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Pintura náufraga Daniela Name

Sentia-se

muito

jovem

e,

ao

mesmo

tempo,

indizivelmente velha. Passava como uma navalha através de tudo; e ao mesmo tempo ficava de fora,

olhando.

Tinha

a

perpétua

sensação,

enquanto olhava os carros, de estar fora, longe e sozinha no meio do mar; sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um dia que fosse 1.

É Mrs. Dalloway quem nos faz o convite para navegar pelas Ilhas de Raul Leal. Virginia Woolf inventou a personagem em 1925: socialite muito bem casada para os padrões de sua época, Clarissa Dalloway vivencia os incertos e assustadores anos do entre-guerras. O livro a acompanha na complexa tarefa de ir às compras. Ela circula pelas ruas de Londres escolhendo flores e procurando os ingredientes que faltam para um jantar formal em sua casa. Alterna estados de atenção: o foco na lista dos afazeres de uma boa esposa a mantém presa ao chão e ao movimento das ruas, fazendo-a constatar uma terrível solidão; já a entrada em um labiríntico estado de devaneio faz com que a personagem e seu leitor devassem, juntos, alguns flashes do passado e de um possível futuro. Como numa ilha de edição, a memória permite retrocessos e avanços.

Lembrar pode ser projetar ou se arrepender. Quando

entra nesse estado de suspensão, pairando acima da rotina, Mrs. Dalloway faz furos randômicos na gaiola que a protege e a aprisiona, vivendo experiências que ultrapassam o congelamento superficial do presente. E se Mrs. Dalloway fizesse suas compras nas paisagens pintadas por Raul Leal? Para início de conversa, ela não estaria nas ruas, mas em um dos ambientes artificiais que o artista recria a partir de fotos que tirou em shoppings do Brasil e de outros países. Como defende Zygmunt Bauman, os shoppings pertencem a um grupo de prisões voluntárias que temos criado. O teórico polonês vem estudando a vida cada vez mais líquida que levamos e a fluidez de nossas relações que nos impedem de cultivar vínculos.

1

Ele agrupa

A tradução de Mrs. Dalloway neste texto e na conversa com Raul Leal é a de Mario Quintana para a editora Nova Fronteira. O poeta gaúcho entendia bem de gaiola e dos furos que precisamos fazer nelas: “Eles passarão, eu passarinho”.


os shoppings aos reality-shows e aos condomínios fechados e seus circuitos de segurança - criamos grades que nos entorpecem e nos vigiam. Outro tributário do panóptico de Foucault, Jonathan Crary tem se debruçado sobre a comunicação depois da internet, a conexão 24/7 – 24 horas, 7 dias por semana -, que batiza seu último livro.

Não é difícil aproximar a teatralização

dos selfies, os não-encontros e não-debates performáticos virtuais com o isolamento identificado por Bauman. A hiperconexão é mais uma prova da desconexão

de

nossos

tempos.

Buscamos

os

ambientes

fechados

e

a

virtualidade também por medo do outro, e em casos extremos este receio se transforma em ódio e desejo de exclusão. Se Mrs. Dalloway saísse para as compras em um shopping, talvez se sentisse “diferenciada”, protegida “desta gente” periférica, divergente e ameaçadora, mas certamente perderia a noção do ambiente que a cerca. Não conseguiria sentir o passar das horas e nem as alterações meteorológicas. Não ouviria as britadeiras da obra ao lado, nem sentiria cheiro de grama cortada; não veria carros, nem o colorido espetáculo de guarda-chuvas abertos; não esbarraria em nada, dificilmente seria abordada por alguém. Teria, portanto, bem mais dificuldade para abrir clarões de devaneio e de memória na anestesia do presente. O interesse de Raul Leal é perseguir esses clarões. Para transformar seu trabalho em para-raio de memórias, o artista encarna um Doutor Frankenstein digital, se apropriando das especificidades da arquitetura dos shoppings e reorganizando elementos a partir de uma lógica de sampler. Se na história da pintura há relações evidentes entre cor, forma e música, não deixa de ser interessante notar que a arte contemporânea aproximou artistas e DJs, que trabalham com processos de apropriação e resignificação. Leal é um pintor-pianista que domina com destreza um dispositivo importante em nossos tempos: os programas de manipulação de imagens. E é importante assinalar como as operações realizadas nestes softwares são semelhantes às da memória. Há apagamentos, enxertos, contrastes e brilhos provocados por decisões externas à imagem, do mesmo modo que podemos reinventar nossa infância,

ficcionando

a

importância

de

determinado

parente,

ou

mesmo

lembrando um episódio esquecido a partir de um evento atual – um choque, um êxito –, que serve como ferramenta prospectiva, fazendo com que aquela fatia de passado ultrapasse a membrana da consciência e venha à tona. Os shoppings-monstros de Leal-Frankenstein são feitos de fragmentos de espaço e tempo muito distintos, uma arquitetura de memórias estilhaçadas. A sensação de quem olha para essas pinturas recentes do artista pode ser a de


que se está diante de uma paisagem extraterrestre, atualização pop do sentimento

de

compositores

exílio

e

não-pertencimento

românticos,

como

Caspar

destacado David

pelos

Friedrich

pintores e

e

Chopin,

respectivamente. Este estado romântico de desencaixe e de certa paralisia diante

da

hostilidade

do

mundo

é

um

elemento

importante

para

o

entendimento das Ilhas que Leal nos apresenta. Em uma primeira mirada, de longe, cada tela-ilha parece ter a estabilidade de um instante congelado: a tinta acrílica é trabalhada como uma superfície aparentemente lisa; figuras humanas e os cacos de vitrines, lustres e escadas rolantes que compõem essas ruínas contemporâneas são pintados como silhuetas monocromáticas, quase carimbos. De perto, no entanto, cada trabalho revela seus artifícios: os escorridos e as imperfeições

próprias

do

fazer

pictórico

são

deixados

aparentes,

se

comunicando diretamente com as imagens ramificadas, espécies de infiltrações que Leal insiste em acrescentar aos seus ambientes. Se na já antológica tela

Splash, de David Hockney, o movimento da água espalhada pelo salto na piscina furava a superfície quase fotográfica da pintura, no trabalho de Leal estas rachaduras (na imagem e na fatura) revelam a instabilidade presente em seus interesses formais e temáticos. Com elas, o artista transforma os shoppings em anti-totens, procurando levar essa redoma asfixiante e opaca ao estado de bolha de sabão: cápsula ainda fechada, mas de uma transparência díspar, furta-cor, prestes a se desintegrar a partir do contato com o mundo das coisas vivas, heterogêneas e em movimento. Por ser um pintor da solidão e da incomunicabilidade que nos assola, talvez não seja um acaso Leal se interessar tanto por silhuetas. Apesar de sua aparência

monolítica,

elas

são

uma

imagem

que

contém

seu

negativo,

apontam para um estado de ausência, para algo que lhes foi suprimido. De mãos dadas com Mrs. Dalloway e com Virginia Woolf – a escritora também foi como um pássaro de olhos furados, que cantou alto, mas não suportou sua gaiola -, o artista expõe a dor das faltas e nosso estado de naufrágio. Das

Ilhas, manda mensagens na garrafa, sem saber ao certo em que cais e em que tempo elas vão ser lidas.


Ground Control to Major Tom Via o que lhe faltava. Não era beleza; não era inteligência. Era essa coisa central, que se comunica. Alguma coisa de cálido que quebra a superfície e encrespa o frio contato entre homens e mulheres, ou de mulheres entre si. 2

No mês de março de 2015, Raul Leal e Daniela Name trocaram e.mails sobre Ilhas e o processo criativo do artista. Apesar de morarem no mesmo bairro e de conhecerem os ambientes de trabalho um do outro, o artista e a curadora optaram por emular em sua conversa a dificuldade de comunicação que nos assombra nesta era de hiperconexão. Temos a ilusão de que há mais comunicação do que nunca, mas estamos cada vez mais isolados. Com a opção por um diálogo virtual, Leal e Name testam os limites de seu vínculo, buscando alguma perenidade, descobertas e vertigens na conversa naturalmente entrecortada. Há um desafio – para os dois que perguntam, respondem e comentam, mas também para seus possíveis leitores: é possível atingir um pensamento encadeado, mesmo com interrupções?

2

Ainda Mrs Dalloway.


13 de março Daniela Name => Raul Leal Terminei de ler o romance A vida privada das árvores, do chileno Alejandro Zambra, uma pequena joia. Há uma passagem muito bonita - e acho que podemos usála para começar a lançar nossas mensagens na garrafa pela própria metalinguagem com a comunicação, já que o (não se) comunicar e a impossibilidade de se gerar memória são latências poderosas no seu trabalho. Eis o trecho - vamos começar por aí? “Já não existem baús ou se existem baús vazios, esvaziados, sem anéis, sem mechas de cabelo, sem cartas bem dobradas prestes a se rasgar, sem fotos em sépia. A vida é um enorme álbum no qual é possível construir um passado instantâneo, de cores vivas e definitivas.” 14 de mar Raul Leal => Daniela Name Muito forte essa imagem de construir um passado instantâneo, um passado quase presente, afinal está tudo à mão, na hora em que você quiser. Tenho pensado muito na história do presente perpétuo e nas heterotopias do Foucault, conceitos que se aplicam com justeza num mundo que se torna cada vez mais virtual e sem memória física. Heterotopias temporais como museus que reúnem objetos de todos os tempos e estilos em um lugar. Eles existem no tempo, mas também existem fora do tempo,

porque eles são construídos e preservados para serem fisicamente incapazes de se deteriorar com tempo. Os shoppings apesar de não terem essa característica de preservação da história também tem essa relação com o tempo, de existir fora do tempo. 17 de mar Daniela Name => Raul Leal Já que você falou do Foucault, queria perguntar como e por que você decidiu fotografar os shoppings para depois transformálos em pintura. Ao fazer isso, recordo um pouco o Zygmunt Bauman e seu pensamento sobre a vida líquida. Quando estávamos matutando juntos sobre o título da exposição, foi bem interessante conseguirmos chegar em um, Ilhas, que fala de um isolamento, mas que se dá por um barreira líquida. Bauman fala dos shoppings que fazem parte de construções, dispositivos e práticas que evidenciam um isolamento voluntário no mundo contemporâneo. Isso ecoa em casos recentes que vimos no Brasil, como nos rolézinhos no Rio de Janeiro e em São Paulo, e com a "gente diferenciada" querendo restringir os shoppings, que já são uma suspensão na cidade, a um público ainda mais segmentado. O shopping é uma cápsula que coagula o espaço e o tempo. Se chove, se faz sol, se anoiteceu... Não ficamos sabendo. Há um torpor


e uma anestesia ali, como se as vitrines tão ligadas a uma pulsão narcísica, fossem também espelhos cegos, já que é impossível qualquer reconhecimento naquela luz propositalmente antinatural, naqueles materiais reflexivos, naquele ambiente com cheiro de nada. Fico pensando como as sombras e os falsos escorridos da suas telas emulam de algum maneira este coágulo. Embora estejamos sempre fugindo um dos outros, líquidos, esta fuga nos faz estanques. Exatamente como as sombras da sua pintura. Se de longe elas aparentam movimento, de perto são como um grito parado no ar. Estão esticadas, estilhaçadas. São fantasmas, mas destituídos de qualquer evanescência. 17 de março Raul Leal => Daniela Name Pois é, na época em que comecei a fotografar os shoppings estava pensado sobre essa paisagem urbana que é destruida e reconstruida o tempo todo e também sobre a ideia de um espaço descolado do tempo. Ao contrário de outros não lugares como aeroportos e rodoviárias, o shopping tem essa característica. É um elemento especial na paisagem urbana, um elemento totalmente novo na história das cidades. E é engraçado como é praticamente impossível fotografar a área externa do shopping, é um nada ainda maior que o interior, é totalmente inóspito e refratário, ao contrário do interior que quer te prender, o exterior quer te expulsar, mas aí já é outra história que não tem muito

a ver com as pinturas. Entrando no shopping o que mais me instigou foi a luz, uma luz sem sombra, em um lugar sem tempo. E a sensação de espelhamento também, como tudo se repete, os elementos visuais não tem muita variação. Quando passo essas imagens para a pintura tudo muda, a pintura é um meio com muita materialidade, a tinta escorre, seca, muda de cor. Tem que se trabalhar de diversas formas para conseguir a transparência, tem que se manipular a tinta numa certa espessura para não escorrer nas áreas chapadas. Muitas camadas para conseguir fechar as áreas de cor e dar o contraste. Você falou de coágulo e é exatamente isso que acontece, tem o fundo que é uma área de suspensão, de flutuação e tem a imagem coagulada sobre esse fundo, estática, com uma dificuldade de movimentação. 17 de março Daniela Name => Raul Leal Na última garrafinha de náufraga eu mandei um comentário sobre seus escorridos-coágulos. Eles me levam ao "Splash", do David Hockney, e também à forma como o artista sempre usou a fotografia não apenas com um meio final para a obra, mas como um exercício para pensá-la. Creio que no Splash, aquele mergulho que a pintura congela, há uma pista muito interessante para que os visitantes desta exposição e os eventuais leitores desta nossa conversa entrem no seu trabalho. É interessante você usar a pintura como linguagem para falar dos shoppings, porque, ao fazer isso


você cria uma antítese a partir do aspecto formal do trabalho: o coágulo da imagem, aparentemente inócuo, ganha movimento e ruído a partir da imperfeição manual e de um certo calor sempre presente na pintura. Gostaria de falar disso? 18 de março Raul Leal => Daniela Name Essa questão do "calor" do processo da pintura é muito importante para mim, de um jeito que exista uma carga emocional, sem ser piegas. A pintura é um meio que, se o artista não tomar cuidado, acaba por tomar a frente da situação, deixando a ideia do trabalho por trás. Digo isso pela capacidade de sedução da pintura, é muito fácil escorregar para o virtuosismo vazio quando se tem o domínio da técnica. Não que minha pintura seja virtuosística, muito pelo contrário. Tem mais relação com processos da abstração informal e da pintura pop dos anos 70 do que com técnicas de pintura acadêmica, velaturas, esfumatos etc. Coisas que não caberiam no meu vocabulário visual. Bom, mas voltando à fotografia, ela acaba sendo meu caderno de rascunhos. Não faço muitos estudos, desenhos preparatórios. Resolvo a imagem direto com a foto, seja por modificação da imagem fotográfica, seja por recorte e colagem. Aí há uma relação com os métodos históricos de pintura e os pintores que utilizaram a câmara obscura e seus sucessores que utilizam a projeção como ferramenta de trabalho. Já me perguntaram qual o sentido de pintar uma imagem que parece uma coisa feita à máquina.

A um olhar desatento, a pintura pode passar como uma coisa prosaica, mas se o observador prestar atenção ao que está na tela, vai ver que aquilo não seria possível com uma impressão digital ou serigrafia, acho interessante esse jogo de sutilezas. É um jeito de olhar o mundo desconexo que a gente está vivendo de uma maneira diferente, já me falaram que a minha pintura dá vontade de ficar olhando, acho que a pintura tem isso, pede um tempo para parar e ficar olhando, apesar de muitas pessoas passarem por elas como se estivessem no corredor de um shopping, olhando vitrines rapidamente.

Ilhas, de Raul Leal - Texto Daniela Name e entrevista com o artista  

Arquivo digital sobre a exposição "Ilhas", do artista Raul Leal, realizada no Centro Cultural Justiça Federal em abril/ maio de 2015. Texto...