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Alex Bruno, Ayrton Barbosa, Marcilio Emmanuel, Regivanio Maciel e Veridiano Quirino, alunos da UNICAP, do 2º período do Bacharelado em Filosofia, trabalho apresentado para Oficina de Retórica, em 2012.2, sob orientação da Profª Eleonoura Enoque. ANÁLISE DO FILME “O AUTO DA COMPADECIDA”

FICHA TÉCNICA  Título: O Auto da Compadecida  Origem/Ano: Brasil/2000  Gênero: Comédia  Tempo de Duração: 104 minutos  Ano de Lançamento: 2000  Estúdio/Distrib.: Globo Filmes  Direção: Guel Arraes e Mauro Mendonça Filho  Roteiro: Guel Arraes, Adriana Falcão e João Falcão  Produção: Daniel Filho e Guel Arraes  Prudutor Associado: Daniel Filho  Figurino: Caio Albuquerque  Das Obras de Ariano Suassuna: Torturas de um Coração (1951), Auto da Compadecida (1955) e O Santo e a Porca (1957).  Idioma: Português ELENCO: Ator Matheus Nachtergaele Selton Mello Marco Nanini Fernanda Montenegro Denise Fraga Lima Duarte Rogério Cardoso Diogo Vilela Maurício Gonçalves Virginia Cavendish Paulo Goulart Luís Melo Bruno Garcia Enrique Diaz Aramis Trindade

Personagem João Grilo Chicó Cangaceiro Severino de Aracaju Nossa Senhora (Compadecida) Dora, mulher do padeiro Bispo Padre João Eurico, o padreiro Jesus Cristo Rosinha Major Antônio Morais Satanás Vicentão Capanga De Severino de Aracaju Cabo 70


O Auto da compadecida é um documento sobre a sociedade brasileira. Retrata seu lado burlesco, ou seja, aquele em que a própria figura humana, mesmo vista na sua miserável lida, torna-se engraçada. Cômicas parecem ser as histórias, sem dúvida, porém enormemente trágicas. São tragicômicas as tramas destas histórias, intricadas por personagens tipicamente brasileiras, na grandeza de sua fé, na pequenez de pequenos gestos sorrateiros, na ingenuidade e na esperteza da viva inteligência de alguns, na malfadada sina de outros, nas traições habilmente urdidas, no poder de poucos sobre muitos e, sobretudo, na crença da vitória do amor e da justiça divina. Por tudo isso, se ousará reafirmar aqui, peremptoriamente, de que o filme é um documento de nossa cultura brasileira, e que tem de ser analisado a luz do par conceitual relacionada a esta idéia de cultura, no caso as palavras-chaves Nacional e Popular. O tema geral pode ser apreendido a partir de algumas questões que podemos formular, concernentes a história do filme, ao caráter de seus personagens, e ao fim a que se propõe originalmente seu texto, isto é, o propósito moralizador que é próprio a um tipo de teatro popular brasileiro. Auto, como designado no título, é um tipo de encenação popular, corrente durante muito tempo no nordeste do Brasil, e que se propunha a um ensinamento religioso. Os autos tinham a função de levar ao público as exemplares vidas dos santos, assim como os atos que os dignificaram. O auto obedece a um modelo de composição, uma das formas teatrais e dramatúrgicas, que está muito ao gosto do povo, sua função sendo o de instrumento de catequese, didática pelo ensinamento teológico dos evangelhos, moralizante através do exemplo cristão da vida dos santos. Escrita pelo dramaturgo e escritor pernambucano Ariano Suassuna, em meados da década de 50, reproduz o modelo de textos religiosos encenados em procissões e átrios de igrejas, como era comum naquele tempo, mantendo-se uma tradição medieval e renascentista que parece ter vindo de Portugal, ou do mundo. Acresce-se a isto o fato de que todas as histórias aqui alinhavadas foram recriadas a partir de histórias outras, retiradas do universo da poesia popular brasileiras, também conhecidas como “literatura de cordel”. De acordo com o próprio Suassuna, baseado em romances e histórias populares do Nordeste, e em certa tradição circense. Tradição, aliás, claramente reconhecível na estruturação dos seus dois personagens principais: João Grilo é o palhaço espertalhão, secundado por Chico, ingênuo e covarde. O palhaço e a besta! como se chamava no velho circo. O mesmo circo que se fez, historicamente no Brasil, movido por um caráter tradicional e coletivo. Por outro lado ainda, note-se, com respeito à literatura de cordel, que a sátira social é parte de uma expressiva retórica, fixada em uma poética tradicional popular, não raramente anônima (embora alguns identificáveis, como fez, por exemplo, Leonardo Mota, também escritor pernambucanos, no seu livro Violeiros do Norte, que traz alguns dos cordéis diretamente relacionados ao texto de Suassuna), e cujo conjunto de obras poderia ser identificada por uma comédia popular do Nordeste, gestada pela comédia medieval e renascentista. Como o filme deve ser visto e analisado? Na verdade, existem diversas maneiras de se ver um filme. Pode-se, por exemplo, assisti-lo na perspectiva de que o mundo da imagem é um mundo de formas, sendo a representação de uma dada realidade no plano, e que se pode, portanto, fazer uma leitura formalista nos seus diversos ângulos: os planos, os cortes, etc – note-se, por exemplo, que os personagens foram caracterizados de modo exagerado e caricato, o que faz com que o filme tenha inclusive um caráter frenético na sua montagem. Pode-se buscar, neste filme, o conteúdo da história analisando-o a partir de alguns referenciais


teóricos básicos: histórico, psicológico, psicanalítico, etc. Seria sociológico, por exemplo, quando se quer entender a sociedade que produz aquele filme e que por esse é retratado. No caso, a sociedade brasileira. Nordestina, agrária. Neste plano sociológico pode-se ver também os diversos aspectos políticos que são particulares desta sociedade, com sua estratificação social própria, bem como sua forma de mandonismo com o poder encarnado na figura do coronel. Neste sentido acreditamos que a chave do nacional e do popular bem explica o filme. Poder-se-ia ver o aspecto religioso também, notadamente aquela religiosidade católica devocional, própria ao meio nordestino, com seu misticismo, sua visão de mundo, seu valores éticos, seu imaginário (Note-se que na seqüência do julgamento os deuses são humanos, nas suas grandiosas disputas; as geografias hierofanicas também são imaginadas, repare como o céu é cheio de regras morais e o inferno, que só podemos entrever através de uma porta, está abarrotado de sofredores que padecem nas chamas eternas). No que tange a religiosidade observe-se particularmente a figura da Virgem, afinal o auto é construído para louvá-la na sua justiça misericordiosa, e se sua aparição é curta no enredo, repare-se que ela é decisiva para o desfecho do filme. A Virgem, que povoa o imaginário brasileiro, é a maternal, mãe dolorosa, Nossa Senhora. É a mediadora divina, aquela que gerou o filho de Deus, a Compadecida, aquela que por força deste amor materno interfere piedosamente a favor dos homens, e em torno da qual se construiu uma forte devoção mariana, que, não raro, distinguia o catolicismo devocional daquele catolicismo oficial (Repare-se no tom satírico com que o pároco e o bispo são retratados, como sujeitos sem moral, destituído de escrúpulos, e querendo sempre levar vantagem. O texto é crítico a igreja, sem contudo ser iconoclasta aos símbolos da religiosidade brasileira, ou seja, não é de maneira alguma blasfemo). Pode-se ver, também, ainda sobre esta chave do nacional e popular, a profunda sátira social que está contido no filme. Para esta sátira é empregada uma linguagem visual, palpável e concreta – são casos, estórias, fatos evocados. São casos que envolvem questões fundamentais dos nossos valores sociais, dentre os quais a ambição e a justiça. Repare que toda a trama se desenvolve em torno de dinheiro, o que revela uma censura a ambição cega. Em contrapartida, a justiça é julgada por um juiz sereno, aquele que se situa acima dos homens. (Repare-se que no filme o Cristo, ou simplesmente Manuel, é negro, isto foi posto intencionalmente na peça por Suassuna, que faz gracejo com a questão racial brasileira). Que elementos da vida social brasileira encontramos no filme? Em primeiro lugar um forte elemento identitário, ou seja, das características que afirmam a identidade do brasileiro psicológicos, isto é, o modo de sentir, o modo de pensar próprio de nosso povo. Acredito que é para este caráter dos brasileiros que pode ser apontada com mais foco a análise. O mote do filme, como lembra certo crítico é que “mentira com fé, nem sempre é pecado”, o que parece fazer parte da visão de mundo do brasileiro. Portanto, nenhuma outra explicação poderia ser tirada do filme que não visse o brasileiro como engraçado, engenhoso, satírico, e disposto a tudo para ganhar a vida. Mas, sobretudo, este brasileiro deve ser visto como um forte (lembre-se aqui Euclides da Cunha e o que ele diz dos sertanejos), capaz de sobreviver a todos os percalços que a vida lhe impõe, capaz, sem dúvida, em de dar um jeitinho em tudo (inclusive na morte, como se pode concluir pelo desfecho do filme). Por fim, urge uma última questão: É possível estabelecer um paralelo entre o filme e a vida contemporânea? Sem a menor dúvida, o sucesso estrondoso do texto de Suassuna tem atravessado varias gerações, merecendo montagens no rádio, no cinema (três


adaptações), e também na televisão (duas adaptações) como é o caso da presente versão que foi estruturada como uma mine-série, e só depois foi montada para ser exibida em salas de cinema. O interesse do público, os mais de dois milhões de espectadores que foram as salas de cinema para assisti-lo mesmo depois de sua exibição televisiva, nos prova de que o tema geral que ele aborda é atemporal, fortemente ancorado numa tradição brasileira e que, por isso mesmo, está presente no nosso cotidiano. Os valores, a visão de mundo e o modo como esses sancionam certa noção do que somos, enquanto brasileiros, diferentes de qualquer outro povo, em processos históricos e culturais, é a principal contribuição do filme para que possamos pensar a vida contemporânea. SINOPSE: Grilo é o nordestino sabido e esperto que luta pelo pão de cada dia. Ele vive várias aventuras, provocando muitas confusões e enganando aos ricos e poderosos. Ao seu lado está Chicó, companheiro de aventuras e estrada. Numa dessas confusões, o Grilo acaba morrendo e vai para o julgamento final.

DIRETOR Miguel Arraes de Alencar Filho é o nome de Guel Arraes, diretor de televisão e cineasta importante do Brasil. Ele é filho do grande político Miguel Arraes, que foi inclusive governador do estado de Pernambuco. Exatamente em função disso, isto é, pela posição política que tinha seu pai, Guel Arraes morou muitos anos fora do país,principalmente na Argélia, para onde sua família foi para o exílio, junto com o pai. Guel nasceu no Recife, em 12 de dezembro de 1953. Sua inclinação artística cedo despertou, mas ele desejou ser diretor, produtor, criador. E foi para o cinema e para a televisão. Ele começou já em posição de destaque, pois foi diretor da série: "Armação Ilimitada", direcionada aos jovens, e que fez muito sucesso, pois reunia um trio de atores, que ficou famoso: Kadu Moliterno, Evandro Mesquita, ambos apaixonados pela personagem de Andréa Beltrão. Essa série foi ao ar em 1985, e ficou muitos anos no ar. Depois Guel Arraes dirigiu "TV Pirata", em 1988. E "O Auto da Compadecida", em 1999. Essa série também fez grande sucesso, tanto que depois foi transposta para o cinema, com a direção do mesmo Guel Arraes, no ano 2000. Foi considerada por muitos a melhor série que a televisão já fez. Ainda na Rede Globo de Televisão, Guel Arraes dirigiu em 1994 o humorístico: "Casseta e Planeta" e em 2000:"Brava Gente". Guel Arraes hoje é Diretor de Núcleo, na Rede Globo de Televisão. No cinema, que é o que Guel mais gosta de fazer, em 83 ele fez montagem de:"O Rei da Vela".Em 2000, dirigiu:"O Auto da Compadecida" e em 2008: "Romance". Em 2008, foi produtor de: "Meu Nome Não É Johnny".


Além desses principais trabalhos relatados acima, Guel Arraes foi produtor de: "O Auto da Compadecida", "Caramuru, A Invenção do Brasil","Lisbela e o Prisioneiro", "Os Normais-O Filme", "Meu Tio Matou Um Cara", "O Coronel e o Lobisomem". Miguel Arraes ganhou os prêmios: Melhor Diretor e Melhor Roteiro, no Grande Prêmio Cinema Brasil, com:"O Auto da Compadecida". Prêmio de Público, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami, pelo mesmo:"Auto da Compadecida". Em 2010, dirigiu o filme "O Bem Amado", inspirado na novela de mesmo nome, que fez muito sucesso na TV Globo, no ano de 1973.

AUTOR Ariano Vilar Suassuna, advogado, professor, teatrólogo e romancista, desde 1990 ocupa a cadeira número 32 da Academia Brasileira de Letras. Filho de João Suassuna e de Rita de Cássia Villar nasceu em 16 de junho de 1927 na cidade de Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa, capital da Paraíba. Ariano estava com um pouco mais de três anos quando seu pai, que havia governado o Estado no período de 1924 a 1928, foi assassinado no Rio de Janeiro, em conseqüência da luta política às vésperas da Revolução de 1930. No mesmo ano, sua mãe se transferiu com os nove filhos para Taperoá, onde Ariano Suassuna fez os estudos primários. No sertão paraibano Ariano se familiarizou com os temas e as formas de expressão que mais tarde vieram a povoar a sua obra. Em 1942, a família se mudou para Recife e os primeiros textos de Ariano foram publicados nos jornais da cidade, enquanto ele ainda fazia os estudos préuniversitários. Em 1946 Ariano iniciou a Faculdade de Direito e se ligou ao grupo de jovens escritores e artistas que tinha à frente Hermilo Borba Filho, com o qual fundou o Teatro do Estudante Pernambucano. No ano seguinte, Ariano escreveu sua primeira peça, "Uma Mulher Vestida de Sol", e com ela ganhou o prêmio Nicolau Carlos Magno. Após formar-se na Faculdade de Direito, em 1950, passou a dedicar-se também à advocacia. Mudou-se de novo para Taperoá, onde escreveu e montou a peça "Torturas de um Coração", em 1951. No ano seguinte, voltou a morar em Recife. O Auto da Compadecida (1955), encenado em 1957 pelo Teatro Adolescente do Recife, conquistou a medalha de ouro da Associação Brasileira de Críticos Teatrais. A peça o projetou não só no país como foi traduzida e representada em nove idiomas, além de ser adaptada com enorme sucesso para o cinema. No dia 19 de janeiro de 1957, Ariano se casou com Zélia de Andrade Lima, com a qual teve seis filhos. Foi membro fundador do Conselho Federal de Cultura, do qual fez parte de 1967 a 1973 e do Conselho Estadual de Cultura


de Pernambuco, no período de 1968 a 1972. Em 1969 foi nomeado Diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, ficando no cargo até 1974. Ariano estava sempre interessado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais e, no dia 18 de outubro de 1970, lançou o Movimento Armorial, com o concerto "Três Séculos de Música Nordestina: do Barroco ao Armorial", na Igreja de São Pedro dos Clérigos e uma exposição de gravura, pintura e escultura. O escritor também foi Secretário de Educação e Cultura do Recife de 1975 a 1978. Doutorou-se em História pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1976 e foi professor da UFPE por mais de 30 anos, onde ensinou Estética e Teoria do Teatro, Literatura Brasileira e História da Cultura Brasileira. BIOGRAFIA DOS PROTAGONISTAS: Matheus Nachtergaele nasceu em São Paulo, em 3 de janeiro de 1969. Ele é um ator de teatro, cinema e televisão. Também atuou em dublagens. Seu início foi em teatro. No começo de 1990, fez parte da "Companhia de Teatro Vertigem", onde tinha a direção de Antônio Araujo. Em 1995 e 96, Matheus fez a peça: "O Livro de Jó", que lhe deu o Prêmio Shell e o Prêmio Mambembe, como Melhor ator de teatro. Seu sucesso o levou à televisão (Rede Globo), onde estreou na minissérie Hilda Furacão como Cintura Fina. O sucesso na minissérie o levou a atuação como protagonista na também minissérie que se tornou telefilme Auto da Compadecida, baseado na obra de Ariano Suassuna, no papel de João Grilo. Atuação essa que lhe rendeu o Grande Prêmio do Cinema Nacional como Melhor Ator. Desde então, tem feito inúmeras participações no cinema nacional e, no ano de 2008 estreou como diretor sem nunca ter deixado de lado o teatro e a televisão. Selton Mello nasceu em Passos – MG, no dia 30 de dezembro de 1972. Filho do casal Dalton Natal Mello e Selva Aretusa de Fiqueiredo Mello, e irmão do também ator Danton Mello. Selton Figueiredo Mello mudou-se ainda criança com a família para São Paulo. Seu primeiro trabalho na TV foi no seriado Dona Santa, em 1981, e, aos nove anos,

atuou

na

novela

Braço

de

Ferro,

ambos

da

Rede

Bandeirantes.

Quando começou a trabalhar na Rede Globo, na novela Corpo a Corpo (1984), Selton Mello mudou-se novamente com a família para o Rio de Janeiro. Sua estreia no cinema foi na comédia Uma Escola Atrapalhada, dos Trapalhões, em 1990, no papel de Renan. Um de seus personagens mais marcantes é o Chicó, da minissérie O Auto da Compadecida (1999). Por conta do sucesso, a história foi levada ao cinema.


Recentemente brilhou nas telonas em duas histórias baseadas em fatos reais: no papel de um ex-traficante carioca em Meu nome não é Johnny, e em Jean Charles, onde deu vida ao brasileiro assassinado no metrô de Londres pela polícia ao ser confundido com um terrorista. Selton tornou-se um dos grandes expoentes do cinema nacional, lançando vários trabalhos em sequência e se aventurou também como diretor no longa Feliz Natal, além de ter dirigido o video clipe de Esconderijo, da cantora Ana Cañas, em 2009. No ano de 2010 voltou à TV, estrelando a minissérie global A Cura, vivendo o personagem Dimas Bevilláqua. Ainda no mesmo ano, ele participou do filme Federal, ao lado de Carlos Alberto Riccelli e do ator norte-americano Michael Madsen. Além da produção Lope (que estreou no Brasil em março de 2011), de Andrucha Waddington, como o personagem Marqués de Navas.

GÊNERO DO DISCURSO DO FILME Jurídico - Podemos afirmar que este trecho é jurídico por utilizar elementos de cunho judiciário, como devesa, apresentação de provas em relação ao veredicto final. Dando também uma ênfase em uma infração no caso da morte dos pais do garoto Severino e uma conclusão do caso: “Severino enlouqueceu depois que a polícia matou seus pais”. Outros pontos a serem observados na afirmação dita que é jurídico pode ser o ambiente que compõe de júri, réus advogado de defesa e de acusação.

CENA ANALISADA: JULGAMENTO Linha Nº 1ª PARTE 01 JOÃO GRILO Valha-me nossa Senhora,/ Mãe de Deus de Nazaré! 02 A vaca mansa dá leite,/ a braba dá quando quer. 03 A mansa dá sossegada,/ a braba levanta o pé. 04 Já fui barco, fui navio,/ mas hoje sou escaler. 05 Já fui menino, fui homem,/ só me falta ser mulher. 06 Valha-me nossa Senhora,/ Mãe de Deus de Nazaré! 07 DIABO – Lá vem a Compadecida! Mulher em tudo se mete. GENERALIZAÇÃO APRESSADA (Falácia de Relevância): 08 JOÃO GRILO - A senhora se zangou com o versinho que eu recitei? 09 COMPADECIDA - Não João, por que eu iria me zangar? 10 Tem umas graças mas eu até acho bom. Quem gosta de tristeza é o diabo. 11 DIABO - Protesto! 12 JESUS - Eu sei que você protesta, mas eu não tenho o que fazer meu velho, 13 discordar da minha mãe é que eu não vou. 14 DIABO - Grande coisa esse chamego que ela faz pra salvar todo mundo. 15 Acaba desmoralizando tudo. 16 SEVERINO - Você fala assim porque nunca teve mãe! 17 JOÃO GRILO - É “mermo”! Um sujeito ruim desse só sendo filho de chocadeira.


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COMPADECIDA – Pra quê você me chamou João? JOÃO GRILO - É que esse filho de chocadeira quer levar a gente pro inferno. Eu só podia me pegar com a senhora “mermo”. COMPADECIDA - Vou ver o que eu posso fazer. (vira-se para Jesus) Intercedo por esses pobres, meu Filho, que não têm ninguém por eles. Não os condene. DIABO - Eu apelo para justiça! JOÃO GRILO - E eu para misericórdia! COMPADECIDA - É preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. Os homens começam com medo, coitados, e terminam por fazer o que não presta quase sem querer. É medo. DIABO - Medo de quê? COMPADECIDA - De muitas coisas; do sofrimento, da solidão, e no fundo de tudo, medo da morte. JESUS - E é a mim que você vem dizer isso? A mim que morri abandonado, até por meu pai. COMPADECIDA - Mas não se esqueça da noite no jardim, do medo que você teve que passar. Pobre homem, feito de carne e sangue, como qualquer outro e, como qualquer outro, abandonado diante da morte e do sofrimento. DIABO – Medo da morte todo mundo tem e nem por isso se tornam pessoas virtuosas. Falácia do Acidente Em que é que esse medo fez o padeiro e a mulher, por exemplo, se tornarem melhores? Medo da morte por se só não redime os pecados! COMPADECIDA - Mas na hora da morte às vezes sim. Na oração da Ave Maria os homens pedem para eu rogar por eles na hora da morte, e eu rogo; e olho para eles nessa hora e vejo que muitas vezes é na hora de morrer que eles encontram o que procuraram a vida toda. Foi o que aconteceu com Eurico e Dora quando iam ser fuzilados pelo cangaceiro: CANGACEIRO - Eu acho que por aqui “tá” bom, eu vou andando até a igreja e de lá eu atiro “visse”? É o tempo de uma Ave Maria, vocês vão rezando de lá que eu vou rezando de cá que é pra não ter perigo da Santa não escutar, não é? EURICO - A gente sempre pensa que vai poder esticar a vida mais um bocadinho. DORA - Por mais que eu goste de viver eu sempre me perguntei se eu queria que minha vida se espichasse além da sua. Agora eu sei, eu não ia aguentar ver você morrer. Eu quero morrer primeiro Eurico! EURICO - Oh Dora, por que você me traiu esse tempo todo? DORA - Acho que foi por isso “mermo”: Trair você era lhe matar um pouquinho dentro do meu coração. Eu tinha tanto medo de lhe perder de uma vez, que eu ia tentando lhe perder aos pouquinhos. EURICO - Tenha cuidado não, agora a gente vai ficar juntos pra sempre. Oh seu moço, eu tenho um último pedido pra fazer pro senhor: é pra gente morrer junto. CANGACEIRO - Ah, é bom que economiza uma bala, quando fizer as contas vou achar que matei menos um. (atira e mata os dois com um só tiro) COMPADECIDA - Alego em favor dos dois, o perdão que o marido deu a mulher na hora da morte, abraçando-se com ela para morrerem juntos, O mais ofendido pelos fatos que ela praticava era ele e, no entanto, ele rezou por ela. JESUS - Está recebida a alegação. Quanto ao Padre e o Bispo? COMPADECIDA - Na hora da morte eles também tiveram a sua revelação:


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CANGACEIRO - É, dizem que matar padre dá um azar danado... PADRE - Sobretudo para o padre. CANGACEIRO - Eu queria que antes de atirar os senhores me perdoassem dos meus pecados “visse”? BISPO - Mas, para perdoar, antes você tem que se arrepender e desistir de nos matar. CANGACEIRO - Me arrependo depois... BISPO - Vá se arrepender no inferno! CANGACEIRO - Então não tem jeito não, que nem que seja no inferno tenho que obedecer as ordens do capitão. PADRE - Não podemos negar-lhe a absolvição senhor Bispo. BISPO - O que nós não podemos é abençoar um assassino, ainda por cima o nosso! PADRE - Somos sacerdotes Eminência, nossa missão é salvar as almas, mesmo que a gente não consiga salvar as nossas. Lembre-se senhor Bispo da oração que Jesus fez pelos seus carrascos. BISPO - Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem. (é baleado e morre) PADRE - Meu Deus, por que nos abandonastes? (também é baleado e morre) COMPADECIDA - Eles seguiram o seu exemplo, meu Filho, perdoando seus assassinos. DIABO - É sempre assim, depois de morrer todo mundo fica bonzinho. Ironia. COMPADECIDA - Quanto a Severino... JESUS - Quanto a esse deixe comigo. Não foi sua morte que o redimiu, mas a morte de seus pais. Com oito anos de idade ele conheceu a fera que existe dentro dos homens. SEVERINO - Escapei daquele massacre sem querer; passei a vida desafiando a morte. JESUS - Severino enlouqueceu depois de a polícia matou a família dele, ele não era responsável pelos seus atos. Está salvo! DIABO - Isto é um absurdo contra o qual... JESUS - Contra o qual... Eu já sei que você protesta, mas não recebo seu protesto, você não entende nada dos planos de Deus. Severino está salvo, ele foi um mero instrumento da cólera divina. Severino, meu filho, pode ir por ali. DIABO - Afinal, qual é a sentença? JOÃO GRILO - Um momento Senhor, posso dar uma palavra? JESUS - A senhora o que acha minha mãe? COMPADECIDA - Deixa João falar meu Filho! JESUS - Fale João. JOÃO GRILO - Os quatro últimos lugares do purgatório estão desocupados? JESUS - Estão... JOÃO GRILO - Pegue esses quatro camaradas e bote lá. COMAPDECIDA - É uma ótima solução meu Filho. Dá pra eles pagarem o muito que fizeram e ainda assegura a salvação deles. JOÃO GRILO - E tem a vantagem de descontentar esse camarada aqui que é pior que carne de cobra. Metáfora “Tá” vendo ele aqui de costas? JESUS – Estou. JOÃO GRILO - Isso é de ruim! JESUS - Minha mãe o que é que acha? COMPADECIDA - Ai, eu ficaria muito satisfeita. JESUS - Então está concedido, podem ir vocês quatro. DIABO - Ah, não tem jeito. Homem que mulher governa...


1ª PARTE FIGURAS DE LINGUAGEM E FALÁCIAS Falácia do Acidente (generalização não qualificado) quando o personagem generaliza uma colocação e dela tira conclusões . Generalização Apressada (falácia de relevância): A generalização é feita apressadamente. Não há casos suficientes para justificar a conclusão. Figura de construção: Ironia - Remete a um Conceito contraditório ao real sentido. Figura de palavra: metáfora. É uma comparação abreviada. Que desvia o sentido próprio, para um sentido figurado.

Linha Nº 01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31

2ª PARTE JESUS - Agora nós João Grilo. DIABO - Pelo menos esse eu faço questão de levar. JESUS - Você que é tão sabido, que é que você tem a dizer em sua defesa? JOÃO GRILO - Nada não Senhor. JESUS - Como nada? Chegou a hora da verdade. JOÃO GRILO - É por isso que estou lascado. Comigo era na mentira. DIABO - Ainda bem que reconhece. COMPADECIDA - Você mentia para sobreviver João! JOÃO GRILO - Mas eu também gostava. Eu acabei pegando gosto de enganar aquele povo. COMPADECIDA - Não, porque eles lhe exploravam; a esperteza é a defesa do pobre, a esperteza era a única arma que você dispunha contra os maus patrões. JOÃO GRILO - Agradeço sua intervenção, mas devo reconhecer que não vivi como um santo. DIABO – “Tá” se fazendo de humilde pra ela tomar as dores dele! JOÃO GRILO - Do jeito que eu sou ruim, pode até ser isso mesmo. COMPADECIDA - Não! Não se entregue João, esse é o pai da mentira, está querendo lhe confundir. JOÃO GRILO - A verdade é que eu nunca fui nenhum santo e nem tive uma morte gloriosa como a dos meus companheiros. COMPADECIDA - João foi pobre como nós, meu Filho, e teve que suportar as maiores dificuldades numa terra seca e pobre, como a nossa. Apelo à Piedade Pelejou pela vida desde menino, passou sem sentir pela infância, acostumou-se a pouco pão e muito suor. Na seca comia macambira, bebia o sumo do xiquexique, passava fome, e quando não dava jeito ele se juntava a um grupo de retirantes que ia tentar sobreviver no litoral. Humilhado, derrotado, cheio de saudade; e logo que tinha notícia da chuva, pegava o caminho de volta, animava-se de novo como se a esperança fosse uma planta que cresce com A chuva; e quando revia sua terra dava graças a Deus por ser um sertanejo pobre, mas cheio de fé. Peço-lhe muito simplesmente que não o condene. Prova técnica JESUS - O caso é duro, compreendo as circunstâncias em que João viveu, mas isso também tem limite, e acho que não posso salvá-lo. COMPADECIDA - Dê-lhe meu Filho então, outra oportunidade. JESUS - Como? COMPADECIDA - Deixa João voltar.


JESUS - Você se dá por satisfeito? JOÃO GRILO - Ah, de mais! Pra mim é até melhor porque daqui pra lá eu tomo cuidado pra hora de morrer e não passo nem no purgatório, que é para não dar gosto ao cão. COMPADECIDA - Então João, fica satisfeito? JOÃO GRILO - Eu fico quem deve estar danado é o filho de chocadeira. (o diabo tenta atacar João, mas Nossa Senhora o defende e o diabo volta pro inferno). O que ele teve meu Deus? COMPADECIDA - Na raiva olhou pra você e me viu!

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FIGURAS DE LINGUAGEM E FALÁCIAS Apelo à Misericórdia (relevância) quando o personagem utiliza de piedade e compaixão, é colocada clemência e a simpatia saindo do contexto justo para o emocional, pode ser também legítimo ou falacioso dependendo da circunstância.

TIPOS DE PROVAS Provas técnicas (intrínsecas) quando o personagem na defesa do réu utiliza de recursos visuais como fotos, filmagens, e auditivas como gravações para persuadir o júri.

Referências: 

DA SILVA, Eleonoura Enoque. Tópicos em Teoria Da Argumentação- Texto em elaboração: para uso exclusivo em sala de aula. Recife-PE: Universidade Católica de Pernambuco , 2012.

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/auto_d a_compadecida. Acesso em: 12/09/2012;

  

http://www.slideshare.net/klaun/o-auto-da-compadecida-uma-anlise-do-pontode-vista-dos-estudos-culturais-da-cultura-de-mdia. Acesso em: 12/09/2012; Kino Digital – Revista Eletrônica de Cinema e Audiovisual, nº 1, dez. 2006. Acesso em: 12/09/2012; SUASSUNA, Ariano. Auto da compadecida. 1. ed. Rio de janeiro: Agir, 1957. 203 p. (teatro moderno ; 3).


Auto da Compadecida