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Geral

www.arquidiocesedesaopaulo.org.br 4 a 10 de fevereiro de 2014

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‘Salário da Cracolândia’ é usado para mais drogas Leigos da Igreja que atuam na região constatam que dependentes químicos utilizam remuneração do programa ‘De Braços Abertos’ para manter vício

to em hotéis, alimentação e uma remuneração diária de R$ 15, paga ao final de cada semana, pelos serviços prestados na zeladoria da cidade. “Como ex-usuário de droga, acredito que isso não está muito certo, porque a pessoa pega esse dinheiro e compra mais pedras de crack. Se a pessoa trabalhar usando droga vai é se prejudicar

cada vez mais”, comentou Elizeu, um dos 30 integrantes da Missão Belém na região. De acordo com Ana Maria, nos dias de pagamento aos integrantes do programa, o preço da pedra de crack aumenta de R$ 10 para R$ 20. A agente de pastoral também comentou que usuários de outras cidades têm migrado para São Paulo a fim de conseguir

ingressar no programa, embora as 400 vagas disponibilizadas nos hotéis já não sejam suficientes para as quase 2 mil pessoas que estão na Cracolândia. “Alguns que estão no hotel social não têm o acompanhamento adequado. Não basta dar o lugar para ficar, pois o usuário vai ganhar o dinheiro e no fim de semana terá um quarto para

usar droga, sossegado. Ninguém quer que fiquem se drogando, é preciso ter um acompanhamento. A gente apoia a iniciativa de oferecer a essas pessoas a possibilidade de deixarem a rua, de se tratarem, mas está errada a forma como vem sendo feito, é uma coisa pensada até a Copa do Mundo, para deixar o espaço bonito”, avaliou Ana Maria. Luciney Martins/O SÃO PAULO

Daniel Gomes Redação

“Uma usuária, que conheço faz tempo, chegou pra mim e disse: ‘Agora, fico ali naquele hotel da esquina’. E eu perguntei: ‘E o que você faz?’. ‘Ah, vou trabalhar a semana toda e daí você sabe onde a gente usa o dinheiro..’, disse.” O relato é de Ana Maria da Silva Alexandre, agente da Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo, que conversou com a usuária que se preparava para consumir crack. O que Ana Maria tem constatado ao visitar ao menos duas vezes por semana a Cracolândia, Elizeu Dias, missionário da Missão Belém, também testemunha diariamente. “Está complicado, pois para alguns que estavam na rua deram moradia, comida e trabalho, mas eles estão um pouco iludidos com isso, pois recebem o dinheiro e continuam usando droga”, garantiu ao O SÃO PAULO. Os relatos sobre a realidade da Cracolândia foram dados à reportagem na semana em que a Prefeitura de São Paulo anunciou os primeiros resultados do programa “De Braços Abertos”, iniciado em 14 de janeiro, com a meta de revitalizar a Cracolândia e proporcionar nova perspectiva de vida aos que aderiram à iniciativa: dos 370 dependentes químicos cadastrados, 53 iniciaram tratamento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), 1.131 pedras de crack foram apreendidas e 25 pessoas presas. Aqueles que aderiram ao programa recebem abrigamen-

Especialistas defendem intervenção sem violência Da redação

Em meio à realização do programa “De Braços Abertos”, uma ação do Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), da Polícia Civil, que em 23 de janeiro usou de violência para prender traficantes na Cracolândia, foi criticada pela Prefeitura de São Paulo e grupos de direitos humanos. No dia 27, o Centro Santo Dias de Direitos Humanos (CSDDH), entidade ligada à Arquidiocese de São Paulo, divulgou nota lamentando o ocorrido. “A ação foi uma tragédia e um desastre que poderia ter comprometido todo um tra-

balho entre governos estadual e municipal. A Secretaria de Segurança e as policias têm todo o direito de continuar o trabalho de inteligência e dar segurança para resolver esses problemas, mas tem que ser com inteligência, para evitar ações que possam acarretar tragédias e pôr todo o trabalho a perder”, avaliou, ao O SÃO PAULO, o advogado Luciano Santos, presidente do CSDDH. Para a professora doutora em Educação, Maria Stela Santos Graciani, que, por quatro anos, atuou no Centro de Formação da Guarda Civil Metropolitana, o comportamento da Polícia Civil no dia 23 “foi completamente equivocado no

trato da população em situação de rua, que por inúmeras razões já se encontra vulnerabilizada. Faltou não só preparo de quem efetuou o comando desta operação, bem como o entendimento de como atender essa população, o que requer especialização tática e bom senso humano”. Maria Stela, que coordena o Núcleo de Trabalhos Comunitários da Faculdade de Educação da PUC-SP, ressaltou que quem vive nas ruas está “na última possibilidade do ser humano” e que políticas públicas para tais pessoas deveriam ser prioridade, colocando em prática conhecimento de diferentes áreas do saber, em ações interdepen-

dentes dos órgãos municipais, estaduais e federais. A professora, assim como o presidente do CSDDH, classificou como positivo o programa “De Braços Abertos”. Para ela, a iniciativa favorece o aumento da autoestima, da autovalorização e da autorrealização dos participantes, “mas não é suficiente nem digno para um trabalhador. Ele precisa de muito mais para sair de seu vício e ganhar saúde. Precisa de um salário suficiente para manterse com dignidade, longe da Cracolândia, ou seja, precisa de um programa municipal qualificado, de excelência, a nível socioeconômico e de saúde”, concluiu Maria Stela. (DG)


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