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UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI DESIGN DIGITAL NA7

Projeto Transdisciplinar

S達o Paulo 2011/2


UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI DESIGN DIGITAL NA7

Daniel Graf Eduardo Schrappe Odair Auger Thomas Moraes William Fernandes Projeto Transdisciplinar Ciberativismo “Em Obras” Trabalho de conclusão de curso apresentado como exigência parcial à obtenção do título de bacharel em Design Digital da Universidade Anhembi Morumbi. Orientação: Profº Nelson Somma Jr Coordenação: ProfªJunia Meirelles

São Paulo 2011/2


BANCA EXAMINADORA _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________ _______________________________________________


DEDICATĂ“RIA

Dedicamos este trabalho a todas as pessoas que se mobilizam por um contexto mais amplo, em benefĂ­cio do coletivo e de uma sociedade mais justa.


AGRADECIMENTOS

A família e amigos que estiveram ao nosso lado, até mesmo nos momentos de maior ausência, obrigado pela paciência. Aos professores responsáveis por todo o conhecimento e reflexões, confirmando que esse trabalho, mais que uma obrigação é um grande aprendizado. À Deus, que inspira sensibilidade para a solidariedade e inteligência para as novas tecnologias.


RESUMO Em um momento em que cada vez mais o mundo real converge com o virtual, o ciberativismo é um dos exemplos mais claros dessa dinâmica, dois mundos coexistindo e fortalecendo-se mutuamente. A informação transformada em conhecimento, que gera mobilizações e que se estendem para a vida real são os ideais do ciberativismo. Um Teto Para Meu País (UTPMP), uma ONG que luta contra a injustiça da divisão do espaço físico, do latifúndio e da injustiça social da extrema pobreza pode buscar no ciberespaço formas de potencializar o desenvolvimento e alcance de suas ações sociais. Este trabalho pretende estudar e criar soluções para a presença da ONG no ciberespaço, soluções de design que ofereçam meios práticos e eficazes de se trabalhar o ciberativismo em suas ações. Palavras-chave: Design. Ciberativismo. Cidadania. Habitação. Redes Sociais.


ABSTRACT In a time when increasingly converges with the real world virtual, cyber activism is one of the clearest examples of this dynamic, two worlds coexisting and reinforcing each other. The information transformed into knowledge that leads protests and extend to real life are the ideals of cyber activism. Um Teto Para Meu PaĂ­s (UTPMP), an NGO which fights against the injustice of the division of physical space, the large estates of social injustice and extreme poverty in cyberspace may seek ways to enhance the development and scope of outreach activities. This work aims to study and create solutions to the presence of NGOs in cyberspace, design solutions that offer practical and effective ways of working in the cyber-activism in their actions. Key words: Design. Cyberactivism.Citizenship.Habitation. Social Networks.


LISTA DE FIGURAS

Figura 1 ............................................................................................................... 29 Figura 2 ............................................................................................................... 31 Figura 3 ............................................................................................................... 47 Figura 4 ............................................................................................................... 52 Figura 5 ............................................................................................................... 77 Figura 6 ............................................................................................................... 80 Figura 7 ............................................................................................................... 84 Figura 8 ............................................................................................................... 85 Figura 9 ............................................................................................................... 86 Figura 10 ............................................................................................................. 87 Figura 11 ............................................................................................................. 88 Figura 12 ............................................................................................................. 89 Figura 13 ............................................................................................................. 90 Figura 14 ............................................................................................................. 91 Figura 15 ............................................................................................................. 92 Figura 16 ............................................................................................................. 93 Figura 17 ............................................................................................................. 94 Figura 18 ............................................................................................................. 95 Figura 19.............................................................................................................. 96 Figura 20 ............................................................................................................. 97 Figura 21 ............................................................................................................. 98 Figura 22 ............................................................................................................. 99 Figura 23 ............................................................................................................ 101 Figura 24 ............................................................................................................ 103 Figura 25 ............................................................................................................ 104 Figura 26 ............................................................................................................ 105 Figura 27 ............................................................................................................ 106 Figura 28 ............................................................................................................ 107 Figura 29 ............................................................................................................ 108 Figura 30 ............................................................................................................ 110 Figura 31 ............................................................................................................ 111 Figura 32............................................................................................................. 112 Figura 33 ............................................................................................................ 113 Figura 34 ............................................................................................................ 114


1.1 América Latina e suas raízes centralizadoras ................... 2 6 1.2 Um país rico chamado Brasil .............................................................. 29 1.3 Movimentos em relação à habitação ........................................ 36 1.4 O cenário da habitação em São Paulo .................................... 39 1.5 Prática da cidadania ..................................................................................... 43

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2.1 Redes sociais e mobilidade .................................................................. 5 1 2.2 Movimento zapatista ................................................................................... 55 2.2.1 Formação ........................................................................................................ 55 2.2.2 A ação nos meios de comunicação e na rede ..... 56

Introdução ............................................... 21 Considerações finais ...................... 117 Referências .............................................. 121 Anexos ........................................................ 129

2.2.3 Marcos importantes ............................................................................ 60 2.3 Ciberativismo ........................................................................................................ 68 3.1 História ......................................................................................................................... 7 4 3.2 Missão e Visão ..................................................................................................... 75 3.3 Modelo de Intervenção ............................................................................. 75

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3.1.1 A casa de emergência ...................................................................... 76 3.4 Construção ............................................................................................................. 79 3.5 Conceitos-chave .............................................................................................. 80 3.6 Escritório ................................................................................................................... 81 3.6.1 Áreas .................................................................................................................... 82 3.6.1.1 Social ......................................................................................................... 82 3.6.1.2 Comercial ............................................................................................. 82

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3.7 Presença e ações na rede ....................................................................... 84 3.7.1 Site www.umtetoparameupais.org.br ................................. 84 3.7.2 Fan page no Facebook ..................................................................... 104 3.7.3 Ciberativismo no "Teto"? ............................................................... 114


Introdução


Introdução

E

m pleno século XXI é difícil imaginar que ainda existam pessoas vivendo em situações precárias, abaixo da linha da pobreza. Só a América Latina ostenta uma preocupante marca de quase 200 milhões de pessoas vivendo em situação de extrema pobreza. É direito do cidadão e dever do Poder Público garantir infraestrutura básica de saneamento, saúde e segurança, porém, na prática, ainda há muito a ser feito. Com o objetivo de resgatar a dignidade dessas pessoas que vivem nessasituação, ONGs mobilizam-se e reúnem milhares de voluntários a fim de tentar amenizar a falta de programas públicos do Estado. Uma dessas ONGs, objeto de estudo deste trabalho, chama-se Um Teto Para Meu País (UTPMP).A entidade já possui uma longa história de luta em prol de famílias carentes latino-americanas. Este trabalho tem por objetivo identificar se as ações da ONG, que se utiliza da internet para potencializar a capacidade de mobilização de seus voluntários, podem ser consideradas ciberativistas. Com isso, busca-se discutir a importância do design para o ativismo digital e gerar propostas de estratégias e/ou ferramentas que possam potencializar o desenvolvimento dessas ações sociais. Esta pesquisa está dividida em três blocos principais, organizados em capítulos. O primeiro capítulo traz, em um primeiro momento, um brevehistórico do processo de colonização e formação das sociedades na América Latina.A partir disso, a discussão é trazida para o Brasil, onde procura-se entender a origem dos problemas atu-

ais em relação à habitação e desigualdade social. Por fim, parte-se para uma abordagem local do problema, em que a história de São Paulo vem à tona e serve de base para a identificação de movimentos, tentativas e expectativas em relação à habitação no estado. Estado onde, por hora, a ONG Um Teto Para Meu País concentra suas atividades. Uma vez retratada a situação atual paulista e seus movimentos em prol da habitação, inicia-se a discussão acerca de temas como cidadania e civilidade, onde a importância da participação dos cidadãos e do trabalho em equipe fica evidente para que haja, realmente, uma transformação da sociedade. O segundo capítulo, por sua vez, busca apontar, de início, qual o impacto exercido pela internet e pela Comunicação Mediada por Computador (CMC) na vida dos brasileiros, indicando como o comportamento dos indivíduos, que nesse momento se transformam em usuários interatores, vem se modificando graças ao avanço tecnológico e ao surgimento das redes sociais da internet. Em um segundo momento, a pesquisa caminha para a discussão do ativismo online, ou ciberativismo, um dos pontos centrais deste trabalho. Para isso, utiliza-se da história do Movimento Zapatista, pioneiro nesse tipo de ativismo, para reforçar o estudo do tema e para dar base à análise das ações da ONG Um Teto Para Meu País, afim de identificar se suas ações se configuram ciberativas de fato. Por fim, no terceiro capítulo, imerge-se no objeto de estudo. Utilizando-se de pesquisas bibliográficas, de documentos cedidos pela ONG e até de visitas a campo, onde foi possível percebero que os voluntários sentem ao trabalhar com as famílias necessitadas, traçou-se a história da entidade, desde suas primeiras ações em outros países a até suas perspectivas futuras no Brasil. Por meio das análises do site da ONG, de seus perfis nas redes sociais, como Twitter e Facebook, e de outras formas de presença na rede,buscou-se reunir material suficiente para constatar se e quais ações da organização podem ser consideradas ciberativistas.

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Se quisermos que mude a sociedade temos também que mudar muitas das nossas atitudes Felipe Berrios de Solar Sacerdote, jesuíta , ativista e escritor chileno. Fundador da ONG Um Teto para meu País.

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1.1 América Latina e suas raízes centralizadoras

P

ara discutir questões contemporâneas sobre a habitação, faz-se importanteindicar que a sociedade atual é produto das origens civilizatóriasda humanidade. Estudos sobre o início das civilizações voltam-se a um passado longínquo, de 10.000 anos atrás, com o registro dos primeiros povos a habitarem as terras e suas movimentações além-mar. A questão da terra sempre foi motivadora de grandes conflitos e mudanças nas sociedades. Guerras, tecnologia, culturas, conquistas, expansão, colonização, desenvolvimento, todas essas movimentações moldaram a sociedade,resultando em diferentes contextos locais. Alguns se desenvolveram mais, outros menos, em diferentes aspectos, o que habitualmente passa-se a chamar de países desenvolvidos e países em desenvolvimento, dependentes diretamente da forma como fora civilizado. Por civilizado entende-se um estado de adiantamento e cultura social, ato de civilizar, conforme Stavans (2004). Originara-se no final da fase média da formação do inglês e deriva do

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francês arcaico civilité e do latim civilitas, que por sua vez, procede de civilis, relativo a cidadão. Etimologicamente, a palavra está ligada à polidez e cortesia na fala e comportamento. O processo de civilização, historicamente, baseou-se na dominação de um povo sobre outro, gerando uma pirâmide social desigual em direitos e oportunidades. Na maior parte dos casos, para se manter no topo, a classe dominante utilizou-se e utiliza-se de meios para explorar e sufocar o desenvolvimento da população abaixo. Hoje, no século XXI, isso ainda ocorre, mais discretamente e dentro de princípios envernizados de uma pseudo-ética. A América Latina teve um processo de civilização majoritariamente exploratório e ainda hoje colhe os frutos desse processo: uma sociedade profundamente desigual, patrocinada pelo classicismo e pela omissão. O relato histórico acrescenta que os nobres romanos, ao comprovarem que sem seus artesãos e labregos a cidade deixava de funcionar, aceitaram as exigências de um melhor tratamento para convencê-los a retornar (BARRANTE et al. – 1985, p. 67)

O problema da habitação e segregação sócio espacial na América Latina não pode ser analisado como um efeito de fatos recentes, tem sua origem na problemática colonização


da América Latina, baseada na exploração – uma herança histórica dos movimentos da economia e da sociedade a longo prazo, cristalizada tanto nas estruturas materiais do espaço construído como nas formas sociais da sua valorização simbólica e de apropriação (PRÉTECEILLE – 2003). Tudo, nos séculos, transformou-se incessantemente. Só ela, aclasse dirigente, permaneceu igual a si mesma, exercendo sua interminável hegemonia. Senhorios velhos se sucedem em senhorios novos, super-homogêneos e solidários entre si, numa férrea união superparada e a tudo predisposta para

regimes, em outras áreas. Menos êxito teve, ainda, em seus esforços por integrar-se na civilização industrial. Hoje, seu desígnio é forçar-nos à marginalidade na civilização que está emergindo (RIBEIRO – 1995, p.69)

A inércia, histórica na estrutura hierárquica das grandes cidades da América Latina, promove uma reflexão sobre o papel do Estado e a participação dos cidadãos em transformar esse quadro. É perceptível que em grande parte da elite dominante, minoria na sociedade e maioria no poder, há um comodismo que mantêm esse quadro parasitário que dificilmente irá, por si só, promover mudanças significativas para contribuir com uma melhor distribuição de renda e, por exemplo, uma reforma agrária. Por isso, faz-se necessária a participação dos cidadãos que sofrem as consequências desse processo, e que são a maioria.

manter o povo gemendo e produzindo. Não o que querem e precisam, mas o que lhes mandam produ-

Em um continente como a América Latina, em que o cen-

zir, na forma que impõem, indiferentes a seu destino.

tralismo transbordou, não só em suas manifestações físicas, tal como a

Não alcançam, aqui, nem mesmo a façanha menor

própria macrocefalia metropolitana, como também na nudez de seus

de gerar uma prosperidade generalizável à massa tra-

traços econômico, social e politicamente centralizadores e excluden-

balhadora, tal como se conseguiu, sob os mesmos

tes, parece estranho perguntar pelo papel que possa caber, dentro desse

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processo, à participação dos cidadãos. E, no entanto, ela o tem

(BARRANTE et al. – 1985, p. 66)

Da formação das cidades na América Latina, quase que sem exceção, o papel do Estado apareceu antes do lento crescimento e consciência social civil (papel regional) e consciência de Nação (papel nacional). Ou seja, as necessidades do Estado se sobrepuseram às necessidades das comunidades. Esse fato marca profundamente nossa história, que é agravada pela postura estatista do Estado em relação aos problemas. Em contrapartida, a América Latina hoje é um ponto de luz na economia pós-recessão, global, conforme relatório da McKinsey Global Institute “Construindo cidades globalmente competitivas: A chave para o crescimento da América Latina”, de agosto de 2011 (CADENA et. al – 2011). Trata-se do continente mais urbanizado do que qualquer região do mundo em desenvolvimento, com 80% da população vivendo em cidades relativamente jovens. Esse número tende a subir para 85%

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até 2025 (CADENA et. al – 2011). É fato que economias de escala têm impulsionado a produtividade de expansão das cidades, reduzindo o custo de entrega de serviços básicos aos seus habitantes. Mas, ao mesmo tempo, muitos dos maiores centros urbanos estão enfrentando engarrafamentos, falta de moradia, e outros sintomas de deseconomias de escala. Cada cidade da América Latina enfrenta seu próprio conjunto distinto de desafios e prioridades, de acordo com seu ponto de partida. Se as tensões enfrentadas por essas cidades não são abordadas, correm o risco de arrastar para baixo a trajetória de crescimento da América Latina em geral. O relatório se baseia em experimentadas e testadas histórias de sucesso da região e de todo o mundo para identificar ações concretas que os líderes da região da cidade podem tomar para resolver as questões de maior prioridade que enfrentam. Conforme o relatório, a experiência da McKinsey mostra que as políticas eficazes podem reverter a situação de uma cidade em menos de 10 anos. Essa expectativa otimista depende de um desenvolvimento de base efetivo por parte dos governantes, caso contrário, um mero crescimento econômico, sem dúvida, sucumbirá se urgentes questões como condições sociais, uso sustentável dos recursos e desempenho econômico não forem trabalhadas devidamente nesse novo ciclo.


1.2 Um país rico chamado Brasil O que entende-se hoje por sociedade brasileira originou-se na formação do povo brasileiro. Provém do primeiro encontro, o choque entre a civilidade dos colonizadores europeus, e os índios nativos dessa terra, a América. Uma civilidade menos baseada na “polidez e cortesia, na fala e comportamento”, e mais na dominação de um povo invasor sobre um povo nativo, o que Darcy Ribeiro (2007)chama de “avassalamento de povos estranhos”. Ainda conforme Ribeiro, as próximas etapas seguiram na ordenação econômico-social, criação de novas formas de produção e exploração das formas antigas, vinculando os novos núcleos à sociedade em expansão e a difusão intencional de sua tradição cultural.

eram, a selvageria e a civilização. Suas concepções, não só diferentes mas opostas, do mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente. Os navegantes, barbudos, hirsutos, fedorentos, escalavrados de feridas de escorbuto, olhavam o que parecia ser a inocência e a beleza encarnadas. Os índios, esplêndidos de vigor e de beleza, viam, ainda mais pasmos, aqueles seres que saíam do mar

(RIBEIRO – 2007, p. 33)

E assim seguiu-se o processo de colonização do Brasil pelos portugueses, envolvendo um genocídio gigantesco de índios, que, é claro, não aceitaram aquela condição brutalmente imposta pela civilidade européia. Morreram lutando por sua liberdade ou por maus-tratos nos cativeiros. A questão da terra pode ser observada desde a chegada dos portugueses no Brasil. A terra como território, e tudo mais que há nela, é o grande motivador das expedições colonizadoras, que de um jeito ou de outro resultavam na dominação de um povo sobre o outro.

Para os que chegavam, o mundo em que entravam era a arena dos seus ganhos, em ouro e glórias. Para os índios que ali estavam, nus na praia, o mundo era um luxo de se viver. Este foi o encontro fatal que ali se dera. Ao longo das praias brasileiras de 1500, se defrontaram, pasmos de se verem uns aos outros tal qual

Figura 1: A escravidão indígena na história colonial. Fonte: www.brasilescola.com/ historiab/escravidao-indigena.

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Na primeira década deste século, a situação indígena brasileira era altamente conflitiva. Missioná-

a força braçal que construiria o país. Desterrados de sua terra pátria, conforme Ribeiro:

rios se apropriavam das terras dos índios que catequizavam e as estavam loteando, com grande revol-

A primeira tarefa cultural do negro brasileiro foi a de apren-

ta dos índios. Vastas áreas entregues à colonização

der a falar o português que ouvia nos berros do capataz. Teve de fazê-

estrangeira

(RIBEIRO – 1995, p. 147)

-lo para comunicar-se com seus companheiros de desterro, oriundos de diferentes povos

Os índios formam o primeiro grupo no Brasil a ter seu espaço tomado pela colonização centralizadora da Coroa portuguesa. Os grupos indígenas das costas brasileiras que não eram capturados ou que fugiam, migravam cada vez para o interior do país. Esse início de civilização latino-americana, baseada no classicismo, em pouco tempo gerou uma esmagadora maioria de excluídos e desdobramentos bastante problemáticos ainda no século XXI, isso porque a raiz centralizadora ainda permanece. O segundo grupo de excluídos no Brasil foi formado pelos negros trazidos da África como escravos,

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(RIBEIRO – 1995, p. 220)

Os negros, sendo tratados como mero combustível humano a gastar nas plantações, sofriam as mais pesadas repressões e punições preventivas. Essa situação perdurou até 1888 com a abolição da escravatura. Livres no papel, porém, nem um pouco livres para escolher seus destinos. Uma liberdade sem oportunidade pouco mudou a situação de sofrimento dos ex-escravos.Os negros sem nenhuma solução do que fazer com essa liberdade foram jogados no mundo a toda sorte, ainda de mãos atadas. Em consequência, os ex-escravos abandonam as fazendas em que labutavam, ganham as estradas à procura de terrenos baldios em que pudessem acampar, para viverem livres como se estivessem nos quilombos, plantando milho e mandioca para comer. Caíram, então, em tal condição de


miserabilidade que a população negra reduziu-se substancialmente. (...) Muito mais pela terrível miséria a que foram atirados. Não podiam estar em lugar algum, porque cada vez que acampavam, os fazendeiros vizinhos se organizavam e convocavam forças policiais para expulsá-los, uma vez que toda a terra estava possuída e, saindo de uma fazenda, se caía fatalmente em outra. As atuais classes dominantes brasileiras, feitas de filhos e netos dos antigos senhores de escravos, guardam, diante do negro, mesma atitude de desprezo vil (RIBEIRO – 1995, p. 222)

E as senzalas de ontem são as favelas de hoje. Alguns historiadores atribuem o início das favelas exatamente à abolição da escravatura, pois os negros eram livres, mas não tinham casas, nem terreno, nem comida. Começaram a viver em casas feitas de qualquer maneira, em terrenos que não pertencia a eles. Mais de 120 anos se passaram desde que os negros foram libertos do título de escravos e as condições de vida da maioria dos negros ainda são lamentáveis.

A nação brasileira, (...) nunca fez nada pela massa negra que a cons-

truíra. Negou-lhe a posse de qualquer pedaço de terra para viver e cultivar, de escolas em que pudesse educar seus filhos, e de qualquer ordem de assistência. Só lhes deu, sobejamente, discriminação e repressão. Grande parte desses negros dirigiu-se às cidades, onde encontrava um ambiente de convivência social menos hostil. Constituíram, originalmente, os chamados bairros africanos, que deram lugar às favelas. Desde então, elas vêm se multiplicando, como a solução que o pobre encontra para morar e conviver. Sempre debaixo da permanente ameaça de serem erradicados e expulsos

(RIBEIRO – 1995, p. 222)

Conforme aponta o Relatório de Desenvolvimento Humano Figura 2: Escravos negros trazidos da África. Fonte: http://www.50emais.com.br/2010/11/

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Brasil de 2005, 64,1% dos pobres são negros, a porcentagem foi calculada com base na renda per capita média dos negros em 2000 (R$ 162,75), que correspondeu a menos da metade do que ganhavam os brancos em 1980 (R$ 341,71). O percentual de negros que viviam em favelas em 1991 (6,6%) era mais que o dobro do de brancos vivendo nessas condições (3,1%) (www.revistacidades.com.br). A pesquisa “Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça” detectou que nos últimos 15 anos houve uma melhora nas condições de habitação no Brasil. Divulgada em dezembro de 2008 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o material aponta que entre 1993 e 2007 o percentual de residências que se encontravam em favelas ou semelhantes passou de 3,2% para 3,6%. Apesar de aparentar ser um percentual baixo, representa um universo de 2 milhões de domicílios, ou pelo menos 8 milhões de pessoas. Os números ainda mostram que a presença dos negros na favela é predominante, sendo que 40,1% dessas casas são chefiadas por homens negros, 26% por

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mulheres negras, 21,3% por homens brancos e 11,7% por mulheres brancas. Essa distribuição reforça as dificuldades e maior vulnerabilidade social dos negros (www.socialismo.org.br). Será mesmo que deve-se continuar alimentando essa postura centralizadora com a indiferença?

O mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes

a transpô-lo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres, como se fossem castas e guetos. Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. O povo‐massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido. Inclusive o dom de serem, às vezes, dadivosos, mas sempre frios e perversos e, invariavelmente, imprevisíveis

(RIBEIRO – 1995, p. 224)

Ainda não foram suficientes 511 anos de colonização para mudar essa situação. A origem das cidades no Brasil segue o mesmo modelo das cidades latino-americanas, entregando as raízes centralizadoras impostas historicamente pelos coloni-


zadores vindos da Europa. Raízes profundas e impregnadas culturalmente na sociedade brasileira até os dias de hoje. As cidades brasileiras já nasceram como civilização urbana desde meados de 1500. A primeira delas, de fato,foi a Bahia, junto com Rio de Janeiro e João Pessoa. Diferentemente da experiência do progressivo crescimento e desenvolvimento adquirido pelos burgos europeus, na América Latina esse processo ocorre de maneira bem menos natural, baseado na propriedade, extração de matéria-prima, produção de alimentos e lucro sobre serviços, com o objetivo de servir os grandes centros da economia mundial por meio da utilização de mão-de-obra escrava e pela exploração da população indígena local. Ao contrário das cidades européias:

(...) foram, no passado longínquo, aldeias neolí-

ticas, aldeias da antiguidade clássica, ou aldeias de origem posterior; e se caracterizavam pelo crescimento lento e transformação em burgos fortificados na Idade Média, capitalizando sua localização à beira de um rio,

num cruzamento de caminhos, na entrada de vale ou no topo de uma colina. A partir daí, foram essas cidades consolidando seu papel regional e nacional, ampliando a sua representação simbólica de uma poder administrativo e político

(BARRANTE et al. – 1985, p. 85)

O Brasil, predominantemente rural durante alguns séculos, somente em meados de 1930 sofreu transformações na agropecuária e aumento das migrações internas decorrentes do início da industrialização no país.

Com a industrialização se altera essa constelação urbana no que

tinha de fundamental, que era sua tecnologia produtiva, transformando todo o seu modo de ser, de pensar e de agir. Provocaria uma sequência de alterações reflexas nas sociedades dependentes, de natureza tanto técnica quanto ideológica que, aqui também, transfiguraram o caráter da própria civilização

(RIBEIRO – 1995, p. 197)

Conforme Faria (1976), em 1920 apenas 16,6% da população brasileira residia em cidades. Em1940, a população urbana já representava 31,2% dos residentes do país. Mesmo com a expansão do desenvolvimento industrial no Brasil, em 1960, foi

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somente nos anos 80 que a nação tornou-se predominantemente urbana, com 67,6% dos brasileiros residindo em centros urbanos, conforme Ribeiro (1995). A população urbana saltou de 12,8 milhões, em 1940, para 80,5milhões, em 1980. No ano 2000, totalizou-se 81,2% de residentes urbanos e a formação de novos centros e grandes aglomerações metropolitanas. Cresceu-se imensamente. O estado desenvolvimentista colheu os louros do processo de substituição de importações, do período após a segunda grande guerra até os anos 70. A riqueza e a renda per capita foram multiplicadas por cinco e o produto interno bruto aumentou a uma taxa média de 5,9% ao ano (POCHMANN et al., 2004). Como se vê, a sociedade passou por um grande êxodo rural. A gravidade disso está no fato de que nenhuma cidade brasileira tinha condições de receber essa enorme quantidade de gente. O resultado disso foi a miserabilização da população urbana e o alto índice de desempregados. Pode-se observar esse movimento, inicial-

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mente por parte das classes proletárias em busca de emprego, do campo para a cidade. Depois, pelas classes dominantes, que notaram o potencial econômico das cidades. Assim, nos anos 70 iniciou-se um movimento por parte do governo para o afastamento da população mais pobre do centro para as áreas periféricas, sendo realocadas nos conjuntos habitacionais.

Esse crescimento explosivo entra em crise em 1982, anunciando a

impossibilidade de seguir crescendo economicamente sob o peso das constrições sociais que deformavam o desenvolvimento nacional. Primeiro, a estrutura agrária dominada pelo latifúndio que, incapaz de elevar a produção agrícola ao nível do crescimento da população, de ocupar e pagar as massas rurais, as expulsa em enormes contingentes do campo para as cidades, condenando a imensa maioria da população à marginalidade. Segundo, a espoliação estrangeira, que amparada pela política governamental fortalecera seu domínio, fazendo-se sócia da expansão industrial, jugulando a economia do país pela sucção de todas as riquezas produtivas. O Brasil alcança desse modo, uma extraordinária vida urbana, inaugurando, provavelmente, um novo modo de ser das metrópoles. Dentro delas geram-se pressões tremendas, porque a população deixada ao abandono mantém sua cultura arcai-


ca, mas muito integrada e criativa. Dificulta, porém, uma verdadeira modernização, porque nenhum governo se ocupa efetivamente da educação popular e da sanidade as expulsa em enormes contingentes do campo para as cidade

(RIBEIRO – 1995, p. 200)

A população de baixa renda é, então, “jogada” para áreas periféricas pelos programas dos conjuntos habitacionais de baixo custo, iniciados nos anos 60 e tendo seu ápice nos anos 70. Abordaremos melhor esse assunto no próximo capítulo.

esse desenvolvimento teve um caráter bastante

desigual e excludente, sendo incapaz de efetuar as reformas civilizatórias do capitalismo (como a reforma agrária, a reforma tributária ou uma reforma que universalizasse a proteção social) e de distribuir melhor a riqueza (CARVALHO – 2006, online)

dução comercial da agricultura não foi prejudicada, ao contrário, mecanizada, passou a produzir mais e melhor. Talvez se um país desenvolvido se fizesse somente pelo aumento das exportações esse enorme êxodo seria admissível. Mas, conforme Ribeiro (1995, p. 56), “como a questão que a história nos põe é organizar toda a economia para que todos trabalhem e comam”, essa equação gera enormes problemas.

O grande desafio que o Brasil enfrenta é alcançar a necessária lu-

cidez para concatenar essas energias e orienta-las politicamente, com clara consciência dos riscos de retrocessos e das possibilidades de liberação que elas ensejam. O povo brasileiro pagou, historicamente, um preço terrivelmente alto em lutas das mais cruentas de que se tem registro na história, sem conseguir sair, através delas, da situação de dependência e opressão em que vive e peleja. Nessas lutas, índios foram dizimados e negros foram chacinados aos milhões, sempre vencidos e integrados nos plantéis de escravos. O povo inteiro, de vastas regiões, às centenas de milhares, foi também sangrado em contra-revoluções sem conseguir jamais, senão episodicamente, conquistar o comando de seu destino para reorientar o curso da história. Ao contrário

Ainda sobre o crescimento econômico, a pro-

do que alega a historiografia oficial, nunca faltou aqui, até excedeu, o apelo à

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violência pela classe dominante como arma fundamental da construção da história. O que faltou, sempre, foi espaço para movimentos sociais capazes de promover sua reversão. Faltou sempre, e falta ainda, clamorosamente, uma clara compreensão da história vivida, como

1.3 Movimentos em relação à habitação Os movimentos em relação à habitação surgem de problemas relacionados à terra, ao latifúndio e à falta de trabalho como gerador de renda. São problemas acumulados entre o descaso, e incapacidade do governo em resolvê-los, do papel constritor das classes dominantes internas e do conformismo do povo.

necessária nas circunstâncias em que ocorreu, e um claro projeto alternativo de ordenação social, lucidamente formulado, que seja apoiado e adotado como seu pelas grandes maiorias. Não é impensável que a reordenação social se faça sem convulsão social, por via de um reformismo democrático

(RIBEIRO – 1995, p. 25) Para onde cresce o Brasil, então? Há grande crescimento econômico, sim, porém, sobre uma das maiores desigualdades sociais do planeta. Crescimento não significa desenvolvimento.

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Se quisermos construir uma verdadeira democracia, é urgente fortalecer os mecanismos de participação popular. Mas a participação não deve significar que a perversa economia de mercado e o Estado negligente e incompetente descarreguem sobre a população um problema que são incapazes de resolver para ela

(SACHS apud BOLAFFI –1999, p. 83)

Conforme afirma RIBEIRO, a situação de desigualdade da América Latina não pode ser resumida de forma simplista a uma crise de transição entre o feudalismo e capitalismo, como afirma o marxismo dogmático, transformando, assim, uma crise evolutiva em um trauma paralisante. E assim é, desde o início: A sociedade como um todo era, porém, passiva em face desse estado de coisas. Explicava a pobreza e a riqueza por conceitos místicos


capazes de infundir uma atitude de resignação a certas camadas. Essa situação não pode alterar-se devido à comunidade de interesses das classes dominantes e dos agentes externos da exploração, empenhados, ambos, em manter a escravidão, o latifúndio, a monocultura de que todos, afinal, viviam. (...) O sistema vigente também não era capaz de evoluir para formas autônomas e progressistas de ordenação da sociedade e da economia. Quando as condições de vida em uma área alcançavam níveis demasiado baixos, eclodindo atos desesperados de expansão místico-religiosa da penúria, estes eram pron-

que não resolvem a questão por um trabalho efetivo e a longo prazo. Foram programas como a Cohab, iniciado nos anos 60, época em que o problema da habitação ficou mais evidente. Ao longo de sua existência, as políticas econômicas e fundiárias limitaram os programas de promoção publica de habitações sociais a meros programas de compensação social. Conforme SACHS, novos vazios urbanos foram criados na cidade com a tendência resultante dos conjuntos da Cohab em direção à periferia sua passagem, a partir disso temos uma especulação imobiliária incessantemente renovada e que abarca espaços vazios cada vez maiores.É preciso mais do que programas habitacionais que trabalhem só nos efeitos do problema, trabalhar na causa significa superar a burocracia e movimentar os diversos setores da sociedade, é ai que entram a maiores dificuldades.

tamente esmagados em nome da ordem. Os excedentes de população gerados dentro de cada região distribuíam-

Poderia ter sido diferente se os programas de apoio à auto-cons-

-se por outras, indo engrossar as fronteiras de penetração

trução houvessem tido um desenvolvimento maior. As iniciativas da Cohab

das regiões inexploradas ou regrediam a uma economia

nesse sentido mal ultrapassaram o estágio de projetos pilotos

de subsistência (...)

(RIBEIRO – 2007, p. 41)

Dentro da grave questão da habitação, por parte do governo,observam-se programas que modificaram paliativamente algumas situações, mas

(SACHS –1999, p. 23)

A primeira vez que esse conformismo foi quebrado em um movimento mais organizado aconteceu nos quilombos. Grupos formados por escravos negros africanos que fugiam das casas

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de engenho para encontrar na sua liberdade, mesmo que por um momento, o seu pedaço de terra. Seus irmãos, não mais em raça, mas que também dividiam a mesma situação tortuosa da escravidão, organizando-se em uma tentativa de combate a toda a humilhação e maus-tratos que vinham sofrendo.

Entre os conflitos ideológicos, raciais e classistas que fazem parte da história, o último é o mais problemático desde a época de colônia. O atraso de vida na América Latina. Aqui se enfrentam, de um lado, os privilegiados proprietários de terras, de bens de produção, que são predominantemente brancos, e de outro lado, as grandes massas de trabalhadores, estas majoritariamente mestiças ou

Somente nos estratos subalternos fervia o espírito de rebelião contra a ordem social, sobretudo sobre negros escravos e índio explorados, que se levantavam, periodicamente, em insurreições. Estasassumiam, em geral, uma feição milenarista porque tinham como único

negras

(RIBEIRO – 1995, p. 174)

A soma de fatores como o aumento da população e os problemas decorrentes do não planejamento ou políticas ineficazes de ordem estrutural e econômica por parte do Estado darão origem aos movimentos sociais locais e a progressiva participação por parte da população.

padrão de reordenação social uma idealização do passa-

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do remoto em que não existiam senhores de escravos.

Desde o início da década de 1970, assistimos a uma participação

Mesmo quando vitoriosas, não se capacitavam a reorde-

crescente das massas populares e das classes médias nos movimentos so-

nar intencionalmente a sociedade segundo um projeto

ciais mais diversos e na vida associativa em todos os níveis: associações de

próprio que a tornasse economicamente viável e pro-

bairro, cujas reivindicações giram em torno dos problemas da vida cotidiana,

gressista. Por isso acabaram sendo todas derrotadas

e que somam em São Paulo mais de 1300 movimentos de mulheres, de ne-

(RIBEIRO – 2007, p. 41)

gros, de jovens; organizações de estudantes; grupos reunindo as profissões


1.4 O cenário da habitação em São Paulo liberais; sindicatos particularmente ativos na região metropolitana de São Paulo e outros (BARRANTES et al. – 1985, p. 166)

Essa participação crescente na cidade de São Paulo ocorre também nas grandes cidades da América Latina, porém, conforme TOMIC, nem sempre foi assim: Um conhecido sociólogo europeu, depois de

Da questão da terra mais propriamente dita, movimentos como Movimento dos Sem Terra (MST), ainda não conseguiram uma mudança efetiva. Por mais burocrático que seja, uma alternativa de trabalho que envolva amplamente a sociedade, inclusive o poder público, pode ser mais eficaz que movimentos isolados. Partindo para uma abordagem local, São Paulo nasceu em 1554, em função do poder público-administrativo da época, a Coroa Portuguesa, não passando pela etapa de aldeia. Cidade ainda pequena e sem importância econômica durante três séculos.

viver muitos anos na África e outros tantos na América Latina, emitiu o seguinte juízo revelador: ‘Dez quilôme-

(...) com toda a importância de símbolo e coroa, a mensagem

tros adiante das últimas luzes da cidade, a pobreza na

dos conquistadores e colonizadores, a soberba implantação urbana so-

América Latina é mais aguda, solitária e dolorosa do que

bre o vasto mundo da natureza, em que o índio, habitante autóctone,

nas sociedades africanas, onde a organização tribal e sé-

era considerado mero elemento utilizável dessa natureza hostil, porém

culos de solidariedade familiar ainda não corrompida pela

potencialmente fértil

racionalidade atomizadora do capitalismo proporcionaram aos africanos uma rede solidária, da qual carece os povos latino-americanos

(BARRANTES et al. – 1985, p. 66)

(BARRANTES et al. – 1985, p. 86)

Conforme Wilheim, São Paulo até então era um mero centro simbólico e administrativo do poder colonial. Mas foi em 1822, com a independência política e a cultura do café, que tudo mu-

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dou. A economia do café exigiu e impulsionou um importante desenvolvimento da cidade, por consequência das complexidades empresariais dessa atividade, reforçando, assim, atividades urbanas e a posterior industrialização paulistana. No século XIX, possuía 64.934 habitantes, porém, com a imigração de um milhão de italianos para as fazendas do interior, a cidade teve seu primeiro salto populacional: 239.820 em 1900, ultrapassando o milhão somente em 1940 (1.326.261). Em 1950 um salto ainda maior, decorrente do florescimento da indústria nacional de produtos em substituição aos importados, e das montadoras de automóveis. A atração de empregos e o contraste que São Paulo apresentava em relação às condições pré-capitalistas de trabalho no Nordeste foram decisivos para esse grande salto populacional (3.788.857). Sobre essa atração que as cidades causam, Blás Tomic, consultor do Programa Regional do Emprego para a América Latina e Caribe (PREALC), tece interessantes comentários na ocasião do Seminário “Rede de intercâmbio e informações e experiências entre as metrópoles da América

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Latina e Caribe”, realizado em 1985: (...) Há outro tema que também surte o efeito de fator causador desse crescimento desmesurado: é o da fascinação das luzes da cidade. Esse fator psicológico, que atrai de um modo quase irresistível o ser humano para os símbolos externos do progresso e da civilização, soe ser sub-valorizado, justamente por seu caráter subjetivo; porém, o subjetivo não o torna falso de maneira alguma. Talvez aí se encerre uma ilusão, mas é certo que, no fundo dessa fascinação, encontramos mais outra expressão do desejo irrenunciável que o ser humano tem de participar

(BARRANTES et al. – 1985, p. 67)

Participar. Talvez essa seja a palavra mais pronunciada, discutida e reivindicada desde que os problemas sociais começaram a surgir. A grande questão se apresenta: qual é o papel que cabe à participação dos cidadãos nesse processo de desenvolvimento? Segundo Tomic: É prudente entrar nessa reflexão explicitando desde o começo qual é a definição de participação que nos inspira. Em não o fazendo, estarí-


amos nos condenando a ficar fechados na selva de um vocabulário que, nessa matéria, foi repisado, abusado e finalmente desvirtuado por um longo tempo de instru-

ve uma modernização do sistema produtivo e da administração pública, além de uma forte expansão dos meios de comunicação de massa. Porém, crescimento não necessariamente significa desenvolvimento:

mentalização política interessada. Colocado de maneira esquemática, participar não é tanto uma ação, mas um

A degradação das condições de habitação popular em São Pau-

direito e uma capacidade. É direito que todo cidadão

lo explica-se conjunção de um rápido crescimento demográfico com

tem que a sociedade lhe garanta canais institucionais

um crescimento econômico pela desigualdade e a exclusão social que

que lhe permitam intervir como sujeito protagonista das

dele resulta

(SACHS – 1999, p. 70)

decisões e medidas que afetam as condições sociais de sua existência. Por outro lado, é a capacidade desse cidadão para exercer esse direito, isto é, contar com acesso aos recursos que são indispensáveis para utilizar com eficácia aqueles canais institucionais de participação (BARRANTES et al. – 1985, p. 66)

Sem uma participação democrática, a população de São Paulo continuou aumentando nas décadas de 60 e 70, impulsionada pelo crescimento selvagem e a todo custo, promovido durante o regime autoritário (entre 4% e 5% ao ano. Fonte: SMDU-SP). Com isso, a cidade obte-

É claro que esse crescimento teve um preço, quem pagou por tudo isso? A população, sobretudo a população de baixa renda. Na década de 80 já se totalizavam três milhões de migrantes vindos de diversas regiões do país. Na mesma época, esse crescimento deparou-se com uma séria contração financeira. A América Latina sofria um reflexo de tomada de decisões por parte de países centrais, assumindo, aqui, a forma de recessão econômica. Durante esses anos de crise, as tensões sociais, invasões de áreas por parte de desabrigados, violentos confrontos por alimentos e movimentos de massas pela conquista de empregos, emergiram da população carente, que historicamente é a que sente mais as consequências dessas crises.

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Um desses fatores é a pobreza desesperada do setor rural (...) É esta pobreza que empurra o homem, a mulher e sobretudo o jovem camponês a somar-se aos milhões de emigrados que procuram nas cidades aquelas vantagens elementares que não podem conseguir em nenhuma outra parte. Que reflete esse fenômeno se não uma busca angustiada por parte dessas centenas de milhares de emigrantes de oportunidade para chegarem a ser donos de seu próprio destino, ou seja, artífices de um processo do qual se sentem excluídos? (BARRANTES et al. – 1985, p. 66)

Ser dono do próprio destino é ter um mínimo de oportunidade de escolha, que destino têm pessoas em situação de extrema pobreza? Atualmente são 16,2 milhões de brasileiros nessa situação, 30 milhões na América Latina. Esse é nosso legado, a história que deveria ser ensinada nas escolas. Funciona como um câncer que deteriora a sociedade por dentro, trazendo mais pobreza, violência, desemprego e tensões

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sociais de todo tipo. Trata-se de um continente extremamente injusto. Por outro lado, hoje, o continente latino-americano começa a se tornar politicamente mais solidário, registrando cada vez mais movimentos e conquistas de expressão no campo da cidadania efetiva, assunto que abordado adiante.


1.5 Prática da cidadania

de fato. Por um lado, porque tivemos como herança colonial uma sociedade de tradição autoritária, na qual os homens tinham muito mais

Atualmente, as pessoas vivem de acordo com situações onde elas têm o controle de coisas que as rodeiam: situações onde se submetem às regras e políticas trabalhistas e governistas, ocasiões onde perdem quase que completamente o controle de suas vidas como na saúde e dependem do Estado e outras Instituições para mantê-las saudáveis, regras das quais se submetem quando aderem a uma religião ou credo, o seu direito de ‘ir e vir’, um translado entre todas essas situações, que depende do transporte público ou particular e que muitas vezes exige paciência de cidadão já estressado pelos afazeres da vida. Segundo Oliveira (2009), o atual cenário da cidadania no Brasil foi herdado de uma sociedade que vivia sob regime autoritário. Num país de capitalismo tardio e periférico como o Brasil o pleno cidadão nunca chegou a existir

deveres do que direitos e cujo fundamento da disciplina era a simples e inquestionável obediência

(OLIVEIRA - 2009, p. 1)

É um erro achar que o que falta na nossa sociedade é mais ”solidariedade”, no sentido de que aquele que tem mais deve ajudar ao que mais necessita. Esse é um dever do Estado. Cabe aos cidadãos, aprender o raciocínio do servir ao próximo em que, independente da situação social de um sujeito, exista a cultura de todos trabalharem para o bem de um indivíduo ou da comunidade. Cidadania não é ajudar o outro, e sim servir o outro. (...) Infelizmente diretores de marketing ou jovens não pensam em servir os outros. Querem patrocinadores, ou seja, querem que alguém sirva financeiramente o projeto que eles criaram. Só pensam no próprio benefício

(KANIT – 2004, p. 221-222)

Um grande problema no Brasil está na falta de autonomia da maior parte da população em exercer a sua cidadania, conhecendo seus direitos e deveres. Hoje milhões de fa-

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mílias ainda moram em barracos e não sabem o que podem e o que não podem ter. Para piorar essa situação, políticos dão maior prioridade às famílias pertencentes às classes média e alta. Com a mudança na estrutura social, novas religiões e condutas sociais também foram introduzidas, o que antes poderia parecer um convívio até bastante pacífico, agora exige tolerância e aceitação dos diversos grupos sociais. Um exemplo disso são os mutirões de construção de casas, em que a comunidade se move para construir a casa de um de seus membros, ou a horta comunitária, onde a comunidade ara, semeia, cuida, colhe e divide o que plantou. Existem vários projetos que levam essa cultura a sério e que movem a comunidade a melhorar as condições gerais de seus membros e bairros. A cidadania pode contar com o trabalho em equipe, visando melhorar a qualidade de vida de uma coletividade. Evidentemente que é dever do Estado e do Poder Público garantirem condições básicas de moradia

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e saneamento básico, porém, os jovens, principalmente os universitários, também têm capacidade de contribuir para a melhora de vida dos cidadãos, utilizando os conhecimentos que obtêm em suas formações. É necessário haver uma mudança de atitude de cada um para que se consiga entender onde e como vivem as pessoas em pobreza extrema. Revistas, jornais e televisão mostram diversas situações e imagens dessa pobreza, mas esse contato é muito artificial, pouco motivador e dificilmente estimulará uma mudança de postura. Contar para as outras pessoas os acontecimentos de uma situação é diferente de contar o que se vê, com os próprios olhos e do que se sente com a própria experiência. Traz outro sentido e uma reflexão sobre a realidade. Ou seja, não bastam apenas intenções para mudar a postura da sociedade, mas, sim,é preciso que os cidadãos mudem muitas de suas atitudes (SOLAR – 2010). Enquanto não houver uma mudança de atitude e uma preocupação em relação à extrema pobreza que ainda existe, dificilmente esse cenário mudará. Essa condição precária em que muitas pessoas vivem continua crescendo, pois a própria sociedade, cada vez mais individualista, não oferece meios que solucionem esse grave problema. Qualquer pessoa que se depara com esse tipo de situação, seja por meio dos noticiários ou até vivenciando como é a vida em comu-


nidades carentes, se choca e, provavelmente, dirá que quer mudar esse quadro. Porém, após um tempo, a indignação vai embora. Não existe uma união entre os cidadãos, o que faz com que apenas poucos grupos se mobilizem, quantidade que não consegue provocar muitas mudanças. As atitudes que são tomadas precisam ser revistas a fim de se fomentar engajamento nesses cidadãos. As pessoas não param para se perguntar o que é ser universitário, o que se entende por juventude, a importância de trabalho em equipe e qual o conceito de liberdade. A falta de discussões acerca desses temas e a falta de atitude são fatores chave para o aumento da injustiça e da pobreza (SOLAR – 2010). Ser jovem é mostrar oportunidade e compromisso. Atualmente, o jovem vive em um país irreal por causa da mídia que provoca o consumismo. A tendência é um jovem sempre se preocupar com os seus bens e sempre se comparar com o que os outros possuem. É uma geração que evita sofrer ou de ter compromisso, em que o objetivo é não encontrar tempo livre para ser influenciado

pela realidade do país. O sistema consegue enganar os jovens, consegue fazer parecerem temíveis (SOLAR - 2010). Em situações destas, os universitários pensam de forma diferente. A juventude é a definição de ajuda e servir o outro, de pôr o jogo em risco. Saber dar valor à vida e consequentemente se dispor a melhorar a condição precária em que as pessoas vivem em nosso país. O país está em uma situação em que precisa de bons profissionais que sirvam de exemplo para os demais profissionais em enfrentar os conflitos e problemas atuais, por exemplo, a superação da pobreza. Encaixa, então, na responsabilidade e à pressão que o universitário tem em cumprir o seu papel e nele levar a sério para servir como exemplo e crescer em um bom profissional. Um estado que a mídia e a propaganda normalmente associam aos jovens é a liberdade. Porém, é uma liberdade consumista, voltada para a escolha do jovem de forma em que este mesmo seja o seu próprio escravo. Segundo SOLAR: Não é uma liberdade ‘para’, mas uma liberdade ‘pela liberdade’. A verdadeira liberdade, com a letra maiúscula, é aquela conseguida quando se assume o que a gente é e tem. Grande parte da liberdade consiste em assumir mais do que escolher

(SOLAR – 2010, p. 59)

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Ao exercera liberdade é que se configura o compromisso. É uma responsabilidade assumida para completar uma tarefa. É quando essa responsabilidade é colocada em primeiro lugar na lista de prioridade independente da situação. Significa estar disposto a trabalhar e se dedicar para realizar um sonho ou dar o melhor que pode para atingir um objetivo. A partir do momento em que a pessoa se preocupa com os riscos ou com o que poderia dar errado, automaticamente não está se comprometendo. Com isso já se pode filtrar as pessoas que mostram este comprometimento, podendo acabar com as situações de injustiça e pobreza (SOLAR – 2010).

A palavra-chave que melhor se encaixa dentro da preocupação de terminar com a pobreza pode ser trabalho em equipe. Trabalho esse, que aproxima o exercício dos universitários para o resultado final, a exterminação da pobreza extrema. Ter as oportunidades de compartilhar idéias, destacar os pontos fortes e fracos de todo o processo de trabalho, facilitar a localização de famílias

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mais necessitadas etc. Porém, trabalhar em equipe tem suas dificuldades, obstáculos no meio do caminho. De certa forma, a cultura atual é individualista e privilegiada, onde o foco é competir contra o outro em vez de compartilhar com o outro (SOLAR - 2010). Ser competitivo não é necessariamente algo ruim, pois mostra a criatividade, raciocínio rápido ou produção rápida com qualidade. Logo, este sistema competitivo e individualista não funciona da mesma forma com os fracos, pouco responsáveis, que possuem dificuldades. O sistema afasta estas pessoas, fazendo com que se sintam excluídas, diferente de todos por causa dos seus pontos fracos. Precisam “se virar” para conseguir um trabalho, uma moradia descente, um terreno registrado, alimentação para a família toda, um emprego fixo com carteira registrada ou até mesmo os direitos humanos, que todos deveriam ter. São criados medos e angústias nas pessoas, fazendo com que se sintam acomodadas, acreditando que se fizerem alguma coisa fora das regras do sistema, serão expulsos da zona de conforto em que estão. Dá-se, então, o início do que entende-se por a guerra de sobrevivência,em que cada indivíduo luta para manter o seu terreno, seus bens, seu emprego, sua moradia, seus direitos de permanecer incluído no sistema. Por causa desta guerra de sobrevivência, pela forma em que o sistema trabalha e pela velocidade em que vai levando


os “fortes” é que aparece a pobreza e, logo, o compromisso e trabalho que os universitários tomam e fazem. Conforme SOLAR: Para isto é muito importante trabalhar para construir instituições, fortalecê-las e cuidar daquelas que já existem. As instituições protegem os mais fra-

Os que precisam mais destas instituições são os fracos, os prtunidades que em outras situações não terobres, para serem protegidos e para abrirem opoiam. O trabalho em equipe é fundamental para dar a força em manter as instituições e também para ajudar a melhorar a condição da pobreza extrema deste país. É importantíssimo o universitário divulgar, manifestar-se para os demais e procurar maneiras de mudar a atitude que a juventude tem na cultura atual.

cos e aqueles que são fortes ajuda-os a serem irmãos dos seus irmãos. Os fortes não precisam das instituições para ser protegidos. Eles podem e sabem se proteger, eles podem prescindir das instituições para subsistir

(SOLAR – 2010, p. 75)

Figura 3: Felipe Berrios de Solar. Fonte: .wikipedia.org/wiki/Felipe_Berr%C3%ADos

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É preciso ser visto para existir no ciberespaço Raquel Recuero Jornalista, professora e pesquisadora. Autora do livro “Redes sociais na internet”.

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A

tualmente é impossível imaginar o mundo sem a internet. O avanço tecnológico vem tornando a web mais colaborativa do que nunca, permitindo que indivíduos criem, editem e recombinem conteúdo. A cada dia que passa, a estruturação da linguagem virtual vem se tornando mais sólida, ganhando estilo próprio e características únicas. Porém, não é somente a internet que está mudando, mas, também, o comportamento dos seus usuários. Em uma pesquisa realizada pela multinacional Cisco Systems Inc., que entrevistou mais de 2800 pessoas em 14 países (entre eles, o Brasil), na faixa etária de 18 a 29 anos, constatou-se que “um em cada três estudantes e jovens profissionais consideram a internet tão importante quanto alimento, água e ar, e nove em cada dez estudantes e profissionais possuem uma conta no Facebook” (CISCO – 2011). Outra pesquisa, realizada pela ComScore (2011), mostra que em apenas um ano, o país cresceu em 20% o número de usuários com 15 anos ou mais que acessam a internet de

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casa e do trabalho, passando de 33,3 milhões em 2009 para 40 milhões em 2010, tornando-se o país latino-americano com maior população online e ultrapassando países desenvolvidos como o Reino Unido, que possui 38,6 milhões de usuários (COMSCORE – 2011, p. 16-19). Porém, para o IBOPE Nielsen Online (2011), o número total de brasileiros, com 16 anos ou mais, que acessam a internet de casa, do trabalho, em lanhouses, clubes etc., chega a 73,9 milhões de pessoas, sendo o acesso de casa o ponto de maior crescimento nos últimos meses (+24%) (IBOPE – 2011). Dados como esses só atestam o poder e o impacto que a web exerce no país e, por que não, no mundo. Com mais de 38% da população do Brasil acessando a rede mundial de computadores e com o volume de informações e possibilidades que ela dispõe, fica evidente a mudança de paradigma dos dias atuais. Essa infinidade de meios e ferramentas disponíveis no ciberespaço propiciou que novas formas de comunicação se estabelecessem, criando, assim,um outro jeito de se comunicar, a Comunicação Mediada por Computador (CMC). Porém, segundo Raquel Recuero (2010), ela não se resume apenas à comunicação convencional, uma vez que “essa comunicação, mais do que permitir aos indivíduos comunicar-


-se, amplificou a capacidade de conexão, permitindo que redes fossem criadas e expressas nesses espaços: as redes sociais mediadas pelo computador” (RECUERO – 2010, p. 16).

2.1 Redes sociais e mobilidade Antes de se discutir redes sociais mediadas por computador é importante explicitar como se constitui uma rede social, quaissão seus elementos fundamentais e como ela se organiza. Para que uma rede social seja definida como tal, ela precisa de dois elementos fundamentais: os atores (também chamados de nós da rede), que podem ser pessoas, instituições ou grupos1 , e suas conexões (interações entre os atores ou laços sociais). Segundo José Carlos S. Ribeiro (2001), o ciberespaço pode proporcionar aos atores relações sociais sólidas, uma vez que “dentro deste espaço de convivências, constata-se que as pessoas frequentemente iniciam relações, formam grupamentos, criam ligações

fortes em intensidades por vezes bastante significativas” (RIBEIRO, 2001, p. 142).

A partir da interação entre os atores, considerada a “matéria-prima das relações e dos laços sociais” por Recuero (2010, p. 30-31), é que suas identidades serão estabelecidas e reconhecidas pelos demais no ciberespaço. Com isso, percebe-se que um dos aspectos mais importantes no estudo de redes sociais na internet é a conexão, pois são suas variações que alteram as estruturas e as formas de organização nas redes. Apesar das interações serem processos sempre comunicacionais, existem algumas particularidades reservadas às interações mediadas por computador. Um primeiro fator relevante é que os atores não se conhecem imediatamente. Toda comunicação se dá pela mediação do computador. Outro ponto importante se dá pelo fato de existirem diversas ferramentas que suportam essas interações no ciberespaço – proporcionando formas distintas de se comunicar e dese relacionar – e que o produto dessas interações permanece na rede, podendo promover o surgimento de interações assíncronas2 (RECUERO – 2010). Outro fator de diferenciação entre a comunicação através das vias convencionais e a Comunicação Mediada por Computador é o estímulo ao anonimato em detrimento da identificação. Justamente pelo fato dos atores envolvidos na interação não necessariamen-

Porém, segundo Recuero (2010), instituições, grupos, weblogs, fotologs etc., não são, de fato, considerados atores sociais, mas, sim, representações dos mesmos. Portanto, esses nós da rede são espaços de interação construídos pelos atores de forma a expressar elementos das suas personalidades. 2 Uma interação é considerada assíncrona quando não há resposta imediata, por exemplo, um e-mail, que pode ser lido muito tempo depois de ter sido enviado. Já a interação síncrona é aquela que simula uma comunicação em tempo real (RECUERO – 2010). 1

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te se conhecerem, a não identificação torna-se uma atitude tentadora, diminuindo a responsabilidade ante ao conteúdo publicado e protegendo o ator de uma possível punição. Observando como os atores sociais se distribuem e se conectam à internet, modelos estruturais das redes foram desenvolvidos. Por meio de grafos, que são representações gráficas das redes, a estrutura de uma rede pode ser facilmente distinguida de outra. Os grafos ilustram os atores (nós) e suas conexões, evidenciando as características da rede por eles constituída. Existem muitas topologias diferentes nas redes, porém, segundo Paul Baran (1964), todas essas estruturas baseiam-se em apenas três modelos (figura 4): centralizada, no qual um nó centraliza a maioria das conexões, descentralizada, que possuiu vários pequenos centros – chamados de clusters3 – conectados a outros nós, e distribuída, em que todos os nós possuem mais ou menos o mesmo número de conexões. 3

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Figura 4: diagrama de Paul Baran (1964, p. 2). Fonte: www.rand.org/pubs/research_memoranda/2006/RM3420.pdf Por meio de grafos como os propostos por Baran, a compreensão de como os atores sociais se conectam na rede se torna mais tangível, facilitando a análise das redes sociais mediadas por computador. Recuero reforça a importância das conexões ao dizer que elas “são constituídas dos laços sociais, que, por sua vez, são formados através da interação social entre os atores (RECUERO – 2010, p. 30).

Cluster é um grupo de nós mais densamente conectados em uma rede. aquela que simula uma comunicação em tempo real (RECUERO – 2010).


A autora ainda sintetiza em uma tabela quais os tipos de laços e interações sociais. (quadro 1)

do personalcomputer (PC). Nos anos 80-90, assistimos a popularização

Com o crescimento da oferta de computadores pessoais e graças às inovações tecnológicas que os deixaram cada vez menores, acoplando-os aos dispositivos móveis e trazendo à tona o smartphones, tão comuns nos dias atuais, as interações sociais no ciberespaço ganharam uma grande aliada: a mobilidade. Segundo André Lemos, o desenvolvimento tecnológico que propiciou o surgimento desses dispositivos portáteis também está sendo responsável por mudanças na sociedade e no comportamento humano. Para o autor, a civilização já passou para uma outra era, deixando para trás a era da informação.

computador e o computador uma máquina de conexão. Agora, em ple-

O desenvolvimento da cibercultura se dá com o surgimento da micro-informática nos anos 70, com a convergência tecnológica e o estabelecimento

da internet e a transformação do PC em um “computador coletivo”, conectado ao ciberespaço, a substituição do PC pelo CC. Aqui, a rede é o

no século XXI, com o desenvolvimento da computação móvel e das novas tecnologias nômades (laptops, palms, celulares), o que está em marcha é a fase da computação ubíqua, pervasiva e senciente, insistindo na mobilidade. Estamos na era da conexão

(LEMOS - 2004, p.1-2)

Tipo de laço

Tipo de interação

Exemplo

Laço associativo

Interação reativa

Decidir ser amigo de alguém no Orkut, trocar links com alguém no Fotolog etc.

Laço dialógico

Interação mútua

Conversar com alguém através do MSN, trocar recados no Orkut etc.

Quadro 1: Tipos de laços sociais e suas respectivas interações. Fonte: (RECUERO – 2010, p. 40).

Gartner Inc.(http://www.gartner.com/technology/home.jsp);

4

.

55


A perspectiva de crescimento das vendas dos smartphones e dos tablets é comprovada por meio dos dados apresentados pela consultoria 4Gartner e divulgados pelo jornal Valor Econômico em setembro de 2011. A reportagem informa que “as vendas mundiais de smartphones deverão crescer 57,7% até o fim de2011, chegando a 468 milhões de unidades, enquanto as vendas de tablets deverão mais que triplicar para quase 70 milhões de unidades” (VALOR – 2011, Online). Com dispositivos cada vez mais portáteis e poderosos, os atores não mais necessitam de um ponto fixo de acesso à web e, aliado à possibilidade de acesso à internet por meio das redes de telefonia celular, podem chegar até a ficar conectados e disponíveis 24 horas por dia. O avanço tecnológico desses tipos de dispositivos promoveu o surgimento de novos produtos virtuais: os aplicativos para dispositivos móveis. Oferecendo desde jogos a até serviços de muita utilidade – como acesso a contas bancárias, geolocalização via GPS e etc. –, uma infinidade de possibiliFacebook (http://www.facebook.com/); Twitter (http://twitter.com/); 7 Foursquare (https://pt.foursquare.com/) 5 6

56

.

dades foi exposta. Logo, um movimento de adaptação configurou-se, em que sites de redes sociais, que já existiam na internet, criaram versões mobiles, como, por exemplo, o caso dos aclamados 5Facebook e 6Twitter . Porém, o inverso também ocorreu. Além da adaptação ao mobile, o aperfeiçoamento dos dispositivos fomentou o surgimento de novos serviços e aplicações exclusivamente móveis, como o 7Foursquare , um microblog que utiliza dados de localização do GPS do dispositivo móvel para que o usuário compartilhe sua localização de momento com seus amigos. Portanto, “laços sociais mediados pelo computador costumam ser mais multiplexos, pois refletem interações acontecendo em diversos espaços e sistemas” (RECUERO – 2010, p. 42).

Essa multiplicidade de meios e possibilidades disponíveis na web aliados à sua característica descentralizada e de livre expressão, ainda mais agora, com o aparecimento e a consolidação das redes sociais mediadas por computador, oferece aos usuários a oportunidade de terem suas vozes ouvidas. O caráter colaborativo da internet fez com que grupos sociais ganhassem muita força, como se pode ver hoje no Oriente Médio, onde a população, unida através da rede mundial de computadores, se organiza e se fortalece a ponto de derrubar governos ditatoriais que pareciam invulneráveis.


Os pioneiros nesse tipo de movimento que faz uso do computador para se mobilizar e ganhar força social foram os Zapatistas, no México da década de 50. Portanto, conhecer a história do Zapatismo se mostra muito importante antes de abordar temas como ciberativismo e dese prosseguir com este trabalho.

2.2 Movimento zapatista O movimento zapatista tem duas raízes: um grupo político-militar urbano e uma organização indígena. O grupo urbano era uma organização clandestina que procurava crescer com trabalho político composto basicamente por gente de classe média. Como eles precisariam de um lugar para se preparar militarmente, entraram em contato com o grupo indígena de Chiapas, que, vivendo dentro da realidade deles, sabiam também que haveria essa necessidade

2.2.1 Formação O Movimento Zapatista teve origem no Sul do México, inspirado por Emiliano Zapata, um camponês que não se conformava com o governo do ditador Porfírio Diaz, um governo oligárquico que só beneficiava os latifundiários e a burguesia ligados ao governo. Inconformado, Zapata havia organizado um pequeno grupo de indígenas e camponeses no sul do México enquanto Pancho Villa, militar revolucionário mexicano, comandava camponeses no norte do México.Ambos lutavam para que fosse realizada a reforma agrária, em que o intuito principal seria a divisão de terras de forma igualitária entre os latifundiários, indígenas e camponeses. Em 1950, período conhecido como Contra Reforma (por causa das políticas agrárias que foram modificadas para beneficiar os médios e grandes fazendeiros), inúmeras comunidades indígenas foram expulsas de seus territórios por latifundiários. Esses grupos se encaminharam para a região da Selva Lacandona, em Chiapas. A Contra Reforma contribuiu para o crescimento de produções individuais dos fazendeiros, abalando fortemente os ejidos, que eram as propriedades rurais para uso coletivo que não podiam ser negociadas de forma alguma. Em Chiapas já haviam muitas organizações indígenas se

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formando contra o governo e com o mesmo intuito do movimento zapatista, porém, faltava força suficiente para combater o governo. Quando o presidente mexicano Luiz Echeverría exigiu que os indígenas da Selva da Lacandona se retirassem,a situação se tornou insustentável. As Organizações indígenas se uniram com as Furerzas de Liberacion Nacional (FLN) que tinham acabado de chegar a Lacandona e formaram o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). O ato inicial aconteceu no primeiro dia de 1994. Havia um tratado Norte-Americano do Livre Comércio, o NAFTA,exigindo que o México acabasse com os ejidos para que pudesse fazer parte do tratado. Os ejidosfoi um direito adquirido com muito suor durante a Revolução Mexicana. Dificilmente iriam abrir mão desse direito. Para mostrar sua posição contrária à política que se instalava no México, a EZLN dominou cinco cidades do México (Chiapas, San Crisóbal, Ocosingo, Altamirano e Magaritas), mais uma estação de rádio, que passou a servir como meio de co-

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municação do movimento para mobilizar a população.

2.2.2 A ação nos meios de comunicação e na rede A utilização dos meios de comunicação pelos zapatistas foi sempre focada no intuito de mobilizar, principalmente, a população mexicana e, posteriormente, o mundo, falando (rádio) ou mostrando (internet, televisão, jornal) a situação desumana e o descaso que se encontravam comunidades indígenas e camponeses mexicanos. A tomada de uma rádio na cidade de San Cristobal de lãs Casas, em 1993, teve como intuito apresentar à população a 1.ª Declaração da Selva Lacandona, declaração que continha os onze pontos iniciais de reivindicação: trabalho, terra, teto, alimentação, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz. Desde a tomada na rádio, tudo já estava organizado para o 1.º dia de Janeiro de 1994, dia em que começava a valer o acordo do livre comércio (TLC-NAFTA) entre Estados Unidos, Canadá e México. Se aproveitando do momento, o movimento Zapatista soube expor e trabalhar sua imagem,como diz Ortiz, Brige e Ferrari:


Além da hábil utilização das redes eletrônicas de comunicação, o movimento zapatista soube trabalhar sua imagem no restante da mídia, conseguindo efeitos surpreendentes. As ações armadas de 1.º de janeiro de 1994 não foram ingenuamente coincidentes com a data de entrada em vigor do TLC-NAFTA e eles deixaram clara essa intenção com seus pronunciamentos públicos

Jornais como “La jornada” e simpatizantes mexicanos do movimento zapatista se encarregavam de colocar os textos da EZLN nos endereços eletrônicos que foram surgindo,rapidamente postado em algumas listas e endereços deconferências eletrônicas sobre o México. No diário mexicano “La Jornada”, o fato virou notícia no dia seguinte, publicado na íntegra e prontamente traduzida para o inglês e outros idiomas. O Levante Indígena se espalhou e repercutiu entre os principais jornais do planeta. Em suas páginas principais, foram estampadas

fotos dos guerrilheiros zapatistas com seus rostos cobertos por pasamontañas e paliacates, as máscaras de lã e lenços vermelhos que ocultam suas identidades. Alguns trechos da declaração da Selva Lacandona foram reproduzidos em diversos meios de comunicação. Pego de surpresa, o governo mexicano não soube como reagir de imediato. Em um governo autoritário e marcado por uma oligarquia que só beneficiava os latifundiários e a burguesia, a resposta só poderia ser na base da violência. Decidido a apelar para uma contraofensiva militar, o governo ordenou que suas tropas em Chiapas respondessem aos rebeldes. Alguns enfrentamentos ocorreram em cidades pequenas, onde os zapatistas estavam mal armados e, por consequência,foram derrotados.Nas selvas e nas montanhas, onde voltaram para seus esconderijos, conseguiram resistir a ofensiva militar. Nessa altura, informações sobre a guerra circulavam pelo mundo todo por meio da Internet. Marcos, o Subcomandante, produzia os textos sobre os fatos que estavam acontecendo e passava para os mensageiros que conseguiam furar os bloqueios militares pelas selvas e montanhas, até chegarem nas mãos dos jornalistas, que disseminavam a informação pelos veículos de comunicação, chegando até o ouvido da população mexicana e do mundo todo, o que

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foi motivo para uma revolta, como diz Ortiz, Brige e Ferrari: Manifestações civis na Cidade do México e nas principais cidades do país clamavam por um cessar-fogo e abertura de negociações entre

portante apoiador que proporcionou grande agilidade para a comunicação do movimento Zapatista.A APC (Associação para as Comunicações Progressistas)foi um dos primeiros servidores a proporcionar acesso à internet a um custo bem acessível para os movimentos sociais, ativistas de direitos humanos, ecologistas, estudantes e sindicatos, como explicam José Bisco e Sonia Lino:

as partes (ORTIZ, BRIGE, FERRARI – 2006, p. 27).

Depois de muita pressão e insistência por parte da população mexicana e do mundo todo, o governo mexicano decidiu se abrir para negociação. A intermediação entre o governo e o Exército Zapatista foi feita pelo bispo de San Cristóbal de Las Casas, Don Samuel Ruiz García. Para que ambas as partes pudessem chegar a um acordo, foi criada a CONAI, Comissão Nacional de Intermediação, tendo como integrantes intelectuais, artistas e dirigentes sociais. Com essa comissão, as negociações do processo de paz puderam ser aplicadas. Não se pode deixar de destacar um im-

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No México, grupos de discussão e conferências sobre Chiapas surgiram em “Laneta”, a conexão mexicana via internet com a “teia” de redes eletrônicas alternativas onde estão conectados muitos movimentos de direitos humanos, ativistas e ONGs em vários países, a partir de San Francisco, Califórnia (EUA) sede da APC (BISCO, LINO – 2011, p. 3)

A rede da APC, formada por outros endereços eletrônicos como Laneta, continha diretórios com informações sobre Chiapas e, consequentemente, sobre a guerra, fazendo com que as informações circulassem pelos computadores do mundo todo, fator importantíssimo para a mobilização global que ocorreu. Assim foram se multiplicando os endereços com notícias do conflito.Análises, ações de solidariedade, grupos de discussões e manifestações foram surgindo e aos


poucos o movimento Zapatista já contava com apoiadores do mundo todo. A estratégia adotada pelos Zapatistas foi muito mais inteligente do que a adotada pelo governo. Enquanto o governo omitia e distorcia informações além das represálias violentas não divulgadas, os zapatistas desenvolviam uma nova maneira de guerrilhar, a mobilização pelos meios de comunicação e, principalmente, pela Internet. Com tantos mexicanos e pessoas do mundo todo contra o governo mexicano, não havia como continuar com a guerra à base da violência.Nesse aspecto, os zapatistas sempre estiveram muito mais preparados. A mobilização ao redor do mundo foi tanta que chegou ao ponto de pessoas se solidarizarem com a situação dos indígenas, serem responsáveis diretos pela publicação de conteúdo na Internet. O Subcomandante Marcos escrevia todo o conteúdo, mas não tinha recurso disponível naquele tempo no meio da selva e das montanhas para que pudesse navegar e publicar conteúdos na In-

ternet, nem ele e nenhum guerrilheiro, como explica Ortiz, Brige e Ferrari. Efetivamente, não eram os guerrilheiros Zapatistas em pessoas que colocavam os comunicados do EZLN na Internet nem navegavam pela web. Uma rede de solidariedade bastante ampla, dentro e fora do México, e que nos momentos críticos se mobiliza para defender a integridade física e a sobrevivência da população indígena na zona de conflito, também atua como rede de comunicação

Combinando táticas de lutas sociais e de ações de solidariedade, com o uso das redes eletrônicas, os Zapatistas criaram uma forma inteligente e eficaz de se comunicarem. O primeiro movimento a utilizar o ciberespaço para proporcionar discussões, debates, mobilizações-relâmpago, passeatas, manifestações, caravanas de solidariedade entre muitas outras formas de mobilização da população local e global tinha, também, a mesma agilidade para produzir e fazer circular vídeos, fitas de áudio, compilações dos comunicados, emissões de rádio e TV’s comunitárias, de forma que ampliasse o alcance das informações para quem estava distante fisicamente ou que não tinha acesso permanente à Internet.

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2.2.3 Marcos importantes 1994 No primeiro dia de janeiro entrou em vigor o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLC-NAFTA) e o Exército Zapatista de Libertação Nacional respondeu dominando cinco cidades do México (Chiapas, San Crisóbal, Ocosingo, Altamirano e Magaritas), mais uma estação de rádio que serviria como meio de comunicação do movimento para mobilizar a população. No dia 3 de janeiro, o EZLN captura o general AbsalónDomínguez, ex-governador do Estado de Chiapas, e o mantém como refém. Mas, em 12 de janeiro, o governo decreta cessar-fogo e diz querer buscar uma solução negociável. No dia16 de fevereiro, O EZLN liberta o ex-governador e em troca o governo libera centenas de indígenas Zapatistas encarcerados. No dialogo de paz na catedral de San Cristóbal, realizado em 21 de fevereiro, apresen-

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ta-se um documento de 34 compromissos por parte do governo, que o EZLN aceita levar para consulta com suas bases de apoio para, no dia 12 de julho, rejeitá-los. Por meioda 2.ª Declaração da Selva Lacandona, convocaram a Convenção Nacional Democrática que entre os dias 6 e 9 de agosto uniu organizações populares de todo o México. Um dos últimos marcoszapatistas importantes do ano foi no dia 19 de dezembro, em queeles romperam o cerco militar e, pacificamente, estabeleceram posições em 38 municípios, declarando-os autônomos e rebeldes.No dia 24 de dezembro, o exército zapatista, junto com o governo federal, aceitou a Comissão Nacional de Intermediação (CONAI), presidida pelo bispo Samuel Ruiz, como mediadora do conflito. 1995 No primeiro dia do ano é proposta a 3.ª Declaração da Selva de Lacandona, ondeo EZLN propõe para a sociedade civil a formação de um Movimento de Libertação Nacional. O governo, no dia 9 de fevereiro,revelou a identidade do subcomandante Marcos e ordenou a prisão dos líderes zapatistas. No Distrito Federal, milhares de pessoas manifestaram sua oposição à ofensiva militar. O Congresso Nacional aprovou, no dia 11 de março, a Lei para o Diálogo, a Conciliação


e a Paz Digna em Chiapas. A lei definiu um marco para a retomada do processo de paz. Em9 de abril é realizado um primeiro encontro entre os zapatistas, a CONAI criada em 1994 e a delegação governamental. Os temas discutidos foram: Mesa 1 - Direitos e Culturas Indígenas; Mesa 2 - Democracia e Justiça; Mesa 3 - Bem-Estar e Desenvolvimento; Mesa 4 - Conciliação em Chiapas; Mesa 5 - Direitos da Mulher; Mesa 6 - Fim das Hostilidades.

1996 Em 1.º de janeiro, o EZLN anunciou a criação da Frente Zapatista de Libertação Nacional (FZLN), nova força política e não partidária, independente e pacífica (4.ª Declaração da Selva de Lacandona).

Após cinco meses de negociações, em 16 de fevereiro, o governo e o EZLN firmaram os primeiros acordos sobre Direitos e Culturas Indígenas. Do dia 4 até ao dia 8 de abril aconteceu o

Primeiro Encontro Continental pela Humanidade e Contra o Neoliberalismo, organizado pelo EZLN. Em dezembro, o EZLN aceitou a proposta de lei feita pelo governo. 1997 No dia 16 de fevereiro mais de 10 mil indígenas zapatistas marcharamem San Cristóbal para exigir o cumprimento dos Acordos de San Andrés, aceitando a iniciativa de lei da COCOPA. No final do ano, no dia 8 de dezembro, o México e a União Europeia firmaram um convênio que abriria o caminho para negociar uma zona de livre comércio a partir do próximo ano. 1998 A COCOPA e a CONAI, em janeiro dia 11, reivindicaram10 “condiciones indispensables” para a retomada do diálogo, entre elas: cumprimento dos Acordos de San Andrés, respeito à Lei para o Diálogo, a Conciliação e a Paz, redução da presença militar, desarmamento dos grupos paramilitares, castigo aos autores do massacre de Acteal.No dia 25 de maio, o coordenador para o Diálogo e a Negociação em Chiapas, Emilio Rabasa Gamboa, apresentoua estratégia do governo federal para apoiar o processo de pacificação na zona de conflito:

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1) Atender as demandas sociais do povo chiapaneco; 2) Destinar maior gasto social aos municípios de maior marginalização; 3) Buscas a vigência do estado direto; 4) Estabelecer uma política de reconciliação intercomunitária; 5) Reforçar esta política em Chenalhó e em outros municípios onde se encontram famílias desalojadas; 6) Impulsionar uma legislação dos povos e comunidades indígenas; 7) Reiterar a posição de Ernesto Zedillo de buscar uma saída pacífica ao conflito;

No dia 7 de junho, o bispo Samuel Ruiz anunciou a dissolução da CONAI devido aos ataques governamentais contra a sua pessoa, a diocese de San Cristóbal e a CONAI.

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Exigiu dos governos federal e estadual que terminassem com sua estratégia de guerra e que demonstrassem, na prática, sua vontade de resolver o conflito. Em julho, no dia 17, o EZLN divulgou a 5.ª Declaração da Selva de Lacandona, anunciando uma Consulta Nacional pelo Reconhecimento dos Povos Indígenas e pelo Fim da Guerra de Extermínio. No dia 4 de outubro, o PRI ganhou as eleições para as prefeituras municipais e o Congresso Local em Chiapas, apesar de uma abstenção de 54%. Os observadores e partidos de oposição denunciaram fraude por parte do PRI e constataram muitas irregularidades. 1999 Nos meses de abril, maio e junho houve uma entrega de armas de supostos zapatistas em troca de apoios econômicos governamentais, mas, o EZLN qualificou o fato como “farsa e teatro”. Nas primeiras duas semanas de junho houve um aumento significativo de incursões militares e policiais em comunidades zapatistas, detenções arbitrárias de supostos zapatistas, abusos por parte dos militares nos bloqueios, e concentração de tropas militares. Em cada uma das incursões participaram entre cem e mil militares e policiais. Como pretexto para todas estas operações, as autoridades estatais e federais


mencionaram a aplicação da Lei de Armas de Fogo e Explosivos, a luta contra o narcotráfico, a detenção de delinquentes e a proteção dos habitantes. No dia 17 de julho, o Comitê de Direitos Humanos da ONU expressou que os temas de Chiapas, a administração de justiça, a violência contra as mulheres, a crescente militarização e a impunidade continuavam causando “inquietude” e “profunda preocupação”. O secretário de Governo, Diódoro Carrasco Altamirano, em 8 de setembro, apresentou a nova proposta governamental para o diálogo em Chiapas, onde propôs a retomada imediata das negociações com o EZLN. Carrasco assegurou que estaria disposto a encabeçar a comissão negociadora, em qualquer momento e em qualquer lugar. A nova proposta consistia em 6 pontos: 1) Propor ao Senado da República que retomasse o tema das mudanças constitucionais sobre direitose cultura indígenas e que recebessepropostas do EZLN do próprio governo e dos demais grupos envolvidos no conflito;

2) Pedisse ao EZLN que propusesse datas para que o governo cumprisse o acordado em San Andrés sobre o desenvolvimento das comunidades indígenas de Chiapas; 3) Solicitasse que as instânciasde Procuração da Justiça libertassem os presos zapatistas que não estivessem implicados em assassinatos ou violações; 4) Se comprometessem a analisar as denúncias de organizações de Direitos Humanos sobre as agressões nas comunidades indígenas de Chiapas; 5) Aceitasse a criação de uma nova comissão ntermediação civil e apartidária; 6) Se comprometessem a enviar uma comissão governamental negociadora que tivesse capacidade de decisão.

Durante sua visita ao México, de 24 a 27 de novembro, Mary Robinson, Alta Comissionada de Direitos Humanos da ONU, comentou que era preocupante a impunidade, a militarização e uma má administração de justiça em Chiapas. Mencionou que entre os fatores que contribuíam para criar um clima de impunidade se incluiaa crescente militarização das funções de segurança pública.

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2000 A presidente relatora do Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas da ONU, Erika Irene Daes, ao concluir sua visita ao México no dia 4 de fevereiro, pediu ao governo mexicano que respeitasse os Acordos de San Andrés. No dia 2 de julho, Vicent Fox, candidato pelo Partido Acción Nacional (PAN), ganhou as eleições presidenciais com 43,43% dos votos.No dia 20 de agosto é a vez de Pablo Salazar, da Aliança por Chiapas, ganhar as eleições do governo do Estado com 535.860 votos (51,50%). Dia 18 de outubro, o presidente Zedillo expropriou3,5 hectares de “ejido” Amador Hernández, comunidade zapatista no município de Ocosingo, para construir instalações militares.No dia 28 de novembro, o presidente eleito, Vicent Fox, montou seu gabinete. Luis H. Alvarez é nomeado Comissionado para a Paz em Chiapas. O EZLNo definiu,posteriormente, como um “interlocutor válido”. No primeiro dia de dezembro do mesmo

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ano,Vicent Fox tomou posse no cargo de presidente. Afirmou que combateria a corrupção e a impunidade, e se comprometeu a solucionar o conflito chiapaneco. Fox ordenou a retirada de 53 bloqueios militares da zona de conflito e o fim dos patrulhamentos e sobrevoos do Exército. No dia seguinte à posse, 2 de dezembro, o EZLN pediu três sinais ao executivo para reiniciar o diálogo: cumprimento dos Acordos de San Andrés por meio da aprovação da lei COCOPA, liberdade para todos os presos políticos zapatistas, fechamento de sete acampamentos militares “de los 259 que mantieneactualmenteenla zona de conflicto”. Anunciou a caravana zapatista para a Cidade do México para reivindicar ao Congresso Nacional o cumprimento dos Acordos de San Andrés. Dia 20 de dezembro, o recém-empossado governador de Chiapas, Pablo Salazar, destituiu a Comissão Estadual para a Remunicipalização, criada pelo governo de Albores Guillén e que fundou sete novos municípios, principalmente em zonas zapatistas.No dia 22 de dezembro, o exército desocupou a base militar de Amador Hernández (Selva Lacandona). O governo federal restituiu o local para a comunidade, expropriado pelo ex-presidente Zedillo em outubro de 2000. No dia seguinte, 23 de dezembro, o presidente Fox eliminou o requisito de permissão prévia para ser observador de Direito


Humanos no México e no último dia do ano, o Exército mexicano desalojou o segundo quartel militar, de Jolnachoj, município de San Andrés Larrainzar. 2001 No dia10 de janeiro, o Exército abandonou o acampamento militar de Caxuljá, município de Ocsingoe no dia 17 de janeiro, desativoua base da comunidade de Raberto Barrios, município de Palenque. No dia 19 de março, o presidente Fox anunciou a retirada do exército da comunidade zapatista de Guadalupe Tepeyac, na Selva Lacandona. Dia 25 de abril, o Senado da República aprovou uma reforma constitucional em matéria indígena. O Congresso Nacional Indígena, no dia seguinte,afirmou que a lei indígena aprovada pelo Senado desconhecia pontos importantes dos Acordos do San Andrés. Mais um dia se passou e no dia 27 de abril, a Câmara de Deputados aprovou a Lei de Direitos e Cultu-

ra Indígenas, com 386 votos a favor e 60 contra. Dia 29 de abril, por meio de um comunicado,os zapatistas romperam o diálogo com o governo. O EZLN permaneceu silencioso. No dia 3 de julho, 1.400 escritores, intelectuais, religiosos, acadêmicos, defensores dos Direitos Humanos, bem como de ONGs do México e do exterior, pediram que os congressos estaduais não aprovassem a lei indígena.No dia 11 do mesmo mês, os poderes legislativos e executivos de Oaxaca e Chiapas pediram aos congressos estaduais que ainda não tinha votado, que rejeitassem a lei indígena. Dia 18 de julho, a Reforma Indígena fora aprovada na maioria dos congressos locais eficara consumada. A presidência fixava sua postura algumas horas depois: pleno respeito ao Congresso. No dia 8 de outubro, o México se tornou membro do Conselho de Segurança da ONU depois de 20 anos de ausência. Nas eleições estaduais, o PRI conservou a maioria no Congresso local, numa votação com 48% de abstenções. Triunfou em 21 de 24 distritos (PRD 2, PAN 1), e em 72 de 118 prefeituras (PRD 19, PAN 11). O assassinato em 19 de outubro da Digna Ochoa, advogada defensora dos Direitos Humanos mobilizou mais de 80 ONGs e entidades civis que exigiam investigação e apuração imediata do crime.

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2002 No dia 6 de março, o executivo apresentou o Plano Oficial para o desenvolvimento dos povos indígenas.

Em 6 de julho ocorreram atos violentos durante as eleições legislativas em zonas indígenas de Chiapas, principalmente em San Juan Cancun, Zinacantán y Chenalhó. No pleno federal, se registrou a maior abstenção na história recente do país.

Objetivo 1: “contribuir a laconstrucción de una nuevarelación entre el Estado, lospueblos indígenas y el conjunto de lasociedad”;

2004 Em 27 de janeiro, o governo do Estado de Chiapas firmou um convênio com a União Europeia para co-financiar o “Proyecto de Desarrollo Social Integrado y Sostenible de la Selva Lacandona” (PRODESIS), que seria executado na zona de amortecimento da Reserva de Montes Azules. Em contrapartida, a Europadestinaria ao projeto 15 milhões de euros e outros 16 milhões viriam do governo do Estado de Chiapas. No dia 10 de abril, bases de apoio zapatistas do município de Zincantánsofreramemboscadas por membros do PRD, deixando um saldo de dezenas de feridos e 125 famílias zapatistas desalojadas. O fato se produziu quando os zapatistas terminavam uma marcha no aniversário de morte de Emiliano Zapata, depois de distribuírem água aos habitantes da comunidade de Jechvó, privados dela há vários meses por membros do PRD. Em 3 de outubro,ocorrerameleições municipais em Chiapas. O Instituto Federal Electoral (IFE) negociou com o EZLN para assegurar a tranquilidade durante o processo eleitoral.

Objetivo 2: melhorar a qualidade de vida dos povos indígenas; Objetivo 3: garantir o efetivo acesso dos povos

2003 No primeiro dia do ano, O EZLN rompeu o silêncio que durava desde abril de 2001. Na concentração mais numerosa de suas bases de apoio, mais de 20 mil indígenas “tomaram” a cidade de San Cristóbal. Condenaram os três principais partidos políticos por traírem o espírito dos Acordos de San Andrés com a lei indígena aprovada. Advertiram ao comissionado governamental para a paz que impediria a entrada a seus territórios.

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2005 No final de abril, diante da pressão popular expressada em diversas manifestações, não aconteceuo desaforamento de Andrés Manuel López Obrador. Em 18 de maio, a Enalce Civil, organização encarregada de apoiar projetos nos municípios autônomos zapatistas, recebeu o Banco Bilbao Vizcaya - Bancomer, a informação de que suas nove contas bancárias seriam canceladas dentro de 30 dias, pela acusação de “lavagem de dinheiro ilícito”. Entre os dias 20 e 26 de junho o EZLN publicou vários comunicados: 20 de junho: anunciou a reestruturação política e militar interna do EZLN. 20 de junho: esclareceu que o Alerta Vermelho havia sido uma “medida preventiva” para proteger uma consulta interna convocada pelo CCRI-CG do EZLN. Em fevereiro de 1995, o EZLN estava realizando um consulta em suas comunidades, quando aconteceu a ofensiva militar para prender os comandantes zapatistas.

21 de junho: anunciou para a sociedade civil nacional e internacional que seu próximo passo não seria uma ação militar. 26 de junho: informou que depois da consulta e das assembleias comunitárias o EZLN havia decidido empreender “una nueva política de caráter nacional e internacional”, que explicaria por meio da Sexta Declaração de Lacandona (La Sexta).

Entre meados de agosto de setembro aconteceram diversas reuniões entre sociedade civil e o EZLN em diversas comunidades da Selva de Lacandona, para preparar a saída da delegação zapatista que percorreriao país. Em uma sessão plenária em meados de setembro, chegaram 2069 pessoas ao Caracol de La Garrucha. Em 16 de setembro, o EZLN anunciou que o subcomandante Marcos encabeçará a primeira etapa da “Outra Campanha”, que teria início em primeiro de janeiro do próximo ano,em San Cristóbal de Las Casas, e terminaria em 24 de janeiro. No dia 20 de novembro, em um comunicado do EZLN, se anunciou a dissolução da Frente Zapatista de Libertação Nacional (FZLN). Em 25 de novembro, o EZLN anunciou a criação da Comissão Intergaláctica da Sexta Declaração, que seria encabeçada pelo tenente-coronel Moisés.

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2.3 Ciberativismo Movimentos sociais que sabem se aproveitar do ciberespaço e suas ferramentas, como os Zapatistas, considerados os pioneiros nessa prática, têm a possibilidade de se fortalecerem e de difundirem seus discursos e suas reivindicações para um número de indivíduos muito grande. Segundo Recuero, a presença nesse ambiente virtual só se dá se o conteúdo ali depositado é acessado, pois “é preciso ser visto para existir no ciberespaço” (RECUERO – 2010, p. 27). Quando o ativismo – que visa a transformação de uma realidade e normalmente é associado à militância política – vem para o meio digital, ele se configura como ativismo online, ou, como passou a ser chamado, ciberativismo, que, segundo Ronald Stresser Junior (2010) Trata-se de nova forma de ação política; uma maneira de fazer política através de suportesci-

bernéticos; buscando a veiculação de um ideal através de uma mídia de grande alcance, é o ativismo contemporâneo praticado em rede, através da internet (STRESSER – 2010, 2).

Além dos Zapatistas – considerados os pioneiros nesse tipo de ativismo8 –, ainda segundo Stresser (2010), no final da década de 90 o ciberativismo (...) ganhou corpo (...) com a migração de grupos notoriamente ativistas, minorias,dentre outras organizações sócio-políticas, para o ciberespaço. (...) Estes grupos encontraram na internet uma forma eficaz,não onerosa e rápida, para transmitir suas mensagens a um grande número depessoas, engajadas, ou não, em suas atividades (STRESSER – 2010, 3).

O avanço tecnológico, o aumento na oferta de serviços e ferramentas na internet e o surgimento das redes sociais, como o Facebook e o Twitter, também contribuem com o ativismo online, pois “através docomputador o ativista faz seus estudos, cria e edita textos, sons e imagens, difundeconteúdo, faz propaganda de sua ideologia, além de orga-

Segundo o autor, apesar de existirem “(...) estudos que atribuem o surgimento desta nova maneira de fazer política aos movimentos ciberpunks europeus, que pregaram sua ideologia na rede (...)” (STRESSER – 2010, 3), o EZLN ainda é considerado pioneiro nessa prática. 8

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nizar mobilizações em rede,movimentos e passeatas” (STRESSER – 2010, 2). Portanto, percebe-se que, para se configurar o ciberativismo, não basta apenas que o conteúdo online seja lido. É preciso que o internauta faça uso das informações disponíveis para se mobilizar, a fim de fazer com que essa mobilização venha para o plano real, não ficando somente no virtual, e promova a cidadania. “Alicerçando campanhas e aspirações à distância, a rede propicia, graças à plataforma digital, os chamados à mobilização social. (...) o ciberativismo, congregando as entidades civis, faz uso da Internet enquanto canal público de comunicação, livre da rígida regulamentação e dos controles externos e internos dos outros meios para disseminar informações e análises que contribuam para o fortalecimento da cidadania, questionando as hegemonias constituídas. Por meio da rede, as intervenções dos movimentos sociais ganham agilidade e visibilidade (...)” (CAPUTO – 2008, 66). Segundo Vegh (2003), existem três catego-

rias de classificação do ativismo online: 1) Conscientização e apoio: a internet como fonte alternativa de informações, onde organizações e indivíduos (atores sociais) difundem, de forma colaborativa, informações e eventos ignorados ou pouco divulgados pelas mídias de massa. A maioria das organizações ativistas que podem ser classificadas nessa categoria de conscientização e apoio, tem como objetivo proteger e reivindicar os direitos de segmentos marginalizados, como minorias étnicas e mulheres, por exemplo. Sua atuação é muito importante na divulgação de informações provenientes de localidades com regimes antidemocráticos

(RIGITANO – 2003, p. 3).

2) Organização e mobilização a partir da internet: Vegh (2003)

traz três formas de mobilização por meio do uso da web.

Na primeira, informações acerca de ações offline, como locais, datas e horários, são disponibilizadas na rede em convites enviados por e-mails. Como exemplo é possível citar as mobilizações online para os protestos offline ‘antiglobalização’, que ocorreram em cidades como Seattle, Washington, Praga, Gênova, dentre outras. A partir de listas de

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e-mails e discussão e da construção de sites específicos para cada protesto, foi possível obter informações que possibilitavam a participação em manifestações e eventos, tais como calendário dos acontecimentos, palestras, fóruns, mostra de artes e debates, como chegar aos países e cidades dos protestos, acomodações, serviço de advogados (caso o ativista tivesse algum problema com a polícia durante a manifestação), além de dicas para se proteger de gás lacrimogêneo e sprays de pimenta

(RIGITANO – 2003, p. 4)

A segunda forma de mobilização proposta por Vegh (2003) trata-se de usar a internet em ações que normalmente aconteceriam offline, mas que podem ser muito mais eficientes quando online, como, por exemplo, contatar representantes do governo via e-mail. A terceira e última forma de mobilização a partir da rede se dá em ações que só existem graças ao advento da internet, como a coordenação de uma campanha para saturar um servidor online com o envio

massivo de spams9 , por exemplo. 3) Iniciativas de ação/reação: também conhecidas por ativismo “hacker” ou “hacktivismo” (VEGH – 2003, p. 75), envolve diversos tipos de ações, que variam desde apoio online e invasão de sites a até cibercrimes ou ciberterrorismo. “Esse tipo de iniciativa visa executar ações diretas (pela Internet) proativas ou reativas” (RIGITANO – 2003, p. 5).

Com base nas categorias de ciberativismo propostas por Vegh, faz-se importante identificar se a ONG Um Teto Para Meu País pode ser considerada ciberativista e, em caso afirmativo, em qual das classificações ela melhor se enquadra. Porém, para que essa análise seja executada, é preciso, primeiro, conhecer mais profundamente a entidade, objeto de estudo deste trabalho. O capítulo a seguir traz informações importantes sobre a organização Um Teto Para Meu País, começando com seu histórico e sua origem no Chile até os dias atuais.

Porém, Vegh alerta que esse tipo de mobilização pode ser classificado, muitas vezes, como pertencente à terceira categoria de ciberativismo: ação/reação (RIGITANO – 2003). 9

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O Brasil não é um país pobre, e sim um país profundamente injusto Ricardo Montero Diretor Social da ONG UTPMP - Brasil


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m Teto Para Meu País (UTPMP) é um organização não governamental (ONG) latino-americana formada, principalmente,por universitários e jovens profissionais. Milhares de voluntários espalhados pelo continente trabalham diretamente com famílias de assentamentos irregulares e favelas, a fim dese melhorar sua qualidade de vida. Suas ações são divididas em três fases: 1) construção de casas de emergência para retirar a família de uma situação precária; 2) programas de habilitação social que visam gerar estratégias para reduzir a vulnerabilidade daqueles que vivem em situação de extrema pobreza; 3) regularização e transformação do assentamento em uma comunidade sustentável por meio de programas que orientam a autogestão, a organização e a participação social, habilitando os próprios moradores a lutar por seus direitos e, finalmente, ter acesso às redes formais de educação, saneamento básico, saúde, moradia, crédito etc.

U

3.1 História No ano de 1997, o sacerdote jesuíta Felipe Berríos S.J., que já havia se unido a universitários na construção de uma capela e que estava incomodado com a desigualdade social e com a pobreza no Chile, sua terra natal, reuniu um grupo de jovens com as mes-

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mas preocupações e, juntos, decidiram ir à Curanilahue, município provinciano localizado na região de Bióbio, mais ao sul do país. O objetivo da viagem era o de construir 350 casas para pessoas que viviam em situação precária, caracterizada como pobreza extrema. Esse foi o nascimento da ONG, batizada de UnTecho Para Chile (Um Teto para o Chile), e o começo da organização de suas ações. Ainda sem maiores ambições ou planejamento, a ideia, na época, era apenas executar uma medida emergencial para tirar aquelas pessoas de um cenário dramático. Porém, o sucesso foi muito grande, pois essa ação não só mudou a vida e resgatou um pouco da dignidade das pessoas ajudadas, como, também, promoveu uma mudança nos próprios voluntários. Os jovens colaboradores se sentiram motivados a fazer ações ainda maiores. Com isso, uma meta mais ambiciosa foi traçada: construir 2000 casas até o ano 2000. Mais uma vez as expectativas foram superadas e as casas foram entregues em setembro de 1999, pelo menos três meses antes do previsto. No ano 2000, muitas comunidades carentes do Chile foram assoladas por tragédias devido às fortes chuvas enfrentadas pelo país. Esses acontecimentos comoveram a sociedade, que viu na ONG Um Teto para o Chile uma oportunidade de ajudar. O número de voluntários aumentou.Só naquele ano, 5.701 moradias de emergência foram construídas. O projeto ganhou força nacional e escritórios foram instalados nas principais cidades chilenas. Em 2001, o país El Salvador, da América Central, também sofreu muito com os estragos causados por desastres naturais, onde dois terremotos mataram 315 pessoas e deixaram muitas outras famílias sem nada. Naquela época, um salvadorenho que participava como voluntário na ONG Um Teto para o Chile, motivou outros voluntários a irem com ele


para sua terra eajudar no socorro às vítimas. Um Teto para o Chile, que já estava fortalecida em seu país de origem, teve ajuda do Departamento de Promoção de Exportações (ProChile)10 e se uniu a universitários desses outros países latino-americanos, nascendo, assim, UnTecho Para Mi País (Um Teto Para Meu País). Alguns meses depois, outros tremores foram sentidos em Moquegua e Tcna, cidades localizadas ao sul do Peru e, mais uma vez, Um Teto Para Meu País se mobilizou na ajuda à população peruana. Liderada por jovens, Um Teto Para Meu País (UTPMP) começou a se expandir rapidamente. Logo em seu início, contou com o apoio do Fundo Multilateral de Investimentos (FUMIN) do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No Brasil, começou com os trabalhos em São Paulo, no ano de 2006.Tem a meta de construir 1000 habitações de emergência até o fim de 2011. Hoje a organização não governamental sem fins lucrativos já está presente em 19 países das Américas do Sul e Central: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Paraguai, Panamá, Peru, Republica Dominicana, Uruguai e Venezuela.

3.2 Missão e Visão A missão da ONG Um Teto para meu País é procu-

rar melhorar a qualidade de vida das famílias, que atualmente vivem em situação de pobreza, por meio de construção de casas emergenciais e com planos de habilitação social a partir do trabalho conjunto entre os voluntários e a comunidade. Querem denunciar a realidade marginalizada em que vivem mais de 200 milhões de pessoas na América Latina e envolver a toda a sociedade, fazendo com que se comprometam e unam-se à tarefa de construir um continente mais solidário e sem a injustiça da pobreza. A visão ONG é uma América Latina sem extrema pobreza, em que nenhuma família tenha a necessidade de uma moradia mínima e todos tenham as possibilidades de melhorar sua qualidade de vida.

3.3 Modelo de Intervenção O modelo de intervenção de UTPMP consisteem três etapas: 1) Construção de casas de emergência; 2) Desenvolvimento de planos de habilitação social; 3) Alcance de uma comunidade sustentável. Objetivos de cada fase: 1) Construção de casas de emergência

a) Resposta emergencial a uma situação precária de habitação; b) Contato entre o voluntário universitário e a realidade de seu país; c) Denúncia da realidade do déficit habitacional e a exclusão que se concentra em assentamentos humanos.

O Departamento de Promoção de Exportações (ProChile) é uma agência da Direção-Geral de Relações Econômicas Internacionais do Ministério das Relações Exteriores do Chile. Sua missão é contribuir para o desenvolvimento econômico através de sua promoção no exterior e internacionalização de seus negócios sustentáveis (http://www.prochile.cl/). 10

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2) Habilitação social a) Fortalecimento da comunidade por meio de planos de habilitação social (microcrédito, planos de educação, saúde, assistência jurídica, capacitação em ofícios); b) Desenvolvimento social e organização comunitária 3) Comunidade sustentável a) Soluções definitivas; b) Não necessariamente pelas construções de moradias definitivas.

Características do modelo: I. Não assistencialista; II. Sustentável; III. Envolvimento de toda sociedade; IV. Empoderamento das famílias e comunidades. Famílias como protagonistas de seu próprio desenvolvimento; V. Trabalho voluntário; VI. Processo de desenvolvimento a longo prazo.

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3.3.1 A casa de emergência História A origem das Habitações de Emergência data a partir o terremoto do ano de 1939, em Chillan, Chile. Surgidas nos assentamentos irregulares e nas ocupações ilegais de terreno, a Casa de Emergência veio espontaneamente amenizar o problema da habitação na época. Nesses lugares, os moradores construíam suas casas de maneira muito semelhante ao que hoje conhecemos como Habitação de Emergência – HE –, utilizando madeira, telhas de amianto, cimento, plástico, papelão e, em geral, qualquer material descartado que servisse. Em 1958 foi enviado para trabalhar no Chile o sacerdote jesuíta Josse van der Rest , junto a estudantes universitários dessa época. Dedicou-se a construir melhores casas para os moradores de assentamentos. Conforme Josse afirma: “começamos comprando telhas e madeira, percorríamos os assentamentos em uma caminhonete Volkswagen igual a do Padre Alberto Hurtado . Construíamos setenta casas ao ano. Pouco a pouco começamos a industrializar a fabricação”. A experiência ensinou que a vida familiar fica seriamente prejudicada pela má qualidade da habitação e pelas condições de amontoamento em que convivem os moradores das comunidades em situação de pobreza. Por isso, o padre Josse insistia em que: “mais valem quatro tábuas agora que uma casa sólida em 10 anos mais”, quando a família já se separou. A falta de segurança e privacidade das habitações precárias e o adensamento excessivo, ou seja, o número muito grande de pessoas na residência,eram alguns dos problemas. Com a experiência proporcionada na construção, a casa começou a ganhar contornos padrões, viabilizando sua construção em série na Fábrica de Hogar de Cristo Habitação, em Santiago do Chile. Do padre


Josse nasceu a ideia dos seis painéis pré-fabricados que facilitariam uma construção mais simples e rápida, de forma massiva, que asseguraria a estabilidade e que permitiria o desmonte da casa em caso de uma eventual mudança de lugar, geralmente um desalojamento. Por isso, esse jesuíta é considerado o inventor da mediágua, ainda que ele mesmo reconheça que: “a mediágua foi inventada pela população carente, só fui responsável por sua industrialização, e por fazer com que tivessem que pagar o mais barato possível”. O custo da mediágua se manteve fora do plano, o que impediu que se desenvolvesse uma simples entrega de casas, fria e rígida, um único objeto pronto.Pelo contrário, como o grupo de Josse não contava com mãodeobraespecializada, se fez necessário construir todos juntos, em uma espécie de mutirão voluntário. As casas foram sofrendo modificações e adaptações, a principal delas tem a ver com o tamanho da habitação. A princípio, se construíam moradias de 3 x 3 metros, que pouco a pouco foram sendo substituídas pela atual casa de 3 x 6 metros, como a construída por UTPMP. Leva-se em conta que, em média, numa família vivem cinco pessoas, e as normas internacionais de habitação aceitam como mínima uma área de 3,5 m2 para que uma pessoa viva (3,5 x 5 = 17,5 m2). Outras mudanças feitas na casa foram a substituição do piso de terra pelo piso e pilotis de madeira, além das implementações de mudanças que tendem

a melhorar a durabilidade e a estética da casa, como a troca de uma queda de água (“meia-água”) por duas.

Figura 5: Casa de emergência Fonte: umtetoparameupais.org.br Para os avanços em durabilidade – aplicáveis somente a alguns países de acordo com suas particularidades – mudou-se o sentido horizontal das tábuas do forro, que agora se dispõem verticalmente (para fazer com que a água da chuva corra melhor e não se concentre umidade nas juntas e ranhuras). Além disso, a sobreposição entre elas foi aumentada,

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o telhado de amianto foi substituído por pranchas de zinco/alumínio e se incorporou à técnica de encaixe (macho-fêmea) ao piso, o que possibilitou maior rigidez e isolamento do mesmo.O isolamento térmico também foi melhorado com forros que são colocados antes das telhas. Todas as substituições mencionadas acima foram feitas mantendo o uso de materiais baratos que permitiram a massificação.(a minha dúvida está em relação à relevância dessa descrição para o contexto do trabalho. Não sei o que o orientador disse a vocês.) Finalmente, os pilotis que sustentam a casa são feitos de madeira tratada que duram muito mais.Em alguns países foi dada a possibilidade dos proprietários escolherem janelas de madeira com ou sem vidro para suas casas, aumentou-se a altura da casa - para alcançar uma estética mais similar ao conceito de “casa” - e se incluíram vigas sobre os pilotis e entre os painéis de piso, para conseguir maior estabilidade e isolamento do chão. A maioria das mudanças foi gerada por meio da experiência da construção, e vieram de moradores e universitários voluntários. Objetivos da Casa de Emergência > Dar uma solução rápida a uma situação de emergência; > Gerar um trabalho horizontal em que se possam

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reunir, por meio do trabalho físico, em igualdade de condições, duas realidades diferentes, como a dos moradores de assentamentos e a dos estudantes universitários; > Entregar um espaço melhor para as famílias, diminuindo problemas como a violência intrafamiliar, abusos sexuais etc; > Outorgar uma maior independência, aumentar a privacidade e permitir a intimidade de casais; > Fomentar o sentimento de propriedade pelo feito da própria família custear parte da casa. Este mesmo custo fomenta o cuidado com a casa; > Denunciar uma realidade, colocar na agenda pública o tema do déficit habitacional e a exclusão que se concentra em assentamentos humanos; > Meio utilizado como porta de entrada a uma relação de confiança com as famílias dos assentamentos, no qual se criam os primeiros vínculos; > Primeiro passo dentro de um processo integral de Habilitação Social; Justificativas > É uma solução rápida, concreta, prática e simples; > É modular, desmontável e transportável, o que assegura a possibilidade de reutilizá-la caso seja necessário a mudança para outro lugar; > Isola do frio e da chuva, diminuindo as doenças, especialmente entre as crianças e idosos; > É uma solução de emergência, não uma moradia definitiva;


> Não requer mãodeobra qualificada para sua construção; > É o ícone do trabalho concreto que realiza a UTPMP, a forma gráfica de representá-lo; > Ao ser de baixo custo, pode ser massificada e, assim, responder a alta demanda existente; > Sem assistencialismo, constrói-seum teto junto a uma família que vive em condições de extrema pobreza, que paga o valor simbólico de 5% do valor total da casa, com o intuito de valorizar a conquista de uma nova moradia; > É uma habitação com características comuns, o que a faz reconhecível como realizada pela UTPMP em toda a América Latina.

4) Transportável: os painéis pré-fabricados devem ser fáceis de transportar; 5) Fácil de construir: construída por moradores e voluntários, considerados como mãodeobra não qualificada. A casa deve ser montada em dois dias; 6) Baixo custo: que permita sua massificação; 7) Uniformidade do desenho: dimensão de 3 x 6 metros, uma porta e duas janelas na face frontal da casa. Vista pelo maior lado, deve ter duas quedas d’água; 8) Durabilidade e níveis mínimos de qualidade: mesmo não sendo definitiva, exigem-se esses aspectos mínimos que garantam um prazo para se seguir trabalhando. O tempo médio de duração da casa é de seis anos, geralmente suficientes para se iniciar a segunda fase.

3.4 Construção Conceitos básicos que deve cumprir uma Casa de Emergência de UTPMP 1) Habitação de madeira: fácil armação, baixo custo, disponível no mercado; 2) Massiva: a produção de peças, partes ou sistema da casa devem ser apta para a massificação da solução, a diminuição dos tempos de construção, implementação e dos custos por economias de escala; 3) Modular: os painéis devem ser montados e desmontados com facilidade, e dessa forma ser reutilizados;

A preocupação da construção de moradias de emergência no UTPMP começou com um sacerdote jesuíta chamado Felipe Berríos. Foi durante a sua atividade em que construía capelas com um grupo de universitários que notou, ao seu redor, a condição precária da moradia das pessoas que habitavam naquele meio. Então, largou a sua atividade e junto com o grupo começou a construir casas de emergências para as pessoas pobres mais necessitadas. Pela necessidade da família ser extremamente alta, a casa precisava ser construída o mais rápido possível. Foi então que surgiu a ideia de usar seis painéis pré-fabricados, de madeira, para montar a casa dentro do prazo de dois dias. A princípio o tamanho da casa era3x6 metros (18 m²), no entanto, o tamanho pode variar dependendo do tamanho do terreno em que a

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Figura 6: Equipe durante construção Fonte: umtetoparameupais.org.br família habita. É importante ressaltar que o tamanho mínimo que a casa pode ter é 3,5 m². Uma mudança que teve na habitação de emergência no UTPMP foi o piso. No início, o piso da casa era apenas terra. Depois de enquetesfeitas com cada família, viu-se a necessidade de elevar a casa do solo, com pilotes, minimizando a infestação de insetos tais como, baratas, cobras, ratos e outros, e também minimizando a possibilidade de infiltração de água em épocas de chuvas fortes, em consequência o piso agora é de madeira. A casa, depois de construída, tem a durabilidade de seis anos devido a algumas características do material. A primeira é a substituição da telha de amianto

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por telha de zinco. Abaixo da telha de zinco existe um manto que serve para reter o calor, evitando, no verão, que o ambiente interno da casa não sofra com a alta temperatura, deixando o clima mais refrescante. O segundo aspecto são asjanelas. Muitos barracos não possuem janela, consequentemente, a casa absorve toda a umidade, aumentando a possibilidade de doenças para os integrantes da família. As tábuas de madeira são montadas no vertical para que, ao chover, a água não escorre para dentro das rachaduras. Todas essas mudanças e melhorias da casa foram surgindo pelasexperiênciase da prática dos grupos de voluntários universitários. Os benefícios que a casa construída desta forma traz para o UTPMP é o custo baixo, fácil armação e fácil transporte dos painéis pré-fabricados, tudo isso sem a necessidade de mãodeobra qualificada, contando apenas com a integração da família e dos voluntários – que veem de toda a América Latina – para que, juntos, construam e participem em prol das comunidades necessitadas.

3.5 Conceitos-chave Transitoriedade da casa de emergência A casa construída é transitória, pois representa o primeiro passo de um modelo de intervenção que tem, como objetivo, o alcance de uma comunidade sustentável. Com a construção, não se pretende resolver de forma definitiva seu problema de habitação, mas, sim, denunciar a realidade em que vivem essas pessoas. Para isso, um projeto de longo prazo é necessário.


Modelo de intervenção O modelo de intervenção possui três fases: começando com a moradia de emergência, seguindo com planos de habitação social, onde se desenvolvem ações de microcrédito como educação e saúde, por exemplo, tudo com o propósito de alcançar uma comunidade sustentável, ao buscar com os moradores do local integração ao resto da sociedade, capaz de gerenciar-se e inserir-se em redes formais. Jovens voluntários universitários Todos os dias, milhares de jovens voluntários universitários latino-americanos trabalham movidos por uma causa comum: a eliminação da pobreza extrema na América Latina. Focando nesse grupo de pessoas, a UTPMP acredita que os jovens universitários podem aliar seus conhecimentos teóricos às necessidades práticas das comunidades. Além disso, são esses os jovens que estarão à frente de empresas, secretarias e outras organizações no futuro. Colocá-los em contato com a realidade de seu país é extremamente importante para a sua formação e para que essas pessoas ajam em prol da mudança dessa realidade. Envolvimento de toda a sociedade Pretende-se envolver toda a sociedade, desde empresas, cidadãos, setor público e meios de comunicação, em prol desta missão.Melhorar a qualidade de

vida das pessoas que vivem em condição de extrema pobreza no continente. Não assistencialista As famílias se envolvem em todas as etapas da construção, em um trabalho prévio, em que estas se encarreguem de desmontar sua própria casa e limpar o terreno.Também participam durante todo o processo da construção, convivendo com os voluntários durante a ação e ajudando no trabalho físico. Além disso, 5% do valor da casa são pagos pelas famílias para que participem desse processo e se sintam os verdadeiros proprietários da casa. Projeto Latino-americano O projeto é latino-americano e já está presente em 19 países. No total já foram construídos mais de 76.000 casas, com mais de 380.000 voluntários mobilizados. A meta de estar presente em todos os países da América Latina já está cumprida.

3.6 Escritório O escritório da UTPMP atualmente encontra-se localizado na cidade de São Paulo, na Rua Artur Riedel, 99, nobairro Alto de Pinheiros. Cada área de gestão da ONG é essencial para o seu funcionamento. A maioria dos funcionários são voluntários universitários. Para se candidatar a uma vaga de determinada área, antes o voluntário necessita ter experiência prévia na área e deve participar de reuniões de apresentação

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da ONG, que são divulgadas no site e confirmadas através de cadastro. 3.6.1 Áreas Abaixo segue a lista das áreas e suas funções dentro da UTPMP . As áreas são divididas nas categorias social e comercial: 3.6.1.1 Social A área social tem como finalidade se responsabilizar, principalmente,pelas ações em campo, conscientização e constante denúncia da situação de extrema pobreza na realidade de muitas famílias brasileiras. Fica também encarregada da gestão de equipes, formando e organizando os voluntários para construções e enquetes massivas. Garantir o crescimento e desenvolvimento do projeto no Brasil é a meta desta área. Essa área possui outras subáreas, sendo elas: Formação e voluntariado: responsável pela gestão de relacionamento em colégios e universidades.Essa área fica encarregada na formação e captação de voluntários, juntamente com o posicionamento da UTPMP perante as universidades. Detecção e Designação: o primeiro contato com as comunidades é estabelecido por esta área.É primordial o posicionamento da UTPMP nessa etapa dentro das comu-

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nidades. Ficam responsabilizados pela detecção das famílias mais necessitadas e designação por intermédio das enquetes. Logística: área encarregada de acompanhar e garantir a qualidade do processo construtivo, desde seus fornecedores, passando pelo projeto, fabricação e construção das casas.Também fica responsável pela alimentação dos voluntários durante a construção. Construção: esta área envolve as áreas de Detecção e Designação, como também a área de Logística. É nesta área, em que se desenvolve a etapa de construção das casas. Para isso é preciso antes passar pela coordenação das áreas de Detecção e Logística para que se possa designar a qual família será construída a casa.

3.6.1.2 Comercial Responsável por toda parte burocrática e judicial, essa área se encarrega das ações de marketing e conscientização de um público-alvo mais delimitado, como empresas e parceiros, com objetivo de manter sustentável a UTPMP. Também fica encarregada de ações na rede. Assim como a área Social, a área Comercial é composta por algumas outras subáreas: Recursos: área responsável pela captação de recursos para as construções planejadas e gastos fixos mensais,além da captação de recursos de emergência. Esses recursos são arrecadados por meio de parcerias estratégicas e sustentáveis, ou por meio de planos de sócios, construções corporativas e parcerias com fornecedores.


Administração e Finanças: esta área zela por garantir a transparência dos recursos financeiros arrecadados, como, também, sua correta aplicação. Responsável pela administração do espaço físico do escritório e suas auditorias. Comunicação: pode se dizer que é uma das áreas mais importantes, em se tratando da divulgação da UTPMP. Esta área tem como finalidade promover ações na rede por meio de denúncias positivas e divulgações dos eventos organizados pela ONG. A comunicação e gestão de relacionamento com parceiros, agências de publicidades, assessoria de imprensa e divulgação na mídia sãoresponsabilidadesdesta área.Uma de suas maiores preocupações consiste no objetivo de manter a imagem interna e externa da UTPMP. Jurídico: todo assunto jurídico da UTPMP éderesponsabilidade desta área.Dentre eles constam o levantamento dos antecedentes do terreno (primordial para a etapa de construção), contratos, parcerias e convênios com empresas e outros parceiros. Porém, a UTPMP não é responsável pela assistência jurídica das famílias.

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Presença e ações na rede

3.7.1 Site www.umtetoparameupais.org.br Design de Informação

Figura 7: Mapa de informação.

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Topo do site: Em todas as páginas do site da ONG as informações no topo são as mesmas, menu, logo da ONG, números de moradias construídas, último tweet e ícone das redes sociais.

Figura 8: cabeçalho do site. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Coluna da direita - As informações que estão na coluna da direita também são as mesmas em todas as páginas, só que estão dispostas como imagens rotativas, Como Ajudar – Plano de sócios, Área para se Voluntariar, Mensagem de Boas Vindas, logo dos parceiros, das alianças regionais e locais.

Figura 9: detalhe da coluna direita do site. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Rodapé – Nessa área,encontram-se o endereço do escritório da ONG localizado em São Paulo, assim como o telefone e o e-mail para contato.

Figura 10: rodapé do site da ONG. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Home – logo,textos, imagens/ícones e banner animado. As informações da Home concentram-se em mobilizar as pessoas para assim captar voluntários. No alto há um banner animado (flash), que é uma chamada para a próxima construção, sempre é relacionado com algum evento da ONG que irá acontecer. A chamada do banner tem um apelo mais visual com chamadinhas mais curtas que são descritas melhor nas informações textuais em forma de posts. As informações textuais estão dispostas em forma de posts, forma comum utilizada em blogs. Osposts são chamadas para os eventos da ONG que vão acontecer com explicações mais longas e detalhadas, clicando no “Continue Lendo”.

Figura 11: detalhe das informações na homepage. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Páginas Internas A linguagem das informações nas páginas internas são predominantemente textos e imagens. Textos que explicam cada item e imagens que ilustram o conteúdo textual descrito. Dentro das páginas, encontramos umsubmenuque em cada página contém itens diferentes. Quem Somos – texto, imagem e submenu (hyperlinks).

Figura 12: submenu da página “Quem Somos”. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Figura 13: conteúdo da página "Quem Somos". Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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O que fazemos – texto, imagem esubmenu (hyperlinks).

Figura 14: submenuda página “O que fazemos”. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Figura 15: conteĂşdo da pĂĄgina "O que fazemos". Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Como Apoiar/Voluntário – texto, imagem e submenu (hyperlinks).

Figura 16: submenu da página “Como apoiar/voluntário”. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Figura 17: conteúdo da página “Como apoiar/voluntário”. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Multimídia – galeria de imagem, Vídeos, Clipping (Revistas, Jornais, Internet) e submenu (hyperlinks).

Figura 18: submenu da página “Multimídia”. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Figura 19: conteúdo da página “conteúdo da página “Multimídia”. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Contato – Formulário para contato, mapa de localização do escritório em São Paulo (Google maps), Organograma e submenu (hyperlinks).

Figura 20: submenu da página “Contato”. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Figura 21: conteúdo da página “Contato”. Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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Design de Interação O site da ONG é pouco interativo, os recursos de interações não passam de cliques simples com informações dispostas em forma de texto,imagens rotativas e estáticas, como mostra o mapa abaixo (figura 22).

Figura 22: mapa de interação.

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Na página interna Multimídia,os recursos da mesma são mais explorados em forma de fotos e vídeos e em algumas publicações em revistas e jornais sobre a ONG. Com uma pequena área dedicada ao último tweet, essa é uma forma de interação com o usuário. Quando há construções, os tweet são mais constantes, informando o usuário dos últimos acontecimentos nos eventos. Mas, durante a semana e em dias normais, não há nenhum evento específico da ONG.Ostweets ainda são baixos. Ainda assim, todos esses recursos são considerados de baixa interação no ponto de vista do Design de Interação, pois o usuário ainda estabelece uma relação passiva com a interface digital.

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Design de Navegação A navegação do site (figura 23) da ONG é de certa forma não linear, mas, também,há casos em que se exigecerta linearidade para que o usuário tenha acesso a uma determinada página.

Figura 23: mapa de navegação

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Por ter um Menu principal e outros submenusalocados dentro das páginas internas, é necessário que o usuário entre primeiro em um conteúdo do Menu para que depois possa escolher algum item do submenu. Essa forma de navegação não é necessariamente negativa, pois implica diretamente na organização da informação do site.Divididos em categorias para cada item, o usuário consegue encontrá-la mais rápido sem passar por dificuldades. Design de Interface O site foi feito na plataformaWord Press, provavelmente em um template alterado, o que já implica em certas limitações de layout. Na home (figura 24), o conteúdo textual é exposto em forma de posts, o que acontece em Blogs, normalmente.É praticamente impossível não estabelecer essa ligação para pessoas que têm conhecimento da área de web.

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Figura 24: homepage da ONG Um Teto Para Meu PaĂ­s (Brasil). Fonte: http://www.umtetoparameupais.org.br.

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A interface do site da ONG mantém um padrão limpo, sem poluição visual,priorizando o conteúdo. O menu, localizado no extremo topo do site, o deixa mais contínuo.O conteúdofica mais junto e sem muita rolagem, o que é mais fácil e funcional para o usuário. A composição visual da interface utiliza a cor branca e azul como predominantes por pertencerem à identidade visual da ONG, usando detalhes em cinza e em textura de madeira, o que faz alusão às casas de emergência que são construídas pela ONG. 3.7.2 Página no Facebook (fanpage) As redes sociais e mais especificamente o Facebook aproximam cada vez mais a vida virtual da vida real. Hoje é difícil separar uma da outra, estão convergindo em uma simbiose sutil, um modus vivendi. O Facebook é a rede mais utilizada por instituições e pessoas, com cerca de 800 milhões de usuários ativosno mundo. Isso se deve à capacidade em compartilhar, discutir, mobilizar, organizar e potencializar ideias de forma simples e viral, repercutindo dentro e fora da rede. Na ONG UmTeto Para Meu País,essa poderosa ferramenta é utilizada tanto para iniciar ações que nascem dentro da própria rede, quanto para organizar ações nascidas fora dela, desde contextos mais formais, como reuniões de áreas no escritório, até conversas informais entre voluntários de universidades. A ONG possui uma fanpage oficial geral, que é também a página do ONG do seu país de origem, o Chile. Essa é a fanpage com mais participantes: 171.078 pessoas (figura 25).

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Figura 25: fanpage oficial da matriz chilena da ONG Um Teto Para Meu País. Fonte: http://www.facebook.com/pages/Un-Techo-para-mi-Pa%C3%ADs/79616214317.


Cada país possui uma fanpage local, no total são 19 países na América Latina, cada um com suas ações locais, formas de se trabalhar as ferramentas e seções particulares. Porém,todas falando dentro de um modelo de trabalho e um mesmo objetivo. A ONG procura fazer um trabalho unificado na América Latina justamente para fortalecer sua presença no continente e expor o problema da extrema pobreza como uma questão comum em todos os países.

Figura 26: fanpages oficiais das sedes da ONG em outros países da América Latina. Fonte: http://www.facebook.com.

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A fanpage da ONG no Brasil tem um quantidade de fãs considerável, cerca de 13.700 até o momento. A quantidade de posts por dia, em média quatro, sempre divulga itens relacionado à ONG e ao trabalho contra a extrema pobreza, entre eles links, eventos, fotos, vídeos e algumas enquetes. Tudo isso mantém um bom engajamento dos usuários, com respostas rápidas e massivas, além da repercussão dos posts da ONG pelos próprios usuários, tudo por meio do compartilhamento.

Figura 27: 1) Banner lateral trocado conforme necessidade de divulgação de eventos. 2) Abas laterais da fanpage com informações diversas.

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As abas laterais são criadas e controladas pelo administrador da fanpage, são elas: Informações: traz dados gerais da ONG, um breve histórico, modelo de ação, presença no Brasil, missão, e-mail, telefones, website e links oficiais ligados à ONG, como o twitter (figura 28), o canal no youtube (figura 29) e a fanpage da ONG da matriz no Chile.

Figura 28: conta da ONG no twitter utilizada para divulgar os principais eventos e links de interesse. Possui mais de 3.300 seguidores. Fonte: http://twitter.com/#!/UmTeto_BRA

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Figura 29: canal no youtube, batizado de canalTETO, possui desde material produzido pela ONG até reportagens e vídeos que a citam ou que de alguma forma têm relação com a organização. Fonte: http://www.youtube.com/user/canalTETO?feature=chclk.

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Atividades de amigos: nela é possível ver as atividades do seu círculo de amigos dentro da fanpage da ONG. Um Teto para meu país: se apresenta uma espécie de quadro de avisos com banners de imagens estáticas com links para a campanha principal do momento. Um banner chamado “Quer ser voluntário?”, que leva ao site na seção de inscrição para ser voluntário. Ao lado há o banner “Plano de Sócios”, que leva ao site na seção do plano mensal para que pessoas físicas colaborem financeiramente com o projeto. “Colabore conosco” leva à página do site onde há os dados bancários para doações ocasionais. Há ainda um banner intitulado “Saiba mais sobre nosso trabalho”, onde são explicadas as três fases do projeto. Por fim, existem banners para o twitter, o canal no youtube e o site oficial no Brasil. YouTube: logicamente mostra vídeos do youtube sobre a ONG, mas não necessariamente os vídeos do canal oficial da ONG no youtube. Eventos: são mostrados os próximos eventos que a ONG promoverá, incluindo todos os detalhes, quem já confirmou participação e a opção de confirmar ou não a própria participação, além da possibilidade de poder exportar a lista de eventos nos formatos para a Apple iCal, Microsoft Outlook e Google Calendar. Em “Eventos anteriores” é possível acessar os últimos eventos desde o início do ano. Notas: têm quase os mesmos conteúdos dos posts

do site, como avisos de próximos eventos. A diferença é que essa aba é mais aberta a posts mais informais do que no site, como, por exemplo, uma nota intitulada “Texto de um voluntário”.Trata-se de um relato longo, mas, de fato, emocionante sobre o que o voluntário sentia e o que via antes, durante e após a construção. Essa nota teve grande repercussão na rede, com 32 compartilhamentos e 82 pessoas “curtindo”. Sim, o “curtir” se torna importante ao se considerar que tudo que o usuário “curte” aparece na timeline do mural pessoal do mesmo, ou seja, todos os amigos dele têm acesso ao que ele curtiu e podem interagir com o conteúdo. Fotos: duas coleções de álbuns, uma de “Fotos de Um Teto Para Meu País”, em que há álbuns com fotos publicadas originalmente na própria fanpage da ONG, e outra coleção chamada “Fotos e vídeos com Um Teto Para Meu País”.Aqui, tratam-se de pessoas que publicaram fotos da ONG nos seus álbuns pessoais. Links: uma seleção de posts mais relevantes feitos pela ONG ou pelos seus fãs. Perguntas: há somente uma pergunta referente à participação na grande construção latino-americana de novembro, avisando o prazo para se inscrever e quatro opções de respostas, três positivas e uma negativa.Há opção de enviar essa pergunta aos amigos, acompanhar as respostas e escrever algo sobre a pergunta. Essa aba, se bem utilizada, pode ser usada como métricas e incentivo de participação nos eventos. Detalhadas todas as abas da fanpage oficial, faz-se importante apontar os grupos não oficiais formados pelos usuários do Facebook. Um grupo grande, mas não oficial, chamado“Tetcheros” é o maior grupo não oficial da ONG no Brasil, criado pelos próprios voluntários, cerca de 700 pessoas até então.Esse grupo tem um grande movimento de troca de ideias para movimentar ações físicas e virtuais (figura 30).

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Figura 30: grupo criado no Facebook por voluntรกrios da ONG. Fonte: http://facebook.com.

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Figura 31: grupo criado no Facebook por voluntรกrios da ONG. Fonte: http://facebook.com.

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Os grupos temporários (figura 32), que são grupos criados por uma necessidade de trabalho no momento, por exemplo, um grupo de voluntários que trabalhou na Logística da construção de outubro de 2011 nasceu um mês antes da construção, para definir datas e organizar o trabalho da distribuição dos painéis das casas para as diferentes comunidades que iriam receber a construção. Isso pode envolver um trabalho de quatro finais de semana antes da construção e necessita de comunicação rápida e massiva, em uma equipe que chega geralmente a cinquenta pessoas.Existe um pico de movimentação enquanto o evento não ocorre, gerando muita discussão nesses grupos. Após o acontecimento do evento, os grupos continuam existindo, mas seus movimentos diminuem muito, havendo somente comentários esporádicos e questões pontuais de tempos em tempos.

Figura 32: exemplo de grupo temporário criado para um trabalho específico. Fonte: http://facebook.com.

14 Equipe responsável pelo carregamento de painéis das casas nos caminhões, descarregamento e distribuição dos painéis nos locais da construção.

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A própria área de Logística e outras áreas do escritório central têm um grupo fixo oficial no Facebook (figura 33). No caso, esses grupos são criados pelos próprios diretores, subdiretores ou coordenadores de área, formado por eles e pelos voluntários de cada área do escritório. Outros pequenos grupos abordando a ONG podem existir, mas esse é o panorama geral da presença da ONG no facebook com suas principais representações. A seguir, baseados nos conceitos de ciberativismo, será trazido à discussão se essas ações na rede são de fato ciberativistas ou não.

Figura 33 Grupos fixos oficiais de alguma áreas do escritório central. Fonte: http://www.facebook.com.

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3.7.3 Ciberativismo no “Teto”? A ONG Um Teto Para Meu País é ciberativista, de fato? Como já citado anteriormente, no capítulo sobre ciberativismo, para que ações na rede se configurem como ciberativismo não basta apenas que o conteúdo online seja lido, é preciso que a informação transponha o virtual e se faça conhecimento útil para ação na vida real. Partindo desse princípio, a ação na rede que mais pode se aproximar são os eventos criados no facebook (figura 34), onde as pessoas são convidadas a confirmarem a participação, discutir e opinar sobre. No evento em questão, haviam 1.123 pessoas confirmadas no facebook, sendo que compareceram de fato cerca de 800 pessoas. Grande parte dessas pessoas sem dúvida foi mobilizada pelo engajamento que o evento proporciona aos participantes. É comum que usuários convidados divulguem e convidem outros usuários do facebook e que isso resulte em inscrições efetivas que não ocorreria com tanta facilidade de outra Figura 34: Evento da Construção Latino-Americana 2011, criado no facebook dois meses antes da evento ocorrer. Fonte: http://www.facebook.com

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forma. Observa-se que os eventos do facebook se configuram como ciberativistas, pois são ações que transpõe o virtual e potencializam ações no real. Pode-se concluir, portanto, que assim como o website da ONG, que é informacional, o facebook tem a função de informação e de mobilização ao mesmo tempo. O grande poder dessa rede em disseminar conteúdos, promover discussões em torno de uma ação e solicitar uma decisão, de confirmar-se presente ou não no plano real do evento, torna essa presença realmente ciberativista.

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Considerações Finais

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Considerações Finais

Com um histórico de desigualdade e descaso herdado desde a colonização, a América Latina detém uma preocupante marca de quase 200 milhões de pessoas vivendo em condições precárias. No Brasil, apesar de suas dimensões continentais, não é preciso ir tão longe dos grandes centros para se deparar com famílias, e até mesmo comunidades inteiras, que sobrevivem em estado de pobreza extrema. A urgência dessa situação faz com que pessoas, verdadeiros cidadãos de bem, se mobilizem e se dediquem, muitas vezes, durante uma vida inteira na tentativa de amenizar as falhas de um Poder Público ineficiente. Graças a cidadãos como esses, foi formada, em 1997, a Organização Não-Governamental chilena UnTecho Para Chile (Um Teto Para o Chile). Em 2006, suas atividades foram expandidas e a ONG chegou a São Paulo (Brasil), onde recebeu o nome de Um Teto Para Meu País. A perspectiva é que, a partir de 2012, novos escritórios sejam montados em outros estados e, com isso, que a atuação da entidade chegue até os mais necessitados. A ONG Um Teto Para Meu País, acompanhando a evolução tecnológica, possui um site próprio, páginas (fanpages) no Facebook, conta no Twitter e canal no Youtube – tudo mantido e atualizado por voluntários. Porém, apesar de estar presente na internet, como constatado, ainda são poucas as ações que podem ser consideradas ciberativistas. Ainda há muito que fazer nesse sentido para que a marca da instituição seja melhor aproveitada.

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Um dos recursos mais poderosos para reforçar as ações da ONG na rede e buscar torna-la ciberativa é o design. Por meio dele, aplicando seus conceitos e conhecendo melhor o público-alvo, novas propostas e soluções podem ser criadas e pesquisadas. Com contribuições que podem variar desde a reprogramação visual do site, deixando-o mais atrativo ao público-alvo da ONG, formado por universitários, e se utilizando de conceitos de design de informação e de interface para organizar o conteúdo, as peças digitais (site, twitter, etc.) podem trazer muito mais voluntários. A capacidade do design em promover mudanças, em alterar o status quo, pode, e deve, ser utilizada em situações como essa.

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ReferĂŞncias

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Referências

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Anexos

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ANEXO 1 – Questionário socio-econômico aplicado para cadastro das famílias

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ANEXO 1 – Verso do questionário socio-econômico aplicado para cadastro das famílias

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ANEXO 2 – Etapas da construção da casa de emergência

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CIBERATIVISMO "EM OBRAS"