Arte Londrina 7

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org. Danillo Villa


aos sem pecado.


REALIZAÇÃO DIVISÃO DE ARTES PLÁSTICAS CASA DE CULTURA—UEL UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA

APOIO INSTITUCIONAL

FUNDAÇÃO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE LONDRINA

Londrina, 2019.


Reitor

Prof. Dr. Sérgio Carlos de Carvalho Catalogação elaborada pela Divisão de Processos Técnicos da Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina. Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)

Vice reitor

Prof. Dr. Décio Sabbatini Barbosa Diretora da Casa de Cultura

A786

Arte Londrina 7 / organizador: Danillo Villa; colaboradora: Clarissa Diniz. — Londrina : UEL, 2019. 320 p. : il. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-7846-573-5

Maria Helena Ribeiro Bueno Chefe da Divisão de Artes Plásticas

Danillo Villa

1. Arte contemporânea. 2. Curadoria (Artes). 3. Arte — Exposições — Catálogos. I. Villa, Danillo Gimenes. II. Diniz, Clarissa. III. Universidade Estadual de Londrina. CDU 7.036

Técnica administrativa

Bibliotecária: Solange Gara Portello—CRB-9/1520

Mediações e organização dos arquivos

Maristela Cestari Panza Barboza Laura Cristina Souza, Letícia Koga e Priscila Hayashi Projeto gráfico

Gustavo André e Maikon Nery


P—8

P—28

P—150

MELHOR SER FILHO DA OUTRA

[Jo 8,1-11] DANILLO VILLA

PRECIPITAÇÕES

P—24 P—28 ½

O OUTRO NUNCA SE APRESENTA DE FRENTE

PROPOSIÇÕES MEDIATIVAS

CLARISSA DINIZ

P—30

CORPOS, REPRESENTAÇÃO, POLÍTICAS MARKO MONTEIRO

ADRIANA MORENO

P—150 ½

AGRIPPINA R. MANHATTAN ALICE LARA

ANA CALZAVARA

PROPOSIÇÕES MEDIATIVAS

ALINE LUPPI GROSSI ANGELA OD BRUNO NOVAES

CARLOS PILEGGI CLARICE CUNHA

P—152

COLETIVO DUAS MARIAS ÉLCIO MIAZAKI HÍGOR MEJÏA KAROLA BRAGA

SOBRE A VERDADE NA OBRA DE ARTE

LUISA BRANDELLI

CLAUDIO LUIZ GARCIA

um

VIVIANE TEIXEIRA

ECLUSA ERIKA MALZONI FELIPE MORELATTO HENRIQUE DETOMI ILÊ SARTUZI JOÃO PAULO RACY MARCELO AMARAL MARINA HACHEM

três

SÉRGIO ANDRIANO H. SUELLEN ESTANISLAU TALES FREY

ANDRE BARION AVILMAR MAIA CAMILA ARRUDA

PEDRO GRANDA RAFAELA FOZ RAQUEL FAYAD XIKÃO XIKÃO

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EMPRESTA-ME UM DE SEUS DIAS

TU NÃO TE MOVES DE TI

P—96 ½ PROPOSIÇÕES MEDIATIVAS

P—98

A CURVATURA DO ESPAÇO SERGIO VIZZACARO-AMARAL

CAIO PACELA DANIEL HIGA GABRIEL BONFIM GUILHERME BERGAMINI ILANA BAR JULIA PACCOLA MILENA EDELSTEIN MÔNICA COSTER NEILIANE ARAUJO RODRIGO MOREIRA SIMONE CUPELLO

P—234 ½ PROPOSIÇÕES MEDIATIVAS

P—236

AS AMARRAS DA IDENTIDADE SONIA MANSANO

quatro

P—234

dois

P—96

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AGRIPPINA R MANHATTAN ALEX DOS SANTOS

LUANA LINS LUISA BRANDELLI

BIANCA TURNER CAMARINHA CHICO SANTOS FERNANDA GALVÃO

MARÍLIA SCARABELLO MARINA DUBIA RAVI NOVAES RENÉ LOUI

FLÁVIO ABUHAB GE VIANA JONAS BARROS JONAS VAN HOLANDA

RODRIGO MOREIRA SAMUEL TOMÉ UELITON SANTANA


Organizador e curador do Arte Londrina ‡ Chefe da Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da UEL.

‡ Imaginei uma cena na qual homens de bem pedem à pedra para que ela estraçalhe a carne de um pecador, a pedra responde um profundo silêncio de espelho. ‡ Em 5 de maio de 2019, atiraram uma pedra em um dos vidros da fachada da Divisão de Artes Plásticas, nos assustamos como quando o museu pegou fogo, o artista foi atacado e acusado de pedofilia, fecharam a exposição queer, mandaram recolher o quadrinho gay, cortaram verbas de fomento à pesquisa, fizeram o dia do fogo na Amazônia, mataram Marielle. ‡ A existência de um cenário favorável à violências desta natureza, assusta. ‡ Nossa decisão foi absorver a potência do ataque, já que os artistas, e seus trabalhos, convocam nossas percepções, nos impondo questões que se expandem para muito além do bom e do mau

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Danillo Villa

comportamento, orientados pela urgência do que efetivamente é necessário que se saiba. Sempre desviam para a evidência. Esclarecem justo quando subvertem e interrogam valores. ‡ Neste cenário, o ARTE LONDRINA 7 se constitui, da arte brasileira que se ocupa das questões agora-agora. Preocupando-se em ser representativo da produção de todo o país, alocado dentro de uma Casa de Cultura de uma instituição pública, a Universidade Estadual de Londrina. São instâncias que representam conquistas, direito a saberes complexos, e é nossa obrigação fazer com que estes saberes estejam disponíveis a sujeitos cada vez mais autônomos. A distribuição do catálogo é gratuita, com a intenção de disponibilizar um material relevante e de qualidade para professores e interessados na atual produção de arte no país. Neste catálogo, as proposições mediativas não estão fixas, aparecem soltas em encartes/lambe-lambes, sugerindo meios de abordagem dos conteúdos da exposição com a qual se relacionam. ‡ Foram pensadas, elas mesmas, para serem manipuladas, como um exercício criativo de leitura, e podem ser replicadas, expandidas em diálogos, coladas em outros lugares, ter partes recortadas e repartidas, ter outros conceitos acrescidos a elas com colagens, ou seja, há infindáveis possibilidades para se pensar ações derivadas dos objetos que os artistas constituem, potencializando percepções e ações. ‡ Por participar deste empenho, agradeço à curadora Clarissa Diniz, que dividiu comigo a tarefa de analisar os 315 dossiês enviados de todos os estados do país, o que nos proporcionou uma diversidade apaixonante de conteúdos. Foram conversas muito informativas sobre os trabalhos, descentralização da produção de arte e conexões entre arte e realidade. Agradeço também os pesquisadores Marko Monteiro, Sergio Augusto Vizzaccaro-Amaral, Claudio Luiz Garcia e Sonia [ J o 8,1 -1 1 ]

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de barbear de ouro emula anatomias incomuns, de delicadezas conquistadas por processos agressivos e dolorosos. Agrippina R. Manhattan mostrará um outro trabalho seu na exposição ‡ TU NÃO TE MOVES DE TI ‡ e lá, como aqui, as dores são falas de um corpo em construção. Caminho Suave (2018), de Bruno Novaes, foi feito a partir de encontros mediados pelo Tinder1. Pequenos textos e desenhos de objetos associados ao momento são registros cheio de hiatos. O que é ignorado faz os desenhos e legendas parecerem estranhas pistas sobrepostas. Élcio Miazaki, em seu Servir-se de primeiros socorros (2017-18), usa desenhos de um conjunto de procedimentos de primeiros socorros do exército, aplicando-os sobre louças de época. Assim, ele serve o assunto: cuidados entre homens, no jantar e para a família. Contexto onde os tabus sociais se cristalizam. Sereia (2018), de Luiza Brandelli, cria uma forma regular que se assemelha a uma figura mitológica (cauda e cabelos compridos, feitos com um pedaço de jeans desfiado) para questionar a padronização das aparências do corpo feminino, fetichizado por um público machista que igualmente replica padrões de comportamentos. No trabalho Mata (2018), de Sergio Adriano H, viados, putas, pretos e trans são como miras ambulantes, anunciando, em sua infinita repetição carimbada na parede, tristes estatísticas. Nos retratos à guache Uma vez alguém disse que tinha nojo de mim, tudo bem (2017), O médico disse: rosto purulento, os outros me chamam de choquito (2018), Minha mãe acha bonito, na escola acham estranho (2018) e Minha aparência fez com que eu aprendesse a me defender (2018) de Suellen Estanislau, crianças com aparências assumidamente incomuns nos fazem pensar nas aparências adequadas. Nestes trabalhos, o incomum pode ser uma insubordinação, como um texto que 1

Rede social que promove encontros sexuais.

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Regina Vargas Mansano, que aceitaram constituir os textos que integram este catálogo e que, junto dos trabalhos, criaram outros caminhos de acesso, atalhos, outros desvios, contrapontos, ajudando a constituir um corpo conceitual mais interessante e complexo. ‡ Foi aspirando ao coletivo que montamos quatro exposições: ‡ MELHOR SER FILHO DA OUTRA ‡ Os trabalhos são como atestados de diferença, de singularidade de corpos e sujeitos que não fogem e nem abandonam as suas lutas diárias. As resistências se manifestam na exposição daquilo que é diariamente negado, silenciado, nas trocas afetivas. ‡ Um falso flerte, a escolha um tanto errática de uma pessoa, a princípio aleatória, que, quando corresponde, é informada por um cartão que lhe é entregue, que participa de um trabalho de Karola Braga. Assim é Eu estava te olhando para ver se você me olhava de volta (2015). Ao tratar do amor também nos vídeos Tentaremos não nos esquecer e Pequenos rastros e singelas ações preliminares (ambos de 2015), a artista dá algumas indicações da multiplicidade de elementos que, guardados e manipulados, constituem o território amoroso. Amor é jogo. As dimensões das fotografias do Coletivo Duas Marias, Laboratório de Frankstein V (2017), Assim seja, Fome de quê? e Mulher de marte III (todos de 2014), aproximam-se da dimensão real. Dessa forma, a presença do corpo feminino em performance é efetiva e inquiri aqueles que visitam a exposição sobre a história da mulher. Na sequência de fotografias do trabalho Vestido (201415), de Tales Frey, o próprio artista prova vestidos de noiva em diferentes lojas de aluguel de roupas de festa. Repete uma ação e as pessoas com as quais o artista se relaciona o colocam, a cada vez, em situação de teste e são também testadas por ele em seus preconceitos e tolerâncias. O Abuso da Beleza ou A travesti que queria ser artista (2018): neste trabalho, uma lâmina A RT E LO N D R I N A S E T E


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questiona as relações de poder que estabelecemos com os animais tornando-os “coisas” nossas e idealiza, em seus Olhando e olhados (2018), Encontrar algo perdido (2018), Por um obscuro caminho ele me acha (2017), Ilustrando fantasias, (2017) e Tão longe como nos sonhos (2018), a harmonia entre animais e homens. ‡ EMPRESTA-ME UM DOS SEUS DIAS ‡ No conjunto de fotos Transparências do lar e Toninho, pré-história (ambos de 2017), de Ilana Bar, família, plantas e animais, interagem sob uma luz precisamente afetiva, que a tudo cobre de mistério, maciez e amor. Espelhos criam invasões nas cenas. São sujeitos que, para verem-se, oferecerem-se à visão do outro, presentificam-se, via reflexo, no espelho que está na mão do outro. Há uma profunda e interessantíssima simbiose, os sujeitos guardam-se/cuidam-se refletidos entre si. No Espaço para gerar Espaço (2018), Gabriel Bonfim reproduz as medidas de seu próprio quarto num quadrilátero vermelho pintado no chão da DaP. Entre espaço privado e público, o artista se interessa pelo ruído entre estas fronteiras, dialogando e questionado a cidade como espaço para todxs. O trabalho funciona como uma autorização a priori para experiências exploratórias de sujeitos no exercício de suas liberdades. Criticamente, Neiliane Araujo apresenta desenhos, parte da série Gráficos: Gráfico Paciência x Tempo; Gráfico Tempo x Distância; Gráfico Amor x Pessoas; Gráfico Mulher x Igreja e Gráfico Abandono x Comunicação (2015–18) para esclarecer que a racionalização de alguns assuntos gera um corpo abstrato, um desacordo, uma forma inesperada. Há uma desobediência implícita a algumas imposições entre igrejas e mulheres, por exemplo. Pausa (2017), de Daniel Higa, é uma espécie de maca construída com bambus amarrados, nela nota-se efemeridade, improvisação, recursos simples e renováveis, buscando elementos básicos de arquitetura, que [ J o 8,1 -1 1 ]

previamente revisa o discurso sobre o que é socialmente aceito. Em Viviane Teixeira, suas pequenas pinturas What r u looking at? – Female (2017), What r u looking at? – Male (2017), Chapter I, Cena II – O Dançarino (2017), Cortem-lhe a cabeça! (2013) e Goodbye Beautiful Queen (2013) apresentam rainhas em cenários onde multiplicam-se figuras fálicas que problematizam as relações entre os gêneros e o estabelecimento dos poderes. Cafungadinha na virilha e O teu longe bate por mim (ambos de 2016), de Hígor Mejïa, mostram homens nus, desejados e desejantes. Um deles pintado sobre uma tábua de carne azul. Transpondo sentidos, Higor associa imagem pintada, objetos e palavras para que a forma não delimite os usos, as mudanças de uso, os desusos e abusos dos desejos. ‡ Os corpos, presentes na maioria dos trabalhos, sugerem experiências de enfrentamento. ‡ Com Aline Luppi Grossi e os trabalhos SOUL Dessas / Beija eu (2017) e Experimento manequim (2018) somos convidados para sua ação performática: para abraçá-la, beijá-la e olharmo-nos no espelho, encarando nosso próprio corpo a partir de afeições e empatias. Nos bordados Bestiário do cara da espada (2018) e Bestiário (2018), de Angela Od, derivação crítica da experiência de horas ininterruptas e diárias de exercícios de bordado em um colégio interno católico, aparecem, nos fios agora tensionados, nos recortes e na riqueza de detalhes, genealogias de lutas que atualizam os dramas humanos. O eterno conflito entre o animalesco e a civilização; a contemplação e a revolução; o sagrado e profano. Adriana Moreno usa tusche liquefeito. No processo, a geração de suas imagens se ajusta ao comportamento dos materiais, em cinco litografias sem título produzidas entre 2017 e 2018, surgem formas a partir da sedimentação e do acúmulo do tusche, que se assemelham a células embrionárias arquetípicas, originárias. Alice Lara A RT E LO N D R I N A S E T E


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Por favor tire as luvas (2018) há um elogio ao toque na relação com o corpo, no reconhecimento de um corpo real no momento em que se experimentam os materiais que registram essa experiência.Mônica Coster, em seu vídeo Como atravessar uma montanha (2017), sugere a recuperação da energia e do sentido mágico contido na ação. Algo como a crença na criação de alternativas sempre interessantes a qualificar a vida que se leva. ‡ PRECIPITAÇÕES ‡ As precipitações presentes na formação de cristais fazem com que os elementos se juntem e, a partir de suas estruturas moleculares, se organizem. Precipitação é também o movimento de uma inevitabilidade, uma pressa para não conter o que transborda, de projeto à existência, com uma certa velocidade. ‡ Lançar-se em precipitação ajudaria a escapar da sensação de falência que as polarizações esquizofrênicas nos obrigam? ‡ As fotografias, pinturas, objetos e instalações funcionam a partir de um deslocamento de função. Algo será dito sobre elas e sobre sua constituição, que colocará em duvida sua pretensa familiaridade. O funcionamento dos objetos artísticos depende dessa potência, mas a questão é que, ao nos desviarmos das evidências óbvias e dos usos costumeiros, um novo conjunto de afetações aparecem. O que temos quando nos é entregue o sistema de constituição das imagens que desautoriza ilusões auráticas? Semelhança, procedência identificada e reconhecimento são elementos afirmativos sobre seus sentidos e significados? Estabilizam os objetos? O que nos coloca a duvidar do que vemos? O que determina a longevidade de uma imagem? Como se constituem nossas expectativas de estabilidade? Que ações podemos desenvolver para perder os sentidos ou criar sentidos novos? Quantas vezes retornamos à isca, ao estímulo intermitente que nos faz cumprir o que se espera de nós? Quão óbvios somos nos ajustes que fazemos [ J o 8,1 -1 1 ]

provocam, no seu efetivo uso, já que pode ser ajustada ao corpo como uma mochila, novas percepções do espaço onde se insere. As Medusas (2013-16), de Rodrigo Moreira, apresentam flores como nos livros de botânica e, onde deveria conter textos explicativos sobre sua anatomia, há informações, notícias sobre crimes, como normalmente aparecem em jornais. Beleza e tragédia como lados de uma mesma moeda. Nas pinturas de Caio Pacela, Exercício para se procurar a liberdade em um outro território #2 (2017); O outro nunca se apresenta de frente (2017); Retorno (2017); Pecado estrutural (2017); Primeira pessoa (2016); Não temos ideia, mas suspeitamos (2016); Sem título (2017) e Davi não sabe onde está Golias (2017, aparecem sujeitos em ações sem sentido, com a cabeça enfiada em geladeiras, deitados sobre pias de cozinhas. São corpos que desobedecem a normas e esse desvio, segundo o artista, cria uma perspectiva que questiona o controle a que somos impelidos pela repetição de informações alienantes. Simone Cupello apresenta um bloco maciço de fotos apropriadas, prensadas e esculpidas. Seu Sorrisos em Caixa (2017) tem arestas arredondadas e é possível inferir que se trata de uma reflexão sobre a memória, que se torna plástica quando submetida ao desejo presente. Ainda sobre a memória, Guilherme Bergamini, em suas séries de fotos In memorian (2017) e Educação para todos (2014), esclarece, a partir da ruina e do esvaziamento, algumas perdas inevitáveis. Aparentemente, a memória sempre é sobre o que não está. Milena Edelstein sobrepõe imagens no seu Bom Retiro é Coreia (2015-17). Com ele, tempos e espaços se cruzam para questionar discursos que se pretendem hegemônicos sobre a história de constituição de comunidades. Julia Paccola refotografa imagens de seu arquivo pessoal no trabalho Detalhe de Imagem (2017) e, assim, revê o protagonismo das figuras presentes. Em seu A RT E LO N D R I N A S E T E


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ritualizam a montagem e a interação do público. O coletivo Eclusa participa com Modelo para estação marciana (2017), uma instalação que conta com a participação do público para ficcionar possibilidades e desenvolver ações de extensão criativa. Erika Malzoni cria sistemas de trocas com Escambo (2017). Na exposição, estão presentes o registro em vídeo da ação, e alguns objetos resultantes. Interessa à artista estabelecer novas tessituras para as relações entre as pessoas, de trocas diretas e de vozes que se tornam audíveis na partilha. Felipe Morelatto pinta a partir de imagens digitais, dá a elas espessura com a intensão de expandir a complexidade do diálogo entre as origens e fins do trabalho de arte. Apresenta quatro trabalhos: Armadura (2018), Uncanny (2018), Maquina Número 2 (2017) e Prototype (2017). Neles, a velocidade virtual/digital se submete à contemplação. Henrique Detomi questiona a constituição do espaço, real e pictórico, com 4 pinturas de sua série Pequena ode ao vazio (todas de 2018). Uma pequena parte da paisagem foi retirada no processo da pintura, mas aparece como uma percepção ausente, uma peça a menos para a segurança da nossa pretensa percepção do todo. Ilê Sartuzi usa equipamentos/máquinas, que, nos seus trabalhos Arnold Schwarzenegger (2018); Sem título (videgame_glitches) (2018) e Sem título (vedetes) (2017), têm comportamentos estereotipados para ironizar nossas pretensões de racionalidade. ‡ João Paulo Racy apresenta Legado (2017), resultante de uma investigação sobre a gentrificação dos centros de grandes cidades. Usa 17 moedas comemorativas dos Jogos Olímpicos de 2016 como monumentos/memória de um projeto pretensioso e socialmente fracassado. Marcelo Amaral recorta cadeiras de praia coloridas e fixa nas paredes. Nos seus três trabalhos Sem título (todos de 2018), reitera um pensamento pictórico a partir de escolhas entre [ J o 8,1 -1 1 ]

tentando fazer coincidir nossas ideias de aparência e essência? Por que evitar a vertigem? Com essas indagações olhamos para estes artistas. ‡ Ana Calzavara apresenta as pinturas Eu estava aqui agora e Visão interrompida (ambos de 2018) e duvida, pintando, da pertinência e permanência da pintura como possibilidade de reflexão e materialização de cenários e eventos muito efêmeros. ‡ Xikão Xikão, com seus ALTERSelfie e Selfie Service (ambos de 2016), discute gênero, sexualidade, raça e outras questões a partir da autorrepresentação. Um número infinito de imagens de pessoas poderia ser percebido como ele mesmo, e o que pretende com isso? Mostrar que somos muito mais parecidos uns com os outros do que imaginamos? Menos únicos? ‡ A Árvore Cansada (2018), trabalho de Andre Barion, abandona soluções esculturais para fazer o objeto performar desnudando-se. Da série Pulsa, Avilmar Maia apresenta Espelho, espelho meu; Fuga para o Egito; Esfinge; Mamma e Gaia (todos de 2017). Reconfigurações e estética Frankenstein são recursos, respostas sobre como os corpos se socializam, como espécies de colagens. Natureza extravasada é o nome que Camila Arruda dá aos substitutos industriais que reproduzem experiências de paisagem. Seu trabalho Perdidos em dimensões (2017) oferece o simulacro como meio de suprir nossas necessidades de transcendência. Carlos Pileggi questiona a partir de Cartões de visita (2016-18); Thirty years (2017); Situação (2015); Oportunidades (2018) e Desenho/desastre (2018,). Graficamente potentes, com hachuras desobedientes e objetos/comentários mordazes, as obras mostram como a ironia é um antídoto à passividade que o sistema das artes tenta impor à percepção crítica. Clarice Cunha colhe detritos de diferentes procedências e reconstitui em tótens uma possível geologia da cidade. Em Marcadores (2018), estes resíduos, ao se equilibrarem precariamente, A RT E LO N D R I N A S E T E


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imagem e dos textos presentes em seu trabalho, mimetiza informação crítica na aparência, como nos trabalhos que apresentou na exposição. ‡ EMPRESTA-ME UM DE SEUS DIAS ‡ . A diferença é que aqui, mais especificamente, denuncia criticando casos de crimes homofóbicos. Há um conjunto de meios de representação que passam pela exposição das condições nas quais alguns sujeitos vivem. Essa contingência torna o sujeito representante de um tipo humano e, longe de ser redutora, é problematizadora sobre as distâncias e instâncias conectadas a um dado objeto, informação, aparência, comportamento, transgressão, agressão, corpo, trabalho, partilha. Assim, os objetos solicitam um empenho para a escuta das conexões estabelecidas com o espaço de onde aparentemente vieram, reverberam esses códigos para dentro da galeria, contaminando-a como parte de um acontecimento reconhecível, não necessariamente artístico. Agrippina Manhattan, que participou da exposição ‡ EMPRESTA-ME UM DE SEUS DIAS ‡ volta com os trabalhos Comunhão. Perfume (2017) e Carta para alguém (2018). Sangue e bula de remédio esclarecem as dores íntimas, as curas químicas, as pequenas farsas e a gravidade da beleza no universo trans. Nos trabalhos de Flávio Abuhab - Brazilian way of life; Brazilian way of life II; Consumição (todos de 2017); Segundo movimento e Terceiro Movimento (ambos de 2016) - aparecem pacotes muito semelhantes aos apreendidos com drogas pela polícia, permanecem como um tipo de apreensão e denúncia sobre a circulação de alguns produtos, informações. Alex dos Santos repete sentenças em suas pinturas/assemblages Todo dia fazendo a barba (2011) ou ainda Onde vamos cagar (2017), escolhendo a ironia como alternativa ao hábito. Bianca Turner com os vídeos Uma (2018) e Cidade Corpo (2017) aponta para os conflitos entre a busca da representação feminina e as figuras públicas que [ J o 8,1 -1 1 ]

materiais disponíveis e incomuns. Marina Hachem submete a memória às necessidades, como se reconstituísse um palimpsesto. Com seu trabalho Daisy (2017), sugere que é possível constituir a própria história, que tudo se pode por onde houver falta. Pedro Gandra apresenta o díptico Correspondências Incompletas: Exploda através das montanhas (2016-18) e, via título, estabelece um conflito na complementaridade das duas pinturas, na narrativa decorrente da proximidade. Rafaela Foz usa painéis de led nos seus José Pancetti, John Constable e Alfred Emil Andersen (todos de 2017). Assim, especializa imagens e reconstitui paisagens mediante um esforço de imaginação e memória de grandes pinturas históricas. No vídeo Sem título (2015), inverte e repete uma cena para que uma sensação específica de espaço e tempo aconteça. Essa pequena mudança de perspectiva interfere poeticamente na narrativa, suspende a força gravitacional. Cria vento onde havia queda. Raquel Fayad emula a maciez da memória e o movimento ininterrupto do esquecimento ao propor um jardim japonês na sua instalação participativa Campoamor (2017), feita de grãos de café. ‡ O deslocamento do discurso, a sobreposição ou justaposição incomum de algumas informações nos fazem encurtar alguns caminhos e ver já o que veríamos depois. ‡ TU NÃO TE MOVES DE TI ‡ Olhar o trabalho dos artistas como uma evidência de ação política, como uma negociação simbólica que se articula com a constituição do sujeito. As heranças culturais indígenas violentadas em Paridade, Paridade A, Paridade B e Paridade (2017-18), do artista Ge Viana. As redes como objeto de carga antropológica a identificar territórios e seus sujeitos nas fotografias Esperando a caça e Soldados de borracha (ambos de 2017), de Ueliton Santana; as Estratégias de segurança (2014), de Rodrigo Moreira, que nas variações das dimensões da A RT E LO N D R I N A S E T E


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mundo, suas informações e materiais mais imediatos, fazendo com elas uma espécie de mapeamento criterioso, para que não seja maniqueísta ou hipócrita dos comportamentos. Impregna os corpos e as experiências de processos industriais e vice-versa em relações onde se contaminam a sedução e a repulsa; o industrial e o orgânico; a geometria e o informe e a elegância e a sujeira. Marília Scarabello constitui, a partir de apropriação, seus trabalhos Bandeira (2016-18), Intervalo: uma área de terra contendo 6.000 pés de eucaliptos de quatro cortes e 120 bananeiras (2017-18), Intervalo: uma casa de moradia (2017-2018) e Mastro (2016-18). Dilui símbolos de aparência e significados determinados, como a bandeira do Brasil. Sobrepõe fotos e documentos de descrição de terrenos. Evidencia o desacordo entre o que é oficial e o que é a realidade, o que se vê e seu registro. Marina Dubia usa a escrita como “prática desmaterializada, barata e nômade” e cria estratégias de desconstrução e revisão dos sentidos, transgredindo o pensar hegemônico em seu trabalho Perguntas para o povo brasileiro (2018). Ravi Novaes cria o que chama de monstrocultura brasileira. Sua Saúva (2018) é parte de um conjunto de gravuras impressas sobre páginas de história em quadrinhos, fazendo delas lambe-lambes e colocando em circulação, invadindo os espaços urbanos com alguns elementos de nossa cultura popular e conferindo potência a alguns monstros do nosso imaginário. René Loui apresenta o trabalho Maré, version partagée (primeira exibição em 2017) do CIDA - Coletivo Independente Dependente de Artistas -, que gera uma performance na qual se corporifica o amor a partir células coreográficas abertas à improvisação. Samuel Tomé, em seu trabalho Grande Circular, utiliza o transporte coletivo como uma guia de navegação pela cidade, cruzando bordas e atravessando fronteiras. Apresenta, no ARTE LONDRINA, Estou [ J o 8,1 -1 1 ]

legalmente nos representam, além de criticar a histórica masculinização do poder. Numa outra ação que gera vídeo e áudio, identifica os torturadores atuantes na ditadura, interferindo com adesivos nas placas das ruas que receberam seus nomes. Camarinha questiona com suas pinturas Butchers Market (2018), Fresh Meat (2016) e Butchers III (2017) o consumo desenfreado, usando a metáfora do açougue, sugerindo que tudo se carnaliza e pode ser consumido vorazmente. Chico Santos produz Vídeo art (2018), que faz parte de um conjunto de ações para validar uma narrativa inventada, invade o discurso cotidiano de uma pequena cidade no Paraná e contamina o sermão de um padre, injetando a ficção que deriva de suas casinhas caminhantes. Como Fernanda Galvão, que cria o vídeo instalação Jgiwblows (2018) com narrativas absurdas, interplanetárias e de monstros, com materiais baratos e aparência lisérgica. Jonas Barros, que produz seus trabalhos em uma fazenda no Mato Grosso, apresenta aqui o Dialetos 2 (2018), questionando o lugar de fala da arte contemporânea a partir da reafirmação de imagens que derivam de sua lida diária. Jonas Van Holanda propõe que não existia diabo na cultura indígena pré-colonial, que o conceito foi trazido pelos europeus com intenções de identificar o diferente como o mal e justificar sua dominação. Seu Inominável (2017) consiste em uma arcada dentária feita com resina acrílica e ametistas e um áudio em loop com 517 sinônimos de DIABO encontrados em uma residência que o artista fez na Bolívia. Luana Lins explora a imagem clichê do feminino. Seus trabalhos Mulheres rodadas (2018), The Eyful (2018) e Todas as mulheres são troféus (2018) usam diferentes fontes e mídias para indicar, com ironia, a difusão de exemplos de comportamentos notados, julgados e esperados das mulheres. Luisa Brandelli com seu Sem título (pulseiras) (2016) quer estar junto das aparências do A RT E LO N D R I N A S E T E


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em chamas (2017) e Nada pode ser feito até o tempo moderar (2017) e pretende atentar para a vida que se constrói coletivamente, reconhecendo a diferença e a pluralidade. Utiliza o transporte coletivo como uma guia de navegação pela cidade, cruzando bordas e atravessando fronteiras. ‡ Nas exposições, há um ruído das potências do cotidiano, do olhar livre, que a tudo adensa. Fica a sugestão de dedicar-se a perceber as batalhas que transbordam deste ARTE LONDRINA. Encerro com o desejo de que a arte transfira consistências, consciências e sabote as materialidades. Que torne o corpo, o copo e o voo coletivos. Que nos permita ver deuses em maçãs, nxs moçxs de todos os gêneros em objetos ordinários de todos os tipos. Vamos deslizar no piso molhado, trans-bordar, sobrar, exceder. Vamos lutar de braços abertos pelas bênçãos da luz, ficar suficientemente nus, nos abrirmos até as lágrimas, ascender ao pó, aspirarmos aos corações doentes e rejeitar o que não for mestiço, crioulo ou místico. Faltaremos às avaliações, nos reprovaremos em qualquer regra, nos desgovernaremos espalhando pistas falsas, nos espantalharemos! Ser o outro, agir como se fossemos, respeitá-lo por empatia, não como regra social, mas como estratégia de redescoberta de si.

A RT E LO N D R I N A S E T E


Curadora e crítica de arte ‡ Professora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro—RJ.

“O outro nunca se apresenta de frente”, título de desenho (2017) de Caio Pacela, sentencia a imagem de um homem deitado sobre o balcão de uma cozinha, com seu rosto enfiado na pia. Esse corpo inteiro em seu inesperado modo de restar – estendido, mas também escondido – devolve, a nós que o olhamos, a dúvida acerca de quem é o outro ao qual o título se refere. E é assim, enviezadamente, quando não de costas, que se faz um programa de exposições por meio da análise e seleção de centenas de portfolios. ‡ Aquilo e aqueles que não vemos de frente provocam sobressaltos quando dão algo a ver. Um pedaço do rosto, a voz, um gesto, uma confissão. Dos interstícios do desconhecimento recíproco que constitui essa relação surge, inesperadamente, uma espécie de poder. Não o poder canônico, aquele que tem nome e cara, mas um que se estabelece pelas lacunas, pelos hiatos dos

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Clarissa Diniz

sentidos, pelos vácuos das imagens. Um poder de contra-ataque ao saber daquele que percebe, diante das costas do outro, saber ainda menos do que poderia imaginar. Assim, silenciosamente contrariando o poder do juízo sobre o outro, o curador que se aventura nessa enxurrada de subjetividades portfolizadas é também presa diante do poder daquilo que ele desconhece, e que se impõe por entre as lacunas do mito de seu próprio conhecer. ‡ Evidentemente, quase sempre condicionados a uma lógica economicista nessa relação de análise e seleção – por meio da qual se capitaliza ainda mais aquilo que já compunha nosso capital, produzindo a sensação de que sabemos “Identificar a boa arte” quando, em verdade, o que se passa é que só a arte que é boa para nós se torna passível de receber nossa legitimação de sua identidade –, costumeiramente pouco somos surpreendidos. Também porque igualmente viramos as costas, ou porque o outro abaixa a guarda. ‡ Mas há, uma vez na vida e outra na morte, situações em que a surpresa se estabelece porque o contra-ataque é efetivo. Portfolios-armadilhas podem forçar que se rearticule momentaneamente a ordem vigente dos poderes do juízo ao operar em suas lacunas. Ao precipitá-las. Ao deixar evidente que elas são muitas. Assim, constrangidos, somos também devorados por nossas presas. Porque desarmada de modo insuspeito, a cadeia social da devoração onto-epistemológica que estrutura o processo de seleção de um “salão de arte” ficou significativamente fora de controle neste Arte Londrina 7. ‡ 2018 foi, como vimos, um ano em que as mais perversas dinâmicas sociais ficaram escancaradas. Ainda que a maior parte delas se mantenha devidamente camuflada e protegida, talvez algo desse rebuliço político tenha enchido xs artistxs de tesão (e necessidade) por esse contra-ataque, reverberando, no âmbito da seleção do Arte Londrina, a histórica e programaticamente O O U T R O N U N C A S E A P R E S E N TA D I F E R E N T E

O OUTRO NUNCA SE APRESENTA DE FRENTE

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O O U T R O N U N C A S E A P R E S E N TA D I F E R E N T E

construída resistência pela ocupação de lugares de visibilidade e legitimação. ‡ Lá estavam elxs, devidamente armadxs com os nossos vazios. ‡ Não se apresentaram de frente porque não o sabiam fazer, justamente porque é essa rotação identitária o fundamento de seus portfolios-armadilhas. ‡ Menos explicações, menos justificações, menos convencimentos, menos currículos, menos filiações, menos mensagens, menos contextualizações, menos licença. Sem generalizações, é preciso notar, todavia, que se mostrar com alguma inclinação é afirmar que sua existência resguarda frontalidades e sentidos para outros territórios. De lado, abaixados, de costas, em movimento, recobertos, em bando: os portfolios-armadilhas, ao fugir desse outro (que, no caso, éramos eu e Danillo Vila), esquivavam-se do tiroteio economicista do juízo crítico e aí, já sem balas no cartucho e sem alvo certo, pudemos sentir o poder daquilo que nos escapa. ‡ A seleção que fizemos foi, nesse sentido, uma espécie de aula aberta não sobre o que sabemos acerca dxs artistxs selecionadxs, mas sobre o que é preciso conhecer. Ou melhor, sobre o que gostaríamos de conhecer. O que nos levaram a achar que seria importante conhecer. Acerca do que, fundamentalmente, desconhecemos. E que esperamos que tenha seu direito a não se apresentar de frente devidamente exercido.

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QUAIS TRANSGRESSÕES VOCÊ JÁ COMETEU?

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ANIMAIS SÃO SEUS IGUAIS.

QUE ELEMENTOS E ESTRATÉGIAS VOCÊ USA PARA SER DESEJADO? QUANTO VOCÊ ESTÁ DISPOSTO A PAGAR PARA SER VOCÊ MESMO?

COMO A TECNOLOGIA ATUALIZA OS SEUS AMORES?


Prof. do Departamento de Política Científica e Tecnológica, Instituto de Geociências, UNICAMP.

Arte e corpo ‡ O corpo como nexo de práticas e como imbricado de instituições de saber é um elemento fundante de partes centrais da cosmologia ocidental, sem falar das outras cosmologias que nos compõem enquanto brasileiros. Isso ajuda, em parte, a explicar a nossa fascinação com o corpo, sua representação e suas materialidades, além é claro de suas transformações e práticas de construção e reconstrução. Não se trata aqui apenas de pensar o corpo como tema (da arte, da ciência), mas também como nódulo denso em circuitos de relações, de práticas, de instituições e de materialidades que são múltiplas e fortemente disputadas. E nessas disputas, o corpo muito comumente ocupa lugar central, sendo assim objeto de recorrente fascinação. ‡ Assim, quero pensar, aqui, o corpo também como lócus e campo de disputas: disputas em torno do que pode ser representado, e daquilo

que pode (ou não) existir. Em tempos como os atuais, onde essas lutas ganham contornos mais sombrios e definitivamente bizarros, colocando em xeque nossa recorrente ilusão de um tempo que progride inevitavelmente ao “progresso”, é salutar que essa exposição promova mais um encontro com corpos múltiplos e nos convide a debater essas materialidades, essas disputas e as instituições e relações de poder que essas práticas ajudam a construir, reforçar ou subverter. ‡ Pensar o corpo é, portanto, uma das formas pelas quais podemos acessar questões maiores a respeito da política Visitantes observam arte moderna e da representação. O corpo como lócus de na exposição “Arte Degenerada”, realizada em Munique, 1937. intervenção é, há séculos, um eixo importante de formações políticas, movimentos e ideologias. Disputar o corpo é, assim, disputar também as políticas do possível e do desejável. Como nos legaram muitos pensadores, a produção do desejável é inextricavelmente também a produção dos indesejáveis, e o papel da arte em produzir reflexão sobre corpos é sempre uma fonte de inspiração, crítica e subversão da maior relevância política. ‡ Não por acaso, a arte é também lócus de disputa política desde sempre. Um exemplo já paradigmático, fundante da política contemporânea, é a infame mostra “Arte Degenerada”, de julho de 193711, que marcou o auge do regime nazista alemão contra a arte moderna. Essa mostra ilustra como movimentos autoritários buscam higienizar a arte ou definir o que é desejável a partir do

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Marko Monteiro

1 http://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo328/arte-degenerada

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CORPOS, REPRESENTAÇÃO, POLÍTICAS

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2  A liberdade de Pádua é universal para todos

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impressionante de notáveis da história da medicina e da anatomia, dentre eles Andreas Vesalius, fundador da anatomia moderna. Vesalius é celebrado como tal por ter estabelecido as bases daquelas formas de produção de conhecimento sobre o corpo que ainda hoje ajudam a nortear o que entendemos como produção de verdade: a observação do corpo empírico deve ser a base da produção do conhecimento verdadeiro, em diálogo com a teoria. As dissecações de cadáveres tomam, ali, uma importância cada vez maior, no ensino da medicina, e a busca de observar, dissecar e representar de maneira fidedigna o corpo biológico na sua materialidade toma lugar central nas práticas de produção da ciência moderna. ‡ É difícil, portanto, subestimar a importância que Pádua teve na construção desse grande arcabouço de práticas, saberes e relações que hoje chamamos de ciência moderna; mas são, por vezes, esquecidos os nexos e relações que tornaram esse edifício possível; ou mesmo, do constante trabalho de reiteração e manutenção desse grande conjunto, que é portanto tão provisório quanto qualquer outra instituição ou prática humana. A história de Pádua nos lembra que a universidade, e a ciência moderna enquanto tal, emerge de disputas e da busca de liberdade e autonomia, estando assim imersa em conflitos e disputas políticas desde o século 13. ‡ Corpos e políticas ‡ O Brasil do século 21 é, especialmente desde os Pintura da série “Criança Viada”, de Bia Leite, parte da exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”.

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controle de manifestações artísticas, sendo o corpo muito recorrentemente fonte de escândalos dos mais diversos tipos: a arte que mostra corpos degenerados e doentios seria assim ela própria degenerada; corpos distorcidos seriam propaganda velada e um ataque ao “normal”; corTeatro anatômico de Pádua, primeiro teatro permanente a pos doentios seriam, de acordo ser construído na Europa. A foto, tirada do ponto de vista cadáver, mostra as estruturas nas quais estariam os com esse tipo de mentalidade, a do alunos a observar o professor enquanto este performava a e a explanação. Esse ponto de vista problematiza expressão artística de uma dege- dissecação no visitante a dualidade sujeito/objeto, tão cara à ciência, neração moral e política a ser com- nos forçando a estar no lócus do objeto, do corpo observado e dissecado. [foto do autor] batida. ‡ Ciência e representação ‡ A ciência moderna deve muito às práticas de conhecimento sobre o corpo. As tecnologias sócio-materiais de produção de verdades empíricas emergem, dentre outras formas, associadas também à observação, dissecação e representação do corpo humano. Um lugar onde tais acontecimentos tiveram início é a Universidade de Padova, na Itália, lócus de desenvolvimento de tantas das nossas maneiras científicas e artísticas de perceber, catalogar, mensurar e escrutinizar o corpo humano. ‡ Cabe relembrar aqui o lema da universidade e as relações que ele ecoa: Universa Universis Patavina Libertas2 ‡ A universidade, como recontam as narrativas heroicas sobre seu surgimento, é fundada em 1222, a partir da fuga de alunos e professores de Bolonha, que buscavam maior liberdade acadêmica e autonomia. Reconhecida como a segunda universidade a ser criada no mundo, Pádua abrigou um número

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movimentos de junho 2013, campo de batalha político, social e cultural. Conectado a um movimento global de descrença com a ciência e com a democracia, o Brasil representa hoje talvez um dos exemplos mais radicais desse deslocamento das formas de vida antes aparentemente sólidas. E a arte foi, como em vários lugares, frente precoce de disputa. Exemplos disso são a obsessão insistente de alguns grupos conservadores com a suposta sexualização operada pela arte ou com a representação e visibilidade das sexualidades dissonantes enquanto fonte de todo o mal social e moral. Sem falar nas nefastas intervenções do sistema judiciário em mostras de arte, que passam a ser chamados para mediar o gostos artístico3. Vivemos aqui e agora lutas cada vez mais explícitas e a arte, como campo de batalha, participa de forma importante desses movimentos. ‡ Um ponto de inflexão no debate público brasileiro sobre esse tema foi a performance “La Bête”, do artista Wagner Schwartz. A performance, ocorrida na estreia do 35º Panorama de Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna de SP (2017), gerou intensa controvérsia e colocou em evidência a questão da suposta sexualização da infância como projeto “degenerado” da “esquerda cultural”. Outro momento marcante dessa disputa foi a mostra “Queermuseu”, que chegou a ser cancelada após protestos de grupos contrários à sua realização. ‡ A visita de oficiais de justiça a uma mostra de arte para averiguação de possíveis crimes marca, a meu ver, um rompimento com a noção de liberdade artística e abriu a porta para a transformação do gosto artístico como questão de polícia e de justiça, um precedente que certamente colocou em outro patamar as disputas em torno do corpo e sua representação, mas também pôs em

risco noções arraigadas de liberdade de expressão e de pensamento que ajudam a explicar nossos dilemas políticos atuais. ‡ Por isso, é essencial celebrar e vivenciar espaços como este, onde a arte continua problematizando e subvertendo formas de pensar, visualizar e interagir com corpos. A visibilidade é sempre política, e parte de instituições e relações sociais onde o poder é constitutivo. Disputar as visibilidades possíveis do corpo é, assim, continuamente problematizar os limites impostos por movimentos “higienizadores”, limitantes, autoritários.

3 Um exemplo foi a obra “Ropre”, de Alessandra Cunha, retirada pela polícia de um museu em Campo Grande em setembro de 2017 por supostamente incitar a pedofilia (fonte: https://veja.abril.com.br/ entretenimento/obra-que-denuncia-pedofilia-e-tirada-de-museuacusada-de-incita-la/).

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S Ã O PA U L O — S P

Adriana Moreno

Adriana Moreno nasceu em 1989 em São Paulo onde vive e trabalha. Artista visual graduada em 2015 pela Universidade de São Paulo (USP), onde atualmente realiza pesquisa de mestrado em Poéticas Visuais. Durante sua formação, realizou intercâmbio acadêmico na Universidad Nacional Autónoma do México. Participou do Programa de Exposições do MARP (Museu de Arte de Ribeirão Preto), da exposição Tendências do livro de artista no Brasil: 30 anos depois no Centro Cultural São Paulo e do Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto. Revista Ganga, obra produzida durante a residência artística na folhetaria do CCSP, passa a integrar a Coleção de Livro de Artista da UFMG. Em 2016 participou de uma residência artística no México.

Sem título 2018 Litografia 30 x 42 cm.

No conjunto de trabalhos apresentados na exposição, parto de imagens do universo cientificista e arqueológico, numa tentativa de organizar esses signos. No entanto, os processos são dirigidos pela contingência da sua matéria, de maneira que esse aparente controle ou planejamento ao qual as imagens se propõe acaba frustrado pelo próprio material de trabalho. ‡ Meus trabalhos são compostos por impressões em litografia, nas quais o desenho é feito diretamente sobre a pedra1. Nestes trabalhos, é muito expressiva a presença do tusche2, um material gorduroso em forma de barra, que, diluído em água ou solvente, pode possibilitar variadas concentrações e texturas enquanto é manipulado sobre a superfície calcárea. Nas gravuras produzidas com o tusche diluído em grandes quantidades de água, é possível observar o processo de sedimentação e acúmulo desse material na superfície da pedra litográfica. O trabalho impresso, portanto, configura-se como uma memória física desse processo de deposição. Nesta pesquisa, há a tentativa de controle ou de contenção do desenho, que acaba sempre arrebatada pela autonomia do material - da tinta, do movimento da água, do tempo de secagem, da deposição de partículas. Autonomia esta que é assumida como linguagem.

1  Pedra Litográfica é uma pedra oriunda do sítio arqueológico Solenhofen, na região da Baviera, Alemanha. Esta pedra caracterizada por sua composição de: 97% de carbonato de cálcio, 2% de sílica e o restante dividido entre alume, óxido de ferro e outros materiais. 2  Tusche é um material de desenho e pintura utilizado sobre a pedra litográfica, necessita ser diluído em água ou solvente e assemelha-se à aquarela.

AM.MORENOADRIANA@GMAIL.COM

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Sem tÍtulo 2017 Litografia 50 x 45 cm.

Sem tÍtulo 2017 Litografia 50 x 50 cm.

Sem tÍtulo 2017 Litografia 60 x 80 cm.


Agrippina R. Manhattan

Agrippina Roma Manhattan é artista, pesquisadora e travesti. Nascida em São Gonçalo, seus trabalhos dialogam com questões de gênero, instituições e identidades. Aluna da Escola de Belas artes da UFRJ, já integrou exposições coletivas como Novíssimos 2018 (Galeria Ibeu), BA Photo/Tijuana em Buenos Aires (2017), Esquenta para Jack Smith (Capacete, curadoria de Andreas Valentim e Marcaos Bonisson 2017), Carpintaria para Todos (Fortes D`Aloia e Gabriel, 2017), PEGA (encontro de alunos de artes do Rio de Janeiro – Centro Municipal Hélio Oiticica, 2017). Como pesquisadora já participou do Seminário Contingências promovido pelo PPGARTES-UERJ (2017) e do XII Congresso de História da Arte da Unicamp (2017). Atualmente é aluna do curso de formação da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e trabalha como Arte-Educadora no Museu de Arte Contemporânea de Niterói.

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SÃO GONÇALO — RJ

Na penumbra da esquina não era possível decifrar bem o que se mantinha de pé horas afinco aguardando o bater de portas dos automóveis que por ali passavam. Praticamente indestrutível aquele “incorroível” corpo se mantinha maleável às ameaças, aos gritos e ofensas de um “cistema” que buscava desejantemente sua aniquilação na mesma medida em que procurava clandestinamente seus prazeres. Na penumbra da esquina o que reluzia era um metal precioso, o mais maleáveis dos metais, ao qual nós chamamos TRAVESTI. Era um corpo, um corpo de verdade que brilhava como ouro, mas que valia, para a sociedade distinta, alguns míseros centavos. A crença sobre o perigo das travestis é real: elas agora fazem arte, escrevem livros e lecionam para esses mesmos “homens de bem” que as procuram nas sombras da noite. O perigo se efetivou com um corte radical pela navalha dourada da travesti que queria ser artista e ousou a ser. A ontologia do ser travesti se constitui através de estratégicas de subversão das normas que reluzem ao gracejar bamboleante de seus quadris maleáveis pelos corredores de espaços antes impossíveis. Ela rasga, corta, perfura com sua navalha dourada o cânone patriarcal e cisheterocentrado que é a história da arte causando uma profunda ruptura por onde o sangramento intenso jamais permitirá uma desontologização do acontecimento travesti. Navalha-corpo ou corpo-navalha; não há mais volta, há apenas mergulhos intensivos em um plano de imanência que vem dilacerando o mundo da arte e conclamando sua matilha selvagem à uma revolução da linguagem que passa antes de mais nada por uma outra forma de ver e existir no mundo. É com o corte visceral dessa navalha-corpo que vamos reescrevendo a história da arte: uma arte travesti-navalha-esquina-mundo.

AGRIPPMANHATTAN@GMAIL.COM

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O Abuso da Beleza ou A travesti que queria ser artista.

2018

Escultura em ouro. Gilete, Ouro e Caixa de veludo.

6,5 x 6,5 x 5 cm.


Alice Lara Graduou se em Artes Visuais em licenciatura e bacharelado pela UnB. Mestranda em poéticas visuais na ECA – USP. Sua pesquisa, na pintura, investiga a representação de animais, suas relações com os seres humanos e como essas relações afetam ambos. Já participou de diversos salões no país como a Salão de Abril em Fortaleza em 2010 e o salão de Anápolis em 2011 e 2014. Foi premiada em 2012, no Arte Pará e em 2016 no Salão de Anápolis. Realizou as seguintes individuais: Em 2016 “Ponto de Convergência” na Galeria Antonio Sibassoly em Anápolis; 2013 “Entre Artistas” no ECCO [Espaço Cultural Contemporâneo]. Em 2013; “Amores Perros” no Espaço Cultural do Cervantes de Brasília; 2013 “falso mundo maravilhoso” no MUnA – Museu Universitário de Uberlândia. Este ano ira realizar sua quinta individual no Paço das Artes em São Paulo. Vive e trabalha em São Paulo.

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Série: “Perder-se, encontrá-lo, espreitar-nos.” ‡ Nesta série de pequenos formatos, há um foco no encontro entre humanos e animais no ambiente natural, onde longe de grades e armas, encontram sua equidade. São obras desenvolvidas a partir de relatos ouvidos ou de experiências pessoais junto a natureza.

Encontrar algo perdido 2018 Acrílica sobre tela 10 X 15cm

ALICEMVL@GMAIL.COM

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Olhando e olhados 2018 Acrílica sobre tela 15 x 15 cm

Tão longe como nos sonhos 2018 Acrílica sobre tela 12 X 9 cm

Ilustrando fantasias 2017 Acrílica sobre tela 20 X 20 cm

Por um obscuro caminho ele me acha 2017 Acrílica sobre tela 20 X 20 cm


Aline Luppi Grossi

Performer que ganha a vida mostrando a bunda e a banha, artivista gorda, atriz Drt:003200/PR, Licenciada em Artes Cênicas – Teatro pela UEM. Provocadora de olhares e afetos, que encontrou na performance uma maneira de transbordar as inquietações desse corpo político. Desde 2014 desenvolvendo pesquisas no assunto, já participei de diálogos acadêmicos e artísticos por grande parte do Brasil, dentre eles ABRACE – MG, ENEARTE,BH, Xoke, SC, La Plataformance, SP,Festival de Apartamento, PR, III Colóquio Internacional Arquitetura, Teatro e Cultura, RJ. Podendo destacar trabalhos como [Hipo]campo (2015), Estigma (2016), Desassossego (2017), NuMuseo (2018), Me chama de GORDA (2019).

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MARINGÁ — PR

SOUL Dessas / Beija eu. Quando me dei conta de que podia fazer arte a maior dúvida era: Qual meu lugar de fala? Eu sou um corpo gordo, eles existem na arte? É arte? A maneira como a sociedade vê esse corpo não condiz com a maneira com que eu me sinto ou como me vejo, decidi então mostrar minha relação com o espelho para as pessoas. SOUL DESSAS se refere ao meu estado de espírito, ao amor e fascinação pelas curvas, pelos movimentos do corpo. Sou dessas almas que aceita, que acredita e sabe quem é e escancara aos quatro cantos. É a liberdade e a leveza de se encontrar no próprio corpo, de reconhecer-se no espelho e sentir paz de espírito. Nua, munida de um espelho e alguns batons eu me observo, danço, giro, pulo, balanço, rio, choro, estou presente e disposta a me compartilhar. Você conhece a anatomia de um corpo gordo? Já teve a honra de apreciar suas curvas, texturas e volumes? Alguma vez já beijou ou abraçou um corpo gordo? Você é meu convidado, estou aqui, inteira, entregue, livre! Você gostaria de me dar um beijo? ‡ Experimento manequim. O que há de tão belo nesses corpos assépticos e estáticos que insistem em nos enfiar goela abaixo como um “lugar” a se alcançar? Quando iniciei o processo de criação desse trabalho, me propus a ficar em uma vitrine de loja, tal qual um manequim, pelo maior tempo possível. Seis horas depois e muitas ideias pré-concebidas jogadas pelo ralo, me dei conta de que mais do que chamar atenção por ser um corpo gordo, vivenciei o mundo a partir dos olhos estáticos de quem não é visto para além de um suporte de peças, um observador passivo da rua olhando a vida do lugar mais caro e cobiçado, solitário e invisível. Transpondo a experiência em formato de instalação, com espelhos e manequins, ainda assim esses corpos não eram mais do que ignorados e invisíveis ante a possibilidade de dar uma rápida olhada no próprio look naquele espelho

ALINELUPP@HOTMAIL.COM

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gigante. Como seria a vida, se tratassem a ideia do corpo perfeito da mesma maneira com que tratam a representação desse corpo, como se não existisse? Se por um dia, você deixasse de se preocupar e se justificar pelo seu corpo, se todos os pensamentos de inadequação e erro não existissem, o que você faria com o tempo que sobra?

SOUL Dessas /Beija eu 2017 Espelho, batons e áudio. Espaço da sala disponível

Experimento manequim 2018 Ação e foto performance

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Angela Od Graduada em Comunicação Social, freqüentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV, Rio de Janeiro), de 2011 a 2017, enquanto atuava na área do audiovisual como Videografista. Em 2018 obteve o prêmio de aquisição do 43º SARP, do Museu de Arte de Ribeirão Preto, São Paulo, assim como o Prêmio do 9o Salão dos Artistas Sem Galeria (São Paulo e Belo Horizonte), e em 2016, o Prêmio de aquisição no 24º Salão de Arte de Vinhedo (São Paulo). Ainda em 2016 foi selecionado no concurso da 6ª Bienal de Arte da Bolívia, SIART (La Paz). Participou entre outras exposições coletivas, do 14º Abre Alas, Galeria Gentil Carioca (2018, Rio de Janeiro), Salão de Artes de Piracicaba (2017, São Paulo), “A Queda”, Galeria Movimento (2017, Rio de Janeiro).

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R I O D E JA N E I RO — R J

Usa como técnica formal o bordado em tecido, trabalhando com densas tramas de fios sobrepostos, gerando uma apreciação pictórica das imagens. O tempo lento do bordado e emaranhado de linhas constroem a narrativa épica e fantástica com a presença de um herói/marginal constantemente confrontado entre escolhas que podem levá-lo à glória ou à queda. ‡ Diante desta abordagem são presentes analogias entre a figura do herói, mitos e símbolos passados, como os bestiários da idade média, onde reuniam informações de animais reais e fantásticos, assim como símbolos presentes, existentes nos vídeo games, jogos de mesa, rituais religiosos, superstições e crendices populares.

Bestiário do cara da espada (Detalhe) 2018 Lã e linha sobre linhão Políptico de 160 X 280 cm.

ANGELAOD.OD@GMAIL.COM

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Bestiรกrio 2018 Lรฃ e linha sobre tecido 270 X 150 cm.


Bruno Novaes Bruno Novaes é artista/educador. Tem obras no acervo do Museu da Diversidade Sexual de S. Paulo, da Prefeitura de S. André e da Pinacoteca e Fundação das Artes, em S. C. do Sul. Participou da 33a Bienal de Arte de S. Paulo na obra de Mark Dion. Premiado pela editora Lamparina Luminosa, publicou o livro Alugo para rapazes (2018), lançado na SPARTE. Apresentou exposições individuais na OMA Galeria e na Casa do Olhar Luiz Sacilotto (2018). Em 2019, integra a Temporada de Projetos do Paço das Artes. Sua produção passa por questões como identidade, memória e afeto, mistura o que é público e o que é íntimo e cria narrativas que estão no limiar entre arte e educação, ficção e realidade.

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S Ã O PA U L O — S P

(…) No princípio era o verbo! E a verdade é que a linguagem importa, as palavras querem dizer algo, mas dissimuladamente carregam significados que não são os que queremos imprimir, não explicitamente. A precisão da linguagem é um jogo perigoso e os nomes das coisas podem nos enganar, nossos vícios e inflexões criando zonas movediças de ambiguidade e ruído. As palavras não são suficientes para ti, que insiste em retratar coisas íntimas como efígie, que caminha na fina linha entre imagem e discurso, entre objeto e signo, criando uma terceira margem semiótica onde só a sua vivência é capaz de completar os sentidos. Como você chama mesmo? O seu nome se confunde com os nomes anônimos que você, durante um ano inteiro, sucessivamente descobria nos aplicativos afetivos com um apetite de presença e desfastio que imediatamente se materializava em companhia; em seguida, voltava ao buraco vazio apenas para, num novo dia, se preencher com um diferente alguém. Esses encontros se tornaram ilustrações e versos, que por sua vez se tornaram livro, que por sua vez se tornou aquarela e desenho, transbordando até onde se vê aqui. (…) Palavras não correspondem às figuras, são estranhamente separadas em sílabas coloridas – os impasses da linguagem nos atravessam, mas há algo mais desconcertante ali na distância entre a língua e a bola. O apelo infantil do controle de videogame, do compasso e da mochila inusitadamente se choca à sensualidade dos vocábulos que balbuciamos pausadamente entre uma cor e outra. É como se estivéssemos aprendendo a ler de novo ou decifrando pequenos enigmas que não têm resposta certa. (…) ‡ Julia Lima [curadora] trecho do texto para a exposição Capítulo1: O Corpo mente menos que as palavras — março de 2018.

BRUNO@BRUNONOVAES.COM

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Caminho Suave 2018 Lรกpis aquarelรกvel sobre papel 36 desenhos de 22 x 33cm cada.


Coletivo Duas Marias

O Coletivo Duas Marias, de Cascavel-PR, é formado pelas artistas Malu Rebelato e Nani Nogara, ambas graduadas em Artes Visuais e pós-graduadas em Arte e Educação. Trabalha com a fotografia artística performática, utilizando sempre a imagem das próprias artistas e tem como tema o ser feminino. Sendo um trabalho conceitual, expõe em Museus e Salões no Brasil e exterior. Fizeram várias exposições, incluindo “Se fosse você...”, no Ecomuseu de Itaipu-Foz do Iguaçu/2015. Prêmio aquisição no 6° SAV, de Vinhedo-SP/2014 e selecionadas no 3° e 4° Salão de Outono da América Latina-SP/2015/16. Em 2014 fizeram uma residência artística no Casa Museu Maurício Penha em Portugal, que resultou em uma exposição itinerante na região, em 2015. Participou das Bienais de Curitiba 2015 e 2017. Prêmio destaque 2017 e medalha qualidade ouro, concedido pela FEBACLA, durante a exposição Valorizando a Arte, na ALESP de São Paulo 2017. Em 2018 recebeu Medalha ao Mérito Cultural, pela Academia Medalhística do Brasil.

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S Ã O PA U L O — S P

Movimentos restritos, liberdade cerceada, mente abalada... Costumes, normas, preconceitos... papéis devem ser assumidos, imagens precisam ser mantidas, compromissos exigem ser cumpridos... Movimentos vigiados, liberdade impedida, mente perdida... Roda viva... O Coletivo Duas Marias trabalha com o feminino no contexto da sociedade atual. Destaca a luta, o preconceito, a discriminação, mas também o empoderamento e a superação. São duas mulheres olhando para si mesmas, para o contexto em que se inserem, para as pessoas com que se relacionam. O trabalho reflete seus sentimentos, seus enfrentamentos, sua forma de olhar a vida. As fotos são registros de ensaios performáticos, inspirados nos cenários metafísicos e no claro/escuro do barroco, imaginados e criados pelas duas artistas, vivenciado por uma e clicado pela outra, resultam sempre no pensamento conjunto. É um trabalho que questiona crenças, hábitos, convenções sociais e enfatiza os motivos que impulsionam as mulheres pela vida; sensações, crenças, sentimentos, experiências, trabalho, desejos e sonhos.

Assim seja 2014 Fotografia 180 x 120 cm.

COLETIVODUASMARIAS@GMAIL.COM

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A RT E LO N D R I N A S E T E


Mulher de marte III

Fome de quĂŞ

2014

2014

Fotografia 130 x 195 cm.

Fotografia 60 X 90 cm


ELCIOMIAZAKI@GMAIL.COM

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Élcio Miazaki

Nascido na capital paulista, o artista visual com formação em arquitetura pela FAU-USP, vive e trabalha na cidade de São Paulo. Tem sido recorrente a preocupação em ‘reconstituir um contexto’ por meio de materiais de época (principalmente das décadas de 1970 e 1980 – coincidentes com os anos de infância e adolescência do artista), nas quais o Brasil passou pela ditadura militar e posterior redemocratização. Expôs em instituições, entre elas: MARP (Museu de Arte de Ribeirão Preto, SP), Museu Casa das Onze Janelas (Belém, PA), Memorial da América Latina, Instituto Cervantes, Sesc, MAB (Museu de Arte de Blumenau, SC) e Galeria da FAV (Universidade Federal de Goiás). Além de exposições em galerias como a Vermelho (Verbo), Zipper, Sancovsky e Orlando Lemos (9º Salão dos Artistas sem Galeria), fazem parte o Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia (Belém, PA/ 2018), Rumos Artes Visuais (Itaú Cultural) e a 18ª Bienal de Cerveira (Portugal / 2015). Chegou a desenvolver exposições coletivas e a participar de uma curadoria conjunta na 2ª Mostra de Arte Contemporânea na Casa da Memória Italiana (2018) em Ribeirão Preto, SP. Na mesma cidade, coordena o programa de residência artística pelo Centro de Arte Contemporânea W desde 2017.

Impulsos Imitativos. Emulando os métodos do arqueólogo, do historiador e do colecionador, Élcio Miazaki coleta objetos simbólicos para em seguida, feito artesão, manipulá-los. Foi assim que o artista operou para, a partir do mundo militar, proceder à criação de um repertório que se faz familiar ao cotidiano civil, subvertendo as barreiras ideológicas a fim de investigar os pontos de coincidência existentes entre universos aparentemente tão distintos. ‡ Fruto de um período de intensa imersão no próprio trabalho, a série ‘Impulsos Imitativos’ (da qual ‘Servir-se de primeiros socorros’ se insere) traz algumas constantes na obra de Miazaki, como uma melancolia e a indicação de incertezas. As peças expostas apontam para condições típicas da vida militar, carregadas com uma sensível visada crítica que salienta questões importantes sem se deixar levar pela ofensa gratuita. Em tempos de polarização e intolerância, o artista nos faz questionar se o “cavalo montado” que oprime as multidões não seria o mesmo homem que abandona seu posto para engrossar o coro dos descontentes, sem se importar com as consequências. ‡ Este homem, assim como qualquer outro, não estaria sufocado por um peso incapaz de suportar? Teria uma simples escolha determinado profundamente seu caminho? O general, o patrão, o governo, a família, a sociedade, talvez sejam formas de nominar algo que precisamos que se exteriorize MELHOR SER FILHO DA OUTRA

S Ã O PA U L O — S P

A RT E LO N D R I N A S E T E


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de alguma maneira, mas que carregamos no mais profundo recanto de nosso ser.Perdemos nossa identidade em benefício de uma máscara unificadora, que faz com que nos reconheçamos como parte de algo maior, que prove que não estamos sozinhos. Mas a segurança é violenta e a liberdade assustadora. Só com algum esforço vencemos a força invisível que nos paralisa, nos impedindo de dar aquele passo decisivo. ‡ Quem somos e como nos mostramos? Poderia nosso papel social nos definir? Ao optar pela simbologia das Forças Armadas para tratar de assuntos universais, o artista, mais que simplesmente revelar a alma que persiste camuflada pela rudeza militar, indica que somos todos soldados abandonados à própria sorte em um campo de batalha interior, cara a cara com nosso maior inimigo, aquela imagem que insiste em nos imitar e que não nos permite existir. ‡ Alexander Santiago [curador e crítico independente, mestre em artes visuais pela ECA – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – e especialista em História da Arte pela Fundação Armando Álvares Penteado].

Servir-se de primeiros socorros 2017-2018 Desenhos sobre mais de 30 louças de época Dimenções variáveis

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Hígor Mejïa Hígor Mejïa é artista transmídia. Graduou-se em Artes Visuais - UEL, fez pós graduação em Cinema e Documentário na Faculdade Pitágoras. Trabalha com artes visuais, cinema, teatro, literatura e performance. Coordena desde 2015 o ateliê coletivo Casa Madá, espaço multicultural feito para incentivar a economia criativa local e as expressões humanas (artísticas e holísticas) das formas mais variadas possíveis, é onde também realiza exposições, feiras de Arte e artesanatos, detre outras ações culturais. Mejïa ultimamente participa de Feiras vendendo reproduções fotográficas de suas pinturas a preços acessíveis, compartilhando Arte e Afeto revelados em diversos formatos.

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LONDRINA — PR

PINTO com desejos contidos: na matéria; nas simbologias das imagens; nos processos líquidos e numa ‘caralhada’ de metáforas, e nem sei exatamente porquê. Penso no intangível, na podridão dos corpos e relações ‘românticas’ efêmeras (estruturas e elos em falência) e algo se materializa. A “tela em branco” é um portal incrível para quem se permite mergulhar. ‡ Sempre trabalho com ideias de corpos, muitas vezes utilizo imagens fotográficas como referência para as minhas criações e frequentemente me aproprio de visualidades da internet. As escolhas das simbologias talvez sejam auto-retratos e as manchas guias espirituais que me conduzem pelas corpografias plásticas. De modo figurado, a ideia de auto-retrato que introduzo aqui, é pensando nas identificações, desejos e pontes de conexões com os ‘espectros do outro’; com os ambientes nos quais vivemos e nos relacionamos, e as multitelas que acessamos cotidianamente. ‡ Creio que os conteúdos que interagimos e nos conectamos de algum modo nos localizam e que poesia e estratégias de sensibilizações como a Arte aplicadas ao cotidiano social, dentre outras expansões sutis, também se estabelecem como Portais de reconexão das nossas dimensões e estruturas terrenas sagradas celestiais intergaláticas multidimensionais. E que talvez essas práticas possam ajudar a melhorar as nossas existências (ainda) no planeta Terra.

HIG.ART@GMAIL.COM

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O teu longe bate por mim 2016 Acrílica sobre tela 40 x 30 cm.

Cafungadinha na Virilha 2016 Acrílica e grafite sobre tábua de carne reaproveitada 47 x 24 cm.


Karola Braga

Karola Braga (1988, São Caetano do Sul) é Mestranda em Poéticas Visuais pela Universidade de São Paulo (ECA/USP) e Bacharel em Artes Plásticas pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Prêmios e residências recentes incluem: Residência Alex Vallauri, Complexo Cultural Funarte SP, BR (2019), Kooshk Artist Residency Award (KARA) Irã (2018), Programa de Residência Artística da Cité Internationale des Arts pela Fundação Armando Alvares Penteado – FR (2017). Principais exposições recentes incluem: Sillage de la Reine (artista convidada da 50˚ Anual de Arte) – MAB/FAAP, São Paulo, BR (2018), A rose is a rose is a rose – Kooshk, Teerã, Irã (2018), Cette absence bien supportée, elle n’est rien d’autre que l’oubli – Cite Internationale des Arts, Paris, FR (2018), Identité com Ricardo Gassent – Centre National de la Danse (CND), Paris, FR (2017), Sonhar o mundo: Livres e iguais Museu da Diversidade Sexual, São Paulo, BR (2016), Em oito atos - Estação Satyros, São Paulo, BR (2015), 26˚ Mostra de Arte da Juventude, SESC Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, BR (2015), Volátil – Museu de Arte Brasileira (MAB/Centro), São Paulo, BR (2015).

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S Ã O C A E TA N O D O S U L — S P

O trabalho de Karola Braga se enquadra em um jogo de presença e ausência, nas quais ela ora se coloca ativamente como ser desejante, pessoal, afetada e em busca de afeto, ora como ativadora velada de desejo e presença - que em seu léxico podem ser considerados sinônimos. Por meio da pessoalidade, seja ela física ou simbólica, a artista presenteia seus trabalhos como objetos ou ações que tentam capturar o tempo, enquanto reconhece sua impermanência e finitude como no trabalho Tentaremos não nos esquecer, em que uma mão invisível datilografa uma contagem regressiva dos dias que restam com sua parceira antes de uma despedida inevitável, despedida que se estende por 50 dias sendo escrito e desaparecendo na frente do espectador, que vislumbra um conflito com o futuro que é presente porque sonhado e com o presente que é passado por ser memória. ‡ Em Pequenos rastros e singelas ações preliminares a artista busca manter o contato com o outro, distante, por meio do seu perfume que como uma mão tateia e acaricia a memória olfativa daqueles que assim a conhecem. Na falta do seu corpo físico, a artista deixa para trás um corpo olfativo. Uma impermanência presente. Uma presença ausente. Uma ausência serenizada. ‡ Na performance Eu estava te olhando para ver se você me olhava de volta, 20 atores disfarçados como pessoas quaisquer em uma abertura de exposição, se transformam em espectadores de retorno, buscando um olhar que olha de volta, um olhar que se percebe sendo visto. um olhar que silenciosamente indaga ‘estou aqui. e você?’. ‡ Alexander Dejonghe

KAROLABRAGA@GMAIL.COM

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Eu estava te olhando para ver se você me olhava de volta 2015 20 atores que flertam e portam a ficha técnica do trabalho entregue no momento de aproximação entre ator e espectador, foi exposto o cartão em forma de cartão de visitas.

Pequenos rastros e singelas ações preliminares 2015 fotografias e relatos textuais

Tentaremos não nos esquecer 2015-19 50 vídeos exibidos um por dia durante os 50 dias de exposição.


Luisa Brandelli

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PORTO ALEGRE – RS

“Sereia”, de 2018, parte de uma nova pratica artística em que o trabalho surge na própria relação minha com os materiais no ateliê. Não mais buscando apontamentos para fora da peça, mas buscando nela mesma, no contato direto e exclusivo com o material, mesmo que com poucos gestos e espessura de matéria, seu significado e sua existência.

Mestranda em artes visuais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Entre Porto Alegre e São Paulo, estudou com Jailton Moreira, Rosana Pinheiro Machado, Maria Helena Bernardes, Paulo Miyada e Pedro França. Começou a expor em 2016 ao ser selecionada para o Abre Alas da A Gentil Carioca e desde então vem participando de exposições e projetos no Espaço Saracura (RJ), EAV Parque Lage (RJ), Solar dos Abacaxis (RJ), Fundação Ecarta (RS), KM 0.2, (San Juan, Porto Rico), CALL da galeria Luis Adelantado (Valencia, Espanha), MECA (Mercado Caribeño, San Juan, Porto Rico), Zip’Up (SP), e Pivô Pesquisa (SP). BRANDELLI.LUISA@GMAIL.COM

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Sereia 2018 Jeans, ilhรณs 179 x 24 cm


Sérgio Adriano H.

Sérgio Adriano H (1975), natural de Joinville/SC, artista visual, fotografo, performer, pesquisador, vive e produz nas cidades de Joinville e São Paulo. Formado em Artes Visuais, Mestre em Filosofia. Principais Prêmios: Medalha Victor Meirelles como Personalidade do Ano de 2018 concedida pela Acla – Academia Catarinense de Letras e Artes; Aliança Francesa de Arte Contemporânea 2018; Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura, Estado de Santa Catarina, 2014 e 2017; Exposições – das mais de 90 participações destacam-se: Ruptura do Invisível – encanecer, Centro de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, 2019; 8° Bienal Argentina de Fotografia Documental, Tucumano, 2018; Somos Todos Iguais, Centro Cultural de Justiça Federal, Rio de Janeiro, 2018; Diverso e Reverso, Bienal de Curitiba, Curitiba, 2017; Diálogo Ausentes, Itaú Cultural, São Paulo, SP/ Rio de Janeiro, RJ, 2016/17.

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JOINVILLE — SC

Quem mata? E por que mata? O obra Mata de 2018, é um Site Specifc, onde o artista Sérgio Adriano H. se apropria de letras infláveis de plástico mole douradas, com 70 cm de altura, utilizadas em festas e comemorações, fixadas na parede e que juntas formam as palavras “TU MATA EU”. O que emolduram essas palavras são arabescos, uma espécie de ornamento de folhas, construído a partir de carimbos que o artista imprime diretamente na parede. São utilizados quatro carimbos, de diversos tamanhos, com as palavras PRETO, PUTA TRANS e VIADO. Cria-se uma espécie de efeito surpresa, visto que de longe não se percebe as palavras, mas sim apenas o desenho. Só o espectador perspicaz e atento, é que conseguirá desvendar o segredo. Seria uma alusão a essa parcela significativa da população que fica à margem da sociedade? Uma espécie de racismo social? Segundo o artista “Tenho como parte do processo e fundamentos da minha arte o desejo de cruzar fronteiras, espaços, expectativas, cores, credos, classes sociais e instituições. Mais do que uma escolha, é o que me move. O público precisa compreender que a arte está em nossas vidas o todo o tempo - ela foi feita para ser apreciada, mas também para servir como um gatilho para novos pensamentos e reflexões”. Com essa obra, mais uma vez, Sérgio Adriano H. torna visível o que é invisível e leva o apreciador a pensar novos entrecruzamentos entre as palavras, a sociedade e o universo econômico, social e político no qual está inserido. Permite que o espectador mergulhe no interior da alma humana, se perceba, apreenda e busque, dentro de si, razões para estar vivo e lutar por um mundo mais justo, humanizado e poético. ‡ Franzoi [artista e curador]

SERGIOADRIANOH@YAHOO.COM.BR

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Mata 2018 letras inflรกveis de plรกstico mole dourado, tinta carimbo na cor preta 120 x 100 cm (tu, eu), 120x300 cm (mata)


Suellen Estanislau Suellen Estanislau nasceu em 1992 reside em Londrina. Formada em Artes-Visuais na Universidade Estadual de Londrina. Já participou das seguintes exposições coletivas “Quando vier, por favor me avise” (2014), “Bienal Naïfs do Brasil 2016 – Todo Mundo é, exceto quem não é.” onde recebeu o Prêmio Incentivo (2016), “15º Salão de Arte Contemporânea de Guarulhos” “Festival Camelo de Arte Contemporânea” e “Arte Londrina 5” – Teu Corpo é Luta” (2017).

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LONDRINA — PR

Aos pedaços. No processo de criação dos meus trabalhos faço recortes e uma espécie de colagem mental de partes de personagens distintos, uso a cabeça de um, o corpo de um outro, a roupa de um terceiro. ‡ Minha intenção é investigar o corpo em desajuste, com conflitos internos sobre a moral, sobre comportamentos considerados adequados, sobre como se percebe o mundo. Imagino um sujeito sobre o qual me interessa contar alguma história, cujo corpo chamo de “frankensteiniano”: é possível dizer que cada parte dele, cada órgão, tem suas memórias, então é um corpo desajustado e permanentemente inacabado. As partes não respondem de bom grado ao cérebro, que também é parte de um outro corpo. É possível um ajuste entre as memórias relativas às diferentes partes do corpo? ‡ O corpo em formação também me parece ser como o de uma criança desobediente, que não respeita regras de conduta, não pode ser controlado e ao mesmo tempo é vulnerável, reflexo de algumas de suas vivências e enfrentamentos solitários. Esta criança pode ser também um adulto infantilizado, injetado de sentimentos fortes sobre as mais diversas experiências; essas características lhe dão peso em sentido abstrato e em sentido real, sua anatomia é reflexo destes fatos. Criações fora das convencionais deixam reflexo nesses corpos permanentemente desajustados. ‡ Acredito que meus personagens nascem da diferença e não possuem qualquer filtro: a inadequação está no corpo, nas atitudes e nos sentimentos.

SUELLEN.ESTANISTAU@GMAIL.COM

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Minha mĂŁe acha bonito, na escola acham estranho 2018 Tinta guache sobre papel 107 x 78 cm.

Minha aparĂŞncia fez com que eu aprendesse a me defender 2018 Tinta guache sobre papel 107 x 78 cm.

Uma vez alguĂŠm disse que tinha nojo de mim, tudo bem 2017 Tinta guache sobre papel 107 x 78 cm.


Tales Frey TALES FREY (Catanduva-SP, Brasil, 1982) é artista transdisciplinar, vive e trabalha entre o Brasil e Portugal e realiza obras amparadas tanto pelas artes visuais como cênicas. O ritual, o corpo e a performatividade são motes de especulação tanto nas suas criações práticas como nas suas pesquisas acadêmicas em âmbito de suas formações (graduação em Direção Teatral pela UFRJ no Brasil, mestrado em Teoria e Crítica da Arte pela Universidade do Porto em Portugal, doutoramento em Estudos Teatrais e Performativos pela Universidade de Coimbra em Portugal e pós-doutoramento em Artes pela Universidade do Minho). Alguns de seus trabalhos integram permanentemente acervos públicos e privados, dentre eles, o do Museu Serralves e o do Museu Bienal de Cerveira em Portugal; o do Instituto Municipal de Arte y Cultura de Puebla no México; o da Pinacoteca João Nasser, o do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC Niterói) e o do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP) no Brasil.

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C A T A N D U VA — S P

Este trabalho envolve uma performance realizada em quatro etapas: dia 20 de outubro de 2014 e dias 14, 15 e 19 de maio de 2015, sendo que a ação funciona como um estudo antropológico, cujo ambiente corresponde a uma mesma via de dois nomes da cidade do Porto em Portugal, situada entre a Torre dos Clérigos e a igreja de Santo Ildefonso. O título deste trabalho remete tanto ao objeto de estudo, o vestido (adorno considerado por feminino em uma cultura heterocentrada), quanto à pessoa do gênero masculino que se encontra coberta por um traje, vestida ou agasalhada por algum indumento. A regra estabelecida foi que, ao conseguir provar cada vestido, eu faria um autorretrato (selfie) com o traje diante do espelho e, caso eu não conseguisse realizar o meu objetivo, fotografaria o vestido disposto na vitrine. Depois de realizadas as experiências, escrevi um relato sobre cada uma delas e associei cada texto escrito com a imagem correspondente.

TALESFREY@ME.COM

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Vestido 2014-2015 ImpressĂŁo C-Print com moldura 120 x 50,7 cm.


Viviane Teixeira

Viviane Teixeira é Bacharel em Pintura pela EBA, UFRJ (2003) e cursou EAV do Parque Lage, RJ(2004 /12). Foi selecionada para as exposições individuais: The Queen seated inside her Castle – A Rainha Suplente, Capítulo II, CCSP/ SP (2015-16) e The Queen seated inside her Castle – A Sala do Trono, Paço Imperial, RJ (2016) e para as coletivas: 14° Salão de Artes de Itajaí, SC (2018), 18° Festival Internacional de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, Panoramas do Sul, Sesc Pompéia, SP (2013-14), 4° Salão dos artistas sem galeria, Zipper Galeria e Casa da Xiclet, SP (2013), 36° SARP, Salão de Arte de Ribeirão Preto Nacional-Contemporâneo, SP (2011), 17° Salão UNAMA de Pequenos Formatos, Galeria de Arte Graça Landeira, Belém, PA (2011), Abre Alas 5, Galeria A Gentil Carioca, Barracão Maravilha, RJ (2009), Artistas selecionados na Universidarte XIV, Intervenção no Museu da República, RJ (2007), Novíssimos 2007, Galeria de Arte IBEU, RJ e Selecionados Universidarte XIV, Casa França-Brasil, RJ (2006) além de participar de outras exposições em galerias e centros culturais ao longo desses anos, como a individual As múltiplas faces da Rainha, na Galeria Movimento, RJ (2017).

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R I O D E JA N E I RO — R J

Meu atual trabalho é formalizado em desenho e pintura. Trata-se de um universo ficcional, uma Corte fantasiosa do teatro, das máscaras, das hierarquias, das guloseimas, dos jogos e desejos, na qual a figura feminina é soberana. Nesta corte, os rituais de nobreza se apresentam em narrativas não explícitas sobre os jogos de poder que opõem feminino e masculino, poder e submissão, erotismo e morte, construídos pela associação de estímulos literários, históricos e memórias afetivas. Tais questões estão vinculadas às escolhas cromáticas contundentes, aos objetos associados ao desenho, às superfícies saturadas de matéria e às formas híbridas e fluidas que remetem a cenas e personagens arquetípicos saídos dos contos de fadas e que travam intensos duelos e diálogos. As cinco obras apresentadas para o Arte Londrina 7 são recortes de diferentes rituais de nobreza dessa Corte mencionada acima e que em outros contextos podem vir a formar novas narrativas.

Chapter I, Cena II — O Dançarino 2017 técnica mista s/ papel em caixa de acrílico 33 x 30 cm.

VIVIANE.TEIXEIRA@GMAIL.COM

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What r u looking at? – Male

Goodbye Beautiful Queen

2017

2013

técnica mista s/ papel em caixa de acrílico 33 x 30 cm.

técnica mista s/ papel em caixa de acrílico 33 x 30 cm.

Cortem-lhe a cabeça! 2013 técnica mista s/ papel em caixa de acrílico 33 x 30 cm.

What r u looking at? — Female 2017 técnica mista s/ papel em caixa de acrílico 33 x 30 cm.


E X P O S I Ç Ã O D O I S

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TODO PROTAGONISMO PODE SER CONTESTADO. exposição dois — empresta-me um de seus dias

ATENÇÃO AOS DESEJOS DEVERIA SER UM ANTÍDOTO CONTRA A HIPOCRISIA.

COMO ERA SUA PRIMEIRA ESCOLA? COMO ERA A CASA DE SUA AVÓ? ELAS AINDA EXISTEM? COMO ESTÃO?

AS MEMÓRIAS, COMO PEDRAS, PODEM SER ESCULPIDAS?

IGNORÂNCIA É O MELHOR INÍCIO. POR QUE OS AFETOS IMPORTAM?

QUE RELAÇÃO OPERE FORA DE HÁ ENTRE RIGORES LÓGICOS. MULHERES E IGREJAS? MOVA-SE DE IMPROVISO E REDEFINA EMPRESTE O ESPAÇO DESCARADAMENTE AS POTÊNCIAS ONDE VOCÊ DA ARTE, VIVE. USE COM PAIXÃO!

SE O CORPO FALA, SOBRE O QUE FALA?

COMO ENTENDE A EXPERIÊNCIA DE TEMPO SUGERIDA PELO SEU TRABALHO?

COMO ATRAVESSAR MONTANHAS?

EXPECTATIVAS SÃO PLANOS DE CONTROLE DE COMPORTAMENTOS.

A FUGA DA RAZÃO É UM ANTÍDOTO CONTRA A TIRANIA.

A INCONSEQUÊNCIA NÃO É UM BOM PLANO PARA LIBERDADE, MAS PODE SER O PRIMEIRO PASSO.

A ARQUITETURA PODE DESSENSIBILIZAR AS PESSOAS.

A CULTURA DA EDUCAÇÃO ESTÁ EM RUÍNA?

OCULTAM QUAIS VOZES BELEZAS TRAGÉDIAS, IMPORTAM? E VICE-VERSA.


Graduado em Licenciatura em História pela Faculdade de Ciências e Letras de Assis da Universidade Estadual Paulista (1996), mestrado em Psicologia—Departamento de Psicologia Clínica da Pontifícia Universidade Católica-SP (2003) e doutorado em Saúde Coletiva pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (2010).

1. O espaço, enquanto forma, é guerra. Na tragédia grega, como explicou Nietzsche, o espaço era Apolo, deus da luz, beleza, da simetria, da métrica. Apolo se mostrava o defensor dos limites, das margens, da limpidez com que se devia dispor as formas. A luz do deus funcionava como farol de defesa, como luminosidade diante das fronteiras. E são nesses atributos que se instalam as guerras. Pois elas só são travadas quando as fronteiras correm “perigo”, seja de invasões inimigas, seja de diluição ou esfacelamento de suas linhas. A guerra também chega quando as métricas, as boas repartições ou as proporções do bom convívio estão sob ameaça, independentemente se efetivas ou virtuais. Nesse ponto, vemos a emergência da guerra civil, por exemplo, quando os compartimentos da cidade (pólis) começam a se desmanchar. Necessidade da força, portanto, a ser exercida

98 — 99

Sergio Vizzacaro-Amaral

contra os movimentos perigosos ou insubmissos. Assim, ao mesmo tempo em que Apolo traz a “certeza” da segurança por meio da clareza e da proporção das “boas” divisões espaciais, ele também é “quem” exige a manutenção do espaço submetido às suas métricas. ‡ Ainda com Nietzsche, se a tragédia grega necessita do espaço métrico das proporções (versos, palco, luz, ritmo), ela não existiria sem o canto de Dioniso, sem o “tempo” dos versos cadenciados na duração da musicalidade inerente a eles. Dioniso é, diferentemente de Apolo, o deus do embaralhamento, das fusões, da perda da medida, da sombra, do mistério. Em “As Bacantes”, por exemplo, Eurípides conta a queda da cidade, tragada pela chegada da desmedida: o dionisíaco enquanto potência destruidora das boas medidas – embriaguez do canto, do tempo, que ultrapassa as fronteiras demarcadas da métrica sobre o espaço apolíneo. Dioniso também é violência, também é guerra. Porém, a violência não se faz pela defesa de fronteiras ou simetrias bem ordenadas. O dionisíaco se diz pela invasão, pela insurgência, rebelião diante das divisões defensivas. É o embaralhamento dos caminhos, o riso perverso frente às fronteiras, o caminhar nas margens, fazendo-as tortuosas e difusas. O movimento de Dionisos cria, consigo, labirintos por onde passa. ‡ Por outro lado, se a tragédia se compõe de forças tão antagônicas – as apolíneas das normas e as dionisíacas do embaralhamento –, temos, ao mesmo tempo, certas núpcias que permitem extrair da métrica do espaço tempos de embriaguez. O canto se infiltra na métrica dos versos, trazendo à tona as potências das invasões despreocupadas com a ordem civil do espaço. Na tragédia, as fronteiras permanecem claras sob a força de Apolo, mas isso não significa que a musicalidade da embriaguez dionisíaca não consiga “cavar” na retidão dos linhas limítrofes, sinuosidades, invaginações, tornando a retidão luminosa numa E M P R E S TA - M E U M D E S E U S D I A S

A CURVATURA DO ESPAÇO

A RT E LO N D R I N A S E T E


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para nada além do controle. Por eles, paga-se o preço das entradas e das saídas e tem-se, também, a definição do perigo a ser barrado: defesa contra outras linguagens, outros corpos, outras raças, outras possibilidades de vida – o outro. Dificilmente há a criação de novas línguas, novas cores, novas formas. O que está dividido permanece dividido. ‡ 2.2. A curva, diferentemente da reta, exige o deslocamento do olhar à variabilidade inexata. Na curva, o ponto nunca permanece estável, nunca para e aceita sua localização exata. O movimento se faz por meio da instalação inevitável de algo que se desloca no mesmo instante em que se tenta capturá-lo pela medida. Certamente, a curva está imersa, como a reta, entre coordenadas, mas sua gênese, ao contrário da monotonia da anterior, é efetivada pela sua variação inerente. A cada “pedaço”, a cada “entre pontos”, há uma abertura ao movediço. E se a reta expressa fenômenos uniformes ou uniformemente variados, a curva mostra o diferencial, a tendência: enquanto a reta pode dizer do que acontece diante de algo que aumenta ou diminui sob uma taxa única de mudança (quando adicionamos, subtraímos ou multiplicamos uma mesma quantidade num mesmo montante durante intervalos de tempo iguais entre si), a curva expressa tendências de aceleração ou desaceleração, movimentos inacabados que se inscrevem em outros e os diferenciam a cada instante divisível ao infinito (por exemplo, quando visualizamos os aumentos ou diminuições das velocidades durante um percurso: a aceleração nunca mostra a velocidade num estante específico, mas expressa a taxa de variação pela qual velocidades aumentam ou diminuem ao longo do tempo). Pela curva, o instante escapa, o ponto se descola e a medida se expressa por meio de tendências; a curva é movimento, portanto e não simplesmente uma medida de divisão entre espaços ou assentamentos. A curva só se deixa intervir se E M P R E S TA - M E U M D E S E U S D I A S

possibilidade movediça composta pelas curvas de um labirinto. De Apolo como retidão e defesa da ordem espacial – civil – , e de Dionisos como sinuosidade das curvas labirínticas, tem-se o “lugar” trágico: sempre em ebulição, pois composto pela tensão perpétua entre forças defensivas ou invasivas. ‡ 2. Retidão e sinuosidade. Fronteiras. Seja, então, o espaço atravessado por retas, todas delimitando compartimentos dispostos de modo a permitir uma clara visão dos limites. Seja esse mesmo espaço, agora, invadido por curvas espiraladas, embaralhadas em novelos plenos de movimentos imprevisíveis. A relativa serenidade dos territórios sucumbe ao movimento de pontos, traçando lugares cada vez mais indiscerníveis de tal maneira que aquela clara divisão inicial dá lugar ao movediço das fronteiras: retas atravessadas por múltiplas curvas espiraladas, labirínticas, difusas. Eis aí, nesse movimento livre das trajetórias aleatórias, a emergência das possibilidades inusitadas, dos hibridismos, dos contágios entre territórios, das linguagens mestiças, das cópulas impossíveis. Destituição dos ângulos em prol da sensualidade perigosa da curva. ‡ 2.1. Sabemos, na matemática, que a reta sempre expressa o monótono, o constante, mesmo quando está num declive ou outro mostrando certas variações: dentre os fenômenos que formaliza, é sempre do uniforme ou do uniformemente variável que a reta vem. Não há “lugar” para o deslizante ao inexato, pois a reta nos oferece o ponto imóvel ou em mobilidade cadenciada – constante e domesticada pela exatidão da medida. Eis, portanto, a instauração do previsível e da pretensão da pureza das divisões. Nessas linhas, a fronteira se verticaliza, exigindo a construção de muros ou muralhas. A muralha, em sua essência, é a radicalidade da retidão vertical, impondo claramente o dentro e o fora do território, controlando quem é bem-vindo ou não. Há portões, claro, mas tais buracos não servem A RT E LO N D R I N A S E T E


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invadiu. Pode-se dizer até mesmo que a migração deseja seu próprio desaparecimento num todo maior que o recebeu. Obviamente, mudanças são trazidas a cada invasão e percebe-se que certas linguagens “estrangeiras” são formalizadas e incorporadas pela linguagem dominante ao território a que pertence. Há a submissão ou a integração das diferenças sob o domínio da ordem territorial. Integração que exerce a força das fronteiras num alargamento do espaço e na metrificação mais aguçada dos “novos lugares” exigidos. Por fim, aciona-se a demarcação de territórios menores sob a lógica do território maior: espécie de “visto” de permanência transformado em “cidadania” pacificada quando o invasor começa a falar a mesma língua, a se comportar da “mesma” maneira, a entender e se submeter às “mesmas leis” dos que já viviam no local. As migrações possuem movimentos uniformes ou, no máximo, uniformemente variados. ‡ Diferentemente, ondas nômades não cessam, nunca. Os processos nômades só conhecem o movimento, não suportam as paradas, ou tratados de paz. Seu “fim” é nunca se deixar acabar, pois sua vitalidade depende justamente do estranhamento que produz. Caso haja negociações, os movimentos nômades tendem às traições, à violência dos saques. São, geralmente, tortuosos, sinuosos, fugidios, não capturáveis, desfazendo a ordem e instaurando embaralhamentos, turbulências. Os nômades não se submetem à paz civil do território que ocupam. São hordas indiscerníveis, não efetivadas, não absorvíveis. Diante dessas invasões, o território “tende” a se desfazer e a se diferenciar, espiralando suas linhas divisórias, encurvando seus muros ou dobrando suas muralhas, que, aliás, já não servem mais para defesa nem para o ataque. Linhas curvas, linhas nômades, expressando a ação do fugidio e do movediço. Movimento sempre tangente aos centros de domínio, sejam eles linguísticos, E M P R E S TA - M E U M D E S E U S D I A S

for por tangências. ‡ 3. De volta às “fronteiras”. Cavar, esburacar, encurvar os muros ou muralhas. Na reta, que se deixa verticalizar, dividindo o espaço e selecionando seus dentros e foras, tracemos curvas. Fazer encurvar, fazer dobrar a verticalidade em prol da diferenciação, do diferencial. Criar, por dentre os compartimentos, espaços fronteiriços porosos, ondulados, drapeados, por onde possamos traçar tangentes, explorando as possibilidades movediças que se mostram ao longo dos caminhos. Que o espaço seja, então, um “lugar” por onde as margens permitam lutas interessantes, trocas reais ou invasões criadoras. ‡ É certo que as invasões nunca são pacíficas. Elas sempre escavam muralhas, destroem limites ou dissipam margens. Sejam elas oriundas de outros territórios, terras estrangeiras, distantes ou não, sejam elas rupturas de fronteiras internas, por onde grupos se diferenciam internamente e forçam sua presença, as invasões sempre produzem curvaturas, pois mostram a fragilidade da pretensão “organizadora” e, portanto, pacificadora nos espaços territoriais. É sempre à pretensão de ordem que a invasão “estrangeira”, interna ou externa, causa danos. ‡ 3.1. Invasões bárbaras, migratórias ou nômades. Invadir causa o encurvamento das retas, embaralha as delimitações longitudinais que se servem da verticalização em forma de muros ou muralhas. Porém, as mais potentes são as invasões nômades. Qualquer onda migratória pretende, em última instância, se tornar civil. Elas possuem o cansaço do movimento em si mesmas, requerendo a cidadania no fim. E é o “fim” que se vê, fim do movimento e das lutas travados pelos caminhos, instaurando a buscada paz estatal. Tais processos se caracterizam muito mais pela absorção e anulação das diferenças, que pela criação de novas possibilidades de vida, com novas linguagens ou novos sentidos. O movimento migratório só se efetiva quando se vê absorvido pelo território que A RT E LO N D R I N A S E T E


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genético da produção do espaço: desfazer as métricas e produzir o diferencial como potência de ação. ‡ 6. Entre Apolo e Dioniso, entre a curva e a reta e entre o espaço curvo e o plano, o interessante é deixar-se vagar pelas tangentes; é permitir-se ao movimento despretensioso das cidadanias, sejam elas quais forem. Ser sempre um “estrangeiro”, mesmo entre o próprio povo. Ser, quem sabe, um traidor de sua própria gente. Para além ou aquém das estratégias de movimento, o que importa, em última instância, é poder produzir espaços pelos quais as definições não sejam cristalizadas, impedindo proliferações de clichês ou promessas de “boa ordem”. Destruir fronteiras, promovendo margens flutuantes e movediças, pelas quais a criação possa se efetivar de alguma forma talvez seja uma necessidade vital.

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jurídicos, políticos ou estéticos. Na linguagem, por exemplo, há hibridismos sem submissão, produzindo uma língua nova e não apenas “estrangeirismos”. Nos espaços jurídicos e políticos, instaura-se a potência do “constituinte”, porta-voz de novas possibilidades de ser, de novas maneira de estar, que ainda estão livres dos ajustamentos constituídos do Estado. Linguagem construída para além das demarcações previstas, livres dos ordenamentos gramaticais ou da lógica métrica das semióticas consagradas. É o diferencial se insinuando, fazendo valer outras formas de ver, ouvir, falar. Ou melhor, é a criação de novos afetos de vida. ‡ 4. O espaço curvo. Então, que o próprio espaço se dobre numa curvatura; que o espaço liberte da retidão do plano, pois o plano só existe quando encarcerado numa idealidade. Isso é importante porque, se houver alguma retidão no espaço, ela só pode ser entendida assim quando a tomarmos com uma localidade: eis a tangente. Linha reta, ou plano, que toca a curva ou o espaço curvo, por meio da instalação de uma localidade singular à própria curva ou ao próprio espaço. ‡ Espaço diferencial, nômade, fugidio, imerso em potencialidades anexatas. Seria, talvez, ser a própria dobra dos muros ou das muralhas, desfazendo a verticalidade das fronteiras em favor sinuosidade das curvas. Aqui, as fronteiras se dissipam, trazendo à tona margens mais fluidas, escorregadias, plenas de mestiçagens e hibridismos. Locais de rapinas, lutas, apropriações, mas que geram novas linguagens, novas maneiras de ver, sentir, ouvir. Há, certamente, guerras ou lutas, mas que já não obedecem às leis gerais, totalizantes, pelo fato de que são travadas em localidades singulares, lá onde a tangente toca a curvatura. Espaço dos movimentos turbulentos, não capturáveis e criadores não de cidadanias submetidas, mas de processos contínuos de diferenciação. O ponto liberta-se de sua dependência da reta, tornando-se, ele mesmo, o elemento A RT E LO N D R I N A S E T E


Caio Pacela Principais exposições coletivas: Serendipity , C. Galeria (RJ) [2018]; 9º Salão dos artistas sem galeria, Galerias Zipper, SP, Sankovsky, SP e Orlando Lemos, MG, 2018; Abre Alas 14, Galeria A Gentil Carioca, RJ, [2018]; 1ª Bienal CAIXA de Novos ArtistasUnidades Curitiba, São Paulo, Brasília, Fortaleza, Recife, Salvador, e Rio de Janeiro [2015/2017]; 46º Salão de Arte NOVÍSSIMOS, RJ [2017]; A Luz que Vela o Corpo é a Mesma Que Revela a Tela, Centro Cultural CAIXA, RJ, [2017]; 46º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Santo André, SP [2016]; MAIS PINTURA, EAV Parque Lage, RJ [2014].

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NITERÓI — RJ

Abaixo do sol não há novidade alguma. ‡ Nós enquanto humanos buscamos nos fortalecer, consolar e compreender os motivos de nossas dores e dissabores. ‡ O mundo para o qual olhamos também nos observa e parece a todo instante querer esconder sua nudez, porém há algo sempre visível como se suas vestes, sendo menores que seu corpo, revelam-se incapazes de encobrí-lo e no instante que se abriga o que antes estava à mostra, uma outra parte é revelada. ‡ Assim uma imagem de seu todo nu somente é capaz de se formar em nossa imaginação e para representar o que não está visível usamos a lembrança do que em outro momento conseguimos ver, ou seja, tomamos por referência algo que não estamos vendo no presente ou um relato (também incompleto) de quem outrora o vislumbrou e assim seguimos confeccionando e trocando essas imagens de impressões e recordações de como este mundo nos parece ser por completo.

Exercício para se procurar a liberdade em um outro território #2 2017 Óleo sobre tela 25 x 37 cm .

CPACELA@GMAIL.COM

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A RT E LO N D R I N A S E T E


O outro nunca se apresenta de frente

Não temos idéia, mas suspeitamos

2017

2016

Grafite sobre papel 25 x 40 cm .

Grafite sobre papel 16,1 x 21,7 cm.

O Intérprete

Davi não sabe onde está Golias

2017

2017

Óleo sobre tela 29 x 24 cm .

Grafite sobre papel 16,5 x 12,3 cm.


Daniel Higa Daniel Higa (1997). Nasceu em São Paulo, SP; atualmente estuda e trabalha em Pelotas, RS. Cursa Bacharel em Artes Visuais pela UFPel desde de 2016. Principais exposições: INCO[3]ODO - Mostra de Arte Contemporânea. Exposição coletiva. [2018]. Curadoria de Daniel Acosta e Hélcio Oliveira. Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo, MALG. Pelotas, RS; O Corpo Que te Cabe. Exposição coletiva. 2018. Secretaria de Cultura de Caxias do Sul. Galeria de Artes. Centro de Cultura Ordovás. Caxias do Sul-RS; 7 Em Sala: Mostra de processos. Exposição dos integrantes do Corredor 14. [2018]. Corredor 14. Pelotas, RS; Pelotas Oculta no Espaço de Arte Daniel Bellora [2017] em Pelotas, RS; Encontro/Mostra: Deslocc As Paisagens Cotidianas na Galeria A Sala; Curadoria e Organização Duda Gonçalves em Pelotas, RS;

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S Ã O PA U L O — S P

O trabalho Pausa (2017) é um dispositivo que visa um diálogo entre o corpo, a aquitetura e o deslocamento. ‡ O dispositivo é construído por meio de amarrações feitas com corda que se entrelaçam às varas de bambu. ‡ O diálogo entre o corpo e a arquitetura dá-se na experiência que o trabalho propõe: vestimenta. ‡ A primeira arquitetura do corpo. ‡ A camada na qual a arquitetura está em movimento. ‡ Pausa procura encontrar esse lugar, nessa equação que explora o nomadismo do ser. ‡ Penso que ele proporciona um intervalo, um momento de descanso. ‡ Quando o movimento de carregar é inverso e o corpo junto ao dispositivo se viram em direção da parede. ‡ construo o dispositivo que é composto de corda e bambu, procuro por meio dessa construção aspectos elementares ‡ uso o bambu e a corda como materiais a escolha desses procedimentos refletem uma força corporal para a construção e experiência do trabalho ‡ despertando aspectos de nomadismo ‡ relação corporal propõem um jogo entre o corpo e a arquitetura, ‡ ação de um fazer artesanal ‡ Realizado em 2017, o trabalho se coloca como dispositivo, é remete a um uso ‡ O trabalho.

DANIELHIGA@OUTLOOK.COM

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Pausa 2017 Bambu e corda 2,34 x 0,36 m.


Gabriel Bonfim

Espaço para gerar Espaço ‡ [Elke Pereira Coelho Santana] ‡ "Somos anfíbios; sobrevivemos igualmente na casa e na rua; respiramos na casa e respiramos na rua; entramos em casa com os pulmões cheios de ar da rua; e devolvemos depois à rua um punhado de ar da casa; " [Ana Martins Marques]. ‡ O Gabriel tem um quarto. ‡ O quarto do Gabriel tem o chão vermelho. ‡ Por este motivo, ou não – pois há uma gama indeterminada de fenômenos que fazem com que gostemos de certas coisas ou que nos identifiquemos com outras – o Gabriel gosta de vermelho. ‡ Além de ter um quarto e gostar de vermelho, o Gabriel é artista. ‡ Ser artista, para o Gabriel – para mim e, quem sabe, para você – é uma coisa simples e, ao mesmo tempo, complicada. ‡ Simples porque Gabriel sabe que arte, de alguma forma, se relaciona com ações que ele desenvolve há muito tempo, como compartilhar espaços e afetos, ou, ainda, gerar situações em que espaços repletos de afeto possam ser vistos e experienciados. Mas fazer arte também é coisa complicada porque “força a experiência subjetiva, individual e coletiva, e estimula a indagação existencial”1. ‡ Gabriel acredita que “ouro de artista é amar bastante”2, sabe que “da adversidade vivemos”3 e quer “crer que o vermelho é a cor que tem mais significado e que abre para mais direções”4. 1  SEVERO, André. Campo de rejeito. In: BERNARDES, Maria Helena. Vaga em campo de rejeito. São Paulo: Escrituras, 2003. p. 80. 2  Frase escrita pelo artista José Leonilson no verso do trabalho Voilà mon coeur, c. 1989. Bordado e cristais sobre feltro, 22 x 30 cm. Coleção Adriano Pedrosa – Rio de Janeiro. 3  OITICICA, Hélio. Esquema geral da Nova Objetividade. In: FERREIRA, Glória; COTRIM, Cecilia (Orgs.). Escritos de artistas: anos 60/70. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. p. 168. 4  MEIRELES, Cildo. Memórias. In: SCOVINO, Felipe (Org.). Cildo Meireles – Entrevistas. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009. p. 273.

BONFIMGAP@GMAIL.COM

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De Londrina/PR, vive, estuda e trabalha em Florianópolis/SC, é artista, professor e pesquisador. Graduado em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Londrina [UEL], é mestrando bolsista CAPES em Artes Visuais, na linha de Processos Artísticos Contemporâneos da Universidade do Estado de Santa Catarina [UDESC]. Desenvolve trabalhos que envolvem o corpo e o espaço urbano, e investiga suas diversas manifestações. Participou em [2016] da exposição “site specific” Passageira 16 no Museu de Arte de Londrina com o coletivo Barafunda. Em [2018], participou do Circuito Grude, que reuniu artistas de 29 cidades numa rede de produção e disseminação de lambe-lambes sob o tema Incorporo a revolta. Participou do 15.º Salão Ubatuba de Artes Visuais [Ubatuba – SP] e foi premiado com a medalha de prata na categoria instalação. Participou da exposição Mesclada e Cabeças corações arcos tensionados, ambas na Divisão de Artes Plásticas da UEL. Em [2019] participou da Semana de Arte Urbana do SESI [SAUS] de Londrina e do 2º Refluxo - Festival Experimental de Artes em Goiânia [GO].

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J A TA I Z I N H O — P R

A RT E LO N D R I N A S E T E


Espaço para gerar espaço 2018 Tinta acrílica 196 x 312 cm (6,1m2 de área total).

‡ Talvez seja por isso, e por muitas outras coisas que não cabem aqui, que o Gabriel anda gerando, a partir da planta baixa de seu quarto, outros espaços rubros – em galerias, em calçadas, em praças, em praias, em frente a igrejas... ‡ Seguindo o ensinamento do ditado popular, que diz que gentileza gera gentileza, que afeto gera afeto, Gabriel nos diz, por meio de suas intervenções, que espaço gera espaço. ‡ Assim, um espaço íntimo, privado, ao ser transposto, transplantado no âmbito público, gera muitos outros espaços... de percepção, de experiência, de compartilhamento, de vida.


Guilherme Bergamini

Mineiro de Belo Horizonte, é com a fotografia que Bergamini expressa suas vivências pessoais e visão de mundo. Guilherme é um entusiasta e curioso pelas novas possibilidades contemporâneas que a técnica permite. Persistente, o artista visual tem a fotografia como meio de crítica política e social. Premiado em concursos nacional e internacional, participou de festivais e exposições coletivas no Brasil, Portugal, Espanha, Grécia, França, Alemanha, Itália, Eslovênia, Lituânia,Turquia, Venezuela, México, Chile, Argentina, Equador, Colômbia, Uruguai, Estados Unidos, Índia, Costa Rica, Singapura e Malásia, além de ter fotografias publicadas em diferentes veículos de comunicação brasileiros e estrangeiros.

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BELO HORIZONTE — MG

In memoriam. In memoriam é um projeto de arte/vida, híbrido, na medida em que faz fronteira entre performatividade, fotografia e escrita literária. ‡ No âmbito da fotografia, traz lembranças de uma casa no período de minha infância. ‡ Essas recordações são o dispositivo para provocar os registros. ‡ Revisito fisicamente essa casa, porém, agora vazia – sem móveis, objetos e pessoas de minha infância. ‡ As histórias contadas são um desdobramento do material gerado pelas fotos. ‡ Partem de um diálogo com o artista Louraidan Larsen, que trabalha sob as perspectivas das lembranças vividas por mim; de sua própria memória de infância; e a partir da livre criação. São histórias, portanto, que misturam realidades diversas e ficção. ‡ Educação para todos. Sociedades democráticas pressupõem cidadãos educados, isto é, bem informados e críwvticos, tanto porque se requer que eles sejam capazes de formar conscientemente suas preferências e escolher entre alternativas distintas, tanto porque se supõe que devam fiscalizar seus representantes e agir na política diretamente, quando necessário. ‡ Nesse contexto, a educação é considerada um direito universal e, consequentemente, um dever do Estado, que deve provê-la gratuitamente e com qualidade a toda a comunidade que governa. ‡ O Brasil, marcado pelo seu passado profundamente desigual e injusto, vive ainda no século XXI o desafio de garantir esse bem essencial a seu povo. ‡ E a democracia brasileira parece ser, então, um sonho ainda mais distante quando se nota, por um lado, que nossa carência de educação pública inicia-se por sua dimensão mais elementar – a do espaço físico das escolas – e, por outro lado, que se priva, sobretudo, precisamente aqueles que por ela mais poderiam ser beneficiados: as crianças do país.

GUIBERGAMINI@GMAIL.COM

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Educação para todos 2014 Fotografia 50 x 75 cm.

In memorian 2017 Fotografia digital — pigmento mineral sobre papel de algodão, e moldurada sem vidro. 9 fotografias no formato 30 x 45 cm, e 9 texto acompanhando cada fotografia.


Ilana Bar

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S Ã O PA U L O — S P

Toninho, pré história. Fotografia inspirada na pintura rupreste, realizada a partir de um estudo sobre a historia da arte traduzido em imagens fotograficas. ‡ Faz parte da série titulada "tão down" que apresenta 7 imagens, cada uma representa um periodo especifico da historia da arte. ‡ Transparências do lar. O olhar é lançado sobre o ritmo da vida humana num cotidiano real que é misturado com o imaginário. ‡ Formando um mosaico de afetos que suspende no tempo e provoca a reflexão sobre beleza, vida, intimidade, semelhança e diferença. ‡ Durante os últimos anos venho retratando o cotidiano intimo da minha própria familia e historia. ‡ É um relato sobre as relações humanas de pessoas que convivem e compartilham o mesmo espaço. Toninho, pré-história 2017 Tríptico de fotografia digital impressa em papel de algodão 40 x 60 cm cada.

Artista, fotografa e pesquisadora. Bacharel em fotografia pelo Centro Universitário Senac e mestranda em Artes Visuais pela ECA—USP. Vive e trabalha entre as cidades de Atibaia e São Paulo. Seus projetos e pesquisas envolvem o universo familiar, laços afetivos com pessoas e espaços. Em [2010] foi contemplada com o 1º lugar no 8º festival internacional da imagem fotográfica em Atibaia. Em [2017] participou da exposição International Discoveries VI—Fotofest em Houston—TX com a série transparências de lar. Esta mesma foi contemplada com o prêmio Nacional de fotografia Pierre Verger [2016/2017] e o premio Nera di Verzasca, [2018]—no Verzasca foto festival, Sonogno, Suiça. ILANABNW@GMAIL.COM

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Transparências do lar 2017 Fotografias digitais impressas em papel de algodão 19 x 28 cm ocupando uma área de 1,5m x 3,5 m.


Julia Paccola Formada na Faculdade Arquitetura e Urbanismo da Univerasidade de São Paulo em 2012. Desde então, realizou 3 autopublicações de livro de artista e colaborou com um trabalho na Revista Columbra (Chile). Participou das exposições Cá entre Nós #4 (OÁ Galeria — ­ ES), Formas de voltar para casa (SP), Eu queria ser lida pelas pedras (Galeria Guaçuí — ­ MG), O olhar Delas (SP) e da projeção Foto_Invasão (Red Bull Station — SP). Em 2018 foi artista participante da Residência: Ocupação Rarefeita (Casero Residência — RJ). É também arte educadora e designer, contribuindo com projetos no Instituto Tomie Ohtake e Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo.

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S Ã O PA U L O — S P

Corpo, paisagem, território, vestígio, tempo, narrativa, constelação. ‡ Estas são palavras entre as quais minha pesquisa artística frequentemente circula. ‡ O tempo, ainda, é como um procedimento: busco dilatá-lo ao produzir imagens, muitas vezes acrescentando camadas de significado simbólico. ‡ Vocabulário de Gestos. É um trabalho no qual exploro a dimensão da intimidade e do corpo na fotografia. ‡ É uma série de autorretratos realizados com o mínimo possível de controle, sendo o principal interesse a etapa seguinte: carimbar o corpo com tinta acrílica sobre cada imagem, sobrepondo suas partes correspondentes. ‡ O acúmulo de matéria produz texturas cutâneas e apagamentos, em um desejo de entender alcances e distâncias pelo aninhamento do corpo sobre sua imagem. ‡ O gesto, que encaro como uma performance, fica suspenso na imaginação e marcado por seu próprio rastro. Insistência de um corpo sobre si mesmo. ‡ O projeto Detalhe de imagem vem sendo construído de maneira intuitiva ao perambular diversas vezes por todo meu arquivo de fotografias. ‡ Atraída pelas expressões e gestos de mulheres em segundo plano de minhas imagens, passei a recortá-las, construindo uma coleção de figuras femininas que em algum momento cruzaram meus percursos na cidade. ‡ Para cada imagem recortada faço uma caixa ou bloco de madeira e a adiciono ao conjunto. ‡ É um processo aberto, no qual constelações narrativas se desdobram com a inclusão de novas mulheres.

JULIA.PACCOLA@GMAIL.COM

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Vocabulário de Gestos 2018 Tinta acrílica sobre fotografias impressas em papel Hahnemühle Photo Rag 250g 16 imagens, tamanhos variados entre 16x24cm e 28x41cm, fixadas na parede com imãs de neodímio. Tamanho montagem completa: 1,80m (larg.) x 1m (alt.).

Detalhe de Imagem 2017 Fotografias analógicas impressas em papel Hahnmühle Photo Rag 250g envolvidas por pequenas caixas de madeira. 7x4,5cm aproximadamente.


MILENA.EDELSTEIN@GMAIL.COM

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Milena Edelstein

Graduou-se em Artes Visuais no Centro Universitário Belas Artes de São Paulo e pós graduada em Fotografia: Praticas Artísticas e Contemporâneas na FAAP e atualmente cursa mestrado na UFMG. Trabalha como artista, realizou mostras em salões, residências artísticas e projetos no Marp, Sesc Ribeirão Preto, Est Nord Est (Quebec-Canadá), Ateliê 397, Oficina Cultural Oswald de Andrade, Photo Paris, entre outros lugares. As suas proposições se caracterizam muito pelas interfaces entre realidade e a não realidade produzidas à partir da fotografia e do vídeo afim de inverter e questionar o uso dos espaços e questionar a relação entre paisagem,natureza e cultura.

Bom retiro é Coréia. ‡ O Bom Retiro é um bairro de São Paulo, que absorveu diferentes colônias imigratórias ao longo de sua história: italianos, judeus do leste europeu, bolivianos, peruanos e por fim, coreanos. ‡ Transforma-se continuamente a partir de diferentes influências tanto na arquitetura como em sua configuração social, e passa a atuar como microcosmo dentro de um bairro na cidade. ‡ Através de registros fotográficos criei um novo recorte à partir de determinados índices que compõe a paisagem local. ‡ As fotos não são mais da cidade de São Paulo, e sim de alguma possível cidade na Coréia do Sul. ‡ Quis me colocar numa espécie de teletransporte, um exercício de ser viajante dentro de meu país, para que de fato a experiência do estranhamento existisse e para que assim eu conseguisse resignificar tais espaços. Movimentos de falha em 180 dias. ‡ A dança sempre me foi uma destes pequenos prazeres aos quais nunca relevei ou tive pretensão de serem trabalhos, pois dançar era muito mais um estado vital, intrínseco aos movimentos cotidianos. ‡ Aos poucos iniciei um processo quase que diário de registrar danças durante 180 dias no pequeno espaço permissivo em que é o quarto, são mais de 40 vídeos além de registros fotográficos. ‡ Sem pretensão de contextualizar a pesquisa e a experimentação; danço porque não sei. ‡ No devir, não existe o certo e o errado, apenas experimentações. ‡ De fato a ignorância sobre estas linguagens me possibilitou construir saberes à partir da tentativa, e é este o principal objetivo de meu trabalho. ‡ Assumir a ignorância e consequentemente o risco. The sublime inhabit the insignificance. ‡ Registro de ações cotidianas são apresentadas simultaneamente em uma parede e em uma tela de televisão. ‡ As imagens em grande formato são detalhes de ações mínimas e muitas vezes despercebidas no dia a dia, ampliadas pelo zoom da câmera. ‡ Na televisão, ambientes e paisagens são filmados e mostram os cenários num campo mais aberto, as imagens sugerem E M P R E S TA - M E U M D E S E U S D I A S

S Ã O PA U L O — S P

A RT E LO N D R I N A S E T E


uma colagem de detalhes banais e cotidianos da vida. ‡ Como uma tentativa de reforçar a afirmação do escritor francês Michael Houllebecq " na vida pode tudo acontecer, principalmente nada".

Bom retiro é coreia 2015-2017 Série de fotografias Fotomontagens impressas em papeis variados com e sem molduras (Dimensões variáveis).

Movimentos de falha em 180 dias 2015 Fotografias impressas em papel e projeção de vídeo.


Mônica Coster Mestranda do no programa de pós graduação em Estudos Contemporâneos das Artes na Universidade Federal Fluminense (PPGCA/ UFF), graduada em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA/UFRJ). Atualmente seu trabalho investiga a construção do vestígio na escultura, a digestão e os funcionamentos biológicos. Principais exposições: Sem sinal, Fábrica Bhering, RJ; Histórias fora da ordem, Museu Histórico Nacional, RJ; V Bienal da Escola de Belas Artes; Provocações, Museu Nacional de Belas Artes, RJ.

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R I O D E JA N E I RO — R J

Como atravessar uma montanha. É um vídeo no qual realizo a travessia do túnel Santa Bárbara, no Rio de Janeiro. ‡ O plano sequência, que se inicia com a tomada de fôlego na entrada do túnel, acompanha toda a minha apneia de dentro de um veículo em movimento, até o respiro de alívio, ao final do túnel. ‡ “A cidade dá a ilusão de que a terra não existe”, diz Robert Smithson. ‡ Quando cruzamos túneis, passamos por dentro de montanhas, penetramos na crosta. ‡ A suspensão vem de um jogo infantil: quando criança, eu costumava fazer um pedido e prender a respiração ao atravessar os túneis da cidade. ‡ Se eu aguentasse a travessia sem respirar, o desejo se realizaria; caso contrário, seria um fracasso. ‡ Então, será que as montanhas respiram e desejam como nós? ‡ Experimento a atividade vital, a atmosfera mágica da montanha, fazendo frente à sua grandiosidade com a simples perturbação na ordem de minha respiração. ‡ Como se o fluxo do meu respirar conversasse, de algum modo, com o fluxo da travessia da montanha. ‡ Tampo o canal, o ar cessa. ‡ Qual é o máximo de tempo que se pode ficar sem respirar? ‡ O túnel flui: veículos passam por dentro do relevo da terra, o curso da cidade. ‡ Atravesso o ferimento oco, ou melhor, ele me trespassa: portal mágico escavado na terra.

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Como atravessar uma montanha 2017 VĂ­deo digital, 1'51".


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Neiliane Araujo

Nasceu em Brasília, DF. Vive e trabalha em São Paulo, SP. 2006 — 2001: Bacharel em Artes Plásticas. Instituto de Artes, Universidade de Brasília, UnB. 2019: Artista Residente no Ateliê Coletivo Alex Vallauri, Divisão de Artes Visuais da FUNARTE. São Paulo, SP. Principais exposições coletivas: Arte Londrina 7. Londrina, PR [2019]; L.O.T.E. (Lugar, Ocupação, Tempo, Espaço). 7ª edição. Instituto de Artes da UNESP [2018]; Metanóia. 3ª Convocatória Galeria Airez. Curitiba, PR [2017]; 13º Salão de Artes Visuais de Guarulhos [2014]; Ícones da Fé. Porto, Portugal [2013]; 1° Salão de Outono da América Latina. São Paulo, SP [2013]; Artes e Ofícios Para Todos 1. Paralela à 30ª Bienal de Artes de São Paulo. Liceu de Artes e Ofícios. São Paulo, SP [2012]; Primeira Coletiva. Núcleo de Estudos para Jovens Artistas. Oficina Cultural Oswald de Andrade. São Paulo, SP [2012]; Play rePlay. Espaço Cultural Marcantonio Vilaça. Brasília, DF [2008]. Vi(sita). Ocupação Individual da Galeria de Bolso. Casa da Cultura da América Latina. Brasília, DF [2009]. Obra em coleção pública: O suposto movimento da montanha — II (P.A). Oficina Cultural Oswald de Andrade. São Paulo , SP [2013].

“ É na tênue marca de um traço que está a verdade do lápis. ” ‡ [Roland Barthes] ‡ Esta série de desenhos consiste em um método criado para desenhar. ‡ Desde as experimentações anteriores realizadas sobre papéis que já contém informações impressas, a exemplo do papel milimetrado, bastante explorado por mim, o universo matemático faz parte das minhas investigações artísticas. ‡ Para este momento, o sistema de coordenadas cartesiano foi adotado como base para minha criação, adotando como referenciais os eixos X e Y, como se estivéssemos imersos em um gráfico de função matemática porém, trabalhando com coordenadas não convencionais. ‡ Trata-se de um sistema de coordenadas da vida. ‡ Elementos e conceitos algumas vezes opostos entre si estão posicionados a fim de se criar uma tensão entre eles capaz de gerar um resultado imagético. ‡ O resultado obtido é o que restou do movimento do dedo que segura o lápis sobre o papel, mais do que o movimento da mão, tendo em vista o espaço que foi delimitado para a sua atuação. ‡ O movimento capturou a atmosfera do encontro causado pelas ideias inscritas nos eixos desse sistema. ‡ À medida em que tentei fazer as conexões entre uma coisa e outra colocada em cada eixo, relacionando as diversas questões que suscitam (dúvidas, angústias, preguiças, libertações, alegrias, fantasias), o rabisco foi gerado tornando visível o tempo gasto nessa operação sobre o papel. ‡ Nesse ato de desenhar dirigido, são detectadas garatujas e redemoinhos a partir da repetição de círculos pequenos, linhas curtas alternadas com linhas mais longas, ora emaranhadas, ora em traços retos e outras se comportando como se desatassem nós. ‡ O efeito do acaso é incorporado, inclusive, na formação dessas linhas para criar a forma resultante, assim como diferentes tipos de lápis foram utilizados na construção do trabalho no intuito de E M P R E S TA - M E U M D E S E U S D I A S

BRASÍLIA — DF

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atender as várias nuances dos temas coordenados. ‡ Esboços ou desenhos prévios não foram empregados na execução desta série. ‡ Gráficos teve sua produção iniciada em 2015. ‡ Devido à demanda por mais pares de coordenadas para interagir, a produção apresentou uma pequena pausa mas, obteve continuidade no ano de 2018, uma vez que persiste a impressão de que “isso versus aquilo” sempre vai existir.

Gráfico abandono X comunicação — série Gráficos 2015 Grafite sobre papel canson 200g 29,7 x 42 cm.

Gráfico mulher X igreja — série Gráficos 2015 Grafite sobre papel canson 200g 29,7 x 42 cm.


Rodrigo Moreira

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BELO HORIZONTE — MG

Na série Medusas. Combino desenhos científicos de plantas com o fascínio popular pelas tragédias. ‡ Recortes de jornal extraídos de matérias policiais são sobrepostas às ilustrações botânicas que hipnotizam por sua beleza e riqueza de detalhes, da mesma forma que o trágico desperta nosso interesse e fixação. ‡ Em Estratégias de Segurança. Cartazes lambe-lambes são dispostos em espaços públicos onde casos de agressão de natureza homofóbica foram registrados na cidade de São Paulo. ‡ Os retratos de frequentadores da região são sobrepostos por tarjas contendo 4 dicas de comportamento publicadas pelo jornal Folha de S. Paulo, listadas como estratégias de segurança para evitar agressões: ‡ 1. Andar em grupos: ter amigos por perto pode intimidar agressores; ‡ 2. Ir a locais fechados sempre que possível para aumentar segurança; ‡ 3. Evitar andar de mãos dadas e beijar em locais públicos; ‡ 4. Não dar "pinta": alguns trejeitos podem atrair a atenção de criminosos. ‡ Data/Date. É um neon que alterna entre as palavras “data” e “date” em uma meditação irônica sobre intimidade na era da vigilância.

Artista visual formado em Design Gráfico (UEMG) e Comunicação Social com formação complementar em Belas Artes (UFMG). Participou de exposições no Brasil e exterior como FOUND: Queer Archaeology; Queer Abstraction (Leslie Lohman Museum, NY), Multitude (Sesc Pompeia, SP), Abre Alas 11 (A Gentil Carioca, RJ) e Salão Novíssimos 2013 (Galeria Ibeu, RJ). Em 2014, recebeu o prêmio principal do 66˚ Salão de Abril de Fortaleza. RODRIGOMOREIRA.COM.BR CONTATO@RODRIGOMOREIRA.COM.BR

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Medusas 2013-2016 Serigrafia 29,7x42cm cada.


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Simone Cupello

Nascida em Niterói em 1962, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Sua trajetória passa pela arquitetura, pela cenografia, pós-produção de vídeo e cinema, é a partir de 2013 que começa a atuar efetivamente como artista visual. Frequentou cursos da EAV Parque Lage no Rio de Janeiro e grupos de estudo de arte contemporânea, em especial, o de Charles Watson.Realizou as exposições individuais Jardim de Yeda (Central Galeria, SP), Entornos (Centro CulturalCândido Mendes, RJ) e Olhares Privados (Centro Cultural Justiça Federal, RJ). Participou das coletivas. 43°SARP (MARP, Ribeirão Preto, SP), segunda Frestas Trienal de Artes (SESC Sorocaba, SP), Abre Alas - 12 (Galeria A Gentil Carioca, RJ), Fotos Contam Fatos (Galeria Vermelho, SP), e Bienal Caixa de Novos Artistas (Caixas Culturais do país). Representou a Central Galeria no Setor Solo da SP-Arte 2018.

O movimento de justaposição, fricção e intersecção de linguagens artísticas é comum à matriz de pensamento que norteia os trabalhos de Simone Cupello. ‡ Pesquisadora de imagens pessoais descartadas, a artista vem desenvolvendo instalações e formas orgânicas que se utilizam desses arquivos como matéria, destituindo a sua função original de memória. ‡ É o caso das obras Sorrisos em caixa e Beatriz vai à Itália, pedras esculpidas em fotografias prensadas. ‡ Como as rochas, que são acúmulos de materiais orgânicos que se sedimentam em uma nova forma, nas pedras de Cupello o conteúdo perde-se diante da concentração, do adensamento e da abundância. ‡ (Fragmento do texto de Ulisses Carrilho. Catálogo “Entre Pós-verdades e Acontecimentos _ Frestas Trienal de Artes”). ‡ Acomodadas em álbuns, esquecidas em envelopes, organizadas em gavetas ou em antigas caixas de sapato, as fotografias familiares, quando revisitadas, são vistas geralmente em ordem sequencial, uma a uma ou em pequenos conjuntos assentados em uma superfície. ‡ Vistas dessa forma, suscitam lembranças, emoções fortuitas, e geram conexões entre tempos e espaços distintos por meio de leituras em espirais, as quais o filósofo Vilém Flusser denominou “magia”. ‡ Embora atue sobre cópias fotográficas vernaculares, distanciando-se dos arquivos digitais, Cupello diz não ter interesse pelas memórias iconográficas, mas sim pela interação das pessoas com a matéria fotográfica. ‡ A magia da observação das imagens, que, em geral, tem seu epicentro na súbita e atordoante ressurreição do passado no presente que elas ensejam, para a artista está deslocada para a observação do corpo fotográfico, responsável por agenciar esse paradoxo temporal e espacial. ‡ [Fragmento do texto “Estratégia para fazer florescer fotografias de jardins”, de Eder Chiodetto. Exposição Jardim de Yeda]. E M P R E S TA - M E U M D E S E U S D I A S

NITERÓI — RJ

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Sorrisos em caixa 2017 Fotografias apropriadas prensadas e esculpidas 25 x 30 x 25 cm.


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VEJA, OU REVEJA, OS READY-MADES DE MARCEL DUCHAMP.

COMO UMA FOTOGRAFIA PODE RECONSTITUIR UMA EXPERIÊNCIA? PROCURE INDÍCIOS DA GEOLOGIA DA CIDADE.

PENSE NUM CONTRAFLUXO AO “ESFORÇO DESMEDIDO PELO SUCESSO, O CONSUMISMO, A SEDE PELO PODER...”

TENHA AUTONOMIA NA CONSTITUIÇÃO DE SI.

A FALTA NOS OBRIGA AO DEVANEIO?

DESMONTE, RECOMBINE, RENOMEIE.

O QUE FAZER COM AS MÚLTIPLAS PERCEPÇÕES A QUE ESTAMOS SUJEITOS?

exposição três — precipitações

ONDE ESTÃO SUAS CORES PREDILETAS? ELAS MIGRAM?

COMO A LOUCURA, O FRACASSO, A FICÇÃO E O JOGO PODEM SER USADOS COMO ESTRATÉGIAS DE LIBERTAÇÃO?

COMO OS OBJETOS PASSAM A TER VALOR?

DE ONDE AS SUAS IMAGENS VÊM?

NA CULTURA DO DESCARTE EM QUE VIVEMOS, O QUE É VALIOSO?

QUE EQUIPAMENTOS PODERIAM TE SUBSTITUIR?

O QUE A SUPERFICIALIDADE DIZ SOBRE COMPORTAMENTO HUMANO?


Professor Doutor no Dep. de Arte Visual da Universidade Estadual de Londrina – PR

Depois de dias escrevendo reescrevendo um texto de escrevente, decidi enviar as quatro cartas como proposta de um futuro diálogo com você e com quem possa se interessar por minhas colocações. qualquer semelhança com pessoas do meu convívio é mera semelhança, com excessão de você, que me fez a proposta, e do grupo de pesquisa que coordeno. a propósito, agradeço imensa e profundamente o convite. acho que essas cartas serão um pedido de desculpas por tudo, sou um... bem, vou dizendo o que sou e estou sendo ao longo das cartas abaixo. abraço. ‡ SOBRE A VERDADE NA OBRA DE ARTE: de um solteirão, carta um ‡ Caro amigo, Sua proposta está à minha frente, e eu me pergunto se deveria ter aceitado; o porquê aceitei me interpela o tempo todo, menos porque estou desanimado e mais pela ideia de escrever como pesquisador, que muito me anima, embora me apavore tremendamente. O que importa

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Claudio Luiz Garcia

agora averiguar não é a relevância deste escrito, mas a do evento em questão (sei o quanto há de qualidade e esforço de trabalho no ARTE LONDRINA). Eu tenho me perguntado como eu poderia contribuir para esse evento. ‡ Seu trabalho de curador o levou a pensar na “verdade” como tema para compreender a ficção e, talvez, analisá-la em sua totalidade de manifestações de artistas que procuram o evento. Não sei nada relevante sobre a verdade na arte, mas reconheço a manifestação verdadeira de um ato artístico, bem como, a seriedade de seu trabalho. Digo isso apesar da minha timidez, com uma tonalidade afetiva de espanto – a primeira tonalidade afetiva indicada por Martin Heidegger, em Contribuições à Filosofia: do acontecimento apropriador. Falarei mais sobre isso adiante. ‡ Esse reconhecimento de seu trabalho não vem pelo meu juízo de valores profissionais, mas pelos instantes apropriadores que minha percepção tem passado e, também, é claro, pelo juízo estético adquirido conforme fui vivendo, vivenciando exposições por aí afora. ‡ Nunca lhe falei isso, mas sou um caipira, tímido. Para fazer elogios, eu sofro. Morro de medo de fazer-papel-ridículo, ou seja, de escrever sobre coisas que revelarão meu lado bonzinho e cafona. É difícil elogiar, mais fácil é meter a boca, falar mal. Minha intuição de caipira tímido vem acompanhada de uma espontaneidade exagerada, o que tem gerado grandes desconfortos, mas esse exagero vem sendo gestado pelo pudor. Diante dos competentes, eu me silencio. ‡ Quando você me propôs escrever um texto pensando sobre a verdade na ficção, comecei por diversos escritos e nenhum deles me pareceu agradável de ler. Optei por esta missiva, pois sou mais verdadeiro quando escrevo cartas. ‡ Claro que estou com o ensaio de Martin Heidegger, A origem da obra de arte, diante de mim, aqui na mesa, mas não me atrevo a lhe enviar meu entendimento sobre essa obra. O pensamento de Heidegger é tão difícil de ser acessado quanto bom de ser lido. Saiba você que meu projeto de P R E C I P I TA Ç Õ E S

SOBRE A VERDADE NA OBRA DE ARTE

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1  Sorgen – como preocupação, ocupar-se de algo com frequência.

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sem morder o próprio rabo; sem opróbrio pelo-amor-de-deus! Estou seguindo o pensamento meditativo de Heidegger, não pelos seus interesses, mas pelo seu modo de pensar. Em meus pensamentos e meditações, tenho focado a educação, que pode ser compreendida como a verdade de uma pesquisa, que, neste caso, surge do ato de criar. Essa suposta verdade de uma “obra-de-arte”, aqui tematizada e a ser investigada, pode se configurar como o “lugar de criação e pesquisa na UEL”? A preocupação para responder se dirige à uma outra pergunta: Como seria o Departamento de Arte Visual (DAV) ou uma “instituição-obra” como arte? Pouco importa se esta é reconhecida pelos sujeitos alheios a ela, o que importa é saber se o “a-gente” preocupa-se com os outros ou com o próprio grupo. ‡ Esse lugar acolhe o caminho do processo de criar que se bifurca em pesquisa e educação. Nesse sentido, segue uma sugestão de leitura ou de releitura do conto O jardim dos caminhos que se bifurcam, de Jorge Luís Borges. ‡ Nossos caminhos de pesquisadores não têm se encontrado diretamente, pois entro em conflito com você devido ao nosso temperamento. Nós ocupamos espaço demais nos lugares em que estamos, cada um a seu tempo. Precisamos ficar distante um do outro, mesmo porque é bom falar mal de você por trás. Só rindo mesmo, né? ‡ Enfim, eu dei voltas demais para estar aqui como professor da UEL, por isso falo sempre a partir da minha experiência de vida. ‡ Pergunto: Esta carta é um relato de vida ou uma obra de ficção? A verdade, aqui exposta, é a de um professor, artista e pesquisador nesta totalidade, mesmo que parcial. ‡ Para terminar, depois de várias tentativas para criar um texto filosófico, decidi por esta carta-ensaio devido a um velho gosto, pois escrevia cartas para amigos. Hoje, as mensagens eletrônicas me privaram desse gosto, mas, até há pouco tempo, eu ia quase diariamente ao correio para enviar cartas e ficava emocionado quando recebia respostas. ‡ SOBRE A VERDADE NA OBRA P R E C I P I TA Ç Õ E S

pesquisa, hoje, na Universidade Estadual de Londrina (UEL), foi feito a partir de minha pouca compreensão de Ser e Tempo e do ensaio acima referido. Fui atrevido e confesso que apresentei o projeto para aprender junto com o grupo que se aproximou de mim nos últimos anos. Enfim, não me atrevo a escrever sobre meu entendimento a respeito do que tenho lido de Heidegger. Não sou capaz de analisar um texto dessa envergadura, a não ser em leituras acolhedoras que tenho feito com esse grupo. ‡ Como estamos envolvidos com a educação, é impossível não tocar nesse assunto. Talvez, a verdade de uma obra de arte esteja ligada à pesquisa, que, por sua vez, está ligada à educação. Estas são representações dos três pontos fundamentais do meu processo de criar imagem e usar palavras. Vejo estas três palavras como a totalidade de minhas preocupações intelectuais e sensíveis, se é que posso assim separá-las. A criação acontece mediante uma atitude singular e, às vezes, durante um enunciado formulado pela sensibilidade e intelecção, mas este só acontece com o esforço diário de leitura, escrita e conversas com o grupo de pesquisa. ‡ Quando entrei na UEL, achei que a parte de artista que carrego comigo iria sucumbir, mas os acontecimentos, aqui na minha casa, atestam o contrário, pois prossigo com mais atenção do que antes. Meu processo de criar imagens está mais lento, no entanto, tem se dado de forma mais condensada. Penso em uma condensação quando algo é curado1 e destinado para outro, com ou sem mediação do artista. Vejo esse trabalho que faço como criação e pesquisa direcionadas à educação para as artes visuais. Então, pergunto: Será que o professor de práticas artísticas é o mediador de sua pesquisa e criação? Respondo: Meu trabalho, em sua totalidade, caminha em círculos

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destino é a morte como virtualidade desde o nascimento. O destino está sendo vivido a partir da infância. Recebemos esse legado o tempo todo, mas não o retemos no dia a dia. A retenção dá-se pela obra de arte. O destino nos acena a partir da infância. A criança, destinada a acenar para o artista que ele foi e é, porta um “conteúdo anímico”, há aí uma “realidade anímica que nela pulsa” (Lucás, Gcörgy, in Doze ensaios sobre o ensaio, 2018, p.96). ‡ SOBRE A VERDADE NA OBRA DE ARTE: carta três, ensaio para um amigo ‡ Caro amigo! Sua proposta, a que você me fez ontem com mais certeza, há alguns dias tem me preocupado muito. Ela consiste em escrever um texto sobre o impossível-quase, a saber: pensar escrevendo (bem mais difícil do que pensar falando) sobre a verdade retida pela obra de arte. ‡ Eu substituí a palavra “contida” por “retida”- a primeira chegou mais espontaneamente, e a segunda retirei das “tonalidades afetivas” apontadas por Martin Heidegger em Contribuições à Filosofia: Do instante apropriador. São elas: “a retenção”, “o espanto” e “o pudor”. Estes três termos não devem ser compreendidos a partir do que nosso senso comum diz. Como não posso me prolongar nesta carta, vale somente a indicação, depois “a-gente” prossegue em uma conversa. Justifico apenas que usei o “retida pela obra” porque se usasse “contida na obra de arte” poderia parecer que a verdade estivesse aprisionada nela. Toda obra de arte, com o perdão da generalização, retém sensações que se apropriam do espectador atento e não o contrário. Definitivamente, ela não aprisiona nada. ‡ Mas como chegar à verdade retida na obra de arte? Ou refazendo a pergunta: Como a obra de arte retém a verdade? Quando ela doa e de quem ela recebe? Ela recebe a verdade do artista e retém a verdade pelo tempo correspondente à intensidade da intenção do artista. E quando ela doa essa verdade? Talvez, quando o espectador estiver despreocupado e ocupado com a atenção desinteressada pela análise prévia P R E C I P I TA Ç Õ E S

DE ARTE: carta dois ‡ Caro amigo, Sua proposta, aceita por mim há alguns dias, está entre minhas preocupações desde então. Ela consiste em uma tarefa de pesquisador. Para sentir melhor esta posição de pesquisador escrevente (pois não me considero um escritor), retorno ao meu estar-professor. Enquanto eu estou professor, necessito do estar pesquisador. Como o assunto é obra de arte, assim chega-se à arte e não ao ser artista. É desse ponto que parte o pesquisador em busca de um sentido, cuja investigação é parte de meu projeto de pesquisa, que não entrará aqui. ‡ A arte como obra, constituída por uma linguagem, há de mostrar sua origem, que não está nela, nem no artista, mas na arte. Heidegger escreve: “’Origem’ significa aqui aquilo a partir do qual e pelo qual algo é aquilo que é e como é” (2002, p. 7). A essência da qual provém aquilo que algo é, sendo como é, é a verdade desta carta-ensaio. No entanto, como é essa verdade e como ela se dá? É o mesmo que procurar sarna para se coçar. Agora que aceitei sua proposta, tenho que aguentar você me cobrando: Cadê o texto? Afff.... ‡ A primeira questão é: Se é ficção, como posso investigar a verdade a partir de uma mentira? Estamos lidando com uma realidade inventada. Esta realidade, ou seja, este simulacro, contém a verdade, geralmente, oculta e óbvia. A sarna é essa: a de procurar a verdade na mentira, no faz de conta. Mais adiante, na mesma obra acima citada, o autor afirma: ‡ O artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro. Em cada caso, o artista e a obra são, por si só, o outro. Em cada caso, o artista e obra são, em si [mesmos] e na sua relação recíproca, mediante um terceiro [termo], que é o primeiro, sendo por ele [e] a partir dele que o artista e a obra de arte adquirem o seu nome – mediante a arte (HEIDEGGER, 2002, p.8). ‡ Então, a arte é a origem da obra e do artista. Mas onde há arte? É algo que comporta o artista e a obra. A origem destes, creio, se confunde com o destino do artista. O A RT E LO N D R I N A S E T E


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um ser de sensação, e nada mais: ela existe em si” (DELEUZE, 2010, p. 194). ‡ Bem, para terminar, espero que esta seja recebida de um modo introdutório de minha meditação sobre o tema proposto. Há muito o que explicar, o que conversar e pesquisar. ‡ A VERDADE EM-OBRA-DE-ARTE: carta quatro ‡ Caro amigo, Começo por justificar o fato de eu ter aceitado a proposta de pensar-escrevendo sobre a verdade que porta uma obra de arte. A portabilidade de uma obra de arte se apresenta como ficção de uma verdade, é uma atualização de algo que não está materializado na obra. A justificativa, então, é meu interesse explícito em meu atual projeto de pesquisa, ora em crise pela pusilanimidade de alguns integrantes do grupo. Eu tenho que lhe dizer, caro amigo, que os jovens que se apresentam, semanalmente, como em um serviço militar, são os sujeitos de meu amor e de meu cansaço. Detesto quartéis, mosteiros etc., mas acho que sou um pouco general e monge. Essa é a minha sina – esquecer que sou, mas estar onde desejo. Até aqui, não mostrei o porquê do aceite. Mas por que aceitar escrever-pensando sobre algo que não existe? Respondo: Porque minha existência, constituída por atos e enunciados verdadeiros, é o objeto do projeto de pesquisa por meio do qual estamos constituindo um “a-gente”, um grupo, um coletivo a “lapidar-o-ego” como “objeto da consciência”, mas de uma consciência impessoal (COMTE-SPONVILLE, 2011). ‡ Antes de chegarmos nesse-aí do a-gente, me sinto mais seguro no lugar solitário de escrevente e não de escritor solipsista, mas um escrevente pesquisador, um autor de pesquisa de artista. ‡ Para isso, tracei até aqui um caminho, “um invisível labirinto de tempo” para me perguntar pelo sentido de ser pesquisador, artista e professor, simultaneamente. Londrina, 1 de maio de 2019. Claudio Garcia

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para querer, antes, compreendê-la. Só aí penso que ela é verdadeira. ‡ Assim, compreendo que a obra de arte é a origem da verdade, a que põe a verdade em seu vigor ou em seu ente verdadeiro. Somente a obra de arte, segundo Heidegger, é que pode pôr a verdade em questão. Mas qual é o sentido de verdade? Respondo: Do instante apropriador, de onde chega o inapreensível sentido de verdade. Este se dá como acolhimento, abertura e fechamento na obra de arte ou no espectador? A Fenomenologia, como meio para compreender e interpretar a verdade na obra de arte, aponta para a experiência direta com a coisa-obra de arte para, talvez, pelo pudor (a terceira tonalidade afetiva), fazer emergir o silenciamento. Desse modo, ela nos chega como verdade do entre-ser. Um ser que se dá pela obra de arte, no haver exposição, fruição e desinteresse pelos “louros da glória”, e no entre eles – obras, exposição e espectador – que haja hermenêutica! O sentido da verdade chega-nos como o inapreensível. Todo artista (mais uma vez a tentação de generalizar) trabalha porque tudo escorre, escapa de nossas apreensões. Assim, a intenção de reter o instante fluído, passageiro, por exemplo, do virtual que está para se atualizar no “entre” a obra e o espectador, é, para mim, o que move o artista. A tarefa do artista, talvez, quase impossível, mas a única imprescindível, é possibilitar o aparecimento da verdade. Ela, talvez seja, a origem dos afectos e perceptos, como um bloco de sensações. Deleuze escreve: ‡ “Os perceptos não mais são percepções, são independentes do estdado daqueles que os experimentam; os afectos são mais sentimentos ou afecções, transbordam a força daqueles que são atravessados por eles. As sensações, perceptos e afectos, são seres que valem por si mesmos e excedem qualquer vivido. Existem na ausência do homem, podemos dizer, porque o homem, tal como ele é fixado na pedra, sobre a tela ou ao longo das palavras, é ele próprio um composto de perceptos e de afectos. A obra de arte é A RT E LO N D R I N A S E T E


160 — 161 Bibliografia BORGES, Jorge Luís, Ficções. Porto Alegre: Editora Globo, 1976. DELEUZE, Gilles, O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 2010. Doze ensaios sobre o ensaio: antologia serrote. São Paulo: IMS, 2018. HEIDEGGER, Martin, A origem da obra de arte. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 2002) __________ , Contribuições à Filosofia: Do instante apropriador. Rio de Janeiro: Via Verita, 2005. P R E C I P I TA Ç Õ E S

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Ana Calzavara Ana Calzavara nasceu em Campinas, São Paulo. É graduada em Artes Plásticas pela Unicamp, pós-graduada em Pintura pela Byam Shaw (Londres), mestre, doutora e pós-doutora em Poéticas Visuais pela ECA-USP. Já participou de mostras individuais no Centro Cultural São Paulo (2001) e no Museu da Imagem e do Som (MIS). Dentre suas exposições coletivas recentes destacam-se: VIII Premio Arte Laguna, em Veneza, Itália (2014) e a 8th Biennale internationale d’estampe contemporaine de Trois-Rivière, no Canadá. (2013). Seu trabalho está em coleções como Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS); Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC-RS); Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC-PR); Museu de Arte Contemporânea de Santo André, SP e Museu Olho Latino, Atibaia, SP.

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CAMPINAS — SP

Nessas pinturas vê-se claramente a ideia fílmica, narrativa. ‡ Elas fazem parte de uma série de pinturas que se iniciou em 2016, mas continua sendo trabalhada. Uma vez que esses trabalhos querem discutir questões como o enfrentamento da pintura com imagens advindas da televisão, do cinema, da fotografia, e de outras fontes da chamada indústria cultural, foram agregadas certos elementos ou trabalhadas certas faturas e tratamento da superfície pictórica, com o intuito de evocar esse embate de maneira mais consistente. Por exemplo: em algumas dessas pinturas, como em Visão interrompida’ vê-se, na linha horizontal paralela à borda inferior, palavras escritas em tinta amarela, como legendas de filme. A superfície é ‘varrida’, causando um ruído na leitura da imagem, equivalente aquele em um arquivo digital quando sofre alguma interferência. ‡ Muito além de uma qualidade descritiva, o que me interessa é a relação que estas imagens podem estabelecer com um certo caráter ambíguo entre figuração/abstração, realidade/ficção: procuro por imagens que consigam de algum modo suscitar questões no espectador; que indaguem sobre o que resta da ideia de sensação, de percepção, da experiência de se estar no mundo. O desejo em criar tensões oriundas da natureza das imagens ali presentes – fílmica, televisiva, da tela do computador – e o tratamento dado à superfície pictórica – percepção física da matéria, da tinta, da pincelada, que poderiam trazer algum resquício de experiência – revelam, na verdade, a intenção de se refletir sobre a possibilidade do resíduo de permanência da arte em um mundo como o nosso, onde as imagens pululam, velozes e intermitentes. Quanto mais camadas de tinta são adicionadas sobre a imagem inicial, a princípio mais ‘legível’, mais parece entrar a imagem em uma órbita desaceleradora, fazendo com que ela adquira uma outra qualidade, de natureza mais especulaltiva, ruminadora.

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Eu estava aqui agora

Visão interrompida

2019

2018

”leo sobre tela 120 x 160 cm

”leo sobre tela 50 x 60 cm.


Andre Barion Andre Barion é graduando em Artes Visuais pela Universidade Estadual Paulista, vive e trabalha em São Paulo. Em 2018 foi convidado para participar da 33ª Bienal de São Paulo - Afinidades afetivas, no programa de performances de Sofia Borges com o Grupo Pineal, no mesmo ano foi selecionado para o 43° Salão de Arte de Ribeirão Preto, participou de diversas exposições como a À Sombra do Comum com curadoria de José Spaniol e Sérgio Romagnolo na Galeria Andrea Rehder, a I Bienal da USP no Espaço das Artes, São Paulo e A Imensa Preguiça com curadoria de Guilherme Teixeira, na Galeria Sancovsky. Em 2016, 2017 e 2018 fez parte de duas residências na Fundação Marcos Amaro, Itú, e na Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista. Atualmente é residente do programa LOTE, no Instituto de Artes da UNESP.

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S Ã O PA U L O — S P

O trabalho A Árvore Cansada consiste em um tronco de eucalipto tratado de 290 cm suspenso por fios de strass dourado, sobre o tronco se encontram morangos de acrílico e correntes de ouro. Os fios que seguram o tronco são divididos em dois pontos de apoio: uma peça de cerâmica dourada cintilante irregular, de formato orgânico, e um tubo retangular de aço enferrujado. ‡ No trabalho me interessa muito a relação que os fios de strass estabelecem com o tronco, sendo o primeiro um objeto extremamente frágil empregado majoritariamente de maneira ornamental, que aqui sustenta outro muito mais pesado que ele, que por sua vez é utilizado na maioria dos casos para a construção de escoras ou palanques, cumprindo uma função essencialmente estrutural. Outra relação interessante que se instaura na obra decorre da interação entre objetos cujo valor agregado difere significamente, trazendo questões quanto a associação entre o valor adicional que adquirem tais bens ao serem transformados durante o processo produtivo, a função desses objetos e sua fragilidade. No geral questões referentes ao que se espera de um material ou objeto, seja quanto ao seu peso, robustez, valor, etc.

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Árvore Cansada 2018 Eucalipto, ferro, cerâmica, strass dourado 114 x 345 cm.


170 — 171

BELO HORIZONTE — MG

Avilmar Maia Avilmar Maia mora e trabalha em Belo Horizonte, MG, Brasil. Nasceu em Montes Claros, MG, em 1970. Em 2006, inicia sua formação em artes visuais: curso de escultura com Luma Ramos. Em seguida, curso de desenho na Escola Guignard; Arte Contemporânea e História da Arte com Luíz Flávio Silva, passando por cursos livres na Faculdade de Belas Artes (UFMG), em Belo Horizonte, MG. Há dois anos, está em acompanhamento de seus projetos com Nydia Negromonte, no ESPAI, em Belo Horizonte. Exposições: Casa Fiat de Cultura, Belo Horizonte, MG (2019); XXV Salão Curitibano de Artes Visuais, PR (2018); Arte Londrina 7, PR (2019); Embaixada do Brasil em NY (2015); Carrossel do Louvre, Paris (2014); AVA Galleria, Helsink (2013). Formou-se em Medicina (1994), especializou-se em psiquiatria (1997). Mestrado em teoria Psicanalítica (2007).

Gaia 2017 Da série Pulsa Partes de brinquedos, cola 18 x 18 x 07 cm.

Avilmar Maia: corte, repetição e muito além. [João Guilherme Dayrell1 O corpo, a cultura: duas montagens] O trabalho artístico de Avilmar Maia toma os bonecos como material principal. O artista recolhe toda sorte de miniaturas para desmontá-las e recombiná-las: são supermans, peppas, mickey mouses, toy stories, barbies, além de outras figuras não nomeadas que, ao passarem por um intenso processo de montagem, fundem-se aos exemplares baratos das personagens mais conhecidas da indústria cultural encontrados pelo centro da cidade. A este processo o artista chama de “‘Pulsa’’, termo que intitula toda esta série de trabalhos com as miniaturas e nos remete, imediatamente, ao pulso, ou seja, ao ímpeto vital que ganha estes objetos a partir da destruição e sequente construção a que os submete o artista. Mas não só: posteriormente, procede-se uma segunda montagem, na qual as miniaturas são colocadas em cenas mitológicas - quando são abrigadas em uma caixa de acrílico - ou rebatizadas com nome de personagens das literaturas grega, judaico-cristã e moderna (que se origina da junção das citadas). Com isto, ao primeiro sopro natural, qual seja, o da pulsação sanguínea que dá vida a um corpo, é acrescido outro, o cultural, quando a reconfiguração da gestualidade das novas miniaturas remetem ou encenam passagens mitológicas fundadoras da cultura ocidental, o que é indicado, finalmente, pelas legendas que acompanham as obras. ‡ Vejamos um exemplo: “Gaia” é o nome dado à cena na qual o super-homem ganha a cabeça de uma Minnie, a versão feminina do rato Mickey. São, portanto, duas camadas de corte e

1  Este texto é uma parte do artigo de João Guilherme Dayrell Pós-doutorando pelo Departamento de Letras da USP; doutor em Estudos Literários e Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Mestre em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

AVILMARROCHAMAIA@GMAIL.COM

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montagem: na primeira as miniaturas, como se fossem colocadas numa mesa de cirurgia, são decapitadas. O boneco do corpo masculino, que funciona como metonímia da masculinidade ocidental, ganha a cabeça de uma ratazana antropomórfica - afinal, cristaliza no super-homem, como quer seu nome, o antropocentrismo aliado ao sexismo, no qual o super poder que permite a irrestrita dominação da natureza e o massacre do Outro encontra sua casa no corpo másculo de proporções simétricas.

Mamma 2017 Da série Pulsa Partes de brinquedos, tecido, nylon, cola 20 x 20 x 15 cm.

Fuga para o Egito 2017 Da série Pulsa Partes de animais de plástico e borracha, pelúcia, nylon, cola 18 x 30 x 14 cm.

Esfinge 2017

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Da série Pulsa Cabeça de boneca e parte de animal de borracha, cola 08 x 12 x 12 cm .


Camila Arruda

Graduada em Design pela Fundação Armando Alvares Penteado, São Paulo, 2009. Residência nos Estados Unidos da América (Boston, Connecticut e Nova Iorque) de 2004 a 2013, no Reino Unido (Londres) em 2014. Seis meses de viagem e exploração artística pela Europa e Eurásia em 2015, e um mês pelo Japão em 2017. Estuda e desenvolve relações com a imagem, com o tempo e os limites dimensionais, apoiando-se em estudos teóricos, experiências vividas e culturais, registro fotográfico e práticas de arte. Foi selecionada no edital “Exposições Itinerantes - SESI/FIESP - A Arte Sumi-ê - Izen Hitsugo”, BR. [2019]. Grupo. Artista selecionada no edital “Arte Londrina 7”. Paraná, BR. [2018]. Individual. “Para Frente < > Para trás”, Museu da Imigração. São Paulo, BR. [2017]. Individual. “Em construção”, MECA Spot, São Paulo, BR. [2016]. Individual. NINE, Palazzo Carli, Sillico - Toscana, IT. / Fra Benedetto

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S Ã O PA U L O — S P

O campo de exploração da artista paulistana Camila Arruda permeia a fotografia, nossas relações cada vez mais inerentes ao universo da imagem digital/virtual, e o uso destas como janelas para estudos entre dimensões e percepção humana. O apelo visual assume um protagonismo cada vez maior na nossa comunicação e expressão. Recorremos à fotografia como forma de contar histórias, dividir experiências e guardar recordações. A obra selecionada “Perdidos em Dimensões” é parte da série “Em Construção” desenvolvida pela artista em 2017, com a intenção de devolver texturas, vibrações e sensações ao instante apresentado pela imagem fotográfica, utilizando-se dos mais variados materiais e práticas artísticas. A obra sugere uma dobra no tempo, onde o momento passado fotografado se converte em presente através do volume e energia apresentados pelo acréscimo do gramado sintético, objetivando-se recriar, em uma perspectiva diferente, o labirinto, objeto central de vivência da imagem.

CBA549@GMAIL.COM

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Perdidos em dimensĂľes 2017 Fotografia sobre tela, recortes em gramado sintĂŠtico 130 x 130 cm.


Carlos Pileggi

178 — 179

S Ã O PA U L O — S P

Sequência dos Sincericídios. Esta série tece comentários diretos e irônicos sobre assuntos que considero questionáveis na vida: o esforço desmedido pelo sucesso, o consumismo, a sede pelo poder, enfim, atitudes humanas que fazem qualquer um suspirar exasperado. Tais comentários podem não agradar a determinados grupos, fazendo com que eu corra o risco de não ser mais aceito nestes círculos. ‡ A exclusão ou rejeição é a morte para quem propõe diálogo e reflexão, logo uma morte pela sinceridade, ou sincericídio. ‡ Escrito em Maio de 2018, no meio do furdúncio político que assola as terras de Vera Cruz.

Carlos recebeu seu mestrado pelo Maine College of Art em 2013, revalidado pela Universidade de São Paulo. Participou de exposições coletivas e individuais no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Residiu em diversas instituições, como no Elefante Centro Cultural, pelo programa de residências do Centro Cultural São Paulo, Triangle Arts Association (EUA), Camac Art Center (França) e Paul Artspace (EUA) em 2016 Massachussets Museum of Contemporary Art em 2017. Foi artista visitante na Tyler School of Art (Philadelphia) e no Maine College of Art (Portland), Estados Unidos. Atualmente é professor do Pré-Foundation, Foundation e tutor de suporte acadêmico na Escola Britânica de Artes Criativas (EBAC), São Paulo.

Thirty years 2017 Técnica mista sobre papel 33, 5 x 48,2 cm.

CADJOO@GMAIL.COM

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Oportunidades 2018 Guache e gesso sobre papel 30 x 30 cm.

Cartões de visita 2016–2018 Técnica mista sobre papel 9 x 6,5 cm (cada cartão), 61,5 x 43,5 cm (dimensão total)

Desenho/desastre 2018 Assemblagem 30 x 30 x 10 cm.


Clarice Cunha

Clarice Cunha (São Paulo, 1985) vive e trabalha em São Paulo. Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Mackenzie (São Paulo, 2010). Entre as exposições coletivas que participou destacam-se: 50° Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba (Pinacoteca Municipal Miguel Dutra, Piracicaba, 2018), Vozes Agudas (Ateliê 397, São Paulo, 2018), Falhas para o futuro (São Espaço de Arte, São Paulo, 2017), Na ponta da vista (Ponder70, São Paulo, 2017), 41° Salão de Arte de Ribeirão Preto (MARP, Ribeirão Preto, 2016), 44° Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto (Casa do Olhar, Santo André, 2016) onde ganhou um dos prêmios aquisição e 22° Salão de Artes Plásticas de Praia Grande (São Paulo, 2015). Em 2016, participou da residência artística Estamos muito abertos (Ateliê 397, São Paulo).

182 — 183

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Marcadores. Instalação, 2018. Clarice tem como centro de sua pesquisa diferentes campos de experiência do mundo contemporâneo, principalmente a arquitetura, a cidade, a história da arte, a geologia e a vida cotidiana. Através de diversas linguagens (objetos, instalações, esculturas, fotografias e vídeos), a artista nos provoca a refletir sobre a passagem do tempo, e como a intensa atividade humana vem alterando, destrutivamente, os espaços urbanos e naturais. ‡ Na instalação Marcadores, detritos recolhidos em percursos a pé são empilhados e organizados sobre o chão dentro de uma área de 2 x 2 m. Estas organizações formam pequenos ‘totens’ com matérias manipuladas pelo homem (como vidro, entulhos e pedras) e matérias naturais (como rochas, minerais e meteorito). Ao colocar esses materiais de naturezas diversas lado a lado, a artista cria uma tentativa de visualizar a sobreposição do tempo presente com o tempo geológico, gerando um marco desse encontro. Marcadores mostra também um outro aspecto importante da prática de Clarice: a experiência de trabalhar com terrenos específicos e utilizar o que eles têm de disponível como matéria para seus trabalhos, sempre buscando uma situação de contato entre o fazer artístico e o lugar onde atua. ‡ Clarice Cunha, 2018.

CLARICEPCUNHA@GMAIL.COM

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Marcadores 2018 Instalação onze tótens feitos de detritos variados empilhados, coletados de diferentes procedências 70 x 200 x 200 cm.


INFO@SANDRALAPAGE.COM

186 — 187

Eclusa Eclusa é um grupo colaborativo, composto pelos artistas visuais Sandra Lapage e Carlos Pileggi. Sandra e Carlos receberam seus mestrados pelo Maine College of Art em 2013, revalidado pela Universidade de São Paulo. Participaram de exposições coletivas e individuais no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Residiram em diversas instituições em colaboração, como no Camac Art Center (França) e Paul Artspace (EUA) em 2016 e Massachussets Museum of Contemporary Art em 2017. Foram artistas visitantes em dupla na Tyler School of Art (Philadelphia) e no Maine College of Art (Portland), Estados Unidos. Carlos e Sandra mantêm com outros sete artistas e quatro designers Vão, um espaço de trabalho, cursos e exposições experimentais, na Vila Madalena em São Paulo.

Tempo Terra é uma instalação que se desenvolve em um canteiro de areia. A idéia é exatamente esta: convidar adultos e crianças para brincarem. Para a criança, a atividade será uma simples extensão do seu universo, para o adulto, ela agregará mais significados, a começar pela necessidade de se abaixar e mexer com terra para poder participar. A princípio inocente, para os adultos esta “brincadeira” trará uma série de reflexões profundas, como: ‡ arte como recuperação da infância e recusa dos mecanismo repressivos da sociedade, se aceitarmos a premissa freudiana explicada por Norman O. Brown em “Art and Eros”: “The aim of the partnership between the artist and the audience is instinctual liberation”; ‡ o uso do humor construtivo como ferramenta de inclusão social; ‡ a criação de narrativas e ficções; ‡ a elevação de objetos e dejetos do cotidiano à alcunha de “valiosos”, levando à discussão do que é valioso e de como valor é determinado na sociedade contemporânea; ‡ a idéia de presente, no sentido de regalo, para se relacionar e construir um bem comum (o visitante será encorajado a adicionar elementos improvisados, que se tornam presentes para a obra colaborativa); ‡ a discussão em torno de tempo “improdutivo” na sociedade contemporânea: “Our culture has beheld with suspicion unproductive time, things not utilitarian, and daydreaming in general, but we live in a time when it is especially challenging to articulate the importance of experiences that don’t produce anything obvious, aren’t easily quantifiable, resist measurement, aren’t easily named, are categorically in-between.”—Ann Hamilton, Making not knowing, 2005; ‡ A instalação se desenvolve através de ações com a participação do público. P R E C I P I TA Ç Õ E S

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Modelo para estação marciana 2017 Protótipo, instalação, objetos encontrados


Erika Malzoni

Exposições individuais: 2019 - Anônimas – WC-Arte – Dap Londrina/PR; 2018 – Vem debaixo do barro do chão – MAB - Blumenau/SC; 2017 - O centro é azul - MARCO - Campo Grande/MS; 2017 – Movimento nº 02 – Museu Alfredo Andersen - Curitiba/PR; 2017– Precisamente imperfeitos – Galeria Emma Thomas– São Paulo/SP; 2016- INVÓLUCROS: do substrato ao esvaziamento - Oficina Cultural Oswald de Andrade - São Paulo/SP; 2016 - Movimento nº 01 - Centro Permanente de Exposições - Guarulhos/ SP; 2016 - No meio do tempo - Museu Histórico Padre Lima - Itatiba/SP; 2015 - ISSOVALE - Galeria Braz Cubas - Santos/SP. Tem participado regularmente de mostras coletivas, intervenções urbanas e residências artísticas, as quais se destacam: 2019 – Abre Alas – Rio de Janeiro/RJ; 2018 - XX Bienal de Arte de Cerveira - Portugal; 2017- Arte Londrina 5, Londrina/PR; 2016 - Residência da EAV Parque Lage - Rio de Janeiro/RJ; 2015 – Contraprova – Paço das Artes, São Paulo/SP; 2015 - Strip - Fredric Snitzer Gallery - Miami/FL. Recebeu Prêmio Menção Honrosa no Salão de Arte de Jataí/GO, em 2015 e Prêmio Aquisição na XX Bienal de Arte de Cerveira/Portugal em 2018.

190 — 191

S Ã O PA U L O — S P

Esta ação/performance aconteceu em maio de 2017, no centro de São Paulo, a convite da curadoria do projeto Presença Permeável da Praça das Artes. ‡ Estendi uma lona igual as dos camelôs da cidade no chão do calçadão da Avenida São João, bem em frente a Praça das Artes, e ali permaneci por 4h trocando com os transeuntes objetos do meu universo pessoal que já não me serviam mais por qualquer coisa que eles tivessem naquele momento: objetos, um abraço, sua música favorita, um desenho, sua imagem, etc.

Escambo 2017 Intervenção urbana na Praça das Artes, São Paulo

ERIKAMALZONI@UOL.COM.BR

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194 — 195

SÃO BERNARDO DO CAMP O — SP

Felipe Morelatto

Felipe Morelatto nasceu em 1989, em São Bernardo do Campo, Brasil, o artista vive e trabalha em São Paulo. Mestre em Artes pelo Instituto de artes da UNESP (2019). Entre as exposições das quais participou destacam-se; as mostras individuais “Nova fronteira” na Galeria do Instituto de artes da Unesp, São Paulo-SP (2019) e “Desconstruindo a fronteira obra objeto” na Galeria do Instituto de artes da Unesp, São Paulo-SP (2015), e as mostras coletivas, “Ponto de Partida”, Galeria do Instituto de artes da Unesp, São Paulo (2012) André Terayama, Anderson Godinho, Cesar Garcia, Flávia Kitasato, Maira Coelho, Marcelo Jarosz, Ricardo Barboza Filho, Thomaz Rosa; “Direct Mesage – Feira de artistas independentes”, Galeria Sancovsky, diversos artistas, São Paulo (2017) e, “Hipervisão”, Galeria Marilia Razuk, São Paulo (2018), com as artistas Lourdes Colombo, Luisa Almeida, Sandra Mazini;

Uncanny 2018 Acrílica sobre tela 90 x 80 cm.

Vivemos em um momento no qual as imagens se tornam, graças a revolução digital e a internet, elementos com um potencial alcance e multiplicação praticamente irrestrito. Esses objetos quando passam a circular aumentam a complexidade da cultura como um todo, e cada vez mais nos vemos inseridos em uma realidade praticamente saturada por essas informações. O que resta, tendo em vista esse contexto, é a pergunta: O que fazer com tudo isso? ‡ Encaro meus trabalhos como um dos caminhos possíveis para se utilizar esses elementos como material no campo da pintura. As obras aqui apresentadas são realizadas por meio de uma mistura de manipulação digital de imagens com os métodos tradicionais da pintura. As composições destes trabalhos são estruturadas a partir do desmembramento, multiplicação e reestruturação de imagens prontas, a fim de criar situações estéticas que desafiem uma ordem comum. Desse processo resulta em um caráter amalgamado para essa produção, coexiste nela toda a materialidade tátil da pintura e uma certa desmaterialização, própria dos meios originários das imagens utilizadas. ‡ Gosto de trabalhar com imagens que me possibilitem criar situações onde possa explorar tanto as relações entre as cores, principalmente a perspectiva cromática que se dá no encontro de duas zonas de cor pura, bem como uma possibilidade de não linearidade semântica das imagens.

FMORELATTO89@GMAIL.COM

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Máquina Número 2 2017 Acrílica sobre tela 100 x 90 cm.

Prototype 2017

Armadura

Acrílica sobre tela 120 x 100 cm.

2018 Acrílica sobre tela 90 x 80 cm.


Henrique Detomi

Henrique Detomi de Albuquerque (1988, Belo Horizonte/MG) Atualmente vive e trabalha em São Paulo. Graduou-se em Artes Plásticas na Escola Guignard / UEMG em 2010, e ingressou no Mestrado em Poéticas Visuais na USP em 2018. Participou de diversas mostras coletivas entre elas se destacam: Scapelands na Galeria Galeria Marta Traba – Memorial da América Latina, São Paulo, SP (2018); 15º Programa de exposição do MARP, Ribeirão Preto, SP (2017). Participou da 13ª Residência Artística Red Bull Station, São Paulo, SP (2017). Das individuais se destacam: “Espaço Transitório” no BDMG Cultural, Belo Horizonte (2017). Em 2016 “Quando a fuga encontra a si mesma” no Sesi Minas, em Belo Horizonte e “Sem título” — Galeria Arte XXX – Brasília, DF. Em 2015 "Onde mora o irreal" no Espaço cultural Vallourec, Belo Horizonte, MG. Participou dos Salões de Itajaí (2018) e de Praia Grande em 2012.

198 — 199

BELO HORIZONTE — MG

Estas obras apresentadas no Arte Londrina 7 fazem parte da minha pesquisa em torno da representação da paisagem. Proponho apresentar pinturas realizadas em 2018 da série intitulada Pequena Ode ao Vazio. ‡ Em minha produção penso a paisagem como um objeto dinâmico, passível de mutação e constantemente reformulado pelo imaginário humano. Quando a pintura mostra uma paisagem ela enquadra um espaço e conduz o olhar por entre os planos pictóricos. Nesse sentido a pintura cerceia espaços para construir um lugar de reflexão sobre aquilo que nos cerca, que em algum momento nós a chamamos de paisagem. Manter essa paisagem em constante processo de reconstrução é uma forma que encontro para evidenciar o quanto ela em si é um conceito em aberto. ‡ Me coloco como um construtor de paisagens, propondo intervir no imaginário da paisagem, questionando a noção da realidade. Aponto para a necessidade de discutir o complexo. Paisagem Natural X Paisagem Artificial, e para tanto elegi inserir nas paisagens naturais que represento em minhas pinturas pequenas faltas, elementos estranhos, irregulares que poderiam ser tomados como artificiais ou parte intrínseca da paisagem. ‡ Estes elementos aparecem na pintura apenas pelo seu contorno já que são realizadas com máscaras e deixam aparente a base de preparo da tela, como uma parte inacabada da pintura. Desta maneira, além de colocar em evidência as duas noções de paisagem, crio num paraleloque perturba a real existência física dos dois, remetendo a uma imagem construída pela mente, uma ilusão ou um devaneio.

RIQUEDETO@GMAIL.COM

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Sem título da série 2018 Pequena ode ao vazio óleo sobre tela 30 x 35 cm


ILESARTUZI@GMAIL.COM

202 — 203

Ilê Sartuzi Ilê Sartuzi é artista e pesquisador, desenvolvendo seus estudos na Universidade de São Paulo (USP). Em 2018, sua pesquisa “Imagens da alteridade na obra de Henri Matisse” recebeu a bolsa de incentivo da FAPESP. Trabalhou no Núcleo de Pesquisa do Centro Universitário Maria Antonia da USP, e como pesquisador, produtor e assistente para o curador suíço Hans Ulrich Obrist, acompanhando seu projeto de entrevistas no Brasil (2016-2017). É co-criador e organizador do projeto arte_passagem; convidou a artista carioca Ana Matheus Abbade para colaborar com a intervenção faço pé e mão (2018) na vitrine e organizou o DESFILÃO de roupas de artista no centro de São Paulo em 2019. Dentre suas exposições mais recentes incluem o Programa de Exposições do Museu de Arte de Ribeirão Preto (2017; 2015), PAREDÃO, no CCSP (2018); Ainda não (2017) e VERBO (2018), estas duas últimas na Galeria Vermelho, São Paulo, em colaboração com o grupo de pesquisa Depois do Fim da Arte que acompanha desde 2015.

Os três trabalhos apresentados, investigam a representação do corpo, internalizam lógicas de superfície, fragmentação, repetição e variação para corpos – todavia não unificados – constituídos a partir de partes dispersas. A relação entre a volumetria do corpo e a bidimensionalidade da imagem atravessa esses trabalhos a começar pela explicitação da imagem enquanto superficialidade, em sem título (vedetes), que internaliza a condição mesma das vedetes. Essa lógica está tanto na concepção de máscara, na projeção que toca apenas essa pele e até mesmo no mecanismo posto a nu. Deve ser importante notar que a luz é proveniente de um outro elemento, de maneira a ficar claro que existe um emissor de imagem (a vedete não carrega sua própria imagem). Somado a essas projeções, o movimento mecânico, dessincronizado, busca criar um descompasso entre as bocas e a mecânica por trás dela. Portanto, a obra guarda uma ambiguidade de apresentar essas imagens enquanto superfície, deformadas pelo movimento maquinal-repetitivo e, ao mesmo tempo, seduzir o observador com as imagens mesmas do consumo dessas figuras, de seus lábios e seu charme frente às câmeras. Um recorte de papelão soma quatro poses de Arnold Schwarzenegger. Sobre a silhueta, são projetadas as poses alternadamente, em fades lentos de uma para a outra, mimetizando a movimentação que o modelo poderia ter em uma exibição de fisiculturismo. Neste caso, por mais que este corpo seja dotado de uma volumetria extraordinária, é frequentemente visto enquanto imagem, foi feito para ser apreciado enquanto imagem, para alguns, de um corpo ideal. Enquanto isso, o vídeo sem título (videogame_bodyglitch) explora as falhas estruturais de corpos virtuais que, por vezes, revela o caráter epidérmico das imagens. Essas pesquisas que transitavam entre o corpo escultórico e a imagem adentram a virtualidade como maneira P R E C I P I TA Ç Õ E S

S Ã O PA U L O — S P

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de deslindar a construção – e aqui o aspecto construtivo deve ser levado em conta – de corpos fragmentados e por vezes monstruosos.

Arnold Schwarzenegger

Sem título (videgame_glitches)

2018

2018

Projeção de vídeo sobre papelão 188 x 120 cm aprox. + projetor.

Vídeo HD, cor e som (projeto em progresso) aprox. 04’40”

Sem título (vedetes) 2017 Máscara de látex, pedestal de microfone, ferro, servomotor, arduino, projetor Dimensões variáveis


206 — 207

R I O D E JA N E I RO — R J

João Paulo Racy

Nascido no Rio de Janeiro, 1981. Vive e trabalha entre Rio de Janeiro e São Paulo. Artista visual e pesquisador, graduado em fotografia e mestrando em Artes pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Entre as exposições realizadas, se destacam as individuais “Devir Cidade” (Centro Cultural Justiça Federal, Rio de Janeiro, 2017), “Impróprio” (Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, 2018) e “Montparnasse, Vingt Ans Après” (Galeria Ibeu, Rio de Janeiro, 2018), além das coletivas “São Paulo Não é Uma Cidade, Invenções do Centro” (Sesc 24 de Maio, São Paulo, 2017); 2ª Bienal CAIXA de Novos Artistas (Caixa Cultural, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife, Brasília, 2017-2018). Seu trabalho integra o acervo do Museu de Arte Brasileira (SP), Museu de Arte Contemporânea de Jataí (GO), a Coleção Joaquim Paiva / MAM-Rio (RJ) e o Património Artístico da cidade de Santo André (SP).

Legado 2017 Escultura, dezessete moedas Dimensões variáveis

Legado. Ao serem exibidas, as superfícies das moedas revelam terem sido achatadas, esmagadas. Trabalho que se inscreve no campo da escultura, “Legado” consiste em uma coleção de 17 moedas comemorativas dos Jogos Olímpicos 2016, com deformações sofridas ao serem posicionadas nos trilhos do VLT Carioca (Veículo Leve sobre Trilhos) e atropeladas pelos vagões. As imagens gravadas em cada uma delas ganham nova forma e textura, além de trechos de apagamento. O VLT é parte do Porto Maravilha, uma operação urbana que visa requalificar a Zona Portuária, no Centro do Rio de Janeiro. Um polo de investimentos e releitura da história – sob a óptica do Estado, que sempre a dominou – ou ações neoliberais que levam à substituição de perfis de renda de uma área amplamente habitada por pessoas pobres e cuja ancestralidade esta intimamente conectada à zona do porto e seu protagonismo efetivo na vida cultural da população negra do Rio de Janeiro. No procedimento da gravura, a imagem é criada pelas frestas: relação entre aquilo que é gravado e o não-gravado, opõe cortes e não-cortes, o vazio e o cheio. A impressão invariavelmente é conectada à ideia de reprodução das imagens, de duplicação. Tais operações convocam à arte aquilo que não tem controle, que pode ser provocado por meio de métodos, mas cujo resultado não podemos assegurar – pois o inesperado e uma farta dose de acaso agem de maneira impiedosa. João Paulo Racy imprime um papel outro ao Veículo Leve Sobre Trilhos, instrumento concomitante de avanço social, progresso, mobilidade urbana, sectarismo ou gentrificação. ‡ Texto de Ulisses Carrilho [Curador | Escola de Artes Visuais do Parque Lage].

MARCELOAMARAL.UZ@GMAIL.COM

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Marcelo Amaral

210 — 211

S Ã O PA U L O — S P

Os trabalhos que foram escolhidos para essa exposição, são pensados a partir de um olhar para a relação do pictórico nos objetos cotidianos. Elegendo a cadeira de praia e as padronagens cromáticas do seu tecido como um objeto para discutir a linguagem da pintura. ‡ A relação que estabeleço entre esses trabalhos, como no chassi de pintura com o tecido listrado de polietileno, se dá a partir da troca desses materiais e seus respectivos contextos. Os coloco de encontro, à procura de uma ressonância destes. Nesse encontro há uma tentativa de suscitar aproximações entre a materialidade pictórica e o uso trivial desses objetos, revelando as reverberações que essa proximidade tende a provocar. Sem título 2018 Cadeiras de praia e algodão cru 54 x 67 cm / 40 x 45 cm.

Nascido em Florianópolis. SC. Brasil, 1997; Cursa Bacharelado em Artes Visuais na Universidade Federal de Pelotas UFPEL, ingresso em 2016. Principais exposições: Arte Londrina 7 (2019), curadoria de Clarissa Diniz e Danillo Villa, Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da Universidade Estadual de Londrina – PR; INCO[3]ODO - Mostra de Arte Contemporânea (2018-2019), exposição coletiva, curadoria de Daniel Acosta e Hélcio Oliveira. Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo - MALG, Pelotas-RS; 7 EM SALA (2018) no Corredor 14, Pelotas - RS; 7 EM SALA - 2ª edição (2018) no Corredor 14, Pelotas - RS; O corpo que te cabe (2018) no Centro Cultural Ordovás, Caxias do Sul - RS. MARCELOAMARAL.UZ@GMAIL.COM

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Sem título 2018 Tecido de polietileno e chassi de madeira 10 x 15 cm.

Sem título 2018 Acrílica e guache sobre algodão cru e cadeira de praia 4 x 50 cm / 54 x 67 cm.


Marina Hachem

Marina Hachem (São Paulo, 1993), vive e trabalha em São Paulo. Formada em Artes Plásticas na FAAP- Fundação Armando Alvares Penteado. Em 2014 cursou um semestre na faculdade de arte Central Saint Martins em Londres.Em 2015 ganhou o premio de segundo lugar na 47ª Anual de Arte FAAP. Em 2016 abriu sua primeira exposição individual “Entrelinhas” com a curadoria de Maguy Etlin. No mesmo ano participou da exposição coletiva “Um desassossego” na Galeria Estação. Em 2018 participou da exposição “Et Tu,Arte Brute?” na Galeria Andrew Edllin em Nova Iorque.Entre outras exposições coletivas estão: Arte 7 Londrina (PR,BR, 2019), 47º Salão de Artes Visuais NOVÍSSIMOS na Galeria Ibeu (RJ,BR,2018), 14º Salão Nacional de Artes de Itajaí (SC,BR,2018), Exposição “Metanóia”, na Galeria Airez (CTBA, BR, 2017), SP Arte (SP.BR,2017), Feira PARTE (SP, BR,2017), Ocupação Artistica “Corpoativo” (SP, 2016) e a Exposição “FESP” na Central Saint Martins, com curadoria de Claire Bishop (Londres, 2014).

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S Ã O PA U L O — S P

A desconstrução das minhas origens sempre se colocou como etapa fundamental para uma maior compreensão da minha identidade e da minha própria produção e pesquisa. O resultado é um espaço suspenso entre o real e o imaginário; uma maior intimidade diante de uma narrativa fragmentada e em reconstrução. O trabalho intitulado “Daisy” (da série Entrelinhas) que apresento na coletiva Arte Londrina 7, foi produzido a partir de arquivos pessoais e apropriação de documentos e registros de terceiros. Busco minha identidade ancestral que, para mim, é desconhecida, devido à minha descendência libanesa distante. Assim, recrio cenas e situações desta memória familiar que nunca vivi, e trago rupturas em minhas próprias experiências.

MARINASHACHEM@GMAIL.COM.BR

P R E C I P I TA Ç Õ E S

A RT E LO N D R I N A S E T E


Daisy 2017 Grafite e tinta acrĂ­lica sobre tela 90 x 130 cm


Pedro Gandra

Pedro Gandra nasceu em 1994, no Rio de Janeiro, reside e trabalha em Brasília. Frequentou a Escola de Artes Visuais do Parque Lage no Rio de Janeiro/RJ e, desde 2011, participa de exposições coletivas em instituições e galerias como o Centro Cultural São Paulo/SP, Museu Nacional de Brasília, Galeria do Lago do Museu da República/RJ, Museu Nacional dos Correios/BSB, Elefante Centro Cultural/BSB, Galeria Largo das Artes/ RJ, Martha Pagy Escritório de Arte/RJ, Referência Galeria de Arte/BSB e Baró Galeria/SP. Foi premiado no X Prêmio de Arte Contemporânea do Iate Clube de Brasília, no I Prêmio Vera Brant de Arte Contemporânea/BSB e no Garimpo da Revista DasArtes de 2017. Em 2016, foi selecionado no 44º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Santo André/ SP e, em 2019, foi indicado para o Prêmio PIPA.

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R I O D E JA N E I RO — R J

Correspondências Incompletas: Exploda através das montanhas Este trabalho faz parte da série Correspondências Incompletas que surgiu da intenção de extrair a representação da figura humana da paisagem, fragmentá-la e posicioná-la em outra peça, sempre em um formato menor em relação à peça que contém a paisagem. E assim, provocar outro tipo de situação dialógica. ‡ O processo de elaboração dos trabalhos se desenvolve no momento que começo a esquematizar, mentalmente, uma composição na qual estariam compreendidas a relação e a disposição de uma figura, inserida numa situação de paisagem. Sem projetos ou estudos prévios, extraio esta figura da paisagem, fraturando a situação narrativa, previamente mentalizada.

GRANDAPH@GMAIL.COM

P R E C I P I TA Ç Õ E S

A RT E LO N D R I N A S E T E


Correspondências Incompletas: Exploda através das montanhas (dêptico) 2016-2018 Acrílica e basão a Óleo sobre tela peça 1: 95 x 70 cm; peça 2: 15 x 10 cm


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S Ã O PA U L O — S P

Rafaela Foz

RAFAELA FOZ (São Paulo, 1994) formou-se em Artes Visuais pela FAAP em 2018. Suas obras foram exibidas na 47ª e na 49ª Anual de Arte da FAAP; na exposição intitulada “Fiz um vídeo para que você entenda de uma vez por todas” realizada pelo DaP de Londrina-PR, 2018; ganhadora do prêmio da 28ª Mostra de Arte da Juventude do SESC Ribeirão Preto-SP, 2017. É integrante da coordenação do Espaço Breu, São Paulo-SP, onde se encontra seu ateliê, e dirige projetos culturais como as Conversas no Breu. Outras exposições coletivas: 2018: “Opacidades relativas”, Exposição dos premiados da 28ª Mostra de Arte da Juventude no Sesc Ribeirão Preto; “Entretempos”, no MAB Centro, SP; “Dentro do Brasil cabe o mundo”, no SESC Quitandinha, RJ. 2017: “49a Anual de Arte da FAAP”, na FAAP, SP; “Uns”, no Espaço Breu. 2016: “Visite Decorado”, Ocupação Artística; Terceira edição do projeto ISCREAM; Ocupação Artística In(Lar). Segunda edição do projeto ISCREAM. 2015: 47a Anual de Arte da FAAP, na FAAP. Prêmiação: 2017/ 28ª Mostra de Arte da Juventude com o trabalho Digressão.

José Pancetti 2017 Painel de LED 170 x 16 cm.

Sua prática artística situa-se no cruzamento entre arte, filosofia e literatura. O tempo e o cotidiano são problemas frequentes em seu trabalho, os quais busca explorar se apropriando de objetos, conceitos e imagens e recontextualizando-os em vídeos, instalações, objetos e performances. Com operações simples, busca ao mesmo tempo produzir a suspensão do sentido comum das coisas, que na vida dita normal se reveste de uma aura de necessidade, e produzir com essas coisas experiências extra-ordinárias. Assim, procura fazer emergir um tempo que não é determinado pelas próprias coisas, mas por quem entra em contato com seu trabalho, doando seu tempo, prestando sua atenção e abrindo-se a um experimento perceptivo, afetivo e, eventualmente, intelectual. Na série “Paisagens”, a artista apropria-se de títulos de pinturas do gênero paisagem e transforma-os em textos de letreiros de LED, fazendo referências à história da arte: cada “paisagem” torna-se uma obra e tem por título o autor da pintura descrita no letreiro. Já a obra sem título propõe uma experiência de movimento entre a matéria inorganizada, o carvão (carbono), e a mão como matéria organizada (uma metonímia do corpo). Acima do carbono e da mão, formas bem concretas e perfeitamente delineadas – estáticas –, o movimento surge como realidade: seu cair não tem fim, não tem finalidade e cria, no entanto, ação. Seu cair não é decair mas, antes, um horizonte. ‡ Marcos Camolezi

RAFAELA.ELA.MINHOS@GMAIL.COM

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John Constable 2017 Painel de LED 170 x 16 cm.

Alfred Emil Andersen 2017 Painel deLED 170 x 16 cm

Sem título 2015 Vídeo 1’03” (loop)


Raquel Fayad

Raquel Fayad Atibaia-SP, 1968 - Formada em Artes Plásticas desde 2008. Estudou música, dança, produção e gestão cultural. Pesquisa o afetivo, através de cartas de amor. Trabalha com pintura, desenho, vídeo e instalação, processos coletivos e colaborativos. Participou de exposições coletivas no MAM Rio – Novas Aquisições Gilberto Chateaubriand (RJ, 2014); Gal. Marta Traba – Mem. América Latina (SP, 2014); Casa do Olhar Luis Sacilotto – (Santo André, 2013/14/15) e Museu de Almeria (Espanha, 2012). Participou de Residências artísticas na Sardegna, Itália (2016/15), na Fazenda Ipanema - MAC Sorocaba/FLONA (2015), na Galeria Marta Traba – Ocupação 15/30 – Mem. América Latina (2014). Pré-selecionada para o Edital MERCOSUL 2016 – Uruguai. Tem obras nos acervos do MAM RIO – Col. Gilberto Chateaubriand e Col. da Fundação Marcos Amaro.

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ATIBAIA — SP

campoamor. Odores, grãos de café, ancinho de madeira, ruídos, são os elementos da memória e experiências que a artista Raquel Fayad traz para a Instalação Campoamor. ‡ É por meio da linguagem artística que se estrutura a apreensão das realidades exteriores e cria-se outra visão de mundo. Aguça a nossa percepção e nos dá outra ordenação das coisas. É com os elementos imateriais que a artista lida para fazer arte e construir outras realidades, nem sempre perceptíveis num primeiro olhar. O encontro com o café é contemplar a vida, é aguçar a poesia, a inteligência e a disciplina interior. ‡ A exposição explora os ruídos dos grãos com o passar do rastelo (rodo). É o som seco, alongado, que se arrasta repetitivo, de algo que raspa a superfície da Terra, é o que se ouve ao adentrar a instalação. ‡ Raquel Fayad convida para o silêncio e a pensar o lugar onde as linguagens artísticas não alcançam, elas apenas conduzem. O silêncio é o lugar do conhecimento, que se dá quando se transcende a linguagem, justamente. Expressão verdadeira, como disse Le Breton, quem o faz é o público ao observar a obra de arte. ‡ Ricardo Resende [Curador].

FAYADRAQUEL@GMAIL.COM

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Campoamor 2017 Instalação participativa, café coquinho e rodo de madeira Medidas variáveis


Xikão Xikão Xikão Xikão cursou Artes Visuais na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, de 2010 a 2014. Em 2013 realizou um intercâmbio acadêmico na Universidad de Antioquia localizada em Medellin, na Colômbia. Como artista, já realizou quatro exposições individuais e mais de quinze exposições coletivas. Dentre elas: a individual Selfie Service no Memorial Minas Gerais Vale (Belo Horizonte - MG), a coletiva Abre Alas 15 (Rio de Janeiro-RJ) , 10º Salão dos Artistas Sem Galeria (São Paulo – SP e Belo Horizonte- MG) e também a coletiva VIII Salão de Itabirito (Itabirito, Ouro Preto e Belo Horizonte - MG), na qual recebeu menção honrosa.. Atualmente vive e trabalha em Belo Horizonte.

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BELO HORIZONTE — MG

Enquanto artista, me interesso pelas questões que são referentes à identidade e à autorrepresentação. Máscaras, autorretratos, espelhos - fazem parte do meu vocabulário poético. Mais recentemente tenho me dedicado às identidades virtuais e as imagens que produzimos nas redes sociais, como a selfie e a nude. Dentre as obras apresentadas estão Selfie Service e ALTERselfie, ambas iniciadas em 2016 e ainda em processo. Pelo caráter instalativo de ambos trabalhos, a cada montagem são adicionadas/subtraídas partes do conjunto ou são dispostos de maneira diferente. Tornando cada exibição única. Ademais, ambos trabalhos irão se aprofundar e questionar a prática, a imagem e os autores da selfie. Um fenômeno tão recente da nossa subjetividade contemporânea. Selfie Service é uma instalação de selfies sem imagem. Através de 96 textos impressos em papeis e espelhos, de tamanho aproximado de 42x30 cm (cada), levanto questões e trago provocações sobre o tema ao espectador. Tais textos são fixados na parede da galeria e são disponibilizados também para o espectador levar. Assim a discussão continua para além do espaço expositivo. Já ALTERselfie é uma série de 150 fotos impressas em vinil, de tamanho aproximado de 12x12 cm cada. As imagens são criadas a partir de selfies de rapazes barbudos que foram apropriadas das redes sociais. Quando aglomeradas e fixadas no espaço expositivo, os sujeitos se confundem e todos começam a parecer iguais. Embora sejam diferentes. Assim, proponho ao espectador preencher as lacunas desse jogo entre identidade e alteridade.

PARAXIKAOXIKAO@GMAIL.COM XIKAOXIKAO.COM

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ALTERSelfie 2016 Fotografia, 150 impressões sobre vinil 12 x 12 cm cada

Selfie Service 2016 Instalação 96 impressões em papel, 4 impressões sobre espelhos, 192 impressões take-away 7,2 x 1,6 m aproximadamente


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Doutora em Psicologia Clínica pela PUC/SP. ‡ Docente do Programa de Pós-graduação em Psicologia e do Departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual de Londrina.

“Eu me conheço!”. “Eu sou assim mesmo!”. “Eu não vivo sem...”. Quantas vezes esses enunciados são repetidos no cotidiano das relações sociais sem nos darmos conta de seus desdobramentos? Nessas falas, aparentemente despretensiosas, o que está colocado é uma espécie de culto à permanência e à segurança de se reconhecer em uma dada forma, em um “eu”. É assim que a noção de identidade encontra-se impregnada em nossas existências, colocando-se como um imperativo e, por vezes, como um impedimento para o acesso a novos mundos, outras sensações e maneiras de viver. Vejamos como... ‡ A palavra identidade vem do latim, identitas, e significa “o mesmo” (Houaiss, Villar & Franco, 2009, p. 1043). Os autores a definem, na língua portuguesa, como a “qualidade do que é idêntico. Conjunto de características que distingue uma pessoa ou uma coisa e por meio das quais é possível

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Sonia Mansano

individualizá-la” (Idem). Dessa definição, já começamos a entrever as amarras que habitam o termo, destacando duas delas: a permanência e a diferenciação. Na permanência, aquilo/ aquele que é caracterizado em uma identidade permanece no tempo, sem se mover. É o caso dos documentos pessoais que portamos com dados gerais e que dizem, burocraticamente, quem somos perante a nação. Desde o momento em que nascemos nossos responsáveis são convocados a providenciá-los. No decorrer de nossa história, devemos apresentar tais documentos sempre que solicitados e para as mais diferentes ocasiões, sendo este uma parte do exercício de cidadania. Nesse caso, a identidade serve para identificar, mas também para diferenciar cada cidadão do conjunto extenso de pessoas que compõe a sociedade, permitindo distinguir a parte (indivíduo) no todo (população). Quais os desdobramentos disso? ‡ Habituados ao par identificar-diferenciar, passamos a existência respondendo, diante de uma pergunta aparentemente banal, quem somos nós. E, para isso, recorremos a características e qualidades que nos são atribuídas e que permanecem no tempo. Assim, identificamo-nos a partir dos nomes próprios, dos progenitores, dos filhos, das profissões, do estado civil, enfim, de qualidades e papeis sociais que foram inventados, disseminados e legitimados no social. Desenha-se um “eu” a partir dessas qualidades. ‡ Até aí, a noção de identidade cumpre uma função organizativa interessante, e também necessária diante da dimensão populacional de nosso planeta. Ocorre que, convivendo com essa noção desde o nascimento, tendemos a acreditar que sua permanência é algo “natural”, que precisa ser investida e preservada, afinal, ela cumpre a função de identificar o “eu”. Uma vez tendo a identidade consolidada como valor socialmente recoTU NÃO TE MOVES DE TI

AS AMARRAS DA IDENTIDADE

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sitados que misturam, embaralham, transmudam e geram novas qualidades no vivente, inviabilizando sua organização naquilo que era tido, de maneira ilusória, como idêntico. ‡ Obviamente, nosso vício em identidade deixa entrever uma função protetora. É que o contato com as forças e a intensidade de suas ações abruptas assusta, causa assombro e aciona no sujeito identitário a tarefa (inútil e pretensiosa) de apaziguar o movimento, domesticando as forças. Quando defendidos e assombrados diante a monstruosidade das forças da vida que nos tocam e desconsertam, a desestabilização do “eu” e o abalo da identidade tornam-se inevitáveis. Diz Rolnik que, nesse caso, ‡ [...] as forças, em vez de serem produtivas, ganham um caráter diabólico; o desassossego trazido pela desestabilização torna-se traumático. Para proteger-se da proliferação das forças e impedir que abalem a ilusão identitária, breca-se o processo, anestesiando a vibratibilidade do corpo ao mundo e, portanto, seus afetos [Rolnik, 1997, p. 21]. ‡ Os afetos podem ser compreendidos aqui como o desdobramento de um encontro que tira o corpo de um estado e o joga em outro. Recorremos a um exemplo muito simples: basta lembrar-se do despertador que é acionado pelas manhãs. No estado de sono, o corpo goza de um conjunto de sensações ligadas à tranquilidade, à respiração serena, aos batimentos cardíacos espaçados e ao desfrute de um estado prazer. O som que irrompe no horário programado simplesmente tira o corpo desse estado prazeroso e o lança, abruptamente, no estado de alerta, desencadeando uma série de outros afetos: um coração mais acelerado, a lembrança das atividades a serem realizadas, bem como a obrigação de levantar e ocupar-se de algo. Nesse exemplo cotidiano, o corpo vibra diante do som que irrompe e provoca uma mudança de estado afeTU NÃO TE MOVES DE TI

nhecido, qualquer tropeço em seu traçado geral passa a ser vivido como risco de desorganização, de perda de controle sobre o “eu” e sobre a organização social vigente. Diante desse risco, colocado de maneira recorrente pelo Estado e suas instituições, assombramo-nos com o movimento e aceitamos reproduzir a identidade como estratégia de proteção. ‡ Mas, essa estratégia serviria mesmo para proteger? Se sim, proteger do que? Certamente para proteger um território conhecido e consolidado, mas que pode ser posto em xeque a qualquer momento. Nesse território é possível evocar o “eu todo poderoso” que supostamente conhece, de antemão, seus limites, possibilidades, preferências e dissabores. Em nome desse “eu”, cria-se uma espécie de “ilusão identitária” (Rolnik, 1997, p. 21) por meio da qual o contato com o mundo vai ficando cada vez mais limitado a encontros que reafirmem o território conhecido, familiar, identitário. Rolnik chega a considerar que nessa busca incessante pela segurança do idêntico tornamo-nos “toxicômanos de identidade” (1997, p. 19). ‡ É nesse sentido que as amarras da identidade ganham contornos perigosos. Isso porque a vida, concebida em uma perspectiva nietzscheana, como um turbilhão caótico e multifacetado de forças que estão em embate e enfrentamento, simplesmente inviabiliza sua fixação na ordem do idêntico. Nas palavras de Nietzsche: ‡ E sabeis sequer o que é para mim “o mundo”? Devo mostrá-lo a vós em meu espelho? Este mundo: uma monstruosidade de forças, sem início, sem fim, uma firma, brônzea grandeza de forças, que não se torna maior, nem menor, que não se consome, mas apenas se transmuda [Nietzsche, 1881/1999, p. 449]. ‡ A vida de cada um se desenrola no agitar das forças e na riqueza dos encontros. Estes, quando suficientemente fortes, desdobram-se em efeitos/afetos inuA RT E LO N D R I N A S E T E


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mento os verbos que utilizamos para expressar o existir. E, nesse sentido, o verbo ser pode ceder lugar para o verbo devir, abrindo a obra da vida para experimentações inusitadas, com suas lacunas, fluxos, imprevistos, riscos e deslocamentos afetivos. Daí a constatação heraclitiana de que tudo muda, nada é. ‡ Mas, não é somente a Filosofia e a Psicologia, filiadas a uma epistemologia do movimento, que cooperam para compreender essa agitação vital. Também as Artes comparecem para demonstrar o quanto a ação das forças é o que coloca a vida em obra. Assim, uma das funções da arte é precis a m e n te p rovo c a r, i n c i t a r a d i fe re n ç a , c o l o c a r e m experimentação outras sensibilidades. Quais os efeitos do encontro da arte com a vida? A arte encarna a potência de operar desestabilizações, dando visibilidade às forças desconcertantes que emitem signos e convocam à produção de sentidos. Em outras palavras, a obra de arte pode ser considerada um elemento desestabilizador que provoca espantos e convoca o vir a ser outro. Holanda, por exemplo, já expressava a potência desconcertante dos encontros, suas agitações e assombros, ao dizer que as experimentações da vida ocorrem à flor da pele: ‡ O que será que me dá; Que me queima por dentro, será que me dá; Que me perturba o sono, será que me dá; Que todos os tremores me vêm agitar; Que todos os ardores me vêm atiçar; Que todos os suores me vêm encharcar; Que todos os meus nervos estão a rogar; Que todos os meus órgãos estão a clamar; E uma aflição medonha me faz implorar; O que não tem vergonha, nem nunca terá; O que não tem governo, nem nunca terá; O que não tem juízo [Buarque, 1976]. ‡ Destaca-se, em suas palavras, que a ação das forças, ao contrário das amarras da identidade, não é norteada pela razão. Em seu turbilhão de intensidades, elas afetam e conviTU NÃO TE MOVES DE TI

tivo. ‡ Se pensarmos em um encontro menos corriqueiro, também temos o despertar do corpo vibrátil trazido pelos encontros com o que vem de fora, sem aviso prévio, sem preparação. O encontro evidencia, então, que a vida não é da ordem do preparo, da previsibilidade ou da permanência. A noção de identidade, definida como a qualidade do que é idêntico, simplesmente destoa da ação das forças e da variação dos afetos. E, em uma vertente mais grave, falsifica o existir, prometendo uma estabilidade que é impossível. Quanto mais fixado em qualidades que o identificam, como no enunciado “Eu sou assim mesmo, não mudo!”, menos o sujeito é potente para deixar vibrar seu corpo nos encontros e experimentar novos afetos. Menos disposto é, também, para correr os riscos inerentes a esse movimento. É nesse sentido que Foucault adverte: ‡ Sem dúvida, o objetivo principal, hoje, não é descobrir, mas recusar o que somos. Devemos imaginar e construir o que poderíamos ser para nos livrarmos dessa espécie de ‘dupla obrigação’ política que são a individualização e totalização simultâneas das estruturas do poder moderno [Foucault, 1982/2014, p. 128]. ‡ O alerta de Foucault remete, diretamente, à noção de identidade que também foi, aos poucos, sendo apropriada e instrumentalizada pelo mercado para promover o consumo de mercadorias com as quais o sujeito se identifica. Trata-se, para Rolnik, de ‡ Identidades prêt-a-porter, figuras glamourizadas imunes aos estremecimentos das forças. Mas quando consumidas como próteses de identidade, seu efeito dura pouco, pois os indivíduos-clones que então se reproduzem, com seus falsos-self estereotipados, são vulneráveis a qualquer ventania de forças um pouco mais intensas [Rolnik, 1997, p. 22]. ‡ A recusa de uma resposta identitária à pergunta mercadológica “Quem é você?” coloca em moviA RT E LO N D R I N A S E T E


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para, o planejado não necessariamente se concretiza, o contato com a diferença irrompe e assombra. Entretanto, eles (as forças, o inusitado e a diferença) são as condições de possibilidade para inventar novos mundos, novas sensibilidades, novos modos de existir. Quem ousará acolhê-los?

Referências Deleuze, G. (2002). Espinosa: filosofia prática. São Paulo: Escuta. Foucault, M. (1982/2014). O sujeito e o poder. Em: Foucault, M. Ditos e escritos: genealogia da Ética, subjetividade e sexualidade. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Hilst, H. (1980). Tu não te moves de ti. São Paulo: Editora Globo. Holanda, C. B. (1976). À Flor da pele. Houaiss, A.; Villar, M. S. & Franco, F. M. M. (2009). Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva. Nietzsche, F. (1881/1999). O Eterno retorno. Obras Incompletas — Coleção Os Pensadores. São Paulo: Ed. Nova Cultural Ltda. Rolnik, S. (1997). Toxicômanos de identidade: subjetividade em tempo de globalização. Em: Lins, D. (org). Cultura e subjetividade: saberes nômades. Campinas: Papirus. TU NÃO TE MOVES DE TI

dam o corpo a abrir-se para experimentação daquilo que não tem vergonha, governo ou juízo, fazendo fluir a riqueza dos encontros e dos afetos. ‡ Também a provocação de Hilst, que dá nome a esta exposição, pode ser compreendida como um convite. Ela desafia-nos a conjugar o verbo devir, deixando-se afetar pelos encontros com o outro que, como já dito, uma vez suficientemente fortes, evidenciam o quanto é limitado e pobre passar pela existência nutrindo o “eu” e a identidade. Daí sua denúncia: “Tu não te moves de ti!” (1980). A potência desse enunciado está em provocar certo tremor nas bases identitárias que dão guarida a vidas limitadas e afetivamente anestesiadas. ‡ Por fim, cabe considerar que o projeto moderno dedicado a consolidar, escorar e alimentar a identidade simplesmente não se sustenta diante do movimento incessante e insistente das forças. Diariamente, aquele empreendimento oferece indícios de que se trata de uma “propaganda enganosa”. Propaganda essa estimulada por parte da ciência que identifica, cristaliza e prescreve certa maneira “correta” de viver. O empreendimento estende-se também nas ações da publicidade que, como diz Rolnik (1997, p. 20), produz “kits de perfis-padrão de acordo com cada órbita do mercado”. E, vale enfatizar, o empreendimento consolida-se nas ações do Estado que nos atribui um documento de identidade e que se vale de sua rede institucional para estender essas características fixadas por toda a existência do “cidadão de bem”. ‡ É a duras penas que cada um de nós vai se deparando com as amarras da identidade e suas cristalizações. Nos encontros intensos, que acontecem ao acaso, torna-se inevitável a seguinte constatação: a vida é da ordem das forças, do movimento e da descontinuidade. Cada um deles desestabiliza a pretensão ilusória de identidade, uma vez que a ação das forças não A RT E LO N D R I N A S E T E


AGRIPPMANHATTAN@GMAIL.COM

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Agrippina R. Manhattan

Agrippina Roma Manhattan é artista, pesquisadora e travesti. Nascida em São Gonçalo, seus trabalhos dialogam com questões de gênero, instituições e identidades. Aluna da Escola de Belas artes da UFRJ, já integrou exposições coletivas como Novíssimos 2018 (Galeria Ibeu),BA Photo/Tijuana em Buenos Aires (2017), Esquenta para Jack Smith (Capacete, curadoria de Andreas Valentim e Marcos Bonisson 2017), Carpintaria para Todos ( Fortes D`Aloia e Gabriel, 2017), PEGA — encontro de alunos de artes do Rio de Janeiro ( Centro Municipal Hélio Oiticica, 2017). Como pesquisadora já participou do Seminário Contingências promovido pelo PPGARTES-UERJ (2017) e do XII Congresso de História da Arte da Unicamp (2017).. Atualmente é aluna do curso de formação da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e trabalha como Arte-Educadora no Museu de Arte Contemporânea de Niterói.

Comunhão. Consiste em um perfume feito com meu próprio sangue. ‡ Ele é disposto na galeria a mercê de quem quiser usá-lo. ‡ Ele vem do meu incomodo enquanto artista e do desejo de explicitar os absurdos envolvendo trabalho e remuneração no campo das artes. ‡ Pensei enquanto jovem artista que ainda ganha quantias mínimas (quando ganho), pensei enquanto trabalhadora que deve pagar para trabalhar, pensei no meu pai. ‡ O desejo era me vender para quem quisesse usar. ‡ Quando mostrei o trabalho me veio a questão: era sangue travesti. ‡ Nunca serei uma artista serei sempre a travesti. ‡ O que era comunhão passou a ser lido como prostituição. ‡ Meu trabalho é lido antes de o verem só por quem eu sou. ‡ De certo modo foi interessante que me puxassem de volta para o chão. Percebi nisso dois aspectos fundamentais do meu trabalho: ‡ A palavra e o outro. ‡ A palavra que me cerca e o outro que me decifra. O corpo e sua visceralidade (o sangue) está subjugado ao poder da palavra. ‡ Carta para alguém. O trabalho consiste em uma intervenção com tinta nanquim sobre uma bula, as palavras que não foram cobertas pela tinta formem uma carta. ‡ O trabalho surge pela inquietação que tenho ao comprar regularmente este medicamento (valerato de estradiol) usado na reposição hormonal de mulheres cis que passam pela menopausa e para a transição hormonal de mulheres trans. ‡ Tento então criar uma ligação de afeto com esse produto sintético que coloco diariamente no meu corpo. ‡ Uma forma de conseguir lidar com o medo do que não se consigo compreender, neste caso a linguagem médica. ‡ É uma tentativa de aproximação ao torna-la pessoal. ‡ A utilização da bula ocorre também pelo interesse dessas palavras que frequentemente não são lidas. ‡ Pensando a bula como uma carta que é destinada para ninguém, procuro na minha intervenção endereça-la para alguém. ‡ Para o público, para a exposição ou pra mim mesma. ‡ Seja quem for o endereçado, ele eventualmente receberá. ‡ A carta não tem um remetente claro, eu TU NÃO TE MOVES DE TI

SÃO GONÇALO — RJ

A RT E LO N D R I N A S E T E


não a escrevi, apenas a encontrei dentro da bula. ‡ Ainda assim ela fala algo a alguém. ‡ Informa e adverte. ‡ Nessa investigação descobri dentro das advertências médicas algumas mensagens importantes. ‡ As mais importantes ao meu ver não tem relação quase alguma com a medicina. ‡ Mas ainda assim estão lá. ‡ Acredito não ser coincidência que a carta termine com a seguinte frase: converse com os riscos.

Comunhão

Carta para alguém

2018 2018 Perfume: água deionizada, propiletilenoglicol, álcool de cereais, fixador e sangue 50 ml.

Tinta nanquim sobre bula 20 x 30 cm com moldura.


Alex dos Santos

Alex dos Santos (1980) nasceu e vive na cidade de Jaboticabal. Autodidata, iniciou-se na arte aos 17 anos, recolhendo tintas, materiais de sobra de construção, restos de papel e papelão que passaram a servir de suporte para experimentos com tinta, lápis de cor, carvão e colagens. Há mais de dez anos tem apresentado seus trabalhos em exposições individuais, em premiações e como convidado em diversas instituições. Suas obras estiveram presentes na primeira Bienal de Arte e Cultura de Jaboticabal, Galeria do SESC Ribeirão Preto (2008), Salão de Blumenau (2009), Salão de Santo André, Programa de Exposições do CCSP, MARP de Ribeirão Preto (2013) e 2ª Bienal Naif de Piracicaba com itinerância no SESC Belenzinho em São Paulo.1

248 — 249

JA B OT I CA B A L — S P

A potência de um dia comum. Alex dos Santos registra obsessivamente ações diárias, acrescentando comentários que dimensionam e julgam estes comportamentos. ‡ Seus trabalhos, irônicos, com qualidade gráfica assertiva e colagens nas quais são percebidas escolhas cuidadosas de materiais e objetos, entregam a realidade banal cotidiana como uma espécie de prisão auto-imposta. ‡ O tempo e as ações que se repetem se misturam numa espécie de urdidura e a matéria dos objetos que a caracteriza se desgastam tanto quanto nos desgastamos. ‡ Como coleções que envelhecem, dependentes de cuidados do colecionador. ‡ Vemos a intenção de percorrer um ciclo temporal entre nascimento e morte também em Bispo do Rosário, que sentia ser sua obrigação criar amostras de tudo, todo tipo de coisa que encontrasse. ‡ A história de cada um de nós pode se constituir da memória de fatos grandiosos e notáveis, mas, e principalmente, de ações simples, ambas são como ancoragens fadadas a um fracasso, já que, como bem nos deixa saber Alex, todo mundo morre, e renasce....e morre...... [Diógenes Garillo]

1  Fonte: https://www.pacodasartes.org.br/temporada-de-projetos/2018/artistas/ alexsantos.aspx visitado em 16/01/2019.

(16) 99148-4503

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A RT E LO N D R I N A S E T E


Onde vamos cagar

Todo dia fazendo a barba

2017

2011

Pintura papel descarga vaso sanitรกrio 160x80 cm.

Pintura papel, aparelho de barbear 160x60 cm.


Bianca Turner Bianca Turner (São Paulo, 1984) é artista multimídia, bacharel em ‘Design e Prática de Performance’ na Central Saint Martins College of Art & Design (2011, Londres, Reino Unido) e Master of Arts em “Cenografia” pela Royal Central School of Speech and Drama (2013, Londres, Reino Unido). Participou de exposições coletivas com instalações e ações multimídia, em Londres onde residiu de 2007 até 2013, e em São Paulo, (Mostra Verbo 2018 na Galeria Vermelho, Transitória Galeria, Galeria Ponder 70, Instituto Tomie Ohtake, Itaú Cultural, Red Bull Station, Teatro Municipal, Galeria digital do SESI, DAHAUS, Galeria Airez, entre outros).

252 — 253

S Ã O PA U L O — ­ SP

Uma. ‡ ‘Uma’, é um vídeo, que documenta uma ação : ‡ meu corpo começa pintado de branco, servindo como tela para a imagem projetada de todos os Presidentes da República do Brasil. ‡ Aos poucos, vou limpando o corpo, e assim, me libertando dos corpos deles para enfim restar o meu corpo de mulher. ‡ Este vídeo busca evidenciar a masculinização das posições de poder. ‡ Desde a criação da República, só tivemos uma mulher na presidência. ‡ Todas as decisões tomadas que sustentam nossa vida cotidiana são deliberadas por homens ricos. ‡ Nossos corpos femininos continuam a mercê destas decisões. [autoria do texto : Bianca Turner]. ‡ Cidade-Corpo ‘CidadeCorpo’ é um vídeo que documenta a seguinte ação: ‡ Em São Paulo, eu pesquisei por ruas que tenham ainda nomes de torturadores ou militares que foram importantes durante a ditadura militar. Andei de uma rua a outra, documentando em áudio essa caminhada. ‡ Durante o percurso, eu relembrei a história de cada um desses homens. ‡ Assim que cheguei a cada uma destas ruas, fiz uma intervenção na placa, adicionando a palavra ‘torturador’, para que os moradores ou os transeuntes possam se informar a respeito de quem foi esta pessoa a ser relembrada. ‡ A documentação da ação em vídeo e da caminhada em áudio são sobrepostas em vídeo. ‡ Estudos sobre uma cidade-corpo que contém nossa história.

BIANCATURNER@GMAIL.COM

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Uma 2018 Vídeo: Projeção de imagens dos presidentes do Brasil sobre corpo pintado de branco 8’35” (dimensões variaveis), 16:9.

Cidade-Corpo 2017 Intervenção urbana e documentário de ação em vídeo e áudio 14’30” (dimensões variaveis), 16:9.


Camarinha

Diretor da Camarinha Comunicação, sou responsável pela coordenação de mais de 22 revistas. Artista Plástico e desde 2010 desenvolvo um trabalho sério e contínuo. Participei de exposições coletivas em várias cidades do Brasil, assim como living paints. Também fui selecionado em concursos nacionais. Como artista, atuo principalmente no neoexpressionismo. Também sou influenciado pela arte primitiva e pela pop art. Busco questionar como vemos o mundo e a relação que temos com lugares que integram nossa memória e o tempo de existência. Procuro levar esse ambiente a qualquer espaço de tempo, trabalhando com o inconsciente do observador e com suas fantasias. Assim, assumo várias facetas e técnicas para poder levar minha concepção às pessoas. Cursos: Desenho, com Dudi Maia Rosa, no MAM (2013). Curso de Arte e Design, na University of the Arts London (2014). Vivência em ateliê com Julio Barreto.

256 — 257

S Ã O PA U L O — ­ SP

Butcher’s arts. As obras selecionadas fazem parte da minha serie intitulada de Butcher’s Arts, que é baseada nos conceitos do neoexpressionismo, para refletir sobre a decadência do ser humano e a volatilidade da nossa existência. ‡ Expresso minhas ideias de forma intensa e crua, apoiado na consideração das necessidades humanas. ‡ A carne representa as feridas abertas que deixamos por onde passamos. ‡ Feridas que se deterioram (ou persistem dolorosas) são a abstração dessa reflexão. ‡ Meu estilo é intenso – combino uma palheta vasta de cores com o simbolismo dos objetos e ambientes que crio. ‡ Busco ser irônico e provocativo, questionando os parâmetros do agradável. ‡ Uso técnicas de pintura direta e arrojada para revelar a aspereza dos ambientes. ‡ Acrescento à série produtos de consumo, símbolos da sociedade atual. ‡ À primeira vista, carne e marcas registradas podem parecer elementos muito díspares, mas são portais para um estágio mais profundo de questionamentos e sentimentos. ‡ Representam os rastros das almas perdidas que trafegam pelos ambientes representados em minhas obras: lugares do passado, marcados, doloridos. ‡ A produção do Butcher’s Arts teve início em 2015. ‡ Atualmente, sigo nesse caminho desvendando a temática, que é uma forma de também me desvendar.

Fresh Meat 2016 Acrílica e óleo em barra sobre tela 90x110cm.

CAIO@CAMARINHA.COM

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Butchers III 2017 Acrílica e óleo em barra sobre tela 100x150cm.

Butchers Market 2018 Acrílica e óleo em barra sobre tela 180 x 120 cm.


Chico Santos

260 — 261

LONDRINA — PR

Mitos Paranaenses. ‡ Vídeo instalação com oratório; 18”, 2018. ‡ Meu recente trabalho é uma narrativa ficcional que dialoga com a realidade. ‡ A proposta cria três narrativas míticas relacionadas a espaços de preservação ambiental no estado do Paraná. ‡ As narrativas são fantasiosas e costuram elementos sobrenaturais, ligados a eventos históricos relacionados ao estado. ‡ De forma mais específica, pode-se afirmar que criei e produzi narrativas de caráter sobrenatural sobre espaços nos quais, graças à interferência humana, foram preservadas. ‡ Uma espécie de ficção da natureza, assim como as lendas se perpetuam através da cultura, forcei que as lendas sejam inseridas no imaginário popular dessas regiões*. ‡ *Primeiro de Maio — Mata dos Godoy, Guaraqueçaba.

Artista Visual paranaense, formado pela Universidade de Estadual em Londrina e pós-graduado em mídias interativas. Chico Santos já expôs seus trabalhos tanto no Brasil como no Estados Unidos, Iran, França, Austrália e Espanha. Igualmente realizou residência artística na França. Santos é um observador atento às mudanças do mundo contemporâneo. Sua pesquisa artística é centrada, mais particularmente, na expansão das cidades e na invasão de paisagens naturais pelos processos de urbanização. O artista contrói formas arquitetônicas genéricas, construindo um trabalho baseado em repetição e proliferação. Através desse processo, o seu trabalho é repetido ao infinito, expandindo-se em outras manifestações artísticas como o vídeo, escultura e também a instalação. CONTATO@CHICOSANTOS.ORG

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Mitos Paranaenses 2018 Vídeo instalação com oratório 18``.


Fernanda Galvão

Fernanda Galvão (1994, São Paulo) é bacharel em artes visuais pela FAAP (2016). Participou de diversos grupos de estudos em arte contemporânea com artistas e curadores como Paulo Myada, Pedro França, Regina Parra, Laura Belém, João Loureiro, Cadu e outros. Trabalhou de assistente dos artistas Ana Elisa Egreja, Rodolpho Parigi e João Loureiro. Recém-formada da faculdade, ingressou na área do cinema quando começou a trabalhar com figurino e cenário. Sua experiência em sets de filmagem é um dos grandes combustíveis para seus trabalhos atuais. Galvão vem explorado a construção de instalações que são ao mesmo tempo ambientes, seres e situações.Dentre as exposições que participou, destacam-se o “44º SARP”, no qual recebeu prêmio aquisição, que também resultou em sua primeira exposição individual “Papila Sobremesa Tutti Frutti” no MARP, Ribeirão Preto - SP; “47º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto” (no qual também recebeu prêmio aquisição) Santo André- SP; “E nesse ano a noite preta prega a porta”, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, São Paulo -SP; “28ª Mostra da Juventude” no SESC Ribeirão Preto, a 15ª e 16ª edições do “Programa Exposições” do MARP, Ribeirão Preto - SP e a “47ª Anual de Artes da FAAP”, São Paulo - SP.

264 — 265

S Ã O PA U L O — S P

SONHO ELÉTRICO é uma instalação composta por um vídeo sobre areia rosa. ‡ Com uma atmosfera sci-fi, a edição de SONHO ELÉTRICO se inicia com planos detalhes de texturas cor de rosa. ‡ A calmaria da ilha é interrompida no momento em que Federico, um coelho cor de rosa, aparece contemplando a vastidão da natureza, e desestabilizando o ambiente. ‡ Sucede-se uma crescente de efeitos, sugerindo, catástrofes naturais, como terremotos, ventanias e desmoronamentos, até o ápice, quando então uma erupção de fumaça magenta é expelida por uma cratera. ‡ Créditos: Fotografia: Toti Loureiro / Estúdio: Uapixana / Edição: Toti Loureiro e Fernanda Galvão/ Efeitos Especiais: Anders Rinaldi, Fernanda Galvão e Toti Loureiro. ‡ Agradecimentos: A Fúria Filmes; Andradina Azevedo; Ana Ladeira; Dida Andrade; Estúdio Uapixana; Giba Gomes

GALVAO.LIMAFERNANDA@GMAIL.COM

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Sonho Elétrico 2019 Vídeo, (3’41’’ looping), televisão e areia rosa. Dimensões variáveis.


268 — 269

S Ã O PA U L O — S P

Flávio Abuhab

Flávio Abuhab vive e trabalha em São Paulo. Mestre (Pós graduação) em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, São Paulo SP. Licenciado (Graduação) em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo SP. Principais exposições: Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo SP; Istituto Brasile Italia, Milão, Itália; Pinacoteca de São Caetano do Sul SP; Palácio das Artes, Belo Horizonte MG; Museu de Arte Contemporânea de Campinas SP; Itaugaleria, São Paulo/ Brasília; Funarte, São Paulo SP; Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Portugal; Centro Cultural da Justiça Federal, Rio de Janeiro RJ; Fototeca de La Havana, Havana Cuba; Mostra do Desenho Brasileiro, MAC, Curitiba PR; Salão UNAMA de Pequenos Formatos, Belém PA; Salão MAM Bahia, Salvador BA; Salão Paranaense, Curitiba PR, entre outras.

Consumição 2017 Impressão jato de tinta sobre papel, polieretano, cartão ondulado, papel metalizado e fita adesiva plástica 20 x 27 x 3 cm.

As obras de Flávio Abuhab selecionadas para a exposição tratam de invólucros que encerram um segredo. ‡ O fato de serem semelhantes às embalagens “invioláveis” que traficantes de droga utilizam para despachar seus “produtos”, com o intuito de estes não serem facilmente detectáveis, não faz destes “invólucros misteriosos” uma representação dos pacotes ilícitos que costumamos ver em notícias sobre apreensão de drogas. ‡ Por se tratar de arte, não nos é permitido inspecionar o conteúdo (lacrado) das embalagens, daí o mistério insolúvel. ‡ Resta-nos acreditar na narrativa do artista: as “pacoteiras” simulam a materialidade e densidade das embalagens de drogas. ‡ E algum elemento gráfico estampa cada pacote, individualizando-o. ‡ Também uma alusão aos “selos de proveniência” dos chefões do tráfico internacional — o de Pablo Escobar era uma imagem de escorpião, por exemplo —, estes símbolos ampliam o escopo de alusões presentes na obra de Abuhab: religião, política, história, crimes e castigos (corrupção, escravidão), economia e relações internacionais etc. ‡ Nascidos do contraste constatado pelo artista, depois de viver por dois anos em Montevidéu, entre a forma humanizada com que são tratados temos como o aborto, a união conjugal entre pessoas do mesmo sexo, a eutanásia e o uso legalizado da maconha, no Uruguai, e a hipocrisia com que as autoridades brasileiras lidam com os mesmos assuntos, os trabalhos expostos no Arte Londrina denunciam o atraso na pauta dos costumes, ultramoralizada no Brasil, sobretudo hoje, com a ascensão da extrema direita ao poder federal, cuja conexão com o crime organizado e o extremismo religioso emperram ainda mais qualquer avanço cultural nestas áreas. [Juliana Monachesi – 2019].

FLABU.SP@GMAIL.COM

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Brazilian way of life I 2017 Impressão jato de tinta sobre papel, polieretano, cartão e fita adesiva plástica 20 x 27 x 3 cm.

Segundo movimento 2016 Impressão jato de tinta sobre papel, poliestireno, cartão e fita adesiva plástica 13,5 x 20 x 3 cm.

Brazilian way of life II 2017 Impressão jato de tinta sobre papel, polieretano, cartão e fita adesiva plástica 25 x 17,5 x 2 cm.

Terceiro movimento 2016 Impressão jato de tinta sobre papel, poliestireno, cartão e fita adesiva plástica 15,5 x 21 x 5 cm.


Ge Viana

Criar um caminho na arte hoje parte da ideia de denúncia, lançando mão das categorias estéticas. Penso no legado deixado pelxs fotógrafxs que denunciaram em cliques o cotidiano das grandes metrópoles, guetos e povos tradicionais. O meu trabalho se desenvolve no ato de fotografar corpos que assume vários recortes com a fotomontagem, retornando um segundo corpo e gerando lambe-lambe em experimentos de intervenção urbana/rural. Venho na busca por uma expressão artística não-linear, lanço-me sobre a pesquisa do corpo performático e dos corpos abjetos pela cultura colonizadora hegemônica e seus sistemas de arte e comunicação , (corpos marginalizados e invisibilizados) A partir de um processo em Santos com Lívia Aquino, pesquisadora do campo das artes visuais, resolvi pesquisar a “imagem precária” e os meios de apropriação das fotos históricas já que na maioria dos meus trabalhos ver-se o uso de outras camadas fotográficas. “Trago discursos sobre a pixação no ato cívico da vida, político e artístico”. Residente criativa da Residência 05, são artistas articuladores de leitura que buscam acima de tudo o bem-estar coletivo e o entendimento da arte, meio-ambiente e a vida contemporânea. Integra junto com pesquisador artista Dinho Araújo, Kaka Farias e Thadeu Macedo o Risco Coletivo é um núcleo que reúne processos coletivo e projetos independentes com foco de trabalho na rua, ocupações, fotoperfomance.

272 — 273

S A N TA L U Z I A — M A

Paridade desperta nosso olhar sobre o quanto sabemos de nós, para além de nossa própria linha do tempo e, nos lança a um encontro imagético com corpos/índios que em suas singularidades, nos aprofundam em nossas particularidades. ‡ Em que ponto nossas raízes tocam ou cortam as veias indígenas? ‡ Não há distanciamentos, somos envolvidos pelo olhar de cada persona, que não se encerra na imagem, atravessa o espaço que nos distancia da obra e adentra nossos olhos mentais como quem quebra um espelho ou, de outro modo persiste na forma de duas figuras em ritual. ‡ O pensamento lambe a imagem procurando simbioses, do mesmo modo que ela reflete em avesso a nós. ‡ Estar para o outro mais do que se ver no outro. ‡ A artista ocupa o espaço com a sensibilidade de quem observa o outro em suas diversidades e percebe o mundo a partir de relações sensíveis do cotidiano. ‡ A Paridade é uma semente germinada no pensamento ou um Vazio questionado. ‡ [Layo Bulhão, Artista | Curador].

GEVIANA.PERFORMANCEART@GMAIL.COM

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Paridade, A

Paridade, B

Paridade, C

Paridade, D

2017—2018

2017—2018

2017—2018

2017—2018

Aplicação de lambe-lambe, folha de jornal 98 x 66cm.

Aplicação de lambe-lambe, folha de jornal 98 x 66cm.

Aplicação de lambe-lambe, folha de jornal 98 x 66cm.

Aplicação de lambe-lambe, folha de jornal 98 x 66cm.


Jonas Barros [Exposições Coletivas] [2018] Le Marché de Photo, Les Pratiques Emergentes entre Le Brésil et la France, Realisation Iandé, Galerie Collection Privée, Paris France. Transoeste, Camerasete, Fundação Clóvis Salgado, Belo Horizonte – MG. Festival Mês da Fotografia, Museu Nacional da Republica, Brasília-DF. Dialetos 2 Mapa, Museu de Artes Plásticas de Anápolis, GO. Dialetos 2, CCSP, Centro Cultural São Paulo, SP. [2012] D o outro lado, Marco, Museu de Arte contemporânea, Campo Grande, MS. [2010] Cores do Pantanal, Circuito Cultural Lusófonos, Palácio Cabral, Lisboa, Portugal. [2002] El Amazonas, Museu Nazionale de Castel Sant’Angelo, Roma, Itália. [1993] SARP, Salão Nacional Contemporâneo de Ribeirão Preto, SP. [1991] Arte Aqui é Mato, Exposição Itinerante, MASP-Museu de Arte de São Paulo, SP. MAB – Museu de Artes de Brasília DF.

276 — 277

CUIABÁ — MT

O realismo das imagens de jonas barros é impressionante, suas sombras, de uma concreção abissal, opõem-se ao solo. ‡ Mas é nessa oposição que a força e as sombras chinesas são mostradas em sua inteireza histórica, essas imagens apontam para uma estreita simbiose entre os seres humanos e seu meio ambiente. ‡ Seria algo próximo das imagens do mito das cavernas de Platão? ‡ Seríamos os prisioneiros que crêem apenas nas sombras? ‡ elas nos mandam para um quase cinema. ‡ Aqui nós temos uma crítica e ousada fotografia, esteticamente excitante, enigmático o que nos deixa perplexo diante das várias possibilidades da fotografia. ‡ Jonas Ferreira Barros é pintor, designer, fotógrafo e um criador autodidata de abjetos. ‡ Nasceu em Cuiabá em 1967, e em 1986, participou pela primeira vez de salão jovem arte mato-grossense. ‡ Ele começou a desenhar quando era criança, depois disso ele se aproximou de artistas de Mato Grosso como: Benedito Nunes, Dalva da Barros e Gervane de Paula. ‡ Texto extraído da revista Cacara Fhoto art 2018.

JONASBARROSARTES@GMAIL.COM

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Experimentos para bovinos 2015 Fotografia e pedras com cores naturais da região de Nobres MT Dimensões variáveis.

O barro e a meridiana claridade de um dia sul americano 2018 Fotografia, Festival de Fotografias de Tiradentes MG Dimensões variáveis.


Jonas Van Holanda

Jonas van Holanda (Fortaleza, Ceará) é artista trans não binário, pesquisador de trânsitos e insurgências de gênero. Estudou Artes Visuais no Parque Lage, RJ. O seu trabalho é baseado em subverter relações semânticas e criar referências estéticas com ferramentas e discursos decoloniais. Entre suas exposições mais recentes destacam: Quando nós estamos? no Instituto Tomie Ohtake (SP), Travessias Ocultas no SESC Bom Retiro (SP), Bestiário no CCSP. Trabalhou na 32ª Bienal de SP na obra-restaurante Restauro de Jorge Menna Barreto. Esteve em residência na Casa Matony, em La Paz, Bolívia, e no Centro de Investigação Artística HANGAR em Lisboa, Portugal e A SUL no Lavadouro Público do Carnide tambem em Lisboa. Em 2016 foi o artista vencedor da 5 edicao do premio EDP do Instituto Tomie Ohtake. Suas atividades incluem ações e workshops de micropolítica alimentar e estruturas decoloniais em gênero e feminismos, tentando reinvetar o papel das transmasculinidades no contexto carnofalocentrista atemporal. Atualmente integra o juri da 6 edicao do premio EDP no Instituto Tomie Ohtake. Vive e trabalha em São Paulo.

280 — 281

F O R TA L E Z A — C E

Pesquisa desenvolvida durante residência em La paz, Bolivia, em 2017 acerca da resistência cultural e religiosa dos povos andinos em adorar o ser El Tio, conhecido como Diabo em outros idiomas. ‡ Foi feita uma catalogação dos sinônimos para DIABO durante 1 ano e 1 mês, data da primeira exposição dos objetos desenvolvidos na pesquisa (SESC Bom Retiro em SP, janeiro 2018). ‡ O trabalho foi dividido em 2 objetos: o primeiro é apresentado em formato de áudio em loop de todos os 517 sinônimos de DIABO encontrados (duraçao do audio: 12 minutos); o segundo em formato de dispositivo para facilitar a comunicação entre mundos: uma mandíbula feita com resina acrílica e pedras de ametista (material escolhido por ser o elo entre o mundo material e espiritual, alem de Diabo ser o deus protetor dos mineiros). ‡ A semântica da palavra DIABO é uma referência colonial na América Latina, não existindo tradução para o aymara (lingua nativa da região da Bolivia pré-colombiana) ou para o tupi. ‡ O medo instaurado e compartilhado através do catolicismo e das missōes jesuítas européias deslegitimou todas as manifestações religiosas dos povos originários, desenhadas pelos colonizadores como O Mal. ‡ Catalogar todos os sinônimos de DIABO nao é nada além de uma repetição fadada a uma perda semântica. ‡ Ou a um ganho sentimental. ‡ Deus nao é indivisivel, mas europeu.

JONASVANHOLANDA@GMAIL.COM

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Inominรกvel Resina acrilica pedras brutas de ametista e gesso (em suporte de ferro). 2017 20 x 15cm.


Luana Lins Luana Lins, São Paulo, SP 1978. Vive e trabalha em São Paulo/SP. Graduada em artes plásticas pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP (2005). Participou de salões de arte contemporânea em Ubatuba, São José do Rio Preto, Embu das Artes, e Vinhedo, onde ganhou prêmio aquisitivo, além de exposições coletivas em galerias, instituições culturais e espaços independentes de arte como a Casa de Cultura de Paraty, a Oficina Cultural Oswald de Andrade, a galeria Contempo em São Paulo e o espaço Elefante Cultural em Brasília. A artista se utiliza de diversas linguagens, como vídeo, fotografia, pintura, colagem e instalação para analisar como a figura feminina foi (e ainda é) retratada ao longo dos séculos XX e XXI em diferentes mídias, do cinema à literatura.

284 — 285

S Ã O PA U L O — S P

Utilizo em meus trabalho diversas linguagens, como vídeo, fotografia, pintura, colagem e instalação, para analisar padrões sócio-comportamentais relacionados ao gênero feminino. ‡ O colecionismo surge como forma de observar como a figura feminina foi retratada ao longo dos séculos XX e XXI em diversas mídias, do cinema à literatura. ‡ São usados nos trabalhos capas de romances, pôsteres de cinema, frases extraídas de livros, trechos de filmes e vídeos coletados da internet que formam uma catalogação de construção de uma imagem clichê do feminino. ‡ O uso de texto é recorrente e tem papel fundamental na construção dos trabalhos. ‡ A frase aplicada em neon Todas as esposas são troféus foi reproduzida de um livro de etiquetas somente para homens publicado em 1967. ‡ Em The Eyeful — Gloryfing the american girl chamadas de capas da revista de mesmo nome que circulavam nos Estados Unidos nos anos 1950 são reproduzidas em pinturas. ‡ O trabalho em vídeo Mulheres Rodadas ressignifica o termo perjorativo que lhe dá o título, fazendo uma compilação de mulheres girando em situações diversas.

LUANA.LINS@GMAIL.COM

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Mulheres rodadas 2018 Instalação de vídeo Dimensões variáveis.

The Eyful 2018 Óleo sobre tela 120x100cm.

Todas as mulheres são troféus 2018 Neon 20x120cm.


Luisa Brandelli

288 — 289

PORTO ALEGRE — RS

Pulseiras. ‡ O trabalho “Pulseiras”, feito em 2016, partiu da ideia da comercialização de tudo e da equivalência das coisas quando viram mercadorias (desde grafismos com significados culturais precisos, à instituições do Estado, passando por subcelebridades e pontos geográficos). ‡ De fato, ele surgiu como um apontamento de que meu único contato com a cultura indígena, até então, era através do artesanato vendido nos centros urbanos, o que é uma relação totalmente precária.

Mestranda em artes visuais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Entre Porto Alegre e São Paulo, estudou com Jailton Moreira, Rosana Pinheiro Machado, Maria Helena Bernardes, Paulo Miyada e Pedro França. Começou a expor em 2016 ao ser selecionada para o Abre Alas da A Gentil Carioca e desde então vem participando de exposições e projetos no Espaço Saracura (RJ), EAV Parque Lage (RJ), Solar dos Abacaxis (RJ), Fundação Ecarta (RS), KM 0.2, (San Juan, Porto Rico), CALL da galeria Luis Adelantado (Valencia, Espanha), MECA (Mercado Caribeño, San Juan, Porto Rico), Zip’Up (SP), e Pivô Pesquisa (SP). BRANDELLI.LUISA@GMAIL.COM

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Sem tÌtulo (pulseiras) 2016 Miçangas, fio de nylon, alfinete Dimensões variáveis.


MARILIASCARABELLO.COM.BR MARILIASCARABELLO@GMAIL.COM

292 — 293

Marília Scarabello

Vive e trabalha em Jundiaí- SP. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, especializou-se em Cenografia Teatral no Espaço Cenográfico e é mestra em Artes Visuais pela Unicamp. Como artista possui um trabalho que transita entre a fotografia, desenho, arquitetura e procedimentos de apropriação, com uma pesquisa direcionada às questões que envolvem a ideia de território.

Bandeira trata do uso e apropriação para diversos fins da bandeira do Brasil pela população. ‡ A bandeira é o símbolo de um território demarcado, de uma nação consolidada, representa a dimensão visual desta nação, no que seria sua melhor apresentação. ‡ A bandeira representa uma coletividade muitas vezes bastante complexa, adquirindo, portanto, em situações difíceis, uma carga simbólica e emocional ainda mais forte e heterogênea. ‡ No entanto, como qualquer outro elemento simbólico, seu uso em demasia e sem critérios pode levar a uma forte banalização e por consequência alterar seu significado. ‡ Bandeira é um trabalho que surge da apropriação das intervenções realizadas pela população na bandeira do Brasil, onde o lema original positivista “Ordem e Progresso” foi substituído por outras frases. ‡ Toda a coleta de informações para o trabalho se deu através de pesquisas pela internet. ‡ As 45 frases apropriadas foram escritas através de carimbos e tinta verde em fitas virgens do Senhor do Bonfim e amarradas em um arame esticado. ‡ O arame aqui, faz menção ao varal de arame, muito popular no país e também à ideia de “gambiarra”, de algo improvisado. ‡ O trabalho sofre constantes atualizações, com o acréscimo de novas fitas, à medida em que mais uma bandeira com um novo lema é encontrada. ‡ Toda a pesquisa decorrente deste processo é arquivada em meu ateliê. ‡ Mastro também da observação da apropriação pela população brasileira da bandeira em espaços públicos e privados e do registro fotográfico rápido destas situações encontradas, surge o trabalho Mastro, composto por fotografias realizadas ao longo de dois anos em diversas partes do país e com diversos equipamentos fotográficos, apresentadas em um víTU NÃO TE MOVES DE TI

JUNDIAÍ — SP

A RT E LO N D R I N A S E T E


Bandeira 2016—2018 2 pregos de aço, arame e 40 fitas brancas de poliéster com frases carimbadas com tinnta verde de tecido 40x80x3 cm.

Intervalo ­— uma área de terra contendo 6.000 pés de eucaliptos de quatro cortes e 120 bananeiras. 2017—2018 Fotografia impressa em papel rag A4 com escrita braille sobre posta pregada em prancha de mdf e suporte metálico 40 x 60 x 37 cm.

Intervalo ­— numa casa de moradia

deo em loop. ‡ Mastro é um trabalho que foi atualizado até o final de 2018, onde as situações, quando encontradas, foram registradas e incorporadas a ele. ‡ Intervalo é uma série composta por 8 trabalhos formados por fotografias de imóveis particulares com inscrições em braille sobrepostas a elas, pregadas sobre pranchas de madeira e apresentadas ao público de modo que o mesmo possa tocá-las. ‡ O trabalho parte de uma pesquisa e apropriação de documentos de propriedade onde foram constatadas irregularidades em relação a situação “in loco” e propõe um cruzamento entre duas formas reconhecidas de documentação (a informação das matrículas e das fotografias), procurando corrigir o hiato entre elas a partir das imagens ou simplesmente apontar esta impossibilidade. ‡ A escrita em braille passa a ser o único recurso possível nesta operação de tentar devolver o invisível e que é ainda realidade nas matrículas (as descrições do que deveria haver nos lugares) às fotografias destes lugares, como uma espécie de cicatriz. ‡ Cada trabalho é nomeado com a descrição presente em sua respectiva matrícula. ‡ Para este salão duas peças da série são apresentadas: Uma casa de moradia e Uma área de terras contendo 6.000 pés de eucaliptos de quatro cortes e 120 bananeiras.

Mastro 2016-2018

2017—2018 Fotografia impressa em papel rag A4 com escrita braille sobre posta pregada em prancha de mdf e suporte metálico 40 x 60 x 37 cm.

VÌdeo em loop composto por 23 fotografias digitais de bandeiras do Brasil em espaços públicos e privados Projeção com dimensões aproximadas, 42 x 59,4 cm. 2’22í”.


Marina Dubia

296 — 297

S Ã O PA U L O — S P

Perguntas para o povo brasileiro é uma reconstrução na forma de perguntas do discurso de posse do ex-presidente interino Michel Temer, que teve lugar no dia 12 de Maio de 2016. ‡ Ao transformar a fala de Temer em questões abertas, pretendo instigar cada cidadão a ponderar e situar de modo tangível suas opiniões e papel cívico.

Oscilo entre dispersão e estrutura; o objetivo é provocar curtos—circuitos. Palavra e corpo são os lugares preferenciais de operação. Conceitos—chave como “resistência”, “contágio”, “dança”; ou “montanha”, “sal” e “cacaatua” servem como matriz para cada tentativa de remodelar padrões anteriores. Em que dinâmicas vitais estamos implicados? Atuo no sentido da crítica e da desestabilização. Participo ativamente do circuito de publicações independentes, editando e traduzindo, e mantenho uma paixão insensata pela dança contemporânea de São Paulo. Sou formada pela Universidade de São Paulo em Artes Plásticas. Atualmente curso o MFA em Contextual and Conceptual Practices da Royal Danish Academy of Fine Arts, em Copenhague, sob orientação de Carla Zaccagnini. E um pé na poesia. Sempre. PRAYADUBIA.COM MCOLLORS@HOTMAIL.COM

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Perguntas para o povo brasileiro. 2018 Livreto impresso, cordĂŁo elĂĄstico e pregos 15 x 21 cm, 20p. cada.


Ravi Novaes Formado em Artes Plásticas-gravura pela ECA—USP, atualmente cursa especialização em Design Gráfico no Senac, unidade Campinas-SP. Entre 2012 e 2015 compôs o Grupo de Estudos sobre a Gravura do IEB—USP, sob orientação da professora Mayra Laudanna. Frequentou o ateliê Livre do Museu Lasar Segall de 2015 a 2017; integrou projetos e coletivos que abordam de forma integrada estamparia e política como o coletivo Tatu & Peirce (2014) e o coletivo A Corja (2016-2017). No ano de 2015 ingressou como docente no Centro Paula Souza, lecionando componentes relacionados ao desenho e a gráfica, onde permaneceu até o início de 2019. Durante o ano de 2018 manteve o Ateliê Caderno de Desenho em Maracaju—MS. Desde fevereiro de 2019 reside e mantém seu ateliê em Campinas-SP.

300 — 301

S Ã O PA U L O — S P

Executei a gravura Saúva no primeiro semestre de 2018, como parte da série Monstrocultura Brasileira. ‡ As gravuras e desenhos da série consistiram na germinação de criaturas, “monstros”, a partir de variadas sementes de realidades brasileiras. ‡ A formiga saúva teve lugar nesse grupo de criaturas imaginárias a partir da observação de um contexto rural e de elementos da literatura brasileira. ‡ A Saúva, presente em Macunaíma, no Triste Fim de Policarpo Quaresma e em inúmeras hortas e lavouras Brasil afora foi escalada por sua força e voracidade. ‡ Na obra aqui apresentada a formiga, capaz de devorar quase tudo, segura a cabeça de um guerreiro de elmo, ladeando o conjunto há elementos de uma vegetação indistinta. ‡ Tentei com a desproporção de escala entre saúva e a cabeça dar dimensão de destaque a primeira criatura. A xilogravura foi impressa sobre uma página dupla de história em quadrinhos do Superman, na qual figura uma cena de batalha. ‡ A sobreposição de texto e imagens gerou interferências mútuas entre a xilogravura impressa e a página da revista, de modo a quebrar a leitura sequencial dos balões de fala, encobrindo algumas áreas e isolando outras. ‡ São inúmeras as relações possíveis entre a gravura e os quadrinhos; um otimista poderia destacar a força extraordinária comum a ambos os personagens, enquanto um segundo olhar poderia ressaltar a ação de super-herói e formiga como agentes de corrosão que atuam sobre as culturas brasileiras.

RAVI.NOVAES@GMAIL.COM

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SaĂşva 2018 Xilogravura sobre papel impresso 21 x 29,7 cm.


Rodrigo Moreira

304 — 305

BELO HORIZONTE — MG

Medusas. Na série Medusas , combino desenhos científicos de plantas com o fascínio popular pelas tragédias. ‡ Recortes de jornal extraídos de matérias policiais são sobrepostas às ilustrações botânicas que hipnotizam por sua beleza e riqueza de detalhes, da mesma forma que o trágico desperta nosso interesse e fixação. ‡ Em Estratégias de Segurança , cartazes lambe-lambes são dispostos em espaços públicos onde casos de agressão de natureza homofóbica foram registrados na cidade de São Paulo. ‡ Os retratos de frequentadores da região são sobrepostos por tarjas contendo 4 dicas de comportamento publicadas pelo jornal Folha de S. Paulo, listadas como estratégias de segurança para evitar agressões: ‡ 1. Andar em grupos: ter amigos por perto pode intimidar agressores; ‡ 2. Ir a locais fechados sempre que possível para aumentar segurança; ‡ 3. Evitar andar de mãos dadas e beijar em locais públicos; ‡ 4. Não dar “pinta”: alguns trejeitos podem atrair a atenção de criminosos. ‡ Data/Date é um neon que alterna entre as palavras “data” e “date” em uma meditação irônica sobre intimidade na era da vigilância.

Rodrigo Moreira é artista visual formado em Design Gráfico (UEMG) e Comunicação Social com formação complementar em Belas Artes (UFMG). Participou de exposições no Brasil e exterior como FOUND: Queer Archaeology; Queer Abstraction (Leslie Lohman Museum, NY), Multitude (Sesc Pompeia, SP), Abre Alas 11 (A Gentil Carioca, RJ) e Salão Novíssimos 2013 (Galeria Ibeu, RJ). Em 2014, recebeu o prêmio principal do 66˚ Salão de Abril de Fortaleza. EMAILDOMOREIRA@GMAIL.COM

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EstratÊgias de segurança 2014 Cartaz lambe-lambe 174x119 cm.


Samuel Tomé

Artista visual e designer gráfico, atuo de forma simultânea e desobediente entre as duas áreas. Experimento composições através de desenhos, fotografias, objetos, ações e atividades coletivas, investigando situações sociais, políticas e cotidianas da vida contemporânea e do sistema de arte. Tenho trabalhado em projetos gráficos com artistas, grupos independentes e instituições de cultura na criação de comunicações visuais, sinalizações de exposições, cartazes, livros e outros impressos. Participei das exposições coletivas Zona de Litígio (Museu da Cultura Cearense, 2015 e Casa da Cultura de Sobral, 2018, CE), Bãngala: Yakã Ayê (A Gentil Carioca, 2015, RJ), Museu/Forum: Arte Descolonial (Museu Sobrado José Lourenço, 2017, CE), Oriente Risco (Casa da Fotografia/Fundação Clóvis Salgado, 2017, MG), 68º Salão de Abril Sequestrado (2017, CE) e 69º Salão de Abril Sequestrado (2018, CE). Desenvolvi a pesquisa “Grande Circular” na 5ª edição do Laboratório de Artes Visuais da Escola Porto Iracema (julho–dezembro, 2017), durante a pesquisa propôs atividades coletivas que tencionam questões sobre arte, público, circulação e coletividade, através da elaboração de conteúdos gráficos.

308 — 309

I TA P I P O C A — C E

Tenho um incêndio a bordo. Ônibus são incendiados em Fortaleza, Paris, Londres, Londrina, São Paulo, Belo Horizonte, Maceió, Recife, Salvador, Manaus, Rio Branco. ‡ Frequentemente a imagem de um coletivo em chamas circula por entre os veículos de comunicação. ‡ O fogo surge motivado pelas reivindicações de manifestações civis, convocando atenção ao debate público diversas questões das camadas sociais. ‡ Nada pode ser feito até o tempo moderar. Registro fotográfico de mensagem fixada na janela do ônibus. ‡ Através da janela observar-se rastros do percurso do ônibus, onde outras mensagens são capturadas, criando camadas de textos ao longo do trajeto da linha.

SAMUELTOMEMENEZES@GMAIL.COM

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Estou em chamas 2017 27 cartazes impressos em papel color plus roma 120g/m2 com moldura pĂ´ster 200x200cm.

Nada pode ser feito atĂŠ o tempo moerar 2017 12 fotografias em papel fineart Hahnemulhe com moldura 50x50cm.


Ueliton Santana

Ueliton Santana é Doutor em Arte Contemporânea pela Universidade de Coimbra (2017) — Portugal. Em 2011 é selecionado para participar da exposição Rumos Itaú cultural e expõe nRio curadoria geral de Agnaldo Farias, participa em 2013 ainda da exposição espelho refletido no Rio de Janeiro a convite do curador Marcus Lontra, participaem 2013 da exposição Amazônia a Arte no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belém, com curadoria de Paulo Herkenhoff, participa do projeto Rotações de Culturas em São paulo do projeto Longitudes e nos anos seguinte segue sempre atuante: 2015 - Bienal Internacional de Cerveira/ Portugal, 2015- Exposição Ocupação Tropicana Coimbra/ Portugal [2015] Residência Artística em Coimbra/ Portugal, [2015] Residência Artística independente em Figueira da Foz/ Portugal. [2016] Exposição Ocupação Tropicana II Coimbra/ Portugal, [2016] Exposição Motel Coimbra/ Portugal.

312 — 313

RIO BRANCO — AC

Essa rede percorre períodos históricos geográficos, metafóricos e poéticos, na Amazônia, representando e apresentando aspectos da cultura amazônica. ‡ A rede, que se embala de um lado a outro; se deslocando e ao mesmo tempo imóvel. ‡ Essa rede companheira de solidão do seringueiro no meio da floresta. ‡ Refletimos e pensamos essa identidade em movimento, em trânsito, caminhando pelos acontecimentos sociais e resistências e imagens na Amazônia. ‡ Procuramos trazer uma abordagem das diversas usualidades da rede na Amazônia desde a sua primeira citação por Pero Vaz de Caminha. ‡ Sintetizamos através de imagens a metamorfose amazônica, como se dá a transformação do homem ao habitar diretamente a floresta e interagir com sua diversidade e isolamento. ‡ O meu trabalho artístico nesta pesquisa se desdobra além de uma visão particular, porque engloba um âmbito coletivo de abordagem histórica e social pelo viés da arte contemporânea, dessa forma insinuamos deslocamentos, trânsitos e resistências indentitárias como forma de reflexão e entendimento da realidade amazônica. ‡ A rede é o fio que conduz, que parte da unidade para a coletividade, nessa construção de diálogos e reflexões. ‡ A pele aqui é algo sutil, sensível e polissêmica, discute a violência, a rede de crimes, as marcas de sangue deixadas na aura da cidade, e o medo como tatuagem na memória, nessa fronteira da Amazônia que em alguns casos, ainda, parece um território sem lei, ou com a lei feita pela criminalidade, que na maioria dos casos a sentença é sempre a morte com requintes de crueldade. ‡ A ótica basilar foi a de autores, artistas e imagens da Amazônia. ‡ Uma espécie de andança por tópicos de excluídos, não vistos ou não considerados, construídos pelo olhar do outro, que até hoje oscilam entre o paraíso perdido e o “inferno verde”.

ARTISTADOACRE@GMAIL.COM

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Soldados de borracha 2017 CarvĂŁo sobre rede 400x300 cm.



No dia 5 de maio de 2019 a DaP amanheceu com sua fachada perfurada. Na madrugada do dia anterior, o vidro frontal foi quebrado por uma pedra. Vinte dias depois um novo ataque na mesma vidraça. [Brasil–2019] Na atual situação sabemos que somos alvo, e isso não é novidade pra ninguém. Você pode não ter percebido, mas estamos em guerra. E os alvos principais são: As instituições públicas, as artes, a cultura, o comum, os direitos e a celebração da vida e do amor. Esta pedra iniciou um movimento ao ser atirada, seu fluxo ressoa neste catálogo. As produções, as palavras, as formas e os corpos, ressoam. O movimento é continuo e seu trajeto segue para outro lugar.


Este catálogo foi composto em família Suisse e GT Cinetype. O miolo impresso em Pólen Soft 80g/m 2, capa em Cartão 250g/m 2 e Proposições Mediativas em Offset 80g/m2. Impressão e acabamento realizados na Midiograf, Londrina­­­­­­­­—2019.


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