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LUCY BERHENDS _________________________ __________________________

DESTINADA AO AMOR O HERDEIRO


Copyright © Berhends, Lucy Todos os direitos são reservados à autora, sendo esta uma produção independente. É uma obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 1ª Edição. Formato digital Junho de 2015 Capa: Magic Capas Design Editorial Revisão: Lucy Berhends

luberhends@bol.com.br https://www.facebook.com/autoralucyberhends lucyberhends.blogspot.com.br


Agradecimentos

Novamente preciso derramar o meu coração para leitores tão generosos que conheceram e tiveram a oportunidade de se apaixonar pelos personagens da Série Destinados. A cada livro eu tento dar o máximo de mim e me superar para que possa disponibilizar um trabalho de qualidade para cada viciado em livros como eu. O livro 1 dessa série rendeu mais de 65.000 visualizações e mais de 6.000 votos na plataforma Wattpad, o que me deixou muito orgulhosa por ser minha primeira publicação. Brisa e Alfonso foi o nosso casal doce que lutou contra o destino, mas o amor falou mais alto. As críticas quanto ao livro 2 superaram as minhas expectativas, pois a grande maioria foi positiva. Os leitores tiveram a mente aberta para aceitar a forma de amar escolhida por Ben e Clara. ‘O livro é muito hot’ – era o que eu mais lia. Esse era o objetivo, além de criar personagens com personalidades próprias. No livro 3, a relação entre Marco e Tatiana é também muito sexy. Há uma força poderosa que os atraiu desde o início. Eles não lutaram contra o destino, como os demais personagens. Foi o destino quem os maltratou por um tempo até que conseguisse uni-los outra vez. Espero que goste, curta, viaje na história, ria e chore com esse lindo romance. Marco e Tati realmente foram destinados ao amor.

Boa leitura, minhas rainhas! Lucy Berhends


Sinopse

Tatiana se apaixonou loucamente por Marco desde o momento que o viu pela primeira vez. Ele correspondeu aos seus sentimentos e a relação parecia estar se aprofundando até que ela descobre que está grávida. Seu primeiro pensamento é o de comunicá-lo que se tornará pai, mas quando liga para o seu celular, quem atende é uma mulher afirmando ser sua namorada. Seu desespero aumenta quando ouve o Sr. Ribeiro dizer à sua esposa que Marco era o único livre para escolher com quem se relacionava dos dois irmãos e que a única forma de ele ser forçado a se casar, seria caso engravidasse alguma mulher. O que Tatiana fará diante de tanta informação? Ela deve tentar lhe contar mesmo assim ou deve livrá-lo de ter que assumir uma relação apenas por obrigação?


PRÓLOGO

Ela

Ficar sentada aguardando na sala de espera era a pior tortura que já havia passado. Aquele ambiente branco com fotos de bebês e famílias sorrindo felizes estava me dando nos nervos. Parecia que o tempo não passava e a minha vez de ser atendida não chegaria nunca. Olhei para os lados e vi algumas mulheres esperando por atendimento também. Dava para perceber que algumas estavam grávidas e uma parte delas estava acompanhada por companheiros e familiares. Outras não demonstravam gravidez e poderiam estar aguardando apenas para uma consulta ou estavam vivendo o mesmo drama que eu na tentativa de descobrir se havia encomenda para a cegonha. Eu preferi ir sozinha com medo de estar fazendo alarde desnecessariamente. Meu ciclo menstrual sempre foi inconstante e eu sempre tomei anticoncepcional desde que iniciei a minha vida sexual, embora tenha parado por um tempo por estar sentindo algumas reações que poderiam ser consequência dele. Depois de alguns exames, concluí que não era e voltei a tomar, porém sempre exigi que meus parceiros se protegessem ou não faríamos sexo. Nunca abri mão. A chuva caía forte lá fora e parecia um indício de que o tempo também iria fechar para o meu lado. Fiquei olhando fixamente para a janela como se pudesse contar cada pingo que batia nela. Uma voz interrompeu meu turbilhão de pensamentos: – Você não acha que o atendimento está muito lento? Não aguento mais esperar. – Uma mulher que parecia estar na casa dos trinta me perguntou, massageando sua enorme barriga. Eu não estava para muita conversa, mas resolvi ser educada. – Sim, está demorando muito. Também estou muito ansiosa para ser atendida. Não posso passar a manhã inteira aqui. Preciso voltar ao trabalho. Eu havia justificado a minha falta no escritório por ter que estar presente a uma consulta médica. Estou rezando para que seja apenas de rotina e eu não tenha que voltar a este lugar regularmente.


– O início da gravidez nos deixa com os nervos a mil, realmente. Eu lembro que só faltava enforcar o médico quando demorava de ser atendida. Graças a Deus que meus hormônios se estabilizaram. – Ela continuou puxando assunto. – Desculpe, mas não estou grávida. É apenas um exame de rotina. – Respondi, rapidamente. Ela me examinou de cima a baixo e com voz acusatória afirmou: – Eu jurava que você estava. O corpo da mulher dá sinais de gravidez e eu quase não me engano com essas coisas. Se você diz que não está... Pânico me tomou. Não queria continuar essa conversa fazendo suposições por algo que mudaria a minha vida drasticamente. – Com licença, vou pedir informações na recepção. Fugi daquela criatura o mais rápido que pude. Prefiro evitar pessoas que ficam fazendo previsões descabidas, ainda mais neste momento. Caminhei em direção a uma recepcionista que me olhava sorridente. – Por favor, gostaria de saber se serei logo atendida, pois estou em horário de trabalho. Ainda há muitos pacientes antes de mim? – Qual é o seu nome, senhora? – Tatiana Carvalho. – Deixe-me checar... você será a próxima a ser atendida, Tatiana. A última paciente já tem um tempo na sala e não demorará a sair. – Obrigada! Sentei em outro lugar mais próximo do consultório médico. Queria evitar contato novamente com aquela que se achava a portadora de boas notícias. Estava torcendo para que ela estivesse errada. Já não tinha mais unhas para roer, quando a paciente saiu, chamando pelo meu nome. – Tatiana Carvalho, a médica está te aguardando na sala. – Obrigada! A minha mente estava mais que pronta para enfrentar o que estivesse por vir, mas as minhas pernas não queriam obedecer. Fiquei em pé, parada na frente do consultório receosa de dar o próximo passo. Olhei para a porta onde o nome ‘Dra. Camargo’ estava escrito e respirei fundo para tomar meu controle de volta. ‘Seja o que Deus quiser’, pensei.


A médica era morena e deveria estar na casa dos quarenta. Demonstrava muita simpatia e me convidou para sentar. – Tatiana, como vai? – E-estou bem, doutora. – Hum... pela sua aparência assustada, não está tão bem quanto diz. Vamos ver no que posso ajudá-la. Qual a finalidade da sua consulta, querida? O meu desejo era de dar as costas e sair correndo daquele lugar. Ela poderia me dar respostas que não gostaria de ouvir naquelas circunstâncias. – Estou desconfiada de uma possível gravidez e resolvi procurá-la apenas por desencargo de consciência. – Certo, como imaginei. Quando foi seu último ciclo menstrual? – Minhas regras nunca foram regulares mesmo tomando a pílula. Deve ter um pouco mais de dois meses que não menstruo. – Bem, nesse estágio, se você estiver grávida, será possível confirmar apenas por um ultrassom. Dirija-se àquela sala e vista um roupão que está lá dentro. Quando retornar, faremos o exame. Caminhei lentamente, pesando as consequências do resultado que estava por vir. Um bebê não mudaria apenas a minha vida. Mudaria a de Marco também e de todos à nossa volta. Sempre tive medo de me tornar mãe sem poder dar uma estrutura familiar a meu filho. Tenho o meu próprio apartamento onde moram também a minha mãe e minha irmã dois anos mais nova que eu. Ela é mais que irmã. É minha melhor amiga. Me troquei e voltei para a sala onde a médica já preparava o aparelho para me examinar. – Deite-se aqui e levante um pouco o roupão. É preferível uma transvaginal para termos um resultado preciso, algum problema? Não. Eu queria um resultado preciso. Precisava ter certeza do que estava acontecendo comigo ultimamente e algo me dizia que essa resposta viria em seguida. – Tudo bem, doutora. Faça da forma que achar melhor. Ela introduziu o aparelho em minha vagina e começou a mexer com ele lá dentro. Senti um pouco de desconforto, mas sabia que era parte do procedimento. – Então, a senhora está vendo algo diferente? A ansiedade estava me matando.


– Deixe-me ver... hum... aqui, querida. Sim, consigo ver algo diferente. Observe essa pequena imagem no centro. – Oh, meu Deus, será que realmente estou vendo o que eu acho que estou vendo? A médica sorriu. – Espero estar te dando uma boa notícia. Eu posso te afirmar sem sombras de dúvidas que você está grávida, Tatiana. Esse pequeno grão aqui é o seu bebê e ele está muito saudável. Parabéns! Logo se tornará mãe. Um bebê. Meu. De Marco. Grávida. Como na galáxia isso foi acontecer com tantos cuidados que tomamos? Tinha que ser comigo. Eu tinha que entrar na porra de uma estatística mínima de não sei quantos zeros porcentos e acabar grávida sem sequer estar num relacionamento sério. A médica pediu para que me trocasse e que depois voltasse para conversarmos. Fiz conforme solicitou e logo estava de volta. – Sente-se, Tatiana. Já vi muitas mulheres terem a mesma reação de pânico que a sua, mas é normal tomar esse susto na primeira impressão. O que eu vejo depois é sempre pais ansiosos por verem o pequeno rosto de seu bebê e muito felizes com a chegada dele. Tudo acaba se resolvendo, querida. – É complicado, doutora. Estarei pensando o que fazer a partir de agora e espero que tudo seja resolvido de fato. Foi possível ver de quanto tempo de gravidez estou? – Calculando pelo seu último ciclo e o tamanho do bebê, está com cerca de dez semanas. – E os enjoos e tonturas demoram muito a passar? Tenho sentido constantemente. – Logo sairá do primeiro estágio da gravidez e provavelmente as reações que estiver sentindo passarão. Estarei te medicando para minimizar as sensações, mas te alerto que podem permanecer por mais um tempo. Ela receitou alguns remédios e complementos alimentares que as grávidas geralmente tomam, e pediu para que marcasse nova consulta dali a um mês. Saí do consultório como se tivesse sido arrasada por um vendaval. A chuva ainda caía lá fora e deixei que me molhasse como se pudesse lavar a minha agonia. Me daria aquele dia apenas para chorar e mais nada, mas no outro, teria que tomar decisões


como descobrir uma forma de contar a Marco que ele se tornaria pai. Cheguei em casa e liguei para o escritório dizendo que não estava passando bem e que não retornaria naquele dia. – É algo sério, Tatiana? Percebi que estava pálida ultimamente. Tire quantos dias precisar de folga. Você trabalha demais, menina. – Não será necessário, Sr. Ribeiro. Só preciso de repouso hoje, mas amanhã estarei de volta ao escritório. Obrigada por entender. – Desejo melhoras, menina. Se cuide. Essas foram as últimas palavras que consegui pronunciar antes que desabasse em lágrimas. Me joguei na cama e passei a tarde inteira embrulhada em meu próprio drama. Só hoje. Amanhã é outro dia, Tatiana, e você terá que reagir, pois não pode pensar apenas em si mesma. Agora tem mais alguém para se preocupar. Não é como se eu fosse uma adolescente com uma gravidez precoce. Tenho vinte e cinco anos e estabilidade financeira. Apenas não tenho estrutura familiar para oferecer ao meu filho. – Falei para mim mesma. A noite chegou e minha irmã, Lana, entrou em meu quarto toda animada pelos últimos acontecimentos na faculdade. Ela estava terminando enfermagem e estava adorando cada vez mais. Quando viu meu rosto inchado de tanto chorar, parou de tagarelar e veio ao meu encontro, me abraçando. – Sssrrr pronto, minha irmã. O que seja que tenha acontecido, estaremos sempre contigo. Tente se acalmar. Ela continuou abraçada a mim por um tempo e em seguida saiu para buscar água. Quando voltou, bebi todo o líquido e resolvi desabafar. – Estou grávida, Lala. Estou grávida e nem sequer estou namorando. Minha irmã tapou a boca, demonstrando mais felicidade que surpresa. – Oh, Tati. Você será mãe? Graças a Deus que a notícia é boa, maninha. Fiquei achando que me contaria uma tragédia. Um bebê vai animar tanto a nossa casa. – Você ainda não pesou as consequências, Lana. Esse bebê tem um pai que não faço ideia de como irá reagir e eu tenho um trabalho que amo, mas toma muito do meu tempo. Como estarei nesse barco sozinha? – Você não estará sozinha, querida. Temos eu e mamãe para te ajudar e iremos descobrir juntas como cuidar dele. Você ainda não sabe como será a reação do pai, como disse, e quem sabe


não se surpreenda positivamente? Marco pareceu muito responsável quando o conheci. – Eu jamais pediria nada a ele. Nos vemos às vezes e isso é só o que temos. Acho que ficará tão assustado quanto eu, pois não fazia planos de se tornar pai tão cedo. Espero apenas que assuma a paternidade. – Não sofra antes da hora. Meu sobrinho será muito bem-vindo a essa casa. Vou amá-lo e mimá-lo tanto. Ei, pequeno, aqui é titia. Não ligue para a reação de sua mãe. Ela logo estará louca por você. – Lana falou, tocando em minha barriga lisa como se estivesse conversando com o nené. – Valeu, La, você sabe como me levantar sempre. Preciso dormir para acordar cedo. Pretendo contar a Marco amanhã. Parece que meus dias serão agitados a partir de agora. Não sei se por causa das lágrimas ou do cansaço emocional, mas assim que minha irmã saiu, caí nos braços de Morfeu por longas horas só despertando no outro dia.


Capítulo 1

Ela

Cheguei ao escritório um pouco mais cedo do que chego normalmente. Tentei atualizar a agenda do Sr. Ribeiro e preparar alguns documentos que estavam pendentes. – Tatiana, chegou cedo. Está se sentindo melhor? Meu chefe já adentrou o lugar, perguntando. Eu amo trabalhar na Construtora Carlos Ribeiro. As pessoas aqui são como uma segunda família para mim. – Sim, Sr. Ribeiro. Obrigada por perguntar. Sua agenda já está pronta e daqui a uma hora aproximadamente terá sua primeira reunião do dia. – Sempre tão eficiente, Tati. O que faria sem você para me ajudar agora que Brisa está tão distante? Brisa é a filha dele que se casou por conta de um acordo, mas que tinha encontrado a felicidade. Vivia muito bem com seu esposo com o qual tinha uma filha chamada Luiza. Ela era a sensação da empresa nas poucas vezes que aparecia. A menção dela me fez lembrar que logo teria que contar a seu cunhado que ele se tornaria pai. Marco é irmão de seu marido, Alfonso. – O que é isso, senhor, não faço mais que minha obrigação. A manhã passou sem maiores problemas, além do pequeno enjoo que estava sentindo. Comprei os remédios antes de chegar ao trabalho e pareciam estar fazendo efeito. As sensações estavam mais brandas. – Tati, já está na hora de almoçar, vamos? Minha amiga Lúcia me chamou. Ela é a recepcionista da empresa e sempre almoçávamos juntas. – Claro, vou pegar minha bolsa. Comemos em um restaurante self service próximo do escritório como de costume. Minha mente estava em outro continente enquanto Lúcia não parava de falar. – Ele era enorme. Eu não sei como aquele troço coube em mim. Porra, aquele homem deveria ser colocado em uma exposição para mostrar a obra-prima criada pela natureza e...


– Hein? O que? Desculpa, Lu, hoje não estou muito bem. A minha cabeça está cheia. – Oh, querida, posso te ajudar em alguma coisa? Senti sua falta ontem, já está melhor? – Infelizmente ninguém pode me ajudar, mas não é nada com que precise se preocupar. Você estava falando sobre quem? Eu conheço o cara? Continuamos a conversa sobre um homem com quem ela estava saindo e tentei me concentrar durante o maior tempo possível. Tudo transcorreu bem durante o dia no escritório e logo já era hora de ir para casa. O enjoo havia passado pela tarde e a única coisa que estava me consumindo era saber que tentaria falar com Marco ao chegar. Na entrada de casa, senti um cheiro delicioso que vinha da cozinha. Entrei e minha mãe me recebeu com um grande sorriso, dizendo que tinha preparado um jantarzinho para nós. – Ah, mãe, estou realmente precisando de todo esse carinho. Ela me puxou para o sofá e encostou minha cabeça em seu ombro. – Eu sei, filha. Eu sei. – Sabe? – Você acha que não percebi que algo estranho estava acontecendo com você? Que tipo de mãe seria se não tivesse percebido? – Então você já desconfiava? Por que não comentou? – Eu a via enjoando pela manhã e tendo mudanças de humor. Já tive duas gravidezes e sabia que logo iria descobrir. – Estou tão confusa, mãe. O que você acha que devo fazer? – O primeiro caminho é contar para o pai, querida. Ele tem o direito de saber. – Eu não quero que ele se sinta preso a mim por causa de um bebê que nenhum de nós planejou. – Não planejaram, mas está sendo gerado dentro de você e terão de conviver com esse fato. Uma criança é um elo para a vida toda independente de ficarem juntos ou não. – Ah, mãezinha, você tem razão. – Sabe que está realizando um sonho meu não é, querida? Se seu pai estivesse vivo, também estaria muito feliz. – Saber que tenho o apoio da minha família é o combustível que está me movendo desde que recebi a notícia.


– Sempre, querida. Sempre. Tomei um banho enquanto a minha irmã chegava da faculdade. Jantamos todas juntas e consegui me desligar dos problemas por um tempo. As duas estavam mais que animadas com a chegada de um novo membro à família e já faziam suas apostas para o possível sexo e nomes de bebês. Depois de jantar, fui para o quarto. Deitei em minha cama, buscando coragem para ligar para Marco e lhe contar. Se eu não fosse tão covarde, pediria para que viesse ao Brasil para conversarmos pessoalmente, mas sei que não terei forças para segurar esse segredo comigo por tanto tempo. Terá que ser por telefone mesmo. Fiquei olhando para o teto e senti que a minha visão estava ficando nublada. Com o telefone na mão, fui tomada pelo sono que veio seguido de um sonho misturado a lembranças. Eu tinha acabado de sair da renovação de votos entre Brisa e Alfonso. Marco me arrastou para um quarto do hotel mais próximo e me encurralou de frente à parede. Ele cheirava a minha nuca enquanto arrepios tomavam o meu corpo. – O que está fazendo comigo? Você tem um corpo que foi feito para ser fodido. Quer que eu te foda, Tati? – Sim, Marco, por favor. Ele esfregou sua ereção dentro da calça em minha bunda, enquanto seus lábios brincavam desde a minha orelha até a base da minha nuca. Seus dedos esmagaram meus mamilos, fazendo que com minha vagina ficasse encharcada implorando para que fosse fodida. – Eu estava com saudades do seu gosto. Nesse momento, ele me virou, capturando os meus lábios em um beijo ambicioso. Eu sentia que ele queria tudo de mim e eu estava mais que disposta. Seus dedos foram substituídos por sua boca e Marco passou a chupar os meus seios, me levando à loucura. Arqueei o meu corpo, pressionando o seu pau, buscando algo que me trouxesse o alívio que eu tanto precisava. – Querida, eu quero que aproveite muito comigo, pois quando tiver terminado, sua bocetinha apertada estará destruída e cada movimento seu irá te lembrar quem esteve aí dentro. Ele se abaixou e eu já sabia onde sua boca iria parar. Eu já me contorcia em antecipação, sabendo que a tortura valeria a pena.


Chupou o meu clitóris por bastante tempo, me levando à borda o tempo todo. Quando percebia que estava prestes a gozar, ele parava. – Marco, não faça isso. Eu preciso... – Calma, minha rainha, quanto mais eu te provocar, melhor será o gozo. Você vai alcançar outro nível de prazer. Mordiscava, lambia, chupava e fazia mágica com os dedos. Eu puxava sua cabeça ainda mais para perto, como se isso fosse possível. Rebolava em sua boca, fazendo com que sua língua deslizasse entre meu clitóris e minhas dobras. Um gemido escapou de meus lábios. Eu precisava me liberar. – Agora, querida, me dê seu prazer. Quero senti-lo em minha boca. Meu corpo parecia explodir em mil pedaços, quando fui tomada por um gozo de abalar o universo. Consegui alcançar um clímax profundo e duradouro. Apenas Marco havia extraído tanto de mim. Eu estava estragada para qualquer outro depois dele. Seu olhar estava fixo em minha direção de forma predatória. Meus lábios foram tomados com paixão e voracidade. Suas mãos se apressaram em empurrar as alças do meu vestido e me deixar apenas de lingerie. Ele se afastou para me olhar, seus olhos dilatados, mas não demorou com o escrutínio. Precisava me possuir e eu precisava ser possuída. – Que Deus me ajude, acho que nunca terei o bastante de você. Ele falou, tirando a minha calcinha e se apressando para baixar a calça e colocar um preservativo. Adorava olhar o seu pau cheio de veias sobressalentes que me davam água na boca. Marco era másculo da cabeça aos pés. Ainda de pé, ele estreitou nossa distância, puxando as minhas pernas em volta de sua cintura. – Diga que é minha, Tatiana. Diga que me pertence. – Sim, Marco, de corpo e alma. Sou sua desde o dia que te vi pela primeira vez. Meu amante me penetrou sem piedade, fazendo com que minha boceta queimasse em um ardor delicioso. O meu corpo logo o reconheceu e se ajustou com perfeição ao seu membro. Suas investidas continuavam como se ele estivesse em uma missão. Seu pau me invadia de forma áspera, arrancando de mim sensações que nem eu mesma sabia que poderia ter. – Marco. – Falei em um sussurro. – Goze comigo, minha rainha.


Meu corpo obedeceu ao seu comando e imediatamente fui tomada por um nirvana tão alucinante que me fez acreditar que deveria ser uma amostra do paraíso. Ele me acompanhou e derramou todo o seu prazer dentro de mim. Com a respiração ainda irregular, fiquei admirando o espetáculo de homem que tinha acabado de me possuir. Eu queria mais dele. Eu queria mais com ele. Marco me olhou possessivamente e com os lábios quase encostados aos meus declarou: – Eu te... Toc, toc, toc. – Querida, está acordada? O quê? Quem? Oh, meu Deus, eu estava sonhando? – Eu estava dormindo, mãe. – Gritei. – Está tudo bem, Tati? Não, mãe. Não está nada bem você me acordar no momento que o pai do meu filho diria que me amava. – Pensei. – Está, dona Marlene. Boa noite! – Boa noite, filha. Qualquer coisa me chama. Meu coração batia acelerado e eu estava toda molhada pelo sonho delicioso. Esta noite eu teria que me tocar ou explodiria. Escorreguei a mão em direção a minha entrada. Enfiei dois dedos lá e os melei com os meus próprios fluidos. Voltei para o meu clitóris e passei a massageá-lo, imaginado que aqueles dedos pertenciam ao homem dos meus sonhos. – Marco. – Chamei por ele em um gemido baixo. Minha mente se encheu de recordações de nós dois e, em pouco tempo, fui invadida por um clímax que me fez estremecer de prazer. Ainda ofegante, lembrei o que tinha planejado fazer antes de ser vencida pelo cansaço. Tinha que ligar para ele e soltar a bomba. A minha mãe estava certa, Marco tinha o direito de saber.


Capítulo 2

Ela

Peguei o meu celular e procurei por seu número na agenda. Faria uma ligação internacional, mas não podia pensar em dinheiro naquele momento. Eu tinha que compartilhar a notícia, uma vez que a informação não pertencia só a mim. Disquei o seu número. Chamou aproximadamente cinco vezes antes que a ligação fosse atendida. – Hola! – Uma voz feminina respondeu. – Boa noite, esse telefone é de Marco? – Si, Marco está ocupado. Quem gostaria? – Sou apenas uma amiga do Brasil e você, quem é? – Eu sou a namorada dele, chica. Senti um gosto azedo em minha boca e fui tomada por um daqueles enjoos, mas dessa vez com toda força. Namorada? Como vou contar ao filho da puta que será pai do filho de uma amante quando ele já tinha se comprometido com outra? Meu Deus, que confusão! – Ah, tudo bem. Avisa a ele que Tatiana ligou, por favor. Desliguei o celular e saí correndo para o banheiro na tentativa de botar para fora tudo o que tive de digerir nesta ligação. O desgraçado só estava brincando comigo. Eu era apenas uma foda fácil que ele encontrou no Brasil. Imagino quantas vezes riu da minha cara por transparecer que queria algo mais com ele. Você é idiota, Tatiana. – disse para mim mesma. – Só você para acreditar que um homem lindo e bem-sucedido como Marco te daria alguma chance. Ainda pensou em posar de família feliz com ele. Patética! Já vi que a noite será longa, porém vou precisar dela para decidir o que fazer a partir de agora.

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No outro dia, acordei bastante sonolenta, pois quase não havia dormido. Quando consegui cochilar, o dia já estava para amanhecer e em pouco tempo, o despertador tocou. Pensei muito e decidi que ele ainda tinha o direito de saber que seria pai mesmo que já tivesse assumido outro compromisso. Um filho deve ser prioridade e se a garota realmente gostar dele, saberá lidar com a situação. Tenho que ser madura e não deixar que meus sentimentos influenciem a minha opinião. Há mais em jogo. Há um bebê que não tem culpa das escolhas erradas que fazemos na vida. Meus planos para aquele dia eram de tentar me concentrar no trabalho e ligar para Marco novamente à noite. Tinha esperança de ter mais sorte dessa vez e que ele mesmo atendesse ao telefone. Depois de um tempo no escritório, o telefone sobre a minha mesa tocou. Era Sra. Laura Ribeiro avisando que passaria no escritório esta manhã. Informei-lhe qual seria o melhor horário para que tivesse mais tempo com seu marido e anotei o recado. Informei ao Sr. Ribeiro que sua esposa viria ainda esta manhã à empresa e ele pareceu bastante contente por isso. O amor deles depois de tanto tempo de casados era de dar inveja. A manhã no escritório estava transcorrendo sem imprevistos, me vi envolvida com os afazeres e consegui até mesmo esquecer dos meus problemas por um tempo. Havia muito que demandava a minha atenção. Sra. Ribeiro chegou e conversou um pouco comigo antes de entrar na sala. – Tati, como vai? Linda como sempre. Carlos me falou que não esteve muito bem esses dias. Espero que esteja melhor. – Estou sim, Sra. Ribeiro. Foi apenas um pouco de cansaço, mas descansei e estou melhor. – Se cuide, querida. Carlos pode me receber agora? – Sim, senhora. Ele já a aguarda. Entrou sem ser anunciada. A porta do escritório continuou aberta e dava para ouvir que a conversa entre eles era descontraída. Não tinha como ver tamanho companheirismo e não se imaginar tendo algo parecido um dia. Eu ainda acreditava que, no futuro, encontraria alguém que me amasse tanto quanto eu a ele. Não seria aquele que meu coração tinha escolhido, mas haveria alguém no mundo que faria os meus batimentos cardíacos acelerarem tanto quanto Marco consegue fazer atualmente. A luz do telefone acendeu e atendi já sabendo que era da sala do Sr. Ribeiro. – Tatiana, você poderia solicitar que tragam uma xícara de café para mim e um copo de suco


para Laura? Peça alguns biscoitos também, por favor. – Sim, senhor, eu mesma providenciarei tudo. – Obrigado, Tati. Fui à copa e preparei uma bandeja contendo tudo o que meu chefe tinha me pedido e acrescentei mais alguns aperitivos. Havia pessoas que faziam esse tipo de serviço na empresa, mas não me custava fazer isso de vez em quando. Entrei na sala e mesmo tentando ser discreta, não pude evitar ouvir o assunto da conversa entre eles. – Brisa me ligou hoje contando as novidades sobre Luiza. Disse que os dentes dela estão nascendo e que às vezes, fica um pouco enjoada, mas que na maior parte do dia, está traquina e sorridente, tentando alcançar todos os objetos e colocá-los na boca. – Eu terei que ver isso pessoalmente. Vamos programar uma viagem para o fim de semana, Laura. – Estou morrendo de saudades. Vamos, sim. Eu estava saindo da sala, quando Sra. Ribeiro me chamou de volta. – Tati, você ainda está saindo com o irmão de Alfonso? Como é mesmo o nome dele... Ah, sim, Marco. – Não, senhora, faz um tempo que não o vejo. Somos apenas amigos. – Aquele menino não toma jeito, não é? É tão lindo e as garotas ficam loucas tentando levá-lo ao altar. Alfonso já disse que ele não pretende se casar tão cedo e a única forma de fazê-lo mudar de ideia seria caso uma dessas aproveitadoras engravidassem dele. Eu acho um absurdo esse tipo de mulher que usa um bebê para prender um homem. Eu tinha que sair daquela sala o mais rápido possível. Eu não tinha controle emocional para ouvir mais nenhuma palavra. – Com licença, preciso voltar à minha mesa. Saí correndo para o banheiro e nem o efeito dos remédios que estava tomando conseguiu controlar a minha ânsia de vômito. Coloquei tudo para fora e percebi que alguém entrava no banheiro. – Tati, o que está acontecendo? Você está passando mal? Ela segurou meus longos cabelos enquanto a minha alma descia pelo vaso sanitário. Quando consegui me controlar, fechei a tampa e sentei sobre ela, abaixei a cabeça e as lágrimas começaram a rolar livremente.


– Eu vou ficar bem, Lúcia. – Tem certeza que não quer ir a um hospital? Você está pálida, minha amiga. – Não, sem hospitais. Você poderia me deixar um pouco sozinha? Eu prometo que ficarei melhor em instantes. Eu só preciso desabafar e mais tarde converso com você. – Se é o que deseja..., mas se demorar, volto para ver se está bem. A minha amiga saiu e me deixou sozinha com meus pensamentos. O que eu faria agora, meu Deus? Eu não poderia prendê-lo em uma cilada de casamento só por uma questão de honra. Não quero ser a única a amar o meu marido. Quero ser amada na mesma intensidade. E se ele achar que engravidei de propósito, que fiz um plano ardiloso para levá-lo ao altar? Eu seria sempre apontada como aquela que deu o golpe da barriga para prender o noivo. Não, não e não. Pelo meu bem e pelo bem do meu filho, não posso deixar que ele saiba. Marco faria a coisa certa pelos motivos errados, nenhum de nós seria feliz com isso e meu filho não teria um lar. Lavei meu rosto e respirei fundo, tentando fazer com que meu corpo parasse de tremer. Eu precisava ser forte para tomar as melhores decisões e em nenhuma delas estava a minha felicidade. Ao menos eu não tornaria alguém mais infeliz. Fui até a minha mesa buscar meu nécessaire, escovei os dentes e refiz minha maquiagem. Me olhei no espelho e o que vi lá foi uma mulher completamente diferente daquela sonhadora de antes. A mulher que me olhava havia amadurecido do dia para a noite e teria responsabilidades para cuidar a partir de agora. Os sonhos teriam que ficar na gaveta por um tempo. Quem sabe não viriam à tona um dia novamente? Voltei para o trabalho e nem ao menos saí para almoçar apesar da insistência de Lúcia. Fiz um lanche lá mesmo e me entreguei aos afazeres. No final da tarde, aceitei o convite para um happy hour com minha amiga. Eu precisava conversar com alguém que não conhecesse Marco. Talvez uma opinião de uma pessoa de fora iluminasse a minha mente. – Vai tomar o quê, Tati? Vinho, cerveja... – Não, apenas um suco de laranja. – Hoje é sexta-feira e você vai tomar apenas um suco? Deixe-me te lembrar que não trabalharemos amanhã. – Minha amiga tentou quebrar o clima. – Se eu conseguir manter um suco no organismo, já me dou por satisfeita. – Você tem me deixado preocupada ultimamente. Não vai me contar o que está acontecendo?


– Em resumo, estou grávida de um homem que não tem qualquer compromisso comigo, que não me ama, tem pavor de casamento e que tem princípios morais que o forçaria a um matrimônio caso descobrisse sobre a minha gravidez. – Porra! Era aquele cara com quem estava saindo, que inclusive a levou para a Espanha? – Ele mesmo, o cunhado de Brisa. Não sei que merda faço agora. Se eu contar, ele e todos que nos conhecem podem achar que planejei um golpe, além do fato de que nenhum de nós estaria feliz em um casamento de conveniência. Se eu não contar... – Não, Tati. Você precisa contar a ele. Independente do fim que essa história tenha, ele precisa saber que será pai. Um dia seu filho também cobrará isso de você. No século atual, ninguém se casa porque está grávida. Você tem direito a escolher, é livre. – Ele tem dinheiro e poderia tentar tirar a criança de mim, além de tudo, tem namorada e não gostaria que meu bebê fosse visto como o fruto do casinho que seu pai teve. A sociedade a qual Marco pertence pode ser muito cruel. – Oh, querida, sei que você tem todos os motivos para tentar se proteger, porém não tem o direito de guardar essa informação para você. Não é uma questão de escolha, mas de decisão. Espero que decida dar uma oportunidade a ele. – Ainda tenho bastante tempo pela frente para descobrir qual o melhor caminho. Não quero agir precipidamente. Fiquei mais um tempo com Lúcia, ouvindo música ao vivo e tomando suco, enquanto ela tomava uma taça de vinho. A deixei em casa, que não era muito distante da minha e por volta das oito já estava em meu quarto, me preparando para um banho. Entrei na banheira e passei a alisar a minha barriga ainda sem vestígios de gravidez. Dizem que os bebês nos ouvem desde o ventre. Resolvi conversar com ele. – Meu grãozinho, não tenho dúvidas de que será uma criança muito forte, pois enfrentou tudo e a todos para vir ao mundo. Você está deixando a mamãe em apuros, mas já o amo, pequenino. Por enquanto, papai não pode saber sobre você, mas vamos contar para ele no futuro, está certo? Fiquei bastante tempo lá, jogando água em minha barriga e conversando com o meu príncipe ou minha princesa. Saí do banho e me enrolei em um roupão. Deitei na cama e liguei a televisão, porém a minha mente não conseguia se prender a nada que estava passando. Só conseguia lembrar de Sra. Ribeiro dizendo: “Alfonso já disse que ele não pretende se casar tão cedo e a única forma de fazê-lo mudar de ideia seria caso uma dessas aproveitadoras engravidassem dele.”


Aproveitadora. Era assim que eu seria vista. Minha cabeça estava em turbilhão quando o meu celular tocou. Olhei para o identificador e vi que a ligação era de Marco. Oh, meu Deus, o que eu faria gora? Deixei que tocasse até cair na caixa de mensagens e me senti aliviada quando não voltou a tocar. Meus olhos estavam grudados na tela do visor por alguns minutos, quando novamente percebi que a luz acendia. O que será que ele queria comigo? Será que a namorada dele havia lhe dado o recado? Deixei que tocasse mais uma vez. Saí do quarto, deixando o celular para trás. Fui até a cozinha tomar um copo de água e voltei determinada a desligá-lo. Não precisei entrar no quarto para ouvir o toque me convidando a atender. Aceitei ao convite desta vez, sem saber o que lhe diria. – Alô! – Tati, por que demorou tanto para atender? Já estava começando a acreditar que me evitava. – Oi, Marco, como vai? – Muito bem, minha rainha, e com saudades. Estou planejando ir ao Brasil para te encontrar, o que acha? – Vir ao Brasil? Você tem negócios a tratar aqui? – Não. Pretendo ir ao Brasil só para te ver ou poderia mandar as passagens para que viesse à Espanha. Não está com saudades? – Olha, Marco, eu posso ter deixado essa impressão, mas quero que saiba que não sou uma qualquer que você apenas usa quando está com vontade. Eu mereço respeito e não sou a única. Você tem namorada e não gostaria que fizesse comigo o que está fazendo com ela. Acho que o melhor é esquecer o meu número de telefone. – Do que está falando, Tatiana? Por que está me tratando assim? Quando foi que te faltei ao respeito? – Não se faça de desentendido. Eu já sei de tudo. Quero que esqueça que um dia me conheceu e eu tratarei de fazer o mesmo. Espero, de verdade, que seja muito feliz, Marco. – Então é assim, Tati? Você vai terminar a nossa relação desse jeito? Pensei que estávamos indo por um bom caminho. Você simplesmente vai me dar adeus, passe bem? – Oh, Deus, para que tanto fingimento, porra? Eu não serei um casinho extra seu. Entenda isso. – Você quer um relacionamento sério? Por que não deixamos para ver no que vai dar? Eu sorri para mim mesma. Até aonde ele iria para tentar me enganar?


– Chega, Marco. Até qualquer dia. Desliguei o telefone e me enrolei em meu próprio corpo como um bebê. Acabou. Eu tinha que buscar um meio de convencer o meu coração a aceitar esse fato.


Capítulo 3

Ele 1 ano depois...

– Onde está Luiza? Olha ela aqui! Eu brincava com minha sobrinha de quase dois anos de me esconder atrás do sofá. Com olhos atento, ela me procurava e sempre acabava encontrando. Seus risos eram contagiantes e me faziam cair na gargalhada também. Acho que nasci para ser tio. Não aguentava ficar muito tempo sem ver minha princesinha. Ouvi passos em nossa direção e quando ela viu o pai, saiu correndo para que ele a apanhasse no colo. Alfonso assim o fez e ela deitou sua pequena cabeça cheia de cachos castanhos no ombro dele. – Você leva tanto jeito com crianças, cara. Deveria ter o seu próprio filho. – Porra, essa é uma ideia que está começando a nascer na minha mente, mas ainda preciso de um pouco mais de tempo. A mãe do meu filho será a minha esposa e não pode ser qualquer uma. – Não xingue na frente dela! Por falar em esposa, já tem uns meses que você namora Andréa, não é? Não tem planos de casar com ela? – Ainda é muito recente, vamos ver no que vai dar. Deve ter o quê? Cinco ou seis meses que namoramos. Ela é linda, porém não tenho certeza se é a pessoa certa para mim. – Cara, quando eu vi Brisa pela primeira vez, eu já sabia que ela seria a minha esposa. Tive a maior sorte do mundo do destino ter interferido. Se você não tem essa certeza, talvez deva rever seu relacionamento. Essa conversa me lembrou uma certa morena de olhos castanhos. Já tinha bastante tempo que não via Tatiana, mas ainda não havia conseguido me livrar de seu fantasma. Eu pensei que estávamos caminhando para um relacionamento. Pensei em ter encontrado essa mulher que meu irmão acabou de descrever, entretanto, sem maiores explicações, ela terminou tudo. Comecei a namorar Andréa alguns meses depois, já que ela tinha se tornado uma grande amiga quando eu mais precisei. Ela era minha confidente e conhecia toda a minha história com Tatiana. Com o passar do tempo, o meu coração não aquecia para mais ninguém e resolvi dar espaço


apenas para a atração sexual como sempre foi com as mulheres. Eu ainda pensava em Tati e tinha sonhos regulares com ela e um pequeno menino andando de mãos dadas em minha direção. Sei que isso era delírio da minha cabeça, pois sempre nos prevenimos e se houvesse o risco de eu me tornar pai, ela me contaria. – Peça um primo para ele, Lu. – Alfonso provocou. – Dá piminho, titio. – Um dia, minha princesinha. Um dia você terá um amiguinho para brincar. – Um dia... está certo! Até Clara e Benito já estão com um herdeiro a caminho e você sequer tem um compromisso sério. – Disse meu irmão. Clara é a melhor amiga de Brisa que se casou com Benito, produtor da banda brasileira No Return. Depois de muitos conflitos e até um sequestro no qual ajudei, tudo ficou bem e já tinham um bebê a caminho. – Estou namorando, não é o bastante? Fui salvo pela minha cunhada. – Pare de apertar a mente de seu irmão, Alfonso. Marco ainda é muito jovem, logo pensará em formar família. Disse, entrando na sala e tomando Luiza do colo do pai. – Isso, cunhada, convença esse chato de que tudo tem o seu tempo. O meu ainda não chegou. Ela sorriu para Alfonso que parecia se derreter apenas em olhar sua mulher. Eu vivi para ver isso. Meu irmão mulherengo se transformou em um homem fiel, visivelmente apaixonado pela esposa e pela filha. – Vou deixá-lo apenas porque está me pedindo, sereia. – Falou, dando-lhe um abraço. – Ei, tem criança e visita na sala. Me dê Lu e vão para o quarto. – Agora, não. Vou levar Luiza para tomar um banho. – Brisa disse, se afastando com a filha no colo. – Foi bom Bri levar minha filha, pois preciso falar contigo, irmão. – Fale, então. – Você sabe que com o casamento, uma parte da Construtora Carlos Ribeiro ficou sob a minha responsabilidade e embora seja gerida pelo meu sogro, tenho receio de que alguém esteja lhe passando para trás. Alguns números não fecham e preciso ver isso de perto. – Certo, mas onde eu entro nessa história?


– Eu estou muito atarefado com a nossa matriz aqui da Espanha e não posso me afastar agora. Você é tão sagaz quanto eu e conseguirá descobrir se estamos sendo roubados. – Porra, você consegue dar conta da matriz e das filiais sozinho? – Se eu precisar de ajuda, sempre tem o telefone ou avião para você voltar. Papai e Brisa me ajudarão também. – Tudo bem, eu irei para o Brasil. Você ainda tem o apartamento lá, não é? Fazer descobertas pode demandar tempo e não vou morar em uma merda de hotel. – O apartamento é todo seu, maninho. Vai levar Andréa com você? Ainda não tinha pesado esse detalhe. Eu estaria de volta ao Brasil depois de mais de um ano e gostaria de levar a minha namorada comigo? A resposta era não. Teríamos de achar um jeito de conviver com a distância e nos encontrarmos em momentos pontuais. – Andréa tem compromissos com suas lojas de roupas e não tem disponibilidade para ficar muito tempo fora. Vamos conversar e viabilizar um meio de nos encontrarmos. – O motivo é esse mesmo ou seria por causa daquela garota que você conheceu no Carnaval de Salvador? Tatiana o nome dela, não é? Percebi que, na época, você ficou bastante mexido, a trouxe inclusive para a Espanha, mas depois de um tempo não a vi mais e nem te vi animado para voltar ao Brasil. – Você está esquecendo de um detalhe: foi ela quem terminou o lance que tínhamos. Eu não entendo até hoje, mas já desisti de entender. Não é esse o motivo pelo qual não vou levar Andréa comigo. – De qualquer modo, você vai encontrar a garota brasileira, pois ela trabalha na empresa Carlos Ribeiro, lembra-se? – E o que você quer dizer com isso? Eu já segui em frente e a essas alturas, ela também. – Sei, certo. Converse direito com Andréa. Não quero causar problemas entre vocês. Como se estivesse adivinhando, meu celular tocou, mostrando o nome dela no display. Coloquei no viva-voz. – Diga, Andréa. – Baby, estou ligando para saber onde vai almoçar. A loja não está muito cheia e gostaria que fôssemos juntos. – Tudo bem, docinho. Estarei aí em no máximo uma hora. – Te aguardo, meu bebê. – Argh! Que nojo, vocês dois. ‘Docinho’, ‘meu bebê’, depois fala de Brisa e eu. Pelo menos


não nos tratamos como duas crianças. – Vá se foder! Ela gosta de ser tratada assim e por mim, tudo bem. Vou almoçar com ela. Fui ao quarto de Luiza me despedir dela e de Brisa. Lu se agarrou em meu pescoço e não queria mais soltar por que eu estava saindo. Quando viu que eu iria de qualquer jeito, começou a chorar. Meu coração se apertava cada vez que tinha que deixar minha princesinha, mas me confortava saber que o amor que eu sentia por ela era recíproco. Fui ao shopping e logo vi minha namorada. Andréa é tão loira que às vezes parece que seus cabelos são brancos. Ela é alta, de corpo e rosto perfeitos e adora falar de roupas e sapatos. Meus amigos brincam que namoro a Barbie. Não vou negar que sua aparência me atrai, mas ocasionalmente me sinto cansado de tanta futilidade, porém, acima de qualquer coisa, é uma grande amiga. – Baby, que bom que não demorou. Vamos? Logo chegamos ao restaurante e enquanto eu pedi uma massa bastante calórica, ela pediu apenas uma salada. Eu me exercitava, então não me preocupava muito com o que comia, mas Andréa contava cada caloria como se precisasse. Já era muito magra. Ela comia tranquilamente, lançando pequenos sorrisos em minha direção quando toquei no assunto: – Docinho, eu terei que passar um tempo no Brasil cuidando dos negócios da família. Há uma suspeita de que alguém esteja nos roubando lá. Vi minha namorada mudar de cor. – Você não pode ir para o Brasil. Por que você não fica na Espanha tomando conta da empresa enquanto seu irmão viaja? Os negócios lá não são da família de Brisa? Então o interesse maior é dele. – Andréa, eu não estou consultando você ou pedindo sua permissão. Estou afirmando que na próxima semana irei para o Brasil e enquanto não conseguir resolver os problemas lá, teremos que arrumar um jeito de conviver com a distância. – Não, Marco. Eu vou com você. Eu contrato um administrador competente que pode lidar com tudo na minha ausência. A imagem de uma morena de cabelos e olhos castanhos passou por minha mente e o impulso de impedir minha namorada se tornou mais forte. – Andréa, meu anjo, não estou indo a passeio e talvez nem tenha tempo para te dar atenção lá.


Tome conta de suas lojas e daremos um jeito, certo? Seus olhos se encheram de lágrimas. – Eu sinto que está se distanciando, bebê. Aquela brasileira vai fazer de tudo para tirá-lo de mim. – Chega de inseguranças, querida. Talvez eu nem a veja lá e caso aconteça, seremos adultos o suficiente para lidar com a situação. Não estou indo em busca de um encontro amoroso. Não sei se a finalidade das minhas palavras era mais convencer a minha namorada ou me convencer. Na verdade, eu não sei qual seria a minha reação caso reencontrasse Tatiana. Precisava lembrar que foi ela quem me deu um chute na bunda sem maiores explicações. Terminamos o almoço e fomos para o apartamento de minha namorada. Ficava situado em uma região privilegiada de Madri e, pelo tamanho, daria para comportar uma grande família. Bem maior do que ela precisava, pois morava só. Ela ficou em silêncio durante todo o trajeto e quando estávamos no espaço privado, se jogou em meus braços, me beijando e tirando a minha roupa, parecendo desesperada. Segurei seus dois braços e fixei meu olhar ao dela. Minha namorada estava ofegante e havia medo em seus olhos. Medo da distância. Medo de me perder. E naquele momento, também tive medo. Eu tinha receio de fazer promessas que eu não pudesse cumprir, pois ainda que a minha consciência dissesse que eu deveria seguir em frente depois de tanto tempo, havia algo mais forte que me dominava quando eu lembrava que estaria de volta à Salvador. Fizemos amor como se não houvesse amanhã, sem palavras e sem promessas. Apenas a mistura de sentimentos falava em cada toque, em cada gesto, em cada sensação.


Capítulo 4

Ela

Esta manhã, saí correndo para o escritório com um aperto no coração por ter que deixar um pedaço de mim em casa. Amo o meu trabalho, mas se pudesse escolher, passaria mais tempo com o meu pequeno. Faz dois meses que a minha licença maternidade acabou e ainda não me acostumei a ficar longe daquele cheirinho delicioso de bebê e do sorriso mais lindo que já vi na vida. Acho que nunca me acostumarei. Lorenzo é a doce lembrança da linda e curta história de amor que vivi com Marco, e suas feições me lembram muito as de seu pai. É uma pena que tivemos que trilhar por caminhos diferentes. Talvez um dia, eu possa lhe apresentar seu filho. Talvez um dia, ele entenda os meus motivos e me perdoe. Estava atarefada enviando alguns e-mails quando percebi que duas mãos masculinas se apoiavam em minha mesa. – Finalmente hoje você vai aceitar almoçar comigo? Olhei para cima, a fim de reconhecer quem era o dono daquelas mãos. – Ai, Augusto, que susto você me deu! – Não foi a minha intenção, juro que sou um bom garoto. E então? – Então, o quê? – O meu repetitivo convite. Hoje eu terei essa honra? Augusto Haggi chegou à empresa quando eu estava no segundo trimestre de gravidez e logo nos tornamos amigos. Ele trabalhava em uma das filiais e veio à Salvador para chefiar o departamento de contabilidade. Percebi seu interesse desde que descobriu que eu seria mãe solteira e até hoje tem insistido para que saia com ele. – Está bem. Se der tempo, iremos almoçar juntos. – Ufa! Até que enfim. Pensei que esse dia nunca chegaria. – Apenas não fique tão empolgado. Será só um almoço.


– Claro, só um almoço. – Ele falou, fazendo sinal de jura com os dedos nos lábios. Saiu, me deixando continuar o meu trabalho. Ele até que é um cara bonito e bastante simpático, mas meu coração só tem espaço para uma pessoa neste momento: meu filho Lorenzo. A minha sorte de trabalhar em paz não durou por muito tempo, pois Lúcia logo se aproximou, querendo saber das novidades. – Ei, nem tente escapar. Eu vi que Augusto estava todo meloso para o seu lado. E aí, resolveu dar uma chance a ele? – Que chance, Lu? Você está vendo demais. Ele estava apenas sendo gentil como sempre e me convidou para almoçar mais uma vez. – Me diga que dessa vez você aceitou. Por favor! – Tudo bem. Ok. Dessa vez aceitei lhe fazer companhia para o almoço e nada mais, entendeu? – Porra, aquele cara vai acabar conseguindo o que quer. Senti firmeza nele. – Você sabe, melhor que ninguém, que não tenho tempo para relacionamentos. Qualquer minuto de folga tem que ser dedicado ao meu filhote e estou muito feliz por isso. Nunca achei que fosse tão bom ser mãe. – Só não esqueça, querida, além de mãe, você é mulher. Consiga um tempo para si mesma. – Vou tentar pensar nisso no futuro. – Ok. Dê um beijo em meu sobrinho e depois quero saber de cada detalhe desse almoço. – Disse, colocando a última palavra entre aspas com os dedos. Finalmente consegui trabalhar em paz e, por volta das doze e meia, estava pronta para almoçar. Entrei na sala do meu chefe para avisá-lo que estava de saída. – Sr. Ribeiro, estou saindo para o almoço. Precisa de algo mais? – Você pediu para o departamento de contabilidade separar os livros de contas? Um representante da Espanha chegará esta tarde e precisamos analisar os números. – Sim, senhor. Os livros já estão à disposição. Fico feliz em saber que terá mais alguém para compartilhar tantas responsabilidades. Com licença. Ele me deu o seu melhor sorriso envelhecido como resposta. Seu genro, Alfonso, tinha algumas ações na empresa e daria um apoio mais que bem-vindo, pois o Sr. Ribeiro estava sobrecarregado. A chegada dele me lembrava o seu irmão, mas estava despreocupada, pois somente Lúcia sabia quem era o pai do meu filho na empresa e ela não diria a ele nem a ninguém sem minha autorização.


Saí do escritório e Augusto já chegava para me buscar. – Vamos? – Claro, vamos! Fomos a um restaurante de comida oriental um pouco mais distante do que eu costumava ir na hora do almoço. Fomos muito bem-recebidos e logo fizemos os pedidos. Augusto era muito agradável e eclético nas conversas. Falamos sobre a empresa, assuntos cotidianos, meu filho e relacionamentos. Ele me contou que já foi noivo, mas a relação ficou desgastada e ambos concordaram que era melhor terminar. – E você, Tati, não deu certo com o pai do seu filho? Ninguém nunca havia me perguntado tão diretamente, embora sempre tivesse percebido a curiosidade no olhar das pessoas. – É isso, não deu certo, pois tínhamos metas diferentes. Filho e casamento não estavam nos planos dele. – Acho que viverei mil anos e não vou conseguir entender como alguém não teria planos de construir uma vida com você. – Infelizmente, nem sempre fazemos as mesmas escolhas, não é? Me perdoe, Augusto, mas preferiria não continuar falando sobre ele. – Sem problemas. Acho mais interessante falar sobre você. Quais são os seus planos além de ser mãe de um lindo bebê? – Sem planos no momento, apenas vivendo um dia após o outro. – Sei, espero que ao menos encontre espaço para almoços com amigos eventualmente. Continuamos a conversa de forma descontraída e ri muito com as histórias hilárias que ele me contava. Comemos, pedimos sobremesa e tomamos um cafezinho. Adorei o restaurante. Vou chamar Lúcia para virmos almoçar aqui qualquer dia. Resolvemos voltar para o escritório após uma hora e meia fora. Ele me conduziu até a minha mesa e ficou parado, me olhando. – Obrigada, Augusto, pelo almoço e pela companhia. Você tem muito bom gosto, o restaurante é maravilhoso. – Sou eu quem agradece. Estou à sua disposição para voltarmos lá. Augusto se inclinou, vindo em direção a mim. A princípio, fiquei nervosa, acreditando que me


roubaria um beijo, mas seus lábios mudaram de direção e encontraram a maçã do meu rosto. Fomos interrompidos pelo som de uma tossida rouca. Olhei para trás dele, a fim de identificar que mais estava naquele lugar e, repentinamente, me senti como se tivesse sido jogada em um abismo, sem nada que me mantivesse a salvo. Marco estava parado, correndo seus olhos de mim para o meu amigo de forma acusadora. Oh, meu Deus, o que ele fazia aqui? Não era seu irmão quem viria? Eu precisava me controlar. O pior dos meus pesadelos estava acontecendo, mas com sorte, não seria por muito tempo. Continuava lindo e meu coração logo reconheceu seu dono como um cachorrinho abanando o rabo. – Eu não sabia que a empresa já estava permitindo namoro em suas dependências. – Ele provocou. Augusto virou em direção a Marco como um animal felino que se prepara para defender seu território. – Quem você pensa que é para chegar aqui falando desse jeito? – Meu amigo inquiriu. Marco não moveu um centímetro para lhe responder, pelo contrário, o ignorou e fixou sua atenção em mim, como se esperasse uma resposta da minha boca. – Você é o representante da Espanha que o Sr. Ribeiro está esperando? – Tentei amenizar o clima, tentando tratá-lo de modo profissional. – Ah, então você é o cara que o chefe está esperando para olhar os livros, não é? Independente de quem seja, deve desculpas a Sra. Carvalho pelo modo como falou. Augusto continuou sendo ignorado por Marco, que não desviava os olhos de mim. – Anuncie a minha chegada, por favor, Tatiana. Carlos já deve estar me esperando. – Claro, farei isso imediatamente. Ainda assustada, informei ao meu chefe que o irmão de seu genro havia chegado e ele solicitou a sua entrada. Me senti encurralada entre dois homens me olhando e medindo forças sem dizer uma palavra. Marco resolveu ir para a sala, mas antes virou e me falou: – Mais tarde preciso falar com você, Tatiana. Antes que eu respondesse, repetiu: – Mais tarde. Seu tom de voz dava uma ideia de que havia milhares de promessas e por um momento me deixei levar pela doce ilusão de um recomeço, contudo um fio de razão me chamou de volta e deixei


com que minha mente ganhasse essa batalha. Marco foi um fogo com o qual me queimei. Era um fogo com o qual não me queimaria novamente. Augusto permanecia em pé me olhando como se medisse o meu comportamento. Eu sou daquele tipo que transparece tudo no rosto e tenho dificuldades de esconder reações. Ele balançou a cabeça ironicamente, como se tivesse entendido tudo e me deu o beijo no rosto que havia tentado anteriormente. – Obrigado mais uma vez por ter aceitado o meu convite. Espero mais almoços prazerosos como este. Vou para a minha sala. Falou comigo como se um melodrama não tivesse acabado de acontecer naquele espaço. Fiquei sozinha em minha mesa, tentando descobrir o que Marco queria comigo e o que eu faria a partir de agora.


Capítulo 5

Ele

Quem diabos era aquele homem que estava quase a beijando quando cheguei? Claro que imaginei que ela já teria outro namorado, já que tem mais de um ano que não nos vemos. Só não imaginava que estaria tão perto dela. Droga! Vou ter que conviver com ela esfregando a porra de um namoradinho na minha cara toda hora. E se não for mais namorado? Ele a chamou de senhora Carvalho. Será que já está casada? Que porra você tem a ver com isso, Marco? Concentre-se! Você veio ao Brasil a negócios e não para reviver a ilusão de um romance. Além de tudo, você tem uma namorada linda e apaixonada te esperando na Espanha. Consegui fazer mil perguntas a mim mesmo apenas segundos depois de tê-la deixado em sua mesa. Não esperava que um reencontro fosse me abalar tanto. Entrei na sala e Carlos Ribeiro estava de cabeça baixa folheando um livro. Percebeu a minha entrada e se levantou para me cumprimentar. – Marco, é bom vê-lo. Espero que tenha feito boa viagem. – O prazer é recíproco. A viagem foi tranquila como sempre. Alfonso estava muito atarefado com a companhia lá na Espanha e pediu para que eu viesse. Entendo tanto quanto ele dos negócios, então espero ajudar. – Antes de falarmos de negócios, me conte como está a minha neta. Estou pretendendo visitála o mais breve possível. A saudade está me corroendo. – Luiza é a criança mais perfeita que já vi e muito inteligente. Provavelmente estarei tão saudoso quanto você logo, pois nunca passei mais de uma semana sem visitá-la. – Parece que você está descrevendo Brisa quando era pequena. Ela era muito inteligente e engraçada, e não havia uma pessoa sequer que não se encantasse por ela. – Acho que minha sobrinha herdou muito de Bri, sobretudo a beleza. Conversamos um pouco mais sobre a família e acabamos entrando nos assuntos de negócios. – Então, você desconfia que alguém pode estar fraudando os números de contabilidade. Por quanto tempo está desconfiado e teria alguém em mente?


– Eu desconfiava de um funcionário que chefiava o setor e depois que ele não conseguiu me explicar alguns números, eu o demiti e contratei uma pessoa de minha confiança que trabalhava em uma das filiais. Você provavelmente não teve a oportunidade de conhecer Augusto ainda. Ah, deve ser o merdinha que tentou me enfrentar. Quer dizer que ele não tinha tanto tempo assim aqui na matriz e é o responsável pela contabilidade. Terei contato com ele mais do que gostaria. – O conheci muito rapidamente. Estava conversando com Tatiana quando cheguei. – Então é dele que você vai cobrar explicações de tudo que passa pelo setor de contabilidade. Ele pode te ajudar muito e já está na empreitada de encontrar quem está nos sabotando, uma vez que outros funcionários têm acesso às finanças da empresa. Uma ideia me veio à mente. – Carlos, um dos motivos que me trouxe aqui foi de ver como está a saúde da empresa também. Gostaria que alguém me mostrasse os relatórios. – Claro, então deixemos o outro assunto para mais tarde e posso chamar alguém da administração para te mostrar os dados. Eu não queria que uma pessoa aleatória me mostrasse esses dados. Eu precisava de um tempo com Tatiana e era ela quem me mostraria. – Você não precisa incomodar uma pessoa da administração para isso. Tenho certeza que sua secretária tem essas informações e poderia me explicar tranquilamente. – Sim, Tatiana é muito competente e está sempre atualizada sobre todas as informações que compete à empresa. Tem sido o meu braço direito desde que Brisa casou e apesar de estar mais concentrada em sua vida familiar agora, consegue conciliar muito bem com o trabalho. Aí está a confirmação. Parece que ela realmente está casada. Terei que descobrir o mais rápido possível, quem sabe essa informação me ajude a desfazer a inquietação que sinto quando a vejo. Carlos interfonou para ela, a chamando para vir à sala. Em segundos ela entrou, olhou para mim assustada e voltou a atenção para seu chefe. – Precisa de mim, senhor? Porra, garota, não faz uma pergunta dessas que eu fico tentado a arrancá-la desta sala e mostrar o quanto preciso. – Sim, Tati. Marco quer conhecer melhor como andam as ações e a vida financeira da empresa. Gostaria que se reunisse com ele e lhe apresentasse.


– Faria com todo o prazer, Sr. Ribeiro, mas acredito que tenha funcionários mais competentes para lhe dar as informações. Não, merda, você não percebe que eu quero que seja você? – Ninguém é mais capaz que você de dar uma visão da nossa empresa, além de mim, portanto, não vemos necessidade de chamar outra pessoa. Eu não precisarei de você mais esta tarde, então dê total atenção ao Sr. Javier. O rosto dela estava vermelho e sem muito esforço eu saberia interpretar que havia uma mistura de medo e desejo. Com um gesto, ela me convidou a acompanhá-la e fomos para uma sala de reuniões um pouco distante do escritório. Deixei que entrasse primeiro e a segui, fechando a porta atrás de nós. A sala era bastante moderna, com uma grande mesa de vidro rodeada de dezenas de cadeiras em aço cromado. Mais ao canto, havia duas mesas de escritório com computadores e todo arsenal necessário para esse tipo de trabalho. Algumas estantes com livros decoravam o ambiente, dando um ar de sofisticação. O clima estava pesado com apenas nós dois na sala e ela resolveu quebrar o gelo: – Como vão Brisa e Luiza? Faz um tempo que não aparecem aqui. – Melhor impossível. Luiza está cada vez mais esperta e falando pelos cotovelos. Toda a família está a cada dia mais apaixonada. Seus olhos brilharam ao ver como eu falava de minha sobrinha. – Imagino. Sr. e Sra. Ribeiro não falam de outro assunto quando estão juntos e todos ficaram enlouquecidos quando elas vieram aqui na empresa. – Minha sobrinha tem esse poder sobre os espanhóis também. – Então, vamos aos balancetes, não é? Ela começou a me explicar, contudo o único número que estava me interessando naquele momento era o do tempo que não a via. Mais de um ano sem olhar naqueles olhos, sem ver aquele rosto, sem beijar aquela boca. Fiz um escrutínio por todo o seu corpo que parecia um pouco mais cheio de curvas. Seus seios estavam maiores e mais desejáveis, perfeitos para serem acariciados e adorados. Seu rosto continuava o mesmo, lindo com toda a sua feminilidade definida, dentes perfeitos e uma boca que convidava ao prazer. – ... Como você pode ver, apesar de alguns problemas, a empresa está muito consistente no mercado e...


– Janta comigo esta noite? – O quê? – Repito o convite: janta comigo esta noite? Pareceu assustada a princípio, mas logo vestiu a máscara de executiva novamente. – Olha, Marco, não estou aqui para brincadeiras e se realmente quiser conhecer os números da empresa, estou mais que disposta a te dizer o que sei, porém se o objetivo for outro, me deixe voltar ao trabalho. – Para que tanta defensiva, Tatiana? A impressão que me deu logo que cheguei não foi tão profissional quanto esta que está tentando me vender. – Peço desculpas se deixei uma má impressão, mas o fato era que estava apenas me despedindo de um amigo com o qual almocei. – E o que seu marido acha desses almoços com amiguinhos do trabalho? – Marido? Do que está falando? Embora não seja da sua conta, eu não sou casada. – Ah, então aquele contador não é apenas amigo. Ele é seu namorado, não é? – Marco, aonde você quer chegar? Saiu da Espanha apenas para saber sobre a minha vida? Não precisava ter se dado ao trabalho. A sua namorada sabe o que está fazendo aqui? – Não coloque a minha namorada nessa história. A conversa é entre eu e você. – Olha só, estou em meu local de trabalho e aqui não é lugar para esse tipo de conversa. Você me chamou para te apresentar os dados, então vamos a eles? – Concordo. Aqui não é lugar para conversarmos. Saia comigo esta noite. Vamos jantar fora. – Você é louco? Acha que pode aparecer depois de um ano e num estalar de dedos quer que eu vá jantar contigo como velhos amigos? – Por que não? Que eu saiba, quem não quis mais papo comigo há um ano foi você. Tem algo que a impeça de ir? Percebi que ela ficou pensativa, porém tentou disfarçar. – Não tenho nada que me impeça além da falta de vontade de jantar e de conversar com você. – Não sei por que, mas sinto que está me escondendo algo. – Mesmo que quisesse, não posso, tenho outros compromissos. – Se não é com o contador, então deve ser com outro. Quem é ele, Tatiana? – Oh, Deus, por que você não me deixa em paz? Eu não tenho marido nem namorado, mas tenho uma vida fora do trabalho que pertence unicamente a mim. O que eu faço no meu tempo livre


não é problema de ninguém. – Eu não acho que estou pedindo muito do seu tempo. É apenas um jantar entre amigos, como aquele almoço com o contador. Não estou a pedindo em casamento. Ela respirou fundo e com olhar confuso, respondeu: – Tudo bem. Eu vou jantar com você. – Finalmente! Podemos ir direto do escritório, se quiser. Fazemos um happy hour e depois podemos jantar. – NÃO! Eu preciso ir em casa, tomar um banho e me arrumar. Podemos nos encontrar mais tarde. – Está certo. Eu vou te buscar às oito da noite, pode ser? – Marque o lugar que estarei lá no horário. Vou com meu carro. – Não há necessidade, eu a deixarei em casa depois. Por que tanto medo, querida? – Eu insisto, não precisa se dar ao trabalho. Não estou bebendo, então não vejo problemas em dirigir. Você ainda quer informações sobre a empresa? – Sim, claro. É para isso que estamos aqui, não é? Ela continuou explicando e fixei o olhar em sua boca que parecia falar em câmera lenta, me convidando para ser tomada. Nenhuma palavra dita fazia sentido naquela hora, pois fui remetido a um tempo que traria de volta, se tivesse o poder. Um imã me atraia em direção ao seu rosto e me peguei sendo levado a tomar seus lábios nos meus em busca de saciar a sede que sentia desde o momento que a vi novamente. Ela percebeu meu movimento e deveria estar tão atraída quanto eu, pois nada fez para me impedir. Minha boca se aproximava da sua quando fomos interrompidos por batidas na porta. Rapidamente nos recompomos e Carlos logo entrou, querendo saber em que ponto estávamos. Se percebeu algo, não demonstrou. Com o rosto corado, Tatiana continuou a explicação, sendo interferida pelo seu chefe, que me dava mais detalhes. Dessa vez, me esforcei para controlar as emoções e me concentrei no objetivo que me levou ao Brasil. O que eu tivesse para conversar com Tatiana, ficaria para mais tarde. Eu precisava preencher algumas lacunas que ficaram no passado e entender o que aconteceu conosco na época, talvez assim eu conseguisse seguir em frente.


Capítulo 6

Ela

Dois dedinhos estavam no meu rosto enquanto amamentava meu filhote. Lorenzo não tirava os olhos de mim e movimentava suas pequenas mãos como se quisesse brincar. – Oh, meu amorzinho, por que tem que ser tão semelhante ao papai? Parou de mamar e ficou me olhando parecendo que entendia o que eu falava. Mexi em meu seio e ele voltou a mamar. – Quanta fome, hein, pequeno? Sabia que vou jantar com seu pai hoje? Estou curiosa para saber o que tem a me dizer e queria encontrar coragem para contar sobre você. Será que ele te amaria tanto quanto eu? Toc, toc, toc. Minha irmã bateu na porta e colocou a cabeça para dentro, entrando sem convite. – Cadê o denguinho da tia? Está jantando, amorzinho? Lana já chegou brincando com meu bebê, como sempre fazia, e ele a reconheceu de imediato, balançando os braços e as pernas. Terminou de mamar e ela o tomou dos meus braços para colocá-lo para arrotar. – Não tive tempo de te contar os últimos acontecimentos, La. Estou prevendo tempestades pela frente. – O que foi, Tati? Tem algo a ver com aquele contador do trabalho? – Não, menina, segura meu filho para que você não o derrube com o susto. Marco apareceu na empresa hoje. – Não! Para o mundo que quero descer. Verdade? O pai de Lorenzo? O que ele queria? – Veio a negócios, mas me convidou para jantar hoje e depois de muita insistência, acabei cedendo. – Nossa, quanta coisa ao mesmo tempo! Você vai ter coragem de contar a ele? – Não sei. Acho que não devo jogar essa notícia em seus peitos sem prepará-lo antes, sem sondar qual seria sua reação. – Hum... vai logo tomar banho. Vou ajudá-la a ficar linda e fazer com que ele se arrependa de


tê-la deixado escorregar de suas mãos. Hoje, o bebê é todo de titia, não é, meu amor? Minha irmã e minha mãe estragam meu filho. Eu fico despreocupada quando preciso sair e ele fica sob suas responsabilidades, pois amor é o que não falta em minha casa. Saí do banho e minha irmã já havia escolhido a minha roupa. Uma calça pantalona estava estendida sobre a cama acompanhada de uma blusa costa nua. Até um sapato nude já estava no pé da cama à minha espera. – Quem precisa de personal stylist quando se tem uma irmã como você? – Quero vê-la arrasando esta noite, embora não precise de muito para isso. Já é linda naturalmente. – Me ajuda na maquiagem também. Em alguns minutos estava pronta para encontrar o homem que detinha a chave do meu coração. Eu estava nervosa e ansiosa para saber o que ele teria a de me dizer depois de tanto tempo. Marcamos em um restaurante italiano que amo na cidade e quando cheguei, ele já estava na porta, me esperando. O manobrista pegou as chaves do meu Kia Picanto e o levou para o estacionamento. – Você está linda, Tati. Vamos entrar. – Obrigada. Já havia uma mesa reservada e nos sentamos, já sendo atendidos pelo garçom. Pedi um suco de uva e Marco pediu uma taça de vinho. – Disse que não estava bebendo ultimamente. Algum motivo especial? As perguntas dele me deixavam com a impressão de que estava juntando peças para descobrir alguma coisa. – Não, apenas evitando bebida alcóolica mesmo. Sem maiores motivos. – É uma pena, pois uma massa italiana exige o acompanhamento de um bom vinho. – Na verdade, eu não deveria sequer estar em um restaurante italiano a uma hora dessas, já que estou um pouco acima do peso. – É quase um pecado ouvi-la falar isso. Percebi que ganhou mais curvas, porém apenas ficou ainda mais bela. Não há nada fora do lugar aí. – Se você diz. Então, sobre o que queria conversar? – Estava apenas com saudades da minha amiga brasileira. – Deixa de conversa fiada, Marco, nós nunca fomos amigos.


– Não, realmente. Achei que éramos mais que amigos. Por que a nossa história terminou tão repentinamente, Tatiana? – Não é possível que eu esteja ouvindo essa pergunta. Como você é cínico. – Deus, já fui xingado antes, mas ser chamado de cínico é inédito. Cada vez mais estou tentado a acreditar que houve algum mal-entendido entre nós. – Dessa vez sou obrigada a concordar. Acho que entendeu que me prestaria ao papel de amante e você estava completamente enganado. – Eu nunca fiz essa ideia a seu respeito. O que a levou a supor isso? Algum acontecimento específico? – Eu te liguei, Marco, e sua namorada atendeu. Imagine a minha cara aqui no Brasil sabendo de uma hora para a outra que fazia a função de reserva na sua vida? O garçom chegou na hora que ele iria responder. Aproveitamos para fazer o pedido do jantar. Pedi nhoque e ele pediu ravióli de carne. Percebi que estava disfarçando a raiva que sentia. Ele levantou e sentou na cadeira mais próxima à minha, deu um gole no vinho e segurou o meu rosto em suas grandes mãos. – Quero que entenda uma coisa: você nunca ocupou um lugar reserva em minha vida. Quando eu estava com você não havia mais ninguém. Essa porra toda é um inferno de um mal-entendido que vou compreender mais cedo ou mais tarde. – E quem era a mulher que atendeu ao seu telefone, afirmando ser sua namorada? – Não faço ideia a quem você está se referindo, mas nem que eu mova o mundo, vou descobrir. – De qualquer modo, não há razões para estarmos discutindo o passado agora. Você já deve estar com alguém, não? Ele respirou fundo e sondou o meu rosto, antes de responder: – Sim, eu estou namorando. Virei o meu rosto para o lado ao mesmo tempo em que um bolo se formava em minha garganta. Para que diabos perguntei algo que não queria saber a resposta? Encontrei forças e olhei para ele novamente. – Ela conhece o seu passado? Quer dizer, ela sabe que já teve alguém no Brasil? – Antes de se tornar minha namorada, Andréa era minha amiga e confidente. Ela sabe tudo a nosso respeito.


– Ah, imagino que tenha ficado enciumada com a sua vinda ao Brasil. – Sim, bastante. Tristeza me tomou nesse momento, pois ainda que tentasse controlar a minha mente, meu coração nutria esperanças de que haveria espaço na vida dele para mim. – Estou curioso para saber o que faz em seu tempo livre. Que tipo de compromissos a prende em casa? Não sou boba e percebi sua estratégia de mudar de assunto. Entrei no jogo. – Simplesmente gosto de ficar em casa com minha família. Não abro mão de compartilhar pequenos e grandes momentos com eles. São o que eu tenho de mais valioso na vida. A comida chegou e estava com aparência muito boa, contudo o fervor da conversa nos impediu de tocar nela. – Eu sei que uma mulher como você deve ser cortejada a todo o momento, mas não posso deixar de perguntar: teve outros relacionamentos nos últimos tempos, Tati? Percebi sua apreensão como se preparasse para uma resposta que não gostaria de ouvir. – Sim. Estive bastante envolvida com alguém. Ele fechou os olhos por um segundo e quando abriu, continuou a arguição: – Esteve, não está mais? – De certo modo, ainda estou bastante envolvida. – Entendo. E aquele cara da empresa? Deve estar muito interessado em você. – Augusto é apenas meu amigo. Ele sabe que não há espaço para mais ninguém em minha vida. Marco colocou as mãos sobre a mesa, apertando-as forte. Dava para sentir a tensão sobre ele e por um instante, seu olhar ficou perdido. – Me responda uma coisa, Tati: se nesse momento, ambos fôssemos livres, teríamos alguma chance? Merda! Tudo o que eu mais queria na vida era ter outra chance com ele e quem sabe, formarmos uma família no futuro, porém não posso estacionar em um mundo hipotético. A minha vida é bastante real. – Marco, eu prefiro não ficar fazendo suposições. O fato é que você e eu temos alguém e essa é a nossa realidade no momento. – Você me disse mais cedo que não tinha namorado. – Isso não muda nada. Se eu tenho ou não é indiferente, já que você tem.


– Droga! Eu tenho um pedido a te fazer. Por favor, me ouça. – Pode falar. – Apenas mais uma noite, Tatiana. – O quê? Você só pode ter ficado louco. Ele passou as mãos pelo rosto e as cruzou sobre a mesa, se aproximando mais de mim. – Eu estou te pedindo só mais uma noite para fechar esse ciclo em nossas vidas. As coisas entre nós ficaram mal-acabadas e precisamos desse encerramento para seguir em frente. Apenas uma noite. Sondei meus pensamentos sobre essa possibilidade. Eu também gostaria de ter não apenas uma, mas mil outras noites ao lado dele, porém havia mais em jogo. Havia outras pessoas que deveriam ser levadas em consideração e meu coração que sairia ainda mais machucado. – Se eu soubesse que o motivo que me trazia aqui era esse, não teria vindo. O que tínhamos foi encerrado há um ano quando resolvemos trilhar por caminhos distintos. – Não, Tati. Você sabe que não foi. – Marco... – Fui interrompida. – Tudo bem. Por enquanto, vou aceitar sua resposta, mas essa conversa ainda não terminou aqui. Vou descobrir primeiro quem se passou por minha namorada antes de voltarmos a conversar. Ele voltou para o seu lugar e decidimos tocar no jantar que já deveria estar frio àquela altura. Apesar do clima tenso, conseguimos conversar um pouco sobre a empresa e falamos da sua sobrinha. Senti uma ponta de inveja ao ver tanto amor dispensado a uma criança que não era dele, embora tivesse o seu sangue. Como ele seria no papel de pai? Amaria tanto quanto a sobrinha que viu nascer? Talvez um dia eu descobrisse. Terminamos de jantar e ele me levou até o estacionamento. – Bem, obrigada pelo jantar. Nos vemos na empresa. Me aproximei para lhe dar um beijo na bochecha, quando selvagemente, ele pegou o meu rosto em sua mão e tomou meus lábios nos seus. O beijo era ardente e necessitado. Ele me encostou a uma parede e se aproximou ainda mais, esfregando o seu corpo no meu. Senti sua ereção pulsante roçar em minha vagina que já se prontificava a ser possuída.


Naquele momento, esqueci de qualquer pessoa que pudesse estar entre nós, esqueci de escrúpulos e quaisquer princípios que tivesse. Éramos só eu e ele, e sabia que não me negaria a nada que me pedisse ou me tomasse sem pedir. Eu seria dele em um estacionamento público se a provocação continuasse. Suas mãos serpentearam para dentro da minha blusa e meu corpo arqueou em convite. Nossas línguas se misturavam, experimentando o sabor doce e acre do proibido. Suas mãos estavam alcançando os meus seios que já estavam inchados e prontos para receberem atenção, quando repentinamente ouvimos um toque de celular. Marco me olhou com pânico nos olhos, implorando para que eu não desistisse do que estávamos prestes a fazer, entretanto a razão já havia tomado o seu lugar de volta em minha mente e me movi para retirar suas mãos de cima de mim. – Não vai atender? – Perguntei. Ele tirou o celular do bolso e o nome ‘Andréa’ estampava o visor do aparelho. Olhou e apertou um botão vermelho na tela, colocando-o no bolso novamente. – Pode me acompanhar até o carro? – Pedi. – Desculpe pela interrupção. Eu deveria ter desligado o celular. – Não, foi melhor assim. Vamos? Ele me encarou por um tempo e quando percebeu que já andava em direção ao carro, me acompanhou. – Tenha uma boa noite, Marco. Ele deu um sorriso irônico. – Juro que vou tentar. Entrei em meu carro e parti em direção ao lugar que eu sabia que encontraria segurança e onde estava o fruto do amor que um dia compartilhamos.


Capítulo 7

Ele

Dias se passaram depois do jantar com Tatiana e todos os dias a via na empresa, porém conversávamos apenas o necessário. Carlos Ribeiro pediu para que providenciassem uma sala para mim e agora tinha o meu próprio escritório e um computador com acesso a todos os dados da empresa. Além de tentar encontrar quem poderia estar por trás dos desvios de dinheiro, ajudei na rotina da empresa, participei de reuniões e tomei importantes decisões. Ainda não tinha me reunido com o tal do Augusto, pois preferi estudar os números com bastante cuidado primeiro. Já não estava mais suportando ver aquele idiota dando em cima de Tatiana na minha frente todos os dias. Dava nojo observar a obsessão dele para entrar em sua calcinha. Eu passava por ele rolando os olhos e me perguntando como um cara desses poderia ser da confiança de Carlos Ribeiro, já que parecia não ter tempo para trabalhar. Sempre pegava Tatiana desconversando e tentando se livrar dele. Era nítido. Só ele não enxergava que ela não o queria. Ainda estava intrigado com aquela história que ela me contou de uma garota que atendeu ao meu telefone se passando por minha namorada. Ainda não consegui juntar os pontos, mas vou chegar lá. Hoje é sexta-feira e depois de um dia no escritório, resolvi esticar a noite, já que não trabalharia no outro dia. Fiquei tentado a convidá-la para sair novamente, porém pensei melhor e decidi recuar por enquanto. Estava dirigindo pelo Dique do Tororó, quando duas garotas fazendo caminhada me chamaram atenção. Passei por elas e reconheci que eram Tatiana e sua irmã, a última empurrando um carrinho de bebê. Acelerei o carro, em busca de um lugar onde pudesse estacionar para ir ao seu encontro. Demorei um pouco para encontrar uma vaga e quando as procurei, não encontrei mais. Como elas conseguiram sumir tão rápido? Resolvi caminhar um pouco mais para ver se as encontrava.


Algumas pessoas passavam por mim fazendo caminhada ou correndo em malhas leves próprias para atividade física. Eu me distinguia delas, pois não estava vestido apropriadamente para aquele tipo de atividade. Caminhei por alguns minutos, procurando-as como um leão caça a sua presa e percebi que minha busca não daria em nada. Voltei para o carro e segui em sentido a uma casa noturna que estive anteriormente com Alfonso. Provavelmente esse seja o motivo que a prenda em casa. – pensei – Ela deve ajudar a tomar conta do sobrinho quando a irmã não pode e se ela realmente tem alguém, deve encontrá-la em sua casa. Continuei com meus devaneios e logo cheguei ao meu destino. A casa era de muito bom gosto e havia uma banda local tocando músicas de diversos gêneros, desde MPB a Pop Rock. Sentei em um banquinho próximo ao balcão e chamei o garçom. – Uma dose da melhor marca de uísque que vocês tiverem, por favor. – Gelo e energético, senhor? – Ele me perguntou. – Apenas duas pedrinhas de gelo e sem energético. Sem demora, o meu pedido chegou e eu o entornei, sentindo a acidez queimar a minha garganta. Pedi outro sem demora. Hoje eu estava disposto a encher a cara e anestesiar os sentimentos que vieram à tona desde que voltei ao Brasil. Acho que não estava funcionando muito, pois a imagem da irmã dela empurrando um carrinho de bebê me levou a imaginar como ela ficaria caso tivesse levado o nosso bebê no ventre. Nós sempre nos prevenimos, porém eu seria o cara mais feliz do mundo se a natureza tivesse trabalhado a nosso favor e ela tivesse engravidado naquela época. Eu não estaria vivendo tantos conflitos internos e seríamos uma família agora. A chegada de minha sobrinha me fez rever o conceito de família e filhos, e presenciar a felicidade entre meu irmão e Brisa só reforçou o quanto estava errado em relacionar casamento a obrigações. Acompanhei as canções que a banda tocava e reconheci uma delas por ser um sucesso da banda que Benito Adams produzia, embora não sabia a letra direito. Pelo visto a banda fazia muito sucesso no Brasil, pois todos estavam acompanhando a letra entusiasmados. Já havia perdido as contas de quantas doses tomei, quando o meu celular tocou. Tirei do meu bolso e identifiquei o nome no visor. Porra! Tinha esquecido de ligar para Andréa desde que o dia que cheguei aqui. Dramática como é, já deve estar desesperada.


Recusei a ligação e desliguei o celular, guardando novamente. Quando chegasse ao apartamento, ligaria para ela. Resolvi me movimentar um pouco e passei a observar o tipo de público que frequentava o lugar. Havia muitas mulheres bonitas e muitos homens flertando. A grande maioria era de solteiros em busca de conhecer novas pessoas. Olhei para o lado e repentinamente vi que uma garota de cabelos e olhos castanhos passava por mim com um convite nos olhos. Ela me lembrava alguém e imediatamente a segui. Ela parou ao perceber que eu a acompanhava e colocou o canudo da sua bebida na boca sensualmente. Porra, eu não estava acreditando que Tatiana tinha vindo para cá também. Minha visão estava turva devido ao excesso de bebida e a encarei para me certificar de que estava enxergando direito. Droga, eu devo estar muito bêbado mesmo. Essa garota não é ela. – Tati, é você? – Perguntei, me aproximando. – Você quer que seja eu? Então, sim, eu sou sua Tati. Ah, caralho, diabo de mulher me deixando ainda mais confuso! – O que faz aqui? Está sozinha? – Sim, estou só e acho que meu sexto sentido sabia que o encontraria aqui, por isso eu vim. Como devo chamá-lo? Minha visão só pode estar me pregando uma peça. Se fosse ela, saberia o meu nome. – Você não lembra? – Não precisa me responder. Não estamos aqui para nos tornarmos amigos de infância, não é? Só esta noite, sem amanhã. Topa sair? Eu já não tinha mais controle dos meus pensamentos. Eu precisava do alívio que só uma pessoa poderia me dar e, se ela não for Tatiana, eu não quero mais sair do estado de embriaguez, pois é ela que estou vendo em minha frente. Tirei o canudo de sua boca e a puxei para um beijo sôfrego, e saudoso. Seu sabor não era tão doce quanto me lembrava, mas atribuí à bebida que estava nublando meu discernimento. – Vamos, minha rainha. Vou levá-la para o meu apartamento. Saímos da casa noturna e ainda encontrei um fio de lucidez que me advertiu a pegar um taxi em vez de dirigir. Do jeito que estava, não chegaria em casa vivo. Subimos para o apartamento e assim que destranquei a porta, ela pulou em cima de mim, já tentando abrir o botão da minha calça. Eu estava muito tonto para reagir e a deixei fazer o que quisesse.


– Hum... estou querendo te chupar desde que te vi chegar na boate. Já fazia um tempo que te olhava, só que você demorou a me perceber. – Me chupa, sua putinha feiticeira. Não sei que porra você fez, mas não consigo te tirar da cabeça. Não sei como o meu pau conseguiu ficar duro devido a minha embriaguez. Talvez fosse o desejo acumulado por mais de um ano, desde que toquei em Tati pela última vez. Fechei os olhos e deixei que ela fizesse todo o serviço. Minha cabeça estava rodando e no meio do redemoinho estava a imagem da minha rainha, linda e nua me pedindo para fodê-la. Ela me chupava com gula, saboreando e soltando pequenos gemidos. Puxei seus cabelos, empurrando a sua cabeça para frente a fim de enfiar ainda mais o meu pau em sua garganta. – Está gostoso, querido? Abri os meus olhos para responder e encarei a mulher à minha frente. Pude ver nitidamente que a mulher que tinha a boca enfiada em meu pau não era quem eu achava que fosse. A empurrei para frente e ela cambaleou, conseguindo se segurar antes de cair. – O que foi, porra? Está louco? Por que me empurrou desse jeito? – Desculpe-me pela atitude intempestiva. Não foi por querer. Olha, eu te confundi com outra pessoa e agora que estou enxergando melhor, gostaria que você saísse. Não me leve a mal, não é nada com você, mas eu preciso que saia agora. Vou pedir à recepção que chame um taxi e coloque na conta do apart, não se preocupe. Ela ficou parada me olhando, sem entender nada. Tentou se aproximar de mim novamente, mas fiz um gesto com a mão que a freou. Ela pegou sua bolsa e saiu, me deixando sozinho. Liguei para a recepção e depois de acertar tudo, me joguei de costas na cama e fiquei olhando para o teto. Mesmo ainda embriagado, tentei fazer uma retrospectiva mental das mulheres que estiveram comigo dias antes da minha conversa com Tati há um ano. Lembrava que estive na casa de Brisa para ver minha sobrinha como de costume, porém apostaria uma mão que minha cunhada não se passaria por minha namorada. Confiava muito nela. Quem mais poderia ser, então? Estive na casa de meus pais rapidamente também e conversei um pouco com minha mãe. Além dela, só havia a nossa funcionária, Mercedes, que me considerava como um filho. Elas também não teriam essa atitude e o meu celular não ficou exposto lá em momento algum. Tente lembrar, Marco, você consegue!


Passei mais alguns minutos lutando contra os efeitos do álcool e tentando encontrar respostas. Quando já pensava em levantar para tomar um banho e deixar os pensamentos para outro dia, me lembrei de um episódio que deveria ter mais ou menos esse tempo. Uma noite, eu voltava da empresa e encontrei Andréa sentada me aguardando na recepção do prédio. Ela não deveria ter muito tempo esperando, pois sabia mais ou menos o horário que eu chegava. Naquela época, era apenas minha amiga. – Andréa, o que faz aqui? – Havia lhe perguntado. – Oh, Marco, estou precisando tanto de conselhos. Recebi uma proposta de uma nova marca e gostaria da opinião de alguém que entende do mercado. – Vamos para o apartamento, então. Aqui não é lugar para conversarmos. Ela me acompanhou e a convidei para sentar. Retirei as chaves e o celular do meu bolso e deixei sobre a mesa da sala, como sempre fazia. – Antes de conversarmos, preciso tomar um banho. O dia foi cansativo e só um banho para me deixar relaxado. Se quiser jantar aqui, a minha funcionária deve ter deixado algo pronto na geladeira. Saí, a deixando na sala com o meu celular. Nunca na galáxia imaginaria que Andrea poderia se passar por minha namorada para alguém. Parecia uma amiga muito sincera. Quando voltei do banho, esquentei a janta e conversamos sobre as lojas. A instruí para tomar as melhores decisões e depois a nossa conversa começou a tomar um rumo mais descontraído. Em certo momento, ela me impressionou com uma pergunta: – Marco, você já me viu como mulher alguma vez? Quer dizer, já enxergou em mim algo além de amizade? Eu não sabia aonde ela queria chegar com essa conversa. – Você é uma mulher linda, Andréa, e qualquer homem vivo na terra a consideraria atraente, mas sempre a vi apenas como minha amiga. Você sabe que estou cada vez mais envolvido por Tatiana. – Ah, a brasileira de novo, sei. Não seria melhor se relacionar com alguém mais próximo? Você aqui, ela distante, sabe-se lá o que ela está fazendo agora? – Uma das coisas que tenho aprendido vendo a relação de Alfonso e Brisa é que confiança é indispensável. Tatiana trabalha muito e é uma garota muito responsável. Tenho certeza de que não está fazendo nada demais. Lembro que ela tentou argumentar de todas as formas, contudo não deixei que continuasse interferindo desse modo na minha relação.


Filha da puta! Foi ela quem atendeu ao telefone e se passou por minha namorada para afastar Tati do meu caminho. Fingiu tão bem que depois de alguns meses acabei acreditando na possibilidade de um relacionamento maduro com ela. – Foda-se! Vou ligar para essa vadia agora! No momento em que consegui lembrar, parecia que uma parte da embriaguez havia ido embora e lutei para tomar o controle da minha mente, pois aquela conversa não poderia ficar para o outro dia. Disquei seu número e no segundo toque, ela atendeu. – Bebê, eu já estava preocupada. Por que demorou tanto para me ligar? Te liguei várias vezes e... – Já descobri tudo, Andréa. Você fingiu que era minha namorada para afastar Tatiana da minha vida, não foi? – Do que você está falando, querido? Aquela brasileira já está enchendo sua cabeça contra mim, não é? Ela te abandonou sem mais nem menos e agora o quer de volta? Não acredite nela, bebê. – Ninguém está fazendo a minha cabeça. Pare de continuar fingindo, porra, você não vai continuar me enganando. – Calma, Marco. Olha, pegarei o primeiro voo para o Brasil amanhã e podemos conversar pessoalmente. Esfrie a cabeça e tudo será esclarecido. – Eu não tenho mais o que conversar com você. Não apareça em minha frente, pois não sei como irei reagir. Acabou, Andréa, acabou. Desliguei o telefone em sua cara. Não queria ouvir choros e lamentações fingidas. Eu não serei usado como um troféu para ninguém mais e vou lutar para recomeçar a minha história com Tatiana. Eu a quero na minha vida mais do que nunca e dessa vez nada me fará voltar atrás.


Capítulo 8

Ela

– Brrrrrrrr. – Brrrrrrrr. Estava fazendo o som de um ‘carrinho’ com a boca e Lorenzo me imitava, caindo na gargalhada. Como um bebê de apenas seis meses poderia ser tão inteligente? Acho que ele não vai demorar a falar as primeiras palavrinhas e estou torcendo para que a primeira seja ‘mamãe’. Encarei meu lindo filho e uma ponta de tristeza me invadiu em lembrar que Marco não estava compartilhando esses momentos comigo, mas eu estava cada vez mais convicta que deveria lhe contar, independente da forma que reagiria. Sei que não será fácil, mas não posso privá-lo e nem a Lorenzo do convívio de pai e filho. Mais cedo ou mais tarde esse encontro terá que acontecer e terei que estar pronta para assumir as consequências. Hoje é o dia que mais amo na semana, pois significa que terei dois dias inteiros com meu filhote antes de iniciar a semana de trabalho. Ontem, fomos caminhar um pouco em volta de um dos parques mais bonitos de Salvador, que é o Dique do Tororó. Adoro olhar aquela paisagem, ver as pessoas indo e vindo, cuidando da saúde e encontrar outras mães com crianças. Tive uma sensação rápida de que estava sendo vigiada, porém quando olhei para os lados e vi que não havia qualquer conhecido, além da minha irmã, logo fiquei despreocupada. Meus planos hoje eram de ficar durante todo o dia em casa com Lorenzo, fazer um almoço leve e assistir a um filme infantil. Meu filho adora olhar as cores dos desenhos animados e fica tão preso ao filme, que parece estar entendendo algo. – Brrrrrrrr. – Continuei brincando com Lorenzo. – Brrrrrrrr. – Lorenzo responsivamente imitava. A minha mãe chegou na porta do meu quarto e ficou me olhando brincar com o bebê. – Tati, não vem tomar café? Já está quase na hora do almoço. – Daqui a pouco, mãe.


– Está amamentando, tem que se alimentar. Às vezes ela me trata como criança ainda. – Estou indo, é que está tão gostosa a brincadeira, não é Lorenzinho? Ele soltou uma gargalhada que mostrava seus dois dentinhos da frente. – Me dê meu neto e vá já para a mesa. Você precisa se cuidar. Trabalha demais e deixa de se alimentar. Vai enfraquecer desse jeito. – Está bem, a senhora me convenceu. Não precisa falar mais, estou faminta de qualquer jeito. Levantei, lhe entregando o bebê e lhe dando um beijo de bom dia. Sentei à mesa e coloquei café na xícara. Minha mãe se aproximou com meu filho no colo e começou a puxar conversa: – Sua irmã me falou que Marco está no Brasil. Já pensou em contar sobre seu filho? Parei de cortar o pão e respirei fundo, antes de lhe responder. – É, Marco está por aqui. O vejo diariamente na empresa, ainda não tive coragem de contar, mas não vou deixar que a covardia me domine por muito tempo. Preciso fazer o certo e não costumo fugir do que é inevitável. Ela nada me respondeu, me deixando entender que seu silêncio significava confiança. Ficou brincando com meu filho enquanto eu terminava de tomar café. Mais tarde, eu estava assistindo televisão com Lorenzo e lhe mostrando as imagens coloridas quando o meu celular tocou. Meu coração quase saiu pela boca quando vi que a ligação estava partindo do telefone de Marco. – Meu santo Jesus, o que esse homem quer comigo desta vez? – Perguntei a mim mesma. Atendi à ligação com a mente trabalhando a mil, tentando adivinhar o possível motivo daquele telefonema em pleno final de semana. Ele tinha me ignorado todos esses dias na empresa, tratando comigo apenas sobre assuntos indispensáveis ao trabalho e agora me ligando em pleno sábado? – Alô! – Tati, aqui é Marco. Tudo bem? Estou precisando falar com você. É urgente, está em casa? – Precisa falar comigo? Sim, estou em casa, mas não estou entendendo. – Me dê o endereço que irei até aí e te explico. – Não! Por que tanta urgência? Aconteceu alguma coisa na empresa? – Não tem nada a ver com a empresa. Preciso falar contigo sobre outro assunto. Por favor, não me faça mais perguntas por enquanto.


– Estou ficando preocupada. Esse assunto não pode esperar para segunda-feira? – Tati, acredite em mim quando digo que tem que ser logo. E então, como faço para chegar até você? Parei para pensar um pouco, pois precisava escolher um lugar neutro para conversarmos. De jeito nenhum deixaria que ele viesse até a minha casa. – Sabe aquele shopping próximo à empresa? – Sim, sei. – Me encontre na praça de alimentação daqui a duas horas, pode ser? – Está perfeito. Você não se arrependerá, querida. Até mais. Desliguei o telefone com o coração apertado e mais confusa do que antes de atendê-lo. Não seria possível que ele tivesse descoberto sobre Lorenzo, pois não sei qual seria sua reação, mas sei que não seria tão pacífica. Lá se foram meus planos de passar o dia com o meu filho, contudo se eu tiver coragem, quem sabe ainda hoje Lorenzo não terá apenas uma mãe. Terá também um pai. Expliquei a situação à minha mãe e fui me arrumar para encontrar o pai do meu filho e saber o que de tão importante ele tinha para me dizer. Talvez nesse dia eu tivesse algo ainda mais importante a lhe dizer e ele nem fazia ideia. Eu já pesquisei sobre os meus direitos e sei que Marco não pode tirar o filho de mim sem um motivo plausível, mas também sei que ele terá os mesmos direitos que eu e pode reivindicá-los se quiser. Imagino como seria uma guarda compartilhada com pais que vivem em países diferentes. Depois de deixar Lorenzo alimentado, lhe dei um beijo e entrei no meu carro rumo ao lugar marcado. O shopping estava cheio de clientes em compras, comum em um dia de sábado, e não me prolonguei olhando as vitrines como gostava de fazer. Meus pés me apressaram direto para a área de alimentação. Meus olhos logo o encontraram, sentado em uma mesa meio escondida e balançando as pernas, parecendo nervoso. Caminhei em sua direção e meus movimentos chamaram a sua atenção, fazendo com que se levantasse. Cheguei na mesa e ele puxou uma cadeira para que eu sentasse. – Oi, espero que não tenha feito com que esperasse muito. – Falei nervosamente. – Não, timing perfeito. Tomei a liberdade de pedir um suco de laranja para dois, tudo bem? – Sem problemas. Confesso que estou curiosa para saber o motivo de tanta urgência.


Ele não fez rodeios. – Eu terminei tudo com ela. – Ele soltou como se estivesse desabafando. – O quê? Do que você está falando? – Eu terminei meu namoro com Andréa. – E por que faria isso? – Primeiro porque descobri que foi ela quem atendeu ao telefone se passando por minha namorada há um ano. – Oh! Mas ela não era sua namorada? – Eu já te disse que na época eu não tinha ninguém. Andréa foi apenas a amiga que me consolou da merda que ela mesma provocou e que, pela proximidade, acabou se tornando a minha namorada. – Como ela teve acesso ao seu celular? Ele me contou tudo o que conseguiu lembrar e eu estava cada vez mais surpresa com a capacidade que certas pessoas tinham de fingir para conseguirem o que queriam. – Então foi por isso que quando você me ligou naquela época, parecia tão confuso. Eu o chamei de cínico e na verdade você era tão vítima quanto eu desta cobra. – Sim. Eu te liguei naquele dia para que eu viesse ao Brasil te propor um relacionamento, algo que a gente pudesse nomear, pois até então a nossa relação era instável. – E qual seria o outro motivo para que você terminasse sua relação com ela? – O segundo motivo é que a mulher que eu sempre quis que estivesse preenchendo a minha cama não era ela. A única mulher que me fez pensar em levar a sério essa coisa de relacionamento também não era ela. Essa mulher era você. Sempre foi você. Eu só preciso que me diga que aquela história de relacionamento era pura invenção. – Eu não estou em um relacionamento, porém preciso te contar uma coisa que talvez, a princípio, você vá me odiar por ter escondido, mas creio que logo entenderá meus motivos. É que... – Não! Não há nada que eu precise saber agora que possa estragar esse momento. Porra, eu bendigo a hora que meu irmão me pediu para voltar ao Brasil. Só agora eu terei de volta a paz que havia me abandonado há um ano. – Mas, Marco, é importante. – Depois, minha rainha, eu quero saber agora o que você fará de posse dessa informação. – Você acha que ela vai te deixar em paz assim, sem brigar pelo que quer a qualquer preço


como já fez uma vez? O que você acha que devo fazer com essa informação? Que me jogue em seus braços? – É exatamente isso o que eu quero. Não precisa se preocupar com o que ela possa fazer, pois não vou deixar mais ninguém se intrometer em nossas vidas. Ele tomou meu rosto em suas mãos e olhou no fundo dos meus olhos. – Tatiana, eu te amei desde o primeiro dia que a vi, te amei por todo esse ano que ficamos separados e te amo hoje. Me faça o homem mais feliz do mundo se tornando minha namorada. Oh, meu Deus, será que morri e fui para o céu? As palavras que eu sempre quis ouvir dos lábios de Marco acabaram de ser pronunciadas? Eu – te – amo. Foi tudo o que sempre sonhei. Era o que tinha acabado de ser proferido. Abri meu melhor sorriso para ele e em seu rosto havia um misto de felicidade e ansiedade. – Querido, não vou negar que ainda estou sendo tomada pelo medo de que algo ou alguém possa ter mais força que o sentimento que temos um pelo outro, porém não poderia deixar de dar a única resposta que sairia dos meus lábios nesse momento: eu também estou me tornando a mulher mais feliz desse mundo em me tornar sua namorada. Sim, eu aceito. Ele soltou a respiração que deveria estar prendendo por todo o tempo que demorei para responder. Não se importou se havia dezenas de pessoas no mesmo espaço, puxou meu rosto mais para perto e tomou meus lábios em um beijo ofegante e guloso. – Vamos sair daqui. Eu não me responsabilizo pelos meus atos se eu ficar mais um minuto no meio dessas pessoas. Preciso que seja apenas você e eu. Falou, puxando a minha mão como se daquilo dependesse a sua vida. Toda a coragem de lhe contar sobre Lorenzo havia se esvaído naquele momento, pois tinha medo de que o sonho que estava vivendo pudesse acabar. Sempre ouvi dizer que havia uma linha tênue entre amor e ódio e tinha receio de despertar o segundo sentimento em Marco. Eu apenas queria ser amada. Insisti para ir no meu carro dando a desculpa de que não confiava em deixá-lo no shopping sem ter certeza da hora que votaria para buscá-lo. Na verdade, ainda não estava preparada para que ele me deixasse em casa e corresse o risco de ver seu filho. Ainda não. Chegamos ao apartamento que eu já conhecia por outras vezes que estive anteriormente.


Tratava-se de um apart hotel que pertencia a seu irmão Alfonso. Ele abriu a porta, nos dando acesso ao lugar, porém a fechou com o meu próprio corpo, pois fui empurrada contra ela. Seu olhar estava sobre mim como duas esferas de bronze cheias de desejo e luxúria. Seus dedos sequer alcançaram o meu corpo e eu já estava pronta para ser tomada. Repentinamente, me carregou em seu colo e nos levou até uma enorme cama redonda, já conhecida por mim. Eu amava aquele lugar, pois me trazia lembranças inesquecíveis. Me deixou de pé na beira da cama, iniciando a tortura de tirar a minha roupa. Baixou as alças da minha blusa, depositando um beijo em cada ombro, acompanhou o movimento dela, descendo pelo meu corpo e foi beijando todo o caminho transitado pela peça de roupa. – Marco, assim eu não aguento. – Sssrrr. Logo, logo terá o que quer. O que nós queremos. Tirou o meu short em apenas um puxão, me deixando apenas de lingerie. Deu um beijo provocante em minha virilha e se levantou para voltar a possuir a minha boca. Nos beijamos com possessão, enquanto ele puxava a minha cabeça com força para intensificar ainda mais o beijo. Estava sentindo um pouco de dor, mas eu gostava. Só aumentava o meu tesão. Soltou os meus lábios e esticou os meus cabelos, para que tivesse melhor acesso ao meu pescoço. Encostou seus lábios na minha orelha, fazendo com que me derretesse em seus braços, quebrando qualquer armadura que eu ainda mantivesse. Oscilou entre falar e me beijar. A cada palavra proferida, uma parte do meu corpo recebia a sua atenção. – Não sabe o quanto senti a sua falta. – Ele dizia pausadamente. Eu quase não conseguia responder, pois o meu corpo estava pegando fogo. Eu precisava de liberação. – Marco, já faz um tempo... não me pirrace mais. – Bom saber disso. Eu preciso de calma, querida. Quero memorizar cada centímetro do seu corpo novamente. O sonho que tive outro dia estava se materializando nesse momento. Ele baixou a minha calcinha e me fez sentar na beira da cama, abrindo as minhas pernas. Cheirou minha lingerie, antes de jogá-la de lado e levou um tempo admirando a minha boceta. Eu só havia depilado a virilha, deixando um rastro de pelos apenas no centro.


Ele escancarou ainda mais as minhas pernas, levando o seu nariz a sentir o aroma liberado pelo meu centro. Eu já estava encharcada. Sua boca tomou o lugar antes ocupado por suas narinas e finalmente senti a quentura do seu hálito sobre o meu sexo. Sempre adorei fazer e receber sexo oral, mas com Marco era inigualável. Sua língua habilidosa passeou desde o meu baixo-ventre até o meu apertado cuzinho. Em alguns pontos, ele parava para brincar um pouco mais, fazendo com que contorcesse, implorando sua invasão. Sua concentração maior estava em meu clitóris, pois ele sabia que era onde estava a minha sensibilidade. Senti um dedo na entrada do meu ânus fazendo pequenos movimentos. Ele gemia, demonstrando que sentia tanto prazer quanto eu. Parou um instante de me chupar e seus olhos estudaram a minha reação. Continuou mexendo em meu cuzinho. – Você já foi fodida aqui, minha rainha? Gemi, arrebitando ainda mais a minha bunda para fazer o que quisesse. – Não. Sempre ouvi dizer que doía. – O nosso corpo se adapta fácil a diferentes necessidades. Um dia vou te mostrar o quanto pode ser prazeroso. – Voltou a dar atenção ao meu faminto grelo, ousando um pouco mais com o seu dedo na parte de trás. Eu já estava chegando à beira do precipício a um passo de me deixar ser levada. Senti um orgasmo poderoso ondular sobre o meu corpo, misturando a luxúria, que apenas Marco tinha o poder de despertar em mim, e o amor que nunca havia morrido em meu peito. – Marco... Gritei por seu nome e uma lágrima teimosa desceu pelo meu olho, denotando a dor da nostalgia que sentia desses lindos momentos ao seu lado. Naquela noite, fizemos amor uma e outra vez com desejo, fervor e ânsia. O meu corpo sentia uma fome dele tão vigorosa que, por mais que tentássemos, nunca estava completamente satisfeita. Seria necessária uma vida para que alcançasse esse objetivo. Deitei nos braços do homem que rondou os meus pensamentos por tanto tempo e tive medo de fechar os olhos para dormir. Tinha receio de que pudesse acordar e descobrir que era tudo um sonho.

****************


– Bom dia, dorminhoca. Dormiu bem? – Hum... você sabe que quase não dormi, mas não estou reclamando. Uma das melhores noites da minha vida. – Sabia que suas palavras estão me dando ideias? Ultimamente ando insatisfeito de ter que dormir nessa cama tão grande. Adoraria tê-la dividindo a cama comigo. – É algo para se pensar. Não sei se estou disposta a passar a maioria das minhas noites acordada e ainda tem outro agravante: você ronca. – Brinquei. Ele jogou um travesseiro em cima de mim, caindo na gargalhada. – Mentirosa! Eu não ronco, porém quanto a mantê-la acordada, de fato há uma grande possibilidade de acontecer. Quando estou ao seu lado, é impossível manter minhas mãos longes. – É uma pena que eu não possa aproveitar um pouco mais da sua cama. Eu preciso ir. – Falei, já me levantando. Ele me empurrou de costas na cama e sentou-se entre minhas pernas. – O que tiver para fazer, em pleno domingo, terá que esperar. Demorou demais para que estivesse de volta aos meus braços e ainda não tive o suficiente de você. Embora meu corpo estivesse um pouco dolorido, por ter ficado mais de um ano sem sexo e pela maratona da noite anterior, eu ainda queria senti-lo como se fosse a primeira vez. Meu corpo ansiava por tudo o que pudesse ou quisesse oferecer. Necessitava do prazer que poderia me dar. Me rendi naquele momento do mesmo modo que me renderia todas as vezes que me tocasse. Eu já não tinha mais controle sobre mim mesma. Estava completamente entregue a ele. Depois de nos amarmos naquela manhã, tomamos um banho juntos e me arrumei para ir. – Você realmente precisa ir para casa? Por que não passa o dia comigo? – Tenho assuntos urgentes que necessitam da minha atenção, Marco. Eu realmente tenho que ir. Nos vemos amanhã na empresa. – Ei, por falar nisso, não fique pensando que vou tolerar aquele cara dando em cima de você na minha cara. Se você não afastá-lo, eu mesmo deixarei bem claro que você é minha. Apenas minha. – Já te disse que Augusto é apenas meu amigo. Ele balançou a cabeça, assentindo, mas demonstrando que não engolia essa história de amizade. Rolei os olhos e lhe dei um beijo de despedida, entrando em meu carro.


Dessa semana não passaria. Eu teria de contar sobre Lorenzo e estava rezando para que essa informação não o afastasse de mim.


Capítulo 9

Ele

Esses dias, eu tenho vivido os momentos mais intensos dos últimos tempos. Depois do horário de trabalho, eu e Tatiana sempre nos encontramos em meu apartamento e fazemos declarações e promessas usando apenas nossos corpos. Estou cada vez mais apaixonado e sei que o sentimento é recíproco. Ela nunca dorme comigo, sempre dando uma desculpa qualquer, mas acredito que o motivo seja o seu sobrinho. Como ela ainda não tocou no assunto, preferi não falar nada, pois poderia parecer perseguidor caso contasse que a vi com sua irmã e um bebê. Percebi que ela estava apreensiva por algo, mas sempre que tentava me dizer, eu a interrompia com medo de que alguma coisa pudesse estragar o que estávamos vivendo. Hoje é sexta e eu terei uma reunião com o representante do setor de contabilidade, o tal de Augusto Haggi, que precisa me dar algumas satisfações. Os números não batem e é lógico que houve alterações no livro da empresa, porém ainda não posso acusar ninguém. Eu o vi se oferecendo para Tati novamente e a convidando para almoçar quase todos os dias. Ela tem me pedido para não interferir na relação de amizade deles e eu tenho respeitado por perceber que as investidas são unilaterais. Mas nesta reunião, não perderei a oportunidade de deixar claro quem manda no terreiro. Ele precisava entender que Tatiana já não estava mais disponível. Interfonei para ela: – Minha rainha, como está sendo seu dia? – Tudo dentro da normalidade, tirando o fato de que meu namorado tem me deixado bastante cansada essa semana e a noite não tem sido suficiente para repor as energias, está indo tudo bem. – Seu namorado é um cara de sorte. Tenho certeza de que ele pode te dar uma massagem relaxante quando sair do trabalho. – Não tenho dúvidas de que ele é especialista nisso. Está precisando de alguma coisa, Sr. Javier? – Provocadora! Você sabe como fico quando faz esse tipo de pergunta. Vou ter que passar o


dia inteiro de pau duro por sua causa. Mais tarde você me paga. – Já espero ansiosa. Sorri, adorando sua ousadia. – Linda, estou ligando para avisar que Augusto deve entrar imediatamente quando chegar. Não precisa anunciá-lo. Quando estiver aqui, não permita que sejamos incomodados por ninguém, além de Carlos Ribeiro, entendeu? – Tudo bem. Na verdade, ele acabou de chegar e já estarei dando o recado. Cerca de cinco minutos depois, o contador entrou em minha sala e me cumprimentou com ar altivo, tentando demonstrar seriedade e profissionalismo. Eu não ia com a cara desse idiota, mas não estava ali buscando um amigo, eu queria respostas que talvez ele pudesse me dar. – O senhor teve tempo suficiente para analisar os balancetes da empresa? – Sim, o período desde que cheguei foi importante para rever o que não ia bem. – E chegou a alguma conclusão? – Ainda não posso provar e ainda não posso apontar nomes, porém não há dúvidas de que está havendo alteração no livro contábil, ou seja, estamos sendo roubados. Sua expressão não se alterou com a notícia. – Quero que saiba que estou à disposição para ajudar a encontrar essa laranja podre que está infiltrada na empresa. – Não esperava menos. – Na verdade, eu e Sr. Ribeiro já estávamos analisando os dados para encontrar respostas e apenas levantamos suspeitas, porém não é saudável que a empresa demita todos os cargos de confiança por causa de um ou dois que está nos lesando, então decidimos investigar para punir as pessoas certas. Resolvi sondá-lo lhe colocando contra a parede. – Por que essa pessoa não seria você? É quem mais tem acesso aos dados e livros da empresa e, se fosse muito inteligente, poderia fraudar sem deixar pistas. A minha pergunta não o abalou e ele permaneceu com o perfil profissional de antes. – Não tenho prova concreta para me defender. O que tenho a meu favor é o meu histórico como funcionário que batalhou para estar no cargo que ocupo. Nunca tive qualquer conduta que me condenasse durante todos os anos que trabalhei nas filiais da empresa e não seria hoje, quando cheguei aonde queria, que me submeteria a cometer esses delitos. – Por que deveria acreditar em você?


– Não peço que acredite. Você tem toda a liberdade para investigar o meu passado e as minhas contas bancárias, mas tenho certeza de que estará desperdiçando um tempo precioso que deveria ser gasto para encontrar quem de fato está nos lesando. – Não será necessário. Se eu te chamei na minha sala é porque toda a investigação a seu respeito já foi feita, embora não o esteja isentando de estar envolvido nos desvios. Enquanto não acharmos os culpados, todos serão suspeitos. – Claro, concordo. Eu sempre consigo o que quero e o cargo que ocupo é fruto de muita força de vontade e muito trabalho. Farei o possível para achar os criminosos e acabar com as suspeitas. – Então, já que você falou em sempre conseguir o que quer, vou direto a um outro assunto: você quer Tatiana? – Sr. Javier, me perdoe, mas isso só diz respeito a mim. – Aí é onde você se engana. Esse assunto também diz respeito a mim, uma vez que sou o namorado dela. Dessa vez, consegui tirar uma reação dele. Seus olhos se arregalaram como se tivesse lhe dado a pior das notícias. – Namorado? Tatiana nunca me disse que estava namorando. Eu não entendo. – Eu e ela já tivemos uma relação há algum tempo e decidimos reatar recentemente. Espero que fique bem claro a você e a todos aqui que não há espaço para mais ninguém. Ela é minha. – Não vou negar que nutri esperanças de me relacionar com ela quando estava disponível, contudo se essa é a sua escolha, só me resta respeitar. – Ótimo. Vejo que estamos conversados sobre esse assunto. Agora vamos voltar ao motivo que nos trouxe aqui. Augusto assentiu e começou a me explicar todas as entradas e saídas financeiras da empresa. Ele parecia um pouco triste, mas conseguiu se manter firme durante horas de conversa. Depois de uma tarde exaustiva em que a única conclusão que chegamos foi que o ladrão entre nós era mais astuto que poderíamos supor, demos por encerrada a reunião. Embora não gostasse dele, o contador tinha razão. Tínhamos que direcionar nossos esforços em outros departamentos da empresa para tentar encontrar onde havia falha e identificar os culpados. Saí do escritório e Tatiana não estava mais em sua mesa. Resolvi mandar um Whatsapp. M: Onde está, linda? T: Fiz uma pausa para o lanche. Já estou voltando.


M: Estou te aguardando. Vamos sair um pouco mais cedo hoje. T: Tudo bem, estarei aí em cinco minutos. M: Os cinco minutos para demorados de todos. T: Hum... Para que tanta pressa? M: Você não faz ideia do que tenho em mente. Não posso falar, tenho que te mostrar. T: Se eu tiver que parar toda hora para te responder, vou demorar mais que cinco minutos. M: Então, sem mais conversas virtuais. Corra!!! T: kkkkkkk. Cerca de dez minutos depois, Tatiana chegou com um jeito debochado de quem estava sem pressa. Me olhou com um sorriso lascivo nos lábios e se abaixou para pegar sua bolsa na cadeira, empinando sua bunda em minha direção. Eu apenas a observava, já sentindo a reação do meu corpo que pedia para tomá-la ali mesmo onde estávamos. – Vou na frente. Estarei a esperando em meu apartamento, mesmo não vendo motivos para sairmos em carros diferentes quando eu poderia te pegar e te levar em casa. Isso logo vai mudar, entendeu, Tati? – Pode ir. Daqui a pouco estarei lá e podemos conversar sobre o que quiser. Aqui não. Dei-lhe um beijo breve e saí em direção ao meu carro. Entrei no apart, deixei os objetos do meu bolso sobre a mesa da sala e fui direto para o chuveiro. Precisava de um bom banho para lavar toda a tensão do escritório que estava apenas iniciando. Ainda teria um grande percurso até encontrar as respostas que vim procurar. Deixei que a água me lavasse e depois de longos minutos, saí do banho, vestindo apenas uma boxer. A campainha tocou e não me preocupei em perguntar quem era, pois já sabia quem poderia ser. Por mais um dia, eu teria a minha rainha em meus braços e estava disposto a fazer o possível para que ela ficasse durante todo o fim de semana. Desta vez não aceitaria uma resposta negativa. Abri a porta e dei as costas, indo em direção à cozinha para preparar duas taças de champanhe. Enchi as taças, enquanto ouvia seus passos atrás de mim. Voltei para lhe entregar uma taça, quando percebi que quem estava diante de mim não era Tatiana. Quem estava diante de mim era uma mulher com o rosto inchado de tanto chorar e com a


aparência caída. Andréa estava no apartamento em pé, parecendo assustada como um bicho acuado. Eu nunca havia a visto desse modo e confesso que fui tomado por um sentimento de pena. – Andréa, o que faz aqui? – Eu precisava te ver, Marco. Como você pode terminar tudo comigo por telefone? – Depois que eu descobri o que você fez? Foi muito fácil. Você é muito corajosa de estar diante de mim neste momento. – Eu tinha que falar com você pessoalmente. – Pensei que havia deixado claro que não tínhamos mais o que falar um com o outro. – Você pode não ter, mas eu tenho. – Andréa, nada do que diga vai me fazer voltar atrás em minha decisão. Eu não quero mais você. Junte o resto do seu orgulho e vá embora daqui, vá em busca de alguém que te queira. – Bebê, não é possível que essa mulherzinha te enfeitiçou desse jeito. Ela está inventando um monte de mentiras e você está cego, acreditando em suas histórias. Estávamos tão bem, vamos voltar para a Espanha e continuarmos do ponto que paramos. Ela veio ao meu encontro e me abraçou. Tentei me livrar dos seus braços em torno de mim, porém ela usava toda a sua força para se manter onde estava. – Me larga, porra, fique longe de mim. Quero que saia agora do meu apartamento. – Você não pode me jogar na rua desse jeito. – Já estou perdendo a paciência. Saia agora! Ela continuou em pé no mesmo lugar e abriu um sorriso debochado. – Eu não vou sair, querido, nem agora nem nunca. Finalmente seremos uma família. Seus pais já sabem de tudo e ficaram muito animados com a notícia. Estou tão feliz, amor, nós seremos pais, estou grávida, Marco. Eu não podia acreditar no que essa louca estava me dizendo. Grávida? Ouvi um barulho e para piorar a situação, quando olhei para a porta, avistei Tatiana petrificada, olhando para Andréa de forma assustada. Merda, estou fodido! Ela ouviu tudo o que essa maluca acabou de dizer. Preciso fazê-la entender que todo esse inferno é invenção da mente dessa louca. – Tati, querida, não acredite em uma só palavra do que ela falou. Só pode estar delirando. Não tem a menor chance de estar esperando um filho meu.


Ela não pronunciou uma palavra ou fez qualquer movimento. Continuou imóvel como estava antes. – Tatiana, por favor, me ouça... Andréa começou a chorar e virou em direção a ela. – Querida, não precisa acreditar em mim como Marco está dizendo. Acredite nesse exame que comprova as minhas palavras. – ela estendeu um papel e entregou à minha namorada. – Você vai ter coragem de ficar no meio de uma família que está começando a ser construída? Eu serei a mãe do filho dele e nada mudará isso. Tati leu o que estava escrito como se procurasse uma informação que pudesse desmentir o que Andréa dizia. Quando terminou, me encarou por um tempo, antes de proferir as palavras que eu menos queria ouvir na vida: – Não venha atrás de mim, Marco, ela está dizendo a verdade. Eu não quero ser uma pedra na vida de ninguém e você terá um motivo maior para se preocupar agora. Adeus! Ela jogou o papel no chão e saiu correndo. Cheguei até a porta para tentar alcançá-la, porém não havia mais nem vulto no corredor. Peguei o papel do chão e comecei a ler, prendendo minha visão na palavra ‘positivo’ escrita em caixa alta. Eu não podia acreditar no que estava vendo. Eu estava preso a uma mulher que só sentia asco por conta do único motivo que me levaria a uma relação forçada: ela estava grávida. Como isso foi acontecer depois de tantos cuidados? Eu nunca tive relações com mulher alguma sem proteção e ela sempre me garantiu que tomava a pílula. Filha da puta! Deve ter me enganado esse tempo todo. Voltei a minha atenção para ela tomado pelo ódio. Estava cabisbaixa, deixando as lágrimas rolarem livremente pelo seu rosto. – Você conseguiu o que queria, Andréa. Agora que há um bebê envolvido, nós vamos nos casar. Não espere de mim nada além do respeito que preciso ter pela mãe do meu filho. Eu não a amo. Nunca amei e nunca vou amar. Vai aprender a viver uma vida sem esse sentimento envolvido. – Tenho certeza que o meu sentimento é suficiente para nós dois. Eu o quero do jeito que estiver disposto a estar comigo. Eu o amo demais, Marco, e saber que estou carregando o seu filho em meu ventre, me faz amá-lo ainda mais. Ligue para os seus pais. Eles estão loucos para te parabenizar. É claro que ela trataria de envolver o máximo de pessoas possíveis neste plano mirabolante para me prender através de uma gravidez. É claro que levaria a minha família cheia de princípios


para o seu lado. Como se isso fosse necessário. Eu já tenho os meus próprios princípios inquebráveis. – Tem um quarto ao lado do meu, se aloje lá e tente dormir. Amanhã mesmo voltaremos para a Espanha e vamos resolver como ficará a nossa vida daqui para a frente. Saí, lhe dando as costas e entrei no meu quarto, me jogando na cama. Eu sabia que essa seria uma longa noite, pois não conseguiria dormir. Peguei o meu celular na esperança de que tivesse uma ligação ou ao menos uma mensagem de Tatiana, mas não havia nada. Como eu aprenderia a viver sem ela agora que havia reacendido a chama que me dava um motivo maior para acordar todos os dias? Mandei-lhe uma última mensagem, um adeus que desejava jamais ter que dar: “ Eu não a terei mais em minha vida, porém preciso deixar claro que você sempre foi e sempre será o meu grande amor. Por você, estava disposto a me tornar um homem melhor. Só você me fez pensar em pertencer a apenas uma mulher e fazer com que essa mulher fosse apenas minha. Só você. Me perdoe. Eu te amo.” Fiquei parado olhando para o celular, em busca de uma resposta que veio minutos depois em apenas duas frases avassaladoras: “ Eu também te peço perdão. Eu te amo.” Para me deixar ainda com mais remorso, ela me pediu perdão. Do que poderia perdoá-la se ela era a minha própria redenção? Amanhã seria o primeiro dia da minha vida sem o maior dos sentimentos envolvido. Eu não teria mais Tatiana presente nela. Eu não teria mais amor.


Capítulo 10

Ela

Já faz dois meses que não tenho notícias de Marco. Ele não tentou entrar em contato comigo e nem eu o procurei mais. Talvez seja melhor assim, pois vi sua cara de decepção ao descobrir que se tornaria pai. Acho que fiz a melhor escolha em não lhe contar. A forma que ele reagiu à notícia era exatamente a que eu temia quando descobri que estava grávida. Ele deve estar nesse momento se preparando para entrar em um matrimônio sem amor apenas para honrar o nome de sua família. Eu não queria isso para mim. Os últimos dias têm sido difíceis, mas a minha rotina no trabalho acaba me distraindo a maior parte do tempo, contudo as noites são quando a tristeza me invade, já que sou tomada pelas lembranças dos poucos dias maravilhosos que pude estar em seus braços. Olhar diariamente o rostinho do meu filho não ajuda. Ele é a lembrança viva da minha história de amor com Marco. Imagino que ele esteja sofrendo também, pois não deixou dúvidas do amor que sentia por mim. Sinto que fomos injustiçados pelo destino, que sempre nos deu uma rasteira quando pensávamos que as coisas iam dar certo. Estava em meu quarto em mais uma noite de angústia, quando ouvi o sinal de que havia chegado uma mensagem de Whatsapp. Era Brisa falando comigo depois de alguns meses. Nós éramos amigas quando ela morava no Brasil e continuamos em contato enquanto me relacionava com Marco. No último ano, nos falamos poucas vezes. Ela sabe que tive um filho, mas não sabe que é de seu cunhado. O pai dela lhe contou sobre a gravidez, mas Brisa não me questionou sobre a paternidade e achei melhor não dizer nada. Não queria que ela fosse cúmplice do meu segredo. B: Tati, como vai? Só tenho novidades suas quando meu pai comenta algo. T: Oi, Bri, que saudades. Estou muito bem e espero que você também esteja. Como vai Luiza? B: Cada dia mais esperta. Essa menina está colocando todos no bolso. T: Rsrs. Imagino.


B: Mas as regalias dela irão acabar. Está sabendo que Marco se tornará pai? Em breve, não terá todas as atenções mais voltadas apenas para ela. Oh, Deus, saber que toda a família está envolvida com a chegada de uma criança que não é minha e de Marco só aumenta a tristeza em meu peito. T: Sua filha sempre será a princesa da casa, Bri. Ninguém nunca vai tirar seu trono. B: kkkk. Verdade, mas me conte: como vai o seu pequeno príncipe? T: Lorenzo está lindo demais e já quer fazer coisas que um bebê de sua idade ainda não faz. Acredita que já está segurando nas grades do berço para ficar de pé? B: Sério? Já vi que será um garoto muito corajoso. Ficamos conversando virtualmente por mais algum tempo. T: Quando pretende vir ao Brasil, Brisa? B: Provavelmente na próxima semana. Alfonso vai retomar o trabalho que Marco estava fazendo aí e teremos que passar um tempo no Brasil enquanto meu cunhado dirige a empresa na Espanha e se prepara para o casamento. Vamos marcar de nos encontrarmos quando chegar aí. T: Vamos sim. B: Argh! Eu nem acredito que meu cunhado vai se casar com aquela mulher artificial e de nariz em pé. Ela deu o perfeito golpe da barriga e ele caiu como um patinho. Tenho pena dele. T: Cada um colhe o que planta, não é? Então, estarei esperando seu contato, Bjs. B: Está certo, nos falamos depois. Bjs! Você não pediu por notícias, porém elas chegaram de qualquer maneira, Tatiana. Mais uma vez, a vida está suplicando que levante a cabeça e dê a volta por cima. Lembre-se que tem um filho que deve estar acima de todos, até de você mesma. Reaja e siga em frente, pois é isso que todos estão fazendo. Fui dormir com meu bebê do lado, decretando que esse era o último dia que deixaria com que a tristeza fosse a minha melhor amiga. Não adiantaria nada viver chorando por algo que não poderia mudar. O destino já estava traçado e eu precisava aceitá-lo e tentar construir uma nova estrada para caminhar. Era o que faria a partir do momento que o sol nascesse sobre a minha cabeça.

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Estava na empresa, digitando alguns documentos, quando Augusto se aproximou como sempre fazia antes de descobrir sobre eu e Marco. Provavelmente sabia que o relacionamento não vingou, já que estava se achegando novamente. – Hoje você me dará a honra de mais uma vez compartilharmos o almoço? Fiquei olhando para ele por alguns segundos. Eu ia negar seu pedido como das outras vezes, mas pensei melhor e resolvi lhe fazer outra proposta. – Eu não sei a que horas irei almoçar, tenho muito trabalho a fazer, portanto não gostaria de deixá-lo me esperando, porém estaria mais que disposta a sair hoje à noite. Ele arregalou os olhos sem acreditar no que estava dizendo. – Jura? Você vai sair comigo esta noite? – Se você quiser. Haverá um show da banda No Return no Parque de Exposições e gostaria muito de assistir. Não sei se ainda tem ingressos, mas se tiver, você bem que poderia me levar, não é? – Princesa, eu posso te garantir que você vai a esse show e que ainda estará no camarote. Como poderia medir esforços para satisfazer a sua vontade na primeira oportunidade que me dá para sairmos juntos? – Então, estamos combinados. Me pegue às nove em casa. Depois mando uma mensagem com endereço. Me despedi dele, que parecia uma criança que havia acabado de ganhar seu brinquedo favorito, e voltei ao trabalho. Era isso. Eu tomaria o controle da minha vida de volta e tentaria ser feliz da forma que pudesse. A única coisa que não poderia oferecer a ninguém era o meu coração, pois não podia dar algo que não me pertencia. Marco se trancou dentro dele e é o único que possui a chave. Liguei para casa e avisei a minha mãe que sairia esta noite para confirmar se não teria problemas dela ficar com Lorenzo. Sua reação foi super animada, pois já não aguentava mais me ver triste, trancada no quarto. No final da tarde, saí do escritório e fui direto para casa. Já havia mandado a mensagem com o endereço para Augusto e queria passar um tempo com meu filho antes de sair. O levei para passear no parquinho do próprio condomínio e passei algumas horas conversando com outras mães e babás que também estavam no local. As crianças pareciam ter uma linguagem própria, pois sorriam umas para as outras e conversavam de uma forma que só eles mesmos entendiam.


Lana ficou muito animada para ir também, mas seu namorado estava trabalhando esta noite e não poderia. A convidei ainda assim, porém disse que, embora não fosse com a cara de Augusto, não queria estragar o meu encontro. Dei de ombros e fui para o quarto me arrumar. Hoje estava disposta a arrasar no visual, mas não para impressionar alguém. Hoje era um daqueles dias que queria me arrumar para mim mesma. Escolhi um short de couro preto e uma blusa caída nude, com um sobretudo curto também preto por cima. Calcei um sapato preto de salto médio que me proporcionou uma aparência elegante, mas ao mesmo tempo confortável. Estava disposta a pular muito ao som da banda. Minha mãe estava no quarto, cuidando de Lorenzo, dei um beijo neles, peguei minha bolsa e fui para a sala. Augusto já esperava sentado no sofá, conversando com a minha irmã. Estava entretido, mas quando me viu, levantou-se admirado. – Tati, você está linda! – Obrigada. – Já vi que hoje terei bastante trabalho em manter os homens afastados de você. Duvido que qualquer mulher na festa esteja mais bonita. – O que é isso, Augusto, todo o mundo adora essa banda e tenho certeza de que haverá mulheres e homens para todos os gostos. – Vamos? – Ele estendeu a mão. – Claro, vamos. Estendi a minha também, alcançando a dele. Quando estava saindo, ouvi de longe Lana dizer: – Divirtam-se! Era isso mesmo o que faria hoje. Esqueceria que tenho um coração e tentaria me divertir. Chegamos ao local do show e logo entramos, pois o acesso ao camarote era separado. Havia muitas adolescentes com faixas e cartazes já aguardando o início do evento. O camarote não estava muito cheio ainda e dava acesso à frente do palco onde assistiria a banda de um lugar privilegiado. Eles já tinham vindo à Bahia em anos anteriores, mas sempre acontecia algo que me impedia de vê-los. – Foi muito difícil conseguir ingressos, Augusto? – Para qualquer outra pessoa, seria, mas digamos que eu tenho os meus contatos.


Dei-lhe um sorriso em agradecimento e ele aproveitou a abertura para se aproximar um pouco mais, me abraçando por trás. Eu sentia sua respiração em meu pescoço, porém não conseguia sentir qualquer atração, qualquer desejo de levar a nossa amizade para outro nível. Ele afastou meus cabelos do pescoço e passou seu nariz, respirando fundo para sentir meu cheiro. – Eu sempre quis estar assim com você, sabia? – Ele sussurrou. – Olha, Augusto, eu não quero que confunda as... Fui interrompida. – Sssrrrr... não precisa se justificar. Se deixe levar, Tati, só hoje. Você precisa abrir a guarda um pouco, precisa relaxar. – Poderia pegar uma bebida, então? Acho que você está certo e preciso de uma ajudinha para ficar mais à vontade. Ele pegou uma caipirinha para mim e uma cerveja para ele. Tomei um gole de coragem líquida e senti o doce da mistura descendo em minha garganta. Teria que ir devagar, pois não estava acostumada a beber muito. Já tinha um mês que Lorenzo deixou de mamar e não havia problemas em consumir um pouco de bebida alcoólica. Uma banda começou a tocar, fazendo a abertura da festa e comecei a me soltar. – Vamos dançar, Augusto, vem. Ele atendeu ao meu pedido e passamos a nos divertir muito. Terminei meu copo de bebida e lhe pedi outro. Prontamente trouxe mais e continuamos no embalo de músicas nacionalmente conhecidas. Já estava ficando tonta, quando avistei uma garota visivelmente grávida vindo em minha direção. Limpei os olhos com as mãos e pude ver nitidamente que se tratava de Clara. Ela era casada com o produtor da banda principal desta noite e estava esperando um bebê. Com seu jeito extrovertido, veio ao meu encontro, estendendo os braços para um abraço. – Tati, nunca mais a vi. – Verdade, Clara. Acho que a última vez foi na Espanha há mais de um ano. Então, grávida, hein? Meus parabéns! – Aquele homem enlouqueceria se não me engravidasse logo. Não falava em outra coisa. Eu também queria muito depois da convivência com minha afilhada Luiza. Não vejo a hora de ver o rostinho do meu bebê.


– Sei como é. Posso te garantir que a maternidade é um dos maiores presentes que a vida pode nos dar. – Por falar nisso, como está seu bebê? – Lindo e muito esperto. Estou cada dia mais apaixonada. – Sabe, não é da minha conta, mas acho que você deveria contar ao pai. Talvez evitasse o casamento dele com aquela mulher antipática. – Clara, Marco não é … – Ela me interrompeu. – Ei, não precisa mentir para mim. Eu nunca contaria para ele nem para ninguém. Isso é função sua. Você pode enganar a qualquer um, Tati, mas só quem não te conhecesse e não soubesse fazer uma conta simples não chegaria à conclusão de que Marco é o pai do seu filho. Ela é muito esperta, não adiantaria insistir em esconder a paternidade de Lorenzo. – É complicado, Clara. Eu já tentei contar, mas sempre acontece algo que me impede. Acho que ele me odiaria por isso. – Faça quando achar melhor. A decisão é unicamente sua. E então, está gostando da festa? Assim como Brisa, sei que Clara é confiável e não contaria a ninguém, contudo me pergunto se outras pessoas chegaram à mesma conclusão que ela. Será que se Marco descobrisse que tenho um filho, somaria dois mais dois? – Estou gostando muito. Deixe-me te apresentar Augusto, um grande amigo. – Prazer, Augusto. – ela disse, estendendo a mão – Uau, Tati, você está bem de amigo, hein? Deixe-me voltar para onde estava. Daqui a pouco Ben manda o serviço de busca me procurar. – Tudo bem, foi bom revê-la. Eu não queria pensar nas palavras de Clara. Não hoje. A banda de abertura se despediu e eu já estava no terceiro copo quando os componentes da No Return tomaram seu lugar no palco. O vocalista cumprimentou o público, que foi ao delírio, gritando em um só coral: 'Zeus, Zeus, Zeus'. Além de ser talentoso, ele era lindo, e os demais integrantes não ficavam para trás nos quesitos talento e beleza. Talvez tenha sido essa mistura que deu tanta notoriedade à banda adicionada a muito esforço do produtor, Benito Adams. – Eu quero ir lá para a frente. – Puxei Augusto, que me acompanhou sem reclamar. Eles começaram tocando o seu maior sucesso ‘Nunca mais serei o mesmo’ e o público sabia toda a letra de cor. Eu também sabia e acompanhei do início ao fim.


Uma música romântica se iniciou e Augusto me puxou para mais perto, me abraçando para dançarmos juntos. Eu havia bebido mais do que devia e me deixei levar pela canção. Falava de perdão e arrependimento, e a relação que fiz entre ela e a minha história com Marco foi imediata. A alegria que estava sentindo me abandonou e a amargura tomou o seu lugar. Lágrimas invadiam os meus olhos, nublando a minha visão, e Augusto passou sua mão por meu rosto, levando com ele uma gota que caía. – Deixe-me ajudá-la a esquecer, Tati. Você sabe que sempre quis ser mais que seu amigo. Se abra para um recomeço, querida. Estou aqui para você e não pretendo fugir na primeira dificuldade. Eu o abracei mais forte e comecei a soluçar discretamente. – Eu não sei, Augusto. Não sei se sou capaz de me tornar quem você espera que eu seja. Ele me afastou um pouco para olhar nos meus olhos. – Você não precisa se tornar nada. Você já é a pessoa que eu espero. Me dê uma chance. Ele não esperou minha resposta. Me puxou para um beijo doce, suave e respeitoso. Eu me deixei levar e correspondi, mas busquei qualquer reação do meu corpo e nada encontrei. Ele não despertava qualquer sentimento em mim. A comparação com o que eu sentia ao beijar Marco foi instantânea e a conclusão a que eu cheguei foi que ninguém mexeria tanto comigo como ele fazia. Ainda assim, eu tinha que achar forças para continuar vivendo e ser feliz, mesmo que não fosse com ele. Passamos o resto da noite aproveitando ao show e trocando tímidas carícias. Augusto havia ganhado ponto comigo por ter respeitado o meu tempo e meus sentimentos. Estava tentada a pensar em lhe dar uma chance.


Capítulo 11

Ele

– Maldición! É uma merda ver o que está fazendo com sua vida por falta de opção, meu irmão. – Eu não vou ficar mais remoendo um fato que não posso mudar, Alfonso. Amor, felicidade e tudo o que vejo na sua relação com Brisa não são para mim. Você teve mais sorte do que eu. – Sempre soube que eu seria aquele que se sacrificaria em um casamento e você o que teria liberdade para escolher, no entanto, tudo se inverteu e estou agora diante de um homem que parece estar sendo levado para a forca. Dei-lhe um meio sorriso e continuei seguindo as instruções do estilista que estava fazendo ajustes em meu terno de casamento. Era um fato. Eu iria me casar com Andréa por estar esperando um filho meu e seria dedicado à minha família. A minha vida não estava seguindo o rumo que planejei, mas teria que me conformar com os acontecimentos. Só não prometeria retribuir qualquer sentimento e nem mesmo ser fiel à minha esposa, pois ódio era tudo o que conseguia sentir por ela. Viveríamos um relacionamento de fachada e de conveniência. Eu teria que fazer o possível para dar certo pelo menos a convivência debaixo do mesmo teto, pelo bem da criança, mas não permitiria que me cobrasse mais do que respeito, que era tudo o que tinha a oferecer. O famoso estilista italiano fez um último ajuste e perguntou: – O que acha, senhor? Gostou do caimento da roupa? – Está perfeito, embora não esteja muito preocupado com caimento de nada. Se me dessem um pano de saco para vestir no dia do casamento, daria no mesmo. – Calma, Marco, o estilista não tem culpa das circunstâncias do seu casamento. Desculpa, senhor, ele apenas está nervoso. – Sem problemas, estou acostumado com noivos nervosos antes do casamento. – Ele respondeu.


Tirei o terno e deixei no ateliê para que os ajustes fossem feitos, em seguida, eu e Alfonso fomos para um bar próximo à casa dele. Pedimos duas bebidas e retomamos a conversa. – Sabe, Marco, eu gostaria que olhasse o lado bom de tudo o que está acontecendo. Você será pai, cara, e um bebê traz muitas alegrias à nossa vida. Você tem um imã para crianças, vejo como se relaciona bem com Luiza e o quanto ela é louca por você. – Não é qualquer criança. Luiza é um bebê muito especial. – Sei disso e o seu também será. Quando nascer, você saberá o que estou dizendo. Dará a sua vida por ele, se necessário. – Eu já daria a minha por minha sobrinha, então já tenho ideia do que está falando. – Sei que darei a minha pelo seu filho também. Apesar de tudo, estou muito animado para me tornar tio. – Não acha que está na hora de aumentar a família? Luiza já vai fazer dois anos e dizem que não é bom dar muita distância entre um filho e outro. – Temos pensado nisso e já não estamos mais evitando, se vier, será muito bem-vindo. Já imaginou termos bebês com a mesma idade? – Seria bom, pois se tornariam mais que primos. Seriam amigos. Intensifique a sua tentativa, cara. Me dê outro sobrinho. Ficamos em um clima amistoso, bebendo e conversando sobre outros assuntos, além do meu casamento iminente. Ultimamente, tinha evitado ficar sozinho o máximo possível, pois tinha medo de ser tomado pela depressão. No meu íntimo, ainda rezava para que algo acontecesse que impedisse esse casamento. Rezava para que uma informação nova surgisse que fosse mais forte até mesmo que meus princípios. Eu não compartilhava esses pensamentos nem mesmo com meu irmão. Eram só meus. Havia tomado alguns drinks a mais, quando uma garota nitidamente siliconada encostou no balcão, pedindo uma bebida. Ela me avaliou de cima a baixo e deu um pequeno sorriso. Essa era a deixa para me aproximar. Sorri de volta e quando ela iria pagar, eu a freei e pedi para que o garçom colocasse em minha conta. Prontamente, ela aproveitou para se apresentar. – Obrigada pela bebida. Meu nome é Yasmim e o seu? – Eu sou Marco, linda. Está sozinha? Nesse momento, Alfonso interrompeu, me chamando para irmos. – Pode ir, cara. Eu estou muito bem acompanhado por Yasmin, não é, princesa? – Respondi,


olhando para ela. – Claro. Pode deixar que cuido dele. – Não acha que bebeu demais, Marco? Como vai dirigir desse jeito? – Para de bancar o irmão mais velho, Alfonso, eu me viro. Volte para a sua família que merece sua atenção. Vou me divertir essa noite. Ele foi embora, me deixando lá com a garota. Essa já estava no papo. Acho que era isso que eu precisava: uma boceta diferente que me fizesse esquecer dos problemas por uma noite. – Quer mais uma bebida, linda? Ela assentiu e passamos grande parte da noite bebendo, dançando e trocando carícias. Depois de algum tempo, a convidei para ir ao meu apartamento e como já esperava, ela não se fez de rogada. Aceitou sem pestanejar. Peguei um taxi, pois não tinha condições nenhuma de dirigir e não demorei a avistar o meu prédio. Paguei ao taxista mais que o suficiente pela corrida e conduzi a garota para dentro do elevador. Sabia que poderia estar sendo filmado, mas não me preocupei. A empurrei contra o espelho e levantei sua saia, ultrapassando a barreira da calcinha. Enfiei dois dedos sem dó em sua entrada úmida e pude sentir o quanto era apertada. Essa garota me daria muito prazer esta noite. Levei os dedos à minha boca e os chupei, retirando de lá todo o mel que estava lambuzado. – Delícia! Ela fechou os olhos e contraiu seus quadris me oferecendo ainda mais. Eu a beijei calorosamente, misturando os nossos sabores. A porta do elevador abriu e sem demora, a levei ao meu apartamento. Entramos nos beijando e assim continuamos até chegar ao sofá. A empurrei e, sofregamente, comecei a me despir, em seguida fazendo o mesmo com ela. Sua respiração estava ofegante e não haveria muito espaço para preliminares. Eu queria foder essa puta sem sentido, queria me perder dentro dela e esquecer todos os meus problemas por um momento. Retirei um preservativo do bolso e o deixei ao alcance, pois não demoraria a usá-lo. – Venha aqui, Yasmim. Você gostaria de sentir um pau grosso em sua boca? – ela balançou a cabeça, assentindo. – Então me chupe. Quero que me sinta em sua garganta. Prontamente, ela ficou de joelhos e tomou alguns segundos para admirar o meu membro.


Passou a brincar, lambendo em volta da cabeça e depois de uma ponta a outra, sentindo todo o comprimento do meu pau em sua língua. – Gostoso, querida, mas quero que sinta tudo agora. Centímetro a centímetro, vi meu pau sumir dentro de sua boca, sendo quase todo engolido. Senti a delícia de estar envolto em uma boquinha quente e experiente. Ela era gulosa e sabia o que estava fazendo. Sempre adorei sexo oral como todos os homens, mas já tinha transado com algumas garotas que não gostavam muito. Essa definitivamente não era uma delas. Essa putinha gostava de chupar um pau. – Isso, linda. Leve-o até o fundo de sua garganta. Ela engolia o máximo que podia e retornava para a ponta, voltando a repetir o movimento de fricção. Eu já tinha um bom tempo que não transava, desde a última vez que estive com Tatiana e sabia que não seguraria por muito tempo. – Abra a boca, putinha. Vou derramar meu leite nela e você vai engolir tudo, entendeu? Segurei sua boca na direção do meu pau e ela se mostrou mais que disposta a fazer o que pedi. Me masturbei e, sem demora, fui tomado por um gozo profundo e duradouro. – Tatiaaaaanaaa. – Foi a única palavra que consegui lembrar enquanto estava liberando o meu sêmen. Yasmin engoliu tudo e ainda lambeu meu pau para se certificar que não havia perdido sequer uma gota. Não fez qualquer comentário sobre eu ter chamado o nome de outra e nem pareceu se incomodar. Era disso que eu precisava e sabia que depois de casado, teria que encontrar algumas 'Yasmins' pelo caminho para me satisfazer. Não encontraria satisfação com Andréa. Nós fodemos por toda a noite e não fui um amante egoísta, lhe dei prazer também. Havia uma mistura de saliva, suor e fluidos. No outro dia, chamei um taxi para que ela fosse embora e deixei claro que não pretendia mais vê-la. Ainda assim, ela insistiu para deixar seu telefone e eu anotei em meu aparelho. Quem sabe algum dia eu sentisse interesse em procurá-la novamente. Dormi até o meio-dia de sábado e acordei com o toque do meu celular. A música “I won´t see you tonight” da banda Avenged Sevenfold foi escolhida por mim para identificar que a ligação partia de Andréa. Ainda sonolento, resolvi atender.


– Diga, Andréa. – Bebê, ando tão enjoada hoje. Você poderia trazer o remédio para diminuir as náuseas que o médico passou? – Você não está no shopping? Por que não pede a uma funcionária para comprar? Eu sabia que essa história era manha só para que eu fosse encontrá-la. – Ah, bebê, estou tão carente. O médico disse que é normal se sentir assim na gravidez e que a mulher precisa de afeto do companheiro. Traga o remédio e venha me fazer um pouco de companhia. Droga! A sua arma agora seria a gravidez para justificar tudo. Estava fodido com essa mulher. – Estou indo, Andréa. Manda o nome do remédio pelo Whatsapp que eu compro no caminho. – Obrigada, querido. Eu e seu filho estamos muito felizes que está vindo. Minha cabeça estava explodindo pela quantidade de bebidas ingeridas ontem. Tomei um banho e pedi um taxi para que pudesse pegar meu carro no estacionamento do bar. Fui em direção ao shopping e parei para comprar seu remédio que era natural e, por isso, não pediram receita. Cheguei na loja de Andréa e perguntei por ela a uma funcionária. – Dona Andréa pediu para que a encontrasse em sua sala quando chegasse. Acho que ela pensava que demoraria, pois nos informou que só chegaria mais tarde. – Eu tentei me apressar, já que ela estava sentindo enjoo. A funcionária me deu um olhar questionador, como se não soubesse do que eu estava falando, mas nada disse. – Ela está com uma amiga, mas pode ficar à vontade para ir até lá. O senhor sabe onde é a sala, não é? – Sei, sim. Obrigado. Caminhei por um corredor que daria acesso ao escritório dela. Quando estava próximo ouvi a voz de sua amiga dizendo algo que levou as duas à gargalhada. A próxima a falar foi Andréa e antes que as interrompesse, parei para ouvir um pouco do que conversavam. – Daqui um mês eu serei a mais nova Sra. Javier e finalmente vou conseguir o que queria. – Menina, me conte como conseguiu levar aquele homem ao altar. Já vi muita mulher se desmanchando por ele, e nenhuma nunca conseguiu. – Que fique entre nós, mas o meu segredo é o truque mais antigo já inventado pelas mulheres


para prender um homem, contudo até hoje funciona. – Não me diga que está grávida. – Ah, querida, o meu truque foi aperfeiçoado. Você acha que estragaria o meu corpinho carregando um bebê chorão e que acabaria com minhas noites de sono? De jeito nenhum! – E como irá convencê-lo, então? – Depois de casada, eu vou dizer que senti uma dor no ventre e vou fingir que perdi o bebê. Já tenho até um médico que irá me ajudar no dia. – Nossa, Andréa, como você é ardilosa! Não precisou comprovar a gravidez? – Eu paguei a uma mulher grávida para fazer o exame em meu lugar. Não há falhas, querida. Meu plano é perfeito. Senti uma mistura de ódio e ao mesmo tempo uma alegria dominar todo o meu corpo. Ódio porque essa vagabunda quase conseguiu me enlaçar em seu plano, sabendo que eu nunca teria um filho bastardo. Alegria por ter descoberto antes que fizesse a maior merda da minha vida e agora estaria livre para retomar minha relação com Tatiana. Entrei na sala, empurrando a porta com toda a força. Ela levantou imediatamente, arregalando os olhos. – Não há falhas, hein? Seu plano seria perfeito se você não tivesse esquecido que havia me chamado até aqui ou se não tivesse dado com a língua nos dentes para a sua amiguinha. De fato, o idiota aqui teria ido até o fim nos seus planos e acreditado em qualquer história que me contasse em nome dos meus princípios, mas a casa caiu, docinho. Não há mais casamento e muito menos um ‘nós’. Como ousou brincar com a minha família desse jeito? Ela se aproximou, agarrando o meu braço desesperada. – Entendeu tudo errado, bebê. Eu estava brincando com a minha amiga. O seu filho está em meu ventre, eu não menti para você. Empurrei as suas mãos para largar o meu braço. – Se está realmente esperando o meu filho, vamos agora a um consultório médico fazer um exame de ultrassom. Ela continuou fazendo cena. – Ai, acho que estou passando mal. Me leve para casa, Marco, eu preciso descansar. – Chega, sua louca! Vou tomar a minha vida de volta. Não se preocupe que tratarei de avisar a todos que não haverá mais casamento. – Você não pode fazer isso comigo. Estou esperando o seu bebê.


Eu lhe dei um sorriso fraco. – Sabe para onde vou agora? Voltar para o Brasil e reencontrar o amor da minha vida. Vou atrás da única mulher capaz de me fazer feliz. Você nunca seria ela. Um sorriso malicioso se formou em seus lábios. – Tem certeza que ela é tão diferente de mim? Talvez eu saiba de uma informação que você não sabe sobre a mulher que considera tão merecedora do seu amor. – Você perdeu, Andréa, não vai conseguir me envenenar contra ela. Eu já estava saindo, quando suas palavras me fizeram parar. – Ela tem um filho seu, queridinho. Ela tem um bebê de oito meses que escondeu de você esse tempo todo. É um menino e se achar que é mentira minha, pode conferir com seus próprios olhos. Então, ainda a considera uma santa incapaz de armar contra você?


Capítulo 12

Ela

Tenho saído com Augusto nos últimos dias e ele tem sido uma excelente companhia na meta que estabeleci de esquecer Marco de vez e tentar ser feliz mesmo sem ele. Seu casamento não deve demorar a acontecer e, em breve, terá a família que não pude oferecer a Lorenzo. Outra criança terá o privilégio que meu filho não terá de crescer e conviver com o pai presente. Tenho pensado em dar uma chance à minha relação com Augusto para que se torne mais que amizade. Embora não sinta meu coração palpitar forte, acredito que o carinho que tenho por ele seja um bom ponto de partida para se tornar algo maior. Hoje marcamos de fazer um passeio no Parque da Cidade. Muitas famílias visitam o lugar, onde as crianças podem brincar à vontade e, ocasionalmente, há eventos que atraem toda espécie de público. Pela primeira vez, Lorenzo vai sair conosco a pedido de Augusto e percebi que seu interesse em se aproximar do meu filho está cada vez maior. Dizem que bebês não entendem muito do que acontece ao seu redor, mas o meu não demonstrou muita simpatia quando meu amigo tentou pegá-lo no colo uma noite dessas. Espero que hoje ele esteja mais amigável, pois é provável que as nossas saídas juntos se tornem mais frequentes. Estava arrumando Lorenzo, quando Lana entrou no quarto, com seu jeito intempestivo, já me enchendo de perguntas. – Você não vai se arrumar? Daqui a pouco o contador chega. – Ele tem nome, Lala, e ainda está cedo, não preciso me apressar. – Você sabe que eu não sou a única que não vai muito com a cara dele. Pelo visto, meu sobrinho também não. Você lembra daquele dia que nada o convencia a ficar no colo dele? – Lembro, Lana. Estranho, não? Lorenzo é um bebê que se dá bem com todo o mundo, adora andar de mão em mão, mas agiu diferente com Augusto. – Pois é. Apenas mamãe fica na torcida para que você finalmente ceda e engate um namoro


com esse cara. – Coisas de mãe. Elas sempre pensam que podem escolher com quem nos relacionamos. Muitas vezes se enganam, mas no fundo querem o melhor para nós. Por falar nisso, por onde anda seu namorado? Não vão sair hoje? Otávio é o mais novo affair de minha irmã. Ela não tem muita sorte com homens, porém este parece que está levando a relação a sério. Sempre achei que as mulheres da minha família tinham um dedo podre para escolher homens, inclusive eu. Talvez agora as escolhas estejam melhores. – Disse que vem me buscar à noite. Ontem foi a mesma coisa e ele não apareceu. Já estou com mau pressentimento. Retiro o que eu disse. Pelo visto esse será mais um a enrolar a minha irmã. – Calma, pode ser que ele tenha motivos justificáveis para não ter aparecido ontem. Não o julgue pelas suas experiências anteriores. Ele demonstra que gosta muito de você. Ela ficou olhando para o nada por um tempo, como se estivesse refletindo com as minhas palavras. – Verdade, só que gato escaldado tem medo de água fria e seu comportamento não está muito diferente dos outros com quem me relacionei. Eu já vi esse filme... Sabia que a conversa não ia a lugar algum, ainda mais sabendo que ela poderia ter razão. Otávio poderia ser mais um a lhe enganar. Eu não continuaria o defendendo. – Tome. – lhe entreguei Lorenzo já arrumado. – Cuide desse homenzinho, pois preciso me arrumar. Ela o pegou de meus braços e dei as costas para ir tomar um banho. Antes de fechar a porta, a ouvir dizer a meu filho: – Vou te ensinar como tratar as mulheres, meu amor. Você será o homem dos sonhos de toda garota. Titia vai te explicar como. Aguarde! Eu só podia rir das coisas de Lana. Só ela para falar com uma criança de oito meses como se fosse um menino crescido. Às vezes, o banho é um excelente momento para pensar sobre os últimos acontecimentos de nossas vidas. Aquele era para ser um dia alegre onde estaria aproveitando com meu filho e um grande amigo que em breve poderia se tornar um pouco mais. Por que eu não estava feliz? Será que nunca mais provaria desse sentimento ao lado de


alguém? Eu não conseguia me enxergar sentindo algo parecido do que sinto por Marco. Dizem que o tempo cura todas as dores, mas como vou ficar curada de tantas lembranças lindas dos momentos que compartilhamos? Para de ficar se torturando, Tatiana. – Disse para mim mesma. Saí da minha suíte e minha irmã já não estava mais lá. Decidi por um vestido longo floral e uma sandália rasteira bege. Meu estilo estava bastante leve como o clima quente de Salvador requer e para ficar ainda mais confortável, prendi meus longos cabelos em um rabo de cavalo. Fiz uma maquiagem leve e estava pronta. Hoje eu escreveria uma nova página no livro da minha vida onde o mocinho deixaria de ser Marco. Neste momento, eu estava mais tentada a deixá-lo como vilão. Quem sabe assim meu coração se convenceria? Fui para a sala e encontrei Lorenzo brincando de jogar a bola para que Lana pegasse. Eu acho que meu filho vê sua tia como um cachorrinho que corre atrás de uma bola e a traz de volta. Ela, pacientemente, buscava e lhe entregava para que repetisse o que havia feito antes. Parecia ser a brincadeira mais divertida de todas, pois ele caia na gargalhada cada vez que jogava o brinquedo. – Está brincando com titia Lala, queridinho? Deixa mamãe brincar também? Quando me viu, abriu os braços para que o carregasse. Eu devia ter ficado apenas olhando e deixar com que brincassem um pouco mais. – Ah, Tati, você acabou com nossa brincadeira. Não sabe que esse garoto não aguenta te ver? – Desculpe, irmãzinha, esqueci que sou o amor da vida dele, não é meu bebê? Falei, fazendo cócegas com o nariz em sua barriga, enquanto ele dava mais gargalhadas. Daria o mundo por esse pequeno homem. Se tornou todo o meu universo e nada nem ninguém seria mais importante do que ele. Nunca! A campainha tocou e me apressei a ajeitar a roupa do meu filho que já estava um pouco amassada com a brincadeira. Eu esperava que quando voltasse para casa, estivesse ainda mais amassada e suja, pois estava disposta a brincar muito com ele. A minha mãe estava na cozinha e fui até lá me despedir. – Mãe, estou indo, Augusto já chegou. Ela limpou suas mãos molhadas no pano de prato e veio dar um beijo em Lorenzo. – Divirta-se, querida. Pense em dar uma chance ao rapaz, você merece ser feliz.


– Tudo bem, mãe, acho que você tem razão. Fui em direção à porta e busquei qualquer pontada de alegria em meu íntimo, mas não encontrei. Os únicos motivos que estavam fazendo com que minhas pernas caminhassem era saber que Lorenzo iria se divertir e que eu estava determinada a sair do luto que tenho vivido nos últimos tempos. Ouvi novamente o barulho da campainha e apressei meus passos para não fazer Augusto esperar ainda mais. Olhei rapidamente para a janela e vi que o céu mostrava a plenitude do azul típico de um dia alegre e que o sol brilhava, convidando a aproveitar sua luminosidade. Por que em meu peito parecia que era uma noite fria e chuvosa? Por que estava sentindo esse aperto que me implorava a voltar para a segurança do meu quarto com meu filho e esquecer qualquer compromisso marcado para esse dia? Respirei fundo e virei a maçaneta da porta que não me daria apenas acesso à rua. Essa porta me daria acesso a novas escolhas que estava prestes a fazer. Deixei-a aberta e me abaixei para pegar a bolsa de Lorenzo que havia deixado no chão, ao lado dela. Meu filho chamou a minha atenção, dando pequenos tapas em meu rosto. Olhei para ele e lhe dei um sorriso que foi retribuído imediatamente. Fechei a porta atrás de mim. Parecia que eu estava adiando o momento de olhar para o rosto do homem que representava o ponto de partida na minha decisão de seguir em frente e esquecer o pai de meu filho. – Tatiana. Oh, meu Deus, eu devo estar ficando louca. Fechei os olhos, disposta a abrir em seguida e me dar conta de que não fui tomada pela loucura. Seria Augusto quem estaria em minha frente quando os abrisse, era nisso que deveria acreditar. – Não está ouvindo? Estou falando com você, Tatiana. Não era possível que os meus olhos veriam o rosto que aquela voz reproduzia em minha mente. Temerosamente, abri minhas pálpebras devagar e, aos poucos, a imagem que se formava diante de mim era a que eu mais receava enxergar naquele momento. – Ma-Marco? Cambaleei um pouco, tentando me manter firme para não derrubar Lorenzo que continuava em meu colo. Senti que braços fortes me seguravam, impedindo a minha queda, até que consegui


alcançar a parede. Parecia que estava vendo um fantasma e tenho certeza de que meus olhos estavam arregalados do susto de reencontrar a última pessoa que poderia estar em minha porta. Ele não deveria estar se preparando para casar? – Olá, Marco, o que faz aqui? Como encontrou a minha casa? Com voz arrogante, ele respondeu: – Eu sempre soube onde era a sua casa. Eu sempre sei tudo o que me interessa, e quanto ao assunto que me traz aqui, você já deve saber qual poderia ser. Segurei Lorenzo mais perto de mim. – Como eu poderia saber, não tenho habilidades para adivinha. Diz logo o que faz aqui, Marco, você não deveria estar se preparando para casar e construir a família dos sonhos ao lado de sua mulher e de seu filho? Se um olhar pudesse matar, certamente eu seria apenas cinzas agora. – Eu não vou continuar uma conversa tão importante na porta de seu apartamento. Tem algum lugar discreto aí dentro onde podemos conversar? Podemos ir ao apartamento de Alfonso, se preferir. Essa conversa estava indo numa direção que não estava gostando. Como ele poderia ter descoberto sobre seu filho? Quem teria interesse em lhe contar, sabendo que estava prestes a ter outro. – Nós não temos mais o que conversar, Marco. Você deixou isso bem claro da última vez. – Tem certeza, Tatiana? Pelo visto, você quer compartilhar a nossa vida com seus vizinhos, não é? Então, vamos começar... – Não! Tudo bem, vamos até o seu apartamento. Não quero deixar a minha família preocupada. Nesse momento, seus olhos saíram dos meus e foram em direção ao rosto de Lorenzo. Seus traços suavizaram e consegui achar uma ponta de ternura neles. Meu filho também o encarou como se houvesse um imã atraindo pai e filho a reconhecerem os laços de sangue que os uniam. Repentinamente, Lorenzo abriu um grande sorriso, que mostrava suas covinhas, e se debruçou, abrindo o braços para pedir colo ao pai. Eu não estava acreditando na reação daquele bebê. Senti um arrepio tomar a minha espinha e a vontade de chorar se formando como um bolo em minha garganta. Eu não era a única a ficar emocionada. Meus olhos estavam cheios de lágrimas, mas os de


Marco também estavam. O momento era mágico e ia além do que poderia ter imaginado um dia. – Venha, meu filho. – Marco falou, acabando com qualquer dúvida que poderia ter sobre o assunto que o havia trazido até ali. Lorenzo se jogou em seus braços e quando já se sentia seguro, encostou sua cabeça quase sem cabelos nos ombros dele, fechando seus pequenos olhos. Marco a alisou e depositou nela um beijo rápido, porém cheio de ternura. Eu não conseguiria segurar. As lágrimas tomaram vida própria e passaram a rolar livremente pelo meu rosto. Se por um lado estava feliz por finalmente não precisar guardar mais esse segredo a sete chaves, por outro, sentia o grande peso da culpa me dominar. Enquanto estava assistindo aquele primeiro encontro entre pai e filho, percebi que outra imagem se formava atrás de Marco. Augusto estava parado, com um buquê de rosas amarelas na mão, observando toda a cena. Fiquei olhando para ele, sem saber como reagir ou o que dizer para justificar aquele turbilhão de acontecimentos que ele havia acabado de presenciar. Marco percebeu que o meu olhar estava fixo em algum lugar e virou para descobrir o que roubava a minha atenção. Quando percebeu que era Augusto quem estava prestes a vir ao meu encontro, trouxe de volta ao rosto a mesma armadura raivosa que demonstrava quando chegou. – Ah, então estava esperando visitas. Planejava sair, Tatiana? – Sim, planejava, e Augusto não é mais visita. Ele tem sido um grande amigo e tem me ajudado muito a superar os problemas. – Imagino como. Olha, dê um jeito de se livrar desse cara, pois a nossa conversa é inadiável. Estarei te esperando no carro. Ele me deu as costas, carregando o meu bebê. Fui tomada pelo medo de perder o meu bem mais precioso, tive medo de que Marco estivesse tomado pela raiva a ponto de levar nosso filho para longe de mim. – Marco, espere. Parti em seu rastro, tentando alcançá-lo mesmo sabendo que não conseguiria. Seus passos eram mais longos e mais rápidos. Passei por meu amigo, que segurou meus braços, fazendo com que eu parasse. – Ele é o pai do seu filho, não é? – Atirou a pergunta à queima-roupa. – Augusto, infelizmente ele chegou no pior momento e eu preciso ter essa conversa. Por favor, não me faça mais perguntas, quando eu puder, vou te procurar e te dar as explicações que merece.


Ele ainda segurava o meu braço. – Eu estava sentindo que trilhávamos por um bom caminho, Tati. Não deixe com que ele te convença a investir em uma relação sem futuro, onde não haverá fidelidade e respeito. Ele já te provou isso mais de uma vez. Agora não era momento para ciúmes, porra. Eu precisava ir atrás de Marco. – Ele vai se casar, meu amigo, eu só preciso saber o que quer de mim agora. Tudo vai ficar bem em breve. Manterei contato. Tentei caminhar, mas ele ainda me retinha. – Tati, apenas uma última palavra: você sabe do que sinto por você e estou mais que disposto a formar uma família no futuro, eu, você e seu filho. Eu acho que Lorenzo precisa de um pai presente e estou pronto para ser esse cara. Pense bem antes de se deixar levar por palavras bonitas e vazias. Estarei aqui te esperando. Seus olhos estavam envolvidos em lágrimas e podia ver o medo de perder algo que nem lhe pertencia ainda. Senti compaixão e ternura por ele, especialmente quando me entregou o buquê de flores, receoso que eu não fosse aceitar. – Obrigada, Augusto, eu realmente preciso ir. Me despedi, dando-lhe um beijo no rosto. Corri para ir ao encontro de Marco, rezando aos céus para que ele não tenha levado meu filho embora. Cheguei à frente do meu prédio e uma Jaguar XKR branca estava parada, com o motor ligado. Só podia ser o carro dele. Baixei a cabeça para olhar pelo vidro e o flagrei brincando de sacudir Lorenzo, enquanto este se acabava na gargalhada. Nem lembrava que tinha mãe. Naquele momento, o amor do seu pai era o suficiente. Entrei no banco de trás e sentei ao seu lado. Ele me ignorou e continuou o que estava fazendo antes, apenas parando para ordenar ao motorista que partisse em direção ao apartamento de seu irmão. A hora havia chegado. Teria uma conversa tensa, mas definitiva, onde o meu futuro e o do meu filho estariam em jogo. Me restava apenas rezar para que tudo ocorresse da melhor forma possível e todos saíssem ganhando, especialmente Lorenzo. Como? Eu ainda não sabia.


Capítulo 13

Ele

Embora o apartamento de meu irmão não fosse tão distante de onde Tatiana morava, o movimento do carro fez com que o bebê em meus braços logo adormecesse. Apesar de querer passar mais tempo com meu filho, esse era o momento para conversar com sua mãe, então melhor que estivesse dormindo. Quando cheguei à casa dela, estava disposto a fazer ameaças e derramar toda a minha ira, mas fui surpreendido pelo olhar mais doce que já havia visto e pelo sorriso mais bonito que já tive o prazer de pôr os olhos. Lorenzo me desarmou. Eu não consegui me mover contra a sua mãe e todos os meus planos foram por água abaixo. A relação entre pai e filho estava estabelecida ali, na porta de seu apartamento como um passe de mágica e nesse momento podia afirmar que mataria pelo meu filho se preciso fosse. Como um ser tão pequeno poderia se tornar tão importante na sua vida em fração de segundos? Foi imediato. Eu fui tomado pela sensação do que era se tornar pai e ele reconheceu imediatamente aquele que teve a honra de contribuir para que estivesse no mundo. Agora, mais do que nunca, era fato. Eu era pai. Quando Andréa jogou em minha cara que não era a única a mentir para mim e que eu tinha um filho de oito meses, a minha primeira reação foi de não acreditar. Achei que seria mais uma de suas mentiras e que Tatiana jamais esconderia esse segredo de mim. Estava enganado. Depois de ficar com essa história martelando por dias em minha cabeça, resolvi contratar um detetive brasileiro para que desfizesse a dúvida que já começava a me corroer. Eu já sabia seu endereço, pois havia conseguido na empresa. Nunca tinha ido a sua casa anteriormente porque sempre respeitei o seu desejo de manter a distância. Esse também foi um dos motivos que me deixou ainda mais intrigado. Não demorou muito para que tivesse a resposta que tanto temia. A vadia da Andréa não havia


mentido desta vez. Tatiana realmente era mãe de um bebê de oito meses que não tinha a paternidade reconhecida. Bingo! Eu não precisava ser um especialista em cálculos para saber que aquela criança era meu filho. Raiva e dor me consumiram imediatamente quando recebi a notícia. Como ela pôde me afastar do convívio com meu filho durante oito meses? Eu precisava de respostas, e ainda que nada do que falasse poderia mudar tudo o que perdi, continuava buscando motivos que levassem uma mãe a esconder a paternidade de um cara tão responsável quanto eu. Coloquei meu filho na cama, o rodeando de travesseiros para que não caísse, como já vi Brisa fazendo com minha sobrinha Luiza. Voltei para a sala e encontrei Tatiana sentada no sofá, de cabeça baixa e as mãos cruzadas. Ela levantou o rosto quando percebeu minha presença e pude ver que seus olhos estavam mergulhados em lágrimas. Quase me deixei levar pelo sentimento de compaixão, mas aquele não era o momento. Além de respostas, eu precisava tomar decisões inadiáveis e teria que deixar a razão falar mais alto. Meu coração teria que ser trancado a sete chaves. – Eu vou direto ao ponto, Tatiana. O que passou por sua cabeça para achar que tinha o direito de me esconder que seria pai? Ainda mais: por que escondeu de mim que eu tinha um filho, mesmo tendo tanta oportunidade de me contar? Naquela hora, quem estava falando era o empresário sério que costumava ser e que não dava espaço para negociações em que eu saísse perdendo. Apenas a vitória me interessava. Diante dela, estava um homem frio que usaria qualquer arma para conseguir o que queria, principalmente quando havia família em jogo. Ela voltou a olhar para o chão, como se estivesse formulando uma resposta. – E então, Tatiana, estou esperando. Acho que é o mínimo que me deve depois de tantas mentiras. Agora consegui tirar uma reação dela. – Eu nunca menti para você, Marco. – Não deixei que prosseguisse. – Mas omitiu, o que dá no mesmo. Você sabe como fiquei sabendo que tinha um filho? A vagabunda da minha ex-noiva foi quem contou. Aliás, contou, não. Ela esfregou na minha cara que


não tinha sido a única a me enganar quando fingiu estar grávida. Fez questão de passar em minha cara que você era tão fingida quanto ela. Você tem como se defender? Tem alguma justificativa para a escolha absurda que fez? – Oh, meu Deus, ela fingiu que estava grávida apenas para empurrá-lo a um casamento forçado? – Sim, ela fez isso, mas não entendo por que você está tão assustada. Você se considera diferente dela, querida? Neste momento, vi surgir uma mulher cheia de coragem e ousadia. Ela se levantou, ficando cara a cara comigo, e com voz altiva, respondeu: – Eu sou, Marco. Eu sou muito diferente dela e vou te explicar por quê. Os motivos que me fizeram esconder a gravidez de você são justamente o contrário dos motivos dela. – Estou ansioso para conhecê-los. – Eu não queria te prender em um casamento sem amor, apenas porque eu havia engravidado. Sei que é um homem de princípios e faria o que considera certo imediatamente, como aconteceu quando soube da gravidez daquela lá. Eu não queria ser um peso que tivesse que carregar nas costas apenas por conta das ciladas do destino. Não planejamos uma gravidez e não achei justo que não tivesse direito a escolhas, assim como seu irmão. – Não inclua Alfonso nessa história. Ele escolheu Brisa desde o momento que a viu pela primeira vez. Você é testemunha disso, pois estava comigo quando se conheceram. Eles se amam muito e não se envolveram em um jogo sujo de fingimento como eu estou envolvido. Você acha que a questão de casar ou não é motivo suficiente para esconder uma gravidez? – Eu não pretendia citar Brisa e Alfonso, apenas usar como exemplo a situação que os uniu. Ainda tenho contato com ela e sei o quanto foram destinados um ao outro. Eu não pensei apenas em você, Marco, pensei em mim também. Não queria ficar presa a um homem que não me ama. Sempre quis me casar por amor. – É claro que pensou em você. Aliás, estou tentado a acreditar que só pensou em você. Não havia um pai e nem um filho nessa história. Apenas você. – Isso não é verdade. Está sendo injusto. Eu contei que havia te ligado e outra mulher atendeu, afirmando que era sua namorada. Eu pesei todas essas informações e somei ao fato de que a sociedade a qual você pertence me veria como uma oportunista que deu o golpe da barriga para te levar ao altar. Não queria esse estigma nem para mim nem para Lorenzo. – Eu sei o quanto as pessoas podem ser maldosas e julgadoras da vida alheia no meio em que vivo, e talvez você fosse apontada como uma aproveitadora, que estava me dando um golpe. Ainda


teve a puta da Andréa em nosso caminho quando se passou por minha namorada exatamente quando havia lhe contado que estava pensando em assumir um compromisso contigo. – Fico mais tranquila em saber que compreende. – Não fique. A nossa conversa está apenas no começo. Apesar de saber que teve seus motivos, você também teve oportunidade de me contar quando estive de volta ao Brasil e ainda mais quando terminei tudo com ela e decidimos recomeçar. Como pensou em um recomeço, mantendo um segredo tão grande escondido de mim? – Eu tentei te contar inúmeras vezes. Sempre que juntava coragem, você me impedia, afirmando que não queria ouvir qualquer coisa que estragasse o que estávamos vivendo. Daí a coragem ia embora e me deixava levar pelo momento. Me perdoe, querido. Nunca quis afastá-lo de seu filho. – Sei. – É serio, Marco, não sabe a inveja que senti daquela mulher quando te contou que estava grávida. Eu sabia que você não abriria mão de suas responsabilidades e ela teria a família que eu nunca poderia ter. – Porque jogou fora, não é? Ela teria a família que você se recusou a ter. O mais irônico é que talvez se Andréa não tivesse me contado, eu viveria sem saber que tenho um filho com você. Será que devo ser grato a ela? – Talvez. Ela foi mais corajosa do que eu, embora tenha sido levada por motivos inescrupulosos. Eu tinha planos de te contar, acredite em mim, só não saberia quando seria o momento certo. Passei a mão pelo meu rosto, tentando juntar toda a paciência que nem eu mesmo sabia que possuía. Não me conformava em saber que nada do ela dissesse justificaria o fato de ter me tomado oito meses de convivência com Lorenzo. – Olha, Tatiana, eu precisava de respostas e você as deu, apesar de não terem sido convincentes. Na verdade, nada do que dissesse me convenceria de que tinha feito a melhor escolha para todos os envolvidos, especialmente meu filho. – Sei que não fiz as escolhas certas. Não estou me eximindo da culpa. – O fato é que precisamos tomar decisões a partir de agora e eu acho que sou o único nesta sala quem tem o direito à palavra final, por ter sido tão prejudicado. Ela me olhou assustada. – O que está planejando, Marco? Eu sei que tem dinheiro, mas não pode afastar Lorenzo de


mim. – Era o que merecia, mas não é o que pretendo fazer. O meu bebê tem direito a ter um pai e uma mãe, e tem direito a desfrutar de toda riqueza material e carinho que eu a minha família temos a oferecer. – O que você quer dizer com isso? Seja mais direto. – Serei. Trocando em miúdos, você estava certa sobre os meus princípios. Eu jamais permitiria que um filho fosse criado sem a proteção do meu nome e nunca permitiria que fosse educado por outro homem. – Eu nunca deixaria que ele chamasse outro homem de pai. Em breve, você saberia e teria a oportunidade de conviver com ele. – E terei. A partir de agora, meu filho estará sob a minha proteção e terá meu nome em seu registro. – Concordo. Pode marcar que te acompanharei até o cartório para adicionar seu nome. Dei uma gargalhada e ela me olhou, parecendo confusa. – Acho que você não está entendendo o que quero dizer. O meu filho terá o meu nome não apenas porque eu sou seu pai. Ele terá o meu nome porque a sua mãe também o terá, ou seja, nós vamos nos casar no tempo mais curto que for necessário para preparar uma cerimônia, legitimando a nossa relação e o nosso filho. Bem-vinda à família Javier, querida. Seus olhos estavam quase saindo do globo ocular. – Marco, ouça bem, você não precisa se casar apenas por questão de honra. Pode assumir o seu filho e podemos buscar um meio de fazer a convivência dar certo. Balancei minha cabeça de um lado para o outro, negando todas as suas palavras. – Acho que preciso ser mais claro: você tirou de mim oito meses da vida do meu filho. Eu não o vi mexer em sua barriga, não senti a emoção de vê-lo nascer, não o vi mamando, não acompanhei seus primeiros sorrisos, não vibrei quando seu primeiro dentinho nascia e nem me entristeci quando adoeceu por conta das vacinas. Vivenciei tudo isso com a minha sobrinha, mas não tive a oportunidade com o meu próprio filho. Você ainda quer negociar comigo? Não, Tatiana. Lorenzo é um Javier e tem direito a conhecer suas origens. Ele vai para a Espanha com ou sem você. Decida-se. Ela permaneceu parada, fixando seus olhos em mim por um longo tempo, parecendo estar buscando uma saída para a situação. Depois de minutos, suas vistas baixaram, demonstrando que estava rendida. Eu havia ganhado aquela batalha.


Deixei que ela se manifestasse e ela o fez, me surpreendendo mais uma vez. – Eu te peço um tempo, então. Preciso conversar com a minha família e tranquilizar a minha mãe quanto ao nosso casamento iminente. Você deve imaginar que ela não é muito sua fã e não quero que fique preocupada. Sei que não estou em condições de te pedir qualquer coisa, mas gostaria que me ouvisse. Não sei se conversou com a sua família, mas essa pode ser uma oportunidade para fazêlo. Fiquei pesando até que ponto essa ideia poderia ser um golpe. Eu não lhe daria muito espaço para voltar atrás. Na verdade, não havia volta. Eu queria meu filho ao meu lado, queria essa família que estava se formando e queria mais. Eu a queria. Sempre a quis. – Um mês. É todo o tempo que posso te dar para resolver o que for necessário. Enquanto isso, ficarei no Brasil e quero ter acesso ao meu filho todos os dias. Não tente armar nada contra mim e nem me impedir de estar com Lorenzo na hora que eu quiser. É direito meu. – Será que algum dia você compreenderá os meus motivos? Está me tratando como se fosse uma criminosa. Eu nunca pretendi afastá-lo de você e não seria agora quando não preciso mais carregar o peso de guardar esse segredo. – Está certo. Só mais uma coisa, Tati. – O que mais você quer exigir, Marco? – Você. Eu quero você em minha cama. Lorenzo pode passar o dia com sua família, mas eu quero ambos aqui durante a noite. Eu vou providenciar os mobiliários que um quarto de bebê precisa e vocês terão tudo ao alcance sem necessitar ficar andando com malas. Ela nada respondeu, apenas me observava. Dessa vez, não deixei que pensasse muito, me aproximei, tomando-a pelos braços, roubando-lhe um beijo que expressava todo o sentimento e todo o desejo que transbordava em mim, apenas por tocá-la. Nossas línguas faziam sua dança sensual onde um complementava o outro a ponto de não encontramos início ou fim. Minhas mãos avançaram pelo caminho que já estavam familiarizadas, explorando as curvas que mais amavam sentir e meu pau ganhava vida, tentando matar a sede na única fonte que poderia saciá-la. Tatiana se derretia em meus braços, aprofundando o beijo. Acho que sentia tanto a minha falta quanto eu a dela, pois estava arqueando o seu corpo, pedindo por mais. Eu precisava tê-la ou iria explodir a qualquer momento. O desejo de tomá-la era mais forte do que a raiva e o rancor de ter sido enganado. Eu queria foder pela primeira vez a mãe do meu filho, aquela que havia colocado a pessoa


mais importante da minha vida no mundo. A quem, apesar dos pesares, eu deveria ser grato por perpetuar o nome da minha família. As minhas mãos estavam indo em busca das alças de seu vestido para deixá-la nua, pronta para ser minha, quando fui interrompido por um choro estrondoso que ecoou pelo ambiente. Eu tinha esquecido dessa parte. Quando se tem um bebê em casa, tudo fica em segundo plano, inclusive o sexo. Porra, esse menino já demonstra que seria determinado, pois o tom da sua voz mostrava que precisava de atenção imediata. Soltei os lábios de Tatiana, me sentindo abandonado, e fui em direção ao quarto. Ela me acompanhou, pegando uma pequena mala infantil, retirando dela a mamadeira que estava dentro de uma térmica. – Tome, ele precisa ser alimentado. Ela estendeu o alimento e eu a olhei como se fosse um monstro de sete cabeças, me orientando a fazer algo que nunca havia feito antes, nem mesmo com Luiza. O bebê não parava de chorar em meu colo. – Eu não sei fazer isso. É melhor que você o alimente. Tentei transferir essa responsabilidade para ela, mas com um sorriso sarcástico nos lábios, me entregou o mingau e deu as costas. – Você é o pai dele e estava dissertando sobre os seus direitos paternos até pouco tempo, portanto exerça também seus deveres. Não é difícil, você vai conseguir. O alimente e converse com ele. Eu estarei na sala o aguardando para as próximas lições. Ficamos eu e um Lorenzo choroso, querendo comer. Seja o que Deus quiser. – Disse para mim mesmo. Coloquei a mamadeira em sua boca e ele logo passou a sugá-la com bastante vigor. É, até que não parecia tão difícil. – Isso, filho, coma tudo, pois papai quer vê-lo muito forte. Vovó vai adorar conhecer esse bebê lindo. Ele parou de mamar por um tempo e deu um pequeno sorriso, voltando a tomar o bico da mamadeira em seguida. Como não me apaixonar? Sim, eu dedicaria a minha vida para me tornar um grande pai assim como o meu é. Estava disposto a aprender o que fosse necessário para que sorrisos lindos como este estivessem estampados em seu pequeno rosto a todo o momento.


Faria disso a minha maior missĂŁo.


Capítulo 14

Ela

Conversar com Marco foi uma das coisas mais difíceis que já fiz na vida. Ele estava muito chateado e eu reconhecia que tinha suas razões. Tive receio de que agisse movido pela raiva e tirasse Lorenzo de mim, mas fui apresentada a um lado seu que ainda não conhecia, frio e racional demais. Eu tinha consciência que não estava em condições de barganhar, porém era a minha vida que estava em jogo e eu tinha direito a me expressar, opinar e me defender. Ou não? Eu não esperava um pedido de casamento romântico ou uma declaração de amor. Quando o vi na minha porta, me preparei para uma explosão por excesso de raiva. Ela não veio. Pelo menos não com a intensidade que esperava. Lorenzo derrubou suas armas com apenas um sorriso. Qualquer pessoa que presenciasse aquela cena, veria a conexão imediata entre eles. Acho que devo essa ao meu bebê. Deixei de ser a mulher amada e me tornei apenas a mãe do filho de Marco, um homem que precisava se manter no controle e que não mais expressava sentimentos. Eu desconhecia esse novo homem. Aquele não era meu Marco. Aquele não era o homem que amo. Sinto-me culpada por fazer essa outra faceta surgir e espero ainda ter tempo de consertar todos os erros cometidos, ou, ao menos, amenizá-los. Eu ainda queria um casamento por amor e eu continuava querendo, mais do que nunca, que esse sentimento fosse compartilhado com o pai de meu filho. Nenhum outro teria o poder de aflorar tal desejo em mim, apenas ele. Cheguei em casa no fim da tarde do dia mais difícil pelo qual já passei. Eu tinha que conversar com a minha mãe e lhe explicar a situação, pois a partir do próximo dia, estaria dormindo com Marco. Ele usou a desculpa de estar mais perto do filho e que ainda me desejava, porém não posso acreditar que os sentimentos que nutria por mim foram embora.


Sei que por trás de toda a armadura tinha um homem apaixonado e amoroso, eu só precisava descobrir como restaurar sua confiança. Por isso não questionei as suas exigências. Abri a porta do apartamento e olhei em volta para me certificar de que havia alguém em casa. – Mãe, está aí? Ouvi um barulho de talheres batendo nos pratos e fui em direção a ele. A minha mãe estava terminando de preparar uma sobremesa que amo, colocando-a em pequenas vasilhas de vidro. – Filha, já chegou? Olha só o que fiz para você. Ela estava muito animada, estendendo uma vasilha cheia de arroz doce em minha direção. Ajeitei Lorenzo em meu colo e, com a outra mão, peguei a sobremesa, depositando-a sobre a mesa. – Parece muito bom. Vou esperar esfriar um pouco mais e depois acrescentar canela. Ela balançou a cabeça, assentindo e pegou uma vasilha para si também, puxando uma cadeira para sentar à mesa de frente a mim. – Então, como foi o passeio com Augusto? Estou ansiosa para ouvir as boas notícias. Ah, se ela tivesse ideia de que não acharia as notícias nada boas. – É.... o meu encontro com Augusto acabou não acontecendo, mãe. – Como assim, Tati? Eu vi a hora que a campainha tocou e você saiu para encontrá-lo. Até se despediu de mim. – Bem, eu pensava que era ele quem estava na porta, mas me enganei. – Para de rodeios, Tatiana. Se não estava com Augusto, onde e com quem estava até uma hora dessas? Resolvi fazer o que pediu, fui direto ao assunto. – Com Marco, mãe. Foi ele quem tocou a sirene e era com ele que eu estava durante todo o dia. Minha mãe se levantou da mesa com o rosto vermelho de raiva. – Quer dizer que estava com o homem que te usou e te abandonou grávida? Deixou de sair com Augusto para passar o dia com um cara que nunca quis um compromisso com você? Não tem vergonha, Tatiana? Oh, meu Deus, definitivamente aquele não era o meu dia. – Será que a senhora pode me ouvir, dona Marlene? Ela percebeu que eu havia endurecido e estava determinada a ser escutada. Sentou novamente à mesa, mas não tocou no alimento, parecendo pensativa.


– Filha, eu não quero ser uma mãe intrometida, que vive te controlando. Sei que é adulta, ajuizada e saberá tomar as melhores decisões. Além de tudo, estou em seu apartamento, tirando a sua privacidade. Lorenzo se esticava em meu colo, tentando alcançar a vasilha com arroz doce. Afastei-a do seu alcance e voltei a minha atenção para a conversa. – O que é isso, mãezinha, eu ficaria muito só com todo esse espaço, e não conseguiria cuidar de um bebê sem a sua ajuda e a de Lana. – Desculpe a minha reação, querida. Estou aqui para você, conte-me o que o rapaz queria. Respirei fundo, pedindo aos céus que ela permanecesse com essa calma depois de lhe contar tudo. Sei que sou adulta e autossuficiente, mas respeito muito a opinião de minha mãe. – Ele ficou sabendo sobre Lorenzo não sei de que forma e, como era de se esperar, ficou irado por perder os primeiros meses de vida dele. Além disso, quer assumir a paternidade o mais rápido possível. – Não pediu um exame de DNA? – Não. Acho que não viu necessidade devido a semelhança entre os dois. Precisava ver como se apaixonaram instantaneamente. Me sinto tão culpada de ter-lhe escondido a gravidez. – Você teve seus motivos. E agora, como ficará a guarda de meu neto? Ficará uma semana com você e outra com ele? Eu havia omitido o pequeno detalhe do casamento, mas já era hora dela saber. Não queria mais manter qualquer segredo comigo e esse não era o tipo de assunto que dava para esconder por muito tempo. – Não. Lorenzo ficará todo o tempo com os dois. Marco exigiu casamento e ameaçou levar o bebê caso eu não concordasse. Minha mãe bateu na mesa, assustando meu filho, que começou a chorar. Eu levantei e o balancei um pouco no colo, fazendo com que se acalmasse. Com voz alta, ela reagiu. – Quem ele pensa que é para fazer ameaças desse tipo? Nenhum juiz jamais tiraria um filho de sua mãe, a não ser que houvesse motivos verdadeiros para fazê-lo. – Eu não quis contar com o benefício da dúvida. Marco tem dinheiro e pode alegar que agi de má fé, lhe privando do convívio com Lorenzo. Sua justificativa poderia convencer um juiz. Não sei até que ponto estava dizendo a verdade ou blefando em sua ameaça, porém achei melhor não arriscar. – Então, você vai dizer amém a tudo o que ele impuser, filha? Não vai discordar ou retrucar a


ameaça? Tem um homem tão bom, visivelmente apaixonado, que poderia fazê-la feliz, porém prefere ceder às exigências de um casamento por conveniência, apenas para dar um nome a Lorenzo? Reaja, Tati, eu eduquei você e sua irmã para serem mulheres de fibra. – Chega, dona Marlene. É exatamente o que estou fazendo, eu estou reagindo. Não estou entrando nessa por submissão. Estou buscando a luz que há muito não vejo no fim do túnel. Não há mais empecilhos, mãe, e eu vou agarrar a oportunidade de ser feliz com o homem que amo independente da opinião de qualquer um, inclusive a sua. – Faz soar que estou contra você. Não estou, Tati, só quero o seu bem. Como posso ficar quieta vendo você se jogar em um casamento já fadado a fracassar? – Eu sei que só quer o melhor para mim, mãe, mas já é o momento de cometer os meus próprios erros. Já é hora de acertar ou de nunca se arrepender de pelo menos ter tentado. É a minha vida, são as minhas experiências e se as minhas escolhas estiverem erradas, se me decepcionar mais uma vez, eu vou cair, contudo vou buscar forças para me reerguer uma vez mais. Com lágrimas nos olhos, ela veio ao meu encontro, abrindo os braços para um abraço que transmitia seu respeito à minha opinião, mas deixava claro, em seu gesto, que não cedia em seu ponto de vista. – Oh, querida, eu não vou fingir que concordo com as suas escolhas, mas independente do que eu diga, a palavra final deve ser sempre sua. É uma mulher tão forte! Retribuí o abraço, imprensando meu filho entre nós duas. Senti uma energia emanar, me remetendo a momentos da infância, quando amor e carinho eram pilares de sustentação para a nossa família. Sempre foi. – Aprendi com você, mãezinha. Se eu conseguir ser metade da grande mãe que a senhora foi para mim, meu filho será a criança mais feliz desse mundo. Permanecemos abraçadas e em silêncio por alguns minutos. Não havia mais o que dizer. A linguagem verbal foi substituída pela linguagem do corpo, pela linguagem da alma. O silêncio foi interrompido pela chegada de Lana, que não conseguia chegar a qualquer lugar sem ser percebida pelo seu jeito descontraído e extravagante. – Cadê o bebê da titia? – Ela já chegou gritando. Veio até a cozinha e me viu abraçada com a nossa mãe. Demonstrou que estava confusa com aquela cena, porém sua atenção logo foi direcionada ao bebê que estava em meu colo. Ela interrompeu a demonstração de afeto, retirando Lorenzo dos meus braços, levando aos


seus. Eu adorava saber que meu filho era tão amado pela tia e pela avó. Agora, ele conheceria os familiares por parte de pai e tenho certeza de que os conquistaria também, pois é uma criança muito carismática. Marco já está totalmente rendido. Voltei a sentar à mesa, tomando a minha sobremesa que já deveria estar gelada àquela altura. Minha mãe acompanhou o meu gesto, enxugando uma lágrima que teimava em cair de um de seus olhos. Ainda brincando com meu filho, Lana arguiu: – Que diabos estava acontecendo aqui antes de eu chegar? – Olha essa boca, mocinha. – minha mãe a reprimiu. – Sua irmã estava me contando que vai se casar e eu estava dando o meu apoio, embora não concorde com o caminho que está trilhando. – Mãe... – Eu precisava freá-la. – Casar? Porra! – dona Marlene balançou a cabeça, desistindo de repreender sua filha. – Bem, se a senhora não está concordando, é sinal de que o casamento não será com o contador chato. O noivo poderia ser quem eu estou imaginando? Dessa vez, a pergunta foi voltada para mim. Ela permaneceu com seus grandes olhos castanhos fixos, esperando uma resposta que viria em seguida. Ela também é minha família e tinha o direito de saber. – Sim, Lana, eu irei me casar com Marco. Quando a campainha tocou ontem, não era Augusto quem estava na minha porta, era ele. – Caralh... – ela tapou a boca para reprimir o xingamento – Desculpe, mas será que eu dormi e acordei alguns dias depois? O que foi que eu perdi em menos de 24 horas? Abre a boca, Tatiana, eu quero saber tudo. E lá fui eu contar a mesma história novamente, sabendo que iria repeti-la para Brisa, Lúcia e Augusto, mas para este, sem tantos detalhes. Depois de narrar tudo o que aconteceu naquele dia, eu tinha uma irmã mais que animada para ajudar nos preparativos do evento e tinha uma mãe de cara fechava, sempre discordando do entusiasmo de Lana. – Vocês já têm previsão para a data do casamento, Tati? – Minha irmã perguntou. – Ainda não. Pedi a ele ao menos um mês para comunicar à minha família, lhe dando a oportunidade de fazer o mesmo. Além disso, preciso resolver alguns detalhes, como informar ao Sr.


Riberiro que, possivelmente, deixarei a empresa em breve e já tenho que treinar uma nova secretária. – Ele aceitou esse tempo longe de Lorenzo com tranquilidade? – Não. Ele permanecerá no Brasil e quer que a gente durma em seu apartamento todos os dias, já a partir de amanhã. Nesse momento, a minha mãe se levantou e foi em direção a pia. Continuou o que fazia antes de eu chegar, sem olhar novamente para trás. Sabia que estava magoada por ter aceitado tão rápido tudo que a mim era imposto, só que aquela era a minha vida e não deixaria qualquer um decidi-la por mim. Nem mesmo ela. – Porra, isso é que é homem. Sabe o que quer. Meu sobrinho será do mesmo jeito, não é, queridinho? Já conseguiu até seduzir o pai e... Lana prosseguiu discorrendo sobre as qualidades de Marco, enquanto a minha mente ganhava rumo próprio, me conduzindo ao momento que quase tinha me tornado sua novamente. “ Você. Eu quero você em minha cama.” Eram as palavras que não paravam de martelar em minha cabeça. “Sim, Marco, na sua cama e em seu coração. Não há outros lugares no mundo onde eu queira mais estar”.

****************

Cheguei à empresa um pouco mais cedo e percebi que a maioria dos funcionários ainda não havia chegado. Me abaixei para guardar meus pertences na gaveta da minha mesa e quando levantei as vistas, Augusto estava parado diante de mim, com olhos vidrados que me deixaram assustada. – Oi, fico feliz que chegou mais cedo. Temos um pouco de tempo antes do início do expediente e gostaria de conversar com você. – Lhe disse. Tentei demonstrar calma e falar em um tom amistoso, mas algo nele estava fazendo suscitar em mim o sentimento de medo. Embora aquele não fosse o lugar ideal para que essa conversa fosse iniciada, ainda assim o fez. – Pelo visto, ele conseguiu te enrolar mais uma vez, não é, Tatiana? Tanto investimento de tempo e de sentimentos para nada. O cara apenas chega e num estalar de dedos a rouba de mim, exatamente quando percebia que estava começando a nos dar uma chance. Eu não esperava essa reação dele. Sempre foi tão discreto e nesse momento me mostrava um


outro lado que não estava gostando de conhecer. Eu teria que tirá-lo dali antes que alguém chegasse. – Vamos até a sala de reunião, Augusto? A gente não precisa expor nossas vidas para os outros funcionários. Peguei minha bolsa e comecei a caminhar em direção a uma das salas. Ele me acompanhou em silêncio, entrando e fechando a porta atrás dele. – Augusto, eu... – Não, Tatiana. Eu não posso ficar de braços cruzados vendo você voltar para um cara que não acompanhou sua gravidez como eu, que não estava presente nos primeiros meses de vida de seu filho e que não voltou a te procurar por mais de um ano. Eu vi tudo isso acontecer. Devo me calar e assistir de camarote ele te arrastar para uma relação forçada, só porque descobriu que é o pai de seu filho? – Olha, eu estimo muito a sua amizade, porém isso não lhe dá o direito de opinar o que eu devo fazer ou não da minha vida. Há toda uma história anterior que você não conhece e não tenho interesse algum em contar. Eu posso quebrar a cara? Sim, mas pelo menos terei a consciência limpa de que ao menos tentei. É o que eu quero, Augusto. Não tente me impedir. Ele se aproximou mais de mim, quase me encurralando na borda da mesa. – Tati, querida, não diga isso. Ele não sente nem metade do amor que sinto por você. Eu tenho o mundo a te oferecer, não precisa ceder a qualquer exigência que ele tenha feito. Vamos enfrentar os problemas que vierem juntos. Eu te amo tanto. Deus, como lidar com uma situação dessas? Será que eu devo carregar mais essa cruz de ter alimentado sentimentos que não pretendia corresponder? – Você é um cara legal, Augusto, tenho certeza de que encontrará alguém que mereça o seu amor. Esse alguém não sou eu, uma mulher com a vida toda complicada. Sou muito grata por ter sido um grande amigo quando mais precisei, porém preciso seguir com minha vida. – Você ainda vai se dar conta de que está fazendo a escolha errada, querida, e quando isso acontecer, lembre-se de que estou aqui de braços abertos te esperando. Sempre será você, Tati. Suas palavras me deixaram ainda mais amedrontada e pensativa, pois sempre tive receio de pessoas que faziam esse tipo de declaração extrema, especialmente quando não eram correspondidas. Aproximou o seu rosto do meu, em busca de um beijo que quase conseguiu se eu não tivesse saído do transe que estava naquele momento. Eu o empurrei para longe, fazendo com que cambaleasse e saí da sala o mais rápido que minhas pernas permitiram. Na saída, ainda consegui ouvir um eco de sua voz:


– Sempre, Tatiana. Sempre.


Capítulo 15

Ele

Fui buscar Alfonso no aeroporto. Ele apenas sabia que eu estava no Brasil, mas não lhe contei o que havia me trazido aqui. Esse tipo de conversa tinha que ser cara a cara. Ele devia estar desconfiado de que tinha algo a ver com Tatiana, não era bobo, mas não me perguntou qualquer coisa. Quando avistei a minha sobrinha no colo de Brisa, corri para tomá-la de seus braços. – Como vai minha princesinha? Gostou de andar de avião, meu amor? – “ Vião” Beeem alto. – Hum... você viu as nuvens de pertinho? – “ Nuve, titio. Eu quer nuve”. – Nem me fale em nuvens. Essa menina queria abrir a janela do avião para pegá-las, acredita? – Brisa disse, revirando os olhos. – Titio vai te dar nuvens de algodão-doce, está certo? Ela sacudiu a cabeça, assentindo, se mostrando mais animada. Deixamos Brisa no apartamento, que já estava com mobília nova em um quarto para dois bebês. Sabia que quando o visse, ela ligaria os pontos e eu teria uma enxurrada de perguntas quando retornasse. Talvez nem fosse necessário, pois Tatiana estaria comigo quando eu voltasse para casa. Eu e Alfonso fomos para a empresa, pois ainda tentávamos descobrir quem estava por trás dos desvios de dinheiro. Eu precisava me empenhar ainda mais para resolver esse assunto, pois tinha que focar em meu filho e nos preparativos para meu casamento com Tatiana. Chegamos à Construtora Carlos Ribeiro e, ao passar em direção à sala, avistei minha noiva concentrada no trabalho. Quando me viu, abriu um pequeno sorriso, tentando disfarçar ao perceber a presença do meu irmão. – Como vai, Sr. Javier? – Ela perguntou, se dirigindo a ele. – Muito bem, Tatiana. Como estão as coisas por aqui? – Tenho certeza de que estará melhor em breve, quando a saúde da empresa não estiver mais


em risco. – Concordo, e é por isso que estou aqui. – Brisa e sua filha vieram também? – Sim, elas estão no apartamento. Marque algo com ela, ficará contente em te ver. – Claro, farei isso, obrigada. Percebi que a menção do apartamento fez com que se sentisse envergonhada. Isso me fez pensar na possibilidade de comprar um imóvel onde tivéssemos privacidade quando viermos a Salvador depois de casados. – Tatiana, estaremos em minha sala e gostaria que me avisasse quando Carlos chegar, está certo? – Pedi. – Sim, senhor. Entramos no escritório e ao perceber que tínhamos privacidade, Alfonso logo me encheu de perguntas. – Me diga que tem alguma novidade, por favor. Não aguento mais essa situação de estar sendo lesado e ter que ficar de braços cruzados sem poder fazer nada. Eu quero nomes, Marco, nem que eu tenha que demitir um por um nessa empresa. – Calma, Alfonso, eu quero isso tanto quanto você. Vamos unir forças e tentar descobrir esse mau elemento de uma vez por todas. – Mas me conte, percebi um clima entre você e Tatiana na chegada. Estão tendo algum lance novamente? – Cara, você não queria novidades? Não tenho as que esperava, mas tenho outras que só poderia te contar pessoalmente. Sente-se para não cair. Você está olhando para um homem que está se despedindo da vida de solteiro. Vou me casar, mano, e dessa vez não será porque alguma vadia fingiu que estava grávida. – Porra, isso é que é novidade. Pensei que tinha voltado ao Brasil para me ajudar com a empresa, pelo visto fez um pouco mais. Preciso perguntar se tem algum motivo e o nome da noiva? Até outro dia casamento parecia sinônimo de velório para você. – É lógico que a única noiva que me faria celebrar a possibilidade de um casamento seria Tati. O motivo? Além do amor que nunca deixei de sentir por ela, há outro que é a principal razão da minha felicidade. – Maldición, fala logo! – Eu sou pai, Alfonso. Eu e Tati temos um bebê de oito meses que é o menino mais bonito e


carinhoso que já vi na vida. Eu tenho um herdeiro, meu irmão. O nome da família Javier não irá acabar conosco, meu filho o levará para as próximas gerações. Ele se levantou para me dar um abraço. Eu sabia que compartilharia da minha felicidade, pois família é tudo para ele. Eu comungava da mesma opinião. – Então quer dizer que sou tio? Onde o bebê está? Eu quero conhecer o meu sobrinho. Como é o seu nome? Era incrível observar como os laços de sangue falavam mais alto. Ele nem conhecia meu filho e já estava todo animado. Imagine quando o conhecesse. Não tinha dúvidas de que se apaixonaria. – Seu nome é Lorenzo e está na casa da avó. A mãe e a tia dele se reversam em seus horários livres e não concordaram quando Tatiana queria contratar uma babá. À noite, eles estarão conosco. – Nossos pais vão enlouquecer com essa história. Quando pretende lhes contar? – Assim que for possível. Não quero demorar, pois dona Esperanza não me perdoaria por ficar ainda mais tempo sem conhecer seu neto. – Conhecendo bem a nossa mãe, posso te garantir que está certo. Estou bastante curioso para saber como descobriu e todo o resto da história. Depois, precisamos estabelecer metas para encontrar o gatuno que está nos roubando. Passamos toda a manhã conversando em minha sala e fazendo planos para alcançarmos os objetivos que primeiramente nos trouxeram ao Brasil. No final da manhã, meu interfone tocou. Era Tatiana anunciando que Carlos havia chegado. Eu e Alfonso saímos do escritório e fomos encontrá-lo a fim de compartilhar a ideia que tivemos para desvendar todo o mistério que rondava a empresa. Ao sair, vi que Carlos falava com Tatiana e ela assentia, balançando a cabeça. – Você poderia ir, Tati? Eles já te conhecem e Augusto estará lá para ajudar. Eu quero passar essa tarde com minha filha e neta e sei que tem competência para resolver qualquer problema que surgir. O quê? Ele estava pedindo para que minha noiva fosse a algum lugar com aquele contador de merda? Só por cima do meu cadáver. Entrei na conversa. – Eu a acompanharei, Carlos. Tenho certeza que posso substituí-lo por hoje nos negócios da empresa. Vá curtir a sua neta que está cada vez mais linda e inteligente. – Que bom, Marco. Fico feliz em poder contar com mais uma pessoa, embora não questione a competência de minha secretária. Algum problema de Marco acompanhar você e Augusto, Tati? Ela me encarou com um olhar feroz, percebendo que minha atitude foi movida por ciúmes.


– Nenhum, Sr. Ribeiro. Acho que ele pode ser muito útil nesta reunião. – Ótimo, então está decidido. Alfonso, pode me acompanhar até a minha sala? Ambos saíram me deixando a sós com minha noiva. – Já conversou com Carlos? Em pouco tempo deixará a empresa e é bom que ele saiba logo para que tome as devidas providências. – Ainda não. Não precisa se preocupar, deixe que eu resolva esse assunto do meu jeito. Ele logo será informado. – Como preferir. Sem que esperasse, puxei-a pela cintura, lhe roubando um beijo apaixonado. Ela se deixou levar por alguns segundos, mas quando se deu conta de onde estava, me empurrou, abrindo distância entre nós. – Aqui, não, Marco. Alguém pode ver. – Que veja. Não tenho nada a esconder de ninguém. – Também não, mas não gosto da minha vida pessoal exposta desse jeito. – Você está certa. Venha comigo. Eu não queria esperar mais e não deixaria que nada me impedisse. Nem o local onde estávamos. Puxei-a para a minha sala, trancando a porta atrás de mim. – Marco, e se alguém vier aqui e te procurar? – Ninguém vem, querida. Está no horário de almoço e todos vão pensar que já saímos para a reunião. Conduzi Tatiana para a borda da mesa, virando-a de costas para mim. Levantei sua saia ‘risco de giz’ até a cintura, deixando à mostra sua calcinha fio-dental, e me afastei para admirar a bela vista à minha frente. – Você tem uma bunda linda. Perfeita para ser fodida. Ela se inclinou ainda mais, deixando o seu tronco quase deitado sobre a mesa. – Isso, arrebite sua bunda para mim. Ela percebeu a minha excitação e passou a me pirraçar, rebolando seus quadris com sensualidade. Eu não resistiria ficar olhando por muito tempo aquele delicioso traseiro em forma de coração, que engolia a lingerie. Me aproximei novamente, dessa vez rasgando o pedaço de tecido que impedia o meu livre acesso ao paraíso. Levei ao meu nariz, cheirei e o coloquei no meu bolso.


Levantei seu corpo, afastei seus cabelos do pescoço e esfreguei minhas narinas suavemente em sua nuca. Deus, como ela cheirava bem! Estava inebriado pelo seu cheiro como um viciado fica pela droga que poderia lhe saciar. Minhas mãos encaixaram em seus quadris, se movimentando para sentir a carne macia de seus glúteos. Os apertei em minhas mãos, puxando para roçar sobre a calça que aprisionava a minha ereção. Capturei seus lábios para extrair dali o sabor que eu tanto amava sentir. O beijo iniciou terno, suave, mas foi se aprofundando, se tornando mais intenso. Quanto mais nos beijávamos, mais a chama do meu corpo aumentava. Eu precisava de alívio ou acabaria me queimando. Puxei um preservativo do bolso, abri o cós da calça e baixei-a sobre as minhas pernas, dando vida a um pau teso e pesado. Tatiana o avistou e vi que tinha tanto desejo quanto eu em seus olhos. Ela baixou sua mão para senti-lo, deslizando um dedo pela glande, retirando dali uma gota de pré-sêmen. Sem tirar os olhos de mim, levou o seu dedo até a boca e o chupou, lambendo qualquer resíduo que ainda estivesse nele. Chega! Já era hora de acabar com aquela tortura. Abri o preservativo e, rapidamente, o vesti, penetrando em sua bocetinha molhada e pronta para receber o meu pau. Ela gemeu, pedindo por mais, querendo sentir todo o meu comprimento enfiado dentro dela. Eu o fiz. Centímetro a centímetro até se certificar de que minha ereção invadia completamente o interior de sua boceta. Me mantive lá por um tempo para que se acostumasse ao meu tamanho. Ela fez um movimento para a frente e depois para trás, iniciando um doce vai e vem, soltando gemidos de prazer. Sussurrando no seu ouvido palavras em espanhol, serpenteei com minhas mãos, até encontrar o bico rígido dos seus seios. Belisquei seus mamilos, fazendo com que lançasse sua cabeça para trás, revirando os olhos de prazer. Bombeei em seu núcleo, penetrando-a com mais força e avidez. Mexia sua deliciosa bunda, fazendo com que as estocadas fossem cada vez mais aprofundadas. Ela soltou um gemido mais alto, me levando a liberar um seio para tapar a sua boca em um impulso. Os meus lábios substituíram a minha mão, voltando a sentir o adorável mel que emanava dela.


Nos mantivemos nesse ritual por um longo tempo, sem que lembrássemos onde estávamos ou sequer nossos nomes. Segurei seus pulsos, restringindo os movimentos e tive que parar um pouco o ritmo ou acabaria gozando. – Está me matando, linda. Eu preciso saber se já está perto. Sua boceta gostosa está acabando com a minha resistência. Ela arrebitou ainda mais seu quadril provocativamente, fazendo o meu pau sentir o fundo de sua entrada. – Estou pronta, amor. Me leve com você. Ela não precisou pedir duas vezes. Eu voltei a foder sua boceta, acelerando o ritmo, sentindo que seus músculos vaginais se apertavam. Senti minha liberação se formando e, enquanto uma mão segurava seus pulsos, a outra alcançava o seu grelo para estimulá-lo. Encharquei o dedo médio em seus fluidos e passei a brincar com seu pequeno e rígido gomo, levando-a a se contrair. Meu corpo estava em chamas e logo senti que ela estava chegando. – Maaaaaarco. Minha rainha gozou, soltando espasmos que apertaram o meu pau, me levando ao precipício. Desmoronei em um orgasmo cataclísmico que só tinha essa intensidade quando o sexo era com Tatiana. Não era apenas sexo. Era sexo com amor. Era fazer amor na essência da palavra. Me mantive dentro dela por um tempo, até que a nossa respiração estivesse regulada. Saí do meu lugar preferido no mundo, peguei um lenço e o umedeci para deixá-la limpa. – Como está se sentindo, minha rainha? – Você me deu uma canseira danada, mas estou bem. – Bom. Você é deliciosa, sabia? – Lhe dei um beijo suave. Ela sorriu e olhou para o relógio. – Temos que adiantar, Marco, a reunião será daqui a poucas horas. Baixei sua saia, ajeitando em seu corpo. – Vamos almoçar? De lá podemos ir direto.


Ela assentiu, pegando a sua bolsa. – Eu vou assim sem calcinha? Sorri em ver a reação tímida de uma mulher que estava fodendo sem qualquer pudor há alguns minutos. – Vai, querida. Será um segredinho apenas nosso. Fomos a um restaurante próximo à empresa onde aconteceria a reunião. Estava localizado em um lugar fantástico, pois de lá era possível ver a Bahia de Todos os Santos, um dos mais belos cartões-postais de Salvador. Na Espanha também tem lugares fenomenais e já viajei por boa parte do mundo, mas essa paisagem tem algo que a torna única e diferente de qualquer outro lugar. Única e linda como a outra paisagem que estava na minha frente. Minha noiva, minha futura esposa. Minha. Terminamos o almoço e fomos para a reunião marcada na Companhia Silva & Silva. Fomos conduzidos por uma bonita secretária até a sala de reuniões onde alguns sócios já aguardavam para dar início. O contador filho da puta já estava lá e quando me viu chegar ao lado de Tatiana, demonstrou surpresa. Cumprimentamos a todos e nos posicionamos à mesa. Fiz questão de sentar ao lado dele e puxei a cadeira para que ela sentasse do lado oposto. Ambos medimos um ao outro, como se estivéssemos nos preparando para um concurso de testosterona. Fixei o meu olhar no seu e o atraí para que percebesse o movimento da minha mão sob a mesa, cobrindo a mão de Tatiana, que me olhou, dando um pequeno sorriso. Não foi necessária uma palavra sequer, marquei meu território como um leão na floresta, deixando claro a quem aquela fêmea pertencia. Nunca havia entendido tão bem o reino animal como fazia naquele momento. Ele desviou as vistas e fingiu que estava concentrado em alguns papéis sobre a mesa. Sr. Silva, o sócio majoritário, adentrou a sala e todos ficaram de pé para recepcioná-lo. – Obrigado a todos por terem vindo. Como sabem, estamos fechando um contrato com a Construtora Carlos Ribeiro e a assinatura final depende do aval da representante, Srta. Tatiana Carvalho. O chefe fez as apresentações e eu percebi que a simpatia em relação à minha noiva aumentou, pois todos sabiam que o sucesso daquela transação dependia dela. Ela levantou, saudou a todos e apontou para eu e Augusto.


– Gostaria que conhecessem mais dois representantes que estarão me auxiliando no processo de decisão. Estes são Sr. Javier e Sr. Haggi. Levantei, cumprimentando a todos e falei: – Sim, estamos muito satisfeitos em poder contribuir com essa finalização de contrato e além de representar a empresa, sou também noivo dessa linda e competente funcionária. Pelos olhares mal-intencionados na direção de Tatiana, me senti na obrigação de alertar a todos sobre o seu futuro estado civil. Minha noiva estava com o rosto vermelho, provavelmente envergonhada por eu estar marcando território. – Bem, todos foram apresentados, então vamos iniciar. Eu gosto de comparar a nossa empresa, em relação ao mercado, com alguns elementos da natureza. Hum... já estava gostando. Eu também me comparo sempre. – Eu diria que somos como coelhos, enquanto as outras são semelhantes a tartarugas. Sempre estamos à frente em inovação e qualidade. Augusto se pronunciou. – Uma das características do coelho é a reprodução. Fico me perguntando se esta é uma forma dele prender a fêmea ao seu lado. – todos riram, mas Sr. Silva pareceu confuso. – Falando em reprodução, a sua empresa tem filiais? Filho da puta! Se é guerra que ele quer, é guerra que terá. Olhei para ele antes de responder: – Não entendo muito de coelhos, mas se ele investe para manter a mãe de seus filhotes, é um bom sinal de que não é um cafajeste, pelo contrário, é um cavalheiro. – me voltei para o Sr. Silva – Vejo o coelho como a matriz e seus filhotes como as filiais que devem ser cuidadas e protegidas a qualquer preço. O contador estava com o rosto roxo de raiva. Eu não deixaria essa conversa barata. – Concordo com os senhores. Temos filiais e elas são muito bem cuidadas, pois delas também depende a saúde de todo o complexo empresarial. Continuando a minha fala, dessa vez gostaria de comparar os nossos produtos à agua. Ela deve ser limpa, potável, pois é necessária à sobrevivência humana. Vemos os nossos materiais como insubstituíveis em sua qualidade. O interrompi. – Assim como o amor. Nem amizade nem respeito ou qualquer outro sentimento pode substituí-lo, não é verdade? Tatiana deu um beliscão em minha mão e tentou se comunicar com os olhos, porém fingi que


não havia percebido. É claro que o viadinho não deixaria por menos. – Acredito que a água de qualidade a que o Sr. Silva se refere não pode ser aquela que já foi usada uma vez e quase foi jogada fora. Deve ser limpa, inodora e as pessoas não devem ser obrigadas a tomá-las. O seu uso deve ser espontâneo, assim como o verdadeiro amor. Antes que eu retrucasse sua resposta, Tatiana levantou e sugeriu que o líder da reunião fosse direto aos números, deixando de lado as comparações. Assustado pela forma que as coisas estavam caminhando, atendeu mais que satisfeito. A partir daí, tudo seguiu conforme previsto, com intervenções apenas necessárias. Eu fui àquele lugar para ajudar e não atrapalhar e me policiei para cumprir o propósito. Augusto deu uma trégua também e no final o contrato foi assinado, restando apenas a assinatura posterior de Carlos Ribeiro. Depois das formais despedidas, levei minha noiva para a sua casa, começando assim a rotina que traçaríamos esse mês de buscar Lorenzo todas as noites e levar para o apartamento onde eu estava hospedado.


Capítulo 16

Ela

Cheguei em meu apartamento e entrei, convidando Marco a me acompanhar. O meu lar não era de luxo como ele estava acostumado, mas era tudo muito limpinho e eu sempre estava trocando de móveis. Gostava de que ele tivesse uma aparência moderna. A minha mãe veio até a sala e o cumprimentou, sem oferecer sequer um sorriso. Me entregou Lorenzo, dando-lhe um beijo na testa e saiu, nos deixando a sós. Minha irmã provavelmente estava na faculdade. Quando meu filho o viu, abriu um grande sorriso e Marco estendeu os braços para convidá-lo ao seu colo, sendo atendido instantaneamente. Meu noivo olhou para a direção que a minha mãe caminhou e balançou a cabeça negativamente. – Eu não preciso ser um gênio para perceber que sua mãe não gosta de mim. Ela tem consciência que eu não sabia sobre Lorenzo, não é, Tati? Não quero que tenha uma má impressão, pois faremos parte da mesma família. – Não ligue para ela. Sabe de toda a nossa história e não negou apoio, embora não concorde com um casamento de conveniência. – Casamento de conveniência? Você sabe que eu jamais teria um filho bastardo e me casaria com a mãe dele, independente de quem fosse, mas no nosso caso, não há nada de conveniência. O nosso casamento será bem real. – Ela entenderá isso. Tenha um pouco de paciência. – Sonde o melhor momento para que eu possa conversar com ela antes da cerimônia. – Está certo. Fomos para o apartamento de Alfonso onde teria minha primeira noite lá como noiva de Marco. Estava um pouco inibida, pois ainda não tinha conversado com Brisa sobre o pai de Lorenzo e a última vez que conversamos, ele estava comprometido com outra pessoa. Como eu sou uma daquelas pessoas que tudo transparece no rosto, Marco deve ter percebido a minha preocupação e tentou me tranquilizar. – Não há motivos para vergonha, querida, você sabe que Brisa tem a mente muito aberta e


nunca iria te julgar. A essa altura, ela já deve saber de tudo, pois expliquei toda a história ao meu irmão. – Alfonso já sabe? Como reagiu? – Está ansioso para conhecer seu sobrinho. Se dependesse dele, teria ido buscá-lo no momento que soube, mas consegui freá-lo. – Oh, Deus, fico tão feliz que toda essa loucura esteja findando e que não preciso mais guardar segredos de ninguém. Quando superarmos a próxima etapa, aí sim vou respirar aliviada. Ele sorriu. – Qual será a próxima etapa? – Enfrentar os seus pais que com certeza não ficarão nada felizes em saber que escondi seu neto por oito meses. Tenho receio de que achem que estou dando o golpe da barriga em você, assim como Andréa pretendia fazer. Ele parou de brincar com os braços de Lorenzo e fixou os olhos em mim. – Nunca mais se compare àquela mulher sem caráter. Não posso dizer que não errou ao esconder o meu bebê, mas ninguém poderá acusá-la de ser fingida ou de golpista. O meu bebê é bastante real. – Obrigada por me tranquilizar. Fico mais sossegada em saber que não precisarei me defender sozinha, que tenho o seu apoio. Chegamos ao apartamento e, ainda que não tivesse motivos para tanto, senti que meu coração disparava. Marco abriu a porta devagar, todo orgulhoso por estar carregando o seu filho no colo e dei dois passos à frente, quando fui surpreendida por gritos e palmas. Brisa, Alfonso, Luiza e minha irmã estavam na sala celebrando a nossa chegada. Eu não podia acreditar no que meus olhos estavam vendo. Lorenzo se assustou, agarrando o pescoço de seu pai e eu alisei sua pequena cabeça para que o susto passasse. Havia uma mesa posta com um jantar e, em cima do sofá, uma montanha de brinquedos. Acho que meu filho teria que viver duas vidas para brincar com todos eles. Brisa e Lana vieram ao meu encontro, enquanto Alfonso partiu em direção ao seu sobrinho com Luiza no colo. – Oh, queridas, obrigada por tanto carinho. Eu estava tão amedrontada com a reação de vocês e o que encontrei aqui está muito além do que eu poderia imaginar. Ter a aceitação da família de Marco é tudo o que posso querer nesse momento. Brisa me olhou com uma expressão que dizia 'você nunca me enganou' e me deu um abraço.


– Eu não vou negar a você que já desconfiava, Tati, mas sabia que deveria respeitar o seu tempo e os motivos que provavelmente teria para não contar. – Sério? E mesmo assim nunca comentou comigo. – Não. Eu meio que tentei incentivá-la a contar quando conversamos sobre o suposto casamento de Marco. Tinha esperanças de que chutasse o pau da barraca e não permitisse que a cerimônia fosse realizada, mas quando vi que não reagiu, fiquei de mãos atadas. – Oh, Bri, devia ter me dito. Talvez um conselho de alguém tão próximo a ele me fizesse mudar de ideia. – Tive receio de estar invadindo um espaço que só cabia a você compartilhar ou não. O mais importante é que estamos aqui e que tudo acabou se encaixando. – Verdade, graças a Deus, tudo está tomando o seu rumo. – Estou tão contente por mais um casamento na família, vou te dar essa noite, mas amanhã já temos que fazer planos para a cerimônia e você vai me ajudar nos preparativos finais para o aniversário de Luiza. Sorri e voltei minha atenção para a irmã mais doce que alguém poderia ter, abrindo os braços em convite para um abraço. – Obrigada, Lala. O que seria de mim sem você? – Ah, com certeza, sua vida seria muuuuuuito chata. – Ela brincou, mas logo virou seu rosto para disfarçar uma lágrima que caía de seus olhos. – Irmãzinha, não chore, o momento é de felicidade. – Desculpe, eu não queria, só que eu presenciei o quanto sofreu por amor e o quanto teve que abrir mão pelo mesmo motivo. Você merece tanto ser feliz. As minhas lágrimas são de alegria por ter finalmente alcançado o seu 'happy end', Tati. Meu abraço foi ainda mais intensificado e só foi interrompido pela aproximação do meu futuro cunhado. – Obrigado por ter trazido alegria e honra à nossa família. Não tem ideia do quanto seu filho representa para nós. Marco veio para o meu lado, abraçando a minha cintura. – Eu me sinto a mulher mais sortuda do mundo. Primeiro, por ser mãe de um bebê tão especial, e depois por estar entrando em uma família maravilhosa. Espero estar à altura de tantas responsabilidades. Os bebês foram colocados no tapete um de frente para o outro. Não eram muito parecidos


porque Luiza era a cara da mãe e Lorenzo parecia mais com o pai. Ficaram se olhando por um tempo, até que a pequena garota se pronunciou. – Bebê, mama. Brisa respondeu: – É, meu amor, seu priminho. – “ Dá piminho, titio”. – Ela falou, apontando para Marcos. – Você lembrou, princesa? Aí o priminho que você me pediu outro dia. Ela apontou um dedinho para Lorenzo que só a observava, sorrindo a cada vez que ouvia a sua voz. – “ Piminho”. Ela levantou para sentar-se ao lado de meu filho e lhe deu um lindo beijinho no rosto. Todos se derreteram na sala. Agora não tinha mais como negar: Lorenzo era um conquistador nato.

****************

Chegamos ao aeroporto de Madri uma semana depois da recepção que tive no apartamento de Alfonso. Os pais de Marco sabiam que eu viria com ele, mas desconheciam o resto da história. Eu já os conhecia por tê-lo acompanhado em alguns eventos na Espanha, mas as apresentações e reencontros sempre foram superficiais. Sequer fui apresentada como namorada, apenas Srta. Carvalho e nada mais. Sem rótulos. Chegamos a uma imponente mansão e a minha vontade era de sair correndo e ir embora. Nunca fui covarde, mas acho que essa característica estava me assombrando mais do que nunca nos últimos tempos. Os portões foram abertos por uma espécie de sensor que reconhecia a placa do carro, nos dando acesso a um enorme estacionamento. Ao entrar, tentei encontrar algum rosto familiar, mas só havia empregados limpando e circulando pelo local. Uma senhora magra e baixa veio cumprimentar Marco e vi o momento que foi tomada pela emoção ao perceber que era seu filho quem estava em seus braços. – Meu Deus, Marco, eu pensei que me considerava como uma segunda mãe, mas estou vendo que me enganei. Por que só agora estamos conhecendo essa coisa fofa? – É uma longa história, Mercedes. Logo você ficará sabendo e me perdoará e a Tatiana também. Lembra dela?


– Claro que sim, querido. Nunca vi seus olhos brilharem para outra mulher como acontecia com ela. Seja bem vinda, Tatiana. – Obrigada. Sr. e Sra. Javier não estão em casa? – Não. O teimoso disse que deveria ficar na empresa na ausência dos dois filhos e a sua mãe precisou sair. Logo estarão de volta. –Tudo bem. – disse Marco – Vamos descansar da viagem e quando eles chegarem, peça para que alguém nos avise, por favor. Subimos as escadas e alcançamos um corredor com diversas portas. Aquela casa deve ter sido projetada para uma família enorme. Meu noivo me levou ao seu quarto de infância, que ainda era mantido. O cômodo era tipicamente masculino, predominando o preto e branco nos mobiliários e na decoração. Havia uma cama King Size, bastante convidativa para dormir e fazer umas coisinhas mais. Lorenzo começou a choramingar e eu sabia que era por causa do cansaço da viagem. Peguei sua mamadeira já preparada e o alimentei, colocando para dormir em seguida. Marco passou alguns minutos admirando a inocência e vulnerabilidade de sua pequena prole dormindo. Depois fixou seu olhar em mim, abrindo um sorriso malicioso. – Você sabe que nunca trouxe uma mulher nesse quarto? Você é a primeira a entrar aqui além de minha mãe e Mercedes. – ele se aproximou de mim, agarrando a minha cintura. – Eu adoraria que também fosse a primeira vez que faço amor aqui. A primeira de muitas. – Hum... eu acho uma boa ideia. Dessa vez, eu podia afirmar que não fizemos sexo. Era amor. Fizemos amor devagar, demorado, buscando lentamente matar o desejo insaciável que nutríamos um pelo outro. Nos pertencemos durante boa parte da tarde e depois desabamos sobre a cama a fim de recuperarmos energia para o encontro com os seus pais mais tarde.

****************

Abri os olhos e procurei o meu celular para conferir as horas. Já havia passado das dezoito, o que confirmou a minha impressão de que dormi demais. Olhei à minha volta e não vi qualquer sinal de meu filho ou de Marco, é possível que esteja com o pai. Tomei um banho e me arrumei para o momento que nomeei de 'última etapa'. Não devo ser a


única a ter receios quando vai conhecer a família do noivo. Desci as escadas e já conseguia ouvir alguns sussurros. À medida que caminhava, algumas vozes iam tomando forma, umas mais altas que outras. Parei antes que me vissem, pois percebi que estavam falando de mim. A declaração que ouvi em seguida da boca de seu pai materializava os meus principais medos. – Que essa criança é sua, ninguém tem dúvidas, Marco. Até nisso ela teve sorte, o menino parece com você. Não vai precisar de exame de DNA, mas quem te garante que não foi justamente por isso que ela escondeu? Talvez não tivesse certeza da paternidade. – O senhor é meu pai e te devo respeito, mas não vou admitir que fale assim dela. Qualquer pessoa que a conhece melhor pode atestar que não se trata de uma aproveitadora. – Você está cego pela paixão, filho. Tem experiência suficiente para saber que dinheiro muda o caráter de qualquer pessoa. Não estou dizendo que deve fugir do casamento, pois a nossa família tem princípios. Estou apenas pedindo que fique de olho aberto, que não se permita ser uma marionete nas mãos dela. Mais do que nunca, eu queria tapar os meus ouvidos e sair correndo daquele lugar. O que me manteve ali foi a resposta que ouvi em seguida: – Eu posso confiar em seu senso de julgamento, pai? Namorei uma vigarista durante meses e você nunca percebeu que era uma aproveitadora. Tatiana não é boa o suficiente porque não é rica? Quero que saibam que acredito em cada palavra que ela me diz e brigarei com quem for preciso para tê-la ao meu lado. Eu a amo como nunca amei ninguém. Sempre foi ela. Nessa altura, eu já estava soluçando contra a parede escura que me separava do escritório onde estavam. Dona Esperanza entrou na conversa, tentando amenizar o clima. – Javier, deixe de ser um velho teimoso e se desculpe com seu filho. Ele tem razão. Nós fomos fruto de um casamento arranjado, Alfonso também e não temos qualquer referência que nos permita julgar as escolhas de Marco. Temos que ser agradecida a essa garota por ter nos presenteado com esse lindo bebê. Vá chamá-la, filho, prometo que ela será bem tratada. Rapidamente, tentei achar um lugar que me permitisse lavar o rosto. Não havia volta. Eu passaria por mais aquela etapa de cabeça erguida e no futuro provaria que ele estava errado a meu respeito. Não precisei andar muito para encontrar um banheiro, onde entrei, trancando a porta. Deixei que algumas lágrimas ainda rolassem e respirei fundo, juntando forças para me refazer. Eu não daria o gostinho de demonstrar fraqueza. Lavei meu rosto e fiz alguns movimentos de respiração que aprendi na faculdade para


amenizar o nervoso. Abri a porta renovada e disposta a enfrentar o que viesse pela frente. Eu tinha o amor de Marco e isso era tudo o que importava. Me aproximei do escritório e meu noivo logo me avistou. – Estava te procurando. Onde estava? – Fui até a cozinha tomar um copo de água. – voltei minha atenção aos seus pais, estendendo a mão para cumprimentá-los – Boa noite Sr. E Sra. Javier. – Olá, querida, estava realmente falando no quanto devemos ser gratos por ter nos dado mais um neto. Ele é tão lindo quanto o nosso Marco. Obrigada! – É realmente um privilégio ser mãe dele e, de fato, parece muito com o pai. Gostaria de agradecer também por ter me recebido em sua casa. Parabéns, tem muito bom gosto, ela é linda. Dona Esperanza parecia encantada e se virou para falar com o marido. – Ela não é um amor, Javier? Será mais uma grande adição à nossa família. O velho me olhou de cima a baixo e, muito a contragosto, esboçou um sorriso em seus lábios. Retribuí, sabendo que a minha atitude não representava que eu era falsa. Demonstrava que eu era educada. Conversamos por mais um tempo e dona Esperanza não se separou de Lorenzo por um segundo sequer. Uma coisa eu não podia negar: todos eles estavam apaixonados por meu filho. Sr. Javier tentava disfarçar seus sentimentos, mas ocasionalmente, eu o flagrava encarando o bebê com um brilho nos olhos. O nervoso inicial se dissipou e consegui conduzir uma conversa pacífica, harmoniosa e descontraída, sempre girando em torno dos primeiros meses de vida de Lorenzo. Relatei acontecimentos, mostrei fotos e lhes entreguei um vídeo que continha cenas desde o nascimento até a idade atual de Lorenzo. Eu sempre me preparei para a possibilidade desse dia e registrava tudo. Eles tinham o direito de participar, ainda que de outra forma. A noite transcorreu sem maiores problemas e Marco nunca deixou de segurar as minhas mãos. A segurança que me passava era essencial para que eu não desmoronasse e o seu amor reluzia naquele ambiente. Nos amávamos e não tentamos esconder isso de ninguém, pelo contrário, estava claro para quem quisesse ver.


Capítulo 17

Ela

– Por que vocês têm que ir? Acabaram de chegar. Não podem me afastar tão cedo assim do meu neto, é muito injusto com uma avó que acabou de se apaixonar. Dona Esperanza estava jogando pesado para nos convencer a ficar mais dias em sua casa. – Mãe, precisamos ir. Tati precisa se alojar em sua futura casa e eu preciso ir à empresa. Papai não pode dar conta de tudo sozinho. Prometo que voltaremos à noite. Sr. Javier não havia descido para se despedir e sabia que aquilo demonstrava que não seria facilmente convencido das minhas intenções. – Não estou feliz com essa atitude, mas assim que a noite chegar, venham aqui para casa e tragam o meu neto. Se demorarem demais, vou buscá-lo. Com muita relutância, minha futura sogra nos permitiu sair de sua casa. Ela queria ficar o máximo de tempo possível ao lado de Lorenzo e eu lhe prometi que voltaria assim que possível. Passaria o resto da minha estadia no apartamento de Marco e só voltaria para o Brasil depois do aniversário de dois anos de Luiza. Seria uma grande oportunidade para rever alguns amigos, como Clara, e de conversar com o Sr. Ribeiro sobre a minha futura situação na empresa. Eu havia lhe contado apenas que estava me relacionando com Marco e que precisava de uma licença para conhecer a sua família. Não entrei em detalhes, pois não achava justo que ele tivesse qualquer informação antes dos pais do meu noivo. O irmão dele ainda estava no Brasil e, como eu sou desse meio, entendia sua necessidade de estar na empresa. Um empreendimento tão gigante não podia permanecer sem um administrador por muito tempo. Uma ponta de dor alcançou o meu peito, quando imaginei quantas outras mulheres haviam entrado naquele lugar. Me policiei para que pensamentos desse tipo não martelassem a minha mente e tentassem estragar o que estávamos começando a construir. Paramos em frente ao prédio e Marco estendeu um chaveiro onde havia quatro chaves e um cartão pendurados.


– Estou um pouco atrasado. Teria algum problema se você subisse com Lorenzo? A recepção já está avisada sobre a sua chegada e vou pedir para que levem as malas lá para cima. – Não. Sem problemas. Já conheço o caminho. – Ótimo. Se precisar, pode me ligar a qualquer hora. Vocês agora são a minha prioridade e nunca vão incomodar. Ligue, se necessário. Assenti, abrindo a porta para sair do carro e ele me puxou de volta, tomando os meus lábios em um beijo intenso. Segundos depois, me soltou, tomando algum tempo para apenas me observar. Fiquei sem graça com seu escrutínio, mas igualmente muito feliz, pois seu olhar dizia mais do que palavras poderiam fazer. Ele desceu do carro, abrindo a porta e me ajudou a levar uma pequena mala até o elevador. Me deu mais um rápido beijo e beijou a pequena cabeça de Lorenzo. – Não esqueça. Me ligue a qualquer momento. Sorri com sua insistência. – Certo, Marco, já entendi. Apertei o botão do elevador que me levaria à cobertura. Como aquele logo seria o meu lar, passei a memorizar cada detalhe, algo que eu nunca havia feito anteriormente, já que o meu lugar na vida de Marco sempre foi temporário. Agora eu podia sentir que era definitivo. Cheguei à cobertura e usei o cartão para me dar acesso à sala. Nunca fui supersticiosa, porém resolvi dar lugar a uma crença que se não fizesse bem, mal não faria. Olhei para os meus pés e respirei fundo, antes de entrar, estendendo o pé direito. Sim, entraria com o pé direito no espaço que representava o início de uma vida a dois, tentando chamar todos os bons fluidos que pudessem me ajudar. Deixei a mala na sala e fui em direção ao quarto para trocar Lorenzo. A ordem era deixá-lo limpo e depois alimentá-lo, pois logo iria chegar o momento de dormir, como já era de costume. Não havia qualquer barulho no apartamento e só era possível ouvir a zoada de carros transitando em frente ao prédio e de alguns pássaros que faziam a sua orquestra matutina. Fiquei descalça e, brincando com o meu filho, me dirigi ao quarto. Coloquei Lorenzo sobre a cama e troquei a sua fralda. O tempo estava muito quente e decidi deixá-lo apenas com uma camiseta. Estava me levantando com ele no colo, quando ouvi um barulho estranho. Virei para ver de onde vinha e uma loira apenas de lingerie vermelha estava materializada na minha frente. Era Andréa.


– Olha só quem eu encontro aqui. Fiquei sabendo que Marco estava de volta e pensei que o encontraria sozinho, mas quem deu o ar da graça? A pequena golpista. Pelo menos a minha viagem não será perdida. Apertei meu filho ainda mais contra mim, tentando defendê-lo de qualquer investida daquela louca. – O que faz aqui? Como conseguiu entrar? – Perguntei. – Não está obvio? Queria surpreender, mas pelo visto eu que fui surpreendida. Você acha que eu não teria as chaves do apartamento do meu noivo? – Olha, não interessa o que veio fazer aqui, porém gostaria que saísse. O que tiver a dizer, fale diretamente a Marco e deixe a mim e ao meu filho fora de qualquer história. – Não posso fazer o que me pede, querida. Você está diretamente ligada a tudo. Sabia que quando ele descobriu que eu não podia lhe dar um herdeiro e contei que já tinha um, prometeu que o criaríamos juntos? Olha como eu sou boazinha em te contar os nossos planos: ele se casaria, daria um nome ao bebê, buscaria as leis espanholas que, sem dúvidas, o beneficiariam e tomaria o seu filho ao mesmo tempo que o divórcio estaria em processo. Ah, meu noivo é tão perspicaz, não é, mesmo? Senti um gosto amargo em minha boca, não porque acreditasse em qualquer palavra que ela estava dizendo, mas porque me perguntava até que ponto alguém com um perfil psicopata poderia chegar para alcançar seus objetivos. Abri a boca para lhe dar uma resposta, tentando entrar em seu jogo, quando ouvi um outro barulho, vindo da sala. – Saia da minha casa, sua puta, saia daqui agora! Marco havia entrado no quarto e já a puxava pelo braço em direção à porta de saída. Lorenzo começou a chorar e eu tentava tranquilizá-lo, enquanto acompanhava toda a cena. – Conte a verdade para ela, amor. Vamos acabar com os nossos planos e ir embora daqui. Pegue o bebê e vamos partir, prometo que ninguém nos encontrará. A vadia continuava com seus devaneios, tentando me convencer que todo o sonho que estava vivendo fazia parte de uma ideia premeditada para levar o meu filho. Marco tomou a penca de chaves de sua mão e a jogou no elevador, sem dar qualquer espaço para que pelo menos se vestisse. Foi jogada de lingerie e antes que a porta se fechasse, ela ainda conseguiu ameaçar: – Vocês não serão felizes. Enquanto eu tiver forças, farei o possível para destruir essa


relação. Me aguardem! Ele fechou a porta da sala e veio em minha direção, tomando Lorenzo do meu colo para acalmá-lo. – Não acredite em qualquer palavra dela, querida. Nada nem ninguém poderá estragar o que sentimos um pelo outro. Sorte que vim pegar o notebook onde tem informações importantes para o meu trabalho hoje, senão não sei o que aquela maluca poderia ter feito. Assenti, me aproximando para um abraço. Queria muito acreditar que o nosso amor bastava e que poderia me sentir segura, contudo, no meu íntimo, havia um medo começando a brotar e tentando tirar a minha paz. Tinha medo por nós. Sobretudo, tinha medo pelo que pudesse fazer ao meu filho.


Capítulo 18

Ele

Decidimos que iriamos marcar a nossa data de casamento para dali a um mês. Não havia mais motivos para esperar e eu ansiava para tornar Tatiana oficialmente minha. A princípio, ficou preocupada com o curto espaço de tempo para os preparativos e precisei da ajuda de Brisa e minha mãe para tranquilizá-la de que era possível que tudo ficasse pronto. A única exigência que fez foi que o casamento se realizasse em Salvador e concordei sem discursão, pois já estava apaixonado pela cidade e o cenário barroco das igrejas é bastante propício para lindas cerimônias. Hoje é o aniversário de minha sobrinha e estamos envolvidos nos últimos ajustes. Embora tenha contratado um buffet, Brisa fez questão que todos colaborassem em detalhes de última hora. Aquela mulher sabia fazer chantagem emocional. – Desse lado, não, Marco. A mesa deve ficar de frente para aquele painel. Vamos, meninos, coloquem-na lá, pois temos mais trabalho a fazer. Estava perdido com essa mulher mandona. Minha mãe se aproximou com seu neto no colo e a alegria que se via em seu rosto era entusiasmante. Podia ler em seus olhos o quanto estava satisfeita com o rumo que sua família tomava e me peguei querendo algo parecido no futuro. – A festa está ficando tão linda. Luiza está numa idade que entende melhor as coisas e acho que vai aproveitar mais esse ano que aproveitou ano passado. – Verdade, mãe. Minha sobrinha vai se divertir muito. – Meu filho olhava fixo a decoração. – Olha só a carinha de Lorenzo vendo tantas cores juntas. É uma pena que não entenda muito, mas ainda assim irá se divertir também. Continuamos o trabalho pesado com minha cunhada em nossos pés para que nada desse errado. Acho que descobriu outro talento. Além de administradora, estava se tornando uma excelente produtora de eventos. O final da tarde havia chegado e tudo já estava pronto para o início da festa. Subi para o meu quarto a fim de tomar um banho e me arrumar, porém meus planos mudaram assim que alcancei o cômodo.


Tatiana estava apenas de calcinha e sutiã, com uma perna apoiada na cama, passando hidratante. Quando me viu, abriu um sorriso lascivo que interpretei como um convite, o qual aceitei mais que satisfeito. Descemos para a festa um pouco atrasados, pois não conseguimos deixar nossas mãos longes um do outro. O aniversário já estava acontecendo no enorme jardim da casa de meus pais e muitas crianças passavam por nós correndo, enquanto outras aproveitavam os brinquedos próprios de festas infantis. Tatiana me puxou para uma barraquinha de algodão doce, pegando um e me estendendo outro. Olhei para ela confuso e minha noiva apenas deu de ombros, mordendo o seu doce e melando toda a boca. Não resisti e limpei o canto de seus lábios com a minha língua, voltando para entrar na brincadeira. Dei uma mordida em meu doce e passei a língua nos lábios, retirando o excesso. Ela seguiu todo o meu movimento com os olhos e me aproximei, sussurrando em seu ouvido: – Se continuar me olhando assim, teremos que voltar lá para cima. Ela respirou fundo, antes de responder: – Se eu estivesse em outro lugar, não pensaria duas vezes. Você tem que dar atenção aos convidados porque é da família, mas pare de ficar me tentando desse jeito. Eu soltei uma gargalhada e peguei na mão de Tatiana para circularmos pelo local. Avistamos minha mãe, que estava tentando convencer uma convidada a lhe devolver Lorenzo. Aquela mulher vai estragar o meu filho. Nos aproximamos e reconheci a convidada como uma socialite conhecida de minha mãe. – Sra. Velasquez, como vai? Deixe-me apresentá-la Tatiana, mãe do meu filho. – Muito prazer, querida. Não sabia que tinha se casado, Marco. Não era você que namorava Andréa até pouco tempo? Merda! Odeio esse tipo de pessoas que não têm filtro na língua e aproveita qualquer oportunidade para fazer fofocas. – Não é preciso estar casados para fazer um filho, não é mesmo, Sra. Velasquez? Não estamos casados ainda, porém logo estaremos corrigindo isso. Preciso cumprimentar outros convidados. Divirta-se! Não deixei sequer que Tatiana lhe desse qualquer reposta, pois ela faz parte do tipo de pessoas que não valem a pena. A cada dia que passa lhe dou razão quanto ao receio que tinha de sofrer preconceito, pois a alta sociedade realmente pode ser cruel em seu julgamento.


Dei um beijo no rosto de meu filho que parecia tão confortável no colo da avó que nem me deu importância. Circulamos um pouco mais pelo local até que Tatiana encontrou alguém conhecido. Era Clara que estava caminhando de mãos dadas com Luiza, ostentando uma enorme barriga de grávida. – Clara, que bom encontrar uma pessoa conhecida no meio de tanta gente. – Minha noiva falou. – Digo o mesmo, Tati. Brisa tem que dar atenção a esse povo de nariz empinado e precisava encontrar um rosto conhecido para jogar conversa fora. – Seus olhos passearam de mim para meu noivo. – Que bom saber que estão juntos novamente. Brisa me contou o quanto Marco estava apaixonado pelo filho. Ando tão sensível que me emocionei com a notícia. Meu noivo me abraçou por trás, entrando na conversa. – Você logo receberá o convite de casamento. Estava pensando em contratar a banda No Return para cantar na festa. O que acha, Tatiana? – Você está perguntando a minha opinião sobre a banda do momento cantar em nossa festa? Qualquer pessoa em sã consciência adoraria. – Então está decidido. Onde está Benito, Clara? Mal havia fechado a boca, ele se juntou a nós. – Ouvi o meu nome por aqui? Marco, Tatiana, como estão? – Sim. Estávamos conversando sobre a possibilidade da No Return tocar em nossa festa de casamento. – Parabéns! Fico feliz em ver que se acertaram. A agenda da banda anda lotada, mas a gente sempre dá um jeito para amigos. – Obrigado. Para quando é o bebê? Ele abraço Clara, alisando sua barriga. – Ela está de sete meses e logo, logo verei o rosto da minha filha. Estou muito ansioso. – Ah, você vai ter a oportunidade de saber o que é amar incondicionalmente, então. Dará a sua vida por ela, se for preciso. Conversamos um pouco mais e depois de algum tempo chegou o momento dos parabéns. Há dois anos, se alguém me dissesse que seria o homem mais feliz do mundo por estar em uma festa infantil ao lado do meu filho e da minha futura esposa, eu diria que estava ficando louco. No entanto, essa é a minha realidade e estou muito satisfeito com ela. Não preciso mais de mulheres, farras e uma vida sem compromissos. O que quero agora é colocar uma aliança no dedo de


Tatiana. É tudo o que preciso.


Capítulo 19

Ela

Aproveitei o aniversário de Luiza para conversar com o Sr. Ribeiro. Já era hora dele saber que eu não poderia permanecer na empresa, pois iria morar na Espanha. Quando a maioria dos convidados estava indo embora, o encontrei caminhando para pegar uma bebida e decidi que aquela era a hora certa. – Sr. Ribeiro, gostaria de conversar um pouco contigo, poderia me dar um minuto da sua atenção? – Claro, Tati. Ouvi alguns comentários sobre você e Marco, mas esperei ouvir de sua boca. O assunto tem a ver com isso? – Sim, senhor. Eu sempre fui reservada quanto a minha vida pessoal, por isso nunca comentei que Marco é o pai do meu filho. Nós pretendemos nos casar daqui a um mês e estarei me mudando para cá. – Já desconfiava, mas sempre respeitei a sua privacidade e jamais te perguntaria sobre um assunto que só dizia respeito a você. – Sei disso. Obrigada. – Quanto a sua saída da empresa, será uma grande perda, pois sempre foi mais que secretária. Você tem mais habilidades em diversas funções que funcionários formados na área. Não existe a possibilidade de morarem no Brasil? – Marco precisa estar à frente das empresas aqui, especialmente agora que Alfonso tem que ajudar o senhor na administração da construtora. – Entendo. Vou solicitar que o RH disponibilize a vaga e gostaria que você selecionasse e treinasse uma pessoa, tudo bem? – Farei isso. Obrigada por confiar em mim para assumir tantas responsabilidades e por entender a minha situação. Ele se aproximou, dando um beijo em minha testa. – Só tenho uma exigência: seja feliz. Nunca se permita menos, menina. Você merece. – Se o senhor realmente acha que mereço, poderia me deixar um pouco mais feliz, entrando


comigo na igreja? – Oh, Tati, será uma honra, para mim, estar ao seu lado em um momento tão precioso. É claro que aceito. Eu a considero como uma filha. Ousei um pouco mais e aproveitei sua aproximação para lhe dar um abraço. Meu pai morreu há muitos anos, mas se eu tivesse um, gostaria que fosse carinhoso e zeloso como Carlos Ribeiro. Um mês se passou num piscar de olhos, e nesse meio tempo eu tinha conseguido uma secretária que parecia muito esforçada e aprendia rápido. Vou ficar um pouco mais despreocupada em deixar a empresa. Estou no spa ‘Bela noiva’, me preparando para subir ao altar na noite desse dia. O espaço foi fechado para mim e para as mulheres das duas famílias. Estava sendo paparicada por todos e tendo um dia como eu sempre sonhei. Já fiz uma limpeza de pele e depilação. Agora estou tomando um banho de pétalas na banheira e mais tarde, vou fazer unhas, maquiagem e arrumar os cabelos. Lorenzo ficou com Mercedes, mas de hora em hora ligo para saber como vai. Estou com muitas saudades do meu bebê. Minha mãe está adorando tantos cuidados com ela, mas não dá o braço a torcer em relação ao passo que estou dando. Eu estava com os olhos fechados, tentando relaxar um pouco, quando dona Marlene entrou na minha cabine. – E então, querida, está mais calma? Continuei de olhos fechados e respondi: – Sim, mãe, acho que tudo o que precisava era de um momento só para mim hoje. Ouvi o seu suspiro. – Me lembro do dia do meu casamento. Não tinha essa preparação toda que se tem atualmente, mas a tensão era a mesma. É uma das decisões mais importantes na vida de uma mulher e a gente sempre se pergunta se é a certa. Já ouvi realmente comentários a respeito dessa indecisão pré-matrimônio, mas eu não. Estou bastante decidida. – Não há nada que queira mais na vida, portanto não tenho sombra de dúvidas que estou fazendo a escolha certa. É o que meu coração pede. – Tem certeza, Tati? Eu acho tão injusto você desperdiçar o amor de um homem tão bom quanto Augusto. Haja paciência!


– Ainda essa história bem no dia do meu casamento? Por favor, dona Marlene, aceite de uma vez por todas que não há volta. Esta noite me tornarei a mais nova Sra. Javier e o amor do meu marido é o único que me interessa. – Desculpe, querida. Não quero estragar o seu dia. Ela saiu, me deixando a sós com meus pensamentos. Na minha mente só piscava em luz neon a palavra futuro. Naquele dia, ele estava se tornando o meu presente e faria de tudo para que nada estragasse. A nossa relação se iniciava com algo que muitos relacionamentos duradouros não tiveram: amor. De posse desse sentimento, eu sabia que nada nem ninguém poderia nos atrapalhar. Finalmente, eu iria colocar um ponto final em todo o sofrimento que passei desde o início da gravidez. ‘Sim, Tatiana, você merece ser feliz’. **************** – Ele já chegou, Lana? Estou com um pressentimento tão ruim. Eu estava em uma espécie de camarim que era disponibilizado para que os noivos aguardassem o momento da entrada. Embora tenha desfrutado de um dia maravilhoso, no final da tarde, estava começando a sentir um aperto no peito. Será que era essa a sensação tão comentada pelas noivas? – Fique calma, Tatiana. Seu noivo já chegou e está se preparando para subir ao altar. Eu não sei quem está mais nervoso, você ou ele. Toda hora aquele homem me liga para confirmar se você não desistiu. Deu até vontade de brincar, mas fiquei com medo de que você ficasse viúva antes de casar. – Haha, engraçadinha. Como você consegue ter bom humor sabendo que sua irmã está tão preocupada? – Alguém tem que quebrar o clima, não é? Brincadeiras à parte, eu já te disse o quanto está linda? – Ainda não. Obrigada, querida. Eu sonho em vê-la assim vestida de noiva também. Fiquei tão envolvida em meus problemas que não te perguntei: onde está Otávio? – Aquele lá? Já dançou. Me enrolou um dia, dois, no terceiro mandei passear. Um dia eu vou encontrar alguém que me olhe como eu vejo Marcos te olhando. – Vai sim, minha irmã. Você é linda, não tenha dúvidas disso. O celular de Lana tocou em seguida, e pelo seu tom de voz, percebi que falava com Marco.


– Ela está aqui, cunhado, não vai fugir. Já está indo para o altar? Pronto, então fique lá esperando porque a noiva precisa se atrasar. O quê? Um cara cheio de princípios como você não pode querer quebrar essa tradição. Ok. Daqui a uma hora, mais ou menos. Tchau. Dessa vez, minha irmã iria me fazer sorrir. Ela não ajudava em nada com o nervoso do meu noivo. – Coitado, Lana. Deve estar tão desesperado quanto eu para acabar logo com isso. Eu não vou fazê-lo esperar mais. Brisa entrou na sala, provavelmente a pedido de Marco, respondendo no lugar de minha irmã. – Vai esperar, sim. Estou me divertindo tanto em vê-lo agoniado naquele altar. Seus olhos não saem da porta e os convidados já estão começando a se perguntar como você conseguiu amansar um homem tão escorregadio. – Os convidados já estão fazendo o seu próprio julgamento, Bri. – Pelo contrário, querida. Todos estão vendo e comentando sobre o amor que está resplandecente no rosto de Marco. Se alguém tinha dúvidas de que esse casamento é por amor, elas foram dissipadas hoje. – Obrigada, Brisa, está tudo tão perfeito que tenho medo de que algo ruim aconteça. – Nada irá acontecer, Tati. Vai dar tudo certo. Permaneci cerca de 20 minutos aguardando enquanto recebia a visita de Sra. Esperanza com meu filho no colo e de dona Laura. Minha mãe também veio me ver e fiquei agradecida quando não voltou a comentar sobre Augusto. – A Marcha Nupcial já começou a tocar, querida. Vamos? – Minha mãe chamou. Chegou o momento. Em instantes, a minha felicidade estaria completa. Fomos para a frente da igreja e percebi que as pessoas estavam começando a se posicionar. Primeiro entraram os pais de Marco, seguidos da minha mãe e minha irmã, que estava com Lorenzo nos braços. Depois foi a vez de Alfonso e Brisa. Duas damas de honra entraram, jogando pétalas por toda a igreja. Tudo estava tão lindo que parecia estar vivendo um sonho. Por fim, foi a vez da pequena Luiza. Que menina esperta! Ela caminhou, com suas pequenas pernas, segurando uma linda almofada de coração onde estavam as duas alianças. – Oooooohhhh. – Os convidados suspiraram. Era possível ouvir sussurros entre eles que estavam emocionados e apaixonados pela filhinha de Brisa e Alfonso. Quem não ficaria?


Agora era a minha vez. Sr. Ribeiro segurou o meu braço e nos conduziu para o tapete vermelho. Quando alcancei a entrada, todos se levantaram para ver a noiva. Meus olhos só buscavam uma direção que logo foi encontrada. O homem mais lindo que essa terra já produziu estava no altar esperando a minha chegada. A minha chegada. Eu havia encontrado o meu príncipe encantado, o meu cavaleiro de armadura brilhante. Ele também não parava de me olhar e parecia que iria sair do altar a qualquer momento para vir me buscar. Comecei a caminhar com um lindo buquê de rosas vermelhas nas mãos. Olhei para os lados e consegui reconhecer alguns convidados como Clara e Benito, Lúcia e seu mais novo namorado, alguns colegas da empresa e alguns parentes que não via há algum tempo. A cada passo que dava, rostos conhecidos iam se formando e os olhares e sorrisos de felicidades demonstravam que todos estavam torcendo por mim. O altar estava se aproximando e Marco já tinha dado dois passos à frente para encurtar ainda mais o caminho. O padre já se prontificava para iniciar e cerimônia e, rapidamente, repassei os votos em minha mente. Sr. Ribeiro estendeu a minha mão para que Marco viesse me buscar. Antes de me entregar, deu um beijo em meu rosto e me desejou boa sorte. Eu sorri para ele e agradeci. Meu noivo veio prontamente e segurou a minha mão, me conduzindo ao altar. Parou por um segundo, apenas para sussurrar uma declaração: – Linda, minha rainha. Eu te amo. Uma lágrima solitária desceu pelo meu rosto, depois de tanto tempo tentando segurá-la. – Eu também te amo. Nos posicionamos na frente do padre e ele deu início à cerimônia. – Amigos e amigas, parentes do noivo e da noiva, estamos todos reunidos nesse momento para celebrar a consumação do amor entre o Sr. Marco Javier e Srta. Tatiana Carvalho. Podemos ilustrar Marco com uma corda e Tatiana como outra. Se cada corda for puxada separadamente, a probabilidade de quebrar é maior, porém se estiverem juntas, as chances de quebrar serão quase reduzidas a zero. Assim é o amor de vocês. A partir de agora será apenas uma corda de duas dobras. Sim, era assim que eu estava me sentindo naquele momento. Forte com uma corda de duas dobras. Ninguém poderia atrapalhar o nosso amor. Olhei para o lado e minha mãe estava chorando. Observei ao redor e a maior parte da igreja


estava emocionada com as palavras ditas. Eu também já não conseguia me conter e as lágrimas rolavam livremente. O padre continuou a falar e eu estava cada vez mais envolvida com tantas frases que enalteciam o amor. Marco apertava a minha mão como se fosse quebrá-la de tão nervoso e emocionado que estava. Sabia que os medos sentidos há pouco eram todos infundados. Tudo estava melhor do que poderia imaginar um dia. O sermão estava quase terminando e em seguida viria o momento dos votos que faríamos um para o outro, quando ouvi um estrondo que vinha da porta. – Pare esse casamento! – Alguém gritou. Olhei para trás e vi um senhor desconhecido, vestido de terno e gravata e mais quatro policiais lhe dando suporte. – O que está acontecendo, Marco? – Perguntei, assustada. – Eu não sei. – ele caminhou em direção ao homem – Quem você pensa que é para invadir o meu casamento desse jeito? – Eu sou o delegado Martins e vim cumprir um mandado de prisão. – os policiais se aproximaram de mim, segurando o meu braço. – Srta. Tatiana Carvalho, você está presa! – Oooooohhhh! – Os murmúrios dessa vez foram por outro motivo. Eu estava buscando palavras para perguntar alguma coisa, mas a minha voz estava embargada pelo bolo formado em minha garganta. Estava me afogando em lágrimas, sem conseguir sequer me defender. – Soltem a minha noiva, agora. Que porra de acusação foi feita? Ela é a pessoa mais honesta que já conheci nessa vida. Lorenzo começou a chorar e só conseguia observá-lo de longe. Eu estava petrificada, sem reação, sendo segurada por dois homens como uma bandida. Sr. Javier se aproximou de Marco. – Calma, filho, olha o que vai dizer. Nervoso não resolve nada. Se a garota está sendo presa, provavelmente há motivos, e logo você saberá. Oh, Deus, se meu futuro sogro já não confiava em mim, agora é que ele terá todas as razões para desconfiar. – Eu tenho direito a saber, porra. Do que ela está sendo acusada? O delegado resolveu abrir a boca, me deixando muda de vez com o que declarou.


– Uma denúncia foi feita e há provas de que a Srta. Tatiana está por trás dos desvios de dinheiro que estavam ocorrendo na Construtora Carlos Ribeiro. Maiores esclarecimentos só poderão ser dados na delegacia. Nos desculpe, mas estamos apenas cumprindo a lei. A igreja se transformou na Torre de Babel. A minha mãe gritava que não podia confiar em Marco, pois ele deixaria que me levassem, o Sr. Javier a repreendia, Lorenzo chorava, os convidados sussurravam uns com os outros e eu estava sendo arrastada do local como uma ladra. Marco tentou me defender, mas os outros policiais o impediram e só me restava o olhar, implorando para que não reagisse e acabasse preso também. Estava me aproximando da saída, quando um rosto conhecido me chamou a atenção. Um não, dois. A ex-noiva de Marco, Andréa, estava de pé, com um sorriso cínico nos lábios me olhando e ao seu lado estava Augusto com o rosto sério, olhando para o chão. Essa foi a última imagem que meus olhos conseguiram identificar naquela hora. O silêncio me alcançou e uma neblina escura tomou o lugar de tudo que estava à minha frente.


Capítulo 20

Andréa

– Você não precisava fazer as coisas desse jeito. Poderia ter denunciado antes para que ela não passasse por esse constrangimento. Eu tenho mesmo que pedir paciência aos céus para aguentar essa criatura. Odeio homens fracos. Estou com ele enquanto não alcanço meus objetivos, mas logo, logo me livrarei dessa pedra em meu sapato. – Se a denúncia fosse mais cedo, talvez conseguissem liberá-la antes do casamento. Aí, o seu amorzinho seria uma mulher casada agora. – Droga! A gente tinha que ter arrumado outra forma. Você não quis ouvir a ideia de sequestrála ou de chantageá-la com o bebê. Que mente fraca! Sem minha ajuda estaria agora chorando pela mulher perdida. – Todos os seus planos eram falhos, Augusto. Eu sei o que estou fazendo. A família de Marco irá pressioná-lo tanto que não terá forças para lutar contra princípios bem-construídos. Eles não admitem escândalos envolvendo seu nome. Ele vai acabar abrindo mão dela e quem poderá consolar a noivinha? Você, claro. – Não sei. Acho que nos arriscamos demais. – Chega! Eu sei o que estou fazendo. Já cometi erros antes, mas não irei repeti-los. Você tem mais chances do que eu e nem por isso estou choramingando. Reconquistar a confiança de Marco será mais difícil, porém, vou fazer o possível para provar que sou uma nova mulher. – Você não pode julgar o que estou sentindo agora. Imagine se fosse o amor da sua vida que estivesse preso e você soubesse que é responsável por isso, como se sentiria? – Se tivesse alguma chance dele voltar para mim depois, estaria soltando fogos. Deixe de falar besteiras e vamos comemorar. Os nossos planos estão dando certo e logo seremos dois casais apaixonados. Peguei uma garrafa de vinho e lhe entreguei. Ele abriu e encheu duas taças, me entregando uma. – Sabe, Augusto, eu deixaria aquele pirralho com você e aquela sonsa. Não gosto de crianças


e não queria ninguém entre eu e Marco, porém sei que ele não abandonará o filho em hipótese alguma e, olhando pelo lado bom, me poupa de cobranças para ter um bebê. Você terá que dar um jeito de procriar com aquela lá para que não encha o saco atrás do pequeno herdeiro. – Eu teria quantos filhos Tatiana quisesse. Nada me faria mais feliz nessa vida. – Você os terá. Não se preocupe. – Qual é o próximo passo agora, Andréa? – Primeiro, fazer com que toda a mídia saiba sobre esse escândalo. Eu tenho vídeos e imagens do momento que a polícia chegou. Enquanto isso, estou mantendo um juiz para cassar qualquer alvará de soltura que emitirem para ela. Não fique triste, você irá me agradecer no futuro. – Eu vou confiar em você. Se algo der errado, acabo com sua raça. – Hum... Adoro o seu lado valentão. Venha me mostrar como pode começar a acabar com a minha raça na cama, venha. Cão que ladra, não morde. Eu ainda não podia ter Marco ao meu lado, então me contentaria em usar esse brinquedinho por enquanto. Não era lá essas coisas na cama, mas era muito útil para o sucesso dos meus planos. Tatiana não sabe com quem mexeu quando resolveu se meter novamente em meu caminho.


Capítulo 21

Ele

Estava na delegacia, andando de um lado para o outro, enquanto Alfonso conversava com o delegado. Eu estava de cabeça quente e ele me pediu para intermediar, pois eu poderia falar algo que piorasse a situação. A minha rainha, minha doce noiva, a mãe do meu filho estava jogada em uma sela de prisão, respondendo por um crime que não cometeu. Isso era tudo culpa minha. Se eu tivesse intensificado a busca do criminoso, não estaríamos nessa situação agora. Achar esse filho da puta que estava roubando a empresa se tornou a minha missão de vida. Eu começaria descobrindo quem fez a denúncia ou não me chamo Marco Javier. Alfonso estava de volta, de cara fechada. – O delegado me mostrou as provas. Há extratos de uma conta bancária em nome de Tatiana, contendo o mesmo valor que foi desviado da empresa. – Ele disse quem denunciou? – Não. Apenas disse que se tratava de denúncia anônima. Não vamos nos concentrar em quem fez isso, Marco. Temos que tirá-la daqui. – Sim, esse será o primeiro passo. O segundo será descobrir quem tem interesse em prejudicála, pois isso vai nos levar ao verdadeiro ladrão. – Sr. Ribeiro já acionou sua equipe de advogados e ela deve ser liberada a qualquer momento. Se tiver que responder, que seja em liberdade. – Eu não acredito nesse pesadelo. Quando penso que tudo vai entrar nos eixos, outra coisa acontece. – Marco, você sabe que a mídia vai cair matando na família Javier e na Ribeiro, não é? Pelo bem da saúde de nossas empresas, você terá que ficar um pouco distante de Tatiana por um tempo. Deixe a poeira baixar, ela entenderá. – Foda-se tudo. Eu não vou ficar nem mais um minuto longe dela. Já pensou no perigo que está correndo? Tem um psicopata querendo foder com as nossas vidas e quem sabe a que ponto pode chegar?


– Tem razão. Mudando de assunto, você viu Andréa na cerimônia? – Quem? – Achei estranho. Será que ela queria se certificar de que não tinha mais chances com você? Ela estava conversando com aquele contador da empresa e parecia bastante animada com os acontecimentos. Eles já se conheciam? Caralho, o que será que aquela vadia queria em meu casamento? Ela poderia ter algo a ver com o que aconteceu? – Não sei se eles já se conheciam, mas saberei em breve. Eu nunca confiei naquele cara. Além de ser o tipo certinho demais, que não comete erros, queria a mesma pessoa que eu. Fiz investigações sobre ele e não havia qualquer atitude que o condenasse e sempre foi da mais alta confiança do Sr. Ribeiro. – O encontro deles na igreja pode ser apenas coincidência. – Ou não. Colocarei um detetive no pé dos dois. Algo me diz que agora estarei no caminho certo.

****************

– O pedido de soltura foi negado mais uma vez. O juiz alegou que ela representa risco à sociedade e que deve responder na prisão. – Carlos Ribeiro falou, parecendo triste. – Droga! Que merdas de advogados são esses? Eu quero os melhores deste país, porra! Já tem dois dias que ela está pagando por um crime que não cometeu. – Eu sei disso, Marco. Tatiana seria incapaz de tirar qualquer centavo que não lhe pertencesse dessa empresa. Tentei retirar a denúncia, mas as provas foram consideradas suficientes para que permanecesse presa. – Tudo bem, Carlos. Obrigado pelo apoio. Saí de sua sala e fui em direção à minha. Não comentei com ele sobre a minha desconfiança, pois talvez não acreditasse, já que não tenho provas. Resolvi beber um pouco de água e fui até a copa. Augusto estava lá. – Marco, eu gostaria de prestar a minha solidariedade com o que aconteceu. Gosto muito de Tatiana e estou disposto a ajudar no que for possível. Tentei ler qualquer gesto em seu rosto que o denunciasse, mas ele sabia esconder bem suas


reações. Resolvi fingir que acreditava. Esse era o momento de me aliar para depois destruir. – Obrigado, Augusto. Provavelmente vou precisar de sua ajuda para entrar em arquivos pessoais agora que sabemos quem era a ladra que estava nos roubando. Como ela conseguiu nos enganar, hein? Ele pareceu assustado. – Você acredita mesmo que era Tatiana quem estava fraudando os números? – Claro. Quem mais poderia ser? Ela era a única acima de qualquer suspeita e conhecia todos os departamentos. Felizmente, a verdade sempre prevalece. Dessa vez, ele gaguejou, antes de responder. – Eu... Eu não consigo acreditar que ela seja culpada, mas ainda assim estarei aqui para o que for preciso. – Está certo. É bom saber. – Respondi. Peguei um copo com água e fui para a minha sala. Sem demora, liguei para Benito. – Pronto. – Benito, me consiga o contato que usou para encontrar Clara quando foi sequestrada, por favor. – Claro. Mandarei por Whatsapp. O meu padrasto está tentando intervir para tirar Tatiana de lá. Quero que saiba que não estamos de braços cruzados. – Eu só posso agradecer. Toda ajuda nesse momento é importante. Desliguei o celular e segundos depois, ouvi um barulho, avisando que havia chegado mensagem. Visualizei e disquei o número na hora. – Lucas Spy falando. – Como vai, sou Marco Javier e fui indicado por Benito Adams, produtor da banda No Return. – Sei, o amigo de Zeus Melino. Você deve ser o cara que está nos principais jornais sensacionalistas. Precisa dos meus serviços? – Sim. Eu quero os seus melhores funcionários no rastro de duas pessoas. Pago bem e se me trouxer as respostas que preciso, posso te garantir que ficará muito feliz com a gratificação. – Nós sempre oferecemos o melhor serviço. Fale-me sobre essas pessoas. Dei-lhe todos os detalhes que eu poderia fornecer sobre os dois. Eu tinha pesquisado o endereço de Augusto e o informei também. Afirmou que viria do Rio para a Bahia e estaria iniciando a investigação imediatamente.


Alfonso adentrou a sala, parecendo cansado. – Os advogados entraram com outro pedido de habeas-corpus. Vamos ver se conseguimos soltá-la dessa vez. – Eu não vou suportar saber que minha rainha passará mais uma noite naquele lugar imundo. Eu a quero aqui ao meu lado. – Nós vamos conseguir tirá-la de lá, meu irmão. Tenha confiança. Assenti, sem ter outra opção no momento a não ser esperar. – Estou indo para a delegacia agora. Daqui a pouco começará o horário de visitas e não quero perder sequer um minuto. Preciso ver como está. – Vá, mas tome cuidado com a imprensa. Quase não me deixaram entrar aqui. Ah, já ia esquecendo: papai pediu para avisar que tinha que voltar por causa da empresa e mamãe ficou, pois está revezando nos cuidados com Lorenzo. – Tudo bem. Ele não ajudaria muito aqui. Nunca confiou em Tatiana. Peguei a chave do carro e saí em direção à delegacia. Tinha contratado dois guarda-costas para tomar conta da minha família e outro para me acompanhar. Eu não daria conta da imprensa sozinho. Cheguei à delegacia e todos já sabiam quem eu era, liberando a minha passagem, após ser revistado. Entrei em uma sala vazia, de paredes sujas, iluminada por duas lâmpadas fracas, fazendo com que o ambiente estivesse meio escuro. Sentei em uma cadeira e aguardei por cerca de cinco minutos antes de Tatiana entrar no local. Ela parecia desidratada, com o rosto pálido e fraca. Levantei para ir ao seu encontro, mas tive medo de abraçá-la forte, pois a impressão que tinha era que poderia quebrar. – Minha rainha, estou fazendo o possível para te tirar desse lugar. Aguente firme, meu amor. Com olhar triste, logo perguntou: – Meu filho. Onde está Lorenzo? – Querida, eu não podia trazê-lo aqui, mas ele está muito bem. Nossas mães estão cuidando dele. Está conseguindo comer alguma coisa? – Quase nada. – Eu trouxe algumas frutas e outros alimentos. Preciso que se esforce para se manter saudável. Promete?


– Vou tentar, Marco. Já descobriu quem inventou tudo isso contra mim? – Ainda não, mas tenho desconfianças. Acho que estamos no caminho certo dessa vez. – E Sr. Ribeiro? Ele está acreditando que realmente fui eu quem roubou o dinheiro? – Não. Ele sabe que alguém planejou tudo isso. Estamos juntos nas investigações. – Sua família deve estar me odiando. Me perdoe, querido, não queria manchar o seu nome. – Pare com isso agora, Tatiana. Você não tem culpa de nada e vamos conseguir provar a todos a sua inocência. Ela me deu um abraço fraco que mostrava a sua fragilidade. – Obrigada por acreditar em mim. Eu te amo tanto. – Eu também te amo muito, minha rainha. Tudo vai ficar bem, eu prometo.


Capítulo 22

Ele

– Alô, é Marco Javier? – Sim, Sr. Spy, tem notícias? – Acho que vai gostar do que conseguimos. Podemos nos encontrar em algum lugar? – Tem um café a duas quadras do apartamento onde estou. Poderia ir até lá? – Sim. Chegarei em uma hora. – Perfeito. Fiquei andando de um lado para o outro na sala, tentando imaginar o que ele teria visto. Eu sabia que aqueles dois estavam aprontando alguma desde o momento que Alfonso me falou que os viu juntos. Andréa sempre deixava pistas das merdas que fazia. Quando eu tiver provas contra ela, e eu as terei, farei com que pague por tudo o que fez a mim e a Tatiana. Ela não perde por esperar. Saí do meu quarto e entrei na sala, onde minha mãe estava alimentando Lorenzo. Tomei a colher da mão dela e comecei a fazer ‘aviãozinho’ do prato até sua boca. Ele se acabava na gargalhada e, como era muito bom de garfo, aceitava tudo o que lhe oferecia. O sorriso daquela criança era o principal combustível que me impulsionava a prosseguir. Eu tinha que colocar uma pedra em cima desse vulcão em erupção que a nossa vida se tornou. Por mim, por Tati e, principalmente, por ele. Devolvi o prato à dona Esperanza e fui me servir com uma dose de uísque. Precisava relaxar um pouco para o que viria em seguida. – Seu pai disse que a impressa não está lhe deixando em paz na Espanha. A notícia já vazou por lá e há ameaças de que a empresa perca alguns contratos importantes. Droga! Mais essa agora. – Vou ver o que Alfonso pode fazer a esse respeito. Eu vou me concentrar em achar o verdadeiro culpado e então poderemos limpar a nossa imagem diante da mídia e da sociedade. – Faça isso, querido. Seu pai não tem mais idade para segurar as pontas sozinho. – Mãe, vou precisar sair. Não sei que horas devo voltar, mas me ligue, se necessário. Não saia


sem os seguranças, entendeu? – Tudo bem, filho. Fui para o café esperar por Lucas Spy. Para minha sorte, ele não demorou a chegar. Sentou-se à minha frente na mesa e colocou um envelope pardo sobre ela. – Então, conte-me o que descobriu. Ele abriu o envelope, espalhando algumas fotos que me deixaram boquiaberto. – A sua sogra está se encontrando com Augusto e, pelo visto, pretende ajudá-lo a conquistar sua filha. Um dos meus homens conseguiu ouvir uma conversa entre eles. Parece que está enchendo a cabeça dela contra você e a usando para tentar uma aproximação. – Filho da puta! E Andréa? Conseguiu achar alguma relação entre os dois? – Aí é onde está a bomba. Eles mantêm uma casa em uma área pouco habitada da cidade. Conseguimos segui-lo sem sermos percebidos e chegamos até ela. Seu carro estava parado na porta, então aguardamos até que saíssem. Cada um saiu em um horário e em um carro diferente. A estratégia deles é a mais primitiva que já vi depois de anos de serviço. Pelo que percebi, não são profissionais e não será difícil pegá-los. – Ótimo. É exatamente o que preciso. Conversamos por boa parte da tarde e armamos um plano para pegarmos aqueles dois. Eles se achavam espertos, mas eu faria com que morressem com sua própria picada. A nossa ideia era tão primitiva quanto a deles, mas estava muito confiante que a nossa alcançaria o alvo.

****************

Eu havia pedido para que Lucas colocasse escuta e câmera na casa e nas roupas lá guardadas. Eu tinha lhe dado um prazo de vinte e quatro horas para que conseguisse alguma gravação. Eu não daria mais um minuto sequer. Era insuportável saber que Tatiana permanecia trancada naquele lugar. O tempo havia findado e não conseguimos nada que os incriminassem. Teríamos que passar para a próxima ideia. O padrasto de Benito, Sr. Paulo Redfort, estava nos ajudando com um delegado e mais dois policiais em serviço. Eu tentaria marcar um encontro com Andréa em um lugar reservado e tirar as confissões dela. Eu sabia que ela cairia como um patinho, pois estava agindo movida por seus sentimentos. Era essa a arma que usaria.


Eu liguei para Augusto, marcando com ele no mesmo lugar, alegando que teríamos uma reunião fora da empresa para acertarmos alguns pontos restantes no contrato que estávamos fechando. Pedi sigilo profissional, pois a concorrência estava de olho e ele concordou, confirmando que apareceria. Se eu desse sorte, tiraria uma confissão dele também. Peguei o meu celular e disquei o número da vadia. – Marco, querido, é você mesmo quem está me ligando? – Claro, Andréa, estou com saudades. Você ficou sabendo do que aconteceu no meu casamento? – Fiquei, sim. Não posso dizer que lamento, pois sabe o quanto gostaria que fosse eu a estar naquele altar com você. – Sei disso e depois que descobri que quase me caso com uma ladra, repensei e considerei melhor reavaliar os meus relacionamentos. É melhor que eu esteja com alguém que pertença ao meu meio. – Concordo plenamente, Marco. Tenho consciência que errei, querido, mas me arrependo tanto. Estou disposta a ser a melhor mãe do mundo para o seu filho, se quiser. Basta dizer a palavra. Fingida do caralho. Eu ainda piso nela como se pisa em um inseto nojento. – Eu não tenho como sair do Brasil agora. Teria como pegar um avião e vir para cá? Ela ficou em silêncio por um tempo, antes de responder: – Por coincidência, já estou no Brasil. Estava negociando com algumas marcas daqui e resolvi estender a estadia. País lindo, não? Entrei no jogo. – Sem dúvidas. Lugar perfeito para passar uma lua-de-mel com a mulher certa. – Quando eu poderia encontrá-lo? – Hoje ainda se quiser. No final da tarde, estaria perfeito para mim. Vou mandar uma mensagem com o endereço, mas gostaria de salientar que ninguém deve saber do nosso encontro, por enquanto. A imprensa não está me deixando em paz. – Claro, querido. Segredinho só nosso. Marquei para encontrá-la em um restaurante que tinha espaços reservados. Já tinha minha cota de mídia no pé e não gostaria de chamar a atenção de mais ninguém. Escolhi um lugar público, pois era a única forma de Augusto acreditar que se tratava de fato de uma reunião.


Paulo Redfort e o delegado de plantão foram conversar com o dono do restaurante e lhe explicar a situação. A princípio ficou preocupado, mas ambos o tranquilizaram, fazendo com que concordasse com a instalação de câmeras e escuta. Tudo já estava pronto e eu já aguardava a chegada de Andréa. Augusto só chegaria meia hora depois quando eu estivesse tentando extrair as informações dela. A área ficava nos fundos do restaurante, permitindo privacidade em relação aos demais ambientes. Sentei, pedindo uma dose de uísque e solicitei que trouxessem o melhor champanhe da casa e deixasse no balde de gelo sobre a mesa. A intenção era que ele encontrasse uma atmosfera de romance fosse o mais real possível. Como era de se esperar, ela foi pontual. Estava linda como sempre em seus cabelos loiros fazendo contraste com um justo vestido preto e saltos altíssimos. Contudo, toda essa beleza não enchia os meus olhos. Menos ainda alcançava o meu coração. Levantei para recebê-la e lhe dei um beijo no canto da boca. Ela passou um dedo no local do beijo como se não acreditasse no meu gesto. – Querido, não sabe o quanto estou feliz pelo convite. Eu sabia que em algum momento iria cair na real e perceber que eu sou a pessoa certa para você. – Que sorte eu tenho, hein? O mundo conspirou a meu favor a tempo de descobrir que me envolvia com uma ladra. – Verdade, amor. Eu sempre desconfiei daquela mulher. Esse povo de classe média é assim, Marco, não aguenta ver dinheiro, mesmo que não lhe pertença. – Eu não sei onde estava com a cabeça quando decidi me envolver com ela. – sentei ainda mais próximo de Andréa. – Quando tudo aconteceu só pensei na besteira que fiz abandonando a mulher perfeita que estava ao meu lado. – Oh, bebê, como sonhei em ouvir isso. Puxei seu rosto em minha mão e tomei os seus lábios em um beijo molhado, provocante e amargo. Muito amargo. O meu desejo era de vomitar naquele mesmo lugar, de preferência em cima dela, porém tinha que permanecer firme em meus planos. Tatiana dependia disso. Prolonguei o beijo, tentando parecer excitado e ela retribuía como se sua vida dependesse disso. Soltei seus lábios, deixando-os manchados de batom e inchados. Limpei os meus com a língua e ela acompanhou todo o movimento com os olhos, respirando fundo, demonstrando que estava


excitada. – Linda! Você é tão linda, Andréa. – Não mais que você, amor. Vamos embora desse país, Marco, não há mais o que fazer aqui. Leve seu filho e peça a guarda dele. A mãe está presa mesmo e ele só tem a nós para cuidar. – É tudo o que eu quero, querida, mas sabemos que Tatiana não é a única responsável pelos desvios. Ela não faria isso sozinha. Assim que eu achar seu cúmplice, voltarei no primeiro voo para a Espanha, e assim, poderemos começar a nossa família. Ela arregalou os olhos e permaneceu me olhando por mais de um minuto. Respeitei seu tempo, sabendo que morderia a isca. – Mar-Marco, se você conseguir as respostas que precisa, promete que volta para a Espanha assim que puder? – Perguntou, nervosa. Bingo! – Claro. O que mais eu faria nesse país que só me trouxe problemas? Ela pensou um pouco mais e resolveu abrir a boca. – Querido, você sabe o quanto o amo, não é? Em nome desse amor, fiz algumas investigações quando voltou ao Brasil, pois queria que resolvesse logo e retornasse. Com os acontecimentos, fiquei chateada e resolvi manter as informações. Mentirosa do caralho. Vamos ver até que ponto ela chega para sustentar suas mentiras. – Você tem informações que possam nos ajudar, amor? – Sim. Eu sei quem era o aliado da secretária nos desvios de dinheiro. Filha da puta! É claro que não iria isentar Tatiana do crime. – Me dê logo os nomes. Eu preciso saber e acabar com esse inferno que me prende aqui. – O chefe de contabilidade da empresa. Seu nome é Augusto Haggi. Foi ele quem desviou tanto dinheiro e estava depositando na conta de Tatiana. Acho que planejavam fugir. Ela me contou a história com tanta tranquilidade que quem não a conhecesse acreditaria em cada palavra. Fingi surpresa em tudo o que falava, até que uma voz masculina a interrompeu, quebrando a sequência de mentiras que saia de sua boca. ‘Timing’ perfeito! – Não, sua vadia! O que está fazendo? – Augusto olhou para mim. – Então era tudo um plano? Não havia qualquer reunião? Vou embora daqui. Ele estava se virando para deixar o lugar quando ouviu a próxima fala dela, fazendo com que


reagisse. – Pode contar a verdade para ele, Augusto. Não se preocupe que Marco não quer mais nada com Tatiana. Vocês podem ficar juntos se ela conseguir sair daquela prisão. Diga-lhe como a ajudou nos desvios de dinheiro. – Você é louca, sua puta? Sabe tão bem quanto eu que Tatiana não tem nada a ver com essa história. Apenas me aproveitei de uma procuração assinada por ela na empresa, que me deu a chance de passar o dinheiro para a sua conta e depois retirar. A única cúmplice que tive foi você. – Oh, meu Deus, eu nem te conheço. Não acredite nele, Marco. Tudo o que sei a seu respeito é o que investiguei. – Você mexeu com fogo, Andréa, eu não vou me foder sozinho. Se a casa cair, você cai junto com ela. – Como pode inventar tantas mentiras sem provas? Quer inocentar aquela ladra às minhas custas? Vocês dois se merecem. – Ela se mantinha fingindo. Hora das máscaras caírem. Peguei o envelope pardo de minha pasta e o sacudi sobre a mesa, espalhando diversas fotos dos dois juntos na casa escondida, em restaurantes e outras mais íntimas que mostravam beijos e carícias entre eles. – O que? O que é isso, Marco? Como conseguiu essas montagens? Por que está fazendo isso com a gente, amor? Ela veio ao meu encontro em busca de um abraço, se derramando em lágrimas. Eu a empurrei para longe de mim, fazendo com que ficasse congelada, com olhos assustados e lacrimosos, e com a mão sobre sua boca aberta. Antes que eu lhe desse uma resposta, fui interrompido por Augusto. – Chega de fingimento, sua putinha. Você fodeu tudo com o seu egoísmo. O plano era que você reconquistasse esse idiota aos poucos e eu tomasse o seu lugar na vida da minha Tati. Se fosse menos burra, chegaríamos ao alvo. Até a minha futura sogra já tinha convencido a me ajudar. – Então você admite que é o responsável pelos desvios de dinheiro da Construtora Carlos Ribeiro, não é? Além de Andréa, alguém mais te ajudou? – Joguei o verde. – Sim, imbecil, levei tudo o que merecia e um pouco mais por anos de dedicação àquela empresa. Eu não precisava da ajuda de mais ninguém lá dentro, pois sempre fui autossuficiente. Meu único erro foi ter me juntado com essa vadia, pensando que tínhamos o mesmo objetivo. Não adianta correr para os pés de Sr. Ribeiro e fazer fofoca. Você nunca vai conseguir provar e ele nunca vai


acreditar sem provas. Sempre fui da sua mais alta confiança. – Tem razão. Provavelmente ele nunca acreditaria sem provas, mas ele terá todas que precisa. Paulo Redfort e os policiais que estavam escondidos entraram na área reservada, algemando os dois desgraçados. O delegado os acompanhou, dando voz de prisão. – Sr. Augusto Haggi, você está preso em flagrante delito, pelo crime de gestão fraudulenta, apropriação e desvio de valores, e Srta. Andréa Gomez está presa pela cumplicidade na prática dos crimes outrora citados. Serão conduzidos a uma delegacia, tendo o direito de ficar calados, pois tudo o que for dito poderá ser usado contra vocês no tribunal e têm direito a um advogado que, caso não consigam pagar, será disponibilizado pelo Estado. Nos acompanhem, por favor. Andréa esperneou, gritou e se debateu, mas nada do que fazia podia impedir os policiais de levá-la. – Sabem quem sou eu? Tenho dinheiro. Posso acabar com a raça de todos aqui. – Ela gritava. – Você será autuada também por desacato à autoridade e crime de ameaça. Só está se complicando. É melhor permanecer calada, mocinha. – A informou um dos policiais. Augusto baixou a cabeça e se deixou se levado sem protestar. Não disse uma palavra sequer nem fez qualquer movimento que tentasse impedir a ação policial. Os acompanhei até a viatura da polícia, registrando toda a cena em minha mente, a fim de me convencer que finalmente teria um pouco de paz. Cerca de dois fotógrafos estavam esperando a minha saída e, pelo visto, conseguiram um furo de reportagem. Dispararam inúmeras fotos do momento que os dois presos entraram na viatura. Andréa logo estaria na mídia. Agora tinha que juntar as provas para soltar Tatiana daquele inferno o mais rápido possível. Apertei a mão do delegado e do padrasto de Benito. – Obrigado pela ajuda. São pessoas como vocês que ainda nos fazem acreditar que a justiça existe e funciona. Obrigado por terem confiado em mim e em meus planos. Tenho uma dívida pessoal com cada um de vocês. – Não precisa agradecer, Marco. Estamos aqui para isso. Você nos mostrou as fotos deles juntos e apenas ligamos os pontos. Percebemos que sua história tinha um fundo de verdade e que essa poderia ser a chance de descobrirmos. A polícia também tinha interesse no caso. – Mais uma vez, obrigado. Preciso ir. Tenho que levar as provas para os advogados. Quero que minha rainha seja logo liberada e possa dormir ao lado de sua família ainda esta noite. – Claro, se apresse.


Foi o que fiz. Dei longos passos em busca da minha felicidade definitiva. Agora nĂŁo havia dĂşvidas de que a encontraria.


Capítulo 23

Ela

A janta fornecida pelo sistema penitenciário tinha acabado de chegar e eu estava tentando beliscar alguma coisa. Lembrei do pedido que Marco fez para que me alimentasse e tivesse forças que logo me tiraria dali. Eu sabia que não estava de braços cruzados esperando que um milagre acontecesse. Ele deveria estar fazendo todo o possível para me ver fora desse lugar. Engoli apenas três colheres do alimento e o pus de lado, sem conseguir colocar nem mais um grão para dentro. Não aguentava mais aquela comida, não aguentava mais ficar naquele lugar e, sobretudo, não aguentava mais ficar longe do meu filho. Estava sozinha na cela, pois tinha curso superior e tive a ajuda do padrasto de Benito para que não precisasse compartilhar com outras detentas e, assim, me manter em segurança. Sentei no chão e me encostei nas grades, sem ter nada para fazer, a não ser esperar. Um burburinho começou a se formar no início do corredor e não tive qualquer curiosidade para ver quem era. Pelo menos uma vez ao dia, chegava uma nova presidiária e com menos frequência, saía outra. As outras celas estavam cheias e eu evitava sair da minha, pois poderia haver protestos. O barulho começou a aumentar, mas só voltei minha atenção para o que estava acontecendo porque as outras presidiárias começaram a gritar também. – Chegou mais uma boneca para a gente brincar. – Dizia uma. – Tire o olho que essa aí será minha. – Dizia outra. Tentei identificar o motivo de tanta gritaria quando a chegada de novatas era tão comum. Pressionei meu rosto entre as grades para buscar uma visão melhor, qual não foi a minha surpresa. A garota que estava sendo escoltada para dentro da prisão era ninguém menos que Andréa. – Eu vou mandar tocar fogo nesse presídio. Vocês não me conhecem. Todos vão pagar por cada fio de cabelo meu que for tocado. – Ela gritava. Não era possível que ela estivesse envolvida nos crimes da empresa. Será que sua prisão era


por outro motivo? Eu queria muito acreditar que fosse o primeiro, pois seria um sinal de que descobriram a minha inocência. O barulho ia se intensificando a cada passo que davam. Quando chegou à frente da minha cela, os policias a pararam. Apesar do escândalo, ela conseguiu um segundo de lucidez para me reconhecer. – Ah, sua putinha, então é aqui que está morando agora, não é? Sabe que você combina muito atrás dessas grades? – Por que você foi presa, Andréa? Foi acusada de que crime? – Eu tenho cara de criminosa? Sou inocente e querem me acusar de uma merda que foi você quem cometeu, sua ladra. O meu único erro foi amar Marco demais, sentimento que você nunca terá igual. Então era isso. Ela estava envolvida com alguém da empresa nos desvios com o intuito de me prejudicar. – Alguém mais foi preso? – Ousei perguntar. – Ah, agora virou minha amiga de infância? Quer conversar como pessoas civilizadas? Me conheceria se eu tivesse a oportunidade de estar frente a frente com você. Eu a destruiria. Resolvi lhe dar as costas e acabar com aquela conversa quando finalmente me respondeu. – O contador idiota também caiu na grade, querida. Era isso o que gostaria de saber? Assim como eu, foi movido por amor. Tudo o que queria era sumir com você no mundo e viver um conto de fadas. Patético! Como pode observar, você também tem sua parcela de culpa. Então era Augusto quem estava desviando o dinheiro da empresa. Meu Deus, jamais desconfiei dele. Parecia tão honesto e sincero. Eu e Sr. Ribeiro sempre estivemos errados em nosso senso de julgamento. Eu lhe dei acesso à minha casa. Apresentei à minha mãe e meu filho, colocando toda a minha família em risco. Eu devia ter confiado um pouco mais no sexto sentido de Lana. Ela nunca confiou nele. Outro policial, acompanhado de um homem trajando terno, se aproximou dos que estavam conduzindo Andréa. – Vocês podem abrir as grades dessa cela. Ela vai ficar aqui por um tempo, até que a acusação seja formalizada. Oh, meu Deus, eles a deixariam na mesma cela que eu? Se ficarmos juntas no mesmo espaço, é


bem provável que apenas uma saia viva daqui. Ela me deu um sorriso malicioso, fazendo ameaças silenciosas. – Vocês não podem me deixar na mesma cela que essa maluca. Estou presa por acusação do crime que ela ajudou a cometer. Por favor, me transfira para qualquer outro lugar, mas não me deixe aqui com ela. – A senhora não ficará aqui ou em qualquer outra cela. Está livre. A acusação foi retirada e não há mais processo algum em seu nome. Pedimos desculpas em nome do Estado e logo faremos um pronunciamento público, inocentando-a de qualquer culpa. Pode sair, seu noivo a aguarda lá na frente. Está livre. Foi a única frase que consegui escutar de todo o discurso pronunciado. Liberdade. Não havia qualquer palavra que eu gostaria mais de escutar. Eu estava livre. Livre de tantas injustiças. Livre de tantos sofrimentos. Livre para ter uma família. Livre para amar. Eu saí correndo da cela sem pegar qualquer pertence meu. Andréa começou a fazer escândalo novamente, mas os meus ouvidos e minha mente não registraram uma palavra sequer. Minhas pernas tinham pressa para sair da escuridão. Elas tinham pressa para encontrar a luz. A minha luz estava do outro lado daquela porta. Marco. Lorenzo. Minha família. Alcancei a porta e a escancarei. Fui recebida pelos braços fortes de onde jamais queria sair. Enfim, tinha a minha vida e volta. Enfim, estava de volta ao lugar onde pertencia.


Epílogo

Ele

Havíamos comprado um apart no mesmo complexo de condomínios que Alfonso mantinha o seu. Embora estivéssemos morando na Espanha, fazíamos visitas constantes ao Brasil. Tatiana era muito apegada à família e era uma das marcas que mais amava em seu caráter. Eu e minha esposa estávamos em nossa cama, assistindo aos noticiários e Lorenzo estava entre nós, brincando com um cachorrinho de pelúcia e imitando o seu latido. Estava em uma fase linda, com um ano de idade, e nos divertíamos muito com ele. Eu fazia de tudo para aproveitar o máximo possível de sua infância. Meu pequeno me fez perceber que nasci para ser pai. Estar com a minha família era o que mais amava no mundo. Enquanto conversávamos, percebi que o jornal foi interrompido para o anúncio de uma notícia de última hora. Deixei de brincar com o meu filho e me concentrei no que iria passar na TV. ‘Interrompemos a nossa programação para anunciar a morte de Augusto Haggi. Ele foi acusado e condenado por ter desviado milhões da Construtora Carlos Ribeiro, enviando o dinheiro para uma conta particular no exterior. A sua morte foi devido à sua participação como tesoureiro do crime organizado no sistema prisional. Descobriu-se que ele estava desviando valores da facção e acabou pagando com a pior das penas. Todos sabem que essas organizações não perdoam erros e como se pode ver: o crime não compensa.’ Tatiana estava de boca aberta e olhos arregalados. Eu também não conseguia acreditar que ele chegaria a esse ponto. Essa informação provava que nunca agiu movido por qualquer sentimento que afirmava sentir. Augusto era um mau-caráter em sua essência. Abracei Tatiana, tentando confortá-la. Sabia que lamentava a perda da amizade que pensava ter e que essa notícia trazia à tona dias de sofrimentos que gostaríamos de esquecer definitivamente. Era impossível falar de Augusto e não lembrar de sua cúmplice. Andréa havia sido transferida para a Espanha apenas um mês após a sua prisão no Brasil. O serviço de amparo ao turista entrou em contato com a embaixada, que solicitou sua remoção. Menos


uma nas celas superlotadas. Ouvi boatos de que sofreu tentativas de estupro por parte de outras mulheres na prisão. Não sei se o ato foi consumado. Alfonso me contou que a sua família não lhe deu qualquer apoio. Pelo contrário, a renegou publicamente. A extradição dela permaneceu na mídia por um bom tempo e sua família não queria ter a imagem manchada. Seus pais a repudiavam a cada vez que eram pressionados pelos repórteres. Seus irmãos sequer respondiam qualquer pergunta feita e suas lojas deixaram de ter clientes. Uma a uma foram fechando. Ela continuava presa e alguém comentou, outro dia, que estava trabalhando como costureira na cadeia para juntar algum dinheiro quando saísse e diminuir sua pena. Foi condenada a dois anos em regime fechado e teria que enfrentar a vida real, que tanto odiava, quando saísse de lá. Já não era mais uma mulher rica e, através de uma foto na internet que Tati me mostrou, vi que perdeu também sua beleza. Era uma mulher sofrida e acabada. Enquanto a vida estava lhes fazendo pagar por seus erros, estava sendo muito generosa conosco. Na verdade, estava nos recompensando depois de tanto sofrimento. Assim que Tatiana saiu da prisão, marcamos a nossa data de casamento. Antes da cerimônia, a minha sogra pediu um minuto da minha atenção. – Marco, eu vim te pedir perdão. Sei que o julguei mal e não te tratei como merecia. Eu sinto muito, mas quero que saiba que sempre agi pensando que estava fazendo o melhor por minha filha. Nunca imaginei que estaria tão enganada. Espero que um dia me perdoe. Eu lhe dei um abraço sincero, a surpreendendo tanto, que demorou um pouco a retribuir. – Dona Marlene, hoje é dia de zerar as mágoas e tristezas que tivemos no passado. Hoje é dia de renovação. Eu amo a sua filha e a senhora será parte da minha família. É claro que a perdoo. Ela virou seu rosto para o lado, limpando uma lágrima que caiu de um dos seus olhos. – Vá para o altar, querido. Faça da minha família a mulher mais feliz desse mundo. Ela também te ama muito. Fiz como me pediu, dessa vez com o coração mais leve por saber que tinha o apoio incondicional das duas famílias ali representadas, além da família Ribeiro. Meu pai havia implorado o meu perdão e o de Tatiana com tanta intensidade, que tive medo que passasse mal. Poucas vezes o vi chorar antes, mas naquele dia, ele não poupou lágrimas.


Dessa vez, a cerimônia foi mais simples em uma pequena capela, mas não menos significativa. Quanto à recepção, não abri mão da festa em grande estilo. Conseguimos contratar a banda No Return, que fez da nossa celebração, a mais inesquecível de todas. Se eu não soubesse que tinha uma esposa tão apaixonada, ficaria com ciúmes de Zeus Melino. O cara manda muito bem no vocal, além de ter boa aparência. Não sei se é muito bom com as mulheres, já que parecia ter problemas com uma delas. A garota nos foi apresentada como Jéssica e Tatiana disse que já a conhecia, embora não tinha intimidade. Em um dos momentos que circulamos entre os convidados, não pude deixar de ouvir uma discussão entre os dois. – Está pensando o quê? Que vou ficar correndo atrás de você? Está muito enganado. Pode ser um astro pop, pode ser o presidente dos Estados Unidos ou até o Papa. Eu não vou abanar o meu rabo em sua direção a cada vez que estalar os dedos. – Ela praticamente estava cuspindo cada palavra. – Você está entendendo tudo errado, Jéssica. Eu preciso que dê um tempo de toda essa merda que está pensando e me ouça. – Por que está tentando me explicar qualquer coisa, Zeus? Não temos nada um com o outro, temos vidas diferentes, moramos em cidades opostas e nunca houve promessas. Não estou entendendo aonde quer chegar. – Merda, garota. Estou vendo que não vai facilitar as coisas para mim. – ele tomou o rosto dela em suas duas mãos e mirou em seus olhos – Eu quero você, porra. Será que consegue entender? Vou soletrar: Eu – quero - você. Me afastei de onde estavam porque já tinha ouvido o suficiente. Mais um que estava rendido à sedução de uma mulher. Logo seria capturado pelo amor e aí não teria mais volta. Em outro canto, avistei Lana conversando com um dos componentes da banda. O papo parecia bastante animado e o clima estava favorável para encontros. Torcia para que minha cunhada encontrasse alguém legal. Ela merecia. Tatiana disse que iria ao banheiro e eu fiquei conversando com Benito Adams. Sua esposa, Clara, estava com a barriga enorme e teria bebê a qualquer momento. Continuei conversando e percebi que minha esposa demorava. Olhei para os lados para ver se a encontrava e nem sinal dela. Havia uma música ambiente tocando no intervalo que a banda deu e alguns casais dançavam


juntinhos, enquanto eles não retornavam ao palco. Repentinamente, ouvi um estouro como se fosse uma bomba. O céu ficou todo iluminado por fogos de artifício sendo lançados um a um. Cada pipoco materializava um formato. Alguns em forma de coração, outros de flores e mais outros que lembravam estrelas. Procurei novamente para ver se encontrava Tatiana. Queria que estivesse ao meu lado vendo tanta beleza. – Boa noite aos convidados, obrigada por terem vindo. Eu gostaria da atenção de todos. O que a minha esposa estava fazendo naquele palco? Esses fogos e seu sumiço eram sinais de que estava aprontando alguma. Ela continuou: – Faz um pouco mais de dois anos que olhei nos olhos do homem que reconheci imediatamente como o meu grande amor. Quando o vi, no Carnaval, tive a certeza de que se me olhasse duas vezes, eu estaria perdida, pois era um rosto que jamais sairia da minha mente. E ele olhou. Todos sorriram. – Nesses dois anos, vivemos momentos muito intensos onde o amor sempre tentava falar mais alto, porém sempre foi silenciado por problemas, dificuldades e outras pedras que estiveram em nosso caminho. O que sentíamos um pelo outro sempre foi tão forte que sabíamos não haver opções. Não seríamos completos um sem o outro. Não havia escolhas. Comecei a andar em direção ao palco para me posicionar ao seu lado. Ela viu a minha aproximação e estendeu sua mão, alcançando a minha. Olhando em meus olhos, prosseguiu: – Você é um grande presente e só me resta te agradecer. Quero te agradecer, meu marido, por me sentir única sempre que estávamos juntos, por ter lutado por nosso amor, por me dar esse filho lindo e por estar realizando o meu sonho de ter uma família com você. Eu te amo, Marco, e para sempre, sempre vou te amar. Muitos balões em forma de coração foram soltos, passando por nós e pelos convidados indo em direção aos céus. De mãos dadas, olhamos para cima, admirando toda aquela beleza e nossos olhos voltaram a se encontrar em seguida. Permaneci a fitando, agradecendo internamente por aquela mulher ser minha, apenas minha. – Eu também te amo, minha rainha. Amo ser o pai do seu filho e amo a nova família que estamos formando. Sempre foi você, ninguém mais. Prometo que sempre e infinitamente será apenas você.


Trocamos o beijo mais intenso de nossas vidas, sem nos importar com quem estava olhando. Todos aplaudiam, fazendo uma trilha sonora para a declaração de amor maior que fazíamos naquele momento. Fomos destinados ao amor e, mais do que nunca, sabia que jamais iria fugir do meu destino. Meu coração pertencia apenas à minha rainha.

FIM Próximo lançamento: “Destinada a seduzir: a rendição”. Livro 4 da Série Destinados que apresentará uma história cheia de conflitos, desejo e amor entre o astro do Rock Pop Zeus e a intensa Jéssica. Mais novidades em: facebook/autoralucyberhends lucyberhends.blogspot.com.br

03 destinada ao amor o herdeiro  
03 destinada ao amor o herdeiro  
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