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2 A eterna força dos sabores regionais brasileiros

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SALVADOR SEXTA-FEIRA 13/8/2010

GASTRONOMIA Sobrinha do escritor paraibano Ariano Suassuna, a educadora Ana Rita lança livro que reúne receitas sertanejas

DANIELA CASTRO

Certa feita, a paraibana Ana Rita Suassuna achou de apresentar a um grupo de chefs de cozinha de São Paulo, amigos de seu filho, alguns exemplos do que se comia no dia a dia de sua terra natal. Mara Salles e Alex Atala, só para citar dois, estavam à mesa neste dia. Entre um prato e outro, tome-lhe a cozinheira a matar a curiosidade dos convidados.

“Fui respondendo muito despretensiosamente, mas eles se surpreenderam com a quantidade de informações que eu tinha”, lembra. Embora a literatura não lhe fosse algo estranho – sim, ela é sobrinha de Ariano Suassuna – foi só então que começou a cogitar a possibilidade de ver o seu nome estampado na capa de um livro de gastronomia. “Não me preocupei com aquilo. Mas chega uma hora que

parece que a gente tá se fazendo de rogada, não é?”, diz a especialista em educação que se tornou autora do do livro Gastronomia Sertaneja, recém-lançado pela Melhoramentos.

História

A publicação reforça uma tendência do mercado à valorização da gastronomia pelo caminho dos sabores regionais brasileiros. Mais do que isso, o projeto editorial se destaca por le-

var o leitor muito além de ingredientes e modos de fazer, agregando às receitas uma pitada de história. “Nunca fui ligada ao movimento gastronômico. Só cozinho em casa e é no olho, sem receita, sem tabela, sem termômetro, nada”, revela Ana Rita, que faz questão de revelar a idade para que o leitor entenda de que tempo ela está falando. “Pode ‘butar’ aí: Ana Rita vírgula 76, quase 77”.

“Só cozinho em casa e é no olho, sem receita, sem tabela, sem termômetro, sem nada”

“Essa cozinha que está no livro é a cozinha da minha casa, dos parentes que moravam perto, dos amigos que moravam na roça”, situa a autora, que nasceu na cidade de Taperoá. “Nessa época não tinha energia elétrica nem água encanada. O fogão era a lenha. Era brasa pra lá e pra cá até chegar à temperatura ideal”, acrescenta.

Manuscrito

ANA RITA SUASSUNA

Fábio Knoll / Divulgação

As 115 receitas do livro são, portanto, como relíquias desse tempo. O resgate se deu primeiro pela memória afetiva da autora, que lembra como se fosse hoje de um sequilho de goma que só a mãe sabia fazer. Conversas com gente da família também renderam pano para manga. Entre as fontes de informação, estão um caderno de receitas manuscrito que Ana Rita ganhou quando ficou noiva. E tem outro no qual ela identificou anotações de 1912. A obra, que também em apresentação impecável, ainda tem desenhos e fotos que colaboram para dar água na boca.

GASTRONOMIA SERTANEJA – RECEITAS QUE CONTAM HISTÓRIAS / ANA RITA SUASSUNA

Editora Melhoramentos / 204 páginas / R$ 149

Cuscuz de goma com massa de milho zarolho. No livro de Ana Rita Suassuna, a receita vem acompanhada pela letra da canção Penerô Xerém, de Luiz Gonzaga

Nhoque de fruta-pão em clima de taverna DANIELA CASTRO

Tudo bem que, em Salvador, a estação mais fria do ano não é tão fria assim, mas as temperaturas mais amenas do inverno ainda servem como bom pretexto para programas a dois em lugares aconchegantes. Se a proposta for essa, a Osteria Dell‘Agazzi é uma boa escolha. Localizado numa rua residencial da Federação, o restaurante fundado por uma família italiana vinda da cidade de Bergamo recebe os clientes em um ambiente dupla-face. No primeiro, você pode ter a impressão de que está na sala de uma tia querida. Mais o subsolo ganha de dez a zero. É lá que a casa ganha o clima de taverna sugerido pelo nome. Não dá para não se encantar com a decoração antiga, que inclui um gramofone e um piano, com direito a luz de velas que derretem sobre o gargalo de garrafas vazias. Para socorrer os que têm dificuldade para ler na penumbra, os garçons emprestam uma lanterninha. Aliás, isso é só um de-

talhe do serviço, que é atencioso e discreto como o ambiente pede, com garçons preparados para explicar cada item do menu sem pestanejar.

Fruta-pão

Eles ajudam a escolher do antepasto à sobremesa, passando pelo primeiro e segundo pratos. Difícil, porém, é chegar a um segundo prato depois das massas, que são servidas em porções generosas. O preço pode assustar à primeira vista, mas a maioria dos pedidos serve duas pessoas com folga. Se quiser algo leve, o caneloni verde recheado com ricota (R$

O preço pode assustar à primeira vista, mas a maioria dos pedidos serve duas pessoas com folga

64) vai bem. A massa artesanal é uma boa razão para experimentar a receita, que ganha um plus com molho de queijo gouda. Mas o caneloni fica somente no campo do razoável se comparado ao nhoque. O inventivo chef Aurélio Agazzi prepara a iguaria à base de fruta-pão e serve frita na manteiga, com sálvia. O ponto alto é a textura: crocante fora, suave dentro. Não perca a opção em que ele vem sem molho, só com linguiça artesanal moída. Vale lembrar que o nhoque é o único que possuiu meia porção – R$ 37, contra R$ 58 da inteira. Ainda assim, haja apetite. A sobremesa, porém, nem sempre reserva boas surpresas. Evite creme do bosque e fragola delicata, que têm como base o trivial creme de confeiteiro, combinando com amora, amêndoa e licor de cassis, ou com morango, merengue e pistache. Ambos passam sem marcar o paladar e deixam a sensação de preço salgado: R$ 22, cada. OSTERIA DELL‘AGAZZI (3245-9069) / RUA ANTÔNIO DOS PASSOS, 30, FEDERAÇÃO

Tour gastronômico Sexta é dia de no Pelô até domingo feijoada francesa

Feira de vinhos para curiosos e experts

O Restaurante Jardim das Delícias, no Pelourinho, recebe convidados esta noite para o lançamento do Noites de Boemia. O projeto – realizado pela Abrasel em parceria com Sebbrae, Saltur, Convention Bureau e Associação dos Comerciantes do Pelourinho – promete dar um pouco mais de fôlego à programação do Centro Histórico com um tour gastronômico em 15 bares e restaurantes da região. A produção do evento espera atrair cerca de 10 mil pessoas, entre baianos e turistas, que contarão também com apresentações musicais de artistas locais.

Já está confirmada, para os dias 10 e 11 de setembro, a sexta edição da Wine Bahia. O evento, organizado pelo enólogo André Freire de Carvalho e pela promoter Licia Fabio, receberá especialistas e curiosos no Hotel Mercure (Rio Vermelho), para apresentar as novidades de produtos e safras e difundir o hábito de beber vinho por meio de minicursos e degustações orientadas. A programação contará, ainda, com atividades para convidados, como o circuito de enogastronomia, noite de queijos e vinhos e passeio náutico, além de jantar enogastronômico.

Para quem adora feijoada, mas não dispensa aquele toque de sofisticação, o Restaurante Couver é o endereço certo às sextas-feiras. Este é o dia que a casa reserva para oferecer o cassoulet, prato típico da gastronomia mais famosa do mundo, que ficou conhecido como “feijoada francesa”. Preparado à base de feijão branco e carnes defumadas cozidas, o cassoulet do Couvert se adapta ao gosto do brasileiro e vem acompanhado de arroz branco e farofa. A novidade está disponível somente na franquia do Salvador Shopping, onde o prato individual fica por R$ 22,90.


08_13agosto2010