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Eletrobras CGTEE Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica Rua Sete de Setembro, 539 CEP 90010-190 – Porto Alegre – RS Fone: (51) 3287.1500 Fax: (51) 3287.1566 www.cgtee.gov.br

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO Valter Luiz Cardeal de Souza (Presidente) Sereno Chaise Sidney do Lago Júnior Mauro Henrique Moreira Sousa Ricardo Spanier Homrich Cristian William de Sousa Cunha CONSELHO FISCAL Celina Maria de Macedo Brinckmann Bruno Fabrício Ferreira da Rocha Rosângela da Silva Suplentes: Antônio João Queiroz Lima Mariana de Lourdes Moreira Lopes João Alderi do Prado DIRETORIA EXECUTIVA Diretor Presidente: Sereno Chaise Diretor Financeiro e de Relações com o Mercado: Clovis Ilgenfritz da Silva Diretor Técnico e Meio Ambiente: Luiz Henrique de Freitas Schnor Diretor Administrativo: Sandro Figueiredo de Oliveira

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Porto Alegre, 2011

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Este livro inspira-se em obra editada pelo Centro de Memória da Eletricidade no Brasil em 2001, quando abordou os 40 anos da usina de Candiota. Da atual edição constam, além de parcela expressiva das pesquisas do Centro, informações obtidas em textos e reportagens elaborados pela Assessoria de Comunicação da Eletrobras-CGTEE. As entrevistas foram realizadas por Ayrton Centeno, também responsável pela redação, distribuição em capítulos e organização definitiva do material.

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Ao Centro de Memória da Eletricidade no Brasil, à

Coordenadoria de Comunicação Social da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), particularmente aos fotógrafos Luiz Alberto Santos Rodrigues e Fernando Cesar Ferreira Vieira, e aos ex-funcionários das usinas de Candiota

Agradecimentos

que, através de depoimentos, informações ou cessão de arquivos fotográficos pessoais deram seu quinhão de esforço para que este livro se tornasse realidade.

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Este livro é dedicado a todos pioneiros de

Candiota I, aos funcionários atuais ou aposentados de Candiota II e aqueles que, hoje, em Candiota III, prosseguem esta história que atravessa as gerações, para transformar o carvão gaúcho em energia para o Brasil.

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Apresentação Quando o presidente João Goulart desembarcou na Campanha gaúcha naquele 22 de dezembro de 1961 para inaugurar a termelétrica Candiota I trazia algumas convicções muito claras. No seu discurso chamaria a atenção para o fato de que nenhum país se industrializa e se ergue do atraso sem o suporte da energia. Diria ainda que o Rio Grande do Sul havia sentido a necessidade de “defender sua economia e o bem-estar de seu povo”, o que deveria ocorrer “dentro de uma política de emancipação nacional”. Naquele começo de verão – o último que ele veria em seu país – as palavras do presidente não aludiam apenas à nova usina. Na véspera, ele estivera em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. Ali lançara a pedra fundamental da Refinaria Alberto Pasqualini. Então, ao falar em energia como motor da industrialização, do progresso e do conforto, ele não se reportava a uma obra pontual. E quando explicitava a defesa da economia e a emancipação nacional tornava-se evidente a percepção de que todas estas coisas caminham juntas. Tratava-se de uma concepção de governo. Se a industrialização não se poderia alcançar sem energia, igualmente o bem estar da população estava intimamente ligado à uma política de

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emancipação e à defesa da economia nacional. Sabia que, estratégico como era e continua sendo, o setor energético deveria estar sob o controle de seu próprio povo. Agora, 50 anos depois de Jango e daquele antigo verão no Sul do Rio Grande, é reconfortante perceber que a geração de energia – após longos, porém distantes anos -voltou a ser olhada pelos mesmos olhos. Que pressentem que o setor necessita da presença protagonista do Estado e do controle da sociedade. Porque é crucial para produzir o avanço econômico, que emancipa e promove o bem estar geral. Nas próximas páginas, vamos acompanhar a saga de Candiota I, que completa 50 anos e que será relatada, em boa parte, pelos seus trabalhadores. Que enfrentaram tempos difíceis. Mas que se valeram da solidariedade para sobrepujar todos os obstáculos e fazer história. Vamos seguir também, em um enlace entre passado e presente, a luta vitoriosa para realizar Candiota III, que coloca o uso do carvão mineral para produzir energia em patamar tecnológico superior, ajustado com os mais atualizados recursos de proteção do ambiente natural. Vamos observar suas diferentes etapas, desde que o projeto foi sonhado, transitando pela frustração dos seus adiamentos, até sua transformação em realidade neste ano de 2011. Uma conquista que resultou de diversos fatores, entre os quais a adoção de um novo modelo para o setor elétrico no Brasil, com a proposta vencedora dos leilões de energia e da parceria com a China. Mas principalmente decorrência de um projeto de nação, no qual, o Estado não abre mão de seu papel de personagem importante para dinamizar a economia, defender o interesse nacional e o bem-estar dos brasileiros.

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Índice Capítulo I “Orgulho é o meu sentimento”, diz o pioneiro

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Capítulo II Trinta e dois bilhões de toneladas de carvão

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Capítulo III No começo, pá, picareta e carro de bois

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Capítulo IV Uma usina para eletrificar a estrada de ferro

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Capítulo V “Juntava palmo e meio de cinza no meu telhado”

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Capítulo VI “O inverno era tão brabo que a gente dormia vestido”

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Capítulo VII “Deu aquele clarão e o telhado se levantou”

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Capítulo VIII Farrapos e imperiais nos campos de Candiota

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Capítulo IX Sem energia não há desenvolvimento, adverte Jango

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Capítulo X Pagamento com revólver e “beliscadas” em Bagé

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Capítulo XI Tempo de ditadura: “Tinha que fugir senão iam me pegar”

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Capítulo XII Distrito cresceu à sombra da usina e virou município

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Capítulo XIII O ônibus partia mas nunca se sabia quando ia chegar

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Capítulo XIV Gaúchos foram os primeiros a ter um plano de eletrificação

87

Capítulo XV Construção esbarra na crise e usina é adiada para o século XXI

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Capítulo XVI Anos 1990: o Estado recua e as privatizações avançam

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Capítulo XVII Na virada do século, Candiota II entrou em nova fase

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Capítulo XVIII Projetada, Candiota III continuava apenas no papel

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Capítulo XIX Brasil e China se unem e usina não é só mais um sonho

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Capítulo XX O maior canteiro de obras do Sul do Brasil

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Capítulo XXI Leilões de energia podem ser a alavanca para Candiota IV

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Epílogo

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“Orgulho é o meu sentimento”, diz o pioneiro “Foi uma maravilha”. Não há dúvida na voz do paulista de Bragança, Joaquim Luiz Gregório, 81 anos: o isolamento no meio do Pampa, o deslocamento escasso e penoso, a ausência de atrativos, o inverno impiedoso, a cinza que caía copiosamente sobre o casario e a vida das pessoas atrapalhavam muito mas todas as dificuldades ficavam pequenas diante da convivência e

Capitulo I

da riqueza das amizades. “Estou há 50 anos em Candiota e só me dei bem”, depõe Gregório, que rodou muito Brasil, foi tipógrafo e operador de terraplenagem, antes de desembarcar no coração da Campanha gaúcha. Não é uma opinião isolada. Basta indagar a qualquer um dos pioneiros da termelétrica Candiota I. Erguida por um consórcio que incluía as francesas Alsthom, Stein e Roubaix, em meio ao denso verde pontilhado de rebanhos, que pertenciam às imensas estâncias a região da fronteira com o Uruguai, no extremo sudoeste do Rio Grande do Sul, a usina foi inaugurada em 1961, quando o hoje município era um distrito de Bagé, a 400 quilômetros de Porto Alegre. Quando os veteranos de Candiota I ouvem a pergunta a resposta vem pronta:

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“Aquilo era a minha vida”, testemunha o antigo colega de Gregório e também veterano, Alverino Alves, 70, que começou como servente e depois virou operador de caldeira. “Era bom. Tenho saudades dos companheiros”, reitera Telmo Monte, 78. “Pela CEEE (na época, a usina era administrada pela companhia estadual) eu dava a vida. Eu não tinha nada e fiz meu capital”, justifica. Anélio Rodrigues, 84 anos, quatro filhos e cinco netos, não se esquece do dia – 22 de dezembro – da inauguração oficial. “Eu estava presente quando presidente João Goulart chegou”. Antes, peão de estância, era analfabeto ao ser chamado ao serviço militar. No quartel, alfabetizou-se. Em Candiota, trabalhou na terraplenagem, na montagem e depois na própria usina. “ Senti que a minha vida tinha se valorizado”, testemunha. “Maravilha” é também o adjetivo usado por Godofredo Cápua, 74, quatro filhos e quatro netos, para descrever seu meio século de Candiota. “Criei os filhos em um lugar tranqüilo, onde todos formam uma só família”, acrescenta. E realça: “Tenho orgulho disso”. “Orgulho”, aliás, é outra palavra que reverbera nas confissões dos desbravadores. “Orgulho é o meu sentimento. O emprego que todo mundo quer”, concorda Toríbio Castro Filho, aos 69 anos, ele que chegou com 21, recém formado em mecânica na então Escola Técnica Federal (ETP), de Pelotas. “Já saí empregado da escola. Fui pra 4ª. Residência da CEEE em Pelotas. Quando eu disse que vinha pra cá, o próprio diretor me disse que eu tava louco, que era muito ruim, que não havia nada”, recorda.

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Mas ele dispensou o conselho e foi em frente. Trabalhou, constituiu família e construiu sua vida em Candiota . E sua linhagem prossegue intimamente vinculada à tarefa de produzir energia através do carvão. Hoje, de seus quatro filhos, dois trabalham na CGTEE e outro atuou nas empreiteiras de ergueram Candiota III. Uma ligação intensa que ajuda a explicar o sentimento de Alves em 1961. “Foi a maior emoção pra mim quando, de uns 130 companheiros, escolheram os 30 que iriam trabalhar em Candiota I. E eu estava entre eles”. Por coincidência, a trajetória de uma família de pioneiros e de sua vinculação com Candiota é tão intensa que antecede até mesmo o começo das obras. “Essa terra onde está Candiota I era da minha avó, Maria da Glória Fagundes Monte”, narra Telmo Monte. As terras foram desapropriadas para abrigar a usina e dona Maria da Glória recebeu ainda a promessa de que sua casa “fosse a primeira a receber energia elétrica de Candiota I”. Pronta a usina, Telmo e seus irmãos João, Flávio e Clóvis tornaram-se seus funcionários. “Eu era operador de máquinas, João, operador e encarregado de turno, Flávio, técnico-mecânico e Clóvis, fiscal.” A história do carvão de Candiota que, mais tarde, resultará nas três termelétricas do Sul do Rio Grande, começa bem antes da chegada dos Monte e dos demais pioneiros.

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Trinta e dois bilhões de toneladas de carvão Durante séculos, o carvão foi esquecido no Brasil, apesar de suas

Capitulo II

imensas

potencialidades.

Escavações

arqueológicas

demonstraram que, nos séculos II e III, sob o Império Romano, o combustível já era empregado. No século XIV, as populações indígenas da América do Norte usavam carvão para cozinhar e para secar objetos de argila. Somente no início do século XVIII, com o uso cada vez maior do minério, iria-se constatar a possibilidade de transformá-lo num combustível que queimasse gerando menos sujeira e mais calor do que o carvão vegetal. Impulsionado pela Revolução Industrial em curso na Inglaterra do século XVII e o advento de equipamentos que exigiam novas fontes de energia, o carvão ganhou o status de combustível praticamente único. Tornou-se essencial para movimentar ferrovias, embarcações, teares e forjas. Em 1803, seu derivado, o gás de carvão, foi produzido pela primeira vez na França e passou a iluminar hotéis de Paris.

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Ao longo do século XIX, esta rocha escura, de toque áspero, conquistaria espaços cada vez maiores nas indústrias ao lado do seu crescente aproveitamento doméstico. O historiador Eric Hobsbawn notou que, em 1800, a Grã-Bretanha extraiu do seu solo dez milhõ es de toneladas do mineral - ou 90% da produção mundial. Filha das minas de carvão do Norte inglês, a ferrovia movida à base de energia produzida pelo carvão – uma inovação da Revolução Industrial – revelou, como nenhuma outra, o poder e a velocidade da nova era. Em solo brasileiro, estão 32 bilhões de toneladas de carvão mineral. As maiores jazidas situam-se no Sul, especificamente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Dos 32 milhões, o Rio Grande do Sul possui 89,25%, Santa Catarina 10,41%, Paraná 0,32% e São Paulo 0,02%. E, em solo gaúcho, Candiota é a grande protagonista.

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China extrai a metade do minério do planeta No século 21, a China lidera a

o carvão da Terra. O Brasil é o

produção mundial. Em 2010,

décimo produtor mundial.

por 130 anos. Hoje, mesmo distante dos

Maiores produtores, os

tempos da Revolução Industrial,

representa

chineses são também os maiores

o minério continua altamente

cerca de 48% da produção

consumidores – 25% -- do

utilizado. A International Energy

do mundo. Em segundo lugar,

carvão no mundo. São seguidos

Agency (IEA) atribui ao carvão

bastante abaixo, aparecem os

pelos norte-americanos, hindus,

41% da energia elétrica gerada

Estados Unidos, que produziram

russos e alemães que queimam,

no mundo. É uma situação

984 milhões de tons. (14,8%),

ao todo, 65% do total produzido.

que, para a IEA, permanecerá

seguidos pela União Européia

Na comparação com o petróleo

basicamente

com 535,7 milhões de tons.

– outro combustível fóssil -- o

próximas

(4,2%)

que

carvão mineral aparece com

Brasil, ao contrário, o carvão

registrou a extração de 423,9

maior disponibilidade. Calcula-

tem peso pequeno nessa tarefa.

milhões

se que suas reservas mundiais

Representa pouco mais de 1,5%

reservas mais extensas, porém,

totalizem

de

do total produzido, de acordo

estão na Rússia, que detém

toneladas,

suficiente

com a Agência Nacional de

mais da metade (56,5%) de todo

para atender a produção atual

extraiu mais de 3,2 bilhões de toneladas,

o

e de

a

que

Austrália, tons.(3,3%).

As

847,5

bilhões

estoque

três

inalterada décadas.

nos No

Energia Elétrica (Aneel).

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No começo, pá, picareta e carro de bois Trinta e oito por cento de todo o carvão nacional. Este é o percentual que está no solo de Candiota. São 17 camadas. Na região existem 12,3 bilhões de toneladas, das quais, 3,9 bilhões são mineráveis a céu aberto, segundo estimativa da Companhia Riograndense de Mineração (CRM). Um combustível barato e de fácil acesso com estoque suficiente para mais de um século de consumo.

Capitulo III

Esta riqueza foi, pelo que se sabe, descoberta por acaso. Aconteceu em 1828, quando um certo tenente Emílio Luis Mallet passou por ali. É o registro que fez o historiador Tarcísio Taborda em artigo publicado no jornal Correio do Sul, de Bagé (1). Mas o achado de Mallet não recebeu o reconhecimento merecido. Eram tempos de criação de gado – uma atividade quase exclusiva – e a novidade não despertou maior interesse. Fora do trabalho, os tropeiros se divertiam em bailes familiares, onde a mesa misturava bolos com lingüiça e café, ou na chamada polca de roda. Outra pesquisadora, Naiara Dal Molin, autora de Candiota, Origem e História (2), conta que todos se envolviam na brincadeira, cantando e dançando. Quando a música parava, alguém dedicava um verso a uma das pessoas presentes.

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“Eu fui na fonte tomar água/Debaixo da verde rama/Veio uma voz e me disse:/Muito padece quem ama.” Sem se fazer de rogado, o escolhido tratava logo de responder: “Muito padece quem ama/Pra quem sabe querer bem/Passa dia, passa noite/Outro pensamento não vem.” No universo ingênuo das grandes estâncias, a descoberta do carvão continuou passando em branco, pelo menos por algum tempo. E os estudos científicos do mineral só teriam início com a chegada de Guilherme Bouliech, um francês naturalizado brasileiro que, em 1858, iniciou a extração do mineral. Jorge Reis, autor de Apontamentos Históricos e Estatísticos de Bagé, publicado em 1911, registra, em sua obra, a concessão a Luiz Bouliech, por decreto de fevereiro de 1863, de uma permissão para lavrar as minas de carvão-de-pedra estudadas por seu pai Guilherme. Ele vai explorar as margens do arroio Candiota e outros afluentes do rio Jaguarão, por um período de trinta anos. De acordo com Reis, as jazidas do local eram ricas – algumas se encontravam à superfície e outras, a quase 20 metros de profundidade (3). Taborda comenta ainda um relatório do inglês Nathaniel Plant, de abril de 1862. Plant tratava das minas existentes entre os arroios do Tigre e Candiota e das experiências realizadas com o carvão do local, tanto na navegação como na fábrica de gás então existente no Rio de Janeiro. Elaborado a pedido do presidente da então Província do Rio Grande de São Pedro do Sul, Francisco Assis Pereira da Rocha, o relatório, porém, não encerraria a questão. Logo depois, Plant solicitou a seu irmão, curador no museu de Bell Park, na Inglaterra, que levasse as amostras do carvão encontrado no Brasil a algumas instituições de Manchester. Queria saber se o carvão candiotense era realmente bom. Com tudo isso, a descoberta correu o país, atraindo empreendedores interessados em construir e explorar uma estrada de ferro que ligasse o município de Rio Grande à região carbonífera de Candiota. Plant continuou fazendo progressos: em agosto de 1867, a empresa Cunha, Plant e Cia. ganhou, por decreto do Império do Brasil, o direito

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de construir a linha férrea, entre os rios Jaguarão e Camaquã, para facilitar o emprego do carvão no abastecimento de navios a vapor e locomotivas. No ano seguinte, Plant recebeu novas e boas notícias. Os geólogos ingleses, Robert Hunt e W. Carruthers, enviaram-lhe mensagem em que afirmavam que “as plantas fósseis do carvão de Candiota são evidentemente paleozóicas e representam estocagem semelhante às existentes na Europa e na América do Norte”. A partir daí – e até a primeira metade do século passado – a exploração ficou a cargo das carvoeiras, que se multiplicaram, com o fim de abastecer as charqueadas da região – locais onde os bois eram abatidos e sua carne cortada e salgada, para transformar-se em charque (carne seca). No processo de lavra, as ferramentas básicas eram a picareta e a pá, que extraíam e empilhavam o minério, depois transportado em carrinhos de mão ou carros de bois, dependendo da distância. Ainda no fim do século XIX, os carros de tração animal transportaram o carvão da jazida de Hulha Negra para ser queimado, numa única caldeira, na pequena termelétrica Emílio Guilayn & Cia. Ltda., que passou a iluminar Bagé em data imprecisa, provavelmente a partir de 1889. Quase três décadas mais tarde em 1917, foi criada a primeira empresa dedicada à mineração do carvão candiotense, não muito longe dali, na localidade de Dario Lassance, hoje um bairro do município de Candiota. Na década de 1920, o consumo de carvão gaúcho pela então Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS) cresceu muito, sobretudo a partir de 1928, com o início da operação de uma nova termelétrica – a Usina do Gasômetro – situada à beira do rio Guaíba, em Porto Alegre. Erguida pela Companhia de Energia Elétrica Riograndense (CEERG), a usina foi inaugurada com 10 MW e, em 1938, já com 13 MW, chegou a ser considerada a mais potente termelétrica do país. Nos anos 40, com mais dois grupos geradores, alcançou a potência instalada de 24 MW.

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Desativada em 1974, a usina do Gasômetro teve seu belo prédio – tipicamente industrial, com colunas em estilo alemão – tombado pelo patrimônio histórico e passou a abrigar um importante centro cultural. Na bacia carbonífera de Candiota, entretanto, os trabalhos de sondagem só seriam realizados nos anos 1940, sob a responsabilidade da Diretoria de Produção Mineral da Secretaria da Agricultura/RS. Segundo o pesquisador Fortunato Pimentel, a intenção era demonstrar que o carvão poderia ter aproveitamento industrial, o que exigia a coleta de elementos para um futuro plano de exploração do produto.

(1) Informações pesquisadas pelo Centro de Memória da Eletricidade no Brasil, e publicadas em Candiota, 40 anos de eletricidade a carvão, Rio, 2001. (2) Idem (3) Ibidem

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Uma usina para eletrificar a estrada de ferro Logo nos primeiros levantamentos, os pesquisadores ficaram sabendo que, na região de Candiota, havia uma camada de carvão mais próxima da superfície, com cerca de um metro de espessura. Além disso, constataram que o mineral já vinha sendo extraído rudimentarmente, para o consumo local e para

Capitulo IV

a alimentação de locomotivas. Ainda assinalavam a excepcional posição geográfica da bacia, junto à ferrovia e situada em área totalmente desprovida de energia hidráulica. Como consequência disso, o governo federal, então comandado por Getúlio Vargas, voltou sua atenção para a longínqua fronteira gaúcha. Em 1943, por iniciativa do Departamento Nacional de Estradas de Ferro (DNEF), então ligado ao Ministério de Viação e Obras Públicas, começaram os estudos para a construção de uma usina termelétrica – que seria Candiota I - com a finalidade específica de eletrificar uma parte da estrada de ferro que fazia o percurso Rio Grande-Pelotas-Bagé-Torquato Severo. Até então, o tráfego ferroviário, a cargo de locomotivas a vapor, operava municiado pelo carvão extraído na mina de São Jerônimo, a quase 400 quilômetros dali, cujo transporte era considerado antieconômico.

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A decisão do DNEF era o primeiro passo para o desenvolvimento do pequeno distrito de Candiota, com 580 quilômetros quadrados. Antes, no entanto, era preciso erguer a termelétrica, com uma potência de 10 MW, ao lado da jazida de Candiota. O projeto não demorou a ser modificado, na verdade foi ampliado para dobrar sua capacidade. Em função da eletrificação da zona sul do Estado – que envolvia, entre outras cidades, Bagé, Pelotas e Rio Grande – a então Comissão Estadual de Energia Elétrica (1) propôs que a potência da usina fosse duplicada para 20 MW. Finalmente, em 1950, foi criada a Comissão Construtora de Candiota (CCC), que ficou responsável pelas obras da termelétrica. Porém, mal iniciara a construção, os objetivos voltaram a mudar. A Rede Ferroviária Federal, por exemplo, perdeu o interesse no projeto, de olho nas novas locomotivas a diesel, que exigiam baixo investimento e geravam grande economia de operação. O resultado do recuo foi que as obras de Candiota I passaram ao controle exclusivo da CEEE. Este, no entanto, era apenas um dos problemas. O isolamento da região, agravado pelas condições precárias das estradas, dificultavam o deslocamento de operários e engenheiros, que, recém-chegados a Candiota, desistiam da empreitada, preferindo voltar às cidades de origem. Além disso, as verbas não eram suficientes e, a partir de 1959, as obras ficaram paralisadas por 18 meses. Em 1961, porém, Candiota I entraria em operação.

(1) Posteriormente a Comissão teria a denominação alterada para Companhia Estadual

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de Energia Elétrica, a CEEE.


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“Juntava palmo e meio de cinza no meu telhado” Capitulo V

Hoje, embora a utilização do carvão para gerar energia elétrica, ainda provoque temores, a situação ambiental nos arredores da planta de Candiota é bastante diferente dos primeiros e difíceis tempos da implantação. É o resultado de políticas que não dissociam a produção de energia dos cuidados com os resíduo, a qualidade do ar e a preservação da natureza. Mas nem sempre foi assim. Nas décadas de 1960 e 1970, as crianças que brincavam nos quintais às vezes se espantavam com fragmentos estranhos que, de repente, caíam do céu. Imaginavam até que fosse neve. Mas, apesar das temperaturas quase sempre baixas no inverno, não se tratava de nenhuma nevasca. Era a cinza proveniente da termelétrica, que se precipitava sob a forma de flocos acinzentados, uma neve suja e nada fotogênica. “Eu morava na boca da chaminé, a uns cem metros da usina. Juntava até um palmo e meio de cinza em cima do meu telhado. Quando a gente caminhava no pátio ficava sujo até os joelhos”, relembra Rodrigues. “A cinza era tanta que a mulher limpava a casa num dia e no outro já dava para escrever nos móveis, reforça Armando Ritta, 81 anos, que chegou em Candiota vindo da vizinha Hulha Negra quando tinha 24 anos nos idos de 1957.

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“O vento leste trabalhava muito e jogava a fumaça e a cinza pra cima das casas. Amanhecia tudo tapado de cinza”, conta o antigo operador de máquinas Nery Dias, 78 anos. Depoimento em que o antigo primeiro foguista Hipólito da Cunha, 78 anos, assina em baixo sem pestanejar.“A cinza era coisa séria. Eu caminhava dentro de casa e ficavam os rastros no chão”. “A cinza era um terror”, adjetiva Toribio Castro Filho. “Certa vez – registra -- um campeonato de futebol de salão teve de ser suspenso por causa dela. Era tanta que os jogadores não tinham condições de respirar direito”. Naquela época, a filtragem não era eficiente e a chaminé era muito baixa – não passava dos 65 metros de altura. Era um tempo onde quase nenhum cuidado ambiental existia. Nem na mineração nem da produção de energia. “Dotada de um sistema rudimentar de captação, a usina emitia cinza em grande proporção, jogando-a diretamente sobre a Vila Residencial, onde residiam os operários da usina e suas famílias. Era uma verdadeira “nevada” sobre a localidade”, confirma um dos atuais diretores da CGTEE, Hermes Ceratti Marques que, em 1972, teve seu primeiro contato com Candiota, ainda na condição de estudante. Outro pioneiro, Vanderlei Irala Soares, 71 anos, rememora: “as mulheres passavam o dia limpando. Mas criei os meus dois filhos no meio das cinzas e tão aí uns índios fortes”. Soares reconhece as dificuldades mas ai de quem criticar aqueles tempos distantes e difíceis. “Não falem mal de Candiota na minha frente. Tenho orgulho imenso de ter participado disso tudo”. Recém-formado técnico-mecânico, Waldon Taddei Ortiz, 68, estagiou em Candiota em 1963, e respalda Soares. “Quando cheguei aqui isso era uma fumaceira só”. Era tanta poluição que ele e todos os demais estagiários puseram-se de acordo: terminado o estágio, dariam um adeus definitivo à Candiota. “Todos nós, que éramos estagiários,  decidimos que não voltaríamos aqui de jeito nenhum”, relembra. E completa: “Mas todos voltamos”. Efetivado em 1964, Ortiz aposentouse em 1994.

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Castro Filho, porém, levanta outro tormento dos anos iniciais. “Era muito frio também”, assinala. “Outro campeonato foi cancelado por causa do frio – a quadra era aberta. De repente, um dos goleiros caiu duro, quase congelado...” Na dureza dos invernos da Campanha e na precariedade dos casebres em que viviam os trabalhadores e suas famílias, o frio será outro vilão implacável.

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“O inverno era tão brabo que a gente dormia vestido” Capitulo VI

Outro pioneiro de Candiota enfrentou com coragem as dificuldades dos primeiros tempos. Rubem José Pradella,70 anos, exlaboratorista, contador e operador na usina, ainda se encolhe ao relatar sua lembrança mais nítida: o frio do duríssimo inverno de 1961, enfiando-se pelas brechas do barracão de madeira, que servia de alojamento aos jovens solteiros. “Quando ia sair da torneira, a gota d`água espichava assim, congelava e nem chegava a pingar”, enfatiza. “Cheguei em junho de 1961”, prossegue. “Chamaram uma turma pois tava escasso de gente para trabalhar em Candiota. E pegamos um inverno muito rigoroso. Os barracos em que a gente morava não tinham mata-junta (sarrafo que une verticalmente as tábuas da construção cobrindo as frestas). O inverno era tão brabo que a gente dormia vestido. Os primeiros seis meses foram os piores”. Quando Anélio Rodrigues chegou a Candiota em 1954 estava acostumado com trabalho pesado. “Eu trabalhava cortando morro de pá e picareta na estrada Bagé-Aceguá”, justifica. Mas a dureza da empreitada e do frio que assobiava no final da jornada deixavam qualquer um assustado, mesmo os mais calejados. Até mesmo porque não havia chuveiro quente... “No começo a gente morava em barracos de madeira, muito frio no inverno. No tempo da terraplenagem, eu chegava tapado de barro em casa do trabalho de picareta...”

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Seu colega Hipólito da Cunha vivia um problema parecido. “Eu morava em um barraco de madeira. Barbaridade! O chuveiro era um cano que saía da parede com água fria... Eu trabalhava na sala da caldeira, ao lado do britador que moía o carvão. Chegava em casa de madrugada todo sujo de carvão e não tinha como não tomar banho...” Isidoro Malaguez, 78 anos, traz outro pedaço desse cotidiano de agruras: “Quando cheguei à Candiota já tava casado e tinha dois filhos. Fui morar em duas peças de um rancho de torrão e palha cheio de picumã. De manhã, as crianças apareceriam com o rosto tapado de picumã. Fiquei mais de dois anos ali. Depois fui pruma canastra, uma casinha de madeira, de três peças e muitas frestas. A maior delas era a porta. O telhado era feito de tabuinhas e quando chovia a gente procurava um lugar seco pra se acocar... Ficamos mais de seis anos ali. Mais tarde, fomos pruma casa na vila residencial. Pradella conta que, na primeira fase, cada funcionário que chegava a Candiota recebia uma colcha e um cobertor. Mas tinha apenas 19 anos e “nessa idade tudo é festa”. Tudo melhorou em 1965, quando ele se casou e alugou uma casa no povoado de Dario Lassance, distante cinco quilômetros da moradia anterior. O funcionário, que já trabalhara em farmácia em São Jerônimo, sua terra natal, começou no laboratório de análise de águas de caldeira da usina. Em seguida, virou contador e, finalmente, operador. Ainda em 1961, assumiu a lidas do almoxarifado, onde se orgulha de ter sido um dos mais operosos organizadores do material. “A gente não rasgava nem correspondência velha, para poder usar o verso como rascunho.”

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“Deu aquele clarão e o telhado se levantou” Capitulo VII

Quieta, rústica e previsível, a vida nos arredores da usina era sorvida vagarosamente. Repetia-se morosamente a rotina de trabalhar durante toda a semana para esperar o lazer – o futebol, a reunião-dançante ou um eventual churrasco no sábado e no domingo. Era assim nos primeiros tempos. Nada parecia romper este ritmo e quebrar o sossego. No entanto, em pelo menos duas ocasiões, o silêncio foi substituído pelo alarde e a modorra deu lugar à tensão. “Foi num começo da tarde. O céu estava carregado e só deu tempo de ouvir um rumor. E logo veio um clarão”. Joaquim Luiz Gregório estava há cinco anos no Rio Grande do Sul, depois de girar por São Paulo, onde nasceu, Minas e Rio de Janeiro. Rumara para Candiota onde trabalhara na construção da Vila Residencial, que abrigava parte dos funcionários, e se casara com “uma moça de Hulha Negra”, quando foi surpreendido pelo vendaval. “Derrubou a minha casa, comigo, a minha mulher e uma cunhada dentro. Deu aquele clarão e o telhado se levantou. Só tive tempo de empurrar a mulher e a cunhada para junto da parede antes que a caixa d`água se debulhasse no chão da casa”. Corria o mês de fevereiro de 1966 e o vendaval deixou um rastro de destroços na sua passagem pelo vilarejo.

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Mas não foi o primeiro evento do gênero. “Outra ventania havia derrubado a caixa d`água de uma casa justamente sobre a geladeira, então um artigo de luxo”, relata Castro Filho.“O proprietário foi indenizado pela CEEE. Por coincidência, em 1966, a segunda tempestade jogaria, mais uma vez, a caixa d`água da mesma residência sobre a geladeira nova...” Na moradia de outro pioneiro, Dirceu Irala Soares, sua esposa, Juraci, sentiu a lufada de vento e gritou ao marido para fechar a janela. “Mas não era a janela e sim o telhado que saíra voando...”, comenta. Ele ressalta que, ainda na década de 1960, uma cortina de eucaliptos plantada pela CEEE ajudou a segurar o ímpeto do vento sul, que sopra das bandas do Uruguai, e o fenômeno não se repetiu mais com tanta violência. Em 1958, outro acontecimento assombraria a vila dos funcionários. Era noite quando a calmaria foi quebrada. Na madrugada, a população das vilas despertou com gritos, correria e explosões. O almoxarifado da usina, ainda em construção, estava em chamas e as garrafas de acetileno, empregado na soldagem e no corte de metais, começaram a explodir. “Aquilo voava, subia a quase 100 metros, e a gente só via a luz estourando no alto. Todo mundo acordou e foi olhar”, relatou em 2001 o ex-funcionário José Saraçol, hoje falecido (1).

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(1) Depoimento prestado ao Centro de Memória da Eletricidade no Brasil, publicado em Candiota, 40 anos de eletricidade a carvão, Rio, 2001.


Queima do carvão gera energia e e cinzas que sobram viram cimento Quem assiste à primeira etapa do processo de extração do carvão candiotense, se espanta, de imediato, com o porte dos gigantes envolvidos no ofício. A imensa escavadeira – dragline – conta com uma caçamba de 29 metros cúbicos. São 1,5 mil toneladas de peso e altura de um prédio de 10 andares. Ela vai “destampando o solo”, como dizem os técnicos da Companhia Riograndense de Mineração (CRM), e fazendo uma série de furos, onde são colocados os explosivos para romper a estrutura da rocha. Após a detonação da dinamite, entram em ação as máquinas menores – as retroescavadeiras –, que recolhem o carvão fragmentado na caçamba de 10m3 e enchem os caminhões que o transportam até as esteiras. Estas, por sua vez, levam o carvão até a usina, numa viagem de cerca de 2,5 quilômetros. O carvão é uma rocha sedimentar originada da decomposição de substâncias orgânicas, que sofre alterações térmicas e de compressão, variando em estrutura celular, cor, brilho, densidade e resistência física, de acordo com a geologia e as impurezas de cada região. O candiotense, localizado a baixíssima profundidade – chegando, no máximo, a 40 metros, segundo a CRM – tem extração muito mais simples do que ocorre em outras regiões do Brasil.

Ali, o solo apresenta duas camadas do mineral, intercaladas por uma fina faixa de argila e cobertas por oito a 10 metros de material estéril, constituído basicamente de arenito. O carvão de subsolo, também existente na área, exigiria a mineração subterrânea, muito mais cara e atualmente desnecessária, já que é enorme a quantidade encontrada a céu aberto. No processo de geração de energia, 52% do carvão de Candiota se transformam em cinza, parte da qual é utilizada pela indústria de cimento. Segundo a CRM, esta grande quantidade de rejeitos também poderá ser usada na fabricação de cerâmica, numa mistura que incluiria a argila e outros insumos minerais da região. Vale registrar que, em 1964, pela primeira vez no Brasil, as cinzas resultantes da produção de Candiota I foram aproveitadas nas obras das hidrelétricas de Jupiá e Ilha Solteira, do Complexo de Urubupungá. A partir de 1974, as cinzas de Candiota II foram utilizadas na construção, entre outras, das usinas de Itaipu e Tucuruí. É que a cinza do carvão candiotense contém algumas propriedades da pozolana, cujo nome vem da região italiana de Pozzuoli, onde é muito encontrada. Essas propriedades facilitam a preparação do concreto.

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Farrapos e imperiais nos campos de Candiota Bem antes de Nathaniel Plant desvendar a riqueza que havia sob seus pés, as coxilhas da região ganharam notoriedade por motivo bem diverso: tornaram-se um dos palcos da Guerra dos Farrapos. Irrompendo em 1835, durante o período regencial, a

Capitulo VIII

revolta moveu-se contra a hegemonia política e econômica do Sudeste sobre as demais regiões do Brasil. Na época, o presidente das províncias era nomeado pelo poder central, de acordo com os interesses da aristocracia cafeeira. Para os riograndenses, o Império do Brasil tratava a província como mera fornecedora de homens, cavalos e alimentos para as batalhas na fronteira, o que desorganizava sua produção, causando-lhe reiterados prejuízos. Percebendo o que acontecia, as elites gaúchas mostravamse cada vez mais inconformadas. A campanha de outra guerra, a Cisplatina (1820-1828), deixara os gaúchos ainda mais descontentes, em função dos conflitos com os chefes militares que vinham do Sudeste e sempre detinham os altos comandos. O Ato Adicional de 1834, que deu poder legislativo às províncias, não resolveu o problema, pois a representatividade do Rio Grande

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do Sul no centro das decisões permanecia pequena. Assim, um ano depois, a Revolta Farroupilha eclodiu liderada por Bento Gonçalves da Silva, cujo exército rebelde chegou a proclamar duas repúblicas: a de Piratini (1836), no Rio Grande do Sul, e a Juliana (1839), em Santa Catarina. Antes disso, porém, a terra hoje pertencente ao atual município de Candiota servira de cenário para a Batalha do Seival, travada a 10 de setembro de 1836. Para combater o rebelde João Manuel de Lima e Silva, que lutava em Pelotas, no Sul da província, os legalistas enviaram o tenente-coronel Silva Tavares, que percorreu a fronteira sudoeste, fazendo novos recrutas. No dia 9 de setembro, Tavares acampou nos campos do Seival, em Candiota, com a intenção de marchar sobre Pelotas no dia seguinte e ali defrontar-se com Lima e Silva. Mas nem tudo correu conforme o planejado. O comandante-geral do exército farroupilha, Antônio de Souza Neto, soube da chegada das tropas leais ao império e decidiu rumar em sua direção. No dia 10, apesar da inferioridade de forças, os rebeldes saíram vitoriosos, após uma refrega que deixou 180 mortos e 160 prisioneiros do lado do poder central. Os historiadores ressaltam a importância do fato, pois a vitória deu novo ânimo às tropas farroupilhas, que proclamaram a República Rio-Grandense no dia seguinte, 11 de setembro de 1836. A Guerra dos Farrapos terminou com a derrota dos rebeldes pelo exército legal, comandado pelo então barão de Caxias, já no reinado de Pedro II. A paz foi assinada em 1º de março de 1845. Para muitos gaúchos, a efêmera república é razão de orgulho

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e motivo de comemorações repetidas a cada 20 de Setembro, a data farroupilha. Para quem ajudou a erguer a primeira termelétrica do complexo de Candiota , a a grande batalha, em que estiveram pessoalmente empenhados, foi mesmo a construção e operação da usina, naqueles difíceis anos 1960. “Candiota foi uma aventura”, ressaltou Saraçol em seu depoimento de 2001. E emendou: “Mas valeu a pena, se valeu. Eu diria que caiu do céu.” (1)

(1) Depoimento prestado ao Centro de Memória da Eletricidade no Brasil, publicado em Candiota, 40 anos de eletricidade a carvão, Rio, 2001.

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Sem energia não há desenvolvimento, adverte Jango Nos primeiros meses de 1961, a notícia da inauguração da primeira termelétrica de Candiota foi recebida com euforia no

Capitulo IX

Sul do Estado, especialmente Pelotas, Rio Grande e arredores, que vinham enfrentando vários racionamentos.

Produtores

e consumidores da energia gerada a partir do carvão foram contagiados pelo mesmo otimismo. Em 19 de dezembro, a usina começou a funcionar, consumindo o mineral extraído das minas a céu aberto, pelo Departamento Autônomo do Carvão Mineral. Que,mais tarde, se transformaria na CRM. Candiota I operava com três caldeiras aquotubulares, cuja produção normal alcançava 38 toneladas/hora de vapor, com a máxima chegando a 52 toneladas/hora. A temperatura do vapor superaquecido atingia até 450 graus centígrados e o carvão, antes de ser consumido, passava pelo processo de pulverização.

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A nova termelétrica recebeu dois turbogeradores de 10 MW, que trabalhavam sob a tensão de 6 kV, transformados para 13,8 kV e 69 kV, por uma subestação elevadora. Além disso, a primeira usina de Candiota tinha um alimentador de 13,8 kV, utilizado em serviços auxiliares e também na mina, distante cerca de cinco quilômetros. Ainda não havia esteiras, como as que seriam construídas para Candiota II. O carvão era transportado até a usina através de um cabo aéreo, que fazia, no retorno, a remoção da cinza. “Não se pode falar em desenvolvimento sem energia”, advertiu o então presidente João Goulart (1961-1964) na inauguração oficial, em 22 de dezembro. Muitos dos pioneiros estavam presentes, entre eles Anélio Rodrigues. Ele chegara em 1954 em Candiota. No local da usina que então se inaugurava “era mato”. Bom no manejo da pá, trabalhava em uma empreiteira que, por coincidência, foi contratada para fazer a terraplenagem do terreno de Candiota I. “E eu fui junto. E lá fiquei. Quando terminou a terraplenagem peguei na montagem da usina. E aí me engagei”. Para ele, a inauguração foi um momento especial. “Me senti realizado”. Jango fez um discurso veemente: “Um país não se pode industrializar, não pode sequer superar as condições primárias de seu atraso, sem que nele o trabalho disponha de equipamento energético,característico da civilização moderna”, ressaltou.

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Aquele estava sendo um ano cheio de revelações. Afinal, não fazia muito que o astronauta soviético Yuri Gagarin contara ao mundo que a Terra é azul. O presidente lembrou que a obra da usina, lenta e várias vezes paralisada, havia sido projetada no governo de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951) e iniciada em 1953, na segunda gestão de Getúlio Vargas (1950-1954. Para os gaúchos, também havia novidades.

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No dia anterior, Goulart havia lançado a pedra fundamental da Refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas, na área metropolitana de Porto Alegre, a 400 quilômetros de Candiota. E acrescentou: “Em boa hora, o Rio Grande sentiu que era necessário defender a sua economia e o bem-estar de seu povo, dentro de uma política de emancipação nacional.” O orador seguinte, Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, anunciou um programa de obras em duas etapas, que em pouco tempo elevaria a potência instalada, em todo o Estado, “a mais de 1 milhão de kW”. Candiota I surgia, afinal, como uma grande esperança. Entre 1954 e 1960, o carvão gaúcho registrara uma grande queda em sua produção, em função da substituição da tração a vapor pela tração a diesel nas ferrovias estaduais. O Rio Grande do Sul, que alcançara 49% do total nacional da extração de carvão em 1953, acabou com cerca de 27% em 1960. Nos anos seguintes, sobretudo de 1961 a 1967, ganharia algum fôlego, ficando com 30% do total produzido no país, graças ao emprego crescente do minério na geração de energia elétrica. Só em Candiota I eram consumidas, por mês, de 10 mil a 20 mil toneladas do mineral. Mas o grande salto – pelo menos no Sul do Estado – só viria 13 anos depois, quando a Fase A da segunda usina foi inaugurada,com um consumo que variava de 40 mil a 60 mil toneladas mensais de carvão.

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Atraso e recurso escasso transformaram obras de usinas em verdadeiras epopeias

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É verdade que o projeto de Candiota I atravessou

função dos sucessivos atrasos no cronograma,

vários governos, foi duas vezes modificado

que oneraram a parcela de juros. As obras da

e ainda teve a construção paralisada por 18

Fase A de Candiota II, previstas desde 1965,

meses. Mas nada disso se compara aos entraves

só ficariam prontas em 1974, após vários

vividos em Candiota II (Usina Termelétrica

adiamentos.

Presidente Médici) e Candiota III. Os problemas

No caso de Candiota III – prioritária para o

transformaram as obras das duas termelétricas

setor elétrico desde 1982, em decorrência dos

em verdadeiras epopeias.

sucessivos choques do petróleo – seus planos

Em maio de 1965, autoridades gaúchas do

também esbarraram na falta de verbas. Após

setor já discutiam a necessidade de duplicar a

vários adiamentos (e muitas dívidas), decidiu-

potência instalada na primeira usina (para 40

se pela opção mais sensata: esquecer o projeto

MW) ou mesmo construir outras. Previam déficits

inicial – que localizava a nova unidade a seis

de energia elétrica no Sul do Estado.

quilômetros de Candiota II, com um orçamento

Mas a realização de uma segunda obra

de US$ 410 milhões – e construí-la a seu lado.

dependia da liberação de verbas. Quando foi

Isto permitiria o uso comum de várias instalações

finalmente concluída, Candiota II havia custado

e equipamentos já existentes. O preço orçado

cerca de US$ 450 milhões – aí incluídas a

baixou para US$ 370 milhões, sem contar a

Fase A (126 MW) e a Fase B (320 MW). O valor

redução nas despesas operacionais. Finalmente,

estimado para a Fase B – US$ 250 milhões – foi

com

substancialmente majorado durante a obra, em

especialistas calculam, por alto, um prejuízo

todos

os

atrasos

e

modificações,


de cerca de US$ 200 milhões em equipamentos, terraplenagem, desapropriação da área e outros itens referentes ao plano anterior. A ausência de recursos e a prioridade agora voltada para a opção hidrelétrica justificaram, ano após ano, o adiamento dos projetos de usinas à base de carvão. E isso apesar das imensas jazidas do país, sobretudo no Rio Grande do Sul. Mais tarde, em 1991, durante os seminários que resultaram no Plano 2015 da Eletrobras, especialistas apontaram as inúmeras vantagens do carvão em relação a outros combustíveis.

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Pagamento com revólver e “beliscadas” em Bagé Passado meio século, hoje pouco se recorda aquele tempo, em que a vila de Candiota tinha apenas 38 casinhas de madeira e uma de alvenaria. Ali seriam abrigados os operários que ergueriam

Capitulo X

Candiota I. Em 1960, um ano antes da inauguração, a única escola ficava em Dario Lassance, uma longa caminhada de cinco quilômetros, e a saúde pública resumia-se a um pequeno posto de primeiros socorros. “Nos primeiros tempos a gente não tinha nem o que comer. Tinha que se abastecer em Bagé porque aqui tudo era mato”, repara Armando Ritta. Em 1961, a termelétrica criou um sistema de fichas para a compra de mantimentos, que funcionava na cantina de Candiota I. Os empregados entregavam a relação, recebiam a ficha e voltavam para buscar os produtos dois dias depois.

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“Mas o pedido nunca vinha completo”, corrige André Maurente, 59 anos e morador de Candiota há quase meio século. “Quando vim pra cá, com meu pai, eu tinha 11 anos. Foi em 1963. A gente passava fome com dinheiro no bolso. Não tinha um pão pra comprar”. “E pra sair daqui a gente tinha que caminhar 45 minutos até a estação ferroviária de Dario Lassance e tomar o trem para Pelotas ou Bagé”, emenda Telmo Monte. O tempo de viagem? Duas horas ou mais até Bagé e seis horas até Pelotas... Filho de um pioneiro de Candiota I -- Sílvio Maurente -- e ele próprio ex-funcionário de Candiota II, André era o encarregado pela família, para enfrentar a fila e apresentar a lista de compras. Na espera, varava a noite na fila da cantina. “Passava a noite lá. Dormia na porta e, depois, ia pro colégio”, relembra. A barbearia resumia-se a uma cadeira de pinho, de encosto alto e forrada com uma toalha, colocada ao ar livre. Ali, o catarinense Aristeu Barbosa, de apelido Teteu, também funcionário da usina, atendia a peonada nas horas de folga, fazendo barba, cabelo e bigode. À noite, munido de uma pasta com os apetrechos de trabalho, ele atendia os engenheiros a domicílio. “Teteu foi o meu primeiro amigo em Candiota. A gente fazia baile, mandava trazer um gaiteiro de Dario Lassance e se divertia”, rememora Rubem Pradella, viajando na memória e lembrando o amigo já falecido. Barbosa aposentou-se da usina e retornou à Santa Catarina, onde faleceu. Antes, porém, presenciou os dois irmãos desistirem do emprego e baterem em retirada daquele lugar ermo nos confins do Rio Grande.

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“A vida era bastante sacrificada. Não tinha quase condição. O ordenado atrasava... O pessoal do pagamento vinha de Porto Alegre num avião teco-teco. Traziam dinheiro vivo”, ilustra Pradella. Deste jeito, quando o mês ficava bem mais comprido do que o dinheiro, notava-se um súbito interesse na vila pela apreciação do firmamento. O que Pradella descreve com um sorriso: “Quando o salário tava atrasado, e às vezes atrasava até três meses, bastava o pessoal ouvir um barulho de teco-teco pra levantar a cabeça pro céu procurando o aviãozinho”. Depois de certo tempo, o alívio passou a viajar por terra. Ainda era dinheiro vivo mas com um detalhe que intimidava: “O sujeito chegava numa camionete e logo se formava uma fila. Ele puxava um revólver, botava a arma bem à vista e só aí começava o pagamento”, conta Godofredo Cápua. Bolsos forrados, sorriso de orelha a orelha, a diversão dos fins de semana ganhava um novo ânimo. “Sempre havia alguém que sabia tocar gaita ou violão e se fazia uma reunião dançante. Ou um churrasquinho à beira do arroio”, conta Waldon Ortiz. Ritta narra de forma bem-humorada as atribulações de boa parte da população masculina. “Cheguei aqui solteiro, aos 24 anos. Não havia mulher. Era assim: quem tava casado tava casado. E quem não tava tinha que beliscar lá por Bagé...” A exemplo da maioria dos pioneiros, Telmo Monte chegou solteiro e constituiu família em Candiota. “Mas só me casei aos 33 anos”, observa. Tinha prometido à mãe que somente se casaria depois de estar “bem empregado”. Ortiz era hóspede de outra instituição de Candiota nos tempos heróicos: a pensão dos solteiros. No seu caso, a Sociedade

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Atlética As Virgens, de codinome Savi. As outras eram a Flac (Força e Luz Atlético Clube), a Esperança, a Rififi e a Quatro Ases. A Savi teve até um jornalzinho próprio – o Boletim Savi – e promovia jantares e festas, cujo sucesso acabou rendendo a fundação de um pequeno restaurante familiar. A Flac, por sua vez, chegou a iniciar a construção de um clube social, que, mesmo inacabado, sediou bailes e sessões de cinema. Sucesso no Brasil inteiro na virada dos anos 1950 para os 1960, os 78 rotações do Trio Irakitan giravam na vitrola e aqueciam as reuniões dançantes da Associação dos Servidores da Central Termelétrica de Candiota (Asctec), nascida em 1962. Às vezes, as festas eram animadas por conjuntos locais – com direito a gaita, pandeiro, banjo e violão – ou por orquestras trazidas de Bagé. “Havia muita amizade e companheirismo”, salienta Ortiz. Sem sonegar que também havia rivalidade. Que “ficava por conta” das disputas de futebol entre as pensões. As refregas, porém, também deixariam boas recordações, como confirma Pradella. “Todas as lembranças são boas mas a melhor delas é de quando fundamos o Força e Luz, um clube de futebol de salão”.

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Tempo de ditadura: “Tinha que fugir senão iam me pegar” Capitulo XI

Quando os militares colocaram os tanques na rua e derrubaram o governo constitucional de João Goulart para instaurar uma ditadura de 21 anos no Brasil, o cobrador Telmo percorria os bairros de Porto Alegre em sua moto à cata de devedores relapsos. Brizolista de quatro costados, ele logo percebeu que precisava sair logo de circulação. “Quando prenderam o meu patrão, que também era brizolista, eu senti que tinha que fugir senão iam me pegar também”. Na fuga, preferiu nem passar perto da antiga rodoviária da capital gaúcha. “Não queria me arriscar. “Saí de Porto Alegre e fui tomar um ônibus lá longe, na estrada”. Seu destino? Candiota, onde nascera e da qual se afastara bem jovem. Ali ninguém se preocuparia em procurá-lo. Morador da Vila Residencial, aposentado, Telmo Monte vive em Candiota até hoje.

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“Comecei como auxiliar de serviços gerais, depois fui pra operação de máquinas. Quando inauguraram Candiota II fiquei no setor de lubrificação e, mais tarde, na oficina de revisão das máquinas”, relaciona. No poder, os militares enfatizaram o papel do setor produtivo estatal na economia. O realismo tarifário adotado em 1964 e o apoio de agências internacionais – como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bid) – aumentaram os investimentos no setor elétrico, levando o país, a partir de 1968, ao polêmico “milagre brasileiro”. De qualquer modo, a capacidade instalada de energia elétrica no país praticamente dobraria, entre 1966 e 1972, e mais do que duplicaria entre 1972 e 1980, superando os 31 mil MW. No isolamento de Candiota, porém, as atenções estavam mais voltadas para a convivência e as amizades. Em 1964, mais importante do que as realizações reais ou supostas do regime autoritário era o dia a dia e, particularmente, o domingo, tradicionalmente dedicado a memoráveis duelos nos gramados. Em setembro de 1964, o Grêmio Esportivo Candiota – sucessor de outra agremiação, o Gaúcho, e autor de um inesquecível 7x0 sobre o Industrial, de Bagé – inaugurou o Estádio 20 de Setembro. A inauguração aconteceu justamente no dia 20 de Setembro, data farroupilha e feriado gaúcho.

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Foi tudo muito divertido menos o resultado da partida. Convidado, o Bancário, clube profissional que disputava o campeonato municipal de Pelotas, cometeu a indelicadeza de aplicar 6x1 no anfitrião. Godofredo Cápua, o Godo, era o goleiro. “Ele quis impressionar o técnico do Bancário e tomou seis”, brinca Pradella. O antigo goal-keeper do Candiota responde com um sorriso amistoso. “Não dava pra enfrentar eles. Eram profissionais, estavam bem organizados e treinados”, argumenta Toríbio Castro Filho, aliás o centroavante do Candiota. Experiente, ele havia jogado nos juvenis do Brasil, de Pelotas. E, certa vez, convocado para a reserva do time principal, havia jogado metade de um Bra-Pel, o clássico da zona sul do Estado. “Me encaixei bem no time daqui”. Depois do susto na partida inaugural, o Candiota retomou o bom caminho. “Fizemos amistosos contra outros clubes profissionais e, alguns, empatamos e até ganhamos”. A maior glória, porém, reside no amadorismo. Quando Candiota ainda estava vinculado a Bagé, o clube dos eletricitários arrebatou o troféu do campeonato amador da cidade no distante ano de 1971. “E, em 2012, vamos completar 50 anos”, comemora Castro Filho. Outro remanescente do velho time de Candiota, onde dava conta da meia-direita, é Vanderlei Irala Soares. “Mas eu não era bom...”, reconhece. Nem só de futebol vivia o G.E.Candiota. “Certa época, tivemos um time feminino de vôlei”, informa Waldon Ortiz que, por sinal, era quem treinava as meninas. Além disso, os trabalhadores da usina e suas famílias organizaram os Jogos Olímpicos de Candiota, batizados de “Candiotíadas”...

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O antigo meia-direita Soares tem, hoje , outro esporte preferido: pescar nas barragens do arroio Candiota onde pega traíras, jundiás e tilápias. Por sinal, além da fascinação pela bola, a pesca sempre dividiu o interesse dos precursores. Um deles conseguiu até engordar a renda com o esporte. “Fiz amizade com os franceses (da Alsthom) e eles me pagavam, no fim de semana, para conseguir minhocas para eles pescarem”, conta Armando Ritta. E junta um detalhe engraçado: “Eles queriam somente aquelas minhocas brancas. Não queriam saber daquelas nervosas, que pulam...” As pescarias também ajudaram a cimentar amizades. “Eu e o Alverino (Alves) somos companheiros de muito tempo. No passado, a gente caçava e pescava juntos”, recorda Telmo Monte. “Muita traíra, jundiá e pintado no arroio Candiota. O pai dele tinha uma terra por lá e a gente também ia pescar no rio Jaguarão”.

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Distrito cresceu à sombra da usina e virou município Dez dias antes de deixar o governo, o general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), terceiro chefe de estado nomeado pelas forças armadas desde 1964, fez sua última visita oficial à Candiota II. A usina acabara de ser construída pelo consórcio italiano Gruppo Industrie Elettro Meccaniche per Impianti All’Estero – GIE. Era 5

Capitulo XII

de março de 1974 e Médici desembarcava no então distrito para inaugurar a segunda termelétrica da região após muitos atrasos em seu cronograma. Na rápida cerimônia, o general dispensou o discurso, limitandose a visitar as instalações da usina. Ali acionou o botão de partida da unidade geradora, dando início às atividades da Fase A. Igualmente nomeado pelo regime, o então governador do Estado, Euclides Triches, informou a novidade: por decreto acabara de batizar Candiota II como “Central Termelétrica Presidente Médici”. Mais tarde, o antigo prédio desativado da primeira usina inspiraria o poeta popular Adelmo Bernardo dos Santos: “Velha usina de Candiota/Aqui vou te homenagear/Podes até nem gostar/De te ver cantada assim/Mas se apoderou de mim/ Um sentimento, uma mágoa/De te ver à beira d`água/Solita e quase no fim...”

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Era um canto nostálgico, mas alguns versos falavam do presente: “Tu nos legaste uma filha/E lá em cima da coxilha/Está plantada, imponente/Ela por ti nada sente/Porque agora é quem brilha...” No arremate do poema, Santos se despedia: “Tranqüila podes morrer/Já fazes parte da História/Vou te guardar na memória/ Sem nunca te esquecer.” A parte a melancolia dos versos, a nova unidade dava a partida para o período, até então, de maior crescimento do distrito. Novamente sob a democracia, Candiota se emanciparia de Bagé em 1992, impulsionada pelas novas possibilidades abertas pela Constituição promulgada em 1988. Dos 300 habitantes de 1961, data do início de operação da primeira termelétrica, Candiota ultrapassava os 7,3 mil moradores em 1998. Hoje são mais de 10 mil. O município nasceria marcado por uma particularidade: a fragmentação geográfica. Na área urbana estão as localidades de São Simão, as vilas Operária e Residencial,João Emílio, Seival, além de Dario Lassance, onde está a sede municipal. E, no interior, situam-se mais 36 assentamentos. Candiota deve chegar ao seu vigésimo ano de emancipação com 14 escolas, três rádios comunitárias, um jornal, 30 templos religiosos, quatro clubes sociais e cinco centros de tradições gaúchas (CTGs). A economia depende fundamentalmente da mineração do carvão e do seu uso na geração de energia elétrica. Mas exibe outras potencialidades, entre elas o cultivo de uvas viníferas, a produção de leite, a indústria da cerâmica e a condição de Polo Estadual de Produção de Sementes Olerícolas (de hortaliças). As sementes são cultivadas principalmente nos assentamentos da reforma agrária disseminados pela região. Para o país, o polo permitiu uma significativa redução na

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importação de sementes – de 70% a 30%, em cerca de 10 anos –, incluindo as de cenoura, coentro, cebola, rúcula, rabanete, alho e vários tipos de flores. Há sementes também de frutas, como melão e melancia, além das antigas plantações de arroz e de milho.

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O milagre que converte o carvão em energia elétrica

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Antes de chegar às usinas, o carvão extraído

a energia térmica liberada pelo carvão é

da mina de Candiota viaja 2,5 quilômetros em

transportada pelo vapor superaquecido e

esteira. Dela desembarca no volume médio de

transformada em energia de velocidade (ou

400 toneladas por hora para ser armazenado

energia cinética). Isto se dá no exato momento

em silos. De lá, é transportado aos moinhos

em que os bocais injetores jogam o vapor em

pulverizadores, que o transformam em pó,

alta velocidade sobre as palhetas móveis do

para um melhor aproveitamento térmico.

rotor da turbina, fazendo-as girar.

A trajetória prossegue com o pó de carvão

Consequência disso é que o gerador de

sendo direcionado por ventiladores até a

energia elétrica, acoplado diretamente ao

fornalha das caldeiras, para a queima em

eixo da turbina, também gira, induzindo uma

suspensão. O calor então liberado – que

tensão (voltagem) e uma corrente elétrica: é

atinge até 1,3 mil graus centígrados – passa,

a última etapa da geração de energia elétrica

imediatamente, a aquecer a água dos tubos

através do calor provocado pela queima de

que envolvem a fornalha, produzindo o vapor

carvão.

que, na fase de injeção nas turbinas, chega

Uma tonelada de carvão gera um megawatt/

a 540º C. É como se fosse uma chaleira

hora (MWh). E o que é melhor: com apenas um

com água ou, melhor ainda, uma panela de

MWh, é possível iluminar cinco residências de

pressão: o fogo esquenta a água, que solta

tamanho médio, ao longo de um mês. Tome-

um violento vapor.

se outro exemplo: um pacote com um quilo

A fumaça resultante do processo segue

de carvão gera nada menos que um quilovate/

para a chaminé, passando antes pelos

hora. Esta energia alimenta uma lâmpada

precipitadores (filtros), que retêm as cinzas

acesa de 100 W por dez horas seguidas,

– nada menos que 220 toneladas por hora,

um chuveiro elétrico durante 30 minutos, ou

a plena carga –, evitando ou minimizando

ainda um ferro de passar roupa funcionando

danos ao meio ambiente. Ao mesmo tempo,

por duas horas.


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O ônibus partia mas nunca se sabia quando ia chegar Hoje tudo é bem diferente mas, nos primórdios da mineração e geração de energia através do carvão, quem quisesse se afastar do mundo podia mesmo ir pra Candiota. O primeiro-foguista Hipólito da Cunha começou a trabalhar na usina em 15 de julho

Capitulo XIII

de 1961 e, já no primeiro dia, encontrou-se com as dificuldades. “Peguei um trem na noite mas, às 2h15 da madrugada, houve um acidente. E o trem parou. Tive que dormir num armazém e, horas depois, às 7h30, pegar no serviço”. “O transporte era muito ruim. O ônibus saía às 5h20 de Bagé e chegava às 8h45 em Candiota. Isso quando não tinha atoleiro e a gente tinha que meter o pé no barro para ajudar a empurrar. Hoje leva uma hora entre uma cidade e outra”, lembra. Se para chegar era difícil, para partir não era menos. Quem não tinha acesso a nenhuma condução só dispunha de uma saída: caminhar meia hora ou mais até a estação de Dario Lassance. O ajudante de foguista Adão de Freitas Ritta fazia o que podia. “Arremangava as calças, botava os sapatos na bolsa e ia adiante. Depois, lavava os pés na sanga, botava o sapato de novo e pronto.

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Um dos primeiros a chegar, Godofredo Cápua, nascido na vizinha Pinheiro Machado, desembarcou em Candiota em 1944, quando o mundo ainda vivia a II Guerra Mundial. Tinha nove anos. “Meu pai, Domingos Cápua, era funcionário da ferrovia. Naquele tempo só havia três casas por aqui: a do meu pai, que era guarda-chaves, e as de seus dois colegas ferroviários, o agente da estação e o telegrafista”. Ex-ronda da obra de Candiota I, depois operador de turbina, Edmar Medeiros só não estranhou mais porque havia padecido tormento pior. No final da década de 1950, ele teve que abandonar sua cidade, Pedro Osório, no Sul do Estado. “Saí de lá depois da enchente de 1959 que tapou tudo na cidade”, explica. Joaquim Luiz Gregório registra uma solução insólita hoje, mas recorrente naquela época: “o ônibus era um só e, quando enchia, a gente ia em cima, no bagageiro”. Passageiros e malas amontoavam-se para dividir a parte superior externa do veículo. “Levava duas horas e meia até Bagé e nem sempre chegava”, arremata. Quem optava pelo trem não desfrutava de sorte melhor. Primeiro, havia aquela caminhada até Dario Lassance e após empreender uma nova e longa jornada, como repara Cápua. “O trem demorava umas duas horas para chegar até Bagé”. Para cumprir os 161 quilômetros até Pelotas a viagem estendia-se por seis horas... Com tal empecilho, pode-se imaginar o que ocorreria em caso de uma emergência, por exemplo, um parto. Eram problemas que caíam literalmente no colo da parteira e enfermeira Iracema Valério. “Tudo era muito precário. O médico da CEEE, por exemplo, só trabalhava nas terças e sábados, das 7h30 às 10h”, registrou (1) no seu depoimento de 2001. No restante da semana tudo ficava por conta de Iracema.

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O crescimento demográfico do distrito e depois município também se deve à perícia da parteira, formada em enfermaria obstétrica. Em 30 anos, três meses e 20 dias, período em que trabalhou em Candiota até aposentar-se, foram quase 300 partos. Ganhou medalhas e troféus mas viu-se frente a frente com situações que assustariam muita gente tarimbada. “Uma vez, peguei um bebê de joelhos, num mês de julho, e saí enfrentando um temporal pesado, que me rendeu vários tombos nas valetas”, relatou (2). “Não tínhamos asfalto e a ponte era um mata-burro -- construída com tábuas ou troncos paralelos e espaçados, para impedir a passagem do gado. O jeito foi entrar em contato com a estrada de ferro, por rádio, e tentar pegar o trem que parava em Dario Lassance.” Ela perdeu a conta dos instantes de tensão pelos quais passou, entre eles placentas retidas, partos à luz de vela em lugares ermos e centenas de suturas em acidentados. Mas sempre com o orgulho de nunca ter perdido um paciente. Moradora de Pelotas, tem saudades de Candiota: “Aquele povo é a minha família eletricitária” (3).

(1) Depoimento prestado ao Centro de Memória da Eletricidade no Brasil, publicado em Candiota, 40 anos de eletricidade a carvão, Rio, 2001. (2) Idem (3) Ibidem

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Gaúchos foram os primeiros a ter um plano de eletrificação Muitas décadas antes das atribulações da parteira, antes mesmo de Candiota existir, o Estado ajudou no nascimento de outras perspectivas para o carvão. Transformou-se no principal protagonista desta história. Sem sua intervenção – seja através

Capitulo XIV

de investimentos, seja com leis e decretos -- dificilmente a planta de Candiota deixaria de habitar o terreno dos planos nunca realizados. Em 1920, do total de usinas instaladas no Rio Grande do Sul, sete eram hidrelétricas e 34 termelétricas. Estas últimas alimentadas, na sua maioria, por óleo diesel. A extração do carvão era penosa e cara, e o preço do transporte até o consumidor bastante salgado. Com isso, a importação continuava. Até que, em 9 de julho de 1931, o governo provisório baixou um decreto, tornando obrigatória a aquisição de 10% de carvão nacional, calculados sobre a quantidade importada, numa iniciativa que inaugurou um período de constante aumento da produção.

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Na mesma década, o Rio Grande do Sul atingiu mais de 80% da produção nacional de carvão-de-pedra – um total que começaria a cair em 1942, chegando a menos de 50% em 1946. A Segunda Guerra havia provocado o crescimento do mercado industrial gaúcho, exigindo a elevação da oferta de eletricidade, principalmente em Porto Alegre, Caxias do Sul (principal centro metalúrgico do estado), São Leopoldo e Novo Hamburgo – dois grandes produtores de calçados. Em contrapartida, os obstáculos à importação de máquinas afetavam a capacidade geradora do Estado. Como conseqüência, houve racionamento de energia elétrica em várias cidades, com ameaças ao abastecimento de água e transportes, inclusive em Porto Alegre. Com o advento da crise, o governo viu-se obrigado a ampliar sua participação no setor de energia elétrica. Assim, em 1943, o Rio Grande do Sul decidiu implantar a Comissão Estadual de Energia Elétrica (CEEE). Foi criada com o objetivo de racionalizar a oferta de energia, aproveitando o potencial hidráulico em conexão com as reservas carboníferas. O primeiro resultado, já em 1945, foi a proposta de um plano de eletrificação para o Estado – o primeiro do país –, que seria aprovado em abril do mesmo ano. Apostando na alavancagem da produção, o governo gaúcho criaria, em 1947, o Departamento Autônomo de Carvão Mineral (DACM). O novo organismo assumiu a responsabilidade pelo estudo de novas jazidas e pela orientação administrativa do setor. De 1947 – ano em que entrou em operação a Termelétrica de São Leopoldo, a primeira usina prevista no plano estadual – até 1950, quando o conjunto das obras deveria estar concluído, a CEEE instalou 13,62 MW e encampou 3,6 MW, atingindo a potência de

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17,25 MW, ou seja, 18% da capacidade instalada no Rio Grande do Sul naquele último ano. Algumas unidades, atrasadas, foram incluídas na segunda etapa do plano. Além da construção das usinas, a segunda fase incluía a instalação de novas centrais geradoras em áreas rurais. Aqui, o propósito era de incentivar a eletrificação no campo, evitando ou reduzindo o fluxo migratório para as cidades. Em junho daquele ano, o governo federal assumiu a responsabilidade de realizar as obras de engenharia civil de várias hidrelétricas e também das termelétricas de São Jerônimo e Candiota. Entre 1950 e 1955, a CEEE concluiu as obras da segunda etapa do plano, inaugurando, entre outras, a primeira parte da termelétrica de São Jerônimo. A usina entrou em operação em 1954 e, dois anos depois, ganhou um acréscimo de potência, ficando com 20 MW. Além disso, instalou 2,1 mil quilômetros de linha de transmissão, aumentando mais de cinco vezes a sua potência, que chegou a 84,30 MW em 1955 – isto é, 65% do parque gerador do Rio Grande do Sul, o que beneficiou 65 municípios. Outro fato relevante para a produção de energia em território gaúcho, foi a transformação da CEEE, em fins de 1963, em sociedade de economia mista, com o nome de Companhia Estadual de Energia Elétrica. O que também permitiu a preservação da sigla já bastante conhecida pela população. Na última etapa do plano, ficaram prontas as usinas de Canastra (1956), Candiota (1961), Jacuí I (1962), Charqueadas (1962), Nova Usina Termelétrica de Porto Alegre (Nutepa) e Alegrete (ou Osvaldo Aranha, cuja potência instalada ainda chegaria a 66 MW) – as duas últimas em 1968. Com isso, em 1970, a capacidade instalada da empresa subiria para 560 MW, estendendo seu

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atendimento para 204 municípios. Em 1961, o município de Bagé passou a receber a eletricidade gerada em Candiota I – a primeira termelétrica do estado a queimar carvão pulverizado. A partir de então, o município aposentou os três grupos de corrente alternada de sua antiga usina diesel elétrica, a Emílio Guilayn & Cia. Ltda, que tinha apenas 1,5 MW de potência instalada, deixando para o ano seguinte o desligamento do último. Nascida no apagar das luzes do século XIX, a Guilayn era uma termelétrica a carvão, movida por uma única caldeira que queimava o mineral que vinha da jazida de Hulha Negra transportado em carroças. Bagé foi, portanto, a primeira cidade do estado a ser iluminada por termeletricidade à base de carvão. A pequena Guilayn seria oficialmente desativada em1962. Na visão dos historiadores, a evolução está intimamente vinculada às políticas do segundo governo Getúlio Vargas, das quais o Plano do Carvão Nacional – aprovado em 11 de junho de 1953 e responsável pelo nascimento de novas usinas, como a própria termelétrica de Candiota – é um bom exemplo. Compreendia atividades de produção, beneficiamento, transporte e distribuição do produto, objetivando reduzir os preços e aproveitar o mineral da melhor forma possível, como combustível e matéria-prima. Sob o mandato de Juscelino Kubitschek (1956-1961), sua política desenvolvimentista, baseada no Plano de Metas, acelerou o processo de acumulação, com novas aplicações em atividades produtoras. Uma das metas era justamente aumentar a produção de carvão-depedra, e o resultado foi razoável. Apesar das muitas jazidas que só entrariam em operação anos mais tarde, o país produziu, entre 1962 e 1967, a média anual de 3,2 milhões de toneladas.

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Construção esbarra na crise e usina é adiada para o século XXI Nos anos 1960, as principais jazidas gaúchas de carvão ainda eram Butiá, São Vicente e Leão, no atual município de Butiá, e a de Charqueadas, em São Jerônimo. Todas elas situadas na bacia do rio Jacuí, a menos de 100 quilômetros de Porto Alegre. Em

Capitulo XV

1967, as quatro foram responsáveis por 84% da produção do estado. Só a partir de 1961, ano da inauguração de Candiota I, o minério do Sul do Estado, extraído pelo Departamento Autônomo do Carvão Mineral (DACM), que depois se transformaria na CRM, ingressou nestas contas. Entre 1968 e 1978, a produção gaúcha ficou estável, com a média anual em torno de 900 mil toneladas. Mesmo assim, as importações cresceram, superando o patamar das 5,1 milhões de toneladas. O país estava prestes a enfrentar uma grande crise. O quadro era de elevação de juros no mercado internacional, combinado com a ameaça de descontrole das contas externas e o aumento da inflação, circunstâncias que limitaram a capacidade de

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investimentos públicos ou privados. Em 1980, a dívida externa do setor atingira os US$ 10 bilhões e a Eletrobras adiara uma série de investimentos. A situação só não se agravou ainda mais porque o sistema, pelo menos até meados da década, dispunha de alguma folga na capacidade de geração, em função da conclusão de empreendimentos de grande porte, iniciados nos anos 70 – entre eles, Candiota II e Nutepa. Esta última, inaugurada em 1968, operava com óleo combustível e três unidades de 8 megawatts. Assim, em 1988, a capacidade de geração de origem térmica da CEEE chegou a 513,2 MW, incluindo a geração a carvão, óleo combustível e diesel. Em outubro de 1986 e em abril do ano seguinte, Candiota II ingressava em sua Fase B, adicionando mais duas unidades geradoras, com 160 MW cada uma, e passando a contar com uma capacidade total de 446 MW instalados, por um custo (nas duas fases) de US$ 450 milhões. Além disso, havia planos de construção de mais uma usina a carvão, Candiota III, então com início de funcionamento previsto para 1994 e potência instalada de 350 MW. Mas o projeto esbarraria na crise e acabaria sendo adiado para o século XXI.

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A torre de 133 metros que virou logomarca Não por acaso, a torre de resfriamento de água da Usina Termelétrica Presidente Médici (Candiota II) – festejada como a maior torre seca em operação no mundo, na época da inauguração – virou logomarca da Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica (CGTEE). Projetada para uma potência de até 320 MW e 2,8 mil m3/h de água, a torre foi erguida com uma finíssima casca de concreto armado e sobre uma cinta de pilares em forma de X. Com dupla curvatura, pode ser avistada a quilômetros de distância e alcança, no térreo, 124 metros de diâmetro. Os 133 metros de altura equivalem à um arranha-céu de 45 andares. Ou a um terço da altura do Pão de Açúcar. É para a torre que segue a água aquecida no processo de condensação do vapor.O resfriamento da água ocorre através da troca de calor com ar atmosférico, nos 800 quilômetros de tubos de aço galvanizado, que, escondidos em seu interior, formam um imenso radiador.

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O conjunto interno da torre é repartido em seis setores manobráveis à distância e dispõe de mecanismo especial contra o congelamento da água durante o inverno, que costuma ser rigoroso. Para alcançar as áreas de difícil acesso, os operários usavam um elevador com rolamento instalado na superfície externa da casca. Deflagrada em 1980, a obra exigiu o trabalho de 1,5 mil homens, entre operários, técnicos e engenheiros, além de 14 mil metros cúbicos de concreto armado e 1,5 mil toneladas de aço. A exatidão de seu desenho foi obtida com a leitura diária das medições, em 66 pontos da casca, por meio de distanciômetro (aparelho termelétrico) e infravermelho (radiação eletromagnética), que garantem a precisão das distâncias. A torre foi inaugurada em 22 de janeiro de 1982, como parte da Fase B da usina que, no entanto, só estaria inteiramente implantada em 1987.

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Anos 1990: o Estado recua e as privatizações avançam No Rio Grande do Sul, com boa parte da produção destinada à geração de energia termelétrica, a mineração de carvão chegou até a crescer no fim dos anos 1980 – passou dos 2,8 milhões de toneladas de carvão do início da década para os 4,5 milhões em

Capitulo XVI

1988 e manteve-se em 3,8 milhões no período de 1989-1990. Note-se que a Companhia Riograndense de Mineração (CRM), hoje a maior mineradora do Estado, já operava a mina de Candiota, no então distrito do mesmo nome, em Bagé, e a mina subterrânea de Leão I, no Baixo Jacuí; e também a Copelmi, com três minas a céu aberto (nos atuais municípios de Butiá e Arroio dos Ratos) e uma quarta subterrânea (no município de Charqueadas). A destinação do carvão, no período, era principalmente a geração de energia elétrica (2,7 milhões de toneladas em 1985), que envolvia cinco usinas: Figueira, no Paraná; Jorge Lacerda, em Santa Catarina; e Charqueadas, São Jerônimo e Candiota II,

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no Rio Grande do Sul. A indústria cimenteira – que em 1979 substituíra o óleo combustível pelo carvão energético – passou ao segundo lugar entre as grandes consumidoras, com cerca de dois milhões de toneladas em 1985. Outros clientes importantes foram as indústrias químicas, petroquímicas e de gaseificação (500 mil toneladas), as de papel e celulose (300 mil toneladas) e as empresas alimentícias (200 mil toneladas). Mas no alvorecer da década seguinte surgiu um obstáculo considerável para o carvão: uma portaria de 17 de setembro de 1990 – primeiro ano do mandato de Fernando Collor de Mello (19901992) - retirou o mineral do controle de preços do governo federal e liberou as importações ao impor a alíquota zero sobre o produto estrangeiro. O mercado (exceto o de geração de energia elétrica) preferiu o carvão importado, já que o nacional custava pelo menos um terço a mais. O saldo dessa medida foi que a produção nacional foi derrubada de pouco mais de 24 milhões de toneladas, em 1985, a produção para 11,2 milhões de toneladas em 1990. A década marcou, também, o início de grandes mudanças no setor elétrico em geral. Prevalecia na época e no governo a política de redução da presença do Estado na economia. Ensaiava-se a privatização das concessionárias federais e estaduais, separandose as atividades de geração, transmissão e distribuição e abrindo-se licitações para conceder os serviços a particulares. Entendia-se que a crise implicava no esgotamento da capacidade de investimento das empresas estatais de energia elétrica. Foi a compreensão majoritária no âmbito da gestão Collor. Logo depois, no período de Itamar Franco (1992-1994), iniciou-se a reforma da legislação dos serviços de eletricidade. No começo do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso (1995-1998), cerca de 97% da

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distribuição de energia elétrica no país ainda era tarefa do Estado. No último ano de seu mandato, as empresas privadas já comandavam mais de 50% das atividades. Sob o ímpeto das privatizações, aconteceu a reestruturação societária da Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), autorizada pela lei estadual nº 10.900, em 26 de dezembro de 1996, durante a administração de Antonio Britto (1995-1999) no Rio Grande do Sul. A alteração resultou na venda de parte da CEEE para empresas privadas. E também originou a CGTEE. À nova companhia, que permaneceu pública, coube o setor de geração de energia térmica. Ficou responsável por Candiota II (446 MW), São Jerônimo (20 MW) e Nova Usina Termelétrica de Porto Alegre (Nutepa, a única à base de óleo, com 24 MW), num total de 490 MW de potência instalada. Sem contar a unidade de apoio e manutenção – a Oficina São Leopoldo –, que presta serviços de fundição, solda, torno e fresa (corte e desbaste de metais) em eixos, engrenagens e outros. A CGTEE foi constituída em 28 de julho de 1997, como subsidiária integral da CEEE. Em novembro do ano seguinte seu controle acionário foi transferido para a União. Desde julho de 2000 está integrada ao sistema Eletrobras.

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Na virada do século, Candiota II entrou em nova fase Candiota II fechou 1995 gerando 1,45 mil gigawatts/hora (GWh). Um ano depois, a produção despencou para 1,17 mil GWh. Em 1997, a produção experimentou uma leve oscilação para cima (1,2 mil GWh) para, no início de 1998, retroceder para 1,08 mil GWh.

Capitulo XVII

Porém, a partir de dezembro, um ano e meio após o nascimento da CGTEE e apenas um mês depois da federalização, a performance voltou a subir atingindo 1,87 mil GWh, que subiriam, em 2000, para 1,97 mil GWh. De uma média de 110 mil toneladas por mês (com picos de 133 mil, no máximo), o consumo de carvão também cresceu, de novembro a março daquele ano, para 230 mil toneladas mensais, às vezes atingindo até as 280 mil. Em janeiro de 2000, com suas quatro máquinas funcionando continuamente – o que jamais havia ocorrido – Candiota II bateu na marca das 282 mil tons. mensais para uma carga média horária de 316 MW.

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É que, até 1999, as quatro unidades da usina – isto é, o conjunto caldeira-turbogrupo e seus equipamentos auxiliares – jamais haviam operado de forma contínua e com carga elevada. Já a carga horária máxima da história de Candiota II até então aconteceu em 20 de janeiro de 2000, com 424 MW. E a maior carga média da usina, deu-se em abril do mesmo ano, com 323 MW. Na época, a empresa contava com 441 funcionários – 83% dos quais sediados em Candiota – contra os 479 empregados de 1998. O capital social da CGTEE era de R$ 868,7 milhões e a participação no sistema interligado brasileiro, da ordem de 0,6%. No Rio Grande do Sul, esta participação chegava a 7,6%.

Os

custos da CGTEE, em relação à energia faturada, baixaram de R$ 86,87/MWh em 1998 para R$ 69,77/MWh em 2000, e para R$ 61,7/MWh em abril de 2001, resultando numa queda substancial do prejuízo no exercício da companhia – dos R$ 72 milhões de 1998 para apenas R$ 15 milhões no ano 2000. Na negociação do Rio Grande do Sul com o governo federal – em função da dívida com os bancos estrangeiros, assumida à época da construção das usinas –, a União acabou recebendo as três termelétricas do Estado e a oficina de manutenção. Candiota III também foi incluída no acerto de contas. A ideia dominante sob o governo FHC era de sanear a empresa para privatizá-la no futuro.

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Emissão de poluentes é verifcada a cada 10 segundos Na carcaça finíssima da chaminé de Candiota II existem três dutos provenientes dos filtros ou precipitadores eletrostáticos. Eles devem reter as cinzas originadas da queima do carvão, protegendo, assim, a qualidade do ar. Quase três vezes mais alta que a anterior – de 65 metros de altura – a chaminé erguida na Fase B de Candiota II, nos anos 1980, representou, na época, US$ 400 mil em investimentos. Naquele tempo, iniciaram-se as análises isossimétricas – que traçam o perfil das emissões da usina, para melhor efetuar o controle da poluição. Além disso, mais de 400 dos 2,78 mil hectares do terreno da usina foram reservados à preservação da natureza, inclusive na área do entorno das vilas.

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Projetada, Candiota III continuava apenas no papel Em 1998, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) chegou a lançar um edital para a construção de Candiota III. Mas a única empresa que se interessou foi a francesa Alsthom – a mesma do consórcio construtor da primeira usina. Que

Capitulo XVIII

acabou desclassificada no item preço, por estar fora dos limites previamente definidos. Com isso, a conclusão do governo e dos próprios engenheiros da empresa foi de que Candiota III, àquela altura já projetada ao lado de Candiota II, só seria viável se fosse erguida com a participação da própria CGTEE. De acordo com o plano revisado, várias instalações e equipamentos – como o pátio de carvão, os silos e o sistema de tratamento de efluentes – seriam compartilhados com Candiota II. O valor então estimado para erguer Candiota III era de US$ 410 milhões. Supunha-se, porém, que a opção de construí-la nas proximidades da usina anterior, que possibilitaria o uso de instalações já existentes, reduziria o custo de investimento

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para US$ 370 milhões. Deste total, cerca de US$ 100 milhões correspondiam a 5,6 mil toneladas de equipamentos, que passaram da CEEE para a União e então estavam sendo transferidas, sem ônus, à CGTEE. Outros R$ 500 mil foram gastos com estudos de viabilidade, armazenagem e vigilância dos equipamentos. A parte final do investimento – referente a obras civis, maquinaria adicional, montagem eletromecânica e outras – ficaria por conta do parceiro privado, a ser escolhido em processo de licitação. No segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, a CGTEE trabalhava na modelagem e na preparação do edital para a escolha do parceiro privado. Um deles, esperavase, entraria com US$ 270 milhões no empreendimento. Parte dos equipamentos havia sido comprada e estocada no local da obra. Naquele momento anunciava-se que a nova usina começava a sair do papel. Teria uma potência instalada de 350 MW, para uma produção anual média que poderia alcançar os 2,6 milhões de MWh. Outra ideia para Candiota seria o emprego, além do carvão, do óleo como combustível auxiliar. Haveria uma caldeira de circulação forçada tipo torre, para 1,1 mil tonelada/h de vapor e turbina a vapor do tipo ação, de 3,6 mil rpm. O consumo máximo previsto de carvão bruto era de 370 toneladas por hora, o que deveria render um total de nada menos que 2,6 milhões de toneladas por ano.

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O pioneiro Rubem Pradella, que trabalhou em Candiota por 33 anos, estava esperançoso em meio a certa nostalgia dos primeiros tempos, “da velha turma unida e bacana, que parecia um grupo de irmãos”. Prognosticava que Candiota III seria uma vitória maior do que foi Candiota II. “A primeira foi o desbravamento, enquanto a segunda foi mais técnica, mais profissional. Isto talvez explique a crise de passagem vivida pela turma já que a maioria tinha apenas o curso ginasial”, interpreta. “A construção de Candiota III vai se refletir no desenvolvimento social e econômico do município, atraindo indústrias e serviços que exigem energia em abundância. Vai ser muito bom. Além do mais Candiota III era um velho sonho...”

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Brasil e China se unem e usina não é só mais um sonho O sonho, porém, só se transformaria em realidade palpável dez anos mais tarde. Houve muitas idas e vindas. Funcionário desde 1979, o engenheiro civil Hermes Ceratti Marques, lembra que, quando foi concluída a instalação de Candiota II no final dos

Capitulo XIX

anos 1980, a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) -- na época, as termelétricas pertenciam ao governo estadual -- retomou os planos para erguer a terceira usina, paralisados desde 1985. Realizadas até então havia apenas as obras de infraestrutura -estradas de acesso, terraplenagem e canteiro de obras no espaço apelidado de “Candiotão”. No entanto, em 1991, a ideia de erguer Candiota III foi novamente travada,“por falta de condições financeiras para dar-lhe sequência”, esclarece. Em 1998, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tentaria, sem sucesso, privatizar o projeto. No ano anterior, durante a gestão Antonio Britto no governo gaúcho, houvera a cisão da CEEE e a privatização da parte de distribuição de energia. Com a divisão, assumindo o setor de geração de energia, nasceu a CGTEE, vinculada à Eletrobrás. E a terceira termelétrica continuava apenas uma hipótese. “Faltou vontade política, determinação”, interpreta o atual presidente da companhia, Sereno Chaise.

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A partir de 2003, o caminho para tornar real Candiota III passaria longe da privatização. Para começar, o novo modelo do setor elétrico, conduzido pela então ministra Dilma Rousseff, de Minas e Energia, retirou todas as empresas federais do Programa Nacional de Desestatização (PND). “Afirmou-se o papel público da CGTEE”, repara o ex-presidente da companhia, Júlio Quadros. Corria o segundo ano do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva quando novas perspectivas se abriram. Para isso pesaram dois fatos. O primeiro deles foi a implantação do novo paradigma para o setor elétrico. O modelo estipulava a venda de energia por um período que tornaria viável a implantação de novas usinas. Esta energia a ser gerada futuramente seria adquirida através de leilões. No caso específico das termelétricas, seriam firmados contratos de aquisição de energia por 15 anos. O primeiro leilão aconteceria em 2005. Enquanto as novas regras para compra de energia eram estabelecidas, Lula viajava à Ásia. Planejava ampliar as relações comerciais com a China. Em setembro de 2004, seria a vez da então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, visitar os chineses. No encontro, ela apresentaria os negócios que o setor elétrico brasileiro, agora com novo desenho, estava oferecendo. Eletrobras e Petrobras, então, expuseram algumas oportunidades que poderiam interessar aos possíveis parceiros. Uma delas atendia pelo nome de UTE Candiota III, uma usina com 350 megawatts. Que logo chamou a atenção dos chineses. O que se explica pela experiência dos chineses na implantação de usinas a carvão e seus avanços na segurança ambiental. “A China está em processo de substituição de suas usinas mais antigas, algo em torno de 40.000 MW”, explica o diretor-técnico da CGTEE, Luiz Henrique Schnor. “As novas unidades – prossegue -- já estão sendo projetadas e construídas incorporando toda a tecnologia de tratamento de gases”.

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As negociações avançaram e o gigante asiático enviou uma missão comercial ao Brasil em novembro de 2004. No dia 12 do mesmo mês, Lula e o presidente chinês Hu Jintao assinaram um protocolo de estudo de viabilização de Candiota III. Para afinar o entendimento, quatro comitivas chinesas vieram ao Brasil e duas da Eletrobras/CGTEE foram à China. Em agosto de 2005, Quadros integrou uma das missões, acompanhado do atual presidente Sereno Chaise e dos diretores Hermes Ceratti Marques e Luís Henrique Schnor. Na visita, firmou-se a convicção do acerto da escolha. Após notar que a China obtém 70% de sua energia através do carvão mineral, o ex-presidente justifica: “Era um parceiro que tinha interesse no investimento e conhecimento na geração térmica”.  

“Daí para frente, muito trabalho conjunto da CGTEE com o

grupo chinês Citic possibilitou a pré-contratação do fornecimento da usina”, explica Marques. Coordenador geral do projeto pela CGTEE, ele gerenciaria o empreendimento desde a viabilização até a entrada em operação comercial. Além disso, o banco chinês CDB aportou um financiamento de US$ 430 milhões, decisivo para ajudar o projeto a deslanchar. “Foi uma soma de ineditismo com pioneirismo”, define o diretor financeiro da CGTEE, Clovis Ingelfritz da Silva. Lembra ainda que “não foi fácil” administrar o processo de financiamento, especialmente pelo fato da primeira liberação do dinheiro do exterior ter ocorrido 15 meses depois da assinatura do contrato, levando a CGTEE a lançar mão de seus próprios recursos nesse intervalo. Mas a sequência do negócio ainda estava pendente da venda da energia no leilão previsto para o ano seguinte. A oferta foi confirmada para o final de 2005. No dia 12 de dezembro a energia da usina foi totalmente vendida. E a construção de Candiota III tornou-se irreversível.

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O maior canteiro de obras do Sul do Brasil Decisão tomada, energia vendida, compromisso firmado, a hora era de, finalmente, transformar o que era até sonho em realidade palpável. O que aconteceria como resultado da cooperação entre os dois gigantes do BRICS (1). Obra de R$ 1,4 bilhão, inserida

Capitulo XX

no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Candiota III marcaria a retomada da construção de termelétricas a carvão no país. “Em 25 de setembro de 2006, lançamos a pedra fundamental. Foi uma data memorável com a presença do presidente Lula e da então ministra Dilma Rousseff”, relembra Chaise. Inaugurada em 2010 e administrada pela CGTEE, sua estrutura foi erguida por empresas e mão de obra brasileiras mas a tecnologia da usina foi um aporte do grupo chinês Citic. Era a primeira vez que o Citic atuava na América Latina. As diferenças tornaram o projeto ainda mais desafiador. “A maior lição obtida ao longo deste processo – diz Marques -- foi a confirmação de que, independente de diferenças, sejam culturais, de idioma, de práticas, etc..., a união de esforços por um objetivo comum supera qualquer adversidade”.

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Durante sua construção tornou-se o maior canteiro de obras do Sul do Brasil e um dos maiores do país. “Chegamos a ter 4,5 mil trabalhadores diretamente no canteiro. Os empregos indiretos, estima-se terem atingido outros nove mil postos de trabalho”, acentua. Para dar uma ideia do porte do empreendimento, basta citar alguns quantitativos: a movimentação de terra atingiu meio milhão de metros cúbicos; erguer a usina consumiu 90 mil metros cúbicos de concreto e outros 115 mil metros quadrados de formas. Sem contar 5,5 mil toneladas de aço e 35 mil toneladas de estruturas metálicas, equipamentos e componentes. Vinte e oito mil toneladas de equipamentos ingressaram no Brasil pelo porto de Rio Grande, no Litoral Sul, e foram conduzidos por grandes carretas até o coração da Campanha gaúcha. Cifras mais impressionantes só mesmo as da imensa jazida de carvãovapor sobre a qual a usina se assenta, estimada em 12 bilhões de toneladas. Os investimentos nas obras civis atingiram R$400 milhões, dos quais R$220 milhões foram injetados diretamente na economia regional. Para fazer frente à demanda, a CGTEE, mais o Ministério da Educação (MEC) e as prefeituras da região organizaram um programa de preparação de mão de obra: a Escola de Fábrica. O projeto formou 1.520 jovens de baixa renda em diversas profissões, entre elas as de eletricista, montador, soldador, caldeireiro e mecânico. O mesmo sopro bafejou a economia de outras cidades, já distantes da Campanha gaúcha. Três das cinco grandes empresas de construção civil subcontratadas pelo Citic para erguer Candiota III eram gaúchas: Tedesco, Brasília Guaíba e Ernesto Woebke. A estrutura metálica da casa de máquinas e dos transportadores e silos de carvão, pesando seis mil toneladas, foi fabricada em

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Marau, no Planalto Médio. Para a montagem eletromecânica, o Citic subcontratou a Usimec, de Pelotas, no sul gaúcho, e a SEM, de Charqueadas, na região metropolitana de Porto Alegre. Durante os anos de construção, como o município não podia comportar tantos forasteiros, apesar dos alojamentos instalados pelas empreiteiras, diariamente filas de ônibus das cidades em torno levavam e buscavam centenas de operários. Eram 46 viagens pela manhã e outras tantas ao final do dia. Os trabalhadores vinham e voltavam para Pinheiro Machado, Hulha Negra, Pedras Altas e outros municípios. Surgiram três supermercados, seis farmácias e mais bares, restaurantes, churrascarias. Candiota III deveria iniciar a operar no dia 1° de janeiro de 2010, mas demorou além do previsto. Chaise explica que foi preciso “tropicalizar” o projeto de engenharia, adaptá-lo às condições brasileiras. “Na China – compara -- vai mais concreto nas construções porque tem terremoto mas aqui não há”. O atraso consolidou-se com uma longa temporada de chuvas e uma greve dos trabalhadores. Finalmente, a usina entrou em operação comercial em 6 de janeiro de 2011. Com a geração de seus 350 megawatts, Candiota III está capacitada a suprir a demanda de uma cidade de um milhão de habitantes.

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(1) Sigla que identifica o grupo de países emergentes integrado por Brasil, Rússia, India, China. A partir de 2011, a África do Sul juntou ao agrupamento que passou a se chamar BRICS.


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Leilões de energia podem ser a alavanca para Candiota IV A primeira usina em 1961, a segunda em 1974 e a terceira em

Capitulo XXI

2011. E quando será a vez de Candiota IV? “Estamos iniciando os estudos”, responde Sereno Chaise, com a experiência de quem aprendeu com a obra anterior. “Fazer uma usina desse porte com uma máquina só é muito pouco. Com um acréscimo de 20% no orçamento global se faz uma usina com duas máquinas”, argumenta. Seus planos vão além do mercado interno: “Para Candiota IV estamos pensando em duas máquinas justamente de 300 ou 350 megawatts até para termos à disposição máquinas para exportar para o Uruguai que está carecendo muito de energia”. Para viabilizar o empreendimento, os leilões de energia serão, novamente, a alavanca essencial. “Não podemos ficar novamente tanto tempo sem construir uma usina”, observa, notando que somente o estudo “leva de dois a três anos” e “para construir mais quatro ou cinco”. Chaise também pensa na termelétrica

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Jacuí I. Localizada em Charqueadas e sob controle privado, a planta teve suas obras interrompidas há mais de uma década. O presidente da CGTEE quer vê-la finalizada e vislumbra a saída para o impasse: a usina assumida pela Eletrobras e concluída com aporte de recursos públicos. Ele pondera que 42% da energia produzida no planeta tem por base o carvão mineral, enquanto “aqui no Brasil esse percentual não passa de 1,2%”. O que prejudica sobretudo o Rio Grande do Sul, que detém praticamente 90% das reservas nacionais. “As grandes jazidas estão especialmente na região de Candiota, Hulha Negra, Pinheiro Machado e Bagé e a CGTEE existe justamente para buscar aproveitar esta riqueza que está sediada no Rio Grande, mas que é do Brasil”. Entre o uso deste patrimônio para produzir energia e o meio ambiente existe um velho contencioso, que ele não nega. Mas repara que essa época ficou para trás. “Quando começou o aproveitamento do carvão aqui na região de Candiota, há 50 anos, não existia no mundo a preocupação com o meio ambiente, não existia legislação e evidentemente não existiam equipamentos eficazes”, relaciona. Porém, nas últimas décadas, grande parte dos países que geram energia através do carvão passaram a empregar novas tecnologias de retenção de resíduos. Com este acréscimo, o passivo ambiental não deve mais se reproduzir no século XXI. “Candiota III incorpora sistema de abatimento de material particulado e redução de dióxido de enxofre (So2)”, comenta Schnor. O rejeito é retido internamente e usado na indústria cimenteira ou como material de recomposição da área minerada. Candiota III já nasceu dotada de todos os recursos técnicos de última geração para impedir agressões ao ambiente natural. “É

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certamente – afiança -- a usina térmica a carvão mais moderna da América Latina”, ressalta Chaise. “Passa a ser o referencial para o uso energético do carvão no Brasil”, reforça o diretor-técnico. Mesmo as antigas termelétricas podem ingressar nova quadra de ares mais puros. “Em abril de 2011, assinamos um TAC (termo de ajustamento de conduta) com o Ibama pelo qual até a usina velha, a Fase B, vai receber equipamentos, filtros e dessulfurizadores”, diz o presidente da CGTEE. “Não vai mais ser possível nem aceitável produzir energia tendo como fonte o carvão mineral sem a utilização desses equipamentos”, atesta. Energia, para ele, “é uma questão básica de segurança para uma nação ser desenvolvida e soberana”. Isto não quer dizer que não haja lugar para a iniciativa privada no setor “mas o eixo, a coluna dorsal tem que ser estatal”. Esta é uma de suas convicções. Outra é de que – com o mundo se afastando da energia nuclear – e mesmo com o avanço das alternativas eólica e solar, o carvão continuará a ter um grande peso na produção de energia no mundo. “Eu vejo a CGTEE com muito futuro – prevê --porque as reservas de carvão no Rio Grande do Sul são muito grandes e seria possível gerar energia aqui para quase o Brasil inteiro”.

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Mais de 900 quintais de frutas espalhados por 99 municípios A preocupação ambiental da companhia transcende os reflexos da queima do carvão energético. O projeto Quintais Orgânicos de Frutas, em parceria com a Embrapa/Clima Temperado e a Eletrobras, serve como exemplo desta afirmativa. Agricultores familiares, assentados da reforma agrária, grupos indígenas e quilombolas recebem mudas de 12 espécies de árvores frutíferas que, plantadas e contando com assistência técnica, propiciarão alimento para o sustento da família e a venda dos excedentes. Novecentos e dez quintais já foram implantados, somando mais de 200 mil plantas e favorecendo 33.574 pessoas em 99 municípios. “Já estamos chegando ao quintal mil”, anuncia Sereno Chaise. Outra frente verde vai se estabelecer às margens do rio Jaguarão e do arroio Candiota. Acertada no TAC e assumida pela CGTEE, tratará da recuperação das matas ciliares do rio e do arroio. É uma empreitada que abrange área superior a mil hectares que receberá 240 mil mudas de espécies nativas até o final de 2014. Em 2011, entrou em operação o sistema de recirculação de efluentes líquidos, proporcionando o reaproveitamento da água captada junto ao arroio Candiota. Para monitorar partículas inaláveis foram instaladas, no mesmo ano, quatro estações nas vilas do entorno do complexo termelétrico. Outra iniciativa, desenvolvida junto com a Fundação Universidade do Rio Grande (Furg) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), estuda a viabilidade de utilizar microalgas para reduzir a emissão de gás carbônico proveniente da geração de energia termelétrica.

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Este compromisso com o ambiente natural, entretanto, vai além de Candiota e seu entorno. Através de acordo com o Ibama, a CGTEE já destinou mais de R$ 4 milhões à estação ecológica do Taim, que abarca 33 mil hectares de rica biodiversidade entre os municípios de Santa Vitória do Palmar e Rio Grande. Do valor repassado, R$ 1,4 milhão custearam a compra de softwares, câmeras digitais, livros, computadores, veículos, barcos, caminhões, essenciais nas atividades da estação. Outros R$ 1,5 milhão foram direcionados ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Os recursos serão repartidos entre os parques nacionais da Serra Geral, na divisa do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e Superagüi, no Paraná, e, ainda, na criação da Unidade de Conservação dos Campos Sulinos, em território gaúcho.  Na área social, os investimentos podem ser traduzidos, por exemplo, no projeto Escola de Fábrica que, de 2005 a 2009, qualificou profissionalmente jovens em 16 municípios. Realizado em parceria com o Centro de Educação Profissional São João Calábria, de Porto Alegre, o curso Jovens Aprendizes vai formar 33 alunos em 2011. Para o futuro, a atividade de formação profissional deverá acontecer no espaço multiuso previsto para ocupar as antigas instalações de Candiota I.

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Epílogo

Quarenta e nove anos distanciam a primeira da mais recente

usina do complexo de Candiota. São três gerações de termelétricas. Cada uma com suas peculiariedades. Ao lado dessa trajetória, existe o pulsar de outra linhagem, estendendo-se no curso dos anos que passam e composta não mais de máquinas, mas de homens. Por circunstâncias diversas, mas, principalmente, pelo fato da planta de Candiota ser a grande empregadora da região, funcionando como um dínamo que, além da energia, impulsiona a economia, dentro de muitas famílias as gerações se sucedem vinculadas às usinas. Que deixam suas marcas em muitas vidas. Como a de Godofredo Cápua: “Meu sogro foi Dirceu Irala Soares, já falecido, que também trabalhava na usina”, rememora. E um dos filhos do casal Godofredo e Glaci Cápua trabalhou na construção de Candiota III. “E com o que pode-se dizer – acentua -- que estamos na terceira geração na empresa.” Neste rol, ele também coloca mais um nome e mais uma geração. Dalmácio Soares, pai do sogro Dirceu, foi mestre de obras e construiu os galpões para guardar o equipamento que chegava do exterior para Candiota I. Também construiu barracos para abrigar os trabalhadores que participavam da montagem. Vanderlei Irala Soares, filho de Dalmácio e irmão do sogro de Godofredo Cápua, também viu sua descendência reproduzir o elo com Candiota e o ofício de eletricitário, através dos filhos Assis Brasil e Cláudio, o primeiro funcionário da CGTEE e o segundo da CEEE. A biografia de Toríbio Castro Filho compartilha uma situação freqüente entre os trabalhadores de Candiota. Solteiro, obteve

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emprego em Candiota, lá casou-se e criou seus filhos. Sua aposentadoria não impediu que a estirpe dos Castro preservasse seus laços com a atividade. De seus quatro filhos, dois – Sandro, de 39 anos, e Alex, de 37 -- são formados em Mecânica e atuam em Candiota III. Um terceiro, Rodrigo, de 33, trabalhou nas empreiteiras que levantaram a nova usina. Apenas a caçula, Isabel, que estuda fonoaudiologia em Porto Alegre, não está vinculada de alguma forma ao dia a dia das termelétricas. Veterano de Candiota I e II e casado com Marli de Vasconcellos, Rubem Pradella viu uma das duas filhas, Cláudia, ser aprovada no concurso da CGTEE. “E hoje ela é técnica em mecânica em Candiota III”, orgulha-se. Outro desbravador, Isidoro Malaguez, empregou-se em Candiota I aos 28 anos. De seus quatro filhos, três permanecem ligados ao município. Anselmo, o mais velho, é funcionário da CGTEE, enquanto Ana Maria e Rosane trabalham na prefeitura. André Maurente era um menino de11 anos quando viu a usina pela primeira vez. Os anos passaram e ele, adulto, foi chamado para trabalhar em Candiota II. Seguiu o caminho do pai, Silvio, pioneiro de Candiota I . Um de seus três filhos continua a tradição familiar, trabalhando em uma empreiteira que presta serviços à CGTEE. Uma história que se reproduz na casa de Hipólito da Cunha. Um de seus cinco filhos, Gilmar Medeiros da Cunha, é funcionário de uma subestação de Candiota II. Mas a mesma corrente que perpassa e interliga, de forma vertical, muitas histórias familiares, encadeando avós, pais e filhos ao mesmo projeto, também flui horizontalmente. Aí também existe um padrão seguido e constatado, para exemplificar, também entre os Cápua. Godofredo teve três de seus irmãos – Éldio, Sálvio e Luiz – trabalhando nas termelétricas. Outros três irmãos, desta vez de Telmo Monte – o operador João, o técnico-mecânico Flávio e o fiscal Clóvis – ali se empregaram

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e ali se aposentaram. Idêntica experiência compartilhada pelos irmãos Adão e Armando Ritta. Laços de famílias também se estendem entre os pioneiros e cunhados Hipólito da Cunha e Edmar Medeiros. Quando se percebe esse amálgama que adere pais e filhos a um projeto e que se reforça com vínculos entre as famílias -- que se estabeleceram em um lugar onde nada havia e ali moldaram seu destino, forjando uma nova comunidade – torna-se mais fácil entender as palavras que se escuta dos pioneiros. Hipólito da Cunha morava em um barraco por cujas frestas “no verão entravam os mosquitos e no inverno, o frio”. Mas isto de nada importava: “O emprego era bom, a gente era muito unido e ria à vontade”. Cunha cita um elemento-chave para entender o sentimento que move a velha guarda de Candiota: “União”. Junto com os termos “Família”, “Amizade” e “Irmandade” é quase um eco nas conversas dos precursores. “Aquela lembrança da comunidade reunida em torno do clube nos fins de semana...”, evoca Toríbio Castro Filho. “A amizade com o pessoal...”, ajuda Adão Ritta. E também Telmo Monte: “Amizade forte. Não tinha problema. Um botava a mão no fogo pelo outro.” “Era uma família principalmente a turma mais velha”, diz Alverino Alves, revolvendo o passado. “Melhor lembrança foi receber toda aquela amizade. Ser benquisto e respeitado por todos, do faxineiro ao engenheiro”. “Não tenho vergonha de dizer que cheguei aqui com uma mão na frente e a outra atrás”, lembra Armando Ritta. “Trabalhava de dia para comer de noite”. Aposentado, ele “ficou crioulo de Candiota”, tomado de uma sensação difusa de gratidão: “Hoje tenho uma terrinha e trabalho mais que muito guri novo. Planto pasto, crio umas vaquinhas e umas ovelhas. Não ganho nada, mas me entretenho”, descreve. “Pois o Armando Ritta é meu compadre, padrinho do meu filho

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mais novo”, informa Isidoro Malaguez. E prossegue na mesma trilha: “Aquilo era uma família. Quando alguém viajava, os que ficavam cuidavam dos filhos dos outros. Quando alguém fazia um churrasco sempre convidava os amigos pra dar um cortezinho...” Reminiscências povoam a memória de Edmar Medeiros, que se apresentou em Candiota vindo de Herval do Sul no despontar de 1960. “Acho falta turma antiga. Era uma irmandade aquilo ali...” Quando olham para Candiota III - de algum modo a continuação da história de cada um – percebe-se também um sentimento frequente. É um olhar que entende que a nova usina prossegue, de algum modo, a trajetória de quem pisou nos campos de Candiota quando ali nada havia. “Tá evoluindo”, deduz Vanderlei Irala Soares, que ajudou a levantar os barracos que acolheram os primeiros trabalhadores. “Nós plantamos e eles colheram”, ufanase seu colega Joaquim Luiz Gregório. Sete anos antes de Candiota I acender a primeira lâmpada ao extrair energia da primeira pedra de carvão, Anélio Rodrigues palmilhava a terra que receberia a usina e onde iria suar na terraplenagem. “Tive uma luz iluminada por Deus”, interpreta, revendo sua caminhada como operário na vila onde viveu, trabalhou, criou quatro filhos, aposentou-se e agora vê, na condição de pioneiro, a sucessão de usinas:

“Nunca na vida eu imaginava...”

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