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CLASSIFICADOSVEÍCULOS

ROLIMÃ A IDEOLOGIA SOCIAL DO CARRO A MOTOR

“Quando o carro foi inventado, ele o foi para prover poucos dos muito ricos com um privilégio completamente sem precedentes: viajar muito mais rapidamente do que todos os demais. Ninguém até então tinha sonhado com isso. A velocidade de todas as carroças era essencialmente a mesma, fosse você rico ou pobre. As carruagens dos ricos não eram mais velozes do que as carroças dos camponeses, e trens carregavam todos na mesma velocidade (não possuiam velocidades diferentes até eles começarem a competir com o automóvel e o avião). Assim, até a virada do século, a elite não viajava em uma velocidade diferente do povo. O carro a motor iria mudar tudo isso. Pela primeira vez, as diferenças de classe foram estendidas à velocidade e aos meios de transporte. Ao contrário de todos os proprietários anteriores de meios de locomoção, o relacionamento do motorista com seu veículo viria a ser aquele do usuário e consumidor – e não do proprietário e do mestre. Este veículo, em outras palavras, obrigaria o proprietário a consumir e usar uma gama de serviços comerciais e produtos industriais que somente poderiam ser fornecidos por um terceiro. A independência aparente do proprietário do automóvel apenas escondia a dependência radical real.”

GURU DA MASSA CRÍTICA O filósofo austríaco André Gorz foi encontrado morto segunda-feira, em casa, em Vosnon, na França. Suicidou-se junto com a esposa. Colaborador da revista Les Temps Modernes, fundada por Jean Paul Sartre, chegou a fazer parte do conselho editorial da publicação na década de 40, e depois fundou a Le Nouvel Observateur, nos anos 60. Também foi autor de diversas obras, algumas traduzidas para o português, entre elas Miséria do presente, riqueza possível: Crítica da divisão do trabalho: e O imaterial: conhecimento, valor e capital. Mas Gorz, que morreu aos 84 anos, também pode ser lembrado por seu célebre texto: A ideologia social do carro a motor (1973) (trecho no centro da página), que fez dele referência para o movimento conhecido como “massa crítica”, que articula o Dia Mundial Sem Carro, comemorado na semana passada.

DESAFIO INTERMODAL TEMPO

DISTÂNCIA

VELOCIDADE

CAL*

CO**

HC***

CUSTO

Motocicleta Ciclista 1 Ciclista 2 Ciclista 3 Corrida Automóvel Metrô + ônibus Ônibus + caminhada Ônibus com baldeação Ônibus direto Caminhada

21m16s 28m41s 30m58s 37m12s 42m05s 44m37s 50m06s 1h04m37s 1h05m58s 1h10m09s 1h14m15s

8,80km 8,80km 8,80km 9,80km 8,30km 8,80km 10,30km 9,10km 9,40km 11,30km 8,60km

25,14km/h 18,86km/h 17,60km/h 15,89km/h 11,86km/h 12km/h 12,36km/h 8,53km/h 8,68km/h 9,69km/h 6,97km/h

38 224 293 258 712 262 118 695 118 297 1.218

48,40g 0 0 0 0 17,60g 16,35g 11,45g 51,23g 61,59g 0

10,56g 0 0 0 0 2,64g 2,34g 1,64g 7,33g 8,81g 0

R$0,52 0 0 0 0 R$2,28 R$2 R$2 R$4 R$2 0

*Gasto xalórico / **Emissão de Monóxido de xarbono / *** Emissão de hidrocarbonetos

APOCALIPSE Gorz explana de forma

clara e direta, como os bons filósofos fazem, que o automóvel é uma das várias estupidezes do homem e que prejudica o convívio social. O texto é difundido por diversos blogs e sites dos cicloativistas (os ciclistas engajados em diminuir o avanço sem freio e enfumaçado dos veículos a motor). As palavras dele estão na coletânea Apocalipse motorizado (Editora Conrad, R$ 17,60), que reúne outras de mesmo tom sobre o tema e em conjunto capitulam o livreto – bíblia do movimento crescente no Brasil –, inclusive em Belo Horizonte, que com sua topografia acidentada exige fôlego e força dos que se aventuram a se locomover sem carro.

MODALIDADE

DESAFIO No sábado, 22, o Dia Mundial

Sem Carro, foi organizado um passeio ciclístico pela Avenida do Contorno. Mas o interessante e já elaborado em outras cidades do mundo e que, pela primeira vez, realizou-se de forma eficiente na capital mineira foi o desafio intermodal. Prova na qual 11 pessoas saíram do portão da PUC Minas, no Bairro Coração Eucarístico, na Região Noroeste, usando diversos meios de transporte e chegaram a um ponto da Savassi, na Região Centro-Sul.

DESMASCARAMENTO Para is-

so, tiveram que passar na es-

quina da Avenida Afonso Pena com Rua da Bahia e fotografar o local, eleito como ponto central. A largada na PUC foi às 18h15, horário de trânsito congestionado. O objetivo foi mostrar que o automóvel não é tão bom quanto aparenta ser, mesmo que o design provocador e a rica publicidade insistam em revelar que por cima das quatro rodas existe um totem do consumo, que associa a propriedade à felicidade.

ARSENAL Todos os voluntários saíram equipados com aparelhos para medir a freqüência cardíaca e o gasto calórico, e ainda tiveram o tempo crono-

metrado. Depois do resultado e com base em dados do Programa de Controle de Poluição de Ar por Veículos Automotores (Proconve) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), e dos números da distância percorrida, os organizadores, membros do Moutain Bike BH (www.moutainbikebh.com.br), calcularam as emissões de poluentes de cada meio.

NO ALVO O objetivo foi conseguido com louvor. O automóvel chegou em sexto lugar. Perdeu para os voluntários que fizeram o percurso correndo, de bicicleta e de motocicleta (leia ta-

bela). Além disso, é o transporte mais caro e, se considerado o número de passageiros, é, junto com a motocicleta, o mais poluente. Quem fez o trajeto usando a baldeação entre o metrô e o ônibus gastou R$ 0,28 a menos do que os que foram de carro e chegou 6 minutos depois na Savassi. Isso porque a baldeação se mostrou a melhor opção de transporte coletivo.

PREJUDICADO Quem optou pelo ônibus direto, a linha 4111, que liga os bairros Dom Cabral e Anchieta, passando pelo Padre Eustáquio e também pelo Centro, levou 1h10m9s. Só 4 minutos mais rápido do que o analista de sistemas Humberto Guerra, que fez o trajeto a pé. É claro que ele escolheu o trajeto mais curto, passando pela Avenida Amazonas, mas como tinha que passar na esquina da Avenida Afonso Pena com Rua da Bahia, teve que alongar a caminhada. “Se não fosse isso, teria ganhado do ônibus”, afirma. REVELAÇÃO Aos 39 anos, há oito Humbertoabandonouoautomóvel.“Quando me mudei para perto do meu trabalho, passei a ir a pé. Já andava de bicicleta nos fins de semana e, com o tempo, comecei a usá-la no dia-a-dia. Até que um dia fui ligar o carro e a bateria estava arriada. Descobri que não precisava mais dele”, lembra. Com o tempo, transformou o acaso em questão ideológica, se uniu aos outros ciclistas em discussões em fóruns na internet. Forma um núcleo daquilo que é chamado de Massa Crítica. “A cidade está saturada. O barulho da cidade é o barulho dos automóveis. As pessoas estão sedentárias e pegam o carro para ir na padaria, ao lado de casa”, constata Humberto.

STR/AFP

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09 - setembro - 30