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CULTURA MATÉRIA DE CAPA

Com show em ginásio e festival ao ar livre, os Mutantes marcam a história da cultura pop em Minas Gerais. Apresentação em BH terá os irmãos Dias Baptista e Zélia Duncan

Bons tempos de volta O CRUZEIRO/ARQUIVO EM

DANIEL CAMARGOS Conhecido pelo som potente, a parafernália de equipamentos dos Mutantes assustava. Pelo menos os administradores das casas de espetáculo. O músico Túlio Mourão conta que quando eram marcados shows dos Mutantes no Teatro Bandeirantes, em São Paulo, o pessoal da casa encomendava novas cadeiras e vidraças de antemão. Foi por isso que o show Como nos velhos tempos, última apresentação da banda em Belo Horizonte, foi realizado no Ginásio do Mackenzie e não em um teatro. O produtor do show, dono da Maravilha Produções na época e hoje radialista, Tutti Maravilha, tem a cópia do release que o produtor da banda em São Paulo, Mário Buonfiglio, enviou para ele promover o concerto em Minas. O argumento de Buonfiglio coincide com a história do tecladista: “Pensando no grande público que ficou de fora, quando milhares de pessoas não conseguiram ver o show, porque a lotação já estava esgotada; centenas de jovens forçando as majestosas portas do Municipal, tentando pelo menos ouvir o Som (grafado com caixa alta) e ainda, os casos de ‘repressão’, ‘Não fumar’ – ‘Não dançar’ – etc. etc. , nos motivaram a levar este espetáculo para um lugar mais amplo, e nada melhor do que o Ginásio da Portuguesa, lá no Canindé”.

PELA EUROPA O show foi preparado para teatros – e chegou a ser realizado no Municipal de São Paulo –, mas o ímpeto roqueiro da juventude não combinou com o ambiente. Tutti explica que quando a banda saiu em turnê o melhor foi fazer o tributo aos Beatles em ginásios. “A repercussão foi ótima e os shows lotaram”, lembra Tutti. Tanto que a matéria publicada pelo Estado de Minas no dia do espetáculo salientava logo no início que a apresentação começaria às 20h, mas que os portões estariam abertos desde as 18h. Depois dessa turnê conjunta com O Terço cantando Beatles, os Mutantes foram para a Itália e ficaram quatro meses na Europa. Sérgio conheceu L. Shankar e John McLaughlin, que depois ajudaram o guitarrista mutante a se fixar nos Estados Unidos, onde ficou boa parte da década de 1980. Porém, a banda ainda voltou ao Brasil e com mais alterações tentou tocar novamente, mas não teve sucesso, em 6 de junho de 1978 realizou o último show, para apenas 200 pessoas, em Ribeirão Preto (SP).

Os irreverentes Sérgio e Arnaldo Baptista e Rita Lee criaram os Mutantes, no final dos anos 60, mas se separaram antes mesmo que a década de 70 chegasse

Loucura, carrapatos e rock’n roll O público da capital mineira nunca assistiu a um show com a formação clássica dos Mutantes, com Arnaldo, Sérgio e Rita. Entretanto, antes do show de abril de 1977, no Mackenzie, os Mutantes chegaram a se apresentar em Belo Horizonte. Túlio Mourão lembra de um show no Camping Pop, em 1974. Adriano Falabela, conhecido como Enciclopédia do Rock, pelo quadro que apresenta no programa Alto-Falante na Rede Minas, tinha 21 anos na época e justifica o apelido com alguns detalhes do show: “Foi no Serra Verde e todo mundo voltou cheio de carrapato. Naquela época só ia maluco e a maioria era macho. Os pais não deixavam as mulheres saírem de casa. A ditadura era brava e a rapaziada

era muito louca. Todo mundo de calça boca-de-sino e cabeludo. O festival ainda teve Raul Seixas e a Rita Lee com Tutti Frutti”. No próximo mês será a primeira vez que o público poderá ver os irmãos Dias Baptista tocando e cantando juntos. Porém, no lugar de Rita Lee a voz feminina terá os graves de Zélia Duncan. Quando a banda retomou as atividades para a apresentação no Barbican Theatre, em Londres, em junho do no ano passado, Rita foi convidada, mas declinou. Depois chegou a classificar o retorno como uma volta de velhos atrás de dinheiro. “Os velhos” em questão são Arnaldo, Sérgio e Dinho, o baterista original da banda. Do passado, outro

ausente é Liminha, antigo baixista e hoje produtor de discos de sucesso. Junto com eles estará Zélia Duncan e um time imenso de músicos novos em um sem-fim de instrumentos, que nada lembra a crueza simples, sincera e boa da banda de rock dos anos 1960 e 1970. O som produzido por essa turma resultou em um CD duplo e em um DVD gravado na apresentação do Barbican. O repertório conta com os principais sucessos da fase áurea da banda e serve de base para os shows que eles têm feito. Até agora foram seis nos Estados Unidos, um no aniversário da cidade de São Paulo, em janeiro, e outro na capital fluminense, no mês passado, além do primeiro de Londres.

PRODUÇÃO Além do tributo aos Beatles, a grande atração do show de 1977 era o equipamento de som. Como noticiado antes da apresentação, foi “necessário um pequeno batalhão de pessoas para que tudo saia a contento”. O arsenal incluía oito amplificadores, três mesas de som e duas equipes de iluminação. No show de 21 de abril deste ano, a produção irá dividir a pista do Chevrolet Hall em dois lances de cadeiras, além dos ingressos de arquibancada e do que sobrar da pista. O que mostra que o rock’n roll está mudado. Ou alguém quer ver um show dos Mutantes sentado após esperar 30 anos?

JUAREZ RODRIGUES/EM - 15/2/05

Um gênio em ação

Túlio Mourão tocou piano no disco de 1974 dos Mutantes

Desde que pulou do terceiro andar do setor de psiquiatria de um hospital paulista, em janeiro de 1982, Arnaldo escolheu Minas Gerais como refúgio. Primeiro Juiz de Fora, onde se recuperou das seqüelas graves da queda, e depois um apartamento no Bairro Funcionários, onde vive quando cumpre a agenda da vida de artista, que retomou com a gravação do o disco Let it bed (2004). Para Túlio Mourão, é por Arnaldo que a volta dos Mutantes se justifica: “Só de ter criado o clima e as condições para que o Arnaldo voltasse a se apresentar já valeu. É muito importante que essas gerações que tiveram acesso aos Mutantes apenas em discos e internet vejam a banda ao vivo”. Túlio considera o Arnaldo um gênio e foi por meio dele que conseguiu o reconhecimento do próprio filho, hoje com 20 anos. Quando Kurt Cobain veio ao Brasil, no início da década de 1990, e venerou os Mutantes, em especial Arnaldo, publicamente, o filho de Túlio então deu o devido valor à obra do pai. “Ele não ligava para nada que eu fazia, mas quando viu o vocalista do Nirvana falando da banda que eu toquei, pegou meus discos para escutar”, conta.


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