Page 1

ESTADO DE MINAS

3 .

S Á B A D O ,

1 4

D E

J U L H O

D E

2 0 0 7

Poeta da existência Exposição na Biblioteca Pública Luiz de Bessa, que termina hoje, destaca a obra de Paulo Mendes Campos, autor de clássicos como O amor acaba e O colunista do morro

A

ACERVO EM - 25/04/84

DANIEL CAMARGOS

vida é esta, descer Bahia e subir Floresta. Quem não morou em Belo Horizonte, ao ouvir o mineiro suspirar num momento de cansaço e bobice – a vida é esta, descer Bahia e subir Floresta – não há de entender, perdendo-se em noções de selva e de Estado”. Assim, Paulo Mendes Campos iniciou uma de suas crônicas, inspirada no verso do músico e radialista Rômulo Paes, estampado em obelisco na Rua da Bahia. Até hoje poderão ser vistos, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, livros e notícias publicadas sobre a obra de Paulo Mendes Campos. Sem salamaleques e badalados recursos multimídia, a exposição basta pela essência do escritor – a palavra. Paulo Mendes Campos morreu em 1991, aos 69 anos, e é o menos festejado dos “quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”. Em outubro de 2005, o quarteto formado por ele, Otto Lara Resende, Fernando Sabino e Hélio Pellegrino foi homenageado com estátuas de bronze fixadas no espaço entre a Rua da Bahia e a Praça da Liberdade, a chamada Praça Carlos Drummond de Andrade, ao lado do anexo da biblioteca. A Rua da Bahia serviu de inspiração quando Paulo Mendes Campos observou cheio de desejo algumas senhoras que vendiam chocolates em uma loja lá situada: “Com minha carne, complicada de gânglios e glândulas, entranhas, artérias latejantes, instintos sombrios, joelhos escalavrados, vigoroso e triste. Saúde eu tinha, mas era menino contagiado pela própria força que os outros bloqueavam. Por isso mesmo vivia subindo e descendo a Rua da Bahia”. Estátua impassível, foi vítima de vândalos no ano passado, quando teve a sustentação do pé quebrada e amanheceu caída ao chão. Seus três amigos – Otto, Fernando e Hélio – nada puderam fazer, pois também estão revestidos de bronze – resultado de investimento de R$ 350 mil de uma mineradora. Depois do ataque, a estrutura e vigilância foram reforçadas. Não é de hoje que Otto, representado à frente de Paulo e unanimidade entre os outros três como o mais cético, é desconfiado dos rumos da cidade e da sociedade. No perfil que escreveu sobre Paulo Mendes Campos em 8 de maio de 1981, publicado no livro O príncipe e o Sabiá (Companhia das Letras, 1994), revela seu desalento: “Com amigos mais velhos ou mais moços, formávamos um bando peripatético de poetas e prosadores profundamente sérios, que achávamos graça na vida, no amor e na morte. Cidade amável, Belo Horizonte era palmilhável passo a passo, antes de ter sido atacada pela inchação cancerosa que a sufoca. Como andávamos! E conversávamos! Paulo morava na avenida Paraúna, eu, na Rua Alagoas. A Paraúna hoje é Getúlio Vargas, nessa mania de trocar tudo quanto é nome pelo primeiro oportunismo que nos venha à cabeça. A bela toponímia indígena em breve estará submersa nesse mar de lisonjas ou de bobagens, como são os neologismos derivados de nomes de figurões. A cidadezinha em que nasceu a minha avó hoje chama-se Ritápolis; é de amargar, mas há piores”.

Experiências com LSD Transformações do cotidiano, como as pontuadas por Otto, podem ser observadas na exposição sobre Paulo Mendes Campos. Cronista por excelência, foi também tradutor das obras Oscar Wilde, Julio Verne, Shakespeare e John Ruskin. Além de poeta e jornalista, exerceu diversos cargos públicos. Em repor-

Poeta e cronista de primeira linha, Paulo Mendes Campos foi ainda tradutor de Shakespeare e Oscar Wilde

tagem escrita para a revista Manchete, em 1962, Paulo experimenta LSD, assistido por um médico, e escreve interessante relato, no período pré-hippie. “Sou hoje (semanas depois da primeira experiência) um homem mais desamarrado, sobretudo bem mais livre de mim mesmo. A experiência me ajudou, antes de tudo, a não comer gato por lebre, isto é, hoje, dentro e fora de mim, posso aprender melhor o que é duvidoso ou falso, o que passava por certo e era mediocremente veraz. Livrei-me de algumas túnicas da minha fantasia, quase todas depressivas.” A reportagem é uma espécie de ensaio. Paulo discorre sobre o aumento da sensibilidade da percepção das cores, a diferença do sentido das vozes e termina com a seguinte frase: “O lobo também sabe que amor com amor se paga”. Isso para dizer que, com o uso do LSD, estava livre de rancor na voz e percebeu que foi bem tratado por todos com quem esteve durante sua viagem. O texto foi publicado nos livros O colunista do morro, Trinca de copos e Cisne de feltro. Entretanto, o ápice de Paulo está em O amor acaba – curto e de leitura simples, funciona como receita em que as palavras se encaixam e servem como remédio para dor-de-cotovelo. Na exposição, o texto ocupa um cartaz com a foto do autor ao fun-

do, segurando um cigarro, com poucos fios de cabelo desalinhados, a sugerir que, realmente, a última ponta da desilusão será apagada em breve: “O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas...”. Para Otto, definidor por excelência: “Paulo Mendes Campos foi fiel a seu destino. Nunca abriu mão de sua sensibilidade estética, nem do seu rigor intelectual. Dissimulado em timidez, o seu amor-próprio, vigoroso, não fechou a porta à afeição. O que na juventude a olhos estranhos parecia orgulho, na maturidade veio a ser sabedoria. A compassiva serenidade, com uma ponta de desdém que cultiva ilusões, nem corre atrás da sanção alheia. Em prosa ou em verso só foi poeta”. HOMENAGEM A PAULO MENDES CAMPOS

Curadoria: Humberto Werneck e Jaime Prado Gouvêa. Hoje, último dia, das 8h às 12h. Na Galeria de Arte Paulo Campos Guimarães, Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, Praça da Liberdade, 21, Funcionários. Entrada franca.

Novademocraciadosestudantes “Em determinadas situações, a ocupação de prédios e a interrupção de aulas são atos legítimos de protesto político (...) na medida em que a democracia burguesa (em virtude de suas antinomias imanentes) se fecha à transformação qualitativa, e isso através do próprio processo democrático-parlamentar, a oposição extraparlamentar torna-se a única forma de contestação: desobediência civil, ANTONIO JÚLIO DE MENEZES NETO A política institucional passa por um momento de descrédito comopoucasvezesvimosnahistóriacontemporânea.Interesses privados e corrupção parecem ser a medida de todas as coisas no mundo da política. Este fato acontece num período histórico em que o capitalismo, em sua fase de reprodução neoliberal, avança num mundo em que o consumismo é a tônica absoluta. “Consumo, logo existo.” Como conseqüência, a divisão dos três poderes formais, que são baseados apenas nas representações, apenas cumpre, hoje, o ritual de gestão da reprodução do capital, com as honrosas exceções. Desta forma, para jovens idealistas, esta democracia formal está em descrédito e, assim, novas formas de exercício direto da política começam a ser colocados em prática. É neste contexto que novas formas de ação são gestadas por aquelesquedesafiamosistemaeacreditam“queumoutromundo é possível”. Em todo o mundo, movimentos ecológicos começaramapraticaraçõesdiretas.NoBrasil,desdeosanos80,oMovimentoSemTerrapraticaasocupaçõeseasmarchas,exigindoterra e escolas e os zapatistas, no México, desafiam e questionam o poder. Estas novas formas de ação conseguiram inesperados sucessos num período de recuo dos movimentos sociais, sindicais eestudantis.E,nosanos90,osmovimentosantiglobalizaçãoorganizaramFórunsSociaisMundiais.Eganharamespaçonumaépoca em que o capitalismo parecia ter decretado o “fim da história”. NoBrasilatual,osmovimentospopularescomeçama“descon-

ação direta. Dito brutalmente: se a alternativa for polícia ou estudantes de esquerda, estou com os estudantes”. Carta de 1968 de Herbert Marcuse para o então diretor do IPS de Frankfurt, Adorno, reclamando que este havia chamado a polícia para retirar os estudantes que haviam ocupado a faculdade.

gelar”, depois do período de perplexidade e retraimento na administração FHC e de entusiasmo, letargia e decepção com o governoLula.Mesmoqueaindadeformatímidae“subterrânea”, diversos movimentos sociais, sindicais e estudantis começam a ver que o governo atual é submisso ao neoliberalismo e partem para ações autônomas. Assim, vemos uma tentativa, difícil, digase,dareorganizaçãodasmanifestaçõesderua,dasaçõesdiretas,de cursosdeformaçãopolítica,denovospartidosediversasarticulações políticas por fora dos partidos. Omovimentoestudantilsemprefoimarcantenaslutassociais e políticas brasileiras. A minha geração, na segunda metade dos anos70,enfrentouaditadura,reorganizouaUNEecontribuiudecididamente para a redemocratização. Claro que nossos sonhos iamalém.Mas,dequalquerforma,tenhoorgulhodeterparticipado destas manifestações em minha época estudantil e tenho certeza que foram atos generosamente rebeldes. De forma bastante positiva, estamos assistindo, neste contexto, às ações empreendidas pelo movimento estudantil brasileiro, cujo ato mais marcante foi a ocupação do prédio que abriga a reitoria da USP. Mesmo os estudantes secundaristas começam a se reorganizarexigindoameia-passagemouopasselivrenostransportes urbanos. Desta forma, desde o Fora Collor, não se viam os estudantes ocupando ruas, bandejões, reitorias e páginas da imprensa como agora. Estas manifestações são as formas que os estudantesencontramparafazercomqueasociedadeouçaassuas reivindicações e comece a desnaturalizar diversos dogmas liberais que tomaram conta de nossa universidade.

Assim,onovomovimentoestudantil,deformaautônoma,começa a utilizar-se de novas formas de ações em suas manifestações. E este renascer – ainda que de forma bastante tímida – do movimento estudantil demonstra que os jovens estão começando a questionar o desprezo neoliberal pelas universidades, a falta deperspectivaprofissional,osnovoseantigospolíticosdedireita que ocupam a institucionalidade e os partidos de “esquerda” que aderiram ao pragmático conservadorismo. Estes gestos dos estudantes devem ser vistos dentro do jogo democrático da sociedade brasileira, no qual interesses conflitivos não podem ser vistos como antidemocráticos. Muito antes pelocontrário,fortalecemademocracia,anegociaçãoesãocarregados de sonhos e utopias, tão necessários nos dias de hoje, além deinserirojovemnasdiscussõespolíticasnacionaiseestudantis. Somenteosecosdestesatosjámotivaramdiscussõessuficientes para que desencadeassem debates acerca da universidade, do movimentoestudantiledosrumosdapolíticaentreosjovensejá sinalizam para um despertar dos estudantes. Não podemos nos abstrairdofatodeque,seoconsensoénecessário,oconflitoépartedocaminhodasconquistasdemocráticassociaisepolíticas.Assim, deve ser aceito e negociado, mesmo quando questiona frontalmente o poder constituído.

Antonio Júlio de Menezes Neto é sociólogo e professor doutor na Faculdade de Educação da UFMG.

epe1407p03  

Poeta e cronista de primeira linha, Paulo Mendes Campos foi ainda tradutor de Shakespeare e Oscar Wilde ação direta. Dito brutalmente: se a...

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you