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GERAÇÃO

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Você sabe como são os filhos. A gente fala,insiste,aconselha, mas eles acabam fazendo do jeito que querem’’ RENATO LOUREIRO

PAIS ESTÃO PERPLEXOS DIANTE DO VAZIO INTERIOR QUE LEVA FILHOS A ATITUDES EXTREMAS

Mergulho na escuridão

ESTILHAÇOS Quase dois anos depois, Renato Loureiro sente muita saudade do filho, que estava em uma de suas melhores fases. “Guilherme era muito bonito, tinha 1,85m, corpo malhado, fazia administração na PUC Minas e estava empregado.” Morador do Bairro de Lourdes, tinha carro e estava sempre rodeado de meninas lindas, além de ser carinhoso. “Éramos superamigos. Quando chegava em casa, ele deitava no meu colo e contava as coisas que tinham acontecido com ele durante o dia.” Como pai, esteve presente em todos os momentos da vida do filho. Seis meses antes da viagem para Miami, “Guilherme ficou sem rumo, desorientado, andando da minha casa para a da mãe, colocando e tirando tudo da mochila. Até que o levei a um psiquiatra, que deu o diagnóstico de que Guilherme era portador de transtorno bipolar, uma doença com episódios de euforia e depressão. Em tratamento, ele estava muito bem medicado e fazendo terapia, mas foi para um país estranho, sem a família, apesar dos avisos. Sem referências, ele pode ter tido uma crise quando saiu procurando o menino que se perdera no shopping”. Renato Loureiro hoje vive sozinho. Recuperou-se da crise financeira, porque aprendeu que um artista tem que criar e não ser empresário. Vai abrir um ateliê e uma loja. “Minha meta é a dedicação exclusiva ao trabalho. Não pensar em mais nada.” O Renato Loureiro estilista sobreviveu. Está partindo para um novo tempo, mesmo que estilhaçado. “Sei que posso colar um por um (os pedaços), mas nunca mais ficarei inteiro. Nunca mais serei o mesmo.”

Como tudo começou Todos os deuses da mitologia greco-romana são especializados. Jove, Zeus ou Júpiter, o deus dos deuses, porém, é o único generalista, que não se especializou em nada. A acusação de Catão, político romano, era de que os “jovens se julgam parecidos com Jove”, pois não têm nenhuma especialidade. Em vez de acharem o termo pejorativo, eles gostaram e começaram a adotar o título de jovem, que é aquele que não fez três escolhas na vida. Não escolheu a profissão e, portanto, está aberto a todas. Não escolheu a pessoa com quem terá filhos, portanto, está livre para ter filhos com todos os homens e mulheres. Não escolheu a causa da sua vida – se será comunista, socialista, capitalista. Juventude é isso. É ser disponível, estar aberto aos ideais políticos, à escolha afetiva e profissional.

EULER JUNIOR/EM

Um entrou para o quarto da própria casa e se enforcou. A outra jogou-se com o carro zero quilômetro no abismo. O terceiro pulou de cima da ponte, que tem o nome do avô, na Região Metropolitana de BH. Todos jovens, entre 18 e 25 anos, que não conseguiram preservar o maior de todos os bens: a vida. Não encontraram outra saída e deixaram os pais atormentados. A mãe do primeiro não consegue parar de chorar até hoje, um ano e oito meses depois que o filho único tomou a drástica decisão. Não consegue dar entrevistas. Virou uma espécie de morta-viva, que anda de um lado para o outro desde agosto de 2005. Nem pensa em tornar pública a sua dor. A mãe da jovem de 19 anos também não quer falar. Está muda há um ano, desde março de 2006. Ela, o marido e a outra filha, de 23 anos, não compreendem até hoje o que ocorreu, pois tudo parecia estar bem. A terceira mãe vive hoje à base de calmantes. Dorme a tarde toda, para fugir da realidade cruel de que o filho foi embora, para nunca mais voltar, justamente no Dia das Mães, naquele ano de 2005. Entre os pais que passaram pela dor de perder um filho em circunstâncias trágicas, está o estilista mineiro Renato Loureiro (foto), de 62 anos, o único a se abrir. “Não me interessa saber se ele se jogou ou se caiu. O fato é que o meu filho está morto.” Mas a morte de Guilherme, em julho de 2005, aos 19 anos, veio alinhavar a história de uma tragédia pessoal, que começou com a separação conjugal, depois de 22 anos de relacionamento. Um pouco antes de a ex-mulher anunciar que ia sair de casa, Renato acabara de passar por um outro golpe, com o fechamento da confecção de moda e muitos prejuízos. Ainda sentindo o gosto amargo do divórcio e da crise financeira, pediu ao filho que não fosse para os Estados Unidos. “Mas você sabe como são os filhos. A gente fala, insiste, aconselha, mas eles acabam fazendo do jeito que querem.” Guilherme foi, mas ligava quase todos os dias, para dizer que estava tudo bem, que no dia seguinte estaria em Belo Horizonte e que tinha comprado muitos presentes para todos. Já estava à espera dele, quando chegou a notícia da morte. “Foi um soco na boca do estômago, fiquei tonto”, desabafa Renato. Das providências para trazer o corpo de volta, ao enterro e à tentativa de se reerguer no meio do caos, Renato Loureiro ainda teve que ouvir comentários de que o filho pulou porque estava drogado. “Por favor”, clama o pai, “diga que não havia droga nenhuma na história do meu filho, que ele teve uma crise em Miami, depois de ver que um dos meninos do grupo, do qual era guia, se perdeu dentro do shopping. Preocupado e se sentindo responsável, saiu à procura do menino, de apenas 14 anos, e também ficou sem rumo e sem comunicação, porque a bateria do walk talk acabou”. A família já viu milhares de vezes o filme gravado pelas câmaras do shopping de Miami, até o momento em que Guilherme sai na direção contrária à entrada do prédio. “Desorientado com o desaparecimento do menino do grupo, ele entrou num prédio em construção, subiu até o alto, onde tirou a camisa, deixou a mochila com tudo, e desceu ao 4º andar, até que anoiteceu. Depois de uma longa espera, os outros guias resolveram retornar ao hotel, pois era o último dia de excursão em Miami. Eles, porém, não se preocuparam tanto, porque Guilherme sabia falar inglês fluentemente, um dos requisitos exigidos pela agência de turismo que o contratou para a excursão.” No dia seguinte, a polícia norte-americana encontrou o corpo de Guilherme, sem concluir a investigação sobre as causas. Para Renato Loureiro, porém, foi uma fatalidade. “Não sei se ele caiu ou se pulou”, repete, como se fosse um mantra. “Apenas sei que ele estava fora do seu território, desorientado e sem o apoio da família.”


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