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Laking

Daniel Moreira . Rita Castro Neves 2016


Laking é uma exposição de dois artistas portugueses Daniel Moreira e Rita Castro Neves - a trabalharem pela primeira vez em colaboração - em Helsínquia. O convite do espaço artístico finlandês Oksasenkatu 11 para trabalharmos em conjunto despoletou um conjunto de reflexões sobre temas como: a colaboração entre dois artistas, as idiossincrasias de cada médium - no caso o desenho e a fotografia, o espaço entre os espaços da representação, a paisagem de um lugar como metáfora... A partir de uma estadia-residência mas acima de tudo de uma vivência, numa “casa do lago” finlandesa, espaço naturalmente idealizado, e depois de volta a Portugal, criámos um conjunto de trabalhos que, por entre fotografia e desenho, e passando pelo vídeo e o som, questionam a aproximação entre os nossos meios de representação privilegiados. Ancorado em imagens reais da Finlândia e de Portugal, pretendemos construir um espaço metafórico de possibilidade de ideia de paisagem, e das suas formas de representação. Partindo da interiorização da ideia de paisagem exterior (ou da exteriorização de uma ideia de paisagem interior?), e, referenciando Caspar David Friedrich em geral e o uso da ruchenfigur em particular, um conjunto de imagens interpelam o observador para que este descubra um lugar que se constrói a partir de dois lugares. Portugal e Finlândia - os dois pólos da geografia europeia - despoletam a criação de imagens de um novo lugar que não híbrido mas imaginado, quem sabe utópico. O evocativo lago é simultaneamente um contentor fechado e um local de matéria em fluidez e dissolução. Num lago, as diferentes matérias que o compõem fundem-se para serem percepcionadas como uma realidade só - o lago - mas mantêm a sua unicidade - a alga, o peixe, a rocha... Laking assume-se então como a tentativa de dois artistas fundirem a sua criação artística numa exposição pluridisciplinarmente coesa, atravessada por duas visões e, ainda assim, esteticamente solidificada. A sempre presente ideia neste projeto de duplicidade ou polaridade (dos sempre binómios lago-terra, Portugal-Finlândia, Daniel-Rita, desenho-fotografia, interior-exterior, contentor-contido, matéria-contorno...) é todavia constantemente atravessada pela ideia contraposta de um fusionismo aquático visceral. O título da exposição Laking joga com as palavras, entre Lake and Lacking, um novo verbo to lake, porque a idealizada ideia de um lago onde na fusão nos tornamos um, inclui sempre a compreensão da impossibilidade da sua total concretização. A negociação dos espaços-entre, questionadores e abissais, é a plataforma para pensar os próprios modos de representação das imagens. Laking, forma verbal de um verbo que não existia, mas agora sim.


Cartaz da Exposição


Lake house 2015 grafite sobre papel - graphite on paper 29,7x21cm each (series of 4 drawings)

Night and Day 2015 grafite sobre papel - graphite on paper 42x29,7cm each (dĂ­ptico - diptych)


Dog 2015 grafite sobre papel - graphite on paper 42x29,7cm

Landscape fragments 2015 grafite sobre papel - graphite on paper 29,7x21cm each (series of 4 drawings)


Communication (Rita to Daniel) Communication (Daniel to Rita) 2015 Lambda print, edition of 5 + 2 AP 70x100 cm each (díptico - diptych)

Dear Friend, Dear Dog 2015 Lambda print, edition of 5 + 2 AP 47x70 cm each (díptico - diptych)


Boat revealed 2015 Lambda, grafite e carvĂŁo sobre papel - Lambda unique print, graphite and charcoal on paper 29,7x42 cm each (dĂ­ptico - diptych)

Displaced landscape 2015 Lambda print, edition of 5 + 2 AP 70x100 cm


Laking . Oksassenkatu 11 gallery . Helsinki, Finland . 2016 Fotos da Exposição


Soundcrafts #1: pulse HD video, 1min in loop, sound Edition of 3 + 1 AP


Videocrafts #1: earth and ice house Instalação, Casa de terra e projeção de vídeo HD da casa de gelo com 1min12s em loop, lanterna de led, placa de madeira.

Installation, earth house and ice house video projection HD video 1min12s in loop, led torch, wood board.


Videocrafts #1: earth and ice house Instalação, Casa de terra e projeção de vídeo HD da casa de gelo com 1min12s em loop, lanterna de led, placa de madeira.

Installation, earth house and ice house video projection HD video 1min12s in loop, led torch, wood board.


Laking . Oksassenkatu 11 gallery . Helsinki, Finland . 2016 Fotos da Inauguração da exposição 31.12.2015


Laking . Oksassenkatu 11 gallery . Helsinki, Finland . 2016 Fotos da publicação

Laking de Daniel Moreira e Rita Castro Neves é uma publicação auto editada aquando da exposição. As capas são em papel vegetal com desenho original, e o interior em papel Munken de 130g, com elementos soltos (desenhos impressos, texto em inglês e fotografias originais), 24 páginas. 21 x 14 cm Edição limitada de 40 exemplares, numerada e assinada.


A propósito do projeto Laking, Rita Castro Neves apresentou a 25 de Fevereiro de 2016, uma comunicação e escreveu um artigo de investigação no contexto da Ilustrada . Encontro de Ilustração, na UBI Universidade da Beira Interior, Departamento de Comunicação e Artes, Covilhã, Portugal http://www.ilustrada.ubi.pt/#about

Laking: estudo de caso de uma tentativa de pensar, em colaboração, diferentes formas de representação do real através do desenho e da fotografia

Rita Castro Neves, membro colaborador do i2ads Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, NAI Núcleo de Arte Intermedias

Resumo: A partir do projeto Laking, uma exposição de colaboração entre eu própria, artista que se exprime sobretudo com fotografia, vídeo e instalação e o ilustrador e artista Daniel Moreira, em Helsínquia, tecem-se considerações sobre a relação entre estes diferentes modos de representar, as suas relações particulares com o real, e possíveis interseções e proximidades. Partindo da vivência de uma “casa do lago” finlandesa, e ancorado em imagens reais de Portugal e da Finlândia, Laking constrói um lugar metafórico a partir de dois lugares. Um lugar não híbrido, mas imaginado, quem sabe utópico. A ideia de duplicidade (lago-terra, Portugal-Finlândia, desenho-fotografia, interior-exterior, contentor-contido...) é contraposta por um fusionismo aquático visceral. Laking joga com as palavras, entre Lake e Lacking, num novo verbo to lake, porque a idealizada ideia de lago onde na fusão nos tornamos um, inclui a compreensão da impossibilidade da sua total concretização. Combinando e contrapondo as potencialidades ontológicas do desenho e da fotografia para ilustrar, Laking tenta criar a partir da possibilidade de existência de um espaço entre os espaços tradicionais de representação visual. Laking é assim uma especulação sobre um real eminentemente contruído não apenas com o desenho e a fotografia, mas através do desenho e a fotografia. Especulação pois no seu sentido reflexivo original, como dois espelhos que tentam através dos seus diferentes posicionamentos no espaço, isto é, das suas diferentes perspetivas – óticas, ontológicas, autorais e culturais, refletir um real, e refletir sobre um real que é, já se vê, uma ficção em comum. Palavras chave: colaboração, ilustração, fotografia, real, ficção.

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A partir do projeto Laking que se materializa numa exposição de colaboração entre eu própria, artista que se exprime sobretudo com fotografia, vídeo e instalação e o ilustrador e artista Daniel Moreira, em Helsínquia no espaço Oksasenkatu 11 em Janeiro de 2016, tecem-se considerações sobre a relação entre estes diferentes modos de representar, as suas relações particulares com o real, e possíveis interseções e proximidades. Laking partiu de uma estadia-residência mas acima de tudo de uma vivência, numa “casa do lago” finlandesa, espaço naturalmente idealizado. Ancorado em imagens reais da Finlândia e de Portugal, pretendemos construir um espaço metafórico de possibilidade de ideia de paisagem, e das suas formas de representação, com imagens que interpelam o observador para que este descubra um lugar que se constrói a partir de dois lugares. Um lugar que não é híbrido, mas imaginado, quem sabe utópico. O evocativo lago é simultaneamente um contentor fechado e um local de matéria em fluidez e dissolução. Num lago, as diferentes matérias que o compõem fundem-se para serem percecionadas como uma realidade só - o lago - mas mantêm a sua unicidade - a alga, o peixe, a rocha... A sempre presente ideia de duplicidade ou polaridade (dos sempre binómios lago-terra, Portugal-Finlândia, desenho-fotografia, interiorexterior, contentor-contido, matéria-contorno, Daniel-Rita...) é todavia constantemente atravessada pela ideia contraposta de um fusionismo aquático visceral. O título da exposição Laking joga com as palavras, entre Lake e Lacking, num novo verbo to lake, porque a idealizada ideia de um lago onde na fusão nos tornamos um, inclui sempre a compreensão da impossibilidade da sua total concretização. Laking, é então uma forma verbal de um verbo que não existia, mas agora sim. O processo de construção partilhada de Laking levantou questões importantes sobre qual o papel do desenho e da fotografia na construção de imagens desse novo lugar também construído, existente através da criação imagética por nós esteticamente operada, que se consubstancia em criações de situações e locais novos, que de irreais assim se foram tornando reais, ainda e também, porque por vezes surreais. Na série de quatro ilustrações Daniel Moreira ilustra, em escalas aproximadas pelo médium desenho, uma ideia de casa, lago e barco.


Lake House (series of 4 drawings), grafite sobre papel, 29,7x21 cm cada.

O desenho de Daniel Moreira tem por característica ser pormenorizado e detalhado, num traço fino e tecnicamente bem ancorado, numa prática que deixa adivinhar os seus primeiros anos dedicados à arquitetura, e a uma atenção escrutinadora e incansável sobre o existente espaço real. Lembramos aqui o recorte conceptual de Margarida Medeiros (Medeiros, pp. 45-55) a partir da análise da categoria do retrato, de como a pintura – tal como a ilustração, o desenho - por ser sempre uma construção feita a partir da matéria (grafite, tinta...), com a característica de ser artesanal, densa e desenvolvida a partir de uma prática assente na temporalidade, é sempre uma ficção construída, mesmo quando realística. Ao contrário, e ainda com Medeiros, a fotografia – e por extensão o cinema, o vídeo – realizando-se a partir de um instrumento ótico, é mecânica e automática, não temporal mas veloz, e logo colada ao real, “necessariamente real” e não “facultativamente real” (Barthes, p.109). Nos desenhos de Daniel Moreira a tensão entre a representação do arquétipo (de casa, de lago, de barco...) e a ficção de um lugar que faz uma ponte imaginária entre as paisagens de Portugal e a Finlândia, remete-nos para uma fantasia fusionista. A tensão das ilustrações presentes em Laking também são entre esse traço detalhado que nos remete para o real com rigorosa veracidade (todos os detalhes do barco a remos estão lá descritos, de tal forma que não duvidamos que foi “desenho à vista” ou - desde o século XIX pelas possibilidades instauradas pelo novo meio - “desenho à fotografia”) e o improvável isolamento do objeto. No real, um barco a remos está sempre em contexto: no lago, no mar, em terra, no apresto... Todavia aqui o que vemos é um barco que navega no nada, que, avançando do nada para o nada representa simultaneamente o paradigma da viagem e qualquer barco, português, finlandês ou outro. Mais ainda, este frágil barco a remos pela sua forma aeronáutica, é a tentativa de encontrar novas formas de viajar, a passarola de Gusmão. Daniel Moreira também opera aqui jogos de escala dentro da série: num desenho não sabemos se vemos um lago ou uma piscina, para a seguir nos questionarmos se o barco a remos é apenas um pequeno barco (de brincar) numa bacia, ou uma situação mais do campo do imaginário, em que um barco real se encontra numa bacia irreal, mais metáfora de local contido e delimitado, mais referência objetual do quotidiano. Um lago como um grande alguidar ou um alguidar como um grande lago? Ora, se por um lado, como vimos, as ilustrações presentes na exposição, permitem criar um espaço representacional simultaneamente realista, arquetípico, ficcional e fantasioso, as fotografias de Laking, vão também, mas por outra via, a partir do real concretizar situações ficcionadas. Como sabemos, na fotografia não precisamos de desenhar o detalhe, com o afinco próprio de quem ao longo dos anos desenvolveu e dominou uma difícil técnica. Pelo contrário, uma vez que o detalhe, esses ““particolari” ínfimos” hiperpresentes se apresentam na fotografia por natureza (Frade, p.103 e ss.), o esforço, a técnica são para os retirar da imagem. O mesmo se passa com o realismo, que na fotografia parece sempre saltar para nós como uma força inevitável. Em fotografia o esforço não é o de mostrar o real, mas o de criar ficções. Dizia Barthes na sua famosa Câmara Clara que “o importante é que a foto possui uma força verificativa (..) De um ponto de vista fenomenológico, na Fotografia, o poder de autenticação sobrepõe-se ao poder de representação” (Barthes, p.125). Assim, a fotografia pela sua ontologia, por aderir ao real no sentido Barthesiano, por indiciar o real no sentido semiótico de Charles S. Peirce (tal como aplicado por Dubois), efetivou em Laking possibilidades representacionais de situações surrealizantes, de difícil resolução prática para os habitantes dessas imagens.


Communication (Rita to Daniel), Communication (Daniel to Rita), lambda print, 70x100 cm cada.

Em Communication, duas fotografias descrevem-me a mim e ao Daniel, numa paisagem idealizada mas concreta, porque fotográfica, de uma estrada do interior algarvio, ao nascer do sol, a tentar ter uma conversa através do intemporal mas ineficiente instrumento de comunicação que é o búzio. Separados fisicamente pelos enquadramentos, e pela existência de não uma mas duas imagens, aproximam-se os retratados pelo posicionamento na fotografia, pela similar paisagem e búzio (que é o mesmo nas duas fotografias) mas sobretudo pela tentativa que os dois levam a cabo com a mesma determinação, e que é um tentativa de comunicarem.

Boat Revealed, díptico, lambda print e grafite sobre papel, 29,7x42 cm cada.

Em Boat Revealed (barco revelado), a proposta de reflexão de Laking clarifica-se ao apresentar duas imagens de um barco a remos, com o mesmo tamanho, sensivelmente a mesma escala mas de ângulos diferentes. A fotografia mostra tudo, mas não revela, o desenho resume. O cuidadoso detalhe do desenho da rachadela, é de desenho rigoroso, ilustrando a realidade. Nos primórdios da fotografia são constantemente sublinhadas pelos seus contemporâneos as novas possibilidades que este médium traz de rapidez e veracidade na documentação da ciência, desde logo no discurso visionário que François Arago faz em 1839 em Paris, na sessão conjunta da Académie des Sciences e da Académie des Beaux Arts, e em que este apresenta publicamente o novo invento a que chamamos agora fotografia. Arago antevê desde logo várias úteis aplicações do Daguerreótipo “uma descoberta que tanto pode contribuir para o progresso das artes e das ciências” 1, incluindo o exemplo de que para “copiar milhões e milhões de hieróglifos que cobrem, mesmo no exterior, os grandes monumentos de Tebas, Memphis, Karnak, etc, seriam necessárias décadas e legiões de desenhadores. Com o Daguerreótipo, um só homem poderia levar a bom porto esse imenso trabalho” 2. Certíssimo Arago, é logo desde o início da fotografia que assistimos a várias aplicações da fotografia à ciência, como é o caso, entre outros, das primeiras fotografias da lua de John Adams Whipple, as primeiras fotografias de Abou-Simbel, os Raios X de Wilhelm Röntgen, as nosografias de má memória...) 3.

1

Tradução nossa do discurso de Arago, em Compte rendu de la séance du 7 janvier 1839 devant l'Académie des Sciences de Paris, excertos publicados em http://expositions.museedelaphoto.fr/mod_webcms/content.php?CID=LQ1671C, acessado a 3 de Fevereiro de 2016. Tradução nossa do discurso de Arago, em Compte rendu de la séance du 19 août 1839 devant l'Académie des Sciences de Paris, excertos publicados em http://expositions.museedelaphoto.fr/mod_webcms/content.php?CID=LQ1671C, acessado a 3 de Fevereiro de 2016. 3 Ainda assim ironicamente, as primeiras imagens de locomoção animal de Eadweard Muybridge fragmentando o movimento dos cavalos – revelações apenas possíveis graças à fotografia – quando são publicadas em revistas científicas como é o caso da capa de 19 de Outubro de 1878 da Scientific American, não o são como reproduções das fotografias mas com ilustrações que as copiam. Para dar outro exemplo, as primeiras reportagens fotográficas de guerra – uma área que se irá tornar fundamental na cultura da fotografia profissional - na Guerra da Crimeia (1853-56) sob a alçada do fotógrafo britânico Roger Fenton, são na altura raramente mostradas enquanto fotografias, antes servindo de base para desenhos, esses sim publicados na imprensa. O facto da publicação da fotografia documental na imprensa ser mediada pelo desenho acontece muito frequentemente, muito ainda por questões de ordem técnica, que tornavam o processo de colocar fotografias nos jornais moroso e de elevado custo, problemas que só começam a ser ultrapassados a partir da década de 80 do séc. XIX graças aos esforços técnicos de Frederick E. Ives e outros. 2


Mas curiosamente, nos dias de hoje, na arqueologia (para citar apenas uma área científica) é prática comum atualmente, em complemento ou mesmo detrimento do uso da fotografia, contratar-se o serviço do ilustrador para, com precisão, desenhar os objetos em estudo. Curiosa solução, aparentemente em dissintonia com a indiscutível qualidade ontológica da fotografia de aderência ao real e o seu noema “Isto-foi”, como garante do que aconteceu no passado (Barthes, p.109). Aparentemente há então algo no olhar humano que aliando atenção, decisão e rigor poderá por vezes suplantar a capacidade técnica da fotografia, e que poderá ser a expressividade do traço singular daquele ilustrador, a capacidade de síntese na descrição, e até na análise, de um objeto, a simplicidade e despojo da técnica do desenho, etc 4. Claro que esta evidência não põe em causa a evocada ontologia fotográfica, uma vez que a fotografia não deixa de efetivamente captar exatamente o que está em frente à câmara (e independentemente do ser humano que prima o disparador). Se na fotografia do barco a remos a rachadela não é mostrada é apenas porque com a câmara naquela posição, naquele ângulo, não a vemos. Mas embora intocada a essência, parece que todavia, assim se complexificam as relações entre fotografia e desenho, e com a fotografia e com o desenho, sai reforçado o papel do autor, e sobretudo abre-se um campo de possibilidades para trabalhar no espaço-entre a fotografia e o desenho, em abstrato e entre esta fotografia deste barco e este desenho do mesmo barco. No díptico, com efeito, com esta passagem de uma imagem fotográfica para uma imagem pictórica, propúnhamos uma performatividade do olhar do observador, como se o seu corpo mudasse de lugar, como se contornasse fisicamente o barco, como se desse a volta. A mudança de médium representacional no díptico - da fotografia para a ilustração - serve também para sublinhar e enfatizar essa mudança física de posição corporal. À opção dos artistas corresponde a experiência vivida: realmente quando entusiasticamente decidimos “dar uma volta de barco no lago”, no barco que ali estava “à nossa vista” há dias, nada fazia prever que estivesse quebrado. Só a nossa aproximação ao objeto e olhar atento nos revelaram esse importante - e perigoso - detalhe.

Combinando e contrapondo as potencialidades ontológicas do desenho e da fotografia para ilustrar, Laking tenta criar a partir da possibilidade de existência de um espaço entre os espaços tradicionais de representação visual. Laking é assim uma especulação sobre um real eminentemente contruído não apenas com o desenho e a fotografia, mas através do desenho e a fotografia. Especulação pois no seu sentido reflexivo original, como dois espelhos que tentam através dos seus diferentes posicionamentos no espaço, isto é, das suas diferentes perspetivas – óticas, ontológicas, autorais e culturais, refletir um real, e refletir sobre um real que é, já se vê, uma ficção em comum.

Bibliografia

Barthes, Roland, A câmara clara, Lisboa, Edições 70, col. Arte & Comunicação, 1989, 176p. Dubois, Philippe, “Da Verosimilitude ao Índice”, in O Acto Fotográfico, Lisboa, Vega, col. Comunicação & Linguagens, 1992, pp. 17-50, 229 p. Frade, Pedro Miguel, Figuras do espanto. A fotografia antes da sua cultura, Lisboa, Asa, col. Argumentos Pensamento Contemporâneo, 2007, 240 p. Medeiros, Margarida, “O retrato pintado e o retrato fotográfico”, in Fotografia e narcisismo. O auto-retrato contemporâneo, Lisboa, nº 20, Assírio & Alvim, col. Arte e Produção, 2000, pp. 45-55, 177 p.

Webgrafia

http://expositions.museedelaphoto.fr/mod_webcms/content.php?CID=LQ1671C, acessado a 3 de Fevereiro de 2016. https://www.publico.pt/ciencia/noticia/isto-nao-sao-fotografias-sao-desenhos-cientificos-de-peixes-1661039, acessado a 2 de Fevereiro de 2016

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Também se poderá acrescentar que talvez em parte se justifique o uso da ilustração científica pelo seu poder comunicativo. Parece ser esse o sentido da afirmação do ilustrador científico e biólogo português Pedro Salgado num artigo de Marta Lourenço para o jornal Público do dia 1 de Julho de 2014, intitulado "Isto não são fotografias de peixes, são desenhos científicos", em que a jornalista cita: “Muitas vezes, os próprios cientistas passam um bocadinho ao lado da importância da ilustração em termos de comunicação e pensam que a fotografia pode perfeitamente cobrir esse papel. Isso não é verdade, de todo”, diz Pedro Salgado.” in https://www.publico.pt/ciencia/noticia/isto-nao-sao-fotografias-sao-desenhos-cientificos-de-peixes-1661039, acessado a 2 de Fevereiro de 2016.


Daniel Moreira www.danielmoreira.net

Daniel Moreira nasceu na Suiça, vive e trabalha no Porto. Licenciado em arquitectura em 2000, inicia no mesmo ano um percurso multidisciplinar entre a arquitectura, a ilustração e as artes plásticas. Ultimamente desenvolve um trabalho mais pessoal na área do desenho e instalação, participando em inúmeras exposições individuais e colectivas. Entre alguns prémios nas várias áreas artísticas destaca-se o 2º Prémio ( em co-autoria) no projecto do “Centro de monitorização e interpretação ambiental” Sociedade Viana Polis em Viana do Castelo, 2º Prémio na I exposição de artes plásticas de Celorico de Basto, Prémio pintura no II concurso artes Raya em Monção, o 2º e o 3º Prémio de ilustração no concurso “ILUSTRA“ da Etic, em anos diferentes, o 3º Prémio de desenho a lápis, nos jovens criadores 05 em São João da Madeira e 4 Menções Honrosas em fotografia no Jovens Criadores Aveiro em anos diferentes.

Exposições Individuais 2014

- Entre o Território, galeria Cossoul, Lisboa - A sombra de um tronco deixado para trás, Objectos Misturados, Viana do Castelo - Desenho o vento por entre as árvores, Arquivo, Leiria

2013

- Caminho por uma montanha... dentro de mim, Ó! Galeria, Porto

2012

- Fuga de um corpo, galeria Metamorfose, Porto - A floresta vai invadir o teu corpo, White walls on black cubes gallery

Exposições Colectivas 2015

- Finisterre, Sputenik the window gallery, Porto (curadoria Juan Luís Toboso) - Call for books, Encontros da Imagem, Casa das Bombas, Braga - Jewellery Meets Ilustration, Ó! Galeria, Porto (curadoria Aurea Praga e Katja Tschimmel) - Uivo 4, Fórum da Maia (curadoria Ema Ribeiro)

2014

- Meet the Nest”, Mona gallery, Lisboa (curadoria Sofia Dias) - O Porto e a Península, galeria Península, Porto Alegre, Brasil (curadoria Letícia de Melo)

2013

- Tiny Universes, Tooth and Nail Gallery, Adelaide Austrália (curadoria Fruzsi Kenez) - Sem Título | Untitled, 2013, Round the Corner gallery, Lisboa (curadoria Letícia de Melo) - Espaços Alternativos II, livros de artistas, Mosteiro de Tibães, Braga (curadoria José Rosinhas) - What the hell is BOOTSBAU?, Bootsbau gallery, Berlim (curadoria Ema Ribeiro) - Entre Pólos 2013, Palácio Quintela, Lisboa - Limites e intercepções, Silo espaço cultural, Porto (curadoria Nuno Malheiro Sarmento)

2012

- Dupla Face, Objectos Misturados, Viana do Castelo

2011

- Blind Date (ModaLisboa/Who), Who gallery, Lisboa

2010

- Entre Pólos - Pavilhão 28, Lisboa - Bienal de Arte Jovens VaLoures, Loures

2009

- Identidade e simulacro - Junho das Artes, Óbidos (curadoria Luís Serpa)


Rita Castro Neves www.ritacastroneves.com | www.i2ads.org/sintoma

Acabou o Curso Avançado de Fotografia do Ar.Co (Lisboa) em 1995 e o Master in Fine Art da Slade School of Fine Art (Londres) em 1998, tendo desde então exposto regularmente em Portugal e no estrangeiro, tanto em espaços estabelecidos (Museu de Arte Moderna da Bahia, Spike Island, Bristol, The Courtauld Institute of Art, Londres, Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto, Korjaamo Gallery, Helsínquia, Museu da Imagem, Braga, Museu Nogueira da Silva, Braga, Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, Fábrica Asa, Guimarães Capital Europeia da Cultura) como em locais ditos não convencionais (escola primária, apartamento alugado, casa de banho pública, loja de discos, montra de um restaurante). Partindo de uma formação e visão fotográficas, Rita Castro Neves tem desenvolvido projetos artísticos com suportes diversificados: da fotografia à fabricação de objetos, passando pelo vídeo, a live art, a instalação, bem como projetos site-specific. Desenvolve projetos de curadoria em artes plásticas e na área da Live Art, incluindo Amorph!98 em Helsínquia, Dia E Vento no Teatro do Campo Alegre, Porto, 2001, Brrr com o Teatro Nacional São João/ Teatro Carlos Alberto/ Porto 2001 Capital Europeia da Cultura, de 2006 a 2011 o festival anual de Artes Performativas Trama com a Fundação de Serralves, Porto, em 2012 o Sintoma nº 0 na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e em 2013 o Sintomas e Efeitos Secundários em colaboração com o Instituto de Investigação da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto(InEd), numa co-curadoria com Fátima Lambert e Rita Xavier Monteiro. Atualmente é docente na Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo do Instituto Politécnico do Porto e na Faculdade de Belas Artes do Porto da Universidade do Porto. É membro colaborador do i2ADS Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade da Faculdade de Belas Artes, Universidade do Porto, no NAI Núcleo de Arte Intermedia, onde criou e coordena o grupo Sintoma. Performance. Investigação. Experimentação.

As suas obras têm analisado alguns gestos do quotidiano, rotina e familiaridade numa tentativa de compreender e investigar uma visão mais interiorizada das nossas vidas. Em cenários realistas, personagens comuns fundem-se nas suas paisagens - interiores ou exteriores – assim se apropriando e re-construindo o seu surpreendente mundo exterior. Este realismo pormenorizado e minucioso – por vezes absurdo, outras político ou ainda emotivo – é também um realismo mágico. A suspensão da realidade permite construir um tempo entre o tempo, atento a um conceito de espaço mental - ponto de partida para uma nova percepção desta nossa realidade flutuante. A narratividade (as séries em fotografia, o tempo sequencial no vídeo e no som…) é muitas vezes quebrada e não-linear. O quotidiano torna-se aqui a fonte quer das emoções, quer da perspectivação - e crítica - das situações e estruturas de funcionamento da sociedade.


Apoio/support:


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