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Zine #2


as responsabilidades das ideias desses textos sĂŁo, exclusivamente, das autoras.


Zine #2


Zine #2


FAUNA adriana gama de araújo a boca se abre e de dentro saltam velhas alquimias de sede e água não são fáceis os diálogos entre gatos e pássaros há que se elaborar um dicionário de nuances para rastros de pelo e pena esquecidos sobre cada palavra atirada no precipício das diferenças o poema que já foi um soldado entrincheirado na última guerra dos vencidos hoje inventa vitórias disfarçadas de surrealismo gato e pássaro ruminam o horizonte com suas línguas amputadas enquanto arrastam devagar o seu amor entre as folhagens.

Zine #2


albertina lobo Eu me z estrada buscando raiz A estrada me fez,ou eu me z Em um longo e diligente caminhar Eu fui cando Aos poucos Nas margens da estrada Eu me z caminho ao caminhar. Eu sou o pó do caminho Eu chorei sobre as águas do rio Eu fui semente e espinho. Eu busquei um ponto,um objetivo Uma chegada Existe um pouco de mim Desde que parti. Fui deixando e levando meus pés e poeira Minha casa é aqui.

Zine #2


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PANDORA: ONTEM E HOJE alzerina pinho

Zine #2


Zine #2


REBULIÇO ana carolina dias A primeira vez que eu recebi uma carta, foi um rebuliço enorme. Primeiro dentro de casa, depois dentro de mim. As pessoas não entenderam aquele envelope verdinho, sem nenhum nome de empresa. Remetente e destinatário escritos à mão e um cheirinho oral. Sim, era uma carta perfumada, uma carta de amor. E quando se recebe uma carta de amor (por denição do poeta: ridícula!) não queremos parecer bobos. Não se quer mostrar que o mundo acabou de bagunçar todinho, que você desmontou inteira, que o coração já compôs samba dentro do peito ( se é que não trocou de lugar com essa agonia toda). A gente só respira e ensaia um agradecimento ao carteiro, diz aos parentes que está tudo bem. Mas não está. Você sabe que ali, nas suas mãos, está guardado o tesouro literário das palavras mais bonitas do coração de alguém, diretinho pro seu coração. E uma coisa dessas, meus amigos, transforma uma vida.

Zine #2


cami rabêlo A gente pensa e esquece. Esquece porque é melhor. Esquece pro amor não ver o sentimento derreter. Enquanto eu ouço a tua voz e a gente ri daquela vez em que tudo parecia bem, que o medo não fazia parte de nós. Eu vou inventar uma nova maneira de ser uma história melhor pra você e acostumando as minhas ideias a não terminarem num jeito de te merecer. Sei que tudo é tão confuso e que os nossos fusos são tão desiguais, tantos tanto faz. Minha forma já não cabe, eu transbordo a vontade de ser diferente, aquela menina talvez. Você quer dançar enquanto co quieta diante dos nãos . Decidi ser brisa pra bater no rosto se você dormir. Zine #2


eulália teixeira Cada gota é uma mordida A descida, o saborear daquela comida Que não mais te excita Apenas te mantém viva. Cada gota garante a tua vida Transformada por uma mordida Interrompida pelo engasgo Logo na descida. Cada gota é teu alimento É teu sustento Sem sabor Sem doce Uma mistura que apenas te mantém viva. E com cada gota tu mantém-se não apenas viva Mas mantém em nós a esperança da vida Da vida a ser vivida E não somente da vida interrompida.

Zine #2


AO AUSENTE ilrianny alves Quanto mais eu quero nós Menos eu tenho Eu quero um MAR de nós Profundo e imenso Por agora tem uma poça de lágrimas Que chorei por sua ausência.

juliana brandão Após atravessar o portão do prédio, todos os sentidos demoraram a se reabituar ao barulhento mundo externo aos seus braços. - Posso car mais um pouco? Zine #2


juliana marreiros Sentada à beira de mim acompanho o curso dos córregos que me atravessam. Brinco de Deus, em pensamento arquiteto outros canais por onde o uxo carregue os peixes. Eles teimam em seguir cegos. Certos da desembocadura, limitam-se a seguir a correnteza Os que cortam caminhos, cortam minha carne o Deus em mim não vigora. E ao m, a força das águas revoltas arrasta os desviantes como punição pela obstrução do que parecia tão certo em minha paisagem. Sou uma vazante uma represa arrebentada. A violência do que não deveria mas irrompeu o selo da selvageria de minhas águas. Escorro-me para então, seca, reencontrar-me nascente queda d'água doce chuva de inverno no sertão. Zine #2


EU-CASULO leila alexandre Teci um casulo todo feito de não-vivências Tinha uma forma tão familiar… Parecia até que era eu o casulo. Fiquei lá dentro, confortável, à espera… de que mesmo? Se eu saísse de lá, sabia que bem na frente ia ter um espelho. Melhor não… Um dia, deu uma vontade de voar, tanta vontade… com asas que nem cabiam ali O casulo-eu se-me abriu-abri Lá fora não havia eu-espelho. Me vi. Eu-universo.

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MOTEL maiele carvalho

Amor com hora marcada faz dos corpos os ponteiros.

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LEMBRANÇAS QUE ARDEM EM UM DIA PERFEITO mara vanessa torres

Zine #2


natasha karenina Acordo. Esquento leite e coloco-o na xícara, previamente ocupada por pó de cappuccino. Café-chocolate-acúçar. Só mexer e tomar. Abro o facebook. Pra baixo, pra baixo, like, hahaha, não tem nada de interessante. Pego um pouco de maconha. Tiro uma parte e bem devagar vou destrinchando o chá com as mãos. Seleciono os galhos e sementes e jogo na tupperware onde ca a maconha. Depois eu jogo fora. Depois. Pego o chá e colocou no dischavador para moê-lo ainda mais. Mói. Mói. Pego a celulose pra bolar o beck. Vai sair troncho esse beck. O chá dischavado vai na seda, distribuído igualmente. Aperto o chá por toda a extensão da seda e com cuidado enrolo o conteúdo e a selo com saliva. Tanto trabalho. Acendo o beck. Trago. Não pode tossir. Assopro a fumaça devagar. Putz, esqueci de tomar o antidepressivo. Uma dose toda manhã. O horário é o que dá. Volto pro beck. Tento ler e fumar. Não dá. Dou uns pegas e vou ler alguma coisa. Abro o facebook. Nada de bom no facebook. Meia hora depois vou ler alguma coisa. Já ta na hora do almoço? É muito feio almoçar 10h? Acho que nem vou almoçar hoje. Ninguém fala comigo nessa porra de whatsapp. Curtir, compartilhar, hahaha, coração. Vou dar só mais um pega aí eu estudo de verdade. Um dois três caralho to muito louca. Preciso falar pra alguém que to muito louca. Like like like curtir compartilhar.

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CANTO PARA LUA NOVA

sergia a.

Cantava para sua pequena em noites frias, acomodando seus corpos aquecidos sob as cobertas. Era preciso proteger a pele macia e o brilho do olho, contra o avanço do vento noturno, impetuoso, que corta e cega. O tempo se repete. Não cansa de ser ontem. À pequena crescida a repetição se faz em canto. Como se no tamborilar dos dedos, na cadência das palavras, os céus ouvissem o ecoar de um pranto: às vezes quando escurece aqui dentro um pedaço de lua me sorri às vezes, de repente, aqui embaixo tudo se ilumina espelhando o brilho de um pedaço de lua que insiste em me sorrir e onde quer que eu vá um riso enlarguecido expande o azul Zine #2


Zine #2

AGRADECIMENTOS

às escritoras, pela conança de me entregarem suas palavras. mika, pelas ilustrações belíssimas. obrigada!


APOIO

HercĂ­lia Mendes JoĂŁo Batista Sousa de Carvalho Lara Matos

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esta edição é dedicada a aretha dantas

Desembuchamulhernumero2  

Segunda edição do fanzine piauiense "Desembucha, mulher!" Facebook: https://www.facebook.com/desembuchamulherzine/ e-mail: zinedesembuchamu...

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