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GERAIS

Quando tatuei na frente do pescoço o nome da minha filha, ao lado de um demônio,meus pais quase me deserdaram”

GERAÇÃO

AFLITA

Anne Paul

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FOTOS EMMANUEL PINHEIRO/EM

O antebraço de Ana Paula Prado é um inferno. Na definição dela é o subsolo do cemitério, onde moram um capeta e seu inseparável tridente, diversos vermes e algumas rosas negras. As rosas ligam o antebraço ao braço e compõem um quadro tenebroso, em que se ressalta uma figura cadavérica. “É uma morta viva cercada por imagens abstratas e que expressam melancolia”, explica a moça, de 26 anos. A descrição das tatuagens que se espalham pelo corpo de Ana Paula, ou Anne Paul, como é conhecida, seria suficiente para ocupar páginas e páginas de histórias, garantindo a ela a láurea de a mulher mais tatuada de Minas Gerais, com 70% da pele tomada por figuras negras, roxas e vermelhas. Há oito anos, a filha de pais católicos fervorosos do Bairro Califórnia, na região Noroeste, se empenha em exibir aquilo que ela acredita ser: “Arte, cultura e determinação”. Anne Paul senta-se à mesa do bar, na Rua Antônio de Albuquerque, na noite de chuva intermitente de uma quinta-feira. O lugar ostenta em seu cardápio o slogan de ter “a maior variedade de grelhados da Savassi”. O que não se propaga é que ali há também um cenário vasto da “fauna jovem da cidade”. Eclético e sedento, pois segundo o proprietário do bar, em uma noite de véspera de feriado, são vendidas entre 12 e 16 caixas de cerveja, algo que vai de 172 a 230 litros de bebida. Na mesma mesa da turma de Anne Paul, uma moça com o cabelo tingido de ruivo e usando óculos de “a mais inteligente da turma” conta, clamando atenção, a história de seu pai, que já capotou o carro três vezes. Destaca que, em duas oportunidades, seu pai provocou perda total e que em outra acertou um ciclista em Lagoa Santa. “Tirou a foto do carro todo estraçalhado”, diz, já rindo, antes de completar: “Meu pai é foda”. É 0h20 de sexta-feira e Anne Paul explica que o símbolo que traz na blusa preta – da mesma cor da saia, bolsa, coturno, sombra nos olhos e tinta do cabelo – é um pentagrama. “Eu me baseio nele para viver. Representa os cinco elementos da Terra e me ajuda a saber o que é certo e errado”, comenta. Errado, ela esclarece, são as drogas e o álcool. Mas, enquanto toma um gole de cerve-

CYAN

ja, acrescenta que faz uso de entorpecentes. Porém, ressalta, com moderação. “A droga está em todo lugar”, professa, com o dedo indicador balançando. Anne mora com os pais e com a filha, de 4 anos. Considera-se jovem, mas acredita que a maior dificuldade de seus iguais é encontrar um emprego. Aos 18, quando fez a primeira tatuagem (uma tribal na nuca, já sobreposta) começou a trabalhar com body peircing, fazendo no corpo dos outros aquilo que mais admira. Além do emprego, arrumou um desgosto profundo para seus pais, que nunca viram “a arte” com olhos bentos. Ela quer se mostrar forte, mas confessa que, quando tatuou na frente do pescoço o nome da filha, ao lado de um demônio, os pais “quase a deserdaram”. No rosto estão quatro piercings, mais um na língua e outro na gengiva, acima dos dentes da frente. Há também piercings nos dois mamilos e um no clitóris. As unhas são “garras de gata que fazem um estrago” e pintadas com esmalte preto. A predileção pelo preto é justificada porque concentra todas as cores: “É completa”.

VÍCIO Divulgado no fim do mês passado,o “2º Levantamento domiciliar sobre uso de drogas psicotrópicas no Brasil”, do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), revela que, entre 2001 e 2005,o número de jovens dependentes entre 18 e 24 anos subiu de 23,7% para 27,4%. O número de adolescentes entre 12 e 17 anos envolvidos com álcool passou de 5,2% para 7% no período. O vício é geral e quando eliminado o corte por faixa etária, considerando os 7.939 entrevistados de 12 a 65 anos, 22,8% usaram drogas – exceto álcool e tabaco – pelo menos uma vez.Em 2001 eram 15,4%.O consumo de maconha subiu de 6,9% para 8,8%, de cocaína de 2,3% para 2,9% e de estimulantes de 1,5% para 3,2% no intervalo de quatro anos.

POSTURA Heterossexual, não recusa experiências. Na última eleição anulou o voto, pois não tinha opinião formada e também não gosta de política. Considera-se uma católica atéia e do futebol só admira a torcida Galo Metal, do Atlético. Eclética, freqüenta os bares da Savassi e aceita convites para comer uma pizza na região da Lagoa da Pampulha ou interagir em encontros de motoqueiros no Bairro Eldorado, em Contagem. “Só não gosto de música da Bahia”, afirma. Lembra com saudade dos tempos do Colégio Estadual Central, quando “aprontou demais” e revela que está solteira, depois de ficar “juntada” com o pai de sua filha por três anos. Aos críticos, tem um recado na ponta da língua (e que não tropeça no piercing): “Sou um ser humano como qualquer outro”. O relógio marca 1h45. Na porta da

MAGENTA

AMARELO

boate A Obra, que é um pedaço de uma garagem de um edifício da Rua Rio Grande do Norte, no Bairro Funcionários, o movimento é contínuo. É noite do “Rock and Roll Radio Explosion”, com três DJs, que se revezam até o dia clarear. Do outro lado da rua, dois rapazes fumam um cigarro de maconha e o cheiro penetra denso no ar até a porta. De dentro da boate escapa um rock. É My generation, do The Who. Quem compreende o inglês pode gritar e dançar no porão abafado da boate e sorver a letra escrita por Pete Towshend, há 41 anos: “Por que vocês todos não desaparecem/ E não tentam entender o que nós dizemos/ Eu não estou tentando causar uma grande sensação/ Só estou falando sobre a minha geração”.

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AMARELO MAGENTA

Filha do caos

CYAN

JUVENTUDE FAZ DISCURSO ETICAMENTE CORRETO,MAS,NA PRÁTICA,AGE DE FORMA DIFERENTE

PRETO

ANNE PAUL FREQÜENTA OS BARES DA REGIÃO DA SAVASSI, TEM 70% DO CORPO TATUADO, SE VESTE DE PRETO DOS PÉS À CABEÇA E USA VÁRIOS PIERCINGS

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Quando tatuei na frente do pescoço o nome da minha filha, ao lado de um demônio,meus pais quase me deserdaram” c m y k c m y k C Y A N M A G...

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