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PÁGINA 18

ESTADO DE MINAS - DOMINGO, 11 DE JANEIRO DE 2004

GERAIS

❚ CHUVAS

ACESSO DE TÉCNICOS DA DEFESA CIVIL E DA PREFEITURA DE BELO HORIZONTE ÀS VILAS E FAVELAS É LIMITADO PELOS TRAFICANTES, MESMO DURANTE AS AÇÕES DE PREVENÇÃO E RESGATE. 156 OCORRÊNCIAS FORAM REGISTRADAS NA GRANDE BH. NO BAIRRO SANTA MARIA, MULHER ESCAPA DA MORTE c m y k

Área de risco refém do tráfico

Famílias resistem à remoção Perto de completar um ano da tragédia que assombrou a capital, no dia 16 de janeiro do ano passado, quando nove pessoas morreram soterradas no beco Joaíma, no Morro das Pedras, o aglomerado volta a ser palco de deslizamentos e estragos da chuva. Ontem, um barraco de dois cômodos desabou sobre uma casa, na rua Brás, 336. Apesar dos estragos, o desabamento não deixou vítimas. Joana Alves Camila, de 55 anos, que mora na casa atrás da que desabou, disse que es-

tava conversando ao telefone e a sensação que teve é que a casa estava entortando. Mesmo com o desabamento da casa vizinha, ela não pretende mudar de lugar. “Tá seguro na mão de Deus”, acredita Joana. Em um beco próximo à casa de Joana, uma encosta deslizou atingindo o fundo do barraco de Paulo Henrique da Silva. Ninguém ficou ferido, mas Paulo Henrique da Silva ficou desamparado. “Como vou fazer se perder a casa? Tenho um filho e minha mulher está grávida de outro”, lamenta.

De acordo com o líder comunitário do aglomerado, Vicente do Prado, existem 17 casas com alto risco de desabamento no morro. Vicente pede que as famílias abandonem as casas em situação de risco e procurem casas de parentes ou os abrigos da comunidade – um salão na vila Pantanal, onde está apenas uma família e outro salão na região do Grotão, onde estão quatro famílias. A solução, segundo o líder comunitário, é porque as famílias “resistem para ir morar nos abrigos da prefeitura”. (DC)

FOTOS EMMANUEL PINHEIRO

MORRO DAS PEDRAS

Barraco desaba sobre casa. Urbel alerta para risco de mais acidentes

Mulher soterrada por barranco

PERIGO

Deslizamento de barranco atinge casa na região Noroeste. Vítima está internada no Hospital João XXIII

CYAN

MAGENTA

AMARELO

PRETO

Este ano vai ficar marcado para a família Dias Pereira. Na manhã de ontem, logo depois de acordar, Eudes Dias Pereira estava no banheiro, quando o barranco que fica atrás da casa dela – no bairro Santa Maria, região Noroeste – desmoronou e atingiu o fundo da casa, jogando as paredes no chão e soterrando-a . “Estava no meu quarto quando ouvi um barulho imenso, fui ver e estava tudo no chão”, relata Welington Dias Pereira, que foi buscar socorro enquanto seu pai tentava retirar sua mãe de debaixo do barro vermelho. Os militares do corpo de bombeiros chegaram em trinta minutos e retiraram a vítima, encaminhada para o Hospital de Pronto Socorro João XXIII e depois transferida para o Hospital Belo Horizonte. Segundo o médico ortopedista Michel Dias Lopes, ela teve uma luxação na perna e vai ficar internada para fazer o tratamento. Moradores dizem que a possível causa do deslizamento é uma obra feita na parte de cima do barranco. Eles se referem ao conjunto habitacional via Expressa, em construção pela Prefeitura de Belo Horizonte para abrigar 11 famílias que vivem em área de

ALERTA O Centro de Controle de Emergências da Coordenadoria de Defesa Civil de Minas Gerais mantém o indicativo de alerta em relação às chuvas, em todo o Estado. Os avisos foram emitidos para as prefeituras, Polícia Militar e Corpo de Bombeiros. Ontem, um corpo de homem foi encontrado, às margens do rio Arrudas, próximo ao bairro Esplanada. Policiais militares que estiveram no local acreditam que não seja mais uma vítima da chuva, visto que o corpo não tinha escoriações e nem sinais de que havia sido arrastado pela água do rio. risco na rua Igará, no mesmo bairro. Segundo Maria Raimunda Teixeira, o local é uma encosta de alto risco e como a vegetação foi retirada para as obras ficou mais vulnerável. “O asfalto, meio-fio, sarjeta e escada para escoar as águas da chuva não foram construídas e com a chuva o barranco caiu”, afirma Maria Raimunda Teixeira. A prefeitura,

através da assessoria de imprensa, diz que a construção do conjunto não tem nada a ver com o desabamento e que a queda do barranco foi um fato isolado, provocado pela chuva. De acordo com o sargento do corpo de bombeiros Ricardo Braga, que participou do resgate de Eudes, a casa ainda corre risco e os cômodos dos fundos foram interditados. O sargento informa que se a equipe de resgate demorasse a chegar, a vítima poderia morrer, já que ela teria uma hipotermia e ficaria sem ar. O deslizamento do barranco deixou a família de Edmilson Rodrigues ainda mais pendurada. Com três filhos e a mulher grávida, o barraco em que vivem pode cair a qualquer momento. Eles moram em cima do barranco que soterrou Eudes. Mesmo ciente do perigo, Edmilson diz que não tem outro lugar para morar e que se sair de casa vai para “debaixo do primeiro viaduto que aparecer”, levando sua família junto. Somente ontem, técnicos da prefeitura fizeram a ficha da família de Edmilson para possivelmente levá-lo para algum abrigo. Segundo informações do Comdec, até o fim do dia a família não tinha sido retirada para nenhuma abrigo.

PRETO

❚ Patrícia de Castro Batista, diretora da Urbel

A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) inaugurou ontem o primeiro Centro de Referência em Área de Risco (Crear), no Taquaril, região Leste da capital. O centro é o primeiro dos seis a serem implantados nas vilas e aglomerados onde o perigo de deslizamentos é maior, com o objetivo de descentralizar o atentimento às vítimas das chuvas. Num primeiro momento, o trabalho consistirá em assistir desalojados e desabrigados. Durante o período de seca, equipes permanentes vão atuar na avaliação de risco e treinamento de voluntários, além de oferecer cursos à população. Antes da cerimônia terminar, a demanda já era grande. Pelo menos duas famílias desalojadas procuraram refúgio no local e foram encaminhadas a abrigos da prefeitura. Já eram 45 os pedidos de vistoria em casas como explicou a diretora de Manutenção e Área de Risco da Urbel, Patrícia de Castro Batista. Com 30 mil habitantes, o Taquaril é a maior área de risco da capital. Outros centros de referência, nos aglomerados da Serra, Cabana, Santa Lúcia, Jardim Alvorada e Apolônia, serão inaugurados até o mês que vem, mas a diretora adianta que eles já funcionam informalmente. Por enquanto, os abrigos da prefeitura têm capacidade para 269 pessoas. Moradores do bairro Santa Terezinha, na Pampulha, planejam processar a PBH, a Copasa e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) pelos danos provocados na enchente ocorrida dia dois. Conforme o técnico em informática Romildo Cardoso Lopes, os advogados da comunidade pretendem provar que a enchente foi provocada pela obras da estação de tratamento da Lagoa da Pampulha, realizadas pela PBH e pela Copasa. A água atingiu 150 casas e causou diversos prejuízos.

AMARELO

“NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR. EXPULSAM E ASSALTAM”

Taquaril terá mais segurança

A diretora de Manutenção e Área de Risco da Urbel, Patrícia de Castro Batista, diz que a orientação é aceitar as ordens de expulsão. “Não desafiamos o tráfego para poder continuar fazendo o trabalho”, explica. “Então, vamos embora e voltamos no dia seguinte. Sabemos que há risco de vida, mas faz parte do nosso trabalho”, justifica. Apesar de a quantidade de agressões ter crescido, os agentes apenas registram ocorrência policial. “Preferimos manter a polícia afastada das nossas atividades, porque, senão, criamos hostilidade com os bandidos”, teme. O coordenador da Defesa Civil Municipal, coronel Walter de Souza, afirma que as ameaças a voluntários e funcionários do órgão também são constantes. “Só não divulgamos para não fazer propaganda de bandido”, afirma. “Encontramos resistência, mas vamos convivendo com elas”, conforma-se. O comandante do 22º Batalhão de Polícia Militar, Josué Soares, responsável pelo policiamento do Morro das Pedras, informou que viaturas fizeram ronda no local. Entretanto, nenhum suspeito foi preso.

MAGENTA

A ação das equipes que trabalham com moradores das áreas de risco da capital está ameaçada pelo tráfico de drogas. Expulsões, assaltos e tentativas de intimidação aos agentes da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e da Defesa Civil Municipal se intensificaram nas vilas e favelas onde os deslizamentos são mais freqüentes, prejudicando o trabalho de vistoria e remoção de famílias. Ontem, em meio ao desabamento de uma casa no Morro das Pedras, região Oeste da cidade, quatro homens armados circulavam por becos vizinhos, na tentativa de afastar técnicos e imprensa. Nas últimas 48 horas, o volume de chuvas alcançou 90% da média histórica em janeiro, de 295 milímetros. A Defesa Civil registrou ontem 156 ocorrências relativas a chuva na Grande BH. Os locais onde as agressões são mais freqüentes são os aglomerados da Serra, Cabana do Pai Tomaz e Morro das Pedras. Nos dias de maior procura por drogas - sexta, sábado e domingo - o acesso a algumas áreas é vetado por traficantes. “Nós evitávamos

ir a esses locais a partir de sextafeira à tarde, porque o comércio é mais intenso. Mas agora, com as chuvas, não há como evitar os horários; trabalhamos a todo momento”, diz o engenheiro Guilherme Vitor da Cruz, da Urbel. Há três meses como vistoriador de áreas de risco, o engenheiro já fugiu de um tiroteio no Cabana, outro no aglomerado da Serra e presenciou o assalto ao carro de um colega, na mesma favela. Domingo passado, em uma vistoria na Vila São José, Noroeste da capital, foi abordado por dois jovens armados de revólver, que levaram celulares dele e da técnica que o acompanhava. “Infelizmente, a quantidade de ameaças é cada vez maior. Trabalhamos em dupla, porque não temos nenhum aparato de segurança. Temos que segurar com Deus”, resigna-se.

CYAN

DANIEL CAMARGOS E FÁBIO FABRINI

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