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AFLITA NA TRANSIÇÃO PARA O MUNDO ADULTO, JOVENS PRECISAM DE IDENTIDADE E PROJETO DE VIDA

Vítimas de si mesmos A crueza e imensidão do levantamento sobre suicídio de jovens entre 15 e 24 anos, elaborado pelo Núcleo de Intervenção em Crise e Prevenção do Suicídio, do Instituto de Psicologia (IP) da Universidade de Brasília (UnB), se contrapõem a uma tarefa árdua, pois é praticamente impossível prever o ato. As principais causas da mortalidade são, nesta ordem: acidentes, assassinatos e suicídios, segundo o coordenador dos trabalhos, Marcelo Tavares, doutor em psicologia clínica. Tavares explica que a maioria das doenças possibilita uma profilaxia, mas que a complexidade de desenvolver um trabalho sobre o tema é grande. “Se sabemos que 38% dos suicidas são depressivos, temos que cuidar deles. Mas também sabemos que 90% dos depressivos não se matam.” A depressão, segundo o psicólogo, é um dos principais fatores, mas jovens submissos ou agressivos também requerem cuidados. O que faz do jovem vítima de si mesmo é a sensação de que não adianta construir. “Ele vive em um meio que prega a gratificação imediata”, avalia. Muitos partem para o que ele define como “identidade de aluguel”, se valendo de escapes como a internet, que não exigem o uso do nome verdadeiro, do sexo ou da idade. “O jovem procura espaços em que ele não se revela verdadeiramente. Vi na televisão uma moça falando que ficou com um cara na boate e não sabia o nome dele. Quando a amiga perguntou, ela respondeu que não poderia ter essa intimidade”, aponta Tavares. Para o consultor do Instituto Ayrton Senna, o pedagogo mineiro Antônio Carlos Gomes da Costa, os jovens de hoje estão procurando a morte todos os dias, pois estão bebendo muito, consumindo drogas em excesso, participando de pegas. “É uma geração perplexa, percebe-se que os jovens estão devendo algo. A ausência de projetos de vida não deixa apenas um vazio, mas gera um projeto de morte. E aí vem toda essa adrenalina, essa angústia, essa busca do imediato, das sensações, da intensidade”, observa o especialista, que foi consultor do Unicef, da ONU, em Genebra (Suíça). Ele cita a socióloga argentina Cláudia Jacinto, que disse que para fazer a transição para o mundo adulto, a juventude precisa construir identidade e projeto. “O jovem precisa saber o que veio fazer no mundo, qual a sua profissão, a pessoa da sua vida, religião, posição política. Quando não fazem essas escolhas fundamentais, eles ficam no limbo.” A angústia da modernidade contribui para mudar os valores dos jovens. “Não há condição de a pessoa pensar quem ela é ou estabelecer relações estáveis. Hoje, as pessoas não vivem para ser, mas para ter. Vivemos em uma sociedade de consumo”, reflete. O dilema, segundo Marcelos Tavares, é que os jovens nem sabem que sofrem com isso. Todos estão angustia-

Com a Revolução Industrial, os jovens deixaram o campo e foram viver próximos uns dos outros nas cidades. Feiras, mercados e festas religiosas passaram a ser pontos de encontro, locais onde os jovens se reuniam e namoravam. Com a industrialização na Inglaterra, formaram-se distritos industriais, como os de Liverpool, onde os Beatles viveriam anos depois. No Brasil, as vilas de São Paulo também nasceram com a Revolução Industrial

As lutas de classe trazem idéias socialistas e com elas as leis que restringem o trabalho até os 15 anos de idade. O tempo livre intensificou o relacionamento entre os pares. O surgimento da iluminação a gás e depois da eletricidade revelou a noite, com suas cores e luzes. O tempo e energia eram gastos à noite e, com isso, surgiram as gangues , a gravidez fora de hora, o uso de drogas e o posicionamento do jovem não mais como solução, mas como problema

● Um em cada três jovens já pensou em se matar ● Um em cada 10 fez uma tentativa ● Dois grupos de suicidas são identificados ● Um, motivado por sofrimento grave, envolvendo depressão. Maioria de mulheres vítimas de violência, abusos físicos ou sexuais ● Outro,por decisões com base em uma dor profunda,de momento.Homens se matam com armas de fogo e tomam decisões poucos minutos antes dos. A diferença é que alguns sabem lidar com esse sentimento, outros não, e há aqueles que não querem nem ouvir falar. “Nossa cultura não ensina a lidar com emoções. Se o menino sente vergonha ou culpa, o pai chama de ‘maricas’ ou logo diz que ele ‘tem tudo para ser feliz’”, frisa. Ele lembra que é dever da família escutar aquele que sofre. “Ouvir é levar a sério.” Ele compara um jovem com problemas de auto-estima que faz terapia com outro que não recebe ajuda: “É como a rota de um foguete.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, nasce nos Estados Unidos o movimento beat. A juventude passou a se guiar, no melhor estilo on the road, com o pé na estrada, doses de Jack Daniels e notas de jazz fazendo a cabeça. Os beatniks moldaram as gerações seguintes e assistiram o nascimento do rock and roll, além de darem os primeiros movimentos para a "reforma" sexual que viria. Por tudo isso foram chamados de "geração perdida"

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Em maio de 1968, com as manifestações em Paris, a juventude se divide: de um lado, os engajados, que queriam tomar o poder e organizam-se em movimentos estudantis e milícias armadas. Do outro, os hippies, preocupados em revolucionar os costumes, as relações sexuais, a família e experimentar de tudo: do budismo à macrobiótica, passando pela astrologia, naturismo e o desbunde escancarado. Surgem os rebeldes que lutam por uma ideologia

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JOVENS SEMPRE VIBRAM, COMO NOS SHOWS DO FAT BOY SLIM, UMA OPORTUNIDADE DE EXTRAVASAR EMOÇÕES

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BETO NOVAES/EM - 25/3/06

Corrigi-la em um centésimo de grau é essencial”. Antônio Carlos também ressalta a importância da família. Para ele, o fato de os pais pagarem colégio, inglês, judô, natação e uma série de atividades não significa que eles estejam presentes na vida do filho. “Estar perto não significa estar presente. Essa ausência da presença gera uma solidão exacerbada na vida do jovem”, considera. A melhor forma de exercer uma influência construtiva sobre um jovem ainda é dar o exemplo.

A frase de John Lennon "The dream is over" (O sonho acabou), gravada na música God, de 1970, vaticina o contexto social. Ao se referir ao fim dos Beatles, ele retrata com fidelidade a derrocada das duas correntes de mudança. Os militantes perderam os combates, e os hippies foram para as vitrines, gravando músicas e vendo suas batas em shopping. Do fim do sonho vieram inúmeras correntes: hip hop, funk, skinheads e outras tribos, retratando a falta de um projeto

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O jovem atual é acusado de ser consumista, hedonista, imediatista e relativista, pois não adere a nenhum partido e a nenhuma religião. Mas ele não se deixa manipular pelo estado, partidos políticos nem pelas igrejas. Está meio perdido e se recusa a seguir os mesmos caminhos de gerações passadas. Não encontrou ainda o próprio caminho, não surgiu um líder genial entre eles. Porém, sabe muito bem o que não quer

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