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CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

Memórias Urbanas de Iguape – SP


Foto da capa: Simone Scifoni


“A própria cidade, entre a floresta e o rio, comprime-se à volta da grande igreja do Bom Jesus.” (Diário de Viagem de Albert Camus)


PREFEITURA MUNICIPAL DE IGUAPE Prefeita Municipal Elisabete Negrão Secretário de Cultura Carlos Alberto Pereira Junior UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor João Grandino Rodas Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária Maria Arminda do Nascimento Arruda Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Sandra Margarida Nitrini Departamento de Geografia André Roberto Martin Laboratório de Geografia Urbana Anselmo Alfredo EQUIPE TÉCNICA Simone Scifoni, Professora do Depto de Geografia/FFLCH/USP/Labur Danilo Celso Pereira, Geógrafo, FFLCH/USP Talita dos Santos Barbosa, Geógrafa, FFLCH/USP Projeto Gráfico Danilo Celso Pereira


Simone Scifoni (org)

CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

Memórias Urbanas de Iguape – SP

Iguape 2011


Foto: Danilo Pereira

CANTIGA PARA UMA PRINCESA De onde vem teu encanto, de onde vem tua beleza Teus becos tuas esquinas, veio do tempo do ouro e da lavoura de arroz Ainda te vejo princesa, com o teu ar de nobreza, as marcas nos velhos telhados Tuas altas calçadas, a sombra dos teus beirais Centenárias igrejas, era um tempo de opulência, que já ficou no passado Os teus velhos sobrados, casarões coloniais... Era de se admirar, o sobrado dos Toledos, as ruínas do Itaguá, o casarão dos Veigas O sobrado da Pirá... O sobrado dos Mâncios, o beco dos quatro cantos, Teu rico casario, Casarão dos Oliveiras, Rua do Funil Tem o sobrado dos Fortes, Velho prédio do Correio, Palacete Eurico Moutinho, onde guarda teus mistérios, Onde esconde teu pelourinho. Antonio de Lara Mendes


Dedicamos este trabalho a todos os iguapenses, em particular a todos que contribuíram para a realização deste projeto, em especial aos familiares do Silvio Fernando Rodrigues, o Silvio do Despraiado (in memoriam).


Foto: Helena Rios, arquivo Iphan/SP


Sumário

11

Introdução

13

1. A Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira

14

1.1 O Iphan e a Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira/SP: experiências Carina Mendes dos S. Melo

23

2. Reflexões: cidade, patrimônio cultural e educação

24

2.1. Educação para o exercício da cidadania Simone Scifoni 2.2. Iguape, arquiteturas em processo e construção da proteção federal, Flávia Brito do Nascimento

35

45

3. Memórias Urbanas de Iguape: Rodas de Memórias

47 64 81 95

3.1. Cultura Caiçara 3.2. Quilombos do Ribeira 3.3. Histórias de Pedra e Cal 3.4. Águas de Iguape

107

4. Práticas em Educação Patrimonial

108 113 116 119

4.1. Trabalho com textos 4.2. Valorização dos conhecimentos tradicionais 4.3. Explorar e conhecer o patrimônio edificado 4.4. Linha do tempo: memória e história oficial

121

Sobre os autores

122

Referencias bibliográficas


“Algumas centenas de casas, mas de estilo único, baixas, caiadas, multicoloridas. [...] Iguape tem ares de estampa colonial.” (Diário de Viagem, de Albert Camus)

Foto: Helena Rios, arquivo Iphan/SP


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

INTRODUÇÃO A presente publicação é um dos produtos do Projeto Memórias Urbanas – Iguape/Vale do Ribeira, realizado por um grupo de docentes e alunos do Departamento de Geografia e do Labur da FFLCH/USP1, em parceria com a Prefeitura Municipal de Iguape e com a Superintendência do Iphan de São Paulo, durante o ano de 2011. O projeto teve como principais objetivos: envolver a comunidade local na valorização das memórias e do patrimônio cultural; registrar e documentar a memória urbana para dar visibilidade e socializar conhecimentos populares; fortalecer o vínculo das comunidades com o seu patrimônio cultural, fomentando o reconhecimento de sua importância e incentivando, assim, a participação social na sua proteção. Entendemos a Educação Patrimonial para além da simples divulgação do patrimônio: não se trata apenas de difundir conhecimentos ou de reproduzir informações a um número maior de pessoas. Trata-se, antes de tudo, de construir uma nova relação das comunidades e o seu patrimônio, possibilitando a apropriação social de conhecimentos do qual ele é suporte. Mas essa construção só pode ser feita quando se considera e se incorpora as necessidades e expectativas das comunidades envolvidas. Assim sendo, a valorização da memória coletiva foi o ponto de partida neste projeto, compreendendo que na essência dos objetos materiais, das arquiteturas e do urbanismo, há moradores e suas vivências, um cotidiano que dá vida e dinamismo a esse patrimônio. Neste sentido, o projeto envolveu a realização de quatro “Rodas de Memória”, que foram momentos de encontro nos quais pudemos ouvir e registrar as falas e relatos das vivências dos moradores, os “causos” e as histórias iguapenses. O resultado é a publicação deste volume voltado à formação de educadores que atuam no município de Iguape. Ele se encontra organizado em quatro partes: inicialmente é apresentado um relato sobre algumas experiências e reflexões sobre a atuação do Iphan/SP na Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira; na segunda parte temos artigos que buscam introduzir e problematizar as questões relativas à própria Educação Patrimonial e as ações relativas ao processo de tombamento do Centro Histórico de Iguape; na terceira parte encontram-se os registros das quatro Rodas de Memória, organizados sob a forma de temáticas de O projeto contou com apoio do Fundo de Fomento às Iniciativas de Cultura e Extensão da PróReitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo. 1

INTRODUÇÃO | 11


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

discussão; e na última parte incorporamos algumas sugestões de práticas educativas para que os professores possam se inspirar criando, assim, suas próprias atividades em sala de aula. A expectativa é de contribuir para a formação em Educação, pela via da memória e do patrimônio cultural.

“De todas as necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado”. Simone Weil

Simone Scifoni

12 | INTRODUÇÃO


Foto: Leônidas Damasceno / Acervo da Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira O IPHAN E A CASA DE PATRIMÔNIO DO VALE DO RIBEIRA/SP: EXPERIÊNCIAS

A Casa do Patrimônio do

VALE DO RIBEIRA

CARINA MENDES DOS SANTOS MELO| 13


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE - SP

O Iphan e a Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira/SP: experiências Carina Mendes dos Santos Melo

Este

breve

artigo

busca

relatar

tem buscado respeitar nesta relação

algumas experiências e reflexões

que vem se estabelecendo, tendo

sobre a atuação do Iphan/SP na Casa

como espaço de interlocução a Casa

do Patrimônio do Vale do Ribeira,

do Patrimônio.

onde são desenvolvidas atividades práticas no campo da educação

CONTEXTUALIZAÇÃO

patrimonial, não tendo a pretensão de

apontar

educação,

metodologias

conceitos

pedagógicas

ou

e

em

O projeto das Casas do Patrimônio

linhas

foi concebido nacionalmente pelo

estratégias

para

gestão das Casas.

Iphan

como

uma

proposta

de

transformar

as

sedes

e

representações

do

órgão,

nos

De forma geral, a linha condutora

estados, em pólos de referência local

para atuação do Iphan tem sido a

e regional, para qualificar e atender a

busca

população

pela

promovendo

participação o

social,

envolvimento

residente

em

uma

da

perspectiva de diálogo e reflexão.

população local, não apenas para o

Tratava-se ainda de uma estratégia

esclarecimento

questões

para reverter a visão negativa da

referentes ao patrimônio cultural,

população em relação à instituição

mas também, para a construção de

que possuía prolongada atuação em

uma relação compactuada, dialógica,

determinados locais.

de

de duas vias, onde entendemos como indispensável

para

as

ações

de

Em Iguape, a proposta foi conduzida

salvaguarda considerar os valores

de forma pioneira dentro do Iphan,

individuais e coletivos atribuídos por

pois a Casa do Patrimônio foi

aqueles que vivenciam os objetos e

estruturada

manifestações patrimoniais. São os

antes

mesmo

da

proteção

federal,

durante

os

olhares, as formas de sentir, os

trabalhos

de

identificação

do

valores afetivos e simbólicos que se

patrimônio cultural desenvolvidos na

14 | CARINA MENDES DOS SANTOS MELO


O IPHAN E A CASA DE PATRIMÔNIO DO VALE DO RIBEIRA/SP: EXPERIÊNCIAS

região sul do estado. Sob a temática

cidade no período de exploração do

da paisagem cultural, a partir de

ouro nos séculos XVII e XVIII,

2007,

da

passando pelo faustoso ciclo do arroz

Superintendência do Iphan em São

entre o final do século XVIII e a

Paulo, iniciou os trabalhos num

primeira metade do século XIX, pelo

amplo

identificação

crescimento e apogeu da indústria

denominado “Paisagem Cultural do

naval, até o período de ostracismo, a

Vale do Ribeira”. Naquele momento

partir de meados do século XX,

foram

primeiras

ocasionado pelos desdobramentos

representantes

ecológicos decorrentes da abertura

dos diversos municípios ao longo do

do Canal do Valo Grande no século

Vale, e que resultaram em ricos e

anterior

densos estudos, desenvolvidos com a

funcionamento

participação

marítimo.

a

equipe

projeto

técnica

de

realizadas

aproximações

as

com

e

população,

e

anuência

da

formalizados

nos

que

inviabilizou do

A

Paisagem

do

Patrimônio foi viabilizada, devido,

Ribeira; Dossiê para Registro do

principalmente, a uma parceria com

Tooro

de

a Prefeitura Municipal que enxergou

tombamento do Centro Histórico de

no projeto uma oportunidade de

Iguape

potencializar

do

Nagashi; e

Vale

Dossiê

Dossiê

da

Imigração

da

porto

seguintes documentos: Dossiê da Cultural

implantação

seu

o

as

Casa

ações

do

locais,

Japonesa, todos finalizados, tendo os

aproximando a população aos temas

dois

preservação,

últimos

resultado

em

tombamento.

patrimônio,

tombamento, etc. A formalização da iniciativa foi feita por meio de um

O tombamento de Iguape acontece

Termo

em

em

celebrado

entre

reconhecimento aos seus valores

Prefeitura

de

históricos e paisagísticos. A proteção

implementação

federal engloba seu núcleo histórico,

objetivo

o Morro da Espia e o Canal do Valo

conformar

um

Grande,

interlocução

com

dezembro

de

elementos

2009,

materiais

de

Cooperação o

Técnica

Iphan

e

Iguape da

principal a

a

para

Casa,

cujo

consistia

em

espaço

de

comunidade

testemunhos de sua história. Em

local, visando propiciar o debate e a

suma,

participação

representam

aspectos

da

social

na

gestão,

CARINA MENDES DOS SANTOS MELO| 15


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE - SP

proteção e valorização do patrimônio

Ribeira, com o intuito de socializar o

cultural. No documento, compete ao

conhecimento produzido por meio

Iphan-SP, a organização e gestão das

das ações de identificação na região;

atividades

educativas,

além

de

foram realizadas oficinas voltadas

orientação

técnica

apoio

na

para formação e capacitação como

execução de ações de iniciativa da

uma oficina de maquetes - visando

Prefeitura;

capacitar estudantes e educadores

e

à

e

Prefeitura,

a

administração e gestão da Casa de

com relação

Patrimônio,

representação espacial; e oficina de

podendo

também

a essa técnica de

desenvolver atividades e eventos em

biblioteca

visando

transmitir

seu espaço, de comum acordo com o

critérios e orientações básicas na

Iphan-SP.

formação e gestão de bibliotecas.

AÇÕES DO IPHAN NA CASA Inaugurada em maio de 2009, as primeiras ações desenvolvidas na Casa do Patrimônio foram voltadas principalmente para sua estruturação e consolidação como espaço cujo elemento principal, o eixo condutor das

atividades,

é

o

patrimônio

cultural, colocando em evidência sua vocação e suas possibilidades de atuação nos municípios do Vale e, especialmente, em Iguape. Assim, foi montada biblioteca especializada em temas relacionados ao patrimônio cultural, visando transformar a Casa num centro de referência regional

Foto da Oficina de Maquete, em 2009. Alunos durante os trabalhos da Oficina e uma das maquetes finalizada. Fonte: Sentidos Urbanos

dentro do Vale do Ribeira para a pesquisa

e

a

reflexão

sobre

a

temática; foi inaugurada exposição sobre a atuação do Iphan no Vale do 16 | CARINA MENDES DOS SANTOS MELO

O tombamento de Iguape acontece em dezembro de 2009. As ações do


O IPHAN E A CASA DE PATRIMÔNIO DO VALE DO RIBEIRA/SP: EXPERIÊNCIAS

Iphan na Casa do Patrimônio nos

Paulo para discutir a temática do

anos

concentram-se

patrimônio cultural especialmente

divulgação

entre órgãos preservacionistas.

seguintes

basicamente

na

e

construção da informação e das diretrizes necessárias para gestão e

A denominação nos pareceu profícua

valorização do sítio tombado. A Casa

e

desenvolve importante papel como

encontros que se pretendia realizar

canal

em Iguape, uma vez que o termo

de

aproximação

população,

com

torna-se

o

a

local

potencialmente

“conversa”

adequada

remete

à

aos

ideia

do

referencial do Iphan na cidade, e

“diálogo”. Assim, conceitualmente, o

agrega em suas ações a função de

que se tem buscado nestes encontros

atendimento

para

não é simplesmente a transmissão de

orientações

informação, de caráter unilateral,

ao

esclarecimentos técnicas

público e

necessárias

diante

das

mas a construção dela, a partir de um

questões decorrentes da proteção

formato

aberto,

onde

além

de

legal do patrimônio material da

esclarecimentos e orientações são

cidade. Alguns dos projetos que vem

possíveis intervenções, sugestões e

sendo realizados:

críticas. Em 2010, dentre outros, foram realizados encontros sobre o

Iphan Conversa

tombamento

de

Iguape;

sobre

colocação de letreiros e toldos no Com o intuito de abordar diversos

centro histórico; sobre patrimônio

temas relacionados ao patrimônio

imaterial;

cultural, os primeiros esforços de

profissionais da construção civil.

e

encontros

com

aproximação com a população no momento feitos

pós-tombamento

por

meio

de

foram

Exemplificando,

o

formato

se

encontros

mostrou muito adequado para o trato

realizados na Casa do Patrimônio,

de questões como a normatização

denominados

para letreiros e toldos em Iguape. A

“Iphan

Conversa”.

Cabe ressaltar que este título foi

partir

utilizado

para

elaborado por técnicos da instituição,

denominar uma série de encontros

com a participação e anuência da

técnicos

Prefeitura e do órgão de preservação

primeiramente realizados

Superintendência

do

na

própria

Iphan

São

estadual

de

um

primeiro

estudo

(UPPH/Condephaat),

a

CARINA MENDES DOS SANTOS MELO| 17


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE - SP

proposta foi apresentada em dois

interpretativos do patrimônio e visa

encontros “IPHAN Conversa” abertos

provocar,

à comunidade, onde foram colocadas

desconstrução da prática cotidiana e

as inadequações da proposta, tendo

dos

sido esta ajustada de acordo com as

pela cidade e requalifica[r] o olhar

necessidades dos comerciantes.

anestesiado

antes

deslocamentos

qualidade Sentidos Urbanos: Patrimônio e

de

do de

tudo,

“a

automatizados morador,

sujeito

na

dialógico”

(idem, ibidem, p. 17)

Cidadania Enxergou-se no projeto um grande Durante o I Seminário de Avaliação e

potencial

Planejamento

do

sensibilização para a normatização

Patrimônio, realizado entre 27 de

do centro histórico tombado de

novembro e 01 de dezembro de

Iguape.

2009, em Nova Olinda/CE, tomamos

Casas do Patrimônio, foi possível

conhecimento do Programa Sentidos

realizar

Urbanos: Patrimônio e Cidadania,

experiências

projeto

ações

Patrimônio de Ouro Preto/MG para

educativas da Casa do Patrimônio de

capacitação de monitores locais para

Ouro

o

aplicação da metodologia de roteiros

coordenador pedagógico do projeto,

sensoriais interpretativos localmente.

das

Casas

condutor Preto/MG.

das

Segundo

para

trabalhar

a

Assim, por meio da Rede um

intercâmbio com

a

Casa

de do

Prof. Juca Villaschi do Departamento de Turismo da Universidade Federal

Já foram realizadas

de Outro Preto – UFOP:

capacitação, professor

[...] a concepção deste programa se caracteriza por desconstruir práticas cotidianas de deslocamentos urbanos automatizados e de provocar novos olhares, ‘sentires’ e ‘fazeres’, com leituras diferenciadas dos feitos passados, do tempo presente e das situações futuras, potencializando a construção de novos comportamentos cidadãos. (SENTIDOS, 2010, p.30)

O

programa

metodologia

é

pautado de

na

roteiros

18 | CARINA MENDES DOS SANTOS MELO

oficinas de

ministradas Juca

Villaschi

pelo da

Universidade Federal de Ouro Preto UFOP - e pela historiadora Simone Fernandes do Escritório Técnico do Iphan em Ouro Preto / Casa do Patrimônio de Ouro Preto, em dois módulos, de 08 a 10 de novembro e de 06 a 08 de dezembro de 2010. Falta ainda o último módulo de capacitação para então disponibilizá-


O IPHAN E A CASA DE PATRIMÔNIO DO VALE DO RIBEIRA/SP: EXPERIÊNCIAS

lo para a população; a previsão é que

Projeto Cores para Iguape

a formação dos monitores termine ainda neste ano de 2011.

Em

2011

torna-se

necessidade

de

premente

consolidação

a de

Os roteiros sensoriais formulados

diretrizes e normas para o centro

nas

eixo

histórico de Iguape, por meio de

estruturador a sensibilização para a

ações mais diretas e efetivas para

questão

para

construção de manuais, documentos

intervenções no sítio tombado, busca

e projetos, visando especialmente à

evidenciar os valores que foram

valorização da área tombada. Desta

considerados

necessidade

oficinas

têm

como

da regulamentação

no

momento

do

propôs-se

o

projeto

tombamento, ao mesmo tempo em

“Cores para Iguape”, que parte de

que busca coletar que outros valores

uma negociação com os moradores

revelados

esta

da cidade para regulamentação dos

individual

serviços de pintura no seu centro

por

vivência/experiência

devem ser também considerados e

histórico.

preservados no sítio histórico. Estes dados são levantados especialmente

Assim, a partir de uma parceria com

nas oficinas de síntese e socialização

a Prefeitura Municipal, o Projeto

das impressões que são realizadas ao

Oficina Escola de Artes e Ofícios

final de cada roteiro.

(POEAO) e a empresa de restauro Estúdio Sarasá, a oficina foi realizada

Em síntese, a proposta consiste em

em

adotar o programa como projeto de

aconteceu o primeiro módulo onde se

educação patrimonial suporte para as

discutiu tipos de tintas, cores e

ações

padrões

normativas

a

serem

dois

módulos.

de

pinturas

Em

maio

adotados

empreendidas pelo Iphan/SP. Um

tradicionalmente no centro histórico,

recurso

dos

além de terem sido realizados testes

moradores no tocante à necessidade

de pintura à base de cal, com a

“de atitudes de valorização e co-

finalidade de subsidiar o primeiro

responsabilidade pela proteção do

estudo para regulamentação para

patrimônio cultural e natural” (idem,

pintura das fachadas.

para

sensibilização

ibidem, p.21) da cidade.

CARINA MENDES DOS SANTOS MELO| 19


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE - SP

O segundo módulo da oficina, no

Parcerias

final de junho, contou com nova apresentação do documento sobre

O

pinturas, juntamente com a proposta

esteve presente desde o momento

para regulamentação de letreiros e

inicial

toldos, que já havia sido apresentado

Patrimônio do Vale do Ribeira, e

à população em outubro de 2010,

caracteriza-se

num

viabiliza e potencializa suas ações

“Iphan

Conversa”.

Neste

estabelecimento de

de

criação

da

como Dentre

parcerias Casa fator

os

do que

módulo foi elaborada uma paleta de

educativas.

cores no muro dos fundos da Casa do

temos:

Patrimônio com o objetivo de servir

Iguape; Governo do Estado de São

como referência para os moradores

Paulo, por meio da Secretaria de

que queiram pintar seus imóveis

Estado da Cultura: UPPM (Unidade

situados em área tombada e seu

de

entorno, respeitando e valorizando a

Museológico) e UPPH (Unidade de

cidade, sua história, seu patrimônio e

Proteção

os materiais tradicionais de Iguape.

Histórico/CONDEPHAAT); ABAÇAÍ

Prefeitura

Proteção

Municipal

do do

parceiros de

Patrimônio Patrimônio

Cultura e Arte; Ponto de Cultura Cabe ressaltar que o projeto não

“Cultura esse é o ponto”; Ponto de

propunha

de

Cultura "Jovens da Juréia"; AAPCI –

pintura do passado para serem

Associação de Artesãos e Produtores

reproduzidos no presente. O objetivo

Caseiros de Iguape; Programa de

baseava-se na ideia de que a partir do

Promoção do Artesanato de Tradição

conhecimento técnico e da análise e

Cultural/Promoart;

avaliação dos recursos, combinações,

Amigos do Museu de Folclore Edison

contrastes e tonalidades utilizados

Carneiro Acamufec/Centro Nacional

em épocas passadas, se pudesse

de Folclore e Cultura Popular/Iphan;

construir diretrizes para o presente e

Museu Vivo do Fandango; Estúdio

futuro do sítio tombado, pautado na

Sarasá; POEAO – Projeto Oficina

conservação

da

Escola de Artes e Ofícios; Curso de

arquitetura histórica e nos anseios da

Geografia da Universidade de São

população residente.

Paulo/USP; ETEC/Iguape (Centro

resgatar

e

padrões

valorização

Associação

de

Paula Souza - Curso de Turismo);

20 | CARINA MENDES DOS SANTOS MELO


O IPHAN E A CASA DE PATRIMÔNIO DO VALE DO RIBEIRA/SP: EXPERIÊNCIAS

Casa do Patrimônio de Ouro Preto;

trabalhos realizados pelo Iphan na

Museu da Pessoa.

região.

As

reflexões

estimuladas

durante o encontro, sobre a educação Perspectivas e Desafios

patrimonial e o papel do Iphan neste processo, reposicionaram a Casa do

O

I

Seminário

e

Patrimônio de Iguape como parte de

do

uma rede nacional de Casas do

Patrimônio realizado no final de

Patrimônio. Este fato apontava a

2009 foi um momento emblemático

possibilidade

de avaliação das primeiras Casas, e

informações

de reflexão para o estabelecimento de

caminho

capaz

diretrizes

sua

enquanto

seu

de

referencial

Planejamento

de das

comuns

constituição

e

Avaliação Casas

para

formulação

atividades. Conceitualmente,

da e

troca

de

experiências, de papel

regional

um

fortalecê-la como em

pólo ações

educativas pautadas na temática do patrimônio

cultural.

Após

o

A Casa do Patrimônio tem por

encontro, passou-se denominar como

objetivo

um

Casa do Patrimônio do Vale do

a

Ribeira; contudo, a consolidação de

comunidade local, de articulação

sua atuação regional, trata-se de um

institucional e de promoção de ações

desafio a ser ainda transposto:

espaço

constituir-se de

como

interlocução

educativas,

visando

favorecer

a

com

fomentar

do

Ficou ainda o entendimento da

conhecimento e a participação social

necessária formação de uma rede

para o aperfeiçoamento da gestão,

partindo

proteção, salvaguarda, valorização e

estabelecimento

usufruto

locais/regionais. Esta rede vem se

do

construção

e

patrimônio

cultural.

(CARTA, 2010)

da

Casa, de

através

do

parcerias

formando gradativamente, o que tem possibilitado a implementação de

A Casa do Patrimônio de Iguape teve

uma diversidade de ações educativas.

participação

Nesta ótica, a gestão do espaço segue

naquele

neste

momento,

Seminário; haviam

sido

compartilhada. Em geral, os projetos

realizadas ações estruturantes, sua

que tratam de patrimônio cultural,

inauguração, as primeiras oficinas e

formas

uma exposição temática sobre os

valorização etc. são sempre bem-

de

registro,

apropriação,

CARINA MENDES DOS SANTOS MELO| 21


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE - SP

vindos e encontram a Casa de portas

coletiva e deve, antes de tudo, ser

abertas.

compreendida,

(re)construída

e

compartilhada, para que não se Para o Iphan, a Casa do Patrimônio

configure apenas como uma visão

efetiva-se

técnica

espaço

principalmente

de

interlocução

como com

a

institucional.

reconhecimento

de

O

que

a

comunidade local, uma das missões

participação social deve ser uma das

previstas na Carta de Nova Olinda,

premissas de todos os trabalhos de

aberta ao debate e à participação

identificação,

social para gestão do patrimônio

valorização do patrimônio cultural

cultural, conforme previsto no Termo

tem sido patente dentro do Iphan.

gestão,

proteção

e

de Cooperação Técnica. Tem sido estratégica nesta aproximação entre

Os desafios são muitos, mas as

a

perspectivas são promissoras.

instituição

e

desmistificando proteção

do

regional

a

o

população, trabalho

acervo e

de

equipe da Casa do Patrimônio do

patrimonial

Vale do Ribeira encontra-se num

compartilhando

responsabilidades. Entendemos

que

A

momento

de

avaliação

de

sua

atuação até o momento com o intuito a

proteção

patrimonial deve ser uma tarefa

de

desenhar

suas

próximas

diretrizes.

Referências Bibliográficas: SENTIDOS URBANOS: Patrimônio e Cidadania. IPHAN, FAOP, UFOP: Ouro Preto, 2010. CARTA DE NOVA OLINDA. Documento final do I Seminário de Avaliação e Planejamento das Casas do Patrimônio. IPHAN: Nova Olinda/CE, 2010. Disponível em: http://educacaopatrimonial.files.wordpress.com/2010/08/cartaa5_09marco2010. pdf Sites acessados: Blog da Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira: http://casadopatrimoniovaledoribeira.wordpress.com/, acesso em 14 de agosto de 2011. Blog de Educação Patrimonial: http://educacaopatrimonial.wordpress.com/, acesso em 14 de agosto de 2011.

22 | CARINA MENDES DOS SANTOS MELO


Foto: Helena Rios, arquivo Iphan/SP EDUCAÇÃO PATRIMONIAL PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA

REFLEXÕES: SIMONE SCIFONI | 23 cidade, patrimônio cultural e educação


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

EDUCAÇÃO PATRIMONIAL PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA Simone Scifoni Introdução Vinte anos se passaram desde que a Constituição Federal inaugurou uma noção

renovada

cultural,

de

patrimônio

imprimindo

postulados,

os

encontravam

presentes

novos

quais

já tanto

se no

debate sobre o tema como em algumas práticas institucionais. Com a definição estabelecida no artigo 216 da Constituição superouse

a

noção

de

patrimônio

exclusivamente centrada nos “fatos memoráveis”

da

história

oficial

nacional, tal qual estava estabelecido bem antes no Decreto Lei Federal no 25, de 1937, permitindo assim a compreensão da memória nacional para

além

daquela

postura

eminentemente

celebrativa.

mesmo

tempo

isso

ampliar

a

visão

do

patrimônio desvinculando o valor cultural do caráter necessariamente excepcional bens.

A

ou

monumental

partir

da

dos

Constituição

Federal o valor cultural deve ser atribuído àqueles bens portadores de referência

à

ação,

24 | SIMONE SCIFONI

memória

Decreto-lei Federal no 25/1937: Art. 1o: Constitui patrimônio histórico e artístico nacional o conjunto de bens móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. Bens intangíveis: São aqueles de natureza imaterial tais como os saberes (conhecimentos e modos de fazer), as formas de expressão (manifestações artísticas), as celebrações (rituais e festas). Fonte: Decreto federal 3.551/2000.

Ao

possibilitou

tradicional

Artigo 216 da Constituição Federal: Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.

e

identidade

dos

diversos

grupos

sociais que compõe a nação e, com isso,

possibilita-se

reconhecer

o

patrimônio como memória plural. Outros

avanços

estabelecida foram:

a

noção

constitucionalmente inclusão

dos

bens

como

uma

nova

intangíveis categoria

na

de

patrimônio

a

ser


EDUCAÇÃO PATRIMONIAL PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA

necessidade de construir uma nova Iphan, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, órgão vinculado ao Ministério da Cultura e criado em 1937. Está presente nos estados da federação, por meio de suas superintendências estaduais e escritórios técnicos.

relação da população com o seu

Condephaat, Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo, órgão vinculado à Secretaria de Estado da Cultura e pela Lei 10.247 de 1968. Teve sua estrutura modificada pelo decreto 50.941/2006. O processo de tombamento é regulamentado pelo Decreto 13.426/1979.

distanciamento entre os órgãos de

Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Cultural de Iguape, criado pela Lei 1.927 de 2007 e tem sua sede na Casa de Patrimônio do Vale do Ribeira.

resulta a fraca participação social em

patrimônio. Isso porque no Brasil, nem sempre a população se identifica com o patrimônio cultural tombado, resultado

de

um

histórico

preservação e a sociedade. Essa distância histórica, justificada pelos contextos políticos de criação dos

órgãos

de

preservação

federal e estadual paulista não se reverteu plenamente hoje e disso todo

o

processo.

Ausência

de

participação social vai desde a eleição dos bens patrimoniais, ou seja, do o

que deve ou não ser tombado,

entendimento do patrimônio natural

passando também pela definição de

como parte da natureza incorporada

usos para esses bens, principalmente

à memória social e parte da vida

no caso de patrimônios públicos, e

humana.

culmina em projetos de restauração

Estes postulados propostos desde

que nem sempre levam em conta a

então

novos

relação afetiva entre as comunidades

desafios para os órgãos públicos,

e o seu patrimônio e, portanto, os

uma árdua tarefa de pensar e

valores sociais envolvidos em uma

estabelecer outras formas de atuação

tarefa que não é meramente técnica e

para proteger o patrimônio cultural,

nem implica somente em critérios de

já que as metodologias e práticas que

autenticidade. Como resultado, via

foram utilizadas por décadas atrás,

de regra, aparecem conflitos, tensões

nem

e

protegida

e

têm

reconhecida

implicado

sempre

e

em

conseguem

dar

essas

questões

colocam

na

atualidade

que está

uma

imagem

negativa do patrimônio e dos órgãos

respostas às novas necessidades. Dentre

freqüentemente

se

de preservação.

a SIMONE SCIFONI | 25


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Neste

contexto,

Patrimonial,

a

dentre

Educação as

diversas

localmente no seio de grupos sociais não

hegemônicos.

Propiciar

formas de aproximação entre os

mecanismos de valorização destas

órgãos de preservação do patrimônio

memórias é parte essencial do que a

e a sociedade, tem sido vista como

autora chamou de cultura política.

fundamental e com papel estratégico. No entanto, esse papel muitas vezes

Afinal, é preciso questionar, o que

tem se restringido na atuação ora

vem a ser a Educação Patrimonial,

como difusão de informações, ora

quais são seus propósitos e seus

como

princípios?

marketing

institucional.

Tradicionalmente Patrimonial

tem

a

Educação

sido

entendida

como atividade de divulgação e de

O papel e o lugar da Educação Patrimonial

transmissão de informações após a realização dos tombamentos, dentro

Pode-se afirmar que a gênese do que

da

chamamos

idéia

redentora

de

levar

hoje

de

Educação

conhecimento ao outro, conforme

Patrimonial se deu no interior dos

discutem Silveira & Bezerra (2007).

museus. Chagas (2006, p.5) nos

Ou então tem sido tratada como peça

lembra que apesar de ainda não estar

de publicidade oficial, por meio de

prevista esta expressão, as práticas

folhetos, cartazes e outros materiais

da educação patrimonial já ocorriam

de

nos museus brasileiros desde o

divulgação

elaborados

sem

preocupação didática qualquer.

século XIX, conforme constatamos na seguinte citação:

Mas há outra possibilidade, aquela de trabalhar a Educação Patrimonial em sua dimensão política ampla, a partir da concepção de que tanto a memória como o esquecimento são produtos

sociais

e

não

dados

aleatórios, segundo apresenta Chauí (2006). À história oficial celebrativa dos dominantes se contrapõe a memória

social,

26 | SIMONE SCIFONI

constituída

No senso comum a expressão “educação patrimonial” significa apenas o desenvolvimento de práticas educativas (mais ou menos transformadoras) tendo por base determinados bens ou manifestações considerados como patrimônio cultural. Esse não é um entendimento estranho a Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Gustavo Barroso, Anísio Teixeira, Roquete Pinto, Liana Rubi O’Campo, Sigrid Porto, Waldisa Russio e tantos outros. De igual modo, este entendimento,


EDUCAÇÃO PATRIMONIAL PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA

ainda que não lançasse mão da expressão em debate, estava presente em práticas museológicas do século XIX e no serviço educativo do Museu Nacional, formalmente criado em 1926. (grifo nosso)

A expressão surge no Brasil muito recentemente, quando em 1983 é apresentada

em

um

seminário

realizado no Museu Imperial de Petrópolis, no Rio de Janeiro, como tradução

do

termo

Heritage

Education e baseada na experiência que até então era desenvolvida na Inglaterra. A partir da edição do Guia

Básico

de

Educação

Patrimonial publicado pelo Iphan na década de 1990, o termo ganha força e se consolida.

Educação Patrimonial como um novo campo de atuação. No entanto, enquanto as práticas se ampliaram, o mesmo

não

ocorreu

com

a

fundamentação teórica e a reflexão crítica sobre estas ações, o que coloca atualmente o desafio da necessidade do debate e da construção coletiva desta fundamentação. A ausência de uma base teórica consistente nesse novo campo de atuação

chamado

de

Educação

Patrimonial tem permitido que se generalizem meramente representa

ações

de

informativo, uma

caráter o

limitação

que desse

campo. O cerne da problemática está no fato de que tais ações não transformam a realidade sobre a qual elas pretender agir, pois não foram

Guia Básico de Educação Patrimonial é uma publicação do Iphan e tem como autoras Maria Lourdes Parreiras Horta, Evelina Grunberg e Adriane Queiroz Monteiro.

pensadas para isso. No entanto, elas se

somam

e

alimentam

um

crescimento quantitativo do campo de atuação - já que nunca se falou tanto em Educação Patrimonial como

Ao longo do tempo as atividades

hoje -, porém sem necessariamente

foram ultrapassando os muros dos

significar,

museus,

processo de transformação.

se

multiplicaram

expandiram em

e

projetos

qualitativamente,

um

nos

órgãos de proteção da memória,

Acreditamos que o debate teórico

cultura e patrimônio, nas instituições

deve se posicionar, inicialmente,

de

sobre o papel e o lugar a ser ocupado

ensino

e

generalizando

organizações e

civis,

consagrando

a

pela

Educação

Patrimonial,

SIMONE SCIFONI | 27


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

problematizando questões sobre as

desde muito cedo, uma relação

quais é urgente refletir. As atividades

próxima

educativas

ser

comunidades do lugar em que se vai

relegadas à etapa final do processo de

atuar. Neste caso ela se revela como

identificação, estudo e proteção do

uma possibilidade de participação

patrimônio

social

continuarão

cultural,

meramente tombados

a

divulgação ou

como

como dos

bens

forma

de

e

na

ausência de participação social no

envolvidas.

tratadas

como

a

com

de

as

um

compartilhado,

considerando as necessidades e as expectativas

Continuarão

construção

patrimônio

resolução de conflitos gerados pela processo?

dialógica

das

comunidades

serem

apêndice,

Este é o lugar e o papel que lhe cabe.

desvinculado do planejamento das

Neste

ações de estudo? Que papel elas

Patrimonial reconhece a existência

devem

ser

de um saber local, considera e

entendidas como atividades em si

valoriza o olhar e a vivência dos

mesmas ou elas se integram a um

moradores,

projeto

para uma concepção de educação de

cumprir,

de

devem

transformação

da

realidade e do mundo que vivemos?

sentido,

a

Educação

sinalizando-se,

assim,

caráter dialógico, conforme propôs Freire (2011), na qual se busca a

Planejar uma atividade de Educação

consciência crítica, aquela que insere

Patrimonial implica em ter claro,

as

antes de tudo, as respostas para estas

mundo, uma educação libertadora.

pessoas

como

sujeitos

no

questões. O papel da Educação Patrimonial O

desafio

hoje

Patrimonial

Educação

uma “educação para o patrimônio”,

componente essencial de todo o

como se esta se restringisse apenas à

processo

compreensão

de

torná-la

deve ser o de superar aquela visão de

um

patrimônio,

é

da

identificação o

das Para

questões uma

do

significa

patrimônio.

incorporá-la como atividade pari

patrimonial

passu e integrada às pesquisas de

patrimônio e a cultura são elementos

tombamento e/ou de inventário do

de mediação, através dos quais as

patrimônio imaterial, fomentando,

pessoas podem se reconhecer como

28 | SIMONE SCIFONI

que

do

educação

libertadora,

o


EDUCAÇÃO PATRIMONIAL PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA

sujeitos da realidade e do mundo.

Pressupostos para a Educação

Reconhecem-se

Patrimonial

a

partir

da

valorização de sua cultura e de uma postura problematizadora em relação

Na tentativa de iniciar um debate

à história, à memória oficial e ao

teórico que possa fundamentar mais

patrimônio.

coerentemente as ações e as práticas propomos

dois

Por meio do patrimônio e da cultura,

essenciais

mas

Patrimonial de caráter dialógico e

apenas

problematizador

sob

um

olhar

e

sob

uma

para

pressupostos uma

Educação

libertador.

perspectiva dialógica, como propôs Paulo Freire, é possível contribuir

Em

para a tomada de consciência

desmistificar

dos homens como sujeitos da

patrimônio, o que significa explicitar

sua própria história. Este sim

que os patrimônios não são objetos

deve

da

dados, cabendo ao poder público

Educação Patrimonial. Não significa

apenas a tarefa de reconhecer neles

de

ser

o

forma

objetivo

maior

primeiro

lugar, e

é

preciso

desfetichizar

alguma,

dentro

da

valores

freireana,

tomada

de

atribuídos, resultado de escolhas que

consciência em relação à cultura,

são feitas. Como nos lembra Meneses

como se esta estivesse fora da

(1996), os valores culturais não são

realidade objetiva considerada ou

espontâneos, eles decorrem da ação

como se tratasse de levar cultura aos

social, eles são produzidos no jogo

lugares

É

concreto das relações sociais. Valores

como

são historicamente constituídos, o

mediação, ou seja, como meio que

que significa seu caráter relativo ao

contribuirá para a consciência dos

tempo, as condições em que a

homens sobre o seu papel de sujeito,

sociedade opera naquele momento.

consciência de si mesmo e de sua

Isso significa que um patrimônio

ação.

reconhecido não tem valor em si

concepção

destituídos

compreender

a

desta.

cultura

mesmo,

intrínsecos.

ele

possui

Valores

o

são

propriedades

estéticas, físicas para as quais são atribuídos valores, em determinado momento e contexto histórico. SIMONE SCIFONI | 29


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

universo onde essas escolhas são Disto resulta o caráter político e,

parte do aparelho onde está sediado

portanto, conflituoso do universo

o exercício do poder? Estas questões

cultural.

devem fazer parte da Educação Patrimonial, do contrário somente

Declaram-se valores e propõem-se sentidos que podem entrar em conflito com outros valores e sentidos. O campo cultural, portanto, imbrica-se no do poder. Assim, o conflito deve ser considerado não apenas como ingrediente normal da cultura, mas ainda como instância geradora, força motriz. Como conseqüência, pretender que a cultura tenha funções anestésicas, de harmonização e integração social, já é uma forma cultural de agir (segundo interesses hegemônicos), mas desfigura o fenômeno se pretender eliminar de seu horizonte especificamente o conflito, a desarmonia, a segmentação. (MENESES, 1996, p. 92)

contribuiremos para a fetichização do patrimônio e para que este se torne um instrumento de reprodução das relações de dominação e de desigualdade social. Seguindo um modelo internacional de

proteção

do

fundamentalmente

patrimônio, francês

e

europeu, a escolha histórica dos nossos órgãos de preservação deu-se pela representação da memória a partir de tudo que é monumental e excepcional,

simulando

uma

Assim sendo, o patrimônio não é

sociedade nacional cujos símbolos

neutro,

são

são a grandiosidade e o prestígio. Ao

determinadas

mesmo tempo apagam-se os conflitos

legitimados

e as desigualdades que marcaram os

por

meio

explicitadas hegemonias

dele

e

vista

processos históricos, como quando se

perante a sociedade. Para Chagas

preserva unicamente as sedes da

(2002), na prática, não há como

fazenda,

separar memória e preservação do

deixa-se desaparecer as senzalas e as

exercício

casas de colonos.

determinados

do

pontos

poder.

de

Pergunta-se:

mas,

em

contrapartida

quem são os responsáveis pelas escolhas que se faz do que deve ou

Ainda, segundo este mesmo autor, a

não ser preservado? Como essas

desigualdade do patrimônio aparece

escolhas são feitas e em nome de

também na hierarquia de valores

quais memórias? Pode haver critério

atribuída,

absolutamente

capitais culturais na qual vale mais a

objetivo

30 | SIMONE SCIFONI

em

um

uma

hierarquia

dos


EDUCAÇÃO PATRIMONIAL PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA

arte, a cultura escrita e as formas

paulista,

eruditas do que o artesanato, a

patrimonial

cultura oral e as formas populares,

tipológica e promovendo um olhar

respectivamente.

patrimônio

voltado para o interior do estado,

cultural serve, assim, como recurso

contemplando outros territórios e

para produzir as diferenças entre os

novas temáticas.

“O

ampliando e

o

sua

estoque

diversificação

grupos sociais e a hegemonia que gozam de acesso

preferencial

à

Reconhecer de vez o caráter desigual

produção e distribuição dos bens”

do patrimônio cultural é condição

(CANCLINI, 1996, p.97).

essencial

para

uma

Educação

Patrimonial libertadora e que busca a Neste modelo de patrimônio cultural,

transformação

como é possível que operários e

Reconhecer

camponeses, por exemplo, possam se

começa na eleição e sacralização do

enxergar neste conjunto da memória

patrimônio e que é preciso uma

nacional? Marins (2008), ao analisar

participação mais igualitária na sua

as políticas públicas federais em São

construção,

Paulo, é incisivo ao afirmar que as

Canclini (1994). E assim, ao garantir

escolhas

grande

uma participação social efetiva na

parte das “multifacetadas heranças

construção das políticas de proteção

culturais”. Ainda, segundo o autor a

da memória e do patrimônio, criar a

“[...] memória unívoca de uma ‘nação

condição para que a população possa

brasileira’ não acolhia, nem poderia

se identificar e se enxergar no

acolher,

patrimônio e na memória oficial. É

feitas

a

excluíram

imensa

maioria

dos

brasileiros”(op.cit, p.146).

realidade.

a

desigualdade

conforme

discute

fundamental, para tanto, considerar no

Os

que

da

processo

de

valoração

do

estudos

que

vem

sendo

patrimônio cultural, além dos valores

desenvolvidos

pelo

Iphan,

desde

estéticos e formais, os laços afetivos,

2007, para a identificação e proteção

sociais, simbólicos.

do patrimônio cultural na região do Vale

do

Ribeira

procuraram

Tem-se aqui o segundo pressuposto

enfrentar esse desafio. Criar um

essencial

mapa do patrimônio mais plural e

Patrimonial libertadora e dialógica,

representativo

ou seja, a necessidade de uma

da

diversidade

para

a

Educação

SIMONE SCIFONI | 31


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

postura problematizadora frente a

tudo fora, mas enxergar esse nosso

este patrimônio cultural e, portanto,

legado a partir de uma perspectiva

à própria realidade objetiva. Isso

mais crítica. Considerar o patrimônio

significa superar aquelas ações que

no contexto dos processos sociais, em

apresentam

seu

apenas

meramente

um

caráter

contraditório

que

e

revela riqueza mas, ao mesmo tempo,

conteúdista, enquadrando-se dentro

limitações e indigência humana. Um

do que Freire (2011) chamou de

patrimônio que pode ter sua leitura

“concepção bancária”. Nesta o ato é

feita a partir da produção de riqueza

de depositar, de transferir conteúdos

material, da técnica, do comércio e

não se propondo ao desvendamento

das mercadorias, mas que não deve

do

esconder as relações de trabalho,

mundo.

perspectiva

informativo

cotidiano

As

pessoas,

educacional

nesta são

o

desigualdade, sujeição e opressão.

público, objeto sobre o qual devemos agir.

Tal qual propõe Benjamim (2010, p.225), reconhecendo que nunca

Ao contrário, segundo o autor, a

houve um documento de cultura que

educação problematizadora é um

não fosse também um documento de

esforço

os

barbárie. “E assim como a cultura

homens, sujeitos do processo, vão se

não é isenta de barbárie, não é,

percebendo criticamente no mundo,

tampouco, o processo de transmissão

no qual pensam a si próprios e sua

da cultura. Por isso, na medida do

condição frente à realidade. “Desta

possível, o materialista histórico se

forma, aprofundando a tomada de

desvia dela. Considera sua tarefa

consciência da situação, os homens

escovar a história a contrapelo.”

permanente

no

qual

se ‘apropriam’ dela como realidade histórica, por isto mesmo, capaz de

A expressão “escovar a história a

ser transformada por eles”. (FREIRE,

contrapelo” sugere para a Educação

2011, p.104).

Patrimonial

a

necessidade

de

problematização da memória oficial, Uma

Educação

Patrimonial

superação da visão celebrativa e

problematizadora não significa, de

acrítica dos patrimônios, aquela que

forma

não vê conflitos e opressão, mas

alguma,

desconsiderar

o

conjunto de bens já constituído, jogar 32 | SIMONE SCIFONI

somente

heróis.

A

história

a


EDUCAÇÃO PATRIMONIAL PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA

contrapelo é recusar identificar-se

trabalhadores, de suas condições

com o opressor, é a busca por novos

reais e objetivas de trabalho e vida? É

olhares,

vista

feita uma reflexão sobre as relações

radicalmente oposto, iluminando no

de trabalho escravo e a criação dessa

processo o ponto de vista dos

riqueza

oprimidos,

edificações?

sob

ponto

dos

de

esquecidos.

material,

expressa

nas

Valorizando o trabalho vivo e o trabalhador

como

o

verdadeiro

O mesmo pode-se dizer de outros

criador de riquezas, como sujeitos da

sujeitos

cultura;

referenciados. Escovar a história a

dá-se,

assim,

um

novo

sentido a esse mesmo patrimônio.

dessa

contrapelo discute

é

história mostrar,

Diegues

(2004),

pouco conforme que

a

No Vale do Ribeira “escovar a

história caiçara ainda está por ser

história a contrapelo” pode significar

escrita,

olhar para o patrimônio e enxergar

documentação escrita sobre estas

por detrás dos casarões de pedra e

comunidades,

cal, o trabalho de tantos escravos

grandes famílias e seus engenhos e

negros e sua condição de opressão e

fazendas. Segundo este autor, o

exploração. O êxito da exploração do

caiçara, entendido como fruto da

ouro, durante o período colonial,

mistura do elemento indígena, do

somente foi possível a partir da

colonizador português e do escravo

instituição da força de trabalho

africano, teve um papel importante

escrava que abastecia os garimpos. A

na

população escrava de origem africana

mercantil, produzindo gêneros de

chegou até mesmo a superar a de

primeira necessidade para abastecer

homens livres, mostrando o papel

o mercado local, tais como a farinha

que estes trabalhadores tiveram na

de mandioca, o pescado e a lenha.

dada

a ao

manutenção

ausência contrário

da

de das

economia

criação de riquezas materiais, da arquitetura, da cidade histórica que

A perspectiva de uma Educação

hoje se identifica como de valor. Mas

libertadora e emancipatória pede que

o

esta

se ilumine e valorize a história destes

Quando

sujeitos. Trabalhar com Educação

enfatizamos a arquitetura de pedra e

Patrimonial em Iguape e no Vale do

cal tombada, é lembrado destes

Ribeira é tratar destes sujeitos da

quanto

perspectiva

estudamos na

escola?

sob

SIMONE SCIFONI | 33


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

história, tanto quanto se trata das

reconhecendo, assim, o seu conteúdo

construções

social.

do

centro

histórico,

Referencias Bibliográficas: BENJAMIM, W. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2010. CANCLINI, N. G. O patrimônio cultural e a construção imaginária do nacional. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 23, 1994. p.95-115. CHAGAS, M. Educação, museu e patrimônio: tensão, devoração e adjetivação. Dossiê Educação Patrimonial nº3, Iphan, jan/fev. 2006. CHAUI, M. Cidadania cultural. O direito à cultura. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2006. FREIRE, P. Conscientização: teoria e prática da libertação. São Paulo: Centauro, 2001. FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011. HORTA, M. L. P.; GRUMBERG, E.; MONTEIRO, A. Q. Guia Básico de Educação patrimonial. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Museu Imperial, 1999 MARINS, P. C. G.. Trajetórias da preservação do patrimônio cultural paulista. In: SETUBAL, M. A. (coord). Terra paulista: trajetórias contemporâneas. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008. p.137-168. MENESES, U.B.T. Os usos culturais da cultura. Contribuição para uma abordagem crítica das práticas culturais e políticas culturais. In: YAZIGI, E.; CARLOS, A.F.A.; CRUZ, R.C.A. (orgs) Turismo Espaço Paisagem e Cultura. São Paulo: Hucitec, 1996. SILVEIRA, F. L. A.; BEZERRA, M. Educação Patrimonial: perspectivas e dilemas. In: LIMA FILHO, M.F.; ECKERT, C.; BELTRÃO, J.F. (orgs). Antropologia e patrimônio cultural: diálogos e desafios contemporâneos. Blumenau: Nova Letra, 2007.

34 | SIMONE SCIFONI


IGUAPE, ARQUITETURAS EM PROCESSO E CONSTRUÇÃO DA PROTEÇÃO FEDERAL

IGUAPE, ARQUITETURAS EM PROCESSO E CONSTRUÇÃO DA PROTEÇÃO FEDERAL Flávia Brito do Nascimento Em dezembro de 2009 o conselho consultivo

do

Iphan

aprovou

o

tombamento do Centro Histórico de Iguape, numa decisão que trouxe novidades

importantes

para

a

política de patrimônio no Estado de São Paulo. A primeira proteção em esfera federal de núcleo urbano no estado, a inclusão do patrimônio

Hermann Kruse foi um alemão, naturalizado brasileiro, contratado pelo IPHAN para expedições etnográficas. Luís Saia foi arquiteto e comandou o IPHAN em São Paulo de 1938 até o seu falecimento em 1975. Lúcio Costa foi arquiteto, urbanista e professor, nasceu em 1902 e faleceu em 1998, entre seus principais legados está o Plano Urbanístico de Brasília.

natural como parte integrante dos bens edificados, a construção do

edifícios antigos (igrejas, casas de

estudo feita de modo indissociável da

residências,

educação

o

pesquisas

em

entendimento dos vestígios materiais

quaisquer

outros

a partir dos processos históricos e de

naturais ou não que tenham interesse

sua sobreposição espacial foram de

artístico

decisões metodológicas do estudo

escreveu em ofício ao prefeito de

que se fundamentou nas muitas

Iguape em 9 de janeiro daquele ano.

transformações cultural

patrimonial

como

e

ou

fortes

antigos,

etc),

sambaquis

ou

monumentos

histórico”,

conforme

do

patrimônio

No dia quatorze do mesmo mês

campo

disciplinar

Kruse encaminha ao Diretor da então

postas desde a Constituição de 1988.

6ª Região, relatório escrito à mão e à

Por sucessivas vezes ao longo da

lápis, informando:

história

da

Superintendência

Regional do Iphan em São Paulo Iguape foi objeto de interesse. Em 1942,

Hermann

Kruse

foi

encarregado por Luiz Saia de viajar ao

município

“levantamento documentação

para de

realizar

plantas

fotográfica

e de

Iguape é um colosso.(...) Aqui o lugar é mais interessante que Ubatuba (Itanhém não conheço). Tem uma infinidade de construções, cujas idades ninguém pode saber. Todas elas construções de pedra e cal. As igrejas não são grande coisa. (...) Acho que futuramente Iguape será um campo de atividade vossa, a tal “casa de fundição de ouro”, precisa ser tombada e restaurada. (KRUSE, 1942) FLÁVIA BRITO DO NASCIMENTO | 35


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

acabou

não

ocorrendo.

O

Em 1968 o senador Lino de Mattos

tombamento de núcleos urbanos pelo

solicita o tombamento do núcleo

Iphan, não somente no Estado de São

urbano de Iguape, e, no ano seguinte,

Paulo, vem recorrentemente sendo

Lucio Costa escreve nota sobre o

retomado desde os anos 80. Tal

assunto:

movimento gerou diversas proteções de

A farta documentação fotográfica do arquivo data de 1942 (Kruse) e 1950 (Germano), - convirá pois indagar do Saia se o estado de preservação ainda é o mesmo, porque nesse caso impõese providência acauteladora definitiva de cuidado – embora tardia -, seja pelo Conselho do P.A.A. e T. do Estado, ou mesmo pela própria DPHAN.(COSTA, 1968)

As

prioridades

e

estratégias

de

trabalho estabelecidas pela geração fundadora do Iphan não levaram à proteção federal de Iguape como parte da

política

de construção

identitária nacional por meio do patrimônio. As alegações para a sua não-inclusão nos livros do tombo da instituição foram desde ausência de caráter de ancianidade e pouco valor individual até a falta originalidade das edificações e do tecido urbano sucessivamente

sobreposto

pelos

processos históricos.

Centro Histórico de Iguape foram (Processo

pelo 00469/74,

Instituição como

que não

na

origem

foram

sendo

de

da

arrolados

interesse

à

construção do nacional e de sua materialidade. Este é o caso dos núcleos de Antônio Prado (1990), São

Francisco

do

Sul

(1987),

Pirenópolis (1990) e Icó (1998). Não houve,

contudo,

em

São

Paulo

nenhum tombamento de centros históricos,

apenas

Ferroviária

de

o

da

Vila

Paranapiacaba,

pertencente ao município de Santo André. Diversos são os esforços que veem sendo realizados, desde os anos 2000, para a ampliação do estoque patrimonial

do

Iphan

em

todo

território nacional e incluir quer sejam bens isolados, quer sejam centros históricos no escopo dos

Em 1975 diversos bens imóveis do tombados

núcleos

Condephaat resolução

6/2/1975), e a proteção federal 36 | FLÁVIA BRITO DO NASCIMENTO

tombamentos federais. Bens imóveis que

não

se

determinados conceitos

enquadravam

em

parâmetros

ou

estabelecidos

são

investidos de novos significados e valores compatíveis com a proteção


IGUAPE, ARQUITETURAS EM PROCESSO E CONSTRUÇÃO DA PROTEÇÃO FEDERAL

federal. Tais esforços são, em grande

municípios:

medida, corroborados pela iniciativa

Registro, Iporanga, Eldorado e Apiaí.

das

Como

populações

e

dos

poderes

Iguape,

patrimônio

Cananéia,

urbano

foram

públicos locais que zelosos de seu

estudados os núcleos históricos de

passado e da materialidade ainda

Iguape, Iporanga e Registro, núcleos

existente

formados

em

suas

cidades,

demandam ações do Iphan.

pelas

atividades

econômicas da mineração no período colonial, pela cultura do arroz no

O tombamento do centro histórico de

século XIX ou do chá no século XX,

Iguape, da forma como foi realizado,

quer pela exploração ou cultivo, quer

tais

pela comercialização. Ouro, arroz e

processos. Ele foi gestado no âmbito

chá promoveram não só a formação

do projeto mais amplo sobre o Vale

dos

do Ribeira, intitulado “Paisagem

comercializadores, mas também da

Cultural:

de

zona rural de tais municípios, cujas

Conhecimento de Bens Culturais no

expressões de cultura são, dentre

Vale do Ribeira”, iniciado em 2007 e

outras,

desenvolvido nas ações de inventário

mineradoras, diversos quilombos que

do patrimônio cultural promovidas

deram

nacionalmente

pelo

propriedades

Departamento

do

foi

possível

diante

de

Inventário

Depam

-

Patrimônio

centros

vestígios origem

portos

do

terrestres.

no

Vale

foram

de

a

antigas

bairros

de

rurais,

imigrantes

japoneses e fábricas de chá,2 além de

Material e Fiscalização. Os objetivos inventário

urbanos

fluviais

e

de

caminhos

reconhecer a diversidade cultural da região, atribuir valor ao patrimônio

Como parte do processo de pesquisa

cultural,

e

fomentar

ações

de

levantamento

de

dados,

foi

salvaguarda a partir da publicização

realizada viagem de campo em que

do conhecimento produzido, além de

aconteceram diversas reuniões com

promover o desenvolvimento social e econômico por meio da promoção das referências patrimoniais. Sua

primeira

expressões

etapa

culturais

identificou em

seis

Como resultado do Inventário foi também elaborado o dossiê de tombamento de “Bens Culturais da Imigração Japonesa em Registro e Iguape”, visando à proteção de quatorze bens culturais, quase todos implantados em meio à área rural daqueles municípios. O tombamento foi aprovado pelo Conselho Consultivo do Iphan em junho de 2010. 2

FLÁVIA BRITO DO NASCIMENTO | 37


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

dirigentes locais e membros da sociedade civil a fim de incorporar as demandas e também identificar os bens

culturais

de

interesse

à

proteção. Tal atuação justificou-se pela

abordagem

da

Paisagem

Cultural, que significa a gestão de um

território

necessidade

e

de

implica

na

constituição

de

trabalho em rede, que possa articular diferentes esferas do setor público e organizações

da

sociedade

fomentando,

desta

coordenadas

de

forma,

civil, ações

proteção

A paisagem cultural, no âmbito do Iphan, apresenta-se como um nova categoria de patrimônio, pensada a partir das experiências desenvolvidas pela Unesco (1992) e das proposições estabelecidas na Convenção Europeia da Paisagem ( 2000). O instrumento jurídico para o seu reconhecimento e proteção dá-se com a Chancela da Paisagem Cultural. Segundo a Portaria 127 de 2009, do Iphan, em seu artigo 1o: Paisagem Cultural é uma porção peculiar do território nacional, representativa do processo de interação do homem com o meio natural, à qual a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores.

e

integrou-se à agenda do Revelando

valorização do patrimônio cultural.

Vale do Ribeira e foi realizado em

Ao longo deste período de trabalho

conjunto com a Secretaria de Estado

buscou-se organizar a montagem de

da Cultura, a Abaçaí Arte e Cultura e

uma rede a partir da identificação e

a Prefeitura Municipal de Iguape,

mapeamento dos agentes envolvidos

que teve por objetivo congregar as

e o estabelecimento de contatos

instituições, as municipalidades e a

iniciais viabilizados na execução dos

sociedade civil para traçar estratégias

trabalhos de campo.

conjuntas de atuação quanto ao patrimônio

cultural

do

Vale

do

No município de Iguape foi expresso

Ribeira. Compareceram cerca de 25

o interesse, por parte da Prefeitura

instituições com atuação no Vale do

Municipal, do tombamento do seu

Ribeira que puderam debater sobre o

centro histórico, pedido formalizado

tema

em junho de 2008 pela prefeitura de

expressando intenções e demandas.

município Maria Elizabeth da Silva

O centro histórico de Iguape foi

ao diretor do Depam Dalmo Vieira

entendido e estudado no âmbito dos

Filho,

do

processos históricos formadores da

Paisagem

sua fisicidade, os quais remontam ao

Ribeira:

período da exploração aurífera no

Planejamento Estratégico. Tal evento

século XVI, às atividades ligadas à

quando

da

realização

Encontro

de

Trabalho

Cultural

no

Vale

do

38 | FLÁVIA BRITO DO NASCIMENTO

do

patrimônio

cultural,


IGUAPE, ARQUITETURAS EM PROCESSO E CONSTRUÇÃO DA PROTEÇÃO FEDERAL

construção naval, a partir de meados

núcleos urbanos de São Paulo. Foram

do XVIII e à cultura de arroz no

erguidos segundo ordenamentos da

século XIX. O acautelamento do sítio

Coroa Portuguesa, para abrigar a

procurou respeitar a passagem do

administração

tempo nos espaços da cidade e

território, e cumprir funções de

proteger

guarda do território. Voltadas para as

as

muitas

expressões

pública,

funções

sociais e culturais da cidade. Olhou-

eminentemente

se para os bens imóveis de Iguape

também o contato com o interior por

considerando

as

meio do rio Ribeira de Iguape, que

inúmeras sobreposições e rearranjos

transportava os produtos, ao mesmo

espaciais constituídos ao longo de

tempo em que forjava os modos de

muitas décadas. As representações

ser e construir.

valor

de

o

impostas pelas variações econômicas,

como

litorâneas,

ocupar

caráter

portuário,

foram

históricas de diversos momentos são parte evidente de sua feição atual.

Iguape

São para, além disso, parte dos

composto por importantes casas e

sentidos

e

sobrados de pedra e cal remontam ao

históricos dos que as habitam, os

período da exploração aurífera no

quais lhes asseguram, em algum

século XVI, das atividades ligadas à

sentido,

construção naval a partir de meados

identitários,

sua

sociais

permanência

tanto

física, quanto simbólica.

tem

seu

sítio

urbano

do XVIII e da cultura de arroz no século XIX. A Igreja do Bom Jesus de

O litoral do Vale do Ribeira foi local

Iguape,

que

atrai

chave para a projeção de expedições

romeiros de todo Brasil para a festa

ao sertão, desde os primeiros tempos

do padroeiro, inaugurada em 1858, é

da conquista ibérica. A união entre as

ponto focal no tecido construído.

coroas portuguesa e espanhola entre

Sobressaem também o Sobrado do

1580 e 1640 tornou o Tratado de

Toledo,

Tordesilhas não operativo no sul do

neoclássico e as casas da Rua das

País. No litoral estão os municípios

Neves, ou do chamado Funil, o mais

de Cananéia e Iguape, construídos

antigo conjunto arquitetônico da

em pedra e cal, dentre os primeiros

cidade.

relevante

milhares

de

exemplar

FLÁVIA BRITO DO NASCIMENTO | 39


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

povoamento,

das

contingências

Neoclássico aqui se refere à arquitetura surgida durante o neoclassicismo, movimento cultural do fim do século XVIII, que utilizava elementos clássicos que remontavam a antiguidade grega e romana na composição de novas edificações.

estratégias

econômicas,

e do

território e das sociabilidades. O

núcleo

urbano

de

Iguape

caracteriza-se pela singularidade do traçado urbano, com ruas levemente

A arquitetura ainda existente em

sinuosas

Iguape

Ribeira,

pequenas ruas estreitas e com a

sucessivamente

dominante Praça da Basílica, pela

e

no

apropriada revestida

Vale e

de

novos

do

e

entrecortadas

por

significados,

impressionante riqueza dos marcos

permite também compreender certa

naturais que a circundam e dela

dimensão dos processos sociais da

fazem parte, e, finalmente, pela

cultura, como os modos de morar. A

composição de arquiteturas que lhe

arquitetura

documento

conferem aspecto de conjunto, e, ao

histórico, que deve ser interpretado e

mesmo tempo, são o testemunho dos

investido de significado, para fins de

sucessivos processos históricos e

pesquisa,

culturais dos seus muitos anos.

é

ser

valoração

patrimonial,

construção identitária e apropriação econômica. Para valorar as suas

O visível tecido urbano da cidade se

expressões

arquitetônicas

e

relaciona

compreender

seu

é

momento de ocupação do território

necessário ter em conta o contexto e

brasileiro, em que a defesa era fator

os

central para escolha do sítio. O

processos

potencial

sociais

que

as

à

sua

história

e

ao

produziram e que seguem dotando-

primeiro

as de sentido. No Vale do Ribeira

implantado junto à barra do Rio

encontram-se técnicas e formas de

Ribeira de Iguape, em Icapara, que

ocupação tanto do litoral, como

logo se mostrou vulnerável, já que

construções em pedra, e do planalto,

junto ao mar aberto. O sítio onde se

como construções com técnicas de

desenvolveu a cidade é bastante

barro.

significativo do ponto de vista da

Estas

denotam

a

núcleo

complexidade e a singularidade do

defesa

patrimônio

circulação.

material

do

vale,

resultado da sua história, de seu 40 | FLÁVIA BRITO DO NASCIMENTO

e

da

urbano

possibilidade Iguape

foi

de está

estrategicamente localizada junto a


IGUAPE, ARQUITETURAS EM PROCESSO E CONSTRUÇÃO DA PROTEÇÃO FEDERAL

três marcos na paisagem da baixada do rio de Ribeira: a oeste, o Morro do Espia, elevação de grande destaque toda

a

região

majoritariamente

plana, no norte, a cerca de 2 km do que hoje é o centro histórico, o rio Ribeira de Iguape, grande eixo de circulação de produtos como ouro e arroz em toda a história da região e, Mapa do centro histórico de Iguape. Fonte: IGC, 1943.

no sul, o braço de mar, chamado Mar Pequeno. Este garantia fácil acesso ao mar aberto, mas também, lhe dava

A função de controle conferiu a

certa

Iguape tecido bastante singular. O

proteção,

por

ter

a

Ilha

Comprida à sua frente.

núcleo

inicial,

implantado

em

terreno de topografia praticamente A implantação do sítio urbano de

plana, tem formato que se assemelha

Iguape tirou partido dos elementos

a uma elipse de pontas alongadas,

geográficos singulares da região,

onde estão os chamados funis. A Rua

tendo em vista os objetivos de

XV de Novembro e a orla do Mar

conquista

dos

Pequeno são os limites externos

de

deste formato que desaparece na Rua

outras cidades coloniais que lhe são

Major Rabelo de desenho retilíneo.

contemporâneas, a cidade não foi

As curvas suaves, as pequenas vielas,

construída em alto de elevações, o

o

que lhe tornava mais vulnerável. Esta

pequenos largos e repleto esquinas,

é uma das explicações para o traçado

garantem ao transeunte percursos

original

dinâmicos e ricos em visadas e

e

colonizadores.

do

desbravamento Diferentemente

núcleo,

fechado

ao

traçado

não

ordenado,

com

exterior, voltado para si mesmo e

perspectivas.

com aspecto de fortificação. Suas

pequenas ruas com lotes estreitos é a

ruas

com

grande praça da Basílica do Bom

pequenas aberturas para o exterior,

Jesus, cuja imponente construção

dispostas em semicírculo, como a

domina

Rua XV de novembro, contribuíam

conjunto imediato e da cidade. A

para o controle do núcleo urbano.

praça de São Benedito, de formato

em

forma

de

funil,

todo

O

contraste

composição

das

do

FLÁVIA BRITO DO NASCIMENTO | 41


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

retangular e tendo a igreja em uma

neoclássico,

de suas extremidades, situa-se numa

diversidade

das

arquitetônicas que se sobrepuseram

extremidades

do

centro

informam

sobre

de

no

do funil. O chafariz ao centro praça

térreas com fins comerciais (com

era

portas

do

sistema

de

urbano

expressões

tradicional, para fora das ruas curvas parte

tecido

a

em

toda

inicial.

Casas

fachada)

são

abastecimento da cidade que se

encontradas na Praça da Basílica. Em

iniciava onde está a Fonte do Senhor,

torno da Praça de Benedito, por

no sopé do Morro da Espia.

tratar-se de ocupação posterior ao núcleo central em torno da Basílica

O núcleo central da cidade, composto

são encontrados terrenos de testada

por

quadras,

maior, com casas implantadas na

conformadas por lotes de pequena

lateral do lote com jardins também

testada, podendo ser mais ou menos

laterais.

cerca

de

30

profundos. Estes abrigam casas de meia morada e de porta e janela, ocupando majoritariamente as Ruas XV de novembro, Rua das Neves ou do Funil e Rua Tiradentes, com trechos significativos de unidade e continuidade visual. Na Praça da Basílica e nas Ruas Nove de Julho, e em alguns pontos da Rua XV de Novembro, os lotes são maiores, e tem sobrados de dois

Testada refere-se à medida dos lotes em relação ao arruamento. Meia Morada são as edificações térreas , cujo fachadas possuem uma porta e uma janela e não apresentam recuo em relação a rua. Eclético aqui se refere ao estilo arquitetônico do fim do século XIX que exibe combinações de elementos da arquitetura clássica, medieval, renascentista, barroca e neoclássica. Envasaduras são as aberturas das paredes externas onde são colocadas as janelas e portas de uma edificação

pavimentos, casas de morada inteira com telhados de quatro águas, e são pontuadas por edificações de aspecto

A Rua Major Rebello é o limite norte

eclético ou de início do século XX.

do

Exemplares arquitetônicos como o

configurando-se

como

Sobrado dos Toledo e o Hotel São

transição,

são

Paulo, com frontões triangulares e

edificações maiores e de períodos

envasaduras

mais

de

caráter

42 | FLÁVIA BRITO DO NASCIMENTO

núcleo onde

recentes,

urbano

como

antigo, área

de

encontradas a

Escola


IGUAPE, ARQUITETURAS EM PROCESSO E CONSTRUÇÃO DA PROTEÇÃO FEDERAL

Estadual,

cuja

arquitetura

está

Matarazzo, voltada para o Valo

inserida no contexto da construção

Grande, é a expressão do uso fabril e

de escolas no período republicano.

portuário que predominou na orla da

Indo em direção ao Valo Grande,

passagem construída para ligar o rio

seguindo pela rua à esquerda da

Ribeira e o mar.

Basílica, a cidade terminava na Igreja do Rosário, voltada para o lado

Situada entre importantes marcos da

oposto

onde

paisagem como o Morro da Espia, o

originalmente havia uma grande área

Canal do Valo Grande e o Mar

livre de edificações. Na rua à direita

Pequeno, Iguape caracteriza-se por

da

guardar

da

Basílica,

Basílica,

acompanhando

em

expressões

arquitetônicas

paralelo do Mar Pequeno, seguia a

que são testemunhos dos inúmeros

Rua Tiradentes, onde se localizavam

processos socais e econômicos por

casas mais simples e que leva ao

que passou.

cemitério, afastado quatro quadras da pequena praça situada junto à

Na atribuição de valor à cidade com

fachada posterior da Basílica. Junto

vistas

ao

buscamos estudar e valorá-la como

cemitério,

a

antiga

Fábrica

ao

tombamento

federal

FLÁVIA BRITO DO NASCIMENTO | 43


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

patrimônio nacional no contexto das

constituídos ao longo de muitas

cidades

décadas, conformadoras do que se

do

território

paulista

constituídas a partir de processos

encontra hoje naquelas cidades.

históricos anteriores ao café, seja

As

exploração aurífera, seja rizicultura,

diversos

ou mesmo a própria ocupação do

evidente de sua feição atual e, neste

território, o que no que se refere aos

estudo, buscou-se entender Iguape

valores

em

no âmbito dos processos históricos

articular sentidos que vão para além

formadores da sua fisicidade. Estes

da materialidade. O que significa

são parte dos sentidos identitários,

dizer que, ao se pensar na lógica

sociais e históricos dos que as

construída expressa na atualidade

habitam, os quais lhes asseguram sua

em Iguape, tivemos em conta as

permanência tanto física, quanto

sobreposições e rearranjos espaciais

simbólica.

memoriais,

incorreu

representações momentos

históricas são

parte

Referencias Bibliográficas COSTA, Lúcio. Lucio Costa, registro de uma vivência. São Paulo: Empresa das Artes, 1969. IPHAN. Dossiê de Tombamento de Iguape. São Paulo: Minc/IPHAN, 2009. SECRETARIA DE CULTURA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Resolução nº 06 de janeiro de 1975. Dispõe sobre o Tombamento de um conjunto de Imóveis no Centro de Iguape. Diário Oficial. São Paulo, São Paulo, 1975.

44 | FLÁVIA BRITO DO NASCIMENTO

de


Foto: Helena Rios, arquivo Iphan/SP CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

MemóriasRODAS Urbanas de Iguape: DE MEMÓRIAS | 45

RODAS DE MEMÓRIAS


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

46 | RODAS DE MEMÓRIAS


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

CULTURA CAIÇARA Em 20 de agosto de 2011 foi realizada na Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira a primeira Roda de Memória do Projeto Memórias Urbanas, cujo tema estava voltado à necessidade de valorização da Cultura Caiçara. Os textos que estão expostos nesta publicação são recortes dos registros de falas dos convidados, os quais foram organizados na forma de temas em comum para facilitar a leitura e o trabalho com os estudantes nas escolas. Procuramos manter o tom da fala dos entrevistados, fazendo apenas uma edição dos textos visando retirar as repetições e tornar a leitura mais fluída 3. Os registros integrais das falas podem ser encontrados na biblioteca da Casa de Patrimônio do Vale do Ribeira.

Convidados: Lauro Evilásio de Andrade, nascido no bairro do Rocio, em setembro de 1953. Filho de Dona Maria de Lourdes Andrade e do Seu Antonio Pereira de Andrade. Glória do Prado Carneiro, a Glórinha, nascida na Juréia, na época, Rio Verde, em 1958. Tem quatro filhos e mora desde os 19 anos na Barra do Ribeira. Dauro M. do Prado, nascido em julho de 1964, no Rio Verde, Juréia. È da União dos Moradores da Juréia. Pedro Sardinha do Prado, o Pedrinho, nascido em 1992 em Pariquera-Açu e morador da Barra do Ribeira. Integrante da Diretoria da Associação Jovens da Juréia (AJJ). Silvio Fernando Rodrigues, nascido em 1957 no bairro do Despraiado.

Foram adotados os critérios e orientação da textualização, ou seja, quando se transforma da forma oral para a escrita eliminando-se as perguntas, os erros gramaticais e reparadas as palavras sem peso semântico, conforme Meihy & Holanda (2010). 3

RODAS DE MEMÓRIAS | 47


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

1986 – Criação da Estação Ecológica da Juréia-Itatins (Decreto nº 24.646 de 20 de janeiro de 1986)

1987 – Criação da União dos Moradores da Juréia (UMJ)

1993 – Criação da Associação dos Jovens da Juréia (AJJ)

2006 – Criação do Mosaico da Juréia-Itatins (Lei nº 12.406 de 12 de dezembro de 2006)

2009 – Extinção do mosaico e recategorização como Estação Ecológica da Juréia-Itatins

48 | CULTURA CAIÇARA


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Infância no Bairro do Rocio:

Água encanada não existia, tinha

“O bairro era bem pequeno, hoje é

fossa nas casas, rede de esgoto nem

um dos maiores bairros do Vale do

pensar. O bairro era pequenininho. A

Ribeira. Estudei na primeira escola

única coisa de importante que tinha

do Rocio, que era de madeira, o Seu

na época, a gente chamava de campo

Francisco Costa, mais conhecido

de aviação, que é aeroporto, era da

como Chico Banana. Eu brincava na

Varig”. (Lauro)

rua,

como

nós

não

tínhamos

condição os brinquedos eram latas de leite, você enchia as latas de areia e furava, e emendava uma na outra. Festas só tinham do lado de cá. Tinha só

um

fandango,

que

não

é

salgadinho, é baile! Meu pai plantava arroz, feijão, não tinha agrotóxico, e comíamos mais peixe. Ele chegou a

Atualmente o bairro do Rocio é o mais populoso de Iguape, está separado do centro pelo Valo Grande. Neste bairro vive uma comunidade bastante diversa, com pessoas vindas de várias localidades, porém, com o predomínio de caiçaras. As principais atividades econômicas do bairro são a pesca esportiva e comercialização do artesanato local, com destaque para a confecção das panelas de Jairê. (PEREIRA JUNIOR, 2005)

plantar no lugar onde hoje é a igreja católica, lugar perto da minha casa, depois ele passou a arrendar terras lá

Crescimento

da Ilha Comprida. Meu pai era

Rocio:

pescador e agricultor. Na escola a

“[...] foi a pesca da manjuba que

gente

coisas,

trouxe muita gente pra lá. O pessoal

porém aqui, naquela época, você

deixava de plantar pra vir pescar,

definia quem era da cidade e quem

principalmente de Cananéia. Hoje

era da zona rural. Igreja era só pra

não, se você for para as ruas lá do

cá, depois que começou a chegar lá.

fundo, tem muita gente do Norte e do

Naquela época as casas eram tudo de

Nordeste do Brasil. A gente nem

madeira [...] na época tinha balsa,

conhece as pessoas que tem lá. Antes

mas a maioria atravessa de canoa,

era só compadre e comadre. Ainda

para fazer compra, não existia água

cheguei a pegar navios de pequeno

lá. Tinha um chafariz do lado de cá,

porte carregando lá no ponto da

vinha buscar num pote, banho, lavar

frente de casa, carregando arroz, que

roupa, essas coisas era tudo no rio.

vinha lá de Registro. Eu tinha uns

aprendia

bastante

do

Bairro

do

RODAS DE MEMÓRIAS | 49


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

dez, doze anos. Da minha casa para o

acho que doze comunidades. Rio das

rio hoje, dá mais ou menos uns

Pedras, Cachoeira do Guilherme,

cinquenta

Praia do Una, Grajaúna, Rio Verde,

ou

sessenta

metros”.

(Lauro)

Praia da Juréia, Barra do Una, Rio Comprido, Despraiado e Guapiú.

Infância na Juréia:

Morei lá até os 25 anos. Vim para

“Andávamos tudo a pé, pela praia.

cidade com 18 anos porque precisava

Éramos em 10 irmãos, todo mundo

me alistar, eu não conhecia luz

nasceu lá mesmo, de parteira e criou-

elétrica.

se lá. Na época tinha muito morador,

conhecer a cidade, me alistei e voltei

umas 300 famílias. A gente nunca

para lá.” (Dauro)

Nessa

época

eu

vim

veio em médico, nunca vinha à cidade para nada, só meu pai que

Migração para a cidade:

vinha fazer compras. Brincava lá

“Depois

mesmo,

brinquedos

ecológica começamos a ser retirados

como Seu Lauro falou. Meus pais,

e viemos morar na Barra do Ribeira.

meus

lá,

Meu pai e minha mãe ainda moram

nascidos e criados lá. Tinha curador

lá, ele tem 82 anos e ela tem 73,

que curava, nosso médico era o

ainda sobem a Serra da Juréia para

curador, benzia, fazia remédio de

vir para cá e voltam. A gente não

erva,

médico.

queria sair, mas fomos obrigados.

Fazíamos muito mutirão para fazer a

Fomos saindo aos poucos, alguns

roça e cada semana era um morador

foram para Peruíbe, outros para o

que fazia. Fazia a roça e a tarde tinha

Guaraú e uns poucos para a Barra.

o fandango, era o baile. Todo sábado

Nossa família veio para a Barra,

fazíamos

avós,

os

eram

ninguém

ia

todos

ao

de

tinha mutirão, até terminar a época da roça. Tinha roça de mandioca e de arroz. Meus avôs, meus tios, faziam a viola, a rabeca.” (Glorinha) “Eu nasci um pouco mais tarde que a Glorinha, da mesma mãe. Em julho de 64, no Rio Verde. Lá tem várias comunidades,

varias

50 | CULTURA CAIÇARA

vizinhanças,

que

surgiu

a

estação

O bairro Barra do Ribeira está localizado a 18 km do centro da cidade, é o local onde o rio Ribeira deságua no mar. Apesar de ser um local muito apreciado por veranistas, ainda mantém sua característica de comunidade caiçara. É também a porta de entrada para a Estação Ecológica de Juréia-Itatins (PEREIRA JÚNUOR, 2005).


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

alguns irmãos foram para Itanhaem”. (Glorinha) Cultura e modo de vida caiçara: “Vivíamos da pesca e da agricultura, como

a

Glorinha

falou,

do

extrativismo, como a maioria das comunidades, seja ela quilombola, caiçara,

indígena,

ele

vive

dos

recursos que tem ali: da terra e da pesca

se

faz

o

seu

próprio

instrumento de trabalho. Sempre vivi nessas condições. Aconteciam vários mutirões, para várias coisas, então o que é um mutirão? É juntar um monte de gente para construir uma coisa

coletivamente.

Então

você

constrói a roça em um dia, para plantar dois sacos de semente de arroz.

E

aquele

cara

daquela

comunidade combinava com o da outra e da outra e da outra. Época de

Dauro, Silvio e Pedrinho.

fazer a roça todo mundo sabia que era de julho a setembro, todo mundo

segmentos da sociedade civil, que

plantava, então sabiam que era hora

estão mais afastadas, na periferia da

de acelerar o plantio”.

cidade, são expulsas pela especulação

“Para fazer canoa, duas ou três

imobiliária, pelas grandes empresas

pessoas derrubam a arvore e faziam a

ou pelas unidades de conservação

canoa, era feita de um pau só e

integral, essas três coisas expulsaram

precisava de umas vinte pessoas para

as comunidades dos seus territórios,

puxar a canoa do mato. É chamado

onde eles viviam coletivamente, cada

de varação de canoa”.

um fazendo sua agricultura onde

“As

comunidades

indígenas,

caiçaras

quilombolas, e

outros

queria, buscando seus recursos onde queriam,

era

completamente

RODAS DE MEMÓRIAS | 51


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

organizado.

Outra

de

era muito difícil porque não podia

organização [...] a gente tem uma

pegar no instrumento. A gente ouve

cultura diferenciada, um modo de

história de tios, que o pai deixava a

vida diferenciado, um modo de falar

viola encostada no canto da casa e ai

diferenciado. Qualquer um que for

se o filho pegasse, levava uma surra

para casa do meu pai vai ser muito

que nunca ia esquecer! Eles tinham

bem tratado. Ele vai te dar comida, a

que roubar a viola do pai, aí iam para

melhor coberta, por água quente

a beira do rio aprender a tocar.

para lavar seus pés, o caiçara faz isso

Também aprende muito de olhar, lá

para todo mundo. Meu pai vinha

no fandango, vendo como ele tocava,

fazer compra, ele pegava algumas

como cantava as músicas, muitos das

coisas como bolacha, coisas que não

gerações

estragavam e guardava, para quando

assim! Quando eu comecei tinha um

alguém chegar ele ter com que

pouco disto também, meu tio não me

alimentar essa pessoa. Esse é um

deixava pegar o instrumento. Os

modo de vida da comunidade. Essa

instrumentos

relação harmoniosa tanto com a

geralmente ficavam em casa e teve

natureza quanto com aqueles que

uma época que ficamos uns três

estavam ali. A gente não podia perder

meses sem fazer apresentação, aí eu

isso e quando eu senti que estávamos

peguei a viola e comecei a mexer,

perdendo

nos

estourei corda, troquei. Meu tio me

associação”.

viu mexendo, mas não falou nada,

falei

organizarmos

na

forma

para

(Dauro)

anteriores

das

aprenderam

apresentações

não falou que ia me ensinar. Só depois que eu aprendi a tocar é que

“A gente tem uma história que acho

percebi como a vontade de aprender

que acontecesse com todo mundo

é importante. Quando eu fui para o

que aprende a tocar viola. Quando

baile é que percebi que estava

faziam o fandango era muito raro

tocando errado. Teve uma festa lá na

uma

um

Praia do Una, o primeiro fandango

instrumento, não podia e ninguém

que eu ia participar, ficava ali meio

falava por que. Eu acho que era

no canto, meio de lado, mas ninguém

porque é muito fácil estourar a corda,

chamava pra participar. Aí lá na

desafina e é difícil de afinar...

comunidade

Quando eu quis começar a aprender

poucos violeiros e eu comecei a tocar.

criança

pegar

52 | CULTURA CAIÇARA

em

do

Prelado

tinha


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

O pessoal viu que eu sabia e começou

preferem isso do fandango, acho que

a chamar. Comecei a tocar de

é por vergonha da própria cultura.

maneira informal, tinha de 13 para 14

(Pedrinho)

anos. No próximo baile já fui como violeiro e meu primo Cleiton me

“O que a gente tem feito é carregar as

chamou, lá que eu senti o que era

crianças para o galpão depois da aula

tocar por duas horas, dor no dedo,

para dançar o fandango, se não

todo

é

dançar, pelo menos fica ali vendo,

emocionante. Tive outro primo que

vivenciando. Porque se a gente não

também aprendeu e a gente toca

fizer isso eles vão dançar funk

junto, o Wellington. Depois que

mesmo, eu não tenho nada contra o

toquei que meu tio começou a me

funk, mas acho que cada um tem que

mostrar

outros

valorizar sua cultura, porque essa

ritmos. A gente foi acumulando

diversidade cultural que é bonita no

conhecimento

fazemos

povo brasileiro. Chamar os jovens

crianças.

para participar, levar para a escola,

mundo

oficinas,

te

outras e

olhando,

músicas, agora

ensinamos

as

Outro instrumento que eu quero

agora

eles

aprender a tocar e ainda não sei é a

(Dauro)

tem

feito

oficinas”.

rabeca. Estou tentando e não consigo aprender porque quase não tem

“E como a gente tem o momento de

rabequista. Isso também é por conta

trabalhar, de ir pra escola, de sair,

de não deixarem a gente mexer nos

acho que a gente também tem que ter

instrumentos, isso se perdeu um

o momento de ser caiçara, da cultura

pouco. Também porque não tem a

caiçara,

convivência de fazer o mutirão e o

instrumento, sentar com um tio, com

fandango logo depois. Tem menos

o avô e perguntar como era, o que

baile. Tenho um primo que tem oito

eles faziam, pedir pra contar uma

anos e ele é fascinado por rabeca,

história. Porque não é para sempre

mas não tem ninguém que pode

que os mais velhos vão estar ali para

ensinar para ele, meu tio só toca

passar

viola. Por outro lado, tem alguns que

(Pedrinho)

de

essa

sentar

carga

com

pra

um

gente”.

não ligam mais, porque vem funk, axé, black, outras músicas e eles

RODAS DE MEMÓRIAS | 53


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

“Uma coisa legal que aconteceu sem

ouviram ele falando de “Revelando

iniciativa de nenhuma organização

São Paulo”, eles só vêm para cá, só se

foi a volta da Reiada, tem uns 3 anos

apresentam

já que ela acontece todo final de ano.

Paulo”, depois esquecem, deixam

Eles passam de casa em casa, das

eles sozinhos. Por parte da cultura eu

pessoas que aceitam e dão ofertas,

acho

dão dinheiro e isso tá indo. Partiu da

incentivos.

própria

um

fandango, vamos lá, vamos gravar.

violeiro que aprendeu toda a música

Até por parte das escolas, na época

da Reiada, nosso folião já está bem

da minha Irma ela brincava de roda,

velho, ele sabe muito, tem uma carga

não existe mais isso. Acho que em

muito grande sobre música, cultura

termos

caiçara, mas ele já está bem velhinho

resgatar tudo isso aí e falta incentivo.

e não dá mais conta de vir mostrar.

Tem

Tem um moço mais novo que tá

professores material para mostrar

levando tudo isso nas costas, porque

isso para as crianças”. (Lauro)

comunidade,

teve

no

que

tinha Se

de

que

“Revelando

que vocês

cultura colocar

tem na

ter

São

mais

fazem

o

que mão

se dos

ele que faz e está incluindo gente da comunidade e tá se expandindo. A

A Estação Ecológica da Juréia:

Associação de Jovens da Juréia (AJJ) dá

um

apoio

logístico,

com

instrumentos, essas coisas, mas eles fazem tudo sozinhos. Eles montaram o próprio grupo de fandango, quando a gente vai se apresentar e dá para levar, eles vão junto. Já participaram do Revelando São Paulo também. Isso foi uma iniciativa que pra gente serviu

como

incentivo

e

Estação Ecológica é uma categoria de unidade de conservação destinada à preservação da natureza e a pesquisa científica. Nelas são proibidas a visitação pública, exceto com o objetivo científico que depende de autorização prévia do órgão responsável pela administração da unidade. A posse é de domínio público, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas (Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000).

avançando. Tem um menino que canta

que

tem

7

anos”.

(Pedrinho)

“Na

década

de

1980,

havia

a

Nuclebrás, empresa que constrói usinas nucleares, e o Brasil tinha um

“Acho que tá faltando incentivo da cultura, do meu ponto de vista, vocês 54 | CULTURA CAIÇARA

convenio com a Alemanha para


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

construir duas usinas atômicas aqui

comunidades tradicionais vão ficar

na Juréia. Começou um movimento

bem.’ Ficamos contentes, pensando

para a construção da usina atômica.

que ia ser muito legal. De repente,

Nesse tempo cresceu o movimento

em 1986, se cria a Lei de Estação

ambientalista,

não

Ecológica, só que Estação Ecológica é

podiam construir uma usina atômica

uma unidade de conservação de

ali, porque ia destruir todo esse

proteção integral que não permite a

patrimônio. Vamos criar aqui um

presença humana. Meu pai sempre

santuário ecológico. Era uma ideia

trabalhou com agricultura, fazendo

legal, vamos deixar as comunidades

roça,

tradicionais aqui, vamos mandar

diferenciada,

todos estes veranistas embora, as

constrói a roça sem agrotóxico, sem

casas deles vão ficar para vocês. Isso

nada, mas tem o momento de pousio

era o que eles vendiam pra gente.

dessa roça, você constrói uma roça

Não era qualquer um que ia lá, o

aqui hoje, colhe todo o produto dela,

próprio Paulo Nogueira Neto, ele era

constrói uma outra aqui e vai

secretário

Franco

construindo ate voltar para aquela

Montoro, Doutor José Pedro de

primeira, onde a floresta já se

Oliveira Costa, o Zé Pedro, virou

regenerou. O solo está fértil e você

Secretário de Meio Ambiente. Iam

começa de novo, uma agricultura

tomar cafezinho com o meu pai: Zé

sustentável. O modo de vida dessas

Pedro,

comunidades

na

Fabio

dizendo

época

que

do

Feldmann,

Mario

que

é

uma

agricultura

itinerante,

no

geral,

você

é

que

Mantovani, João Paulo Capobianco

conserva esse meio ambiente. E essa

da S.O.S. Mata Atlântica, iam lá

área exatamente da Juréia, como

dizer: ‘Não se preocupem, vai dar

outras do Vale do Ribeira está

tudo certo! Vocês são maravilhosos,

preservada por quê? Por conta do

podem

eles

modo de vida dessa comunidade, de

quiserem expulsar vocês da terra nós

como ela lida com esse ecossistema,

não vamos deixar. Vamos criar aqui

com

um santuário ecológico onde vocês

(Dauro)

vão

ficar

viver

tranquilos,

se

tranquilamente,

a

pesca,

com

a

floresta”.

as

RODAS DE MEMÓRIAS | 55


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

“Meu pai foi enganado. Falaram para o meu pai trabalhar normal, ele fez a roça e já veio uma multa. Multado e meu pai não sabia de nada, não sabia por que, foi aí que acabou nossa vida lá. Começaram os guardas

a

entrar

nas

casas,

destampar panela para ver o que o pessoal estava comendo e pegar as

Glorinha e Lauro

roupas das mulheres, vê o que tinha, jogavam os colchões. Foi um inferno, acabaram

com

tudo.

Fomos

obrigados a sair, não podia plantar mais, não podia matar nada para se alimentar e foram acabando

os

estoques. Tinham dias que a gente fazia café com banana verde pros filhos da gente comer porque não

para lá. A gente quer voltar para as

tinha jeito. Como ia ficar num lugar

nossas terras, enquanto meu pai e

daqueles? Os guardas entravam nas

minha mãe vivem, não sei se vai ser

casas para ver se tinha caça, era um

possível, mas é nossa luta até hoje

inferno e fui obrigada a sair. A gente

[...] o pessoal foi saindo e foi

vivia tão feliz, era um lugar tão bom.

obrigado a fechar a escolinha que

E hoje, muito do pessoal que saiu de

tinha lá. Como o professor ia lá para

lá, tão sofrendo nas beiras das

dar aula para duas crianças? Ele saiu.

cidades e os filhos pegaram caminhos

E

errados. O que tinha lá era diferente,

acabando

a nossa cultura era outra. Foi se

também não tinha mutirão, ficou a

perdendo a cultura, e viémos aqui

maioria das coisas abandonadas.

para a Barra, montaram a Associação

Porque as pessoas saíram sem nada,

para gente não perder a cultura e

sem direito a nada, só com a roupa

nossos filhos continuarem na mesma

do corpo, porque era longe e nem

cultura, nos meus afazeres. Assim

tinham

estamos até hoje, lutando para voltar

(Glorinha)

56 | CULTURA CAIÇARA

a

escola

foi

todo

como

acabando. mundo,

trazer

as

Foi

porque

coisas”.


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

complicando

cada

vez

mais,

as

“A Lei de Estação Ecológica é para a

pessoas se mobilizando. Há uns seis

conservação da natureza, é o homem

anos a gente começou a ver que o

fora da natureza, para preservar esse

negocio era sério, começamos a

meio

futuras

participar das reuniões, discutir um

gerações. É para olhar, não para

pouco, não sabíamos muito bem o

usufruir, olhar os bichinhos, os

que era, mas já dávamos opiniões.

macaquinhos, anta, capivara... E

Em 2009, nós começamos a querer

como faz? Para mudar a lei você tem

estudar um pouco mais, trabalhar

que fazer um movimento! E foi aí que

um pouco mais com essa questão da

eu comecei a entender!” (Dauro)

cultura, da legislação. Percebemos

ambiente

para

as

que a coisa era muito grave para as “Quando eu era criança, não sabia o

pessoas que vivem na Juréia, para

que era Estação Ecológica, o que era

quem fazia mutirão, derrubava uma

polícia ambiental, nada disso. Para

roça. Graças a Deus a gente teve esse

viver na Juréia era simplesmente

conhecimento, de como derrubar

entrar lá e pronto. Mas a gente

uma roça, de que madeira é boa para

sempre ia e voltava da casa da minha

fazer cada coisa, esse conhecimento a

avó e meu pai falou que a gente não

gente conseguiu adquirir, apesar da

podia morar lá. Ele já tinha morado

pouca vivência na mata. Mas a partir

lá muito tempo e contava como era, o

daí a gente viu que precisávamos

que

fazer alguma coisa e começou a

eles

faziam,

do

que

eles

brincavam. Eu já peguei essa parte de

participar.

tecnologia,

conseguimos aprovar parcialmente o

carrinho,

controle não

remoto,

emprestava

os

brinquedos para os outros. Mas eu

Em

2006,

nós

Mosaico de Unidade de Conservação da Juréia”. (Pedrinho)

sempre tive contato com a questão da Juréia... Se tinha reunião da AJJ a

“Hoje eu posso dizer que Despraiada

gente estava lá, bagunçando, mas

virou desprezada, eu tenho uma

estava. O pessoal estava discutindo, a

professora que trabalhou lá, ela ainda

gente

pouco.

se lembra. Tenho certeza que se ela

Sempre ouvíamos um pouco, mas

for lá vai ficar triste, porque se antes

não entendíamos muito bem. Com o

a gente achava que era difícil hoje tá

passar do tempo, as coisas foram se

muito pior, tá um bagaço. Saiu muita

parava

ouvia

um

RODAS DE MEMÓRIAS | 57


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

porque a gente pesca, caça, tira Mosaico se constitui em um conjunto de unidades de conservação de categorias diferentes ou não, próximas, justapostas ou sobrepostas, e outras áreas protegidas públicas ou privadas. A gestão do conjunto deverá ser feita de forma integrada e participativa, de forma a compatibilizar a presença da biodiversidade, a valorização da sociodiversidade e o desenvolvimento sustentável no contexto regional (Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000).

palmito, é cultura rural [...] essas

gente de lá, os alunos não conseguem

gente quer. Então vamos trabalhar

mais ir à escola lá. Isso não é de hoje,

uma política educacional melhor,

vem acontecendo há muito tempo.

vamos discutir uma proposta melhor.

Eu fico triste porque se você chegar

Porque vocês já sabem do problema,

para um jovem que tá lá e perguntar,

eles não vão saber te responder nada

discutindo essa questão de trazer o

de

eles

jovem para a cidade. Isso não ajuda,

aprendem na escola, mas não sabem

vamos fazer com que o jovem

nada da cultura do lugar. Se você

continue no seu território e vamos

perguntar para eles: ‘tinha baile?’,

levar condições para lá. Internet,

eles te dirão: ‘Não sei.’; e tinha baile!

antena são coisas que não são

Muita gente

lá também fica triste

difíceis, fazer um convenio com o

porque com essa coisas dos jovens

governo federal. São investimentos

irem estudar longe, eles acabam

públicos que tem que ser feitos...

ficando sozinhos, perdendo os filhos,

Agora se você dá condições de ele

porque

vão

ficar lá até o ensino médio, aí ele

trabalhar, vão estudar[...] as crianças

quer fazer a faculdade dele, tem

sofrem com isso, porque estando no

direito de escolher, de sair. Mas ter

lugar é mais fácil aprender. As

certeza de que quando ele tiver desse

pessoas que moram lá, eles vivem de

tamanho aqui eles vão querer voltar,

uma maneira... Teve uma época que

porque o sitio é um lugar bom para

uma professora foi para lá e ficou na

viver, não é um inferno. Porque esses

minha casa, ele disse que nós éramos

jovens vão embora e não querem

igual índios, não me surpreende,

voltar? Por causa dessas condições de

lá,

eles

eles

sabem

saem

o

de

que

lá,

escolas estão tirando as pessoas do meio do mato e levando para a cidade, então isso vai esvaziando. Que política é essa que nós estamos fazendo? De esvaziamento dessas comunidades? Será que é isso que a gente quer? Não, não é isso que a

sabem

que

estamos

aqui

estrada, da falta de emprego. O poder 58 | CULTURA CAIÇARA


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

público tem que investir mais, nós

ele e sempre que vamos para lá

estamos

fazemos um mutirão. Nós juntamos

perdendo

o

local

de

moradia. (Silvio)

sempre para não perder a nossa cultura.

A

gente

trabalha

com

“Espero um dia estar lá na casa do

artesanato, com os jovens, com a

meu avô sossegado, poder chamar

caixeta,

meus amigos para ir visitar a casa do

oficinas de dança de música, fazemos

meu avô. Porque hoje ir à casa do

fandango. As crianças vão crescendo

meu avô não é fácil, não posso levar

e pensando em outras coisas, não

visita lá, nada que pareça com

sabem fazer uma roça, usar a palha, o

turismo. Tem uma concessão para o

machado, não sabem como colhe o

meu avô morar lá, aí eu posso ir

arroz, como pilar o arroz, fazer o

visitar, mas se ele não estiver lá no

cuscuz. Vai perdendo aquela coisa,

futuro, a Juréia vai acabar para mim

você solta um moleque desse no

e para a minha família. Quem sabe se

mato,

a lei mudar, todos nós possamos ir lá.

(Glórinha)

instrumentos

ele

não

vai

musicais,

sobrevive”.

Fica aí a interrogação para o futuro”. (Pedrinho)

“Foi aí que criamos a União dos Moradores da Juréia (UMJ), da qual

A luta pela cultura e pela terra:

eu sou presidente, em 1989. Mas a

“Conseguimos

dos

luta começou em 1987. Começamos a

irmãos, só tem dois que moram em

reunir todas as comunidades da

Itanhaém e Peruíbe. Nós ficamos na

Juréia para lutar pelos direitos das

Barra, montamos a Associação e

comunidades tradicionais. O objetivo

estamos todos juntos, vamos sempre

da UMJ é mudar a lei, criar uma

à casa do meu pai, tem mutirão.

unidade de conservação de uso

Fizemos uma roça de mandioca para

sustentável para que as comunidades

juntar

alguns

RODAS DE MEMÓRIAS | 59


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

continuem com seu modo de vida.

pressão era muito forte, mas eu não

Porque todas as comunidades ali

ia desistir da luta. Eles mandaram

vivem nesse sistema. A gente travou

meu pai lá para Peruíbe e minha mãe

uma briga muito grande para ter esse

ficou lá sozinha. Era época de eleição.

direito.

perseguição

Eu fui até o Secretario de Meio

muito grande da parte do Estado

Ambiente, Edis Milaré, contar como

contra o meu pai, porque eu era uma

estava a situação da nossa família.

liderança que estava organizando a

Ele me garantiu que ia mandar meu

comunidade. Eles diziam para o meu

pai para casa, mas que depois das

pai que em cobra eles pisavam na

eleições não sabia o que ia acontecer,

cabeça. Meu pai me pedia para parar

nem se ele mesmo estaria ali, por

com medo que eles me fizessem algo.

enquanto meu pai ficaria em casa

Eu pedia para eles lhes responder

tranquilo, porque três meses antes e

que eu era um filho rebelde que não

três

ouvia

foi

ninguém podia ser demitido. Nesses

obrigado a falar isso mesmo. Mesmo

seis meses corri para aposentar o

assim eles cortaram a energia. Existia

meu pai, conseguimos depois de

um

algumas

Houve

seus

uma

conselhos.

sistema

de

Ele

gerador

que

meses

depois

tentativas.

eleições

Em

entraram

Nuclebras na Juréia. De vez em

reintegração de posse contra a casa

quando eu usava esse telefone para

do meu pai. Pensei que não ia ganhar

mobilizar a comunidade, para marcar

do governo, mas o Bom Jesus de

as reuniões, porque era o único que

Iguape

tinha, eu esperava meu pai dormir e

Encontrei com um amigo que me

ia lá ligar. Quando o Estado percebeu

indicou uma advogada que era a

foi lá e cortou o telefone. Eles

favor das comunidades. Consegui

cortaram a energia elétrica que tinha

falar com ela e fui até seu gabinete,

em casa e meu pai me pressionava,

pois ela estava com o processo e ia

tinha medo de perder o emprego. Eu

despachá-lo. Quando a encontrei, ela

dizia a ele que se ele não perdesse o

me instruiu a fazer um abaixo-

emprego,

o

assinado para reverter a situação.

território. Eles estavam nos usando,

Com o abaixo-assinado ela deu ao

colocando um contra o outro. Fui

meu pai uma concessão de direito

perderíamos

obrigado a sair de lá, porque a 60 | CULTURA CAIÇARA

sempre

uma

seguida

alimentava o sistema telefônico da

nós

com

das

ajuda

ação

a

de

gente.


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

real de uso a titulo precário, por

“A gente sente que tem um avanço

enquanto ele tá lá seguro”. (Dauro)

muito pequeno, mas tem. Em passos curtos

a

gente

tem

conseguido

“Criamos um projeto de lei e levamos

algumas coisas. Espero que em

para o Secretário José Goldemberg,

poucos anos a gente possa caminhar

que começou a pressionar o Instituto

mais tranquilamente, porque a gente

Florestal para mudar a lei. O IF não

tá cansado de vir aqui falar de tudo

queria mexer na Juréia de modo

isso. Ninguém olha pra isso como a

algum, mas com alguma pressão eles

gente olha. Ninguém, eu falo dos

mesmos criaram outro projeto de lei,

poderes em si. Ninguém sabe o que é

um projeto de transformar a estação

passar

me um parque, mas parque também

ambiental na janela do seu quarto

não prevê a presença humana, só que

para saber o que você está fazendo

permite a visitação pública o que

ali, abrindo a porta do seu armário

traria dinheiro e investimentos. Nós

para ver o que tem guardado ali,

falamos que não, o que nós queremos

olhando o fumeiro do fogo para ver

é

de

se você não tem nenhuma caça. A

sustentável.

gente está vivendo o que já viveu

uma

na

alguns anos atrás, um regime militar.

Despraiada, outra na Barra do Una,

Porque a gente não pode fazer nada,

as demais comunidades estão fora

nosso regime é não poder caçar, não

desse contexto. Em seguida o Fabio

poder praticar a cultura que a gente

Feldmann mandou entrarem com

tem [...] a lei do mosaico caiu em

uma ação de inconstitucionalidade

2009, e a gente se sentiu mais

para derrubar essa lei, foi o que o

motivado a participar da questão

procurador geral fez. Entrou com

política. Esse ano nós entramos na

uma ação dizendo que a lei tinha

diretoria da Associação, somos novos

vício de iniciativa, significa que o

ainda

legislativo

o

trabalhando para que esse projeto de

executivo. Derrubou a lei e é tudo

lei seja aprovado de novo, que o

estação ecológica de novo. A gente

desenvolvimento

está na briga de novo”. (Dauro)

implantado na Juréia. A gente quer

que

se

conservação Criaram-se

criem de

unidades

uso

duas:

não

pode

onerar

a

noite

nisso,

com

mas

a

polícia

estamos

sustentável

seja

voltar lá e trabalhar um pouco no que meus pais e meus tios, meus avós RODAS DE MEMÓRIAS | 61


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

trabalhavam na Juréia. Por exemplo,

Comissão Nacional, a reivindicação

o que minha tia Glória falou: colher

principal é o território. Tendo nosso

arroz, eu não sei colher arroz. Não é

território nós podemos fazer tudo:

porque não quiseram me ensinar,

pesca, mutirão, fandango, tudo... Na

mas porque não teve oportunidade

Juréia nossa briga, nossa luta é

mesmo. Muita coisa que a gente sabe,

mudar a lei. Transformar toda aquela

muito nome de planta, é porque vai

área em reserva de desenvolvimento

passando no Morro da Juréia e eles

sustentável,

vão falando o que é. Essa questão de

voltar para lá, assim nós também

aprender as coisas que a gente não

tomaríamos conta dos recursos que

sabe, é bem a questão de não ter essa

tem ali. Ao contrario, tem muito mais

vivência, não estar ali trabalhando

gente aqui, no posto de saúde, tem

com os avós e os tios, fazendo roça,

muito mais fila. Lá nós temos outros

canoa. Só vi fazer uma vez e assim

recursos, chás, ervas, não precisamos

não dá para aprender e muitas das

vir até aqui nos médicos. Porque

coisas que a gente perdeu se devem a

vindo para cá, nós também estamos

isso, não tem como aprender se a

sujeitos as doenças daqui, ao stress.

gente

não

vive

no

“O esforço de pesca hoje é muito grande, por conta desse êxodo, as comunidades saindo do seu lugar e vindo para Iguape. Lá tinham uns mil pescadores, aqui deve ter uns três Lá

nós

atividades:

o

tínhamos

que

possamos

lugar”.

(Pedrinho)

mil.

para

outras

extrativismo,

a

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável é uma área natural que abriga populações tradicionais, cuja existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica (Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000).

agricultura, etc. aqui só têm a pesca.

Se o governo desse espaço pra gente

E todo mundo veio para cá pra

viver, ia todo mundo viver melhor,

pescar e não tem recurso para todo

ter uma qualidade de vida garantida.

mundo. Isso tem acontecido com

Eles estão expulsando nossos povos

comunidades de todo o Brasil, nas

do território, eles vem inchar a

reuniões que nós temos com os

cidade... Vocês têm que nos ajudar a

outros

levar esses povos de volta para o seu

povos

tradicionais,

62 | CULTURA CAIÇARA

na


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

lugar, porque lá também é de vocês

povo, para que a cultura caiçara

[...] finalizando, quando a gente

continue, tem que mudar a lei da

mudou a lei de novo e derrubaram a

Juréia para todas as comunidades.

lei (Mosaico da Juréia) e voltou a ser

Para criar um instrumento jurídico e

estação

promotor

ter mais força para falar em nome

público de Santos entrou com uma

das comunidades caiçaras, que tenha

ação civil pública dizendo que o

uma abrangência nacional. Temos

governo tinha 120 dias para tirar

que

todo mundo da estação ecológica,

comunidades, não temos que ter

porque lá não é permitida a presença

vergonha de ser caiçara, porque ser

humana. Nós entramos com um

caiçara

mandado

comunidades

ecológica,

de

o

segurança

pública

dar

visibilidade

é

muito

para

essas

bom.

indígenas

As e

coletivo, chamamos a defensoria

quilombolas têm um marco legal,

pública e explicamos que estão

elas estão na lei. E nós precisamos

querendo tirar todo mundo de lá,

dar

fizemos manifesto, abaixo-assinado,

caiçaras para que um dia elas

divulgamos no “Revelando o Vale do

também estejam. Porque a partir do

Ribeira”. Conseguimos segurar à

momento que você tem um marco

liminar, mas foi julgada agora e a

legal, você tem como cobrar mais

gente perdeu. E tá todo mundo no fio

afinco do poder público”. (Dauro)

visibilidade

às

comunidades

da faca de novo. Mas para salvar esse

RODAS DE MEMÓRIAS | 63


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

QUILOMBOS DO RIBEIRA Em 27 de agosto de 2011 foi realizada na Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira a Roda de Memória do Projeto Memórias Urbanas, cujo tema estava voltado às questões sobre a presença do negro na história da região. Sob o tema Quilombos do Ribeira, este encontro buscou registrar elementos dessa história pouco conhecida e trabalhada nas escolas. Cabe destacar que a Lei federal 10.639, de 2003, institui a necessidade de incorporar nos currículos escolares a História e Cultura Afro-brasileira e nossa intenção foi contribuir com material para que os educadores possam fazer esta abordagem a partir da história local.

Convidados: Francisco de Sales Coutinho, o Chico Mandira, nascido no município de Cananéia na comunidade do Quilombo do Mandira. Presidente da Cooperostra. Irene M. Coutinho, nascida no município de Cananéia na comunidade do Quilombo do Mandira. Anna Maria de Andrade é antropóloga e trabalha no Instituto Socioambiental (ISA). Coordenou o Inventário Nacional de Referências Culturais das Comunidades Quilombolas do Ribeira. José Rubens Fortes, nascido em Iguape. Formado como professor de educação básica, atuou como mestre de escola nos municípios de Iguape, Pariquera-Açu e Registro. É autor de uma coluna mensal no jornal A Tribuna de Iguape. Júlio Cesar da Costa, poeta popular no Vale do Ribeira, nascido em Maracatu. Integrante do Batucajé e autor dos livros “Cacos de Mim” (1994) e “Sortilégios e Tesouros: poemas, causos e lendas do Vale do Ribeira” (2007).

64 | QUILOMBOS DO RIBEIRA


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

1888 - Lei Áurea 1912 - Registro das terras dos Mandira 1969 – Criação do Parque Estadual Jacupiranga 1988 – A Constituição Federal determina a regulamentação dos territórios das comunidades quilombolas 1998 – Criação da Cooperostra 2002 – Criação da Reserva Extrativista do Mandira 2003 – Decretos regulamentam o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação e titulação de territórios quilombolas 2009 – Criação do Grupo Batucagé do Vale do Ribeira

RODAS DE MEMÓRIAS | 65


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Escravidão em Iguape “É encontrável aqui na região de Iguape vestígios de engenho, de senzalas, de obras feitas por escravos, da

existência

do

negro

na

comunidade, mas que não estava abarcado

por

um

trabalho

acadêmico, então nos distribuímos alguns afazeres e de minha parte

Chico Mandira

ficaram temas relacionados a cultura. O que constatamos é que o negro começou a chegar no Brasil no começo da colonização e em Iguape no século XVII com a mineração de ouro, esse ouro não era como o do norte em que se escava o rochedo, aqui o ouro era de aluvião, de rio. De

Irene Mandira

inicio os escravos foram trazidos para esse afã, de trabalhar na coleta do ouro. O negro da mineração tinha uma formação diferente do negro que trabalhou depois no arroz, ele tinha essa mesma ocupação lá na África, então ele já veio com o conhecimento do garimpo. Este negro era alto,

Júlio

magro, esguio e de perna fina porque os senhores distinguiam o negro pela batata da perna, entendia-se que o negro de perna fina era mais eficaz no trabalho. Não se tem registros de Iguape até Santos de entrepostos negreiros, então eles eram trazidos e vendidos sucessivamente até chegar aqui

na

região

de

Iguape.

66 | QUILOMBOS DO RIBEIRA

Os

José Rubens e Anna Maria


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

empresários não possuíam grandes levas de escravos, cerca de 10 a 15 escravos

por

propriedade.

Esses

negros trabalharam na coleta do ouro até a exaustão desse ciclo por volta de 1700, então temos o inicio do ciclo do

arroz

que

foi

muito

mais

significativo pra região. Segundo se entende esse negro trabalhou no arroz, nos engenhos e moravam nas senzalas próximas, estavam sobre o domínio do senhor. Já os quilombos possuíam um agrupamento mais amplo

e

se

constituíam

pelos

escravos libertos, ou os negros que não se encontravam mais sob o julgo. Essa época do ciclo do arroz por volta de

1800

é

o

responsável

pela

construção desses casarões e das Igrejas aqui em Iguape”. (José Rubens) Bairro do Mandira “Hoje o bairro do Mandira conta com 24 famílias, mais ou menos 115 pessoas. Nossa comunidade é uma das mais antigas de Cananéia, somos a sexta geração na comunidade. No quilombo Mandira, tudo possui este nome, o sítio, o rio e o sobrenome dos moradores, porém os negros mais antigos não possuíam esse sobrenome, à época era Vicente, e depois que o pessoal passou a ser

A Constituição Federal de 1988, nos artigos 215 e 216, reconhece aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.

chamado de Mandira, e adotamos esse nome. Esse nome Mandira vem de uma historia muito antiga, remete ao Dilúvio de Cananéia de 1615 que está

no

Cananéia.

livro O

de

histórias

Mandira

é

de uma

comunidade quilombola reconhecida pelo Estado, Fundação Palmares, porém, ela é diferente dos demais quilombos onde os negros fugiam e iam

para

lugares

distantes

e

formavam seus quilombos, locais onde os Capitães do Mato não poderiam localizá-los. O Mandira era uma fazenda de produção de arroz, na época em que o Vale do Ribeira produzia muito arroz. Teve o dono de escravo chamado Antonio Florêncio de Andrade, ele teve três filhos, dois homens e uma mulher, um deles com uma escrava. Esse filho se chamava Francisco Vicente. Na época, com o falecimento no D. Antônio, ficou apenas a filha mulher, Celestina de Andrade, como proprietária do sítio. Porém, ela queria ir embora para Minas por conta da exploração de ouro, então ela doou o sítio para seu RODAS DE MEMÓRIAS | 67


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

meio irmão, o filho da escrava, surgia

suas terras, herança do pai, ele

então a família Mandira. Alguns

pegava a canoa a remos, com a

foram

muitos

família, e ia até Cananéia e de lá

ficaram, entre eles o João Antônio.

através da praia chegava em Iguape e

Este teve dois filhos, um chamava

pegava um barco chamado Vapor de

João e o outro Antonio. Quanto a

Iguape e ia até São Paulo para brigar

esse ultimo existem muitas histórias,

pelo terreno no Mandira e ganhou a

que ele era muito forte, carregava sua

questão, registrando as terras como

canoa nas costas, ele era muito forte

sendo do Mandira em 1912. Bom,

e ao mesmo tempo muito ruim, então

quando a Celestina doou a terra para

ele levava a canoa dele pra um lugar

o Francisco foi em 1888, antes da Lei

muito

para

Áurea. Naquela época o pessoal do

ninguém mexer, segundo o que

Mandira era muito discriminado,

contavam, ele jogava lá no barranco

eram briguentos, andavam juntos e

porque era muito pesado. Já o João

começaram a falar “lá vem a negrada

era diferente, era calmo, era vidente e

do Mandira” e o pessoal achava que

previa

estavam

eles ocupam a área, mas na verdade

com

a

eram proprietário. Então, teve a

comunidade. Muito inteligente ele se

questão desse Coronel que queria

tornou na região como um advogado

registrar a terra no nome dele, e o

dos

meio

embora,

distante

as

porém

nas

coisas

acontecendo

com

pobres,

costas

que ele

mesmo

e

não

tendo

de

sobrevivência

da

frequentado a escola ele aprendeu a

comunidade era a caça, a pesca, a

ler e escrever em casa. Quando ele ia

lavoura, conhecida como agricultura

defender as pessoas no juiz ou na

familiar, mas nos conhecemos toda

delegacia

o

vida como lavoura e também chegou

escrever.

a década de 1950, 1960, começamos

Naquela época tinha os coronéis, e

a explorar Caxeta e o Palmito Juçara.

um chamado Coronel Cabral que

Na época o pessoal do sítio tinha um

ainda hoje possui terras na região,

grande amor pela natureza, pela

ele queria ser dono da área sobre

água, pela mata, por tudo aquilo que

domínio do Mandira, queria ser dono

se sobrevivia dele. Cipós, eles só

de toda área, uma área muito grande

tiravam cipó maduro quando eles

de terra. Na época não existia

precisavam, os que estavam verde

estradas, então para ele defender

eles deixavam pra tirar pro futuro.

escrevente

ele

ditava

tinha

o

que

68 | QUILOMBOS DO RIBEIRA

que


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Eles preservavam a natureza, tinham

cultura dos negros, caiçaras, por isso

um

Juçara

que tinha caça, as pessoas viviam da

antigamente se tinha dez pés de

caça, eu me criei comendo carne de

palmito eles tiravam 5 ou 6 e

caça, meu pai nunca foi no mercado

deixavam o resto para repovoamento

comprar um quilo de carne. No

e alimentação dos bichos, assim era

passado os homens respeitavam a

feito também com a caça”. (Chico)

natureza. Tem uma parte de mato lá

cuidado.

O

Palmito

que estávamos fazendo uma trilha, Modo de vida na comunidade

uma área de um sítio arqueológico,

quilombola

sambaqui, uma mata em que meu

“Hoje é proibido caça. Antigamente

avô falava que ali não poderia

tinha porque o pessoal respeitava o

derrubar, em qualquer lugar poderia

ciclo de reprodução dos bichos. A

pra fazer roça, mas ali só poderia

partir do meio de maio até agosto é o

tirar madeira pra fazer um cabo de

mês de caça de paca, tatu, veado e

foice, uma casa, ela tinha que ser

depois dessa época o pessoal não

preservada pra esses fins”. (Chico)

caçava porque é a época de cria. Se matar uma caça entre agosto e

Remanescentes de quilombo

outubro, além de matar a mãe irá

“Quando

matar os filhotes. A única caça que

éramos uma comunidade negra, o

era morta o ano todo era o porco do

padre João Trinta disse isso e o povo

mato e o cateto porque eles criam o

ficou tudo revoltado contra ele, não

ano todo, então não tem época de

queríamos

criação, o pessoal sabia dessas coisas,

negros, tínhamos vergonha disso.

não

ensinar.

Depois começamos a nos identificar

Tinha a questão que o pessoal fala

como negro quando duas irmãs

“não pode caçar”, mas naquele tempo

vieram fazer alguns estudos na

quando nascia um filho homem, o

comunidade e ficamos sabendo que

pai da criança, ou avô, já pegava a

enquanto

espingarda e saia na rua e atirava pra

alguns direitos. Então hoje nós

cima e você sabia que nascia um filho

assumimos

homem, e se fazia isso para que

remanescentes de quilombo. Fruto

aquela criança se tornasse um ótimo

de várias reuniões, nós conseguimos

caçador, era tradição, fazia parte da

descobrir qual a nossa situação,

precisava

ninguém

ficamos

ser

sabendo

classificado

quilombola que

somos

que

como

teríamos negros

RODAS DE MEMÓRIAS | 69


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

nossos

direitos,

a

questão

do

hoje nos fazemos uma festa para

trabalho das ostras e desse como

arrecadar

fundos,

pelo

sendo desqualificado. E com esse

tentamos, antigamente o pessoal

trabalho também foi responsável pela

fazia o terço. Dia 12 a noite tem o

elevação da nossa estima e passamos

terço cantado e de manha cedo tinha

a assumir esse trabalho também,

o terço normal. Então o pessoal de

nesse contexto tivemos a criação da

várias

cooperativa”. (Irene)

Município de Jacupiranga iam pra

comunidades,

menos

até

do

festa, ai eles levavam arroz, porco, Tradições

galinha e tal. Lá a noite eles faziam

“Quanto às tradições religiosas, hoje

um café e colocavam tudo ali e todo

elas diminuíram muito se comparado

mundo tomava café e comia daquilo

da época dos meus pais, o que

ali, todo mundo junto em comum.

preservamos ainda é o terço cantado,

Depois do café as mulheres pegavam

já o Fandango está muito pouco,

todo a doação, cortavam e faziam a

apenas o meu cunhado que sabe

carne com arroz, e ali pelas 11 da

tocar

meninos

noite tinha a janta e ninguém

começaram a praticar capoeira mas

comprava nada, nós tínhamos o que

pararam também, não sabemos, mas

sobrava e o que o pessoal trazia e de

os jovens não tem mais interesse na

manha tinha outro café, o que a gente

nossa cultura, eles querem sair. Das

chamava de alvorada e outro terço

festas religiosas nos temos apenas a

cantado. Quem vendia alguma coisa

do padroeiro, a de Santo Antonio,

nas festas eram as moças que faziam

mas as outras festas que tínhamos

broinhas

antes como o carnaval, as reiadas, os

vendiam pra rapaziada... eram as

moleirões, não tem mais”. (Irene)

únicas que vendiam alguma coisa.

o

fandango.Os

de

mandioca,

então

Depois mudou, o pessoal começou a “No tempo em que éramos jovens

fazer barracas e não tem mais àquela

tinha muito fandango, tinha porque

coisa de trazer as coisas, tem que

nós éramos solteiros e queríamos

comprar... então mudou a festa de S.

namorar, então quase todo fim de

Antônio, mas ainda tem o terço

semana tinha fandango e mutirão,

cantado, que já foi gravado pelo

outra coisa que acabou praticamente.

pessoal

Outra coisa era a festa de S. Antônio,

memórias, muitas coisas se perderam

70 | QUILOMBOS DO RIBEIRA

do

Itesp.

Então

são


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

porque os jovens não querem mais

comunidade

não

vai

ter

acesso

saber de fandango”. (Chico)

porque está lá na academia, e seria muito importante que isso voltasse

“As pessoas chamam qualquer coisa

principalmente

de mutirão, mas tem o mutirão, a

poderem entender, por exemplo,

pojuba e o ajutório. Mutirão é

porque

quando alguém queria fazer uma

Ivoporundura. As pessoas precisam

roça ou canoa ou uma coisa desse

tem o conhecimento do que é seu, e

tipo, ai juntava 30 a 40 pessoas que

esse é um pouco do sentido da nossa

trabalhavam o dia inteiro e o dono da

poesia da oralidade, ela não é feita

roça dava o almoço e a janta e a noite

pra ficar presa no papel, ela foi feita

tinha o fandango, o baile, isso é

pra

Mutirão. A pojuba também tinha

compreensão, essa é a principal

baile, mas as pessoas que eram

ferramenta do meu trabalho. Não

convidadas almoçavam em casa e

tenho pretensão de dizer que é um

depois do almoço iam trabalhar até a

trabalho bom ou ruim, melhor ou

noite e depois tinha a janta e o baile.

pior, mas é um trabalho autentico,

O ajutório o pessoal juntava 10 a 15

nosso e quando começamos com esse

pessoas e iam fazer uma roça ou

trabalho as pessoas perguntavam o

trabalhar numa casa e todo mundo

que a gente ia ganhar falando do vale

dava o café, o almoço, café da tarde e

do Ribeira? Gente, é aquela coisa que

depois as pessoas iam embora, não

para você entender essa questão do

tinha baile. Hoje eles convidam 4

advento

pessoas pra trabalhar em alguma

fronteiras em que o mundo está

coisa e fala que é mutirão, não é, isso

pequeno, o Chico mesmo já virou

é ajutório”. (Chico)

cidadão do mundo, mas a gente

Ivoporundura

dialogar,

precisa

para

pra

global,

aprender

da

a

os se

jovens chama

permitir

questão

entender

a

das

o

“Imaginam o quanto de produção de

próprio espaço da gente, como a

mestrado e doutorado foi produzido

gente vai ser universal se não

nesses anos, e o que voltou à

conhecemos nem o nosso quintal.

comunidade? Pouquíssimo neh. Você

Precisamos nos apropriar do nosso

já pensou uma pessoa que foi

gueto, do nosso espaço”. (Júlio)

entrevistada em 1977, uma pessoa de 80 anos, é um material que a RODAS DE MEMÓRIAS | 71


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Criação do Parque Estadual de

e

Jacupiranga

sobreviver. Éramos perseguidos pela

“Na década de 1960 foi criada na

policia ambiental, quando a gente

nossa comunidade o Parque de

voltava e ouvia a fala da polícia na

Jacupiranga,

sete

beira do porto a gente corria e virava

até

a canoa e escondia a coleta porque

vários

nos não tínhamos o dinheiro para

quilombos, inclusive parte do sítio do

sobreviver, imagina para pagar a

Mandira foi incluída. Com isso o

multa,

Estado criou a Polícia Ambiental e as

tínhamos vontade de mudar isso,

comunidades foram proibidas de

quando foi em 1993 o pessoal da

fazer tudo. Não poderia caçar, fazer

Universidade de São Paulo (USP),

roça, tirar palmito, caxeta, e ai nós

através

resolvemos

do

estiveram em Mandira e fizeram uma

Mandira, na década de 1970, 85%

proposta para o meu tio, já falecido,

das terras. E algumas pessoas que

de fazer um trabalho na comunidade.

não venderam, como minha mãe e

Naquela

alguns dos meus tios, ficaram lá, mas

chamado

tinham que sobreviver de alguma

trabalhava

maneira, ai a única solução foi partir

trabalhou na estrada do Itapitangui

para trabalhar com ostra. A parir de

ao Ariri e conheceu a história da

então passamos a viver da ostra a

comunidade e acabou simpatizando

partir de 1978”. (Chico)

pela nossa causa e junto ao Diegues

municípios Jacupiranga,

pegando desde

Cananéia

pegando

vender

o

sitio

você

precisa

era

realizou

vender

muito

do

difícil.

professor

época

tinha

Renato na

esse

para

Então

Diegues,

um

rapaz

Sales

que

SUDELPA,

trabalho

ele

junto

à

Criação de ostras

comunidade. Na época o Instituto

“Nós trabalhávamos com ostra como

Florestal (IF) contratou um técnico

clandestinos,

em

que foi gestor do Parque da Ilha do

quantidade muito grande porque o

Cardoso, ele fez um trabalho no sul

preço era muito pouco, vendíamos

com

para o atravessador e como todos

comunidade com a proposta de

sabem, quem produz e vende para o

engorda

de

atravessador não estabelece o preço

melhorar

a

do produto, é o atravessador quem

Quando começou esse trabalho com

diz quanto quer pagar pelo produto,

a USP e o IF começamos a trabalhar

tirando

ostra

72 | QUILOMBOS DO RIBEIRA

mexilhões.

Ele

ostra

chegou para

qualidade

da

na

tentar ostra.


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

de outra maneira com a ostra,

implantar nas suas comunidades,

pegávamos

ela

levávamos

para

esperávamos

no

mangue

e

então começou uma mobilização dos

o

viveiro

e

técnicos que estavam nos apoiando

sua

engorda.

Nos

trabalhávamos com ostra a muitos

para

que

nós

saíssemos

da

clandestinidade”. (Chico)

anos e nós ficamos receosos de mudar nossa técnica de trabalho,

“Então surgiu a ideia de criar uma

mas

cooperativa,

eu

falei

que

ia

fazer

a

uma

associação

experiência e se não desse certo eu

pequena

empresa.

voltaria pra mesma atividade. Foi

havíamos

criado

quando eu chamei um técnico do

Reserva Extrativista do Mandira,

Instituto de Pesca, na década de

pois à época alguns ambientalistas

1960, também teve um estudo de

viram um casal de mico leão dourado

criação de ostra em Cananéia e o

lá na divisa com o Paraná, então

técnico falou que lá não era um local

queriam criar uma Estação Ecológica

propicio para criação de ostra, havia

desde Itapitangui até Guaraquiçaba.

apenas alguns pontos do estuário que

Com a criação da estação não

era propicio para a criação de ostra.

poderiam

Então chamamos esse técnico e ele

apenas a visita de pesquisadores.

falou o local que era bom, então

Então com a chegada do Instituto

definimos

a

Chico Mendes, chegou a APA e nos

comunidade começou a ir ao viveiro

mostraram como funcionava e nos

e a ver que a ostra estava crescendo

disseram que para garantirmos o

com aquele sistema de trabalhar,

direito

então todos foram fazer o mesmo

teríamos que criar a reserva. Então

serviço, e assim fizemos. Começamos

fizemos o pedido da criação junto ao

aquele

local

e

de

mais

Em

ou

a

ter

permanecer

1995

Associação

moradores,

na

terra

a vender in natura para um cara de São Paulo e um do litoral, a procura da ostra de viveiro passou a ser maior do que a retirada do mangue, pois a sua durabilidade é muito maior. Então as outras comunidades de Cananéia começaram a ir ao Mandira

Reserva Extrativista é de domínio público, com uso concedido às populações extrativistas tradicionais conforme o disposto no art. 23 desta Lei e em regulamentação específica, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser desapropriadas (Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000).

para ver o sistema e começaram a RODAS DE MEMÓRIAS | 73


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

governo federal em 1995, o diretor do

sobrinha saiu a pouco tempo depois

IBAMA esteve na comunidade, disse

de

que poderíamos criar a Reserva do

colocando outra sobrinha minha para

Mandira, porem ele foi embora e

trabalhar como secretária, então os

poucos dias recebemos uma carta

mais

dizendo que era impossível criar uma

administração,

reserva extrativista em terra firme

estamos

porque o governo não teria recursos

agora depois de 13 anos que estamos

para

dos

conseguindo entrar no mercado de

proprietários. Então o Secretário do

São Paulo, em litoral já temos um

Meio Ambiente do estado de São

mercado garantindo. Porem antes

Paulo, Fabio Feldman, propôs à

nós dizíamos que a ostra era de

comunidade a criação de uma reserva

Cananéia, porem com isso outros se

estadual, e por fim não conseguimos

beneficiavam,

também. Depois de alguns anos, o

divulgar a ostra da cooperativa”.

IBAMA retomou o projeto de criação

(Chico)

desapropriação

dar

a

luz,

jovens

então

ficam

a

mas

interados

estamos

cargo nós

e

então

da

todos

palpitamos,

passamos

a

da reserva e este se deu em 2002, a criação da primeira reserva federal

O

em são Paulo. Como eu disse do

comunidade

processo

“Nesse ano (2002) também fomos

de

sairmos

da

clandestinidade,

optamos

pela

cooperativa

porque

reconhecidos

como

da

comunidade

os

quilombola e ganhamos o premio Rio

da

+ 10, pela ONU, que possibilitou a

pequena

saída do primeiro Mandirano para

empresa possui um dono e os demais

fora do país e ir à Johanesburgo na

trabalham para este, nesse sentido

África do Sul. Eu fui mostrar nosso

criamos a cooperativa. De inicio

trabalho de preservação ambiental e

quase

de

cooperados

são

cooperativa

e

todos

reconhecimento

proprietários numa

fechamos

porque

não

desenvolvimento

comunidade,

conseguimos um curso para que os

também ganhamos o premio ECO 99,

filhos

da

cooperados

fizessem

Shell.

Nós

esse

da

sabíamos como administrar, mas dos

com

social

trabalho

ressaltamos

esse

cursos de informática voltada ao

prêmio não pelo prêmio, mas pela

cooperativismo.

valorização

Meu

filho

ficou

depois dois anos trabalhando, minha 74 | QUILOMBOS DO RIBEIRA

do

nosso

trabalho,

porque a gente lá na roça não


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

uma vasta margem do rio, ano Decreto nº 4887 de 20 de novembro de 2003 regulamenta o procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos de que trata o art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.

passado fizemos roça e preservamos

percebe a importância do nosso

como nós nos organizamos e como o

trabalho, tínhamos a impressão que a

Estado nos apoia. Estive também

gente nem faz parte desse país. Mas

com pescadores no sul da Bahia e o

nós

nossos

pessoal por lá conseguiu retomar

antepassados morreram lutando para

suas atividades com as questões que

melhorar nosso país e até hoje nos

eu passei para eles, a forma que nós

trabalhamos para

melhorar isso.

trabalhamos na nossa cooperativa,

Conseguimos vários benefícios, entre

mesmo eles não trabalhando com

as mulheres e os jovens. Já estive na

ostras. Estive em Paraty e um

Itália, fui convidado no ano passado

condomínio esta querendo construir

pelo ISA para ir à Dinamarca para

um píer no mangue, ai o pessoal me

discutir a questão climática, e mostra

chamou para ensinar a fazer viveiro

a importância do nosso trabalho na

de ostra por lá, ai as pessoas me

questão da preservação ambiental,

perguntaram

não é apenas importante para a

competir comigo, mas não é assim,

comunidade, é relevante para o

eu vendo o meu e ele vendo o dele, eu

mundo todo. Com isso as pessoas

acho que é importante a gente estar

veem que o Mandira esta no caminho

passando os conhecimentos que a

certo, e não é que estamos fazendo

gente tem. Depois de um tempo eu

agora, não tem nada de novo, tudo

encontrei

aprendemos com nossos antigos.

cooperativa de Paraty e ele me disse

Hoje tem educação ambiental, mas o

que eles já estavam vendendo ostra,

que fazemos são coisas que meu avô

tem coisa melhor que isso? E assim a

fazia, só não possuía esse nome. Hoje

gente vai mudando o Brasil, a gente

é proibido derrubar a margem do rio,

brasileiro”. (Chico)

participamos

sim,

a beira do rio, nós sempre tivemos esse cuidado da preservação porque nós dependemos da natureza. Esses tempos eu estive em Campos (RJ) para mostrar nossa experiência, de

se

com

eles

o

não

presidente

iam

da

e naquele tempo o pessoal preservava

RODAS DE MEMÓRIAS | 75


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Articulação das comunidades quilombolas

Roda de Memória

“Nós temos no Vale do Ribeira o EAACONE (Equipe de Articulação e Acessória das Comunidades Negras do Vale) que tem sede em Registro e periodicamente

temos

reuniões,

mais ou menos a cada dois mês para planejar

a

comunidades

articulação para

buscar

das seus

direitos. Antes, nós não sabíamos de nossos direitos enquanto negros, e com esse grupo temos acesso a essas informações, agora temos orgulho de sermos negros e fazermos parte da história do Brasil. Mas tem muitas comunidades que ainda tem vergonha de sua origem. Uma vez fui para Manaus e uma mulher da Fundação Florestal (FF) que me acompanhava perguntou para uma moça que possuía traços indígenas: “você é descendente de índio?”, e ela não assumiu, mas a cara dela é de

temos que nos assumir, por isso

índia, então a pessoa tem vergonha

temos essa associação”. (Chico)

de sua origem, claro que isso vem mudando, o negro já possui sua

Poesia no Vale do Ribeira

identidade, mas ainda tem pessoas

“Falo

que se auto-discriminam por ser

experiência do meu trabalho com

negros. Muitos dizem “Chico você

poesia popular no Vale do Ribeira.

não é negro, sua cor é de burro

Estudei

perdido”, mas minha ascendência é

adolescência,

de negro, olha o meu cabelo. Então

formação foi em Ed. Física, fui atleta, defendi

76 | QUILOMBOS DO RIBEIRA

um

pouco

na

a

da

minha

cidade

minha

seleção

minha

até

primeira

brasileira

em


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

alguns

eventos

regionais

e

Batucajé e as memórias do Vale

internacionais, depois voltei ao Vale

do Ribeira

do Ribeira e como essa coisa da

“Esse

poesia,

Maracatu, nosso projeto é bem

do

texto

sempre

me

trabalho

sediado

parecido

Letras e nesse meio tempo eu

memórias,

comecei um processo de descobrir

história da cidade através do olhar da

essa questão da formação do vale,

população e dentro dessa questão da

dos povos e esses conceitos de

memória vamos bebendo de outras

quilombo, mesmo a minha cidade

fontes como a poesia, a música e a

possuindo

historiografia

comunidade

esse

que

em

acompanhou eu acabei cursando

uma

com

é

buscamos

da

é

contar

cidade.

de a

Dentro

quilombola. Ai conversando com a

desse meu trabalho do grupo eu

minha mãe ela começou a me contar

acabei tomando a linha da poesia

as histórias dos seus pais, meus avós,

regional. Lancei um livro em 1994

ai eu comecei a perceber essas

chamado “Cacos de Mim” que tratava

questões que não são só do litoral,

das minhas influencias da poesia

mas de todo o Vale como um todo

moderna

através da ocupação por meio do rio.

Cecília Meireles) eu sempre tive uma

Nos anos 90 eu conheci o Lara, nos

influencia desses poetas, que eu

encontramos aqui no Vale e eu já

sempre li na minha juventude, então

tinha esse trabalho com poesia e ele

esse

com a música. A partir disso, nos

influências

unimos para cantar e fazer um

Batucagé na etimologia está ligado

trabalho,

aos

não

tínhamos

muitas

(Drummond,

primeiro

livro do

batuques

Vinicius,

traz

fortes

modernismo. com

intenções

pretensões, trocávamos experiências

religiosas. Mas nós, dentro do nosso

de arte e poesia. Montamos um

caiçares, a gente colocou esse nome

grupo que se chamava Batucajé e

para remeter as questões de como

começamos a participar de algumas

você junta às pessoas para contar

intervenções aqui e ali e nosso

histórias, como a gente ta fazendo

trabalho foi ganhando um destaque”.

aqui, isso é um batucagé. Mas eu

(Júlio)

trazia essa coisa de redescobrir o Vale, eu passei muito tempo fora, então era mesmo um processo de redescobrir e através desse grupo RODAS DE MEMÓRIAS | 77


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

viajamos e passamos a ter uma

imaterial. Esse trabalho não é apenas

aproximação com as comunidades,

pesquisa,

as lideranças. Eu e o Lara temos

intervenção,

personalidades diferentes, enquanto

comunidades se apropriem desse

ele é mais comunicativo eu sou mais

trabalho e toquem esse levantamento

calado, fico mais atento a fala e em

por

incorporar isso. Eu sempre acho que

comunidades que participam: aqui

a poesia nasce de forma oral, da

em baixo nos temos em Cananéia os

oratória. A escrita e essa questão da

quilombos do Mandira, Morro Seco.

oralidade

é

Em Eldorados nos temos o Abobral,

necessário que você registre, mas o

Sapatu, Pedro Cubas, Pedro Cubas de

que da vida a poesia é a verbalização,

Cima, Ivaporunduva,

quando você pega os violeiros, que

Galvão, Nhunguara. Em Iporanga

tem

nos

caminham

domínio

improvisação

do é

juntas,

verso

fantástico,

e

da

é

elas

um a

projeto

ideia

é

mesmas.

temos

Santa

que

São

São Rosa,

de as

16

Pedro, Pilões,

você

Pombas e Praia Grande. Em Itaoca

consegue usas de diversos recursos, é

temos Cangume e Porto Velho. Em

uma gama de coisas muito grande”.

cada comunidade dessas nos temos

(Júlio)

um agente cultural treinado por nós do ISA e pelo IPHAN para aplicar os

Inventário

de

Referências

questionários do inventário. Esse

Culturais dos quilombolas

questionário é dividido em cinco

“O projeto específico no qual eu vou

temos principais: as celebrações, as

me ater aqui é o Inventário de

formas de expressão, os ofícios e os

Referencias

Culturais

das

Comunidades Quilombolas e o que é isso? É uma maneira de levantar e dar

visibilidade

imaterial

dos

trabalho

nos

ao

Mutirão em Iporanga

patrimônio

Quilombos.

Nesse

adotamos

uma

metodologia elaborada pelo IPHAN, então nos realizamos um trabalho para o IPHAN, essa metodologia do IPHAN é uma das partes da política de

salvaguarda

do

patrimônio

78 | QUILOMBOS DO RIBEIRA

Foto: Titi Ribeiro.


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

modos de fazer, os lugares e as

não anda mais com os foliões, ela

edificações... Ai, quando a gente

anda

chega

principais

preocupante é o declínio da atividade

dificuldades pra gente, enquanto

agrícola, a atividade de roça. É claro

antropólogo ou pesquisador é como

que a ajuda do governo a essas

colocar aquilo que estamos vendo, a

comunidades é importante, mas sem

vida acontecendo, transformada em

uma política de incentivo a roça

dados e encaixá-la nessa classificação

acabam solapando essa atividade, e

do IPHAN, então temos todo um

sem a roça não temos o mutirão,

trabalho de ‘domesticar’ esses dados

pulhuva, nem reunida, nem ajutório,

e transformá-lo num texto que se

não tem mais, e se a gente não tem

encaixe nessa metodologia. Então, o

mais isso não tem os bailes depois e

inventário

composto

se a gente não tem os bailes a gente

dessas informações, mas nós estamos

não tem as musquetas, a dança do

tentando

às

chapéu, a anhamaruca, o fandango, e

comunidades também se esses bens

se a gente não tem os produtos da

estão íntegros, se eles são memória

roça a gente não tem mais o tipiti,

ou se eles são ruína. Isso é para a

peneira, pilão, a roda, o monjolo...

gente começar a pensar se esses bens

quer dizer, acaba tudo, ai a gente vê o

estão ok, se está sinal amarelo e esta

sistema. [...] se a vida é difícil na roça

se

é

é importante que a gente crie

necessário fazer alguma coisa pra

condições pra que não seja tão difícil,

garantir sua salvaguarda. E o que eu

eu não sei se eu sou muito nostálgica,

tenho a dizer no panorama que

mas

estamos traçando é que tem muita

conhecimentos

coisa que é integro e memória,

crianças hoje fazem uma trilha e não

porque o bem natural ainda existe,

sabem identificar um pé de planta,

mas, ou uma pessoa quem faz ou ele

tem que comprar um pacote de arroz

mudou tanto que o jeito que ele era

que os pais dele plantavam e às vezes

feito não existe mais, então ele

eles não tem o dinheiro. O objetivo

encontra-se

estagio

desse trabalho é fazer com que essas

intermediário entre existir e não

comunidades se apropriem desse

existir. É o caso da bandeira do

conhecimento,

divino em muitos lugares, porque ela

sistematizando

uma

está

das

sendo

levantar

perdendo

muita

em

junto

coisa

um

e

em

silencio.

eu

quero

Outra

que

coisa

não

esses

acabem.

nos todas

As

estamos essas

RODAS DE MEMÓRIAS | 79


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

informações e estamos passando pra

de represas, represas estas que vão,

elas para que elas vejam o que e

além de inundar terras, inundar

como elas eram preservar e se gostar.

história, memórias e uma boa parte

Muitas

da historia do Vale do Ribeira que

escolas

desvalorizam

os

conhecimentos dos mais velhos, das

esta

ai

comunidades quilombolas. Gostaria

quilombolas, então é uma luta nossa

de salientar que toda essas história

porque tem muitas histórias do vale

tem também como objetivo dar

que

visibilidade e valorizar o Rio Ribeira

(Anna Maria)

estão

nas

nessas

comunidades

comunidades”.

nesse processo atual da construção

Quilombo dos Mandira, Cananéia. Foto: Danilo Pereira, 2009.

80 | QUILOMBOS DO RIBEIRA


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

HISTÓRIAS DE PEDRA E CAL Em 17 de setembro de 2011 foi realizada na Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira a Roda de Memória sobre a temática: Histórias de Pedra e Cal. O objetivo era ouvir relatos que tivessem como foco o patrimônio edificado na cidade e na área rural. Detalhes das técnicas construtivas e da fonte dos recursos para a construção, as iniciativas para a conservação deste patrimônio e as histórias de vida de nossos convidados alimentaram as conversas, cujo registro encontra-se aqui dividido por temas de falas.

Convidados: Lúcio de Aguiar, morador do Costão do Engenho. Paulo Fortes Filho, pesquisador e historiador da cidade. Cleide de Moraes Carneiro, moradora de Iguape. Emerson da Silva Santos, responsável pelo Projeto Oficina Escola.

RODAS DE MEMÓRIAS | 81


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

1538 – Fundação da sede da vila onde hoje se encontra o bairro do Icapara 1614 – Transferência da sede da vila para a região às margens do Mar Pequeno, onde hoje se encontra o Centro Histórico 1653 – Construção da Casa Real de Fundição de Ouro, a primeira no Brasil à época. 1848 – a Vila é elevada à categoria de cidade

1856 – Inaugurações da Basílica do Bom Jesus de Iguape 1969 – o centro histórico de Iguape é tombado pelo CONDEPHAAT 2009 – o centro histórico de Iguape é reconhecido como patrimônio nacional pelo IPHAN

82 | HISTÓRIAS DE PEDRA E CAL


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Trabalho na roça “As construções

Iguape, no

eram feita de pedra, fazer casa de

começo, principalmente no rural,

pedra é difícil. Só o alicerce. O

eram de madeira. Casa de pau a

casarão perto do engenho é de pedra

pique. Ali ia vivendo, plantando as

e cal, feito pelos escravos. Ali tinha

coisas. Criava também os animais, as

um engenho de pilar arroz, tinha esse

condições de antigamente não eram

monjolo, tinha a cachoeira, aí fazia

iguais as de hoje, antigamente era

um pilão e aqui atrás ficava uma água

mais fácil, não tinha tanta exigência

e a água caia aqui, quando a água

como hoje tem. Antes a gente

caia, enchia e suspendia isso aqui

derrubava o mato, plantava e colhia.

virado para cá e a outra caia e o

Hoje não pode nem derrubar para

monjolo caia no arroz para pilar.

plantar. Mas é ignorância, porque o

Depois que veio a construção dos

trabalhador rural braçal nunca deixa

engenhos, tinham vários engenhos

a terra nua, para não dar erosão,

ali

enchente.

que

engenhos, tudo de arroz, até lá no

derrubam tudo e a erosão vai para o

Matias. Quando foi feita a maquina,

rio. Eles podem fazer, mas a gente

caiu tudo e não tem água mais. Na

não. Eu trabalhava na roça, hoje não

casa grande, ali era de pilão também,

trabalho mais, porque tem que fazer

depois

um requerimento pro IBAMA, você

revolução de 1930, Iguape levou

se você faz hoje, só daqui três ou seis

muita gente para se esconder lá. O

meses que sai o resultado. O que

prefeito pegou a maioria do povo e

adianta isso? O fazendeiro grande

levou lá para cima, aquele casarão

não, ele entra derruba a mata, aí vem

ficou lotado de gente”. (Lúcio)

São

em

para fazer o alicerce, as casas não

os

grandes

que

faziam,

que

caiu.

tinha

Na

uns

época

oito

da

a erosão e leva tudo para o rio”. (Lúcio)

Icapara “A maioria das casas de Icapara era

Engenhos de arroz

de taboado, que cortava do mato ou que acostava na praia. Eram bem

“Eu trabalhei no sítio. Quebrei muita

simples, uma sala enorme e a outra

pedra para construir casa em Ilha

parte a cozinha. Com o passar do

Comprida, em Iguape e assim fui

tempo, as casas ganharam outros

vivendo. Era pedra, cal e cimento

compartimentos:

os

quartos.

RODAS DE MEMÓRIAS | 83


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Geralmente um quarto maior, o mais

tem que ser alterada para que ele

reservado no fundo da casa era para

possa viver. Claro, com certo limite,

as moças. Era uma casa bem simples,

que reprima aquilo que não tá certo,

bem rústica. Depois apareceram as

mas a gente não pode deixar que ele

casas de tijolos. A casa do caiçara

não viva.

geralmente

habitat e veio engrossar a periferia

é

de

madeira.

A

Ele foi expulso do seu

passagem para o quarto das moças

das

era quase proibida. Até hoje a gente

subemprego”. (Paulo Fortes)

percebe

em

algumas

casas

grandes

cidades,

com

de

caiçaras, na porta da entrada uma

Festas

cruz e na porta do fundo a estrela de

“As festas eram mais modernas do

Davi, o signo de Salomão. Eu não

que hoje. Dançava de verdade. Hoje

entendia o porquê disso, porque

tem uma separação terrível, o pobre

nunca

uma

não pode se misturar com o grande.

comunidade de judeus aqui no nosso

Era melhor que hoje. O motivo devia

litoral. Então o dono da casa falava: a

ser de acordo com a exigência. A

soube

que

tinha

gente se pega com Deus e com o Diabo, para se defender de tudo”. (Paulo Fortes) Legislação Ambiental “Depois

também

com

as

leis

ambientais, não sou contra porque elas são necessárias, mas não se pensou no caiçara que vive lá. A lei protege

a

formiga,

o

caramujo,

Paulo Fortes

lagarto, o jacaré, o macaco, a onça, mas não protege o homem. Hoje em dia, se a gente passar nas ruas do litoral, a gente encontra uma roça de mandioca. Mas é como se fosse um museu, porque hoje não tem como plantar. Durante séculos o caiçara viveu e preservou aquilo, mas a lei 84 | HISTÓRIAS DE PEDRA E CAL

Lúcio de Aguiar


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

festa do povo do sítio antigamente

dessa cidade, tirava sozinho, cada um

era o carnaval, ia na casa de um hoje,

tinha seu lugar. Tinha uma porção de

na do outro amanhã, cada dia na casa

gente que fazia isso. A vida modificou

de um. E o baile da Sandália de

muito”. (Lúcio)

Prata? Esse era aqui na cidade. No meu tempo não existia, só fandango.

Preservação

Faz

“O

tempo

que

eu

comecei

a

tempo

marca

as

coisas,

o

frequentar, muito antes de vocês

progresso tem algumas vantagens e

chegarem lá”. (Lúcio)

algumas coisas que atrapalham. O que a gente percebe que aos poucos

“Nos bailes que se faziam para

vai

se

degradando

dançar com alguém a gente tinha que

histórico, era mais bem cuidado.

falar uma trova para essa pessoa.

Agora com essa nova orientação do

Tinha o violeiro, era um negro, uma

IPHAN,

hora ele deixou a viola para ir dançar,

Prefeitura

foi tirar a moça para dançar e ela

preservando, mas muita coisa foi

disse que não dançaria com aquele

deixada de lado. A gente vê em

negro, aquele urubu. Eu disse: eu

algumas fotos. Ali no funil, onde está

do

é

o

centro

CONDEPHAAT,

que

tão

da

cuidando

e

sim. Dançamos e ele voltou para a viola. Aí ele fez uma modinha assim: Urubu é bicho preto, feio e muito catinguento, mesmo assim as moças chamam para o seu divertimento. Porque ele que era o violeiro”. (Cleide) Pedra “Tirava pedra com a marreta de cinco quilos, com a base do martelo, pegava assim na pedra, batia, a pedra abria, ferro grande comprido. Batia com a marreta quebrando. Da minha família só eu que tirava pedra. Vendi

Conforme Machado (1986), o tombamento é um instrumento jurídico de proteção do patrimônio natural e cultural. É considerado por este mesmo autor como uma “intervenção ordenadora do Estado na propriedade privada” e que tem a finalidade de colocar os bens sob um regime especial de cuidados. O tombamento corresponde a um ato administrativo que tem por finalidade a conservação de bens materiais móveis ou imóveis, sendo este o seu preceito básico, ou seja, a obrigação de conservar a coisa tombada, como definiu Rabello (2009). Um dos principais efeitos do instrumento do tombamento é transformar os valores culturais contidos nos bens como questão de interesse jurídico, uma vez que paira sobre o objeto tombado um interesse público.

muita pedra para construir as casas RODAS DE MEMÓRIAS | 85


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

o marco da fundação da cidade,

lógico que a gente não vai querer

aquela parte ali o calçamento era de

voltar ao passado, mas muita coisa a

pedra, com o tempo foram tirando,

gente

foi se descaracterizando. A própria

concessão que foi feita é que se

Basílica, essa pastilha é o fim da

conserve a fachada, dentro a pessoa

picada, é um crime contra tudo. Na

faz o que achar melhor, o que achar

própria

do

mais prático. Geralmente as casas

Santíssimo, algum iluminado teve a

eram um corredor comprido, os

ideia

cupim

compartimentos, os quartos muitas

levantando uma parede em frente o

vezes não tinham ventilação, não

altar. Na época que foi feito ninguém

tinham

reclamou,

tomou

confinavam a pessoa lá dentro. A

conhecimento. As coisas vão pouco a

gente não quer que volte como

pouco se deteriorando. Aconteceu em

antigamente, mas que pelo menos se

60. Onde era o prédio da capitania, o

preserve a fachada. As divisões eram

mais bonito da praça, a frente toda

de taipa ou de parede francesa,

era de azulejo português, o único que

algumas

restou na praça, derrubaram o prédio

Fortes)

igreja, de

na

combater

capela o

ninguém

tem

que

preservar.

abertura

com

de

madeira”.

Uma

janela,

(Paulo

e fizeram uma coisa medonha de feia. Com o tempo se não tiver pulso firme

Saudade de Iguape

as coisas vão se deteriorar e a cidade

“Eu fui para São Paulo quando tinha

vai perdendo suas características. A

quatro anos, mas vinha para Iguape

arquitetura é um conjunto, se alguma

todas as férias, se a gente estivesse

coisa fica fora daquele alinhamento,

bagunçando minha mãe já falava: as

com o tempo aquilo vai se perdendo.

férias estão chegando, hein! E aí a

Se a gente olhar nessa rua aqui, nós

gente dava até banho em porco,

não vamos ver, fizeram uma reforma,

porque não queria deixar de vir para

cada porta da casa ficou de um

cá de jeito nenhum. Era muito

tamanho, na frente do casario a

gostoso. A gente vê que algumas

janela é arqueada e a porta é reta.

pessoas quando falam de Iguape tem

Coisas que não casam com o próprio

vergonha

estilo. Aqui na rua 15, em duas casas

vergonha de ser caiçara. Cada coisa

tiraram as portas de madeira de lei e

que a gente fazia aqui tinha cheiro de

puseram portas de vergalhão. É

Iguape, os passeios de barco a vapor.

86 | HISTÓRIAS DE PEDRA E CAL

de

sua

história,

tem


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Quando chegávamos e quando íamos

Quando havia um cerco que pegava

embora, a lancha parava perto do

muitos peixes, aquilo era dividido

barranco e toda a vizinhança vinha

com toda a comunidade”. (Cleide)

ver. O café daqui cheirava diferente, o pão era diferente, pão sovado.

Nossas Raízes

Realmente a cozinha era a parte

“Eu bato o pé que nós temos que

maior,

mesa

manter os olhos no futuro sem

enorme, os barris, uma porta bem

esquecer o nosso passado, das nossas

pequena que dava para uma horta de

raízes, da nossa história. Então

onde

os

quando a gente vê uma casa assim

temperos. Do outro lado tinha só

(paredes de pedra) é bonito, está

ervas medicinais, porque meu avô

mudando a cabeça das pessoas.

receitava para todo o vilarejo, havia

Porque antes isso era vergonhoso,

herdado isso da minha bisavó, que

tratavam logo de cobrir com reboco.

era filha de escravo e tinha muito

A calçada também, se sobrava um

conhecimento. Morreu com 115 anos

dinheiro

e nunca tomou um comprimido.

colocar piso. Os nossos casarios, as

Lembro-me que quando ela faleceu

brincadeiras, tudo isso tem que ser

eu tinha uns três anos, ela me fez

preservado porque é a nossa história.

uma bruxinha de pano, fazia o

Porque um lugar sem história é como

cabelinho de tucum. Quando a gente

uma árvore plantada no concreto, um

era criança, essa ideia de preservação

vento derruba, porque não tem raiz.

de pegar só o necessário era comum.

Eu

chão

eram

batido,

tirados

uma

todos

iam

vejo

que

cimentar e alisar,

poucas

casas

se

conservam. Na rua Tiradentes muitas delas perderam suas características. Nós temos aqui a casa paroquial que foi colocada esquadria de alumínio, não sei se existe uma orientação. Quando eu era jovem tinha orgulho de ser caiçara e agora com quase sessenta anos não vou ouvir ninguém chamar minha cidade de capela Cleide

velha. Essa mudança tem que estar dentro

de

cada

um.

Vi

uma

RODAS DE MEMÓRIAS | 87


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

reportagem sobre o 11 de setembro,

Umas tinham casca outras não. Meu

as várias coisas que Nova Iorque

comercio era de roupas, durante a

passou e o repórter disse: a cidade se

noite a gente estendia um plástico

destaque não pelo acidente das torres

porque a noite caía muita sujeira.

gêmeas, mas porque constantemente

Quando acontecia de quebrar uma

se renova, sem perder de vista sua

telha daquela, não existia, porque as

história. Não existe folha se não

telhas eram desse tamanho, todas

existe raiz”. (Cleide)

irregulares, para encaixar aquilo ali era igual a um quebra-cabeça. Minha

Pedra e Cal

avó fazia telha para casa dela, não

“A maioria das paredes era coberta,

tinha forma. Às vezes se fazia a telha

quando

com

na perna, na coxa. Minha avó era

argamassa era com barro. Não havia

ceramista, fazia moringa, telha, essas

uma valorização. Então era pau-a-

coisas.

pique ou madeira, mais na área rural.

ceramista, mas fazia mais decoração.

Esse prédio aqui do Di Paolo, a frente

Aqui era exatamente com essas

dele é uma fachada de pedra. A casa

telhas.

do meu avô, hoje você passa lá, não

trabalhava na basílica e era o único

resta nada daquilo que era. A gente

que arrumava esses telhados, o

fica triste com isso. Ali na Rua

Uriti”. (Cleide)

não

era

rebocado

Meu

avô

Tinha

um

também

rapaz

era

que

Tiradentes o telhado era um só, cobria

várias

casas.

Hoje

foi

“Trabalho nesse segmento da parte

modificado. Ali na orla do mar

Projeto Oficina Escola há 11 anos, sou

pequeno foi feito um aterro, a maré

formado

chegava até as casas, no fundo não

completando uma coisa, para depois

era muro, era cerca de bambu,

eu entrar na parte da Oficina Escola,

quando a maré ficava alta e depois

o uso da cal, ela é muito importante

baixava, ficava um lodo só, a gente

quando você fala desses centros

tinha que andar pela cerca. Passando

históricos de casario colonial por

ali o Di Paolo, lá na onde tem a auto-

muitos

escola, era um telhado só. Imenso,

econômico, uma lata de tinta se você

com as vigas, mandei passar óleo na

for

madeira para evitar cupim, porque

rendimento da cal e de uma lata de

era madeira de mato, grossa, rústica.

tinta látex, é muito mais barato,

88 | HISTÓRIAS DE PEDRA E CAL

em

colocar

pedagogia.

aspectos. o

preço

E

Primeiro entre

o


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

segundo a questão da higiene. A cal é

do

uma tinta que mata os fungos, ela

daquela ameixa amarela. Era na areia

permite a entrada e saída da umidade

branca, enterravam o lixo orgânico e

então a questão higiênica conta

cobria, depois jogava aquilo para

muito em relação a uso da cal. Pra

adubar. Eles adubavam também com

mim, claro que tem pessoas que não

aguapé. Usava-se muita pimenta

concordam,

da

como tempero, hortelã pimenta. Eu

textura da aplicação da cal, dá uma

fiquei viúva muito cedo, tinha quatro

textura diferenciada,

uma coisa

filhos na faculdade, fui trabalhar em

muito bonita. Hoje a gente utiliza a

uma empresa para sustentar minha

questão da cal hidratada que é

família. Hoje trabalho com arte, com

industrializada, a gente já compra

pesquisa, amo ficar pesquisando.

com aditivos e coisas do tipo, tem

Acabei de fazer um projeto para o

também no mercado a questão da cal

Morro do Bacharel. Alguém aqui

virgem que é aquela que você

falou que não sabia o porquê da

prepara, têm que ter toda a espera do

Estrela de Davi nas casas, eu acabei

tempo de cura dela para você

vendo em um estudo da USP que

utilizar”. (Emerson)

existe uma hipótese de que Cosme

eu

gosto

muito

conde,

limão.

Tinha

muita

Fernandes era judeu, por isso ele As Casas

teria sido desterrado em Portugal”.

“Todas as casas tinham horta, pé de

(Cleide)

cebolinha,

alfavaca,

coentro

e

salsinha, pés de tomate e árvore

“O professor Paulinho e o Seu Lucio

frut��fera, goiabeira, abacateiro, fruta

falaram da questão das paredes

RODAS DE MEMÓRIAS | 89


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

divisórias.

Geralmente

você

vai

aquele cristalino que a cal libera,

identificar as paredes da casa dessa

aquele produto seria importante você

maneira: as estruturais são as quatro

aplicá-lo borrifando-o nessa parede

paredes que vão sustentar o peso da

que vai estar aparente, porque ela

casa, elas tem uma característica um

cria essa película de tratamento na

pouco mais larga até chegam a ser 1m

parede

e 1,5m e 2,0m de espessura para

(Emerson)

propriamente

dita”.

aguentar a carga. Para as paredes internas eles utilizavam muito a

Sambaquis

questão do sopapo, como o professor

“Só que essas construções aqui na

citou que é o entrelaçado de cipó e

parte

bambu, eles chapavam o barro, por

construíam muito com os sambaquis,

isso que a questão do sopapo, fica um

que são aquelas conchinhas. Como

de cada lado, eles chapavam o barro,

eles

tudo isso ao mesmo tempo. O

esmagavam todas essas conchas para

acabamento eles davam não só por

utilizar

questão

repararem

estética,

mas

sim

por

do

litoral,

utilizavam aquele

as

isso pó.

em

pessoas

ai? Se

muitas

Eles vocês dessas

questão de você manter também toda

construções que a gente tem de pedra

essa estrutura, de você dar uma

argamassada, vocês vão ver que um

sustentabilidade maior pra essa tua

pedaço delas tem carvão, outras a

construção. As paredes não ficavam

concha toda inteira. Isso por quê?

sem revestimento porque tinha essa

Porque eles faziam aquela grande

necessidade da proteção. Hoje em dia

pilha de concha, revestiam toda de

a gente vê muitas casas com paredes

madeira em volta, colocavam fogo.

aparentes, muitas delas sem um

Porque o fogo, fazia o quê? Ele

tratamento e isso está incorreto,

trabalhava

todo

porque é legal, bonito, esteticamente

sambaqui,

derretia

bacana. Mas pra você ter isso, pra

quando eles fossem para amacetar,

você manter e preservar tem que

para triturar, ela fica muito mais

fazer um tratamento. Ai o Toninho,

mole e eles aproveitam aquele pó.

ele esteve aqui com a gente falando

Então quando eles vão fazer essa

um pouco de o que se utilizar, tem

peneiração, vinham alguns pedaços

pessoas que utilizam a resina. Ele

de carvão que tinha usado. Porque

fala que a própria água da cal que é

eles tinham uma necessidade de

90 | HISTÓRIAS DE PEDRA E CAL

o

processo aquilo

ali

do e


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

construção, até mesmo por conta de

sente que o morador se preocupa

se proteger de chuva, sol, todo esse

mais,

tipo de coisa que hoje em dia

responsáveis, as pessoas perguntam:

também temos essa necessidade. Só

posso fazer isso, não posso, como

que eles iam fazendo os testes. E eu

funciona, por quê? Porque o jovem,

vou lá pegar, vou utilizar o que eu

principalmente o jovem que trabalha

tenho, a pedra argamassada com o

com a gente, acaba se tornando o

barro. Legal, só que não deu certo,

próprio

começou a cair, a trincar. Aí vou

patrimônio. Porque imaginem vocês:

atrás da areia que tem um pouco

um dia desses de sol, vocês ali na

mais de argila, não deu certo, tá

fachada fazendo todo um trabalho e a

caindo. Então eles vão procurar o

meninada, com o capacete e bota que

que?

o

eles não gostam, brigam bastante pra

sambaquis que eles tinham muito ali,

não usar, mas utilizam. E aí estão

essas conchinhas todas e depois disso

passando ali a noite e vê um

eles utilizavam muito o óleo de baleia

camarada pichando, vão brigar com

que era o que eles tinham na época.

certeza e vão pra cima mesmo. Então

Para quê? Para dar toda essa liga

acho que essa é a importância de

para a massa, ela tinha um pouco

você desenvolver o trabalho e ter essa

mais

questão

Os

de

aditivos,

primeiro

sustentabilidade

para

está

procurando

agente

da

do

seu

os

próprio

conscientização,

manter uma estrutura que fosse de

principalmente

dos

próprios

grande necessidade”. (Emerson)

munícipes. Dentro disso, a gente tem que mostrar pra eles qual é a técnica

Projeto Oficina Escola

mais apropriada que esta sendo

“A gente tem a cal com essa principal

utilizada,

característica de proteção do imóvel,

material melhor pra você trabalhar

e é difícil você colocar isso na cabeça

com esse casario do que a cal, não

do morador, das pessoas que a gente

tem mesmo. Dizem: Ah, mas a cal,

vê ai querem ter uma coisa mais

ela não da firmeza para parede, o

moderna, acompanhar a questão da

reboco não

textura. É todo um trabalho, um

Engana-se quem pensa dessa forma,

processo que a gente faz através do

a partir do momento que você

Projeto Oficina Escola, é claro que

respeitou todas as técnicas, que você

principalmente a prefeitura. Você

respeitou todos os períodos dessa

e

pra

mim

não

vai ficar tão

tem

bom!

RODAS DE MEMÓRIAS | 91


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

construção, que você soube trabalhar com as medidas tudo certinho, você tem um trabalho para anos e anos. A Oficina Escola veio pra cá na época do Ariovaldo, o Carlinhos foi um dos grandes idealizadores do projeto, foi quem realmente foi atrás. Então conseguiu implantar o projeto aqui Emerson

se não me engano no final de 2005 pra

2006.

No

início

nós

trabalhávamos com turmas de 50 alunos no período da manhã, 50 no período da tarde, tínhamos duas oficinas, a de pedreiro e pintor restaurador onde o laboratório era o

Parede de Pedra e Cal. Foto Helena Rios, arquivo Iphan/SP.

próprio centro histórico. Os alunos, eles podem vivenciar e trabalhar as técnicas aprendidas em sala de aula.

porque o espaço que foi cedido pra

Porque antes do início da prática eles

gente desenvolver as atividades teve

têm todo um aparato teórico, uma

o

questão teórica que eles têm que

principalmente

conhecer,

cartas

prefeitura, e a força de vontade do

dos

pessoal, dos alunos. Eu falo que é

noções

patrimoniais,

de

conhecimento

apoio

total

dos

moradores,

da

parte

da

órgãos propriamente ditos, o que é o

impressionante

IPHAN, o que é o CONDEPHAAT, o

quando

Conselho

a

apropriam daquilo e fazem com que a

importâncias de cada órgão. Então

coisa aconteça e querem cada vez

toda essa questão teórica é passada

mais

para os alunos antes mesmo deles

conhecer e vão atrás e pesquisam.

colocarem o pé na rua, segurança no

Então isso foi muito importante para

trabalho e qualquer coisa nesse

que até hoje a gente consiga manter

sentido. Os resultados sempre foram

toda essa estrutura que temos em

muito positivos em relação ao centro

Iguape. Hoje temos algumas outras

histórico de Iguape, até mesmo

oficinas relacionas a questão da

Municipal,

qual

92 | HISTÓRIAS DE PEDRA E CAL

eles

se

porque querem

aprofundar,

realmente fazer,

se

querem


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

restauração

ainda,

carpinteiro,

que

o

restaurador,

são

é

o

serralheiro todas

oficinas

meninos. É o Nilson, ele trabalha com

cantaria

tempo.Trabalha

faz

hoje

para

algum um

internas na nossa sede na (rua)

advogado, ele faz trabalho particular,

Major Rebelo e dentre isso a gente

e dentro disso a gente vai procurando

tem

atender a questão da necessidade

as

aulas

com

arquitetos,

engenheiros, historiadores”.

local”. (Emerson)

(Emerson) “Claro, como qualquer tipo de coisa “As técnicas são desenvolvidas a

sempre tem as dificuldades, um

partir

morador

da

necessidade

da

nossa

ou

outro

que

acaba

realidade, por exemplo, aqui nós

resistindo não fazer a intervenção na

tínhamos alguns entalhadores de

sua própria fachada. Engraçado que

placa alguns anos atrás que até foram

assim que nós iniciamos, temos um

embora, então existe a necessidade

roteiro que é seguido. Vamos ao

de ter alguém que trabalhe com essa

morador, pedimos autorização para

questão do entalhe, até mesmo pra

que os meninos possam realizar a

dar a opção ao morador. Ai você não

atividade, porque você não da uma

tem quem faça essa questão do

garantia de uma qualidade total, não

suporte,

tem como, porque eles estão em fase

aquela

parte

mais

desenhada, aquela coisa artística,

de

existe a necessidade de ter quem

aprimorando as técnicas, então pode

trabalhe

de

ficar muito bom como pode ficar

serralheria. A gente vai atrás dessa

aquela coisa mais ou menos. Se eles

capacitação, vai formar essa mão-de-

liberassem, tinham que correr esse

obra. Estamos tentando, já há algum

risco. Por ser uma manutenção fácil e

tempo, trazer para cá a questão da

barata você tem a possibilidade de

cantaria, por termos a necessidade

corrigir de imediato, mas tinha

dessa mão de obra. Ela é escassa não

aqueles

só aqui em Iguape, mas no Brasil

conheciam

todo. Hoje temos um mestre canteiro

resistência. Você fazia a casa da D.

aqui em Iguape e estamos tentando

Maria, do Seu João pulava, fazia de

fazer com que ele dê um curso, uma

não sei quem. Iam ficando todas

palestra, uma hora que seja, para os

bonitas, todas legais. Depois aquele

com

essa

parte

aprendizagem,

moradores então

eles

estão

que

não

tinham

certa

RODAS DE MEMÓRIAS | 93


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

que não quis ia correndo atrás pedir

de já ter passado na Oficina Escola.

para fazer a dele. Eu procurei sempre

Você vai escutando um que se

passar isso para os meninos porque é

formou esses dias e te chamou pra ir

uma forma de um reconhecimento da

à formatura, fez arquitetura, você vai

atividade deles. Hoje a gente já

escutando essas histórias e você vai

formou algumas dezenas de alunos,

vendo. É um trabalho que realmente

alguns alunos que passaram na nossa

vale muito à pena, mostrar para as

mão, hoje você escuta falar que está

pessoas

em Curitiba em uma construtora, que

patrimônio”. (Emerson)

só aceitou o currículo dele por conta

Foto: Leonardo Falangola.

94 | HISTÓRIAS DE PEDRA E CAL

a

conscientização

do


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Águas de Iguape Em 24 de setembro foi realizada a última Roda de Memória cuja temática buscou ouvir e registrar as histórias relacionadas ao Rio Ribeira, à navegação, pesca e ao lagamar. Em uma cidade cercada de águas doces e salgadas seria impossível pensar que o cotidiano de vida não passasse por alguma história de pescador ou de barqueiro. Com o fim das atividades portuárias em Iguape, muitas destas histórias da navegação não são do conhecimento das gerações mais novas. Buscou-se por meio desta Roda de Memória trazê-las à tona novamente.

Convidados: João Xavier, mestre de embarcação da Sorocabana. Felix Veiga do Nascimento, condutor de embarcação da Sorocabana. Antonia Rosa Waldhehm, filha de condutor de embarcação da Sorocabana. Aparício Muniz Ribeiro, pescador do Rocio. Eliel P. de Souza, biólogo, pesquisador do ICMBio.

RODAS DE MEMÓRIAS | 95


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

1839 – Inicio oficial na navegação fluvial no Brasil 1844 – Iguape recebe a primeira linha de vapor regular, o Vapor Voadora 1857 – Fundação da primeira companhia de navegação fluvial da região 1906 – Criação da Agência de Colonização e Trabalho 1913 – Fundação da Vila do Jipovura por imigrantes japoneses que passaram a se dedicar ao cultivo do arroz 1916 – Fundação da Companhia de Navegação Fluvial Sul Paulista, a mais importante que atuou em Iguape 1955 – Encerramento das atividades da Companhia Fluvial Sul Paulista em Iguape

96 | ÁGUAS DE IGUAPE


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Trabalho na Sorocabana

ficávamos um dia inteiro e no outro

“Eu nasci no município de Cananéia

dia de manhã saíamos e vínhamos

e de lá sai com 23 anos, casei e vim

para

pra cá, fui convidado para trabalhar

novamente.

na

de

continuar a viagem até Iguape pra

condutor constituía em viajar, sou

trazer a carga pra Registro, toda essa

mestre, então pegava a embarcação e

beira de Ribeira aqui. Então eu

saia daqui até Cananéia, de Cananéia

viajava daqui a Paranaguá, mas tinha

até

Paranaguá,

outro mestre igual o Felix que viajava

Ararapira, Guaraqueçaba e assim é

também comigo para Paranaguá,

que me aposentei com trinta e

quando eu faltava ele entrava e daqui

poucos anos. Nas viagens eu saía

nos íamos para Registro levar carga,

daqui meio dia e ia pousar em

e de Registro até Juquiá, de Juquiá

Cananéia, descendo e embarcando

nos puxávamos pra IBC (Instituto

passageiros, de lá nos pousávamos

Brasileiro do Café) fardos enormes

em Cananéia e no outro dia, seis

de 400 kg, nos embarcávamos pra

horas,

descarrega

Sorocabana.

Ariri,

trabalho

Maruja,

saiamos

Paranaguá,

O

com

também

destino

a

pousar

em

Depois

aqui,

Cananéia nos

e

íamos

depois

deixando

carregávamos pra descarrega lá no

passageiros e pegando por toda a

porto de Paranaguá e assim me

baia de Cananéia. Entravamos no rio

aposentei

Ariri e ia até o canal do Varadouro e

gostava muito desse serviço, senti

seguíamos,

muita falta quando me aposentei”.

embarcando

e

desembarcando, carga e descarga,

com

trinta

anos.

Eu

(João)

porque todo passageiro levava sua carguinha, compras que faziam por

“Eu moro no Bairro do Engenho, sou

aqueles lados. Então a gente chegava

uma pessoa bastante conhecida aqui

cinco horas, cinco e meia, seis horas

em Iguape, apesar de não ser nascida

em Paranaguá, pousava e ficava o

aqui, eu nasci em Barra Bonita e com

outro

de

sete anos vim morar em Iguape. Meu

Paranaguá para carga e descarga.

pai foi transferido pra cá para

Daqui levava bastante carga, nos

trabalhar na antiga Sorocabana no

puxávamos a esteira de piri pra fazer

dia 13 de agosto de 1951. Nessa época

forração para o navio no posto de

Iguape era muito pequena, não tinha

Paranaguá e lá ficávamos 2 dias, nos

movimento, meu pai veio só para

dia

inteiro

no

porto

RODAS DE MEMÓRIAS | 97


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

aposentar depois de algum tempo,

por ali e dai nos jogávamos os ferros

mas continuou trabalhando. Meu pai

e ficávamos e lá e dormíamos, as

viajava

vezes a noite inteira com o balanço

assim

como

seu

Felix,

também conheceu bastante dessa

do

costa.

mais

dormindo ali, muitos no porão da

iguapense, aqui eu vim, aqui eu

lancha, muitos em cima porque não

cresci, estudei um pouquinho porque

tinham cômodos. Os cômodos eram o

naquele tempo não tinha muita

convés e a cama dos tripulantes, eu

necessidade, apesar dos meus pais

pelo menos diversas vezes dei a

incentivarem. Eu me casei aqui em

minha cama para algum passageiro

Iguape, meu marido era do Rio de

dormir, ficava acordado e dava a

Janeiro, ele era oleiro, trabalhava em

cama pra alguém. Quanto à serração

olaria na época, eu também trabalhei

a gente ia por cálculo, tinha bússola,

muito em olarias, fiz tudo na vida,

mas não se enxergava nada, fazia

trabalhei em olaria, trabalhei em roça

tudo por cálculo, tudo na base do

ai casei e fui morar no Rio Pequeno,

cálculo, fazia com tempo bom daqui

não tem aquela ponte pequenina lá,

até tal lugar tantos minutos, a gente

então de lá eu vim em engenho,

marcava

cheguei

Eu

me

aqui

considero

no

comecinho

mar,

a

muitos

direção.

passageiros

Saíamos

da

estrada e agora já tenho raiz e num saio mais”. (Antonia) Dificuldades no mar “Tem trechos entre o Paraná e São Paulo que, quando viajávamos para Paranaguá, dependendo do tempo

Aparício e Antonia

não podíamos atravessar na baía, a baía com duas horas de extensão, quebra mar pra cá, quebra mar pra lá, lugar baixo que não pode passar, tem que passar só pelo canal mesmo. Então a gente já sabia daquele local ali , quando o mar estava muito bravo a gente parava em algum rio 98 | ÁGUAS DE IGUAPE

Felix e João

de


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Cananéia até o Mar Pequeno, isso

tocava. Era muito bonito e eu me

dava uns 15 minutos, por exemplo,

sentia feliz porque sabia que tinha

daí mais 25 minutos até a Barra de

alguma coisa minha ali também. Eu

Cananéia, de Cananéia uma hora e

conto para os meus netos e eles falam

quarenta e cinco minutos até Ilha, de

‘conta mais’, mas a gente não lembra,

lá tantas horas. A gente ia fazendo

mas mesmo assim vai contando e é

cálculos. Para Paranaguá eu ia por

muito bom, eu acho que temos que

dentro do canal, pegava na Ilha do

passar para eles o que a gente viveu,

Cardoso,

o que a gente conheceu, o que foi a

Ilha

do

Cardoso

pra

esquerda, nos entravamos no barco

infância

da

gente

pra

eles

em Ararapira, entravamos pra direita

entenderam um pouco, mas pra mim

até o Canal... Ai seguíamos pra

foi muito bom”. (Antonia)

passar pra Paranaguá. Era difícil, mas vencíamos. Eu me lembro de

Iguape nos anos 1940

uma

de

“A locomoção do povo do sitio e das

passageiro, tem até fotografia em

mercadorias se dava por navegação,

livro, um rapaz que caiu na água com

não tinha estradas como hoje em dia

duas senhoras dentro da canoa, ele

tem, aqui no nosso município era só

caiu na água e foi segurando na

canoa e embarcação, hoje nem canoa

borda até a polpa, dai nos com a um

não tem mais, hoje só tem ônibus,

bambu comprido demos para ele, ele

tudo mundo vai de ônibus. Pra vir de

segurou e nos puxamos até encostar

onde eu morava tinha que ser de

no barco pra subir em uma escadinha

manhã, dormia aqui e só voltava no

pra dentro da embarcação. Comigo

outro dia. Hoje ele vem de manhã

foi só essa vez que aconteceu de cair

comprar pão e já volta pra comer, a

gente na água, mas com os outros

facilidade como ficou. Então ficou

mestres não sei”. (João)

fácil a coisa de certo jeito, mas na

história

interessante

condição monetária da população Último vapor

não ficou, é difícil porque até o

“Tinha o vapor, o último vapor era o

pescado sumiu. Antigamente era

Bento Martins, então ele ia para

cheio de peixe ali, hoje não tem, eles

Registro na festa de agosto e trazia a

tem que ir busca em Cananéia

imagem, a gente esperava no porto

porque não tem peixe aqui”. (Felix)

todo embandeirado na festa, a banda RODAS DE MEMÓRIAS | 99


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Navegação no Ribeira “Começando

na

zona

rural,

no

Pesca

Peroupava do tempo das bananeiras,

“Fiquei em Sorocabinha até 20 anos,

lá entravam dois barcos por semana

ai depois eu sai e fui trabalhar de

e levavam bananas do Peroupava pra

cobrador de ônibus na 9 de julho.

Santos, pra Argentina. Mais de trinta

Mas foi pouco tempo, depois voltei a

barcos que puxavam banana, naquele

pescar a manjuba no Sorocabinha. O

tempo a barragem era aberta e não

meu tio fez um cerco, ele tirava o

enchia Iguape. Para mim não sei,

peixe com essa rede de manjuba.

posso estar enganado, mas vai ser

Uma vez ele tirou meio alqueire com

um desastre para o município de

aquela rede de manjuba de dentro do

Iguape essa comporta na barragem,

cerco. Veio na cidade e pegou uma

pra mim vai ser um desastre porque

rede de manjuba pequena, com trinta

eu conheço o município de Iguape.

braças de cumprimento e começamos

Daqui de Iguape nos conhecemos até

a trabalhar. Meu Deus! Aquilo era

Eldorado Paulista pelo rio. Todas

tanta manjuba que nós limpamos a

navegações

que

levavam

área, era manjuba para fim de

embarcações

carregada

de

mundo. Minha vida foi só pesca e

mercadoria até Eldorado”. (Felix)

pesca, mas naquela época tinha muito peixe e era muito fundo o rio.

Jipovura

Eu brincava com meus primos de

Quando a colônia japonesa veio aqui

fincar uns bambus no meio do rio e

para o Brasil, para São Paulo, eles

esses bambus tinham tamanho de

escolheram Registro, eles foram se

um poste. Ai, nós íamos para o meio

distribuindo para as colônias de

do canal e sobravam dois metros. A

japoneses. Alguns japoneses que

gente fincava o que dava para fincar e

escolheram o Jipovura pra se colocar

saia. Quando olhávamos para trás,

fizeram uma vila ali, lá já foi um

víamos aqueles bambus pulando,

lugar de farmácia, teve correio, tinha

porque o ar jogava para cima. Essa

loja que aqui em Iguape não tinha. O

era a brincadeira nossa e minha vida

que tinha lá no Jipovura não tinha

foi assim [...] depois eu vim morar

aqui, tinha engenho de beneficiar

em Iguape. Me casei em 1964 e, em

arroz,

1967, vim morar para cá. Minha

iluminação

na

vila

de

Jipovura, tinha um medico”. (Felix) 100 | ÁGUAS DE IGUAPE

família ficou no sítio. Depois voltei


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

para o sítio de novo em 1994, mas

robalos, porque robalo de quilo para

nessa época meus filhos já estavam

cima era robalo. Eu me lembro de

todos criados. Conheço todo esse mar

uma vez que meu pai fez um cerco lá

que

tinha

fartura!

Esses

no sítio, mas naquela época não tinha

corria

deles.

muito para quem vender, porque o

Quando terminava a manjuba, no

mercado era fraquinho e vinham

mês de março, a gente começava a

muitos vendedores de peixes, nós

pescar robalo. Era tanto robalo que

fomos no cerco e não se enxergava a

eu saia de manhã e levava uma

água, era só peixe!! Ele pegava os

marmita para comer. Já levava o

peixes especiais, que eram as tainhas

camarão e o assado e deixava do lado

de ovas, jogava nas costas e vinha

da canoa. Aí nos ficávamos em um

vender para os de colarinhos duros.

ponto único e, quando a maré

Ia de casa em casa para vender e o

começava a subir, começava a pegar

resto dividia com a vizinhança e,

robalo. Quando olhava o canal estava

também, tinha outra coisa, ninguém

alastrado de robalo. Mandava robalo

tinha geladeira, era tudo salgado o

para São Paulo, dez, doze quilos de

peixe, então eles colocavam em cima

robalões,

tanta a

gente

RODAS DE MEMÓRIAS | 101


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

do fogo e comia o peixe seco.

pontas e torcia um no outro. Você

Acabava aquele tanto e fazia a

pegava na perna e fazia assim, ele

mesma coisa, durante a vida inteira

ficava torcidinho como se tivesse

era assim. Uma coisa linda do

comprado na loja”. (Felix)

mundo, a gente era feliz e não sabia, você achava ruim, mas tinha tudo,

Canoa a Vela

você plantava mandioca, plantava

“Eu fui a ultima pessoa a pescar com

batata, plantava tudo e dava em

aquela canoa a vela, nos usávamos a

grande abundância, a gente até vinha

vela, não era só eu não, todo o povo

vender na cidade. Laranja, mexerica,

da Ribeira tinha a vela. Vinha para a

o pé ficava que ficava forrado no

cidade, por exemplo, se era vento sul,

chão, trazia a granel e jogava na

vinha de lá. Ou se vinha a remo, a

canoa para vender aquela cuia. Não

vela vinha na canoa. Agora mesmo, a

se vendia por peso e nem por dúzia,

pouco tempo aqui no Rocio, eu

você enchia aquela cuia e dava para

andava a vela. Eu ia lá para o Icapara

ele levar e era o que, um real, dois

pescar com rede grossa. Quando

mil réis. Era assim, tinha tudo em

chegava na hora de vir embora,

fartura, o nosso mundo era assim

levantava o motor, arrumava a vela e

maravilhoso, teve muita coisa para

vinha, passava esse canal do mercado

nós”. (Aparício)

e ia embora para lá. A vela era de pano, às vezes comprava saco de

“O pessoal do sitio tem até muita

trigo que tem na padaria ou então,

curiosidade, hoje quando você quer

esse algodão que vende na loja de

fazer uma linha de pescado, você

roupa.

compra o tipo de linha que você quer.

certinho, tem o mastro, tem a verga,

Naquele

essa

tem o retranca, tem um punhado de

facilidade. Sabe do que se tirava a

nome lá que tem nela. A gente arma

linha para fazer uma corda? Da folha

ela, faz um furo no banco e, lá

do tucum4, alguns não conhecem,

embaixo, tem um lugar de segurar o

você tirava a folha do tucum, daquele

pé dele e segurar na corda guiando

linho

com o remo. E assim vai, deixa que o

e

tempo

a

não

pessoa

tinha

fazia

um

cordãozinho, depois chegava as duas Tucum é uma espécie de palmeira existente na região litorânea 4

102 | ÁGUAS DE IGUAPE

Aí,

você

tira

vento levar”. (Aparício)

a

medida


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Fandango

fissurado nos bailes não tinha um

Eu era curioso, eu ia em um

fandango que eu não fosse. Chegava

fandango, em vez de fazer outra coisa

no sábado, eu ficava louco. Ai uma

eu

violeiro

noite que teve um baile lá na Ilha

escutando o que ele cantava, via o

Grande, longe pra caramba, não era

jeito que ele tocava, o jeito que ele

na nossa vizinhança, era em outra

afinava a viola. E assim foi indo, com

comunidade, eu falei para o papai e

12 anos eu tinha um tio que era um

ele disse: ‘lá você não vai’. Eu falei

dos melhores tocadores de viola e

para mamãe e ela disse: ‘deixa que eu

cantava muito bem. Eles iam para

dou um jeitinho para você, eu vou

casa do meu avô, ia almoçar na casa

arrumar a sua roupa e colocar em um

do meu avô e chegava a hora de

baú’. Tinha um baú para colocar

almoçar, eu pedia para ele afinar a

roupa porque na época não tinha

viola e deixar na cozinha. Então tinha

guarda-roupa. ‘Eu vou passar sua

de fazer farinha, eu sentava no cocho

roupa, você janta e vai dormir, dai

e ficava lá na viola. Eles iam dormir

quando estiver todo mundo deitado

para sala e para o quarto e eu ficava

você levanta, veste a roupa e vai, mas

sentado o cocho malhando para

no outro dia você tem que estar aqui!’

aprender. Isso com 12 anos de idade.

Aí eu fiz isso, quando eles se

Depois, com 15 anos eu já sabia tocar

aquietaram para dentro do quarto, eu

viola, só que eu não tinha autorização

dormia na sala e, quando eles se

para pegar a viola em um baile e,

aquietaram, me levantei, peguei a

naquela época, tinha que o sujeito

bicicleta e sai no mundo. No outro

que se metesse a intruso, ele levava

dia quando começou a amanhecer, o

cascudo. Podia ser quem fosse, o pai

galo começo a cantar, eu espichei de

da gente não deixava. A gente não

lá, cheguei em casa, empurrei a porta

podia se meter na roda dos mais

e coloquei a bicicleta para dentro.

velhos de jeito algum, só se fosse

Voltei para cama e deitei, nunca que

chamado. Eu fui pegava uma viola,

papai ficou sabendo!” (Aparício)

ficava em cima

do

de segunda ainda e não podia cantar de primeira. Tinha que acompanhar

O Estuário

o outro, isso com 17 anos. Com 17

“Então

anos que eu fui começar a tocar viola.

Comprida,

Eu me lembro de uma noite, eu era

Guaraqueçaba, estão em uma região

a

nossa

cidade,

Cananéia,

Ilha

Paranaguá,

RODAS DE MEMÓRIAS | 103


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

que se chama zona costeira. Quer

influenciada por algumas coisas, por

dizer, é uma porção de terra que esta

exemplo, o relevo de fundo dessas

próxima do mar, essa região sofre

planícies, os canais, o fato de o lugar

influência física, química, biológica

ser fundo e depois não ser mais e isso

da

que

vai moldando as dinâmicas das

acontecem no mar e dos fenômenos

águas, a força das águas dos rios que

que acontecem em terra. É uma

chegam. Se é um rio grande ou se é

região de transição, ela é terra e água,

um rio menor, que dependendo da

tem horas que estão inundadas

época do ano está seco, isso também

outras que está seca. Essas regiões,

influencia nessa mistura. Outra coisa

por

importante

vida,

dos

exemplo,

fenômenos

são

denominadas

é

a

dinâmica

das

estuários. Essa palavra quer dizer

correntes de maré, com elas entram,

berçário ou alguma coisa assim, que

por onde elas entram e isso também

desde o inicio já sabia a função desse

varia ao longo do dia, maré cheia,

tipo de ambiente, como um ambiente

maré seca. Então o movimento das

de criação de vida, onde muitas espécies

acabam

preferindo

se

reproduzir e isso que da de certa maneira o valor do estuário, e o que é um estuário? Estuário é como se fosse um pedaço de mar que fica cravado dentro da terra, aberto que permite a circulação de água do mar, que permite a entrada e saída da água do mar e, ao mesmo tempo, essa região que recebe água que é drenada no continente. Então vem água do rio, essa água do rio de mistura com água do mar e dá um ambiente diferenciado. Essa mistura varia ao longo do dia, ao longo do ano, dos anos, de décadas e de centenas de anos. O que influencia essa

mistura?

Essa

104 | ÁGUAS DE IGUAPE

mistura

é

Mapas da Comissão Geographica e Geológica, de 1914.


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

águas dos rios, o movimento das

diferentes espécies têm diferentes

marés, o relevo de fundo dá a

comportamentos

característica desse estuário. Tem

ambiente estuarino, hoje tem peixe

outro

é

de rio que desce e às vezes frequenta

chamado laguna. As lagunas são um

estuário. A gente tem peixe marinho

pouco mais abertas, a água doce

do oceano que passa algum tempo

desce por vários riozinhos. Então a

aqui,

gente tem aqui até ao longo de

amarela”. (Eliel)

tipo

de

ambiente

que

por

em

relação

exemplo,

a

ao

pescada

Paranaguá um misto dessas duas coisas, por isso que eles dão o nome

Construção

de sistema estuarino-lagunar, que se

Valo Grande

comporta como cada uma dessas

“Na década de sessenta alguns

coisas, ou estuário ou uma laguna.

pesquisadores, planejadores, pessoas

Essa

que trabalhavam para o Estado,

mistura

que

acontece

nos

da

estudaram

sentida

essa

impactos do Valo Grande e na década

umidade, às vezes você tem um

de setenta eles decidiram intervir

estuário

se

pensando em fazer aquele ambiente

misturam direito, é como se a água

estuarino voltar a ser como era antes

salgada fosse um pouco mais densa e

da abertura, ou seja, que a água

ela ficasse mais no fundo e a água

salgado pudesse entrar, tirar um

doce ficasse mais para cima da

pouco da água doce. Eles conheciam

coluna d'água. A gente brincava

estuário de outros lugares e sabiam

muito no vale, nadando e a gente

que esse estuário era lugar altamente

percebia

produtivo

que

isso

as

por

águas

nadando:

não

você

em

quais

eram

no

estuários e essa variação, ela é principalmente

bem

barragem

termos

os

de

mergulhava e de repente a água

biodiversidade. Na década de setenta

esfriava, você sentia isso. É o que

eles construíram essa barragem (em

chamamos de cunha salina, o fato é

1978) e então a água doce deixou de

que essa mistura de água propicia

passar e começou a fluir pelo rio e

uma condição de vida boa a uma

isso alterou tudo. Em 1983 deu para

gama de espécies marinhas e as que

sentir o drama que foi essa barragem,

vivem no rio que vão para essa região

porque apesar dela permitir a água,

buscando condições para reprodução

ela fechou a passagem do rio. E o rio

ou para sobrevivência da espécie. As

foi obrigado a caminhar por onde ele RODAS DE MEMÓRIAS | 105


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

caminhava antigamente, só que o

prova é que aquela tranqueira de

caminho dele já tinha mudado por

madeira, que não sei como vão tirar,

causa da ocupação, do assoreamento

que encostou naquela barragem, até

e porque também passava pouco rio

pra abrir a comporta vai ser difícil e

por ali e, de repente, teve que passar

pode levar o município pra breca,

bastante. O que aconteceu? Essa

porque a água vem de lá e vai ser um

água tinha dificuldade de seguir para

perigo aquilo lá, eu sou favorável que

a Barra do Ribeira, encheu e causou

essas pessoas voltassem atrás e não

muitos

fechassem essa barragem”. (Felix)

danos,

catástrofes

aos

bananeiros. Eles foram basicamente dizimados, em 1983”. (Eliel)

“Uma vez eu escutei uma conversa no bar que teve uma reunião em

“E com a barragem, tem que tragar o

Cananéia. Diziam que ia ser feito um

rio Ribeira até a Barra da Ribeira pra

processo em Iguape, ia ser feito uma

dar vazão para o rio e não inundar.

comporta, ia ser fechado ali, ia ser

Isso é uma coisa impossível que o

feito um muro de contenção nos dois

município de Iguape não tem o que

lados do Valo Grande, para então ser

tira daqui para o Governo gasta um

feita a dragagem do Ribeira, ribeira

dinheiro desse absurdo, isso não vai

abaixo e ribeira acima, o valo grande

acontecer!

o

e o mar pequeno. Daí eu falei que

Governo vai gastar uma fábula de

quero viver para ver, porque isso não

dinheiro na barragem do rio Ribeira

vai acontecer. Porque tem uma

e não vai resolver. Para mim eles

musica de Milionário e Jose Rico que

estão falando uma coisa que não

canta assim: ‘Em cima da terra, no

pensaram bem, houve um estudo,

fundo mar existe um tesouro para a

mas não houve um estudo com quem

gente desfrutar” e o político faz isso

conhece o município, a situação do

aqui embaixo da terra e no fundo do

município e do rio, eu não sei, mas

mar, não se gasta dinheiro porque

para mim vai ser o maior atraso

ninguém vai enxergar”. (Aparício)

No

meu

entender

deixar fazer essa barragem aqui,

106 | ÁGUAS DE IGUAPE


Foto: Helena Rios, arquivo Iphan/SP CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Práticas

PRATICAS EM EDUCAÇÃO PATRIMONIAL | 107

em Educação Patrimonial


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

TRABALHO COM TEXTOS Proposta Trabalhar com os trechos da obra de Albert Camus: o livro “Diário de viagem” e o conto “A Pedra que Cresce”, do livro “O Exílio e o Reino”. Objetivo A atividade busca, partindo da leitura e interpretação do texto, se apropriar desta importante fonte de literatura estrangeira, que tem em

Iguape

trabalhando

sua

inspiração,

articuladamente

os

conteúdos de História, Geografia, Literatura, Biologia, Matemática e, portanto, temáticas da cidade, sua história, natureza e cultura, temas afetos ao patrimônio cultural. Atividade. a) Preparação inicial. Para iniciar os alunos na leitura, é importante

antes

situá-los

em

relação ao autor, quem ele é, sua importância na literatura, quando escreveu o texto e as suas razões: porque vem a Iguape, o que ele procurava aqui?

108 | TRABALHO COM TEXTOS

Justificativa: a escolha do texto Em agosto de 1949, o importante escritor francês August Camus, prêmio Nobel de Literatura de 1957, encontrava-se em viagem pelo Brasil e resolveu ir a Iguape para acompanhar a Festa do Bom Jesus. Camus foi autor do famoso livro “A Peste”, considerado sua obra prima. Nasceu em 1906, na Argélia sob o domínio francês, militou no Partido Comunista, que depois deixou, mudando-se para Paris aos 27 anos de idade. Realizou uma série de viagens, em 1946 foi aos Estados Unidos e, em 1949, à América do Sul, incluindo o Brasil. Do registro destas andanças nasceu o livro “Diário de Viagem”, onde o autor vai abordar suas impressões sobre os aspectos da vida brasileira. Retiramos alguns trechos deste livro, em particular os que retratam a viagem de São Paulo para Iguape, na qual ele foi acompanhado pelo escritor modernista Oswald de Andrade e de seu filho. Desta viagem resultou também, em 1957, o último conto do livro “O exílio e o reino”. Esse conto denominado “A Pedra que Cresce” fala da viagem a Iguape com inúmeros detalhes, complementando as impressões que teve sobre o contato com o ambiente tropical e as pessoas do lugar. Apesar de escrever sobre Iguape e sobre o Brasil, tais textos de Camus ainda são pouco conhecidos por nós. Vale a pena conhecêlos melhor. Destacamos alguns trechos que ilustram a viagem até a cidade, as condições da estrada e da paisagem que ele acompanhava, suas impressões dos moradores e, por fim de um lugar que lhe chamou a atenção especial: a Fonte do Senhor, que virou o tema do conto “A Pedra que Cresce”.


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b) Exploração do texto. A leitura atenta com os alunos pode ser feita em uma Roda de Conversa, ambiente que ajuda a explorar coletivamente as impressões. Pode-se criar uma atmosfera que lembra a viagem: sons da floresta, águas do rio e mar, cheiro de maresia. Explore cada passagem do texto: como foi a viagem? Como ele descreve o percurso? O que ele viu que lhe chamou atenção? Como ele descreve a paisagem? E as pessoas? E a cidade, as construções? O que fala da cultura local? c) Atividades investigativas. 

A pesquisa histórica sobre o contexto em que se dá a viagem é um passo importante para que os alunos compreendam os detalhes. Do contrário, eles não vão entender porque o autor vai para Iguape pela estrada que passa por Piedade ou porque as estradas não são asfaltadas como hoje. O que estava acontecendo no Brasil naquele momento, na história de Iguape e de São Paulo? Camus é acompanhado na viagem de Oswald de Andrade, importante escritor modernista. Seria recomendável uma pesquisar mais detalhada sobre quem foi Camus para entender suas relações com escritores modernistas brasileiros.

Proponha aos alunos, com apoio de um mapa oficial, desenhar o percurso da viagem e ilustrar com as características que ele descreve sobre as cidades pelas quais ele passa, as referências da paisagem, trabalhando articuladamente, assim, conteúdos de Geografia, de História, de Ciências.

Os alunos podem remontar o percurso da viagem: quantos quilômetros percorridos, quanto tempo de viagem em cada ponto. Podem comparar com as distâncias e tempos de viagem que se leva hoje, de ônibus ou de carro, trabalhando, também, os conteúdos de matemática.

Acompanhe agora os trechos de Diário de Viagem:

PRATICAS EM EDUCAÇÃO PATRIMONIAL | 109


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SAÍDA DE SÃO PAULO “5 de agosto, 6 de agosto, 7 de agosto (A viagem de Iguape) [...] Partimos para as festas religiosas de Iguape, mas às dez horas, em vez das sete, como previsto. Na verdade, devemos passar o dia todo percorrendo o interior, nas estradas esburacadas do Brasil, e é melhor chegar antes da noite. [...] A estrada, de terra ou de pedra, está sempre coberta por uma poeira vermelha, que recobre toda a vegetação, até um quilômetro de cada lado da estrada, de uma camada de lama seca.” (p.99)

“Às treze horas, chegamos a Piedade, uma cidadezinha sem graça, onde somos acolhidos calorosamente pela dona da pensão, Dona Anésia, a quem Andrade deve ter feito a corte em outros tempos. Servidos por uma índia mestiça, Maria, que ao final, irá oferecer-me flores artificiais. Refeição brasileira, que não caba mais e que passa graças à pinga, nome da cachaça aqui.” (p.100)

DESCIDA DA SERRA: “Na verdade, só começamos a descer novamente a serra no fim do dia. Tenho tempo de ver os primeiros quilômetros de floresta virgem, a espessura desse mar vegetal; de imaginar a solidão no meio deste mundo inexplorado, e a noite cai enquanto nos embrenhamos pela floresta. Andamos durante horas e sacolejamos por uma estrada estreita, entre paredes altas de árvores, em meio a um cheiro úmido e adocicado. Na densidão da floresta correm de vez em quando pirilampos, moscas luminosas, e pássaros de olhos vermelhos vêm bater um segundo no párabrisa. A não ser isso, a imobilidade e o mutismo deste mundo apavorante são absolutos, se bem que Andrade às vezes julgue ouvir uma onça. A estrada volteia e torna a voltear, passa por pontes de tábuas soltas que atravessam riachos. Depois, vem a bruma e uma chuva fina que dissolve a luz dos nossos faróis.[...] São quase sete horas da noite, estamos nisso desde as dez da manhã, e o cansaço é tamanho[...]” (p.101/102)

110 | TRABALHO COM TEXTOS


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

TRAVESSIA DO RIO RIBEIRA DE IGUAPE “[...] um grande rio nos obriga a parar. Sinais luminosos na outra margem, e vemos chegar uma grande barcaça, do mais antigo sistema possível, movida por meio de um cabo estendido entre as duas margens do rio e conduzida por mulatos de chapéu de palha. Embarcamos, e a barcaça deriva lentamente sobre o rio Ribeira. O rio é largo e corre suavemente em direção ao mar e à noite. Nas duas margens, uma floresta ainda densa. No céu úmido, estrelas brumosas. Calam-se todos a bordo.” (p.102) “Desembarque. Depois continuamos a nos arrastar em direção a Registro, verdadeira capital japonesa no meio do Brasil, onde tive tempo de ver casas de decoração frágil e até mesmo um quimono.” (p.102)

EM IGUAPE: “A própria estrada agora é de areia – ainda mais difícil e perigosa do que antes. Finalmente, chegamos a Iguape, meio-dia. Descontando as paradas, levamos dez horas para fazer os trezentos quilômetros que nos separam de São Paulo. Tudo está fechado no hotel. Uma autoridade encontrada na noite nos leva à casa do maire (o prefeito, como o chamam aqui). O prefeito nos avisa, pela porte, que vamos dormir no Hospital.” (p.103)

HOSPITAL FELIZ LEMBRANÇA “No hospital ‘Boa Memória’ (é este o nome), somos conduzidos pela amável autoridade em direção a um pavilhão desativado que cheira pintura fresca, a uns cem passos. Dizem-me que, na verdade, foi repintado em nossa homenagem. Mas não há luz, já que a usina da região para as onze horas. Ao brilho dos isqueiros, enxergamos, contudo, seis camas limpas e rústicas. É o nosso dormitório.” (p.103)

PRATICAS EM EDUCAÇÃO PATRIMONIAL | 111


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

NA FONTE DO SENHOR (6 de agosto) “No pequeno jardim da Fonte, misterioso e suave, com os cachos de flores de bananeiras, reencontro um pouco de isolamento e tranqüilidade. Mestiços, mulatos e os primeiros gaúchos que vejo, diante da entrada de uma gruta, esperam pacientemente conseguir pedaços da Pedra que cresce. Iguape, na verdade, é a cidade do Bom Jesus, cuja imagem foi encontrada sobre as ondas pelos pescadores que a lavaram nesta gruta. Desde então, cresce ali incansavelmente uma pedra, que é cortada em lascas, muito benéfica.” (p.105)

A CIDADE “A própria cidade, entre a floresta e o rio, comprime-se à volta da grande igreja do Bom Jesus. Algumas centenas de casas, mas de estilo único, baixas, caiadas, multicoloridas. Sob a chuva fina que encharca as ruas mal pavimentadas, com a multidão matizada que a preenche, gaúchos, japoneses, índios, mestiços, autoridades elegantes, Iguape tem ares de estampa colonial.” (p.105)

A PROCISSÃO “A multidão cresce. Alguns dos romeiros estão na estrada há cinco dias, nos caminhos esburacados do interior. Um deles, que tem um ar de assírio, ornado de uma bela barba negra, conta-nos que foi salvo de um naufrágio pelo Bom Jesus, após uma noite e um dia passados em ondas furiosas, e que fez a promessa de carregar na cabeça uma pedra de sessenta quilos durante a procissão. Mas a hora se aproxima. Da igreja saem os penitentes negros, depois brancos, com roupas clericais, depois as crianças vestidas de anjos; em seguida, o que poderia ser os filhos de Maria e, ainda, a imagem do próprio Bom Jesus, atrás da qual adianta-se o homem da barba, de dorso nu, carregando uma enorme laje na cabeça.[...] As idades, as raças, a cor das roupas, as classes, as doenças, tudo fica misturado numa massa oscilante e colorida, estrelada às vezes pelos círios, acima dos quais explodem incansavelmente os fogos, passando também, vez por outra, um avião, insólido neste mundo intemporal.” (p.106)

112 | TRABALHO COM TEXTOS


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

A VALORIZAÇÃO DOS CONHECIMENTOS TRADICIONAIS. Proposta Para abordar a temática dos conhecimentos tradicionais e do patrimônio

imaterial

pode-se

trabalhar com diversos suportes, entre eles, textos, músicas ou entrevistas.

Sugerimos

uma

pesquisa no acervo da Biblioteca da Casa do Patrimônio do Vale do Ribeira,

onde

os

educadores

poderão

encontrar

uma

diversidade

de

para

material

embasar as atividades. Citaremos 2 exemplos de materiais que podem ser utilizados: o livro “Contos,

Causos

e

Fatos

da

Comunidade do Mandira” e o folheto

“Museu

Vivo

do

Fandango”. Objetivo Compreender

os

fundamentais

que

elementos

Justificativa Conhecimentos tradicionais são produzidos e geridos de forma coletiva, com base na troca e difusão de ideias e informações, ao longo do tempo, de geração a geração. São produzidos no lugar em que se vive, pois as culturas se realizam no marco de suas territorialidades (ORTIZ, 2003). Na sociedade contemporânea em que a cultura se mundializou e, com isso, generalizaram-se as referências, os gostos, os valores e os modos de viver, contraditoriamente, isso não significou que devem desparecer as manifestações culturais singulares, geradas localmente. Elas convivem e se alimentam destes processos. São cada vez mais essenciais para que as pessoas se reconheçam nos lugares em que vivem. Cultivar e garantir a reprodução destes conhecimentos tradicionais e dessa cultura é fundamental para garantir o princípio constitucional de defesa da DIVERSIDADE CULTURAL. O patrimônio cultural brasileiro é, segundo a Constituição Federal, formado pela pluralidade de expressões, dos diferentes grupos sociais e o Vale do Ribeira contribui para a formação desta diversidade. Cabe aos seus moradores, em primeiro lugar, se reconhecerem como portadores desta herança, a ser preservada e perpetuada.

definem

algumas das comunidades tradicionais do Vale do Ribeira: os caiçaras e quilombolas. As atividades permitem trabalhar articuladamente conteúdos de várias disciplinas.

PRATICAS EM EDUCAÇÃO PATRIMONIAL | 113


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Atividades Para saber mais...

Os alunos, divididos em grupo, escolhem

O Decreto Federal 6.040/2007 instituiu a Política Nacional para os Povos e Comunidades Tradicionais. O artigo 3o define Povos e Comunidades Tradicionais como “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição.

o tipo de material que querem trabalhar. A

exploração

dos

materiais

deve

identificar: os temas que aparecem nos causos e contos; o que é Dança de São Gonçalo ou a Lenda da Mãe de Ouro; de que forma a realidade do lugar é retratada; quais os elementos da cultura tradicional estão presentes ali; como são estas

expressões

culturais;

sua

diversidade ao longo do litoral. Caiçaras ou quilombolas? Será preciso pesquisar o

Para saber Fandango...

mais

sobre

o

O Fandango está em processo de REGISTRO no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O REGISTRO é o instrumento de proteção do patrimônio imaterial e foi estabelecido pelo Decreto Federal 3.355 de 2003. Ele é um instrumento equivalente ao tombamento do patrimônio material. Informações: www.iphan.gov.br.

que significa cada um destes termos e como a legislação (Decreto 6.040/2007) define

o

tradicional.

que

é

Usando

uma a

comunidade definição

do

Decreto, pode-se perguntar: quais os recursos naturais que são utilizados pelos caiçaras ou quilombolas? O que é recurso natural? Outras questões são pertinentes para o estudo. Como os caiçaras e quilombolas

se relacionam com a natureza? Quais são as práticas agrícolas tradicionais? O que é a coivara? A pesquisa pode ser completada com outras atividades tais como: entrevistas com moradores para coletar os causos e contos de Iguape; exploração dos textos das Rodas de Memória; pesquisa em outros materiais da biblioteca da Casa do Patrimônio, como por exemplo, a Agenda Socioambiental das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira (ISA, 2008), Enciclopédia Caiçara (DIEGUES, 2004). 114 | A VALORIZAÇÃO DOS CONHECIMENTOS TRADICIONAIS


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

A socialização das conclusões dos grupos pode vir acompanhada da apresentação dos causos e contos em forma de teatro, ou da representação em forma de histórias de quadrinhos ou cartazes. O mais importante é que os alunos entendam que, ao estudar a fundo estas culturas na escola, estão contribuindo para a sua valorização e proteção.

PRATICAS EM EDUCAÇÃO PATRIMONIAL | 115


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

EXPLORAR E CONHECER O PATRIMÔNIO EDIFICADO

Proposta

Justificativa

Para trabalhar com o patrimônio

Estudar o patrimônio edificado de Iguape é

edificado, nada melhor do que

compreender um pouco da história de

usar como recurso pedagógico a

nosso estado e do Brasil. Como nos diz o

caminhada com os alunos para estimular

percepção

observação

e

sensorial,

registro

das

construções e do urbanismo do Centro Histórico.

construção

conhecimento a

aurífera no século XVI, das atividades

todo Brasil para a festa do padroeiro, inaugurada em 1858, é ponto focal no

um

tecido construído. Sobressaem também o

parte

dos

Sobrado do Toledo, relevante exemplar

realizado

com

neoclássico e as casas da Rua das Neves, ou

por

ser

Iguape, que atrai milhares de romeiros de

de

do chamado Funil, o mais antigo conjunto

autonomia.

arquitetônico

O foco principal é aguçar a curiosidade

remontam ao período da exploração

no século XIX. A Igreja do Bom Jesus de

fomentar o exercício de pesquisa

alunos,

casas e sobrados de pedra e cal que

meados do XVIII e da cultura de arroz

A atividade tem como finalidade a

“[...] Iguape é composta por importantes

ligadas à construção naval a partir de

Objetivo

para

Dossiê de Tombamento do IPHAN:

dos

alunos

e

a

formulação de questões, que serão

da

cidade.

aspectos

urbanos,

diversas

características

urbanismo

Quanto

pode-se

português,

aos

observar

formais tais

do

como:

localização e escolha do sítio e sua relação

respondidas com a realização das

com o território, elementos estruturantes

pesquisas. O fundamental é que o

do traçado urbano, as estruturas de

professor

quarteirão

saiba

que

ele

não

precisa dar conta de todos os

e

loteamento

e

o

papel

importante das praças urbanas.

detalhes desta arquitetura e do urbanismo, mas estimular os alunos a elaborarem as questões, buscando as respostas na pesquisa.

116 | EXPLORAR E CONHECER O PATRIMÔNIO EDIFICADO


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Atividades

Mapa de apoio para a caminhada. Fonte: Dossiê de Tombamento do Centro Histórico de Iguape. Iphan/SP.

Sugere-se como percurso inicial as ruas XV de Novembro e Tiradentes, passando pela Praça da Basílica e pelas Igrejas do Rosário e de São Benedito. Nesta caminhada pode-se pedir aos alunos que escolham construções que eles considerem importantes para a cidade. A cada escolha, os alunos são estimulados a observar as cores e texturas, os detalhes construtivos (nas janelas, nas portas, no telhado), os materiais, as formas. É de madeira, tijolo ou de pedra? Casa térrea ou sobrado? Grande ou pequena? Antiga ou nova? Pedir que eles desenhem as construções também ajuda a explorar os seus detalhes. Na leitura da “Roda de Memória: Histórias de Pedra e Cal” os alunos irão encontrar elementos para alimentar a pesquisa. No retorno à sala de aula os alunos comparam as diferentes observações. Como o objetivo do professor não é responder às questões, mas ao contrário, provocá-las e, sendo assim, estimular a pesquisa, sugere-se a consulta ao folheto do Tombamento do Centro Histórico. É possível encontrar no folheto os detalhes e PRATICAS EM EDUCAÇÃO PATRIMONIAL | 117


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

informações sobre alguns destes patrimônios tombados. Quem morou lá ou quem construiu? Porque as construções são diferentes, algumas com uma única porta e janela, enquanto outras têm dois andares, várias portas e janelas com sacadas? Para trabalhar as questões relativas ao urbanismo de Iguape pode-se observar nos percursos destas caminhadas o diferente formato das ruas na Praça da Basílica, a forma dos quarteirões, as praças. Com auxílio de um mapa, fica mais clara ainda esta diferença entre as ruas e a existência das praças.

118 | EXPLORAR E CONHECER O PATRIMÔNIO EDIFICADO


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

LINHA DO TEMPO: MEMÓRIA E HISTÓRIA OFICIAL

Justificativa

Proposta Elaborar uma Linha do Tempo cruzando as histórias de vida dos alunos e de suas famílias com as transformações

ocorridas

na

cidade. A inspiração partiu de uma atividade proposta em uma Oficina realizada pelo Museu da Pessoa. Objetivo Trabalhar com conceitos como o de memória individual e coletiva e sua relação com a formação de uma história oficial da cidade e do

Para Martins (1992), na história local e cotidiana é que estão as circunstâncias da História. Ela é constituída de fragmentos, nos quais não estão os grandes heróis, mas os protagonistas da vida cotidiana, das relações miúdas do trabalhar e do viver. Para escrevê-la recorre-se à memória de muitos. Acontecimentos que, por vezes parecem pessoais, são na verdade compartilhados por muitos, pois não estamos sozinhos. A articulação entre a memória individual e a coletiva se impõe para a escrita dessa história cotidiana. Como compreender a riqueza do patrimônio tombado sem levar em consideração as histórias de vida, os trabalhadores anônimos que construíram essa riqueza, as relações sociais que as sustentaram? Esta atividade procura colocar o foco da história nestes protagonistas do cotidiano de Iguape.

país. Atividade Preparação: corte retângulos de cartolina de duas cores diferentes e de tamanho aproximado de 15 x 7 cm. Uma cor irá representar os acontecimentos da vida do aluno e outra cor os fatos da vida da cidade. Monte na parede duas linhas do tempo: na parte superior uma linha que será a da cidade e na parte inferior a linha da vida cotidiana. As datas podem ser divididas por década ou por ano, conforme a faixa etária dos alunos. Distribuem-se inicialmente os cartões da cor que representa a história de vida. Solicita-se que cada aluno escreva com poucas palavras algum fato que foi importante para a sua vida e o ano em que ocorreu. Em seguida, ao terminar esta PRATICAS EM EDUCAÇÃO PATRIMONIAL | 119


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

etapa, distribui-se o outro cartão, A memória coletiva “Nossas lembranças permanecem coletivas e nos são lembradas por outros, ainda que se

com a cor que representa a história da cidade. Solicita-se que os alunos escrevam

algo

que

marcou

a

trate de eventos em que somente nós

história da cidade,

estivemos envolvidos e objetos que somente

palavras e a data do acontecimento.

nós vimos. Isto acontece porque jamais

Terminada esta fase inicia-se a

estamos sós”. (HALBAWACHS, 2006, p.30)

montagem da linha do tempo da vida

cotidiana.

em poucas

Chama-se

cada

aluno para situar e colar o seu cartão na linha e explicar o fato brevemente. Depois que todos colaram suas histórias, inicia-se a montagem da linha do tempo da cidade, da mesma forma, pedindo a cada aluno que situe no tempo e explique o acontecimento. Percebe-se ao longo das falas, como as histórias se cruzam, a de cada um com a da cidade. Acontecimentos podem se repetir ou se articular, um explicando o outro. O professor observa as falas e os cartões mostrando as sequencias, as articulações, as convergências, os encontros e desencontros. Explorando os conceitos de que cada evento individual tem também sua dimensão compartilhada. Pode-se enriquecer as informações e discussão da Linha do Tempo paralelamente a partir dos registros de fala dos moradores contida nas diferentes Rodas de Memória. Como textos de apoio são sugeridos os seguintes livros: “A Memória Coletiva” de Maurice Halbwachs e “O tempo vivo da memória” de Eclea Bosi, ambos disponíveis na biblioteca da Casa do Patrimônio.

120 | LINHA DO TEMPO: MEMÓRIA E HISTÓRIA OFICIAL


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Sobre os autores Carina Mendes dos Santos Melo Arquiteta graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mestre em Arquitetura, na área de História e Preservação do Patrimônio Cultural, também pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi arquiteta da Superintendência do IPHAN/SP, atualmente presta serviço à Superintendência do IPHAN/RJ.

Flávia Brito do Nascimento Historiadora

pela

Universidade

Federal

Fluminense

e

Arquiteta

pela

Universidade Federal do Rio de Janeiro, possui Mestrado e Doutorado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo. Atualmente é arquiteta da Superintendência do IPHAN/SP.

Simone Scifoni Geógrafa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, Mestre e Doutora em Geografia também pela Universidade

de

São

Geografia/FFLCH/USP,

Paulo.

coordenadora

Professora do

Projeto

do

Departamento

Memórias

Urbanas

de –

Iguape/SP. Foi técnica do IPHAN/SP.

SOBRE OS AUTORES | 121


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: MEMÓRIAS URBANAS DE IGUAPE – SP

Referencias Bibliográficas

FONSECA, M.C.L. O patrimônio em processo: Trajetória da política federal de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ/IPHAN, 1997. IPHAN. Dossiê da paisagem Cultural do Vale do Ribeira. São Paulo: Minc/IPHAN, 2009a. __________. Dossiê de Tombamento de Iguape. São Paulo: Minc/IPHAN, 2009b. MACHADO, P.A.L. Ação civil pública e tombamento. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1986. MARTINS, J.S. Subúrbio. São Paulo: Hucitec/Ed. Unesp, 2002. MEIHY, J.C.S. História Oral. Como fazer, como pensar. São Paulo: Contexto, 2010. ORTIZ, R. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense,2003. PEREIRA JUNIOR, C.A. Iguape: Princesa do Litoral, Terra do Bom Jesus, Bonita por Natureza!. São Paulo: NOOVHA AMÉRICA, 2005. RABELLO, S. O Estado na preservação dos bens culturais. O tombamento. Rio de Janeiro: Iphan, 2009.

122 | REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Foto da contracapa: Flรกvia Brito do Nascimento

123


124 Prefeitura Municipal de Iguape


CADERNO DE EDUCAÇÃO PATRIMONIAL: Memórias Urbanas de Iguape – SP