ciência sabe o quanto isso é impor- parlamentares, entre individuais e de bancada para o Piauí. “Mesmo tante”, disse. licenciada tenho contribuído de À frente da Sasc, implantou pro- forma efetiva para obter recursos jetos que incentivam a reinserção junto ao Governo Federal com o de jovens infratores e o Caminhão propósito de melhorar a vida dos Digital, que proporcionou a cerca piauienses”, avalia. de 150 mil piauienses a oportunidade de fazer cursos de informáÀ frente da Secretaria de Estado tica, corte de cabelo e construção da Educação, Rejane Dias implantou um modelo de gestão mais eficivil. caz e com foco em resultados. “AsSuas ações em Inclusão Social sumir a Secretaria de Educação foi renderam dois prêmios nacionais: um grande desafio. Recebemos a o Prêmio Nacional de Direitos Hu- pasta com mais de R$ 100 milhões manos, do Ministério do Desen- em dívidas, com aproximadamenvolvimento Social, e o Prêmio TOP te R$ 50 milhões de recursos fewww.portalr10.com


derais bloqueados por pendências da gestão anterior. Tínhamos que recuperar cerca de 460 escolas, garantir a oferta adequada de professores e aumentar as matrículas. Então, iniciamos um processo de recuperação estrutural e financeira”, explicou a gestora. Profissionalizando a gestão, Rejane conseguiu ainda destravar mais de R$ 5 milhões em recursos do Ministério da Educação (MEC) e do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação (FNDE). Com recursos próprios e de convênios com a União, foi realizada a recuperação de mais de 200 escolas, incluindo a reforma geral do Liceu Piauiense, uma escola tradicional do nosso Estado que tinha uma obra parada há anos. A gestão em números, educação de resultados

aula e 2017 tivemos mais de 120 mil alunos frequentando as aulas regularmente. Aumentamos também o número de escolas de Tempo Integral. Em 2015, tínhamos 43 escolas atendendo aos alunos neste regime. Em 2017, subimos para 69 escolas e 2018 teremos 79. Este ano, teremos a universalização do ensino superior”, diz Rejane.

“A educação do Piauí é uma das que mais cresce no Brasil, teve um crescimento de 13,35%, segundo dados do Censo escolar 2017”

A educação do Piauí é uma das que mais cresce no Brasil. Enquanto outros estados tiveram queda no número de matriculas, o Piauí teve um crescimento de 13,35%, segundo dados do censo escolar 2017. Na Educação Profissional foram mais de 10 mil novas matrículas.

Através do mobieduca.me, um sistema de monitoramento de frequência escolar, é possível fazer o acompanhamento dos alunos da rede e combater a evasão escolar. Ano passado, o sucesso do programa foi reconhecido nacionalmente quando a Seduc venceu o prêmio e-Gov, iniciativa da Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Tecnologia da Informação.

“Orgulhamo-nos de ter cursos técnicos em todos os municípios piauienses. Aumentamos também o número de matrículas na Educação de Jovens e Adultos (EJA), com mais de 26 mil novos alunos matriculados no ano passado. A taxa de analfabetismo no Piauí caiu de 20.2% (2014) para 17,2% (2016), segundo pesquisa do IBGE. Em 2015, quando assumimos a gestão conseguimos manter 45 mil jovens e adultos nas escolas. Em 2016, quando a pesquisa foi feita, quase 100 mil estavam em sala de

Outro trabalho engrandecedor é o Pré-Enem Seduc, onde cerca de 100 mil estudantes do Piauí e Maranhão se beneficiam com grandes revisões de conteúdos das disciplinas cobradas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A Seduc disponibiliza um preparatório voltado às disciplinas e também com um toque motivacional para esses jovens. Além das atividades presenciais, o Pré-Enem também foi ofertado pelo Canal Educação. Ainda nessa perspectiva, por meio do aplicativo disponibilizado, o

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aluno também pôde enviar sua redação para correção online. Desde 2016, alunos da capital e do interior tiveram acesso gratuito ao sistema de transporte coletivo para irem até seus locais de prova. A campanha Passe Livre disponibilizou, em 2017, mais de 10 mil passes estudantis para os alunos do 3º ano da rede pública estadual, que moram em Teresina. Os alunos do interior também foram beneficiados com o programa. Este acesso gratuito aos meios de transporte garantiu pelo segundo ano consecutivo, que o Piauí fosse o estado com menor número de abstenção nos dois dias de prova. “Nós encaramos o Enem como uma das maiores prioridades da Seduc, e, como resultado desse trabalho, em 2018 mais de 8 mil alunos da rede estadual devem ingressar no Ensino Superior. Isso nos faz crer que o nosso trabalho está no caminho certo”, concluiu a secretária Rejane Dias.

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PATRÍCIA LEAL

Gestão muda realidade da população de Altos Patrícia Mara da Silva Pinheiro nasceu em Teresina-PI, no dia 10 de maio de 1973. Filha de Cézar Augusto Leal Pinheiro e Maria de Fátima Barreto da Silva Pinheiro é formada em Ciências Contábeis pela Faculdade Superior do Vale do Parnaíba (CESVALE). Viveu os momentos mais marcantes da vida política do pai, quando este era ainda vereador (1989-1992). Depois, conviveu com as ações administrativas de Cézar Leal, na época em que ele exerceu o mandato de prefeito de Altos (1993 a abril de 1996), quando foi brutalmente assassinado em pleno exercício do mandato. Depois da morte do pai, Patrícia se recolheu ao seio da família para retomar o convívio normal de vida. Montou microempresa de corte e costuras em Teresina, oferecendo emprego direto para costureiras. 8

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Em 2008, casou-se com Warton Matias Lacerda e Oliveira. Em 2010, estabeleceu-se em Altos. Visitou todas as comunidades e bairros para conhecer a realidade do município. Já em 2012, Patrícia disputou as Eleições para o cargo de prefeita de Altos e foi eleita com 11.650 votos. Em 2016, foi reeleita prefeita de Altos com 17.175 votos.

possíveis e conseguimos resultados significativos. Sabemos que ainda há muitos desafios, a cidade cresce a cada dia, assim como suas necessidades, mas temos certeza de que muito foi feito para mudar a realidade de Altos”, comenta.

Ao longo de quase oito anos de mandato como gestora do município, Patrícia destaca a série de investimentos nas áreas de Educação, Saúde, Infraestrutura, Cultura e Esporte, que fizeram com que a cidade retomasse o caminho do desenvolvimento. “É preciso governar tanto com responsabilidade como com sensibilidade. Encontramos a cidade de Altos totalmente abandonada. Arregaçamos as mangas, buscamos recursos em todas as esferas www.portalr10.com


LENA

Maria do Socorro Barradas, mais conhecida como Lena Rios (Barradinha), nasceu no mesmo dia do aniversário de Teresina, 16 de Agosto, motivo de orgulho pela coincidência. Filha de Raimundo Barradas e da violinista Helena Siqueira Barradas, Lena Rios teve uma infância regada de muitos estímulos artísticos, cantou pela primeira vez aos 5 anos de idade no circo “Marilene” em Jaicós-PI. A cantora, jornalista e radialista já se apresentou em diversas capitais do Brasil se destacando no Rio de Janeiro e São Paulo.

RIOS

“Cantigas Piauiense para Lena Rios.”

ma para a amiga intitulado “Cantiga piauiense para Lena Rios”. A lista de artistas que a cantora teve contato é imensa. Ela já gravou na Philips e Polydor, produzida por Roberto Menescal, Mazzola, Rildo Hora, Jairo Pires e Carlos Lemos, gravando músicas inéditas de Torquato Neto, Wally Salomão, Raul Seixas, Luiz Melodia, Jards Macalé, Sérgio Cabral, Rildo Hora, César Costa Filho, João Nogueira, Nelson Cavaquinho, Nilson Chaves, Carlos Pinto e Carlos Galvão, Totonho e Paulinho Rezende, Paulo Debétio, Jamil Damous, Carlos Olympio, Luis Carlos, Edil Pacheco. Além disso ela regravou Cartola, Ismael Silva, Adoniram Barbosa, Luiz Gonzaga entre outros.

sicais, indo do sertanejo ao rock, afinal a Lena Rios sempre detestou os rótulos. A cantora já gravou os discos: “De tudo um pouco” (1976) e “Lena Rios” (1977) pela Gravadora CBS; “4º Encontro Nacional do Compositor de Samba” (1976), pela Gravadora Polydor LP; “Sem essa aranha” (1972) e “Os grandes sucessos do FIC 72 – VII Festival da Canção” (1972) pela Philips. Lena Rios dedicou-se ao jornalismo, dividindo a carreira entre a música e a rádio. Já trabalhou em todos os Jornais e Rádios de Teresina. Aos 16 anos de idade ela estreia a sua primeira coluna, no Jornal O Dia, que se chamava “Coluna Lena Livre” e abordava uma diversidade de assuntos como política, jovens, entretenimento, polícia, etc.

Barradinha é a voz piauiense que conquistou o Brasil, já cantou ao lado dos grandes nomes da música Brasileira, apresentou em programas de destaque nacional como o programa do Raul Gil, do Chacrinha e do Silvio Santos. Sua importância para a música brasileira é Dos festivais que participou imensurável, Lena Rios conquistou destaca-se o VII Festival Inter- um espaço no cenário musical que nacional da Canção (1972) que poucos artistas conseguiram e hoje aconteceu no Maracanãzinho, fi- suas canções ecoam em vários lucando entre três primeiros classi- gares do Brasil. ficados disputando com centenas de concorrentes cantando a canção “Eu sou eu, Nicuri é o Diabo” em parceria com o grupo “Os Lobos”.

Lena Rios nasceu com o dom do jornalismo e desde cedo trabalhou na área, seu primeiro programa como radialista aconteceu aos 13 anos de idade. Ela casou-se com Juliano Falconery Rios Neto e adotou o sobrenome de casada. A outra parte do seu nome foi sugerida por Torquato Neto pela forma como chamavam a sua mãe, Helena, conhecida como Lena. A amizade com Torquato Neto foi tão intensa que o amigo ajudou a cantora a se apresentar no Rio de Dona de um estilo variado, Lena Janeiro, além de ter escrito sobre Lena, Torquato compôs um poe- Rios explorou vários estilos muwww.portalr10.com

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IRACEMA

PORTELLA

Deputada Iracema, estamos no mês da mulher, quais os principais desafios na luta pelos direitos femininos? Ao longo das últimas décadas, nós, mulheres, tivemos vitórias significativas. Conquistamos mais espaços no mercado de trabalho, ocupando postos de destaques no setor público e no privado. Mas existem enormes desafios para garantir a igualdade de gênero. As mulheres recebem salários menores do que os dos homens, mesmo exercendo funções semelhantes. Ainda há muito preconceito em relação às mulheres. Somos uma sociedade machista. Outra questão é a violência contra a mulher. Essa luta talvez seja a mais desafiadora. Uma a cada cinco brasileiras é vítima de violência doméstica ou familiar, segundo dados do DataSenado. Mais de 70% das agressões são praticadas por homens com quem as mulheres têm ou tiveram alguma relação afetiva e 66% das vítimas sofreram violência física. O Brasil ocupa o 7º lugar no vergonhoso ranking mundial dos países com mais crimes praticados contra as mulheres. Mas há avanços no combate à violência? O que precisa ser feito? É fato que avançamos na legislação, com a Lei Maria da Penha e a do Femini10 ANO III | Nº4 | MARÇO 2018

Foto: Laila

A deputada federal Iracema Portella (Progressistas) está em seu segundo mandato na Câmara dos Deputados. De 2011 até agora, a parlamentar piauiense tem feito um trabalho forte no que diz respeito à defesa da mulher. Dentre as ações de destaque estão as campanhas da Mulher Progressista, braço do partido focado em incentivar a participação da mulher na política. Através de seminários, palestras e encontros realizados em Teresina e no interior do Estado, questões como a violência contra a mulher; a prevenção ao uso de drogas e álcool e o empoderamento feminino são levados a milhares de mulheres. Nesta entrevista exclusiva à Revista R10 Municípios, a deputada Iracema fala sobre direitos femininos, a presença da mulher na política e também sobre seus Projetos de Lei e seu trabalho junto aos municípios. Confira:

“As mulheres precisam ocupar os espaços de poder”

Iracema Portella, deputada federal-PI

Foto: Raulino

cídio. Porém, temos que melhorar a rede de proteção às vítimas de violência, investindo, por exemplo, na qualificação dos profissionais que lidam com essa questão. Nesse sentido, apresentei, no ano passado, projeto de indicação ao Poder Executivo sugerindo a criação, no Ministério da Justiça, de um serviço nacional de atendimento especializado de mulheres vítimas de violência, com a parceria de todos os órgãos de segurança pública do País. Esse atendimento seria feito por pessoas qualificadas e capazes de amparar as mulheres vítimas de agressão. Outro ponto importante é o empoderamento feminino. Temos que investir em políticas públicas para fortalecer a autonomia financeira das mulheres, principalmente daquelas que foram vítimas de violência e precisam recomeçar sua vida, longe dos agressores. Uma questão fundamental é a presença feminina na política. Qual é a sua avaliação sobre essa participação no Brasil? Esse é um ponto central na batalha pelos direitos femininos. No Brasil, a nossa presença nos espaços de poder ainda é muito baixa. Somos 52% do eleitorado e 51% da população. Entretanto, a presença das mulheres nas casas legislativas gira em torno www.portalr10.com


Foto: Laila

Um dos problemas mais graves do Brasil é a questão das drogas. Esse é um tema prioritário do seu mandato. Na sua avaliação, como está esse cenário hoje no País? As drogas, de modo geral, e o crack, em particular, se disseminaram por todo o Brasil, atingindo tanto as grandes cidades quanto os municípios de pequeno e de médio porte. O enfrentamento às drogas é uma questão complexa e que não se faz com medidas simplistas ou mirabolantes. Esse combate deve ser www.portalr10.com

feito com ações e estratégias em várias áreas, adotadas de maneira sincronizada, com a participação dos três entes governamentais: União, Estados e Municípios.

“Quero destacar aqui o trabalho feito pelas comunidades terapêuticas de todo o Brasil, falando, em especial, da Fazenda da Paz...”

que são capacitados para disseminar a mensagem, nas escolas, nas famílias e nas comunidades, de que as drogas são um risco enorme para a qualidade de vida das pessoas, principalmente para as novas gerações. Quero destacar aqui o trabalho feito pelas comunidades terapêuticas de todo o Brasil, falando, em especial, da Fazenda da Paz, que tem uma atuação marcante no nosso Estado. Acompanho o trabalho deles há muito tempo, procurando ajudar a instituição. Destinei recursos, por emenda parlamentar, para a unidade feminina da Fazenda da Paz. As mulheres que são usuárias de drogas precisam de um atendimento diferenciado e é isso que terão ali. Foto: Raulino

de 16% no Senado, 13% nas Câmaras Municipais, 11% nas Assembleias Legislativas e 10% na Câmara dos Deputados. Temos que reverter esse quadro com medidas para estimular a entrada das mulheres na política. A política é um universo muito masculino. O primeiro passo deve ser dado pelos partidos. As legendas têm o dever de incentivar a participação feminina nos seus quadros. E isso se faz com um trabalho constante de identificação de lideranças entre as mulheres e estímulo para que elas participem da vida partidária. Muitas mulheres querem participar, mas acabam desistindo, pois não têm nenhum apoio partidário e a exigência pessoal para elas é enorme. A maioria dos afazeres domésticos ainda recai sobre as mulheres. É necessário também mudar isso, com uma divisão equânime das tarefas familiares, entre homens e mulheres.

Que políticas públicas são necessárias para esse enfrentamento? Precisamos ter um conjunto de políticas públicas na prevenção, no tratamento dos dependentes químicos, na reinserção social e no combate ao tráfico. No Piauí, temos feito um trabalho consistente, por exemplo, na prevenção, com os seminários organizados pela Fundação Milton Campos em parceria com a Mulher Progressista. Esses encontros reúnem profissionais de setores como saúde, educação, assistência social, psicologia, além de conselheiros tutelares e de direitos, ANO III | Nº4 | MARÇO 2018

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Foto: Wagner

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importantes para ajudar a população do semiárido na convivência com a seca e de melhorias na infraestrutura urbana, como calçamento de ruas, trazendo mais bem-estar para a população.

“Uma boa notícia foi a garantia de que teremos uma nova maternidade em Teresina.” Para concluir, deputada, quais os projetos de lei apresentados pela senhora em 2017 que considera como mais importantes? Tenho buscado apresentar projetos nas mais variadas áreas, procurando ouvir os diversos segmentos da sociedade. Entre as proposições que apresentei em 2017, destaco, por exemplo, o PL 7845/2017, que caracteriza como hediondo o crime de abandono de incapaz. Trata-se de um crime grave porque o abandono expõe a perigo a vida e a saúde de pessoas que estão sob cuidado, guarda, vigilância ou autoridade, como idosos, crianças e adolescentes. Outro projeto é PLC 410/2017, que insere uma nova tabela de tributos dentro do

Simples Nacional, para beneficiar empresas que utilizem energia elétrica de fontes renováveis, reduzam a emissão de agentes poluentes na atmosfera e façam a gestão ambientalmente correta dos resíduos sólidos de produção industrial. O PL 7504/2017 estabelece a obrigatoriedade de reserva de vagas destinadas a bicicletas em estacionamentos públicos e privados. Os adeptos do ciclismo ainda enfrentam, entre as inúmeras dificuldades no dia a dia, a falta de locais apropriados e seguros para deixar suas bicicletas. Por isso, apresentei esse projeto, como uma contribuição também à Política Nacional de Mobilidade Urbana. Foto: Wagner

Os municípios têm enfrentado muitas dificuldades. Como deputada federal, o que a senhora tem feito para ajudar as cidades piauienses a superar a crise econômica? Trabalhar em estreita parceria com os municípios é prioridade máxima do meu mandato. Em parceria com órgãos municipais, estaduais e federais, conseguimos recursos para a realização de diversas obras em áreas como saúde, educação, mobilidade urbana, convivência com a seca, saneamento básico e outras. Uma das alianças mais fortes foi com o Ministério da Saúde. O ministro da pasta, Ricardo Barros, anunciou recursos da ordem de 94 milhões para o Piauí. Uma boa notícia foi a garantia de que teremos uma nova maternidade em Teresina. Por meio de emendas parlamentares, destinei verbas para viabilizar a construção dessa unidade, que vai substituir a Maternidade Dona Evangelina Rosa. Teresina terá também um Centro de Atenção à Saúde da Mulher para a realização de exames e tratamentos especializados, com uma equipe multiprofissional, e vai oferecer atendimento nas áreas de ginecologia, mastologia e radiologia, dentre outras. Conseguimos também ambulâncias para diversas cidades, novas Unidades Básicas de Saúde, equipamentos para o tratamento de câncer, além de obras

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Foto: Lucas Dias

LILIAN

MARTINS

“A auto percepção das mulheres é base para seu empoderamento.”

Em 2006 foi eleita deputada estadual (PSB) do Piauí para o quatriênio 2007- 2010 com a maior votação para deputado(a) estadual da história do Parlamento Piauiense. Foi reeleita deputada estadual nas eleições gerais de 2010 para o quatriênio 2011-2014, tendo obtido novamente a maior votação da história daquela Casa Legislativa.

ta conservador e preconceituoso. A auto percepção das mulheres é base para seu empoderamento, necessário para a equidade de gênero tendo estreita relação com a sua participação e a cidadania.

Foto: Lucas Dias

A Conselheira trabalha muito para ver cada vez mais mulheres abrindo caminho no tempo, para mostrar que outra realidade é posLilian Martins tem uma vida sível. pessoal e profissional extremamente ativa e saudável, onde além do trabalho, não abre mão da sua atividade física diária, assim como da reserva de tempo para leitura que é uma de suas paixões. Mulher, mãe, avó, advogada e en- Pratica o Yoga, cumpre comprofermeira, ex secretária de Estado da missos sociais e faz filantropia. Saúde e ex-primeira-dama do Estado do Piauí. A multiplicidade de Lílian Martins em parte, se completa pela sua atuação hoje como Conselheira Tribunal de Contas do Estado do Piauí – TCE/PI, onde exerce a função de corregedora geral. É mestra em Direito Tributário pela Universidade Católica de Brasília e membro do Instituto Rui Barbosa- IRB órgão nacional dos TCE’s, Presidindo ainda o Comitê de Meio Ambiente, do referido Instituto.

“oito de março é dia de luta e de conscientização da importância da mulher em todos os contextos da vida”

Formada em Direito pela Universidade Estadual do Piauí especialista em Direito Processual Civil. É também graduada em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí – UFPI, especialista em Administração Hospitalar e Sanitária pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ. www.portalr10.com

O oito de março para ela, é dia de luta e de conscientização da importância da mulher em todos os contextos da vida, economia, trabalho, representação política, educação na sociedade, enfim e principalmente, na família. As questões complexas sobre as mulheres, ainda tendem a serem postas de um ponto de visANO III | Nº4 | MARÇO 2018

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JÚLIA

Com 49 anos de idade, coronel Júlia Beatriz iniciou a carreira policial aos 16, e hoje, com 33 anos de carreira, no comando do gerenciamento de crises da Polícia Militar do Piauí, ela relata que a missão é árdua, mas é onde se sente realizada. “Tudo começou no primeiro concurso que foi aberto para policial feminina no estado do Piauí em 1985. Minha mãe trabalhava na polícia, era civil e, a polícia, tinha um quadro para pessoal que fazia serviço administrativo. Cresci dentro da polícia. Tinha vontade de ir para aeronáutica, mas só tinha carreira administrativa, não era o que eu queria, eu gostava de estar na rua, então quando apareceu essa oportunidade, eu fiz. Eu costumo dizer que foi onde eu me achei, onde me realizei na Polícia Militar”, contou. Questionada se existe alguma ocorrência marcante em sua vida, a coronel respondeu que cada ocorrência tem sua particularidade e importância. 14 ANO III | Nº4 | MARÇO 2018

BEATRIZ “Lugar de mulher é onde ela quiser.”

“Com toda sinceridade do mundo, a única coisa que aprendi com a política é que eu adoro ser polícia.” “Cada uma tem sua peculiaridade, sua característica diferente, eu costumo sempre dizer na área de crise as ocorrências que mais marcam a gente e que realmente eu digo que não é um tabu e poderia ser tratado de forma educacional, são as tentativas de suicídio. Esse assunto raramente você vê ser abordado, mas para a gente que trabalha nessa área, são as que mais marcam, porque são muitas ocorrências. Teresina é a terceira capital em índice proporcional de suicídio e ninguém trata desse as-

sunto, você não vê política pública voltada para esse assunto”. Entre as ocorrências mais atendidas, Júlia Beatriz destacou a de reintegração de posse. “Geralmente a parte de cumprimento de mandato de ordem judicial de reintegração de posse é a mais atendida, essa é diária, todos os dias”. Em 2016, a coronel se candidatou a vice-prefeita de Teresina, na chapa do deputado Dr. Pessoa, pelo PR, mas parece que não tomou gosto pela vida política. “Com toda sinceridade do mundo, a única coisa que aprendi com a política é que eu adoro ser polícia. A política não conseguiu me encantar, tem gente que já nasce para aquilo, político todo ser humano é. Pode até ser [que tenha interesse em política] em um futuro muito distante, se a coisa mudar, mas nesse momento, e no cenário que está hoje, eu gosto mesmo e de ser polícia”, ressaltou.

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ANAMELKA CADENA “As mulheres estão mais confiantes”

Cada vez mais as mulheres assumem cargos de comando na polícia. Na categoria investigação, a delegada Anamelka Albuquerque Cadena integra a lista dos melhores delegados do Brasil 2017, do Portal Nacional dos Delegados & Revista da Defesa Social. Ela comanda a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher localizada na zona sul de Teresina e é uma das delegadas com maior destaque. Desenvolve há quase oito anos atividades institucionais no combate ao feminicídio e em defesa da mulher vítima de violência doméstica no estado do Piauí. “Quando eu entrei para a polícia fui lotada logo nos primeiros meses na delegacia especializada da mulher em Piripiri. E a partir de então, eu vinha desenvolvendo um trabalho voltado a todo esse enfrentamento à violência contra a mulher. Isso me deu uma bagagem de experiência muito boa. Vou fazer oito anos de polícia e todos esses anos foram voltados a essa área”, contou. Mesmo com anos de experiência na área, a delegada destaca que não é fácil escutar os relatos das vítimas e não ser subjetiva na avaliação de alguns casos. “É impossível dizer que você é completamente objetivo na avaliação dos casos. São particularidades humanas que tendem a se manifestar de alguma forma. O que não pode nunca é fugir da tecnicidade. Mas, graças a Deus ainda www.portalr10.com

estou humana a ponto de me surpreender e me chocar com muitos relatos que escuto”.

to grande para que o trabalho seja bem desenvolvido. Essa dedicação muitas vezes atrapalhou um pouquinho a convivência em casa. Mas Além disso, Anamelka avaliou todo tempo que tenho, é realmente que a Lei Maria da Penha vem dedicado a família, é dessa forma trazendo mudanças culturais im- que tento fazer a conciliação”. portantes. “As mulheres estão mais confiantes. Todo o aparato espeAnamelka deixou um recado cializado, desde o atendimento; a para as mulheres e lembrou da imestrutura da delegacia de ser di- portância de todas conhecerem e ferente; de se pensar em um local lutarem por seus direitos: “sempre para essa mulher ficar enquanto saber da importância de conhecer aguarda ser assistida; a possibilida- os seus direitos e executá-los. Fazer de da prisão preventiva nos casos valer esses direitos. A necessidaque eram considerados de crime de de de uma legislação especial não menor potencial; todas essas parti- é para reforçar uma desigualdade cularidades deram mais confiança entre homens e mulheres. Que se à mulher em buscar essa denúncia busque apoio. É preciso reagir à e muitas vezes em fazer com que o violência. Sem reação, a violência agressor repense a reintegração da só tende a crescer, e a reação que conduta”. falo, é de forma republicana, buscando a rede de enfrentamento, buscando apoio”.

“sempre saber da importância de conhecer os seus direitos e executá-los. Fazer valer esses direitos...”

Ocupando cargo de liderança, a delegada afirma que conciliar trabalho e família é uma tarefa difícil, mas não impossível. “É a tarefa mais difícil, conciliação. Tenho um filho pequeno e quando eu assumi como delegada ele tinha um ano de idade. Como eu tenho essa responsabilidade, a dedicação é muiANO III | Nº4 | MARÇO 2018

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MARA

RUTH

“Quem é a Mulher Simples?”

Quem é essa mulher Simples? A Simples perguntou nas redes sociais: O que representa a mulher para você? Mara Ruth, 41 anos, empresária, de de estudar, trabalhar e de crescontadora, esposa, mãe da Isadora cer profissionalmente. Maria e do Jean Lucas. “Mulher simboliza a maior evo“A mulher é um ser igual ao ho- lução genética e revolucionária do mem só que muito melhor”, Climé- planeta”, Negro Val (Coreografia). rio Ferreira (Compositor/Escritor) A vida que gera e alimenta a outra afirma. Dentro da sua singularida- vida. A mulher simples está rodede e simplicidade que não signifi- ada de outras mulheres fazendo ca simplismo, a mulher Simples é uma revolução silenciosa cujas arigual ao homem resguardando as mas são o olhar, a fala com segudiferenças. Elas são contabilistas rança e a atitude de quem quer e como a Regina Oliveira e empre- sabe o que faz. sárias como Mara Ruth Monteiro. Elas representam todas as mulheres Simples que estudaram muito para chegar nesse patamar de competência. São mães, companheiras, independentes e formadoras de opinião.

“A mulher é um ser igual ao homem só que muito melhor”

O empoderamento feminino é, muitas vezes polêmico quando interpretado como uma tomada de poder das mulheres para manutenção da opressão. O empoderamento feminino está voltado para a busca de uma sociedade igualitária em que todos tenham oportunida16 ANO III | Nº4 | MARÇO 2018

va afirma que somos “um exemplo forte de determinação e coragem”, Mulher é resistência” completa Jeniele Silva (Artista), que tem reforço com Edilene Pinho (Funcionária Pública)” mulher é sinônimo de fortaleza”. Com a fluidez da água, a fortaleza e resistência de uma rocha só podemos ser “um verdadeiro espetáculo”, segundo GabiGabriela! Estas são as mulheres Simples, que nos alegram, lutam e nos fazem crescer.

Para Andreia Denise (Pedagoga), “a mulher é um exemplo forte de determinação e coragem”. A mulher busca seu caminho e, quando o encontra não tem quem a tire do foco. Já Das Luz remete a mulher a fluidez da água “pois se molda, se adequa a toda situação!” Janiele Silwww.portalr10.com


RAIMUNDA TEIXEIRA

“Porquê não a mulher ‘meter a mão na massa’?”

Raimunda Teixeira da Silva, 54 anos, mais conhecida como dona Raimundinha, tem uma história de superação. Ela começou a trabalhar carregando tijolos e, hoje, tornou-se uma artesã portagonista de uma história de conquistas. Raimundinha é integrante de uma cooperativa formada por mulheres que produzem peças em cerâmica reconhecidas e admiradas em diversos países do mundo. Foram 22 anos de sua vida dedicados a carregar tijolos até que em 1995 decidiu trabalhar com artesanato. “Eu era mãe solteira e tinha um filho, não tinha emprego e trabalhava nas olarias carregando tijolo, passei boa parte da minha vida fazendo isso. Até que um dia percebi que lá não tinha nenhuma expectativa de vida. Nesse tempo, minha comadre me deu umas aulas de pintura e aí comecei a comprar peças e pintar. O marido dela começou a ensinar meu filho a criar peças, ele vendia, repassava o dinheiro para ele e isso foi me despertando”, contou. Em algumas famílias que trabalham no Polo Cerâmico do Poti Velho, a tradição masculina se mantém viva, entre avós, pais, netos e outros aprendizes. Mas com dona Raimundinha, essa reprodução fiel aos padrões ocorreu diferente. “A Atividade era masculina, as mulheres dos artesãos só ficavam com os afazeres domésticos. A tradição sempre foi passar de pai para filho e comigo foi o contrário, foi de filho para mãe. Meu filho aprendeu com meu compadre, começou a www.portalr10.com

me ensinar e comecei a produzir em casa”. Ela conta que em 1998 foi criada a Associação dos Ceramistas do Poti Velho (ACEPOTI) e, a partir daí, as mulheres do Polo começaram a ganhar destaque no artesanato. “Em 2004, como já tinham várias mulheres na parte de pintura ficamos incomodadas e pensamos: porquê não a mulher ‘meter a mão na massa’? E conseguimos uma parceria com a Fundação Wall Ferraz, que nos ofereceu um curso de modelagem e cerâmica. Nosso olhar já mudou, de esposas e filhas de artesãos, donas de casa, para fabricantes de peças”, explicou.

Artesã Brasileira que aconteceu na ONU. “Foi a primeira vez que nós mulheres participamos de uma competição com nossos próprios colegas [homens]. Fizemos a exposição da coleção ‘Mulheres do Poty’, e nós ganhamos. Trabalhamos a coleção de cinco bonecas, onde retratamos a nossa própria história, as mulheres da comunidade do Poti: a mulher religiosa, a do pescador, a da olaria, a ceramista e a das continhas”, relatou. A cooperativa reúne mulheres que produzem e comercializam esculturas, objetos de decoração, bijuterias e jarros, mas, o trabalho, de acordo com dona Raimundinha, vai muito além da melhoria das condições de vida. “Eu sempre costumo dizer: não dá para ficar rico com o artesanato, mas dá para sobreviver. Hoje, somos 284 mães Cooperativa de Artesanato do e pais de famílias que sobrevivem e Poti Velho tiram seu sustento apenas do arteA artesã conta ainda que em sanato”, afirmou. 2006 surgiu a Cooperart – Poti, que Dona Raimundinha tem orgulho recebeu em 2009 o Prêmio Sebrae do que faz e para todas as mulheTop 100 de Artesanato e em 2010 res, ela deixa um recado: “acreditar ficou em terceiro lugar no Casa em si mesmo, que somos capazes”. Piauí Design. “A criação da cooperativa veio fortalecer o trabalho da mulher do Polo Cerâmica do Poti Velho. Hoje, em todas as oficinas que você anda, tem mulheres trabalhando. Muitas, gerenciadas por elas próprias”. Coleção ‘Mulheres do Poty’ O artesanato piauiense foi destaque em Nova York, nos Estados Unidos. As mulheres do Poty participaram da exposição Mulher

“acreditar em si mesmo, que somos capazes”.

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ARTIGO

Amanda Sávia

Em Teresina, o sol incandescente acaba fazendo com que todo ser humano mude a cor de seu nascimento para uma que mostre a nossa exposição ao sol e consequentemente, aumento de melanina. Todo mundo acaba ficando mais escuro. Mas isso não quer dizer que o preconceito seja reduzido. Na verdade, ironicamente, sinto que isso faz com que ele aumente. Vivi e vivo uma vida cercada de muitos privilégios. Estudei em colégio particular, tive acesso a meios eletrônicos, livros e todo o aparato que poderia ter para que eu crescesse cercada da melhor educação possível. Fiz intercâmbio, curso de inglês, música: era uma criança daquelas que os pais investem tudo para que tenha “um futuro pela frente”. Ao longo da minha vida, fui percebendo que eu era uma das poucas iguais a mim nos espaços que eu ocupava, mas isso não me incomodava de forma nenhuma, afinal eu não tinha consciência nem noção do que era representatividade, inclusão ou qualquer uma dessas coisas. Mas era sempre das poucas meninas da minha cor dentro desses espaços. Algumas situações que passei acabaram me marcando e me fazendo entender que eu não era tão camuflada como acreditava que era nesses espaços: quando me barravam na entrada no shopping ( mas quando viam a pastinha do curso de inglês da moda, deixavam passar), ou questionavam a minha paternidade ( papai tem olhos verdes e é daqueles brancos que só não são mais brancos por conta do sol da nossa capital). E elas começaram a me fazer pensar sobre mim mesma durante muito tempo. Com a graça do acesso ilimitado a internet, comecei a entender quem eu era. E me questionar: “Sou negra? Sou miscigenada? Sou mulata?

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QUANDO EU ENTENDI QUE ERA MULHER E NEGRA.

Ou sou morena clara?” Comecei a entender os conceitos de feminismo, feminismo negro de raça e ocupação de espaços daqueles que não eram apenas os colonizadores e sim os colonizados. Entendi que passei por um processo de embranquecimento, e que esse processo não envolvia apenas a minha falta de aceitação da cor, mas a minha falta de entendimento do quem eu era, de meus antepassados, da minha história. E comecei a entender que poderia ser vetor de conhecimento e reconhecimento para muitas outras pessoas. Hoje, vivo na mescla do início de um movimento empreendedor que quer solucionar problemas sociais e resgatar a auto estima da mulher e ao mesmo tempo, aumentando cada vez a voz da mulher negra nas redes sociais. Procuro fazer com que as pessoas entendam que raça e gênero são importantes na luta por igualdade e paridade, e principalmente que não queremos mais: queremos o espaço que nos é ofertado de maneira mínima ou na forma de “responsabilidade social”. Assim como o sol incandescente de Teresina, que atinge todos os nossos habitantes sem exceção, eu acredito que a força do movimento que busca igualdade e construção de pontes entre as pessoas é a chave para que consigamos penetrar entre os espaços que nos faltam. O primeiro passo para que isso aconteça é reconhecer que ainda existe um caminho longo para que essa jornada seja trilhada e dar as mãos em conjunto – ao invés de separar cada vez mais a nossa população e entender que assim, quem sabe, o preconceito velado consiga ser uma história apenas para os livros escolares.

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Revista R10 Mulher  

4º exemplar. Tem como matéria de capa a deputada federal Iracema Portella.

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