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ovelha negra

A REVISTA QUE O BRASIL Nテグ LEU

um livro de

Ricardo Tokumoto & Daniel Werneck

Poeira Comics 窶「 Pandemテエnio 1


Esse livro não teria sido possível sem a inestimável ajuda de dezenas de pesquisadores, colecionadores, bibliotecários e acadêmicos de todo o Brasil. Nossos mais sinceros agradecimentos se estendem também a todos os alunos, professores e pesquisadores do Núcleo de Pesquisas em Narrativas Gráficas da Escola de Belas Artes da UFMG; ao núcleo duro do Pandemônio: Luciana “Tormenta Silenciosa” Cafaggi , Vitor “Tinhoso” Cafaggi, Eduardo “Dudelicious/Megazord“ Damasceno, Luis “Lipão” Garrocho, Daniel “Udan” Lima; a toda a comunidade quadrinística do Brasil e do Twitter, mais especificamente a Família FIQ (Afonso, Samuel, Samara), família Itiban (Mitie, Xico, Yasmin, Tami, Thaisa Marquee Moon, Akira e Virgínia), família Graffiti (Fabiano, Piero, Guga Schultze), pessoal da Samba e da Beleléu, José Aguiar & Gibicon, Danilo Beyruth, Fabiane “Chiquinha” Bento, Marcelo “White Russian” Braga, El Cerdo, André Conti, Rafael Coutinho, Jordan Crane, André Dahmer, Gustavo Duarte, Pedro Franz, Rafael Grampá, Sidney Gusman, Allan Haverholm, Ana Koehler, Cláudio Martini, Rod McKie, Eduardo Medeiros, Eric Orchard, Cris Peter. • Ricardo Tokumoto: a meus pais Zilda e Yoshiaki, minhas irmãs Patrícia e Marielle. Daniel Werneck: a meus pais Lourival e Cláudia, meu irmão Nicolau, minha esposa Ana Paula e nossos filhos Ulisses e Aurora; obrigado a todos pela paciência.

pandemoniocomix.com

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Índice Introdução

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1954-1959: A Geração Abatida

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1959-1964: Exigindo O Impossível

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1964-1969: É Proibido Proibir

51

Documentos

71

1970: Salve A Seleção

75

Homenagens

109

Posfácio

127

“Escrever um livro é uma luta horrível e exaustiva, como um longo ataque de alguma doença dolorosa. Ninguém jamais realizaria tal coisa se ​​não fosse impulsionado por algum demônio que não se pode resistir nem entender. (...) olhando para trás, através do meu trabalho, vejo que, invariavelmente, foi quando eu não tive um propósito político que acabei escrevendo livros sem vida e cheios de floreios, frases sem sentido, adjetivos decorativos e besteiras em geral.” George Orwell

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“Vida de Quadrinista” Poster de Sérgio Cardone 1967 (acervo da Biblioteca Estadual Leopoldo Guimarães)

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Introdução Escondida entre montanhas de minério de ferro, a cidade de Belo Horizonte raras vezes chama a atenção do resto do Brasil. Essa obscuridade toda permitiu a criação de lendas urbanas tão absurdas quanto divertidas. Existe uma que afirma que a capital mineira tem 10 vezes mais mulheres do que homens. Outra afirma ainda que existe um bar em cada esquina da cidade. As lendas verídicas que saem de Belo Horizonte também acabam por ganhar vida própria, deixando o nome da cidade de lado. Conhecidos no mundo inteiro, os grupos musicais Clube da Esquina e Sepultura são sempre lembrados como brasileiros, mas raros são os fãs desses conjuntos que conhecem a cidade onde se originaram. Os poucos que se aprofundam no fanatismo a ponto de visitar a cidade se decepcionam ao não encontrar nenhum grande museu ou centro cultural ligado a eles, e é comum encontrar no bairro de Santa Tereza turistas perdidos procurando o tal clube que fica na famosa esquina. Imaginem então o que seria de uma humilde revista em quadrinhos. Fundada no início dos anos 1950 por um grupo de amigos de bairro e colegas de escola, a Ovelha Negra foi uma verdadeira instituição cultural underground da capital das alterosas por quase duas décadas, e sua trajetória de sucesso e decadência

permanece obscura até hoje, mesmo para os mais ávidos colecionadores de quadrinhos brasileiros. Sepultada pelo regime militar, a revista foi queimada, rasgada e jogada no lixo por ex-leitores tementes por sua segurança pessoal. Como tantos outros elementos da cultura brasileira, permanece hoje no passado obscuro e sombrio de um país anti-cultural que sofre de uma amnésia crônica. Esse livro visa iniciar uma pesquisa que corrija essa injustiça histórica, apresentando ao público, pela primeira vez em 50 anos ou mais, esse material histórico, retrato de uma época que deixou cicatrizes mas que já é hoje desconhecida por muitos jovens e crianças, justamente o público que mais consome histórias em quadrinhos em nossa sociedade. Buscamos fazer justiça a esses destemidos artistas do traço e do texto, cronistas de toda uma geração que nasceu durante o sonho deslumbrante do capitalismo do pós-guerra e foi esmagada pelos coturnos do fascismo sem nenhum senso de humor que aprisionou o Brasil de 1964 a 1985, e que continua vivo até hoje, agindo sorrateiramente nos bastidores da política e da mídia em todo o país. Ricardo Tokumoto & Daniel Werneck

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DITORA

A

N

A

N

Número 65

E

PA

OVELHA NEGRA

M E ICA R

Maio de 1959

a favorita do jk! Capa da Ovelha Negra nos anos 1950, ao mesmo tempo homenageando e satirizando o recémempossado presidente da república Juscelino Kubitschek. A imagem contrasta com a aparência severa e clássica que o presidente tentava passar nessa época, sugerindo que, em Brasília, o mesmo seria ávido leitor da revista.

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1954-1959: A Geração Abatida Apesar de ter entrado para o imaginário popular como uma década de simplicidade e inocência, quem viveu nos anos 1950 não compartilhava dessa visão ingênua. Depois dos horrores indescritíveis presenciados por toda a raça humana durante e depois da II Guerra Mundial, ficou difícil retornar à vida como ela era antes de Auschwitz e Hiroshima. O trauma da guerra afetou o mundo inteiro, e os reflexos disso eram vistos em toda parte: enquanto os adultos tentavam esquecer, reprimindo suas memórias e recordações do período, os mais jovens, impotentes frente à nova ordem mundial do pós-guerra, estabeleciam novas regras de convívio com os mais velhos. Aos poucos, a juventude foi se transformando, abandonando antigos valores da geração que provocou a guerra e criando formas novas e próprias de expressar sua angústia existencial. Enquanto para um coroa padrão bastava tomar um copo de uísque no final da tarde para relaxar e esquecer os problemas, a juventude dos anos 1950 buscava drogas mais pesadas. Anfetamina e maconha se tornaram predominantes dentro das novas sub-culturas jovens que surgiam, como a dos bailinhos de rock and roll, descendente direta dos bailes de swing de antes e durante da guerra, só que agora cada vez mais barulhentos, violentos, e racialmente miscigenados.

a freqüentar os bailes uns dos outros, para desespero de pais, políticos, policiais e padres. Em pouco tempo, os brancos estavam tocando blues, os negros tocavam música country, e dessa mistura nasceu o chamado rock’n’roll. Na literatura, grandes autores como Kerouac, Ginsberg, Camus e Sartre davam o tom absurdista do pós-guerra, tentando explicar um mundo onde os horrores da guerra pudessem existir e fazer sentido. Sobreviventes da guerra traziam suas péssimas recordações para o cotidiano, afetando suas famílias e comunidades. Muitos deles continuaram usando as mesmas jaquetas de couro e pilotando as mesmas motocicletas que usavam no exércico, só que agora para fins menos bélicos e mais autodestrutivos. Nasciam também as gangues de delinquentes juvenis, retratadas no cinema em filmes como “The Wild One” (1953) e “Rebel Without a Cause” (1955).

Chocados com os horrores provocados pela limpeza étnica promovida pelos alemães nazistas, os jovens dos anos 1950 combatem o preconceito racial apenas ignorando as regras que separavam negros de brancos. Passam 7


ovelha

negra No. 71 * REALIDADE COM SENSO DE HUMOR * Novembro, 1959 EDITOR: Ronaldo Jordão * CO-EDITOR: Porfírio Damasceno * PRODUTOR: Sílvio Oliveira ARTISTAS: João Silvério * Fernando Gabaglia * Wallace Silveira ASSIST. PROD.: Chico Villas-Boas GERENTE: Mário Figueiredo * CIRCULAÇÃO: Osvaldo Fonseca * PESQUISA: Pedro Nazareno Editorial.......................................................05

O Pato Pateta..............................................27

Sessão do Leitor...........................................07

A Tropa dos Birutas.....................................30

Ovelhas Negras............................................18

Galeria do Leitor..........................................32

Colorado Kid................................................20

Os Meteoros................................................34

Capitão Raio-Laser.......................................22

O Agente Secreto Zero-Zero-Zé...................35

Adriano & Seus Amigos...............................24

Estamos de volta com mais uma edição da revista mais querida de Belo Horizonte, do Brasil, do Mundo e quiçá do Planeta Terra! O grupo de malucos mais esforçado dessa cidade traz a vocês mais uma coletânea do mais refinado humor gráfico disponível no mercado editorial de nossa maviosa cidade. Personagens tão queridos quanto O Pato Pateta, Sir Roderick, Capitão Raio-Laser e Zero Zero Zé estão todos de volta para alegria da criançada,

deleite da juventude, espanto dos adultos e horror dos mais velhos! Deixe a caretice de lado e mergulhe nessa revista recheada de aventuras, explosões, gargalhadas e muito bom humor! Lembrando que nosso concurso de caricaturas continua valendo! Envie seus originais para o endereço que se encontra no final da página e participe! Os prêmios estão incríveis! Um forte abraço, O Editor

Outubro-Novembro 1955, Volume 1, No. 26, publicação bimensal da Editora Panamericana S/A, Rua Paraíba 27, Funcionários, Belo Horizonte, MG. Registrado no cadastro nacional de publicações na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Preço: Cr$ 490,00. Manaus, Boa Vista, Santarém: Cr$ 573,00. Copyright 1955 Editora Panamericana. A editora se não se responsabiliza por manuscritos não solicitados. Todas as submissões de material precisam vir acompanhadas de um envelope endereçado e selado. Os nomes dos personagens dessa revista são ficcionais e qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Impresso no Brasil.

Típico editorial da Ovelha Negra, com Damasceno ajudando a vender a revista para o público novato, que acabou de pegar a revista na banca e nunca ouviu falar dos personagens. A foto é do famoso filme “O Dia em que a Terra Parou”, de 1951 (dir. Robert Wise), aparentemente um favorito na redação.

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ovelha negra irmãs ovelhas! chega de opressão! vamos enforcar o último fazendeiro nas tripas do último fabricante de casacos de lã!

de novo com esse papo furado? a gente ganha casa e comida de graça e você ainda fica aí reclamando de tudo?

todo ano eles arrancam nossa lã, mas um dia eles vão preferir matar todas nós para fazer churrasco!

deixa de ser burra! eu não estou reclamando! eu estou tentando salvar as nossas vidas!

não seja estúpida! você não sabe que somos todos cordeiros de deus? ele jamais deixaria isso acontecer...

?

Escritas e desenhadas pelos editores da revista, de maneira apócrifa, a tira da ovelha que dava nome à revista trazia uma espécie de editorial disfarçado de quadrinhos, onde a mensagem mais difícil de ser passada era divulgada de maneira mais amigável e compreensível ao leitor.

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Típica sessão de cartas da revista nos anos 1950, com reclamações de educadores, crianças reclamando que tiveram suas revistas confiscadas e/ou destruídas, e algumas propagandas dos próprios produtos da Ovelha Negra, como posters, livros com encalhes encadernados, e até mesmo camisetas, algo atípico para a época, por ser considerada roupa de delinqüente juvenil.

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Adriano

o capetinha barra-limpa texto e desenhos: Wallace Silveira

Em um dos estados mais conservadores do maior país católico do mundo, uma tira de quadrinhos sobre um demônio que ajuda as pessoas e dá bons conselhos é, no mínimo, inusitado, para não dizer surreal. O humor de Wallace Silveira é sempre leve, mesmo usando um protagonista tão estranho para a época. Hoje parece tudo muito inocente, mas devemos lembrar que nos anos 1950 uma página de quadrinhos como essa seria um escândalo.

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texto e arte: Sidney Barreto

Uma das primeiras aventuras de Os Meteoros, que acabaram se tornando alguns dos personagens mais populares da Ovelha Negra. Favoritos entre a turma dos rockers, mas também entre as crianças, eles retratavam de maneira satírica o universo da música jovem da época, com histórias contadas por alguém que realmente vivia aquela cena: Sidney Barreto era guitarrista do conjunto Os Selvagens, figurinha fácil da cena rocker mineira.

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O AGENTE ZERO-ZERO-ZÉ por Alberto Parizzi

a situação é séria, senhor! os malditos porcos comunistas já chegaram em santa clara! morgan estava com eles, o grande traidor! fulgêncio batista está se preparando para fugir do país hoje à noite, durante a festa de ano novo, rumo à república dominicana. os soldados e policiais que não se entregam ao comando dos rebeldes estão sendo executados como animais!

felizmente, meu disfarce de empresário está funcionando muito bem! estou de terno e gravata, fingindo que vim a cuba comprar bananas para revender na américa do sul... é difícil manter a pose nesse calor infernal, mas é um sacrifício necessário para o sucesso dessa missão...

para falar a verdade, tem estado tudo muito calmo por aqui. nenhum sinal de atividade russa. não vi nenhum homem deles atuando por aqui. acredito que estejam esperando até que a situação se estabilize antes de voltarem a se comunicar com moscou. pois é...

chefinho, o senhor sabe que pode sempre confiar em mim para obter as informações mais atualizadas e confiáveis do momento! te dou 100% de certeza que os russos não sabem nada sobre isso que nós não sabemos! amanhã eu ligo de novo... mande lembranças à sua senhora!

inha pronto, m agora gatinha... curtir o podemos lo de espetácu camarote!

ários s ot só o ocupam re se p olítica! p com

rove, na zda ubov moya ly

O famigerado Zero-Zero-Zé, paródia dos invencíveis espiões, detetives e agentes secretos estrangeiros, como James Bond, Sherlock Holmes, O Sombra, Nick Carter, Doc Savage, etc. Espécie de Macunaíma da Guerra Fria, Zé sempre tenta resolver seus problemas usando métodos totalmente desprovidos de moral, lógica ou senso de dever ou patriotismo.

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Colorado Kid está tentando tomar um bom gole de uísque quando é interrompido pelo assistente do xerife que traz péssimas notícias!

Colorado Kid!!! O Canhoto Canhestro está na cidade!! Ele mandou dizer que vai te fazer pagar por tê-lo mandado para a prisão!

er Quer diz el e o temív então qu estro está h an C o Canhot o que e... Tenh na cidad a que já is co a m fazer u feito há devia ter mpo... te o it mu

Outro tema que reinava nos anos 1950 eram os faroestes. Criado antes da revolução estética e conceitual provocada pelos westerns mais radicais do final dos anos 1960, como os filmes de Sérgio Leone e Sam Peckinpah, o Colorado Kid vinha de uma tradição de faroeste mais picaresca, mais para “Matar Ou Correr” do que qualquer filme de John Ford. No entanto, desse último, guardava as imagens compridas, alongadas, quase em Cinemascope, outra moda da época.

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URUBU REI & CRISTIANO

URUBU REI & CRISTIANO

URUBU REI & CRISTIANO

URUBU REI & CRISTIANO

Samuel T.

Samuel T.

Samuel T.

Samuel T.

Com uma interessante mistura de “Peanuts” (Charles Schulz) e “Pogo” (Walt Kelly), Samuel Tristão conseguia contrabalançar de forma acessível e bem-humorada os conceitos abstratos e profundos que se escondem por trás das obras de grandes filósofos, como Nietzche, representado pelo urubu cínico, racional e objetivo, e filósofos religiosos, como Søren Kierkegaard e suas crenças metafísicas, representado pelo não-tão-ingênuo garoto Cristiano, uma óbvia alusão ao cristianismo.

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© Jonas Cabral

O PATO PATETA E O GANSO MANSO

Na fase inicial da Ovelha Negra, O Pato Pateta era apenas uma tira leve e divertida, obviamente inspirada em alguns dos personagens mais famosos da Disney. Os demais personagens da tira, como o Ganso Manso e o Galo Doido, apareciam esporadicamente, e o pato acabou sendo o único personagem fixo dessa série. A linguagem era sempre muda, influenciada talvez pelo Reizinho de Otto Soglow. (Spy vs. Spy só seria publicado nos EUA em 1961)

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CAPITÃO RAIO-LASER capitão raio laser, paladino inter-galáctico, demonstra os poderes de seu famoso aparato de raios luminosos direcionados!

potencialização do fator de luminosidade de ambientes obscuros

desinfecção de setores invadidos por pestes

emburacamento de paredes ou superfícies dificultadoras de locomoção geográfica

obtenção de proteínas para manutenção de sistemas biológicos de alta complexidade

desintegração atômica de planetóides, meteoros e demais detritos interespaciais extra-terrenos

roteiro e desenhos: João Silvério

Assim como Flash Gordon e Brick Bradford, o Capitão Raio-Laser também nasceu na era do jato, quando a corrida espacial ainda estava apenas esquentando os foguetes, vindo a se tornar anacrônico rapidamente a partir do final dos anos 1960.

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a coisa mais bacana de ficar aqui na trincheira é que tem gente de tudo quanto é lugar do Brasil...

veja aquele rapaz, por exemplo. com certeza veio do sul.

nem precisa se esforçar ...

o zeferino até achou um jeito de usar a sua peixeira de baioneta!

para achar o carioca do pelotão!

cada um vivendo o seu estereótipo!

e aquele doidinho ali, veio de onde?

varginha!

fred savassi Eternamente esperando em uma trincheira por uma guerra que nunca começava, os soldados da Trincheira 17 rivalizam com os de M*A*S*H, Guerra Sombra e Água Fresca e do Recruta Zero no quesito estranheza e ironia da vida militar.

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Crás, Bang & Boom

Paulo Guimarães

Aparentemente a mais inocente das tirinhas da Ovelha Negra, as formas geométricas de Paulo Guimarães davam vazão à sua verve criativa, permitindo que esse pacato professor de matemática de um grande colégio público pudesse manter uma atividade mais criativa em seu tempo livre.

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Aquela cachaça era tão forte que eu acordei bêbada! Preciso de um banho gelado e café!

Estou indo ali comprar mais bebida, canapés, e quem sabe até uma anfetamina...

Mas que fraquinha!

Vai ser a maior pifa!

Eu não quero mais beber, é porque estou grávida!!

E depois podemos puxar um fumo

Não devia ter bebido. Acho melhor eu ir Nada embora para casa. disso!! Tchau...

Pessoal, eu realmente não posso mais beber...

Não fui eu!!

Que gatinha mais manhosa! Já falei que a festa mal começou!

A festa ainda não acabou!

Assim você magoa a gente

Me tirem daqui, Você Eu não isso pode ser é um sou o pai! contagioso!! O meu broxa mesmo! negócio é homem!

Sempre apócrifas (provavelmente obra de Porfírio) essas páginas de quadrinhos famosos com textos adulterados eram publicadas ilegalmente, já que os detentores dos direitos autorais não tinham nem como saber que isso acontecia, muito menos representação legal no Brasil. Eram sempre paródias de personagens famosos, ironizando o estilo de humor dos quadrinhos americanos de maneira antropofágica.

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Fern Sir Roderick começou com um desenho simples, quase infantil, que mais tarde se tornaria mais denso e cheio de hachuras e texturas à medida em que a situação social e política do Brasil foi se tornando mais tensa. Com a repressão política, o estilo visual de muitas tiras da época foi perdendo a leveza e ficando mais agressivo, um traço urgente e frenético. Aqui, vemos o personagem ainda em sua versão original, com traço limpo e poucas linhas.

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“A CURIOSIDADE MATOU O GATO”

“UMA MAÇÃ POR DIA TRAZ SAÚDE E ALEGRIA”

A polícia confirma que naquela noite havia movimentação suspeita de indivíduos ligados à Cozza Rella, perigosa quadrilha internacional de crime organizado e contrabando de queijo.

O maior consumidor mundial de maçãs, o caruncho de maçã, leva quase um mês para comer uma maçã inteira. Se o coitado comesse uma por dia, explodiria de tanto comer, e isso não seria nada saudável.

“CÃO QUE LADRA, NÃO MORDE”

“UM TOLO E SEU DINHEIRO NUNCA FICAM JUNTOS”

Esse ditado faz parecer que certos cães nunca mordem ninguém. Na verdade ocorre o oposto: enquanto o cão está mordendo alguém, ele não consegue latir. Antes e depois, late pra cachorro.

Quem inventou esse ditado nunca reparou no extremo mau gosto dos ricos, em suas roupas ridículas, nos carros escalafobéticos, nas casas horrendas, e na maneira estapafúrdia como perdem seu tempo com essas tolices.

Tentativa de imitar a revista MAD, comprovando a influência dessa revista sobre a Ovelha. No entanto, é difícil comprovar de onde viriam as revistas, já que na época ainda era muito difícil conseguir publicações importadas em Belo Horizonte.

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Com mil diabos! Mais uma fornada dos mais irreverentes...

Quadrinhos Nedievais!

Um truque muito utilizado pelos editores da época era a re-utilização de gravuras antigas, disponíveis em grandes arquivos de uso livre, por não terem restrições de copyright. Hoje todos conhecem as imagens “clip-art”, difundidas universalmente em documentos de empresas e escolas para ilustrar os mais variados impressos. O conceito do clip-art é muito mais antigo do que os computadores, e nos anos 1950 era usado com freqüência para economizar tempo e dinheiro. Na Ovelha Negra não foi diferente, e inúmeras vezes os editores se serviram de imagens de arquivo para conseguir o riso fácil, usando piadinhas simples e infames, trocadilhos e outras formas pouco sofisticadas de humor.

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Devido à origem dos bancos de imagem, eram comum piadas com figuras históricas e outros tipos de ilustração normalmente encontradas em livros escolares, enciclopédias, etc.

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“Paste-up” de uma página da Ovelha Negra, datada de Janeiro de 1964. O número 121 parece exagerado e pode ser apenas mentira, ou então eles usavam a contagem somada aos fanzines e panfletos que faziam antes da revista se profissionalizar. Interessante notar como antigamente essas capas eram todas feitas à mão, com fotolitos colados com durex, separação manual de cores, e tipografia desenhada à mão ou então com Letraset e normógrafo, processos muito diferentes dos utilizados hoje na editoração feita por computador.

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1959-1964: Exigindo O Impossível Com o crescimento das vendas e o surgimento de novos colaboradores, a Ovelha Negra lentamente passou de uma “revistinha” (naquela época ninguém em Belo Horizonte saberia o que era um “fanzine”) que circulava de mão em mão em bailes de música jovem e clubes da cidade para uma revista mais séria, com distribuição em bancas de jornal e armazéns de todo o estado de Minas Gerais e, eventualmente, algumas capitais de outros estados. Mais velhos e experientes, os editores passaram a contratar jovens profissionais em meio-período para trabalhar na revista, e o escritório, que no começo ficava na garagem da casa dos pais de Porfírio, passou a ocupar uma sala no lendário Edifício Maletta, que todos os quadrinistas e cartunistas mineiros começaram a freqüentar. Com o passar dos anos, as séries evoluíram de maneiras diferentes, tanto na arte quanto no conteúdo. A partir desse período, podemos acompanhar o surgimento de novos temas que se tornam assuntos comuns a todos os artistas daquele contexto histórico. Mais maduros, e enfrentando novas aventuras em suas vidas cotidianas, os artistas lentamente abandonam os temas mais ingênuos e passam a incorporar em suas histórias as preocupações do

dia-a-dia: a guerra fria, o comunismo, a corrida espacial, o questionamento das normas sociais, casamento, filhos, etc. A geração Elvis Presley e jaqueta de couro não se contentava mais em tomar CocaCola e andar de motocicleta trajando camiseta e calça cowboy. Queriam mais, e queriam agora. À medida em que o homem se aproximava de conquistar a superfície da lua, aqui na Terra a juventude queria novos caminhos para o futuro, e fazia novas exigências à geração de seus pais. Lentamente tomando conta do mundo, esses jovens eram agora formadores de opinião, e lentamente conquistavam a mídia a seu favor, transformando o mundo da publicidade e da indústria ocidental de uma vez por todas. Tudo isso se via refletido nos quadrinhos da Ovelha Negra, cada vez mais preocupados em comentar, ou até mesmo questionar, esses novos posicionamentos de toda aquela geração.

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Índice de uma revista dos anos 1960, claramente influenciada pela MAD, no design e na escolha de fonts. Essa versão é bem mais limpa e organizada, demonstrando a evolução e o amadurecimento estético da equipe editorial. Aqui podemos ver o escrete completo de estrelas da revista, e seus respectivos autores.

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OVELHA NEGRA E agora com vocês a minha mais nova canção! Ela fala sobre as agruras da alma de uma pobre ovelha oprimida pelas cercas da sociedade!

T ROMP!

T ROMP!

T ROMP!

T ROMP!

aaaii!!! liiinndddooo!!!! gostosããooo!!! BROTÃO!!!! que pão!!! gamei!!! quero um pedaço da lã dele!!!

T ROMP! T ROMP!

OMP! OMP! T R R T ! P M T RO ?

T ROMP!

T ROMP!

T ROMP!

oh não!! lá vêm elas de novo!!!

bom, se ele queria consciência social em suas músicas, pelo menos ele conseguiu mesmo agitar a massa!

tromp! tromp! tromp! tromp! tromp! tromp! tromp! tromp! tromp! tromp! tromp! tromp! tromp! tromp!

A temática da beatlemania e da música jovem de maneira geral é uma constante na revista, grande símbolo que era da geração com a qual a revista melhor dialogava.

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trincheira-17 atenção soldados! o capitão se aproxima!

deve haver um engano, senhor. essa salsicha está azul.

não é mesmo uma belezinha? a idéia foi do general. ele não quer nada vermelho por aqui!

ele também disse que vamos ter reforços da marinha em breve, mas não entendi como...

bem vindo à trincheira, senhor!

obrigado, praça! é bom estar de volta. o pessoal da intendência mandou o seu jantar!

por isso, nada mais de catchup, só mostarda... e de sobremesa, ao invés de maçã, todos devem comer pêras.

submarino nuclear sm-01 se apresentando para o serviço, senhor capitão!

fred savassi No início dos anos 1960, podemos ver claramente duas correntes temáticas que irão se entre-cruzar ao longo da década: a Guerra Fria, aqui representada pela paranóia anti-comunista, e o non-sense psicodélico, influenciado pela recente cultura das drogas psicoativas e alteradoras de percepção sensorial, como é o caso do LSD.

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© Jonas Cabral

Essa tira do Pato Pateta flerta claramente com a figura de James Bond, lendário personagem de uma longa série de filmes, estrelada por atores como Sean Connery e George Lazembie. Bond aparece aqui mal-disfarçado de “Blond” (em inglês, “loiro”), um pato bon-vivant que desrespeita a lei anti-fumo demonstrada pelo Pato no quadrinho 4. Passando por cima dessa lei, ele mata o pato (!) demonstrando o que um agente secreto de um país rico pode fazer com os patos de países do terceiro mundo.

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O AGENTE ZERO-ZERO-ZÉ por Alberto Parizzi

zero zero zé, o agente prafrentex, sempre depende das mais avançadas tecnologias para cumprir suas perigosas missões.

aqui vemos uma simplória caneta tinteiro, do tipo que se utiliza para assinar cheques e pedir autógrafos de celebridades...

por dentro dessa inocente chaleira esconde-se uma poderosa arma de fogo capaz de perfurar a lataria de um tanque de guerra.

você adivinhou.

ora, zé, o que é isso! desistiu de seus apetrechos de alta tecnologia e resolveu mostrar o jogo?

fascinante...

O inepto agente secreto brasileiro sobrevive mantendo as aparências. A tira satiriza o absurdo da erotização tecnocrática promovida pela mídia em filmes e seriados de televisão que glorificavam a tecnologia do combate ao crime e da espionagem ao invés da inteligência e humanidade dos protagonistas.

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Ainda tímido na expressão de seus ideais, Sérgio fazia “gags” sem texto, mas com pequenas referências escondidas na arte. A primeira é o detalhe do cenário: a casa que o pistoleiro “mata” com sua saraivada de balas não é um prédio qualquer, mas sim um banco, símbolo da opressão capitalista sobre o proletariado. Outra referência pode ser vista na retícula em torno do sol no primeiro quadrinho, um design semelhante ao do cartaz de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha.

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Página apócrifa (sem assinatura) criticando as controvérsias internas dos movimentos pelos direitos civis nos anos 1960. Quando confrontados pela “ameaçadora” presença feminista, tanto pacifistas quanto panteras-negras revelam seu machismo que nada tinha de revolucionário. Essa página teria sido criada por Liliane Oliveira, e especula-se que ela tenha tido um caso com Sidney Barreto, provável arte-finalista dessa página.

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Adriano ? ? ?

o capetinha barra-limpa texto e desenhos: Wallace Silveira

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Paulo não sabia o que fazer com sua vida Lutar por seu país em alguma terra distante?

Passar a vida guardando processos em uma estante?

Tinha medo de vacilar até mesmo por um instante

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? ? ? ?

?

Juntar os seus trapinhos com uma linda debutante?

Paulo fez tudo isso que lhe mandaram, mas ainda assim, se sentia irrelevante.

O simpático demônio se junta a outro anjo não para ajudar, mas para confundir um pobre humano. A profundidade da moral ambígua dessa história revela o nível de refinamento que os quadrinhos da Ovelha Negra podia atingir, criando narrativas inusitadas em forma e conteúdo.

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Happy Hour minha mulher me deu um ultimato: ou eu paro de beber, ou ela sai de casa. por mim eu nem ligaria se ela fosse embora, mas penso nas crianças...

situação difícil... se você deixa ela ir embora, os vizinhos vão comentar. negocie!

essas mulheres andam muito folgadas! se fosse em casa eu já tinha partido a cara dela p’ra deixar de ser metida! onde já se viu... falta de respeito

eu entendo o lado dela, mas ela também precisa entender que eu tenho minhas necessidades. eu nunca pedi para ter filhos, fiz isso para agradá-la, e agora ela me trai querendo tirar a única coisa boa que eu tenho na vida.

o honorável colega tem razão. como conciliar a solidao e a falta de privacidade? como unir paz de espírito e vida familiar?

a verdade é que mulher é igual bebida... quanto mais vagabunda, maior vai ser a sua dor-de-cabeça...

Essa estranha página permanece como um dos maiores mistérios encontrados por essa pesquisa. Sem assinatura de autor, feita em um estilo visual totalmente diferente de todas as outras, essa tira pintada com pincel traz 3 homens mais velhos conversando em um bar, como se fossem adultos conservadores dando sua visão de mundo. O humor é sutil demais para ser comparado com outras tiras da revista.

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URUBU REI & CRISTIANO

URUBU REI & CRISTIANO

URUBU REI & CRISTIANO

URUBU REI & CRISTIANO

Samuel T.

Samuel T.

Samuel T.

Samuel T.

Nos anos 1960, Samuel Tristão preserva o tom irônico de sua tira, que parece ter a leveza de uma tira humorística comum, mas sempre esconde um lado meio sombrio, semelhante aos “Peanuts” de Charles Schulz. Nessa série de tiras ele critica abertamente o uso do futebol como ferramenta de propaganda ideológica capitalista, algo que iria se fortalecer mais ainda em 1970.

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O AGENTE ZERO-ZERO-ZÉ por Alberto Parizzi

zero zero zé, depois de protagonizar uma série histórica de trapalhadas, a central de inteligência superior nacional e espacial (c.i.s.n.e.) decidiu dar-lhe mais uma chance para se redimir e mostrar serviço... redimir é comigo mesmo chefinho!

quem diria, o bom e velho zé salvando a maior obra de arte do século xx! deve ser grande pra chuchu mesmo, talvez uma pintura do tamanho de um campo de futebol, ou uma escultura da torre eiffel em tamanho natural...

vou ensinar a eles com quem estão lidando! aqueles explosivos plásticos que eu trouxe escondidos no sapato vão dar um jeito nesse esconderijo! a p.a.t.a.-choca vai ter que se mudar e o chefe vai ficar orgulhoso

neste esconderijo da patrulha de ação tática anarquista chocante (p.a.t.a.-choca) está escondida a maior obra de arte do século xx que eles roubaram de um museu. ela não tem preço de tão valiosa. entre lá e resgate a obra sem fazer nenhuma bobagem, e terá o seu emprego de volta... deixa comigo, de arte eu entendo! quando era criança eu vivia fazendo arte

maldição! era uma cilada! eles sumiram com a obra de arte e deixaram esse piniquinho no lugar! nunca fui tão humilhado em toda a minha carreira de agente secreto, espião e tomador de drinks

com mil raios e trovões, zero zero!! eu te dou uma chance de se redimir e você destrói uma obra de arte de valor incalculável!! sua sorte é que ninguém deu falta dela!

O Macunaíma dos agentes secretos explode aquela que é considerada a obra de arte mais influente da arte moderna e contemporânea, o lendário mictório de Duchamp, uma piada que deixou de ter graça antes mesmo de sair do primeiro museu onde foi exposta. A ignorância do agente em relação à famosa obra satiriza a ignorância geral de todo um sistema burocrático que desconhece o valor não apenas da arte dadaista mas da arte e da cultura de maneira geral.

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A

G

A

garota eu só penso em você o tempo inteiro

A

G

A

dicas do costela:

na sala ou no meu quarto, e até no banheiro

como fazer o acorde de mi dessa parte a

t po rein e s min ição a din do ho

o

d se ed xt ão a a co ba rd fa a

não édio das! do m or o de nas c a t s enco

Esse inusitado fragmento de página de Os Meteoros revela um formato curioso: a banda toca uma música na história em quadrinhos, com cifras e letras. Segundo comentários de alguns entrevistados para essa pesquisa, existiu mesmo um compacto de vinil gravado pela banda Os Selvagens, de Sidney Barreto, mas lançado como se fosse da banda de quadrinhos Os Meteoros. Até o final da pesquisa para esse livro, nenhuma cópia desse compacto tinha paradeiro conhecido.

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estamos de volta com o programa favorito da rapazeada, trazido até você com o patrocínio das calças cadillac, cb merci (casas da banha), lojas pernambucanas, refrigerantes mate-couro, colégio santo antônio, sears, lojas dupé...

ok boys, depois que o sr. sorriso ali terminar de ler sua gigantesca lista de patrocinadores, a gente entra lá e arrebenta!

ai ai ai, mas espera um pouco aí, vocês não podem entrar lá com esses cabelos desse jeito! que loucura é essa?

muito bem, jovens, chegou a vez de vocês encararem as luzes da ribalta...

onde já se viu uma banda de iê-iê-iê que tem o pé na senzala!

Outra página de Os Meteoros, tradicional apenas na aparência: o tema do racismo aparece de maneira escancarada, impulsionando a trama central da história, quando a banda (formada por brancos e mulatos) é interpelada pelo apresentador de um famoso programa de televisão local sobre a origem étnica de seu vocalista. Falar abertamente sobre esse tema, e em formato de quadrinhos, é algo extremamente ousado para a época.

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Crás, Bang & Boom

Paulo Guimarães Ainda operando em uma freqüência um pouco mais leve que as outras tiras, as formas se envolviam em aventuras mudas em um universo muito físico e gráfico, que explorava mais os limites visuais e técnicos da página de quadrinhos do que os temas no roteiro.

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CAPITÃO RAIO-LASER “A A M E A Ç A D O S B A R B U D O S ”

vamos enforcar o último imberbe nas tripas do último que não vestir farda militar!

pelos anéis de saturno! aqueles malditos barbudos do planeta vermelho estão infectando toda a população da cidade com seu raio de barbas malucas!

atingido pelo raio, capitão raio-laser inicia um longo e doloroso processo de auto-crítica...

ei... sabem que olhando assim até que eu fiquei estiloso?...

roteiro e desenhos: João Silvério roteiro e desenhos: João Silvério

Apesar de suas origens na ficção científica mais barata, espantosamente o Capitão Raio-Laser foi um dos personagens que mais rapidamente absorveu os temas mais polêmicos da época. Aqui ele faz uma clara alusão à paranóia anti-comunista tão presente nos livros de ficção-científica dos anos 1950 e 1960, onde o tema da invasão é sempre associado com o medo do comunismo, e não raro os alienígenas vêm de Marte - o planeta vermelho.

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sir roderick caminha silenciosamente em busca da porta que o levaria ao seu destino...

Fern

Meia-noite na montanha escarlate...

Com o sucesso da revista em Belo Horizonte, alguns artistas começaram a pensar em viver apenas de quadrinhos. Fernando Gabaglia foi um deles, e começou a desenhar Sir Roderick em um estilo bastante diferente do normal, buscando impressionar editores de São Paulo e Rio de Janeiro para pegar trabalhos ou até mesmo tentar conseguir uma revista própria. Eventualmente ele desistiu e viu que o charme de seu personagem residia justamente em seu formato original, mais simples e direto. Não conseguimos confirmar se essa página chegou a ser publicada ou se foi apenas um teste.

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SE S SÃO R E C I C L AG E M

A

M

E

N

D

O

I

N

S

pedro barbosa! é o dia do arrebatamento! está nevando no Brasil, em pleno verão! é o fim dos tempos, meu amigo!

oh, oh!

calma, lino vem-que-tem! nós estamos nos estados unidos, e não no brasil!

então por que nós falamos português?

ah, é...!

quando chegarmos no vietnã, a festa já vai estar terminando...

só faltam doze anos pra gente ter que se alistar no exército.

tente fazer um texto bonito

acho que já sei por onde começar

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algo realista, mas que inspire as pessoas!

Um espectro ronda a Europa...

cancelaram “além da imaginação”

a série mostrava um mundo de fantasia que era um reflexo crítico do nosso mundo real.

era a única coisa que importava na televisão. eu assistia toda semana.

agora vou ter de me contentar com os panacas do “bonanza”...


ei, chefe! tudo bem por aqui? que barulho esquisito foi esse? parecia uma explo...

cèus! por pouco não sou atingido pela explosão. quem quer que tenha deixado aqui essa armadilha, queria mesmo acabar com o couro de alguèm.

o'malley gira em seus calcanhares e atinge o cocuruto do malfeitor com uma coronhada...

hop! e mais um jab na queixada para não perder o costume!

toma, rufião! um cruzado no queixo para te ensinar a respeitar a lei...

seus dias de proxeneta terminaram, hernandez! vou fechar o seu cassino e todas as garotas serão devolvidas às famílias. vais me pagar caro por isso...

No início dos anos 1960, alguns artistas da Ovelha Negra conseguiam emprego fora da revista, fazendo quadrinhos de outros gêneros para editoras diferentes, explorando novos mercados para conseguir pagar o aluguel. Essa página é de uma história de detetives, feita por Sérgio Cardone para a editora Taika, de São Paulo.

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Ô, rapaz! Quanta saudade!

Me dá cá um abraço bem apertado!

“Se você pensa que a roda dessa bicicleta é grande, espere só até ver a bombinha de encher o pneu!”

Após mais um dia de trabalho duro, os editores e artistas da Ovelha Negra realizam um jantar de negócios com os acionistas.

Sua excelência, o peru.

Mais charges feitas com imagens de arquivo. Normalmente feitas de maneira quase desonesta, apenas para encher algumas páginas da revista, eventualmente elas evoluíram para formas mais sofisticadas. É o caso da peça “Sua Excelência, O Peru”, colagem de gravuras antigas possivelmente inspirada em Max Ersnt, revelando existirem entre os artistas da Ovelha Negra conhecimentos de história da arte raros em trabalhadores desse tipo de revista. A charge causou polêmica, como revelam jornais da época, por fazer troça dos juízes e advogados.

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Poster mostrando como seria um dia normal de trabalho na redação da Ovelha Negra, um retrato humorístico da melhor fase da revista, quando o escritório vivia cheio de jovens artistas talentosos e cheios de energia e novas idéias. Infelizmente esse período iria durar apenas alguns poucos anos.


hos quadrin eixar te d que vão !! ligadão

Capa da Ovelha Negra fazendo uma homenagem à Zap Comix de Robert Crumb, Victor Moscoso, Spain Rodriguez, Gilbert Shelton, e outros. Curioso pensar que essa revista conseguisse chegar até Belo Horizonte aproximadamente na mesma época em que era lançada nos Estados Unidos. Possivelmente os artistas da Ovelha Negra tinham algum contato que morava no exterior e os mantinha informados de tudo de interessante que acontecia no underground americano.

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1964-1969: É Proibido Proibir Estudando hoje a história do século XX, é difícil entender e até mesmo explicar aquele período tão curto que alterou o curso de toda uma civilização. Como explicar para uma criança de hoje qual foi o impacto dos Beatles em nossa sociedade, e que aquela banda durou apenas 7 anos? Como comprimir os eventos de Maio de 1964 em Paris, os assassinatos dos Kennedies e de Martin Luther King, os Panteras Negras, os Panteras Brancas, os motherfuckers, os hippies, os yippies, os yogues? Em um tempo de constante revolução tecnológica, onde gadgets cada vez mais rápidos e vistosos são lançados nas lojas todos os dias, é difícil entender que, por um curto período no século passado, as revoluções eram ainda mais extremas, e aconteciam no campo social, político e psicológico, e não apenas tecnológico. Ao mesmo tempo em que o homem chegava à lua e colocava satélites ao redor do planeta, pessoas comuns transformavam o seu cotidiano em um campo de batalha ideológico, onde comunismo, feminismo, vegetarianismo, pacifismo e outros ismos alteravam a forma de comer, vestir, pensar e falar de milhões de pessoas no mundo inteiro.

África e na Ásia, conflitos armados em vários países árabes e em Israel, ditaduras militares na América Latina, Grécia, e tantos outros lugares. Na Europa e nos Estados Unidos, eram comuns os atentados terroristas, especialmente por grupos de extrema-esquerda e extrema-direita. No Brasil, a revolução cultural que se via nos país mais ricos era sufocada pelo autoritarismo ibérico do governo militar, que tomou o governo em 1964 e só largou depois que a Ovelha Negra já havia desistido de participar daquela grande festa. Mas por alguns anos os seus artistas ainda tentaram manter contato com essa cultura estrangeira em mutação acelerada, trazendo para as páginas da revista e para seus leitores mineiros uma visão adaptada dessas novas realidades: comunidades rurais, amor livre, drogas psicodélicas, experiências sensoriais, pós-cristianismo, socialismo, feminismo, o estilo de vida extravagante dos astros do rock, a ameaça da guerra nuclear iminente nos anos mais perigosos da chamada Guerra Fria.

Essa “década cultural” que ficou conhecida como “anos 60”, foi um período de extrema perturbação política, com guerras e golpes militares acontecendo em toda parte: guerras anti-coloniais na

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cigarrinho de artista

Uma típica tirinha da fase psicodélica da Ovelha Negra e toda e qualquer revista de quadrinhos e humor daquela época, possivelmente meados de 1960, ainda antes de Woodstock. O personagem Ricardo Ricão não aparece em nenhuma das outras revistas encontradas por nossa equipe, mas vale lembrar que tivemos acesso ainda a menos do que metade das edições da Ovelha que foram realmente publicadas. Interessante notar que o personagem em questão parece rico e bem sucedido, e não um hippie estereotípico. As formas nos últimos quadrinhos lembram desenhos e pinturas de artistas cubistas e surrealistas, demonstrando o conhecimento acadêmico que os desenhistas daquela época possuíam e utilizavam a seu favor.

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No final dos anos 1960 o personagem do hippie barbudo e de sandálias torna-se um fenômeno cultural de massa, passando a figurar em seriados de televisão, filmes, e histórias em quadrinhos - caso por exemplo do brasileiro Rolo, da Turma da Mônica de Maurício de Sousa. Aqui vemos uma tira sem personagem fixo e sem título ou créditos, fazendo uma atualização de valores no personagem do Conde Drácula e adequando seu modus operandi a esse período cultural tão rico em explorações psicodélicas. Considerando que os artistas da Ovelha Negra eram muitos deles hippies de sua própria maneira, é estranho encontrar esse personagem estereotipado nessa página - talvez seja uma referência auto-irônica, ou tenha sido feito por algum artista de fora do grupo.

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alô amigos! na aula de hoje, vou ensiná-los uma nova técnica que vai ajudá-los a quebrar as barreiras psicológicas que os impedem de serem artistas famosos como eu!!

acontece que a nossa mão esquerda esconde um poder extraordinário! quando nos obrigamos a usá-la, o poder cerebral usado para isso liberta sua mente

experimente desenhar com a mão esquerda... isso vai estimular o lado direito do seu cérebro, trazendo novos estados de consciência e abrindo a sua mente!

quase todo ser humano tem duas mãos, e 90% de nós usamos a mão direita para desenhar e escrever

usando a esquerda, todos podemos descondicionar nosso olhar sobre o mundo, e assim libertar o desenho que existe dentro de cada um de nós, querendo sair!

voltamos no mes que vem com mais dicas artísticas!

Mais um personagem sem nome, aqui não tão estereotipado, mas ainda incorporando o zeitgeist do período aqui analisado: um misterioso artista de terno e gravata ensina os leitores a desenhar usando a mão “errada” para libertar a mente das amarras da rotina - metáfora mais do que pertinente considerando o período histórico.

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Desconhecendo a surpresa que o aguarda, Kid adentra o saloon...

Com mil diabos, finalmente vou poder rever minha pobre irmãzinha...

Ahh, minha doce Mabel... Quanto tempo passamos separados! O que terá sido feito dela? Na certa se casou com algum rico banqueiro ou um médico bondoso que ajuda os pobres...

Olá, garotão... Seja bem-vindo aos aposentos da doce Mabelle, a rainha do amor à moda francesa... Por favor, coloque suas roupas em cima do baú e lave seu rosto e suas partes íntimas com aquela jarra... São 2 dólares adiantados, mais 2 se você quiser que eu finja que te amo...

Segunda página da história que re-introduziu na série do Colorado Kid a personagem Mabel, irmã do protagonista que aparecia no final dos anos 1950 como alívio cômico, e que voltava no final dos 1960 como uma prostituta lasciva e desbocada. Essa mudança dividiu os leitores da época, mas de qualquer forma serve para mostrar a diferença de mentalidade entre os quadrinhos das duas décadas: aqui os autores já se permitiam muito mais liberdades com o destino de seus personagens.

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mas quem sabe amanhã...

Outra página de autoria desconhecida, caracterizada por um traço hesitante que se auto-afirma a cada centímetro, remetendo a Paul Coker Jr. A historinha simples consegue resumir em apenas 6 quadrinhos toda a vida (e até mesmo o após-morte) de uma criança que passa a adulto e velho em um piscar de olhos. O final da frase fica em aberto, deixando ao leitor a difícil tarefa de admitir para si mesmo que, assim como o protagonista da história, também está perdendo tempo fazendo o que não queria quando deveria estar aproveitando essa chance única de viver para realizar seus...

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trincheira 17 sabe, o pessoal andou reclamando muito, mas até que essa vistoria geral que o alto comando fez foi uma coisa boa para a gente...

imagine você que até uma revista de pornografia eles encontraram...

tlac!

também levaram embora um cachimbo meio esquisito, parecia algo meio árabe...

clic!

fsp! fsp! fsp!

essas coisas atrapalham a gente por aqui, distrações podem resultar em acidentes graves...

temos que estar sempre atentos, nunca se sabe quando o inimigo vai atacar, então precisamos ficar sempre a postos sem nenhuma distr...

fred savassi Ainda presos na trincheira, esperando uma invasão comunista que nunca veio, os soldados de Fred Savassi se viram como podem para suportar os horrores da guerra e da vida militar. Um deles utiliza o próprio fuzil como cachimbo de haxixe e se perde em uma viagem sensorial enquanto seu colega certinho demais fica perdido em pensamentos. Qual dos dois está realmente louco?

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o pato pateta

fim!

Nem mesmo o inocente Pato Pateta escapou das novas tendências culturais dos anos 1960: deitado na cama com duas galinhas (literalmente) ele é surpreendido por um policial raivoso, e só consegue fugir voando com a ajuda de um estranho aparato fumígeno. A pose em que ele sai voando é inspirada na prática da yoga, outra moda entre os “alternativos” daquela época.

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© Jonas Cabral

plã!


Crás, Boom & Bang Nossos pais sempre falam que não devemos aceitar doces de estranhos, mas hoje uma menina super legal me deu esses chicletes...

Confesso que achei meio estranho no começo, mas agora eu já estiox sija s8dha asouq2

Paulo Guimarães Na Ovelha Negra, ninguém era quadrado demais para experimentar novas emoções. Até mesmo no mundo da geometria a gastronomia psicodélica teve o seu momento. O relógio derretendo na parede dá um toque interessante à cena, não apenas por remeter ao famoso quadro de Dali, mas porque o uso de algumas drogas alucinógenas realmente deforma a percepção temporal.

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Adriano pelo sangue de jesus! onde já se viu, um homem de cabelo comprido!

ooopa, pera lá amigão! que história é essa de que cabelo comprido é coisa do papai aqui!

o capetinha barra-limpa texto e desenhos: Wallace Silveira daqui a pouco vocês vão estar usando saiote e brinquinho na orelha! isso é coisa do capeta!!!

eu tenho um trabalhão par levantar o meu topete todo dia e você vem querer me comparar com esse cabeludinho mal vestido??

quer dizer, você não vai querer me confundir com aquela turminha ali, né?

Reversão de valores nessa tira de Adriano, o simpático demônio que só quer ajudar. Revoltado com o preconceito de um sacerdote católico, ele questiona a comparação entre o cabelo dele e o cabelo comprido normalmente utilizado nas representações de ícones cristãos com a imagem de Jesus Cristo e alguns outros personagens da bíblia paleo-cristã. A tira também toca na comparação que muitos hippies faziam entre seus próprios cabelos compridos e a figura de Jesus de Nazaré. Atenção especial deve ser dada para o refinado uso do requadro no final da história, quando o autor altera seu uso de temporal para espacial ainda durante a narrativa.

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Kid se desvia do balaço e contra-ataca com sua fiel “bowie knife”!

P’KOW!

tac

!!

!!

osh

woo

O jogo acabou, McCoy! Sua mina será fechada e você Vai responder pelos assassinatos! Terminaram os seus dias de exploração do homem pelo homem!

Vaqueiro tolo! Você não entende que essa é a natureza dos seres humanos? Explorar ou ser explorado, é o único jogo! O homem é o lobo do homem! Sempre foi assim, e sempre vai ser...

Página de uma aventura do Colorado Kid, sem as piadas usuais, e com forte teor marxista. Na história, um terrível bandido escravizava operários em uma mina de carvão - uma história comum para um faroeste, mas tudo feito com expressões idiomáticas típicas dos textos de Marx. O autor das tiras via em seus quadrinhos uma maneira simpática de educar os leitores à respeito de suas crenças políticas, mas ao mesmo tempo uma forma segura de mascarar esses conceitos em uma história em quadrinhos aparentemente inofensiva e que demorou um bom tempo para chamar a atenção da censura.

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OVELHA NEGRA Irmã ovelha . . . você precisa expandir sua consciência . . .

você não imagina a quantidade de prisões em que você vive desde estruturas da sociedade até a condição de um mamífero mortal

Nós somos ovelhas modernas! vivemos no alvorecer de uma nova era! você sabe que pode ser e fazer bem mais que isso, não é?

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eu não, sô! tá doido!? se eu expandir minha consiência, ela vai ficar pesada demais!

pirou de vez? aonde você tá vendo prisão por aqui? só tem essa cerquinha de madeira fajuta . .

você quer dizer que eu deveria comer mais grama? é isso?


URUBU REI & CRISTIANO

Samuel T.

URUBU REI & CRISTIANO

Samuel T.

URUBU REI & CRISTIANO

Samuel T.

URUBU REI & CRISTIANO

Samuel T.

Já crescido, o adolescente Cristiano tem agora novas obsessões ao invés do futebol: perseguir garotas, e combater o tédio da vida que leva em um bairro de classe média. Sempre impertinente, questionador e racional, seu amigo urubu tenta encontrar lógica na fala do garoto, mas sempre se decepciona com o excesso de lugar-comum no pensamento do rapaz.

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Em fase mais tardia, Sidney Barreto se restringia cada vez menos aos Meteoros e desenhava com cada vez mais liberdade, ainda focando em seu tema preferido. Nessa página solta, parecia descrever uma espécie de evolução na postura dos músicos de rock, começando pelos mais tradicionais, de terno, com o baterista tocando em pé, semelhante à banda de Elvis Presley no período Sun Records, passando pelo rock dos anos 1960, até chegar em um futuro abstrato, onde fica difícil interpretar exatamente o que ele tinha em mente para o futuro do rock.

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Ô trem bão

cof cof cof cof!

passa a bola, pelé!

opa! essa fumaça não é da boa!

estou sentindo um cheiro meio estranho!

ok, quem foi o espertinho que esqueceu cigarro aceso no cinzeiro do painel?

minhas guitarrinhas... olhem pelo lado bom: não precisamos mais pagar todas aquelas multas!

Com bem menos texto do que o normal, os Meteoros do final dos anos 1960 viviam uma vida bastante semelhante à dos Beatles e dos Rolling Stones - uma realidade que a banda original, de Belo Horizonte, não passou nem perto de viver. Passada a modinha do iê-iê-iê no início dos anos 1960, os Meteoros da vida real abandonaram os palcos e foram se dedicar a atividades mais lucrativas. Barreto entrou em profunda depressão com essa nova realidade, e escapava dela em suas histórias, levando seus alter-egos a grandes estádios, festas luxuosas cheias de modelos e drogas caras, limousines, etc.

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que apuro! engoli o meu chicletes!

cáspite, engoli o danado!

Não se preocupe! sou dentista e posso fazer uma manobra para retirá-lo de sua traquéia!

que tal irmos até o meu consultório de dentista brincar de médico?

enquanto isso... essa bala gruda mesmo no dente!

fala verdade, china, esse meu plano foi genial!

esse troglodita vai ser treinado para se tornar o novo eric clapton!

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o fã de jimi hendrix não fica feliz com a notícia


CAPITÃO RAIO-LASER capitão raio-laser desbrava novas fronteiras e limites em um planeta tão misterioso quanto familiar...

abandonando a memória genética

buscando o amanhecer de um novo homem

roteiro e desenhos: João Silvério

Depois de explorar (nos dois sentidos) todo o universo conhecido, o Capitão Raio-Laser do final dos anos 1960 parte em busca da fronteira final: o universo interior. Influenciado por escritores como Stanislaw Lem e Philip K. Dick, Silvério passa a escrever aventuras intimistas, trabalhando com a idéia de uma ficção científica onde a psicologia e a antropologia também são ciências.

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O peixão era desse tamanho!

Deixa de ser mentiroso, aposto que era só desse tamanhinho...

A prisão de ventre tem afligido a humanidade desde tempos imemoriais. Nem mesmo a Lei do Ventre Livre resolveu o problema.

Extra!! Extra!! Saiu a nova edição da Ovelha Negra!! Fujam para as montanhas!! Mulheres e crianças primeiro!!!

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O novo dentifrício Sorriso vai deixar seus dentes muito mais brancos e aparentes. Feito à base de bactérias botulínicas, ele paraliza suas bochechas e deixa os dentes aparecendo o tempo todo!


no castelo de northampton

Ali vivia o infame mago... alan-kazam!

Fern

e foi assim que ele ficou maluco desse jeito, pobre coitado...

Perdido em um castelo medieval, Sir Roderick encontra seu destino (não muito definitivo, é verdade) nas mãos de um mago psicodélico. Depois de desistir do estilo mais “realista” e detalhado de antes, Fernando volta a desenhar bonecos simples, com muitos quadrinhos por página, o estilo que imortalizou o personagem na revista. Indo mais pelo viés psicodélico do que pelo comunista, Sir Roderick se vê constantemente às voltas com poções mágicas e feiticeiras que alteram sua percepção de realidade. Referências a livros como Alice no País das Maravilhas e O Mágico de Oz também não são incomuns nesse período da tira.

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Classificação etária da "Ovelha Negra". Documento da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP). A data foi visivelmente alterada, por motivo desconhecido; provavelmente Ano ilegível devido à má conservação. reaproveitamento de formulário ou alguma espécie de fraude. Fonte: acervo da ONG "Brasil Sem Censura. Fonte: acervo da ONG "Brasil Sem Censura" Em 1969 a ditadura encrespa de vez, aumentando a censura da Ovelha para 18 anos, enxergando comportamentos perniciosos e tendências comunistas até nas mais inocentes tiras. Cansados de brigar com a censura, os artistas e editoras da revista rapidamente se revoltam, deixando nas últimas edições da revista suas histórias e ilustrações mais radicais e engajadas. A censura era tanta que a própria censura em si virou parte importante das histórias, como veremos em capítulos adiante.

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Documentos Ao longo de nossa pesquisa, foi muito difícil conseguir documentos que comprovassem os fatos narrados pelos entrevistados. De circulação reduzida e marginalizada pela mídia tradicional, a Ovelha dificilmente era citada em matérias de jornal e revistas da época. Pesquisas em acervos de parentes e conhecidos dos editores e artistas da revista também se provaram infrutíferas no campo documental, trazendo à tona quase sempre desenhos e anotações ao invés de recortes ou papéis oficiais. Os poucos documentos desse tipo encontrados ao longo da pesquisa estão reproduzidos aqui e ao longo do livro, ilustrando tópicos abordados nas histórias em quadrinhos e nas charges, ou exemplificando trechos das entrevistas e dos artigos.

Nossos sinceros agradecimentos ao portal “Memórias Reveladas", à Fundação Biblioteca Nacional, ao sistema de bibliotecas da UFMG, e à Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa.

O material estava quase todo em péssimo estado de conservação, armazenado inadequadamente durante décadas. Os poucos registros oficiais encontrados nos arquivos do governo estavam literalmente caindo aos pedaços, e eram sobreviventes de um dos vários incêndios criminosos que os funcionários do DOPS promoveram em suas famosas queimas de arquivo.

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Classificação etária da revista "Ovelha Negra", ainda com 14 anos ao invés de 18. Data desconhecida. Esses documentos se encontram em péssimo estado de conservação por terem sido encontrados em uma pilha de papéis que funcionários do antigo DOPS teriam incinerado em um lote vago próximo a uma delegacia da Polícia Federal em Belo Horizonte. Fonte: acervo da ONG "Brasil Sem Censura"

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Certificado da Divisão de Censura de Diversões Públicas Fonte: acervo da ONG "Brasil Sem Censura"

A partir de Dezembro de 1968, com a promulgação do Ato Institucional 5 (AI-5) a censura prévia, já existente, torna-se compulsória a todos os órgãos de imprensa, gravações e apresentações de música, teatro e cinema. A revista passa a ser analisada número a número, e os censores indicam modificações necessárias que precisam ser acatadas pela equipe editorial caso a mesma quisesse que a revista entrasse em circulação nas bancas. Contrariados, os integrantes do conselho editorial da Ovelha Negra acatam a decisão, sabendo que a circulação da revista, embora modesta, ainda pagava o salário e o aluguel de várias pessoas.

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Essa engenhosa capa auto-ir么nica j谩 vinha censurada para facilitar o trabalho dos burocratas.

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1970: Salve A Seleção No final dos anos 1960, com o desaparecimento de alguns de seus principais articuladores e artistas, a Ovelha Negra entra em uma espiral de decadência e loucura. Pessoas começam a desaparecer: várias são seqüestradas pela polícia do exército, e algumas não aparecem nunca mais. Outras fogem por contra própria, buscando o auto-exílio antes que seja tarde demais. Outros tantos se afundam nas drogas, legais, ilegais, e algumas que ainda nem sequer eram contemplada pela legislação vigente na época. Outros mais radicais ainda procuram viver em sociedade alternativas, buscando refúgio no campo e em comunidades isoladas da vida urbana. Muitos ainda voltam para a cidade de onde vieram, por falta de dinheiro, de emprego, de perspectivas em um país cada vez mais engessado pelo pensamento conservador de direita que só pensa em petróleo e ignora as necessidades mais básicas dos cidadãos comuns. A tensão provocada por esses novos tempos de endurecimento cada vez maior da censura e dos direitos civis também começa a corroer as relações entre os artistas e funcionários da Ovelha Negra. Antigos amigos tornam-se frios e distantes, fiéis seguidores abandonam a revista por medo ou diferenças ideológicas. A recusa dos editores em definir claramente uma postura política e ideológica para

a revista deixa todos os lados irritados: o governo não entende do que a Ovelha está contra ou a favor, e a esquerda se ressente da falta de um posicionamento mais claro dos artistas. Tentando sobreviver nesses tempos de polarização ideológica cada vez mais exacerbada, a Ovelha Negra prossegue fazendo o que sempre soube fazer de melhor: criticando todo mundo, sem preconceitos, inclusive com momentos de extrema auto-ironia, além de fazer piada com esquerda e direita, igreja e sindicatos, exércitos vermelhos e azuis, verdes e amarelos. No período final da revista, artistas que haviam se posicionado mais claramente no passado começam a esconder suas idéias, ou até mesmo se esconder. Alguns somem e voltam, outros mandam roteiros pelo correio com endereço de remetente falso. Alguns amigos tentam manter as tiras dos desaparecidos, passando a impressão de que está tudo bem. Mas a realidade lenta e inexoravelmente traz todo o processo da Ovelha Negra a um final triste e abrupto. Os editores, artistas e leitores não saem vitoriosos nem derrotados: apenas desistem, largam a toalha, e vão embora sem se despedirem uns dos outros.

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fern Para disfarçar o conteúdo da revista e evitar a perseguição da censura, das associações de pais, dos professores e dos padres, a Ovelha Negra costumava colocar joguinhos para crianças na quartacapa das revistas. Aqui vemos um inocente jogo de tabuleiro do Sir Roderick.

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Adriano

o capetinha barra-limpa! você de barba! parado aí!

você está preso! venha comigo!

não, não é nada disso!..

EU!?

você vai ME PRENDER SÓ PORQUE EU SOU UM DEMÔNiO!?

é PORQUE VOCÊ É VERMELHO!

textoeedesenhos: desenhos: Wallace Silveira texto Wallace Silveira

Na fúria irracional anti-comunista, sobrou até para um personagem mitológico. Adriano foi perseguido pela polícia apenas por ser vermelho. A imagem se encaixa harmoniosamente com o retrato exagerado e ridículo que os anti-comunistas faziam dos russos, cubanos, chineses e vietnamitas, sempre descritos como dotados de cavanhaques de bode e sorrisos traiçoeiros.

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Ovelha Negra

Na última tira das ovelhas produzida por Jordão e Porfírio há uma mensagem ambígua que continua deixando pesquisadores de quadrinhos acordados à noite: ninguém tem a revista em que ela foi publicada, se é que foi publicada, e o roteiro tem paradeiro desconhecido. Até hoje não se sabe o que a ovelha negra falou em sua última aventura, e sequer podemos saber se a ovelha branca fugiu junto com ela ou se voltou para dentro do cercado.

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“Não entendo por que temos que usar capacete se eles só nos atacam com flores!”

Alguns tesouros perdidos do arquivo da família Damasceno: ilustrações, provavelmente para livros didáticos, e uma charge política. Nenhuma dessas peças tem data ou assinatura. Podem ter sido feitas pelo próprio Porfírio, ou por outros artistas que ele ajudava na época.

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CAPITÃO RAIO-LASER capitão raio laser, você está disposto a servir a sua pátria, seu planeta e todo o sim, senhor! universo? tudo pela ordem e progresso da via-láctea!

o autor desse lixo deve ser neutralizado antes bom, se que suas perigosas o comando idéias se espalhem inter-espacial pelo cosmos! falou...

muito bem! por acaso você já ouviu falar desse hediondo tomo de pornografia e degeneração?

claro! é um grande clássico do neo-realismo venusiano

sempre cioso no cumprimento do dever, o capitão raio-laser vai até vênus encontrar o perigoso poeta...

você sabe o que deve fazer

o meliante já está na mira... agora tudo que preciso fazer é apertar o gatilho, como já fiz milhares de outras vezes...

roteiro e desenhos: João Silvério

Depois de ter se aventurado nos recônditos mais misteriosos da mente humana, o Capitão RaioLaser se viu obrigado a retornar a suas missões normais, agora sob um comando estrelar muito mais realista: um grupo militar que governa a via-láctea com punho de ferro, muito mais parecido com os governos dos anos 1970 do que com a visão romântica dos livros de ficção-científica americanos que Silvério tanto adorava nos anos 1950.

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© Jonas Cabral

O PATO PATETA

Muito mais do que meramente psicodélica, essa tira do Pato Pateta mistura surrealismo, iconografia clássica de quadrinhos underground, e elementos que não parecem pertencer a nenhum desses universos, como é o caso a misteriosa tenista do quadrinho 5.

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Desesperados de fome, os heróis procuram um lugar para comer...

Já estou até comendo minhas unhas!

Tem um lugar aqui perto que tem um peixe...

Vão vocês dois de carro então... Espero que tenha vaga na porta! Então vocês vão voando mesmo? A gente se vê lá então...

Eu vou sempre com mamãe!

Vou pedir a comida de uma vez senão eu morro!

Então nós vamos na frente para ver se tem uma mesa!

O pessoal que tem carro vai na frente para ver se tem mesa...

Esfaimados, os pobres nem esperam os amigos! Ô garçom! Duas truta

Que beleza de camarão! Um belo de um pitú...

Será que aquela truta está fresquinha? Delícia!

Fritinha no fubá, não tem nada melhor nesse mundo! Vou logo pedindo duas!

...e aquela cervejinha!

Vai começar uma super-comilança!

Essa inofensiva paródia de uma história de Jack Kirby mostra mais um dos motivos da derrocada da Ovelha Negra: a popularização dos novos quadrinhos de super-heróis no Brasil, que mudaram as regras do mercado e tomaram muitos leitores da Ovelha.

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Quadrinhos do Tempo de D. João Charuto

“Eu devia ter ouvido a minha mãe: misturar vinho com cachaça é mesmo uma péssima idéia...”

Uma taça de bom vinho e um livro edificante são tudo que uma criança precisa para crescer forte e saudável!

“Filomena, essa buchada de bode me deu um revertério... Aonde fica o toilette?”

“Pelas barbas do profeta, como é difícil arrancar até uma mísera xicrinha dessa cafeteira!”

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Vamos com isso! Cave sua própria cova, seu cão sarnento de uma figa!

E sem fazer corpo mole!!!

Depois que você estiver bem confortável aí dentro, vou me sentar nessa cadeira de balanço e esperar até que o sol e as formigas façam o trabalho deles!

Após o desaparecimento de Sérgio Cardone, as aventuras do Colorado Kid ficaram a cargo dos próprios artistas remanescentes da Ovelha Negra, que ainda tentaram dar continuidade a um dos personagens mais populares da revista. A página acima foi baseada em um rascunho, a última página que ele deixou antes de desaparecer. A arte-final é de um artista desconhecido, e o texto também foi escrito por outra pessoa que não o próprio Cardone. Na página anterior, vemos alguns esboços feitos por outros artistas da Ovelha Negra em uma tentativa de mudar o tom da tira para algo mais humorístico, quase infantil, para escapar da censura. O projeto não foi adiante.

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trincheira-17 como você está se saindo na vida de civil? eu ainda tenho dificuldades em viver longe da trincheira, e poder acordar tarde...

bom, acho que algumas pessoas se adaptam mais rápido...

tudo o que aprendemos nos anos de treinamento militar vai me acompanhar para toda a vida. foram lições valiosas...

duas entradas por favor...

bem, acho que agora só nos resta mesmo ver um bom filme de guerra e relembrar os velhos tempos de trincheira...

fred savassi Apesar da assinatura de Fred Savassi, essa página foi claramente desenhada por algum outro artista, já na época em que Savassi estava preso. Depois da repressão da censura, os personagens saíram da trincheira existencial onde viviam e passam a habitar o mundo civil, mas os autores continuam escondendo mensagens anti-militaristas nas tiras. Aqui os personagens se adiantam aos censores da ditadura e vão assistir ao filme M*A*S*H que ainda não havia passado pelo crivo da censura.

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Na hora de comprar cimento, use a massa cinzenta!

Cimento é:

Progresso

O cimento da Família Brasileira Barato e Resistente Como Êle Só!

Esse é do bom!

Apenas mais uma das inúmeras propagandas criadas pelos artistas da Ovelha Negra e publicadas na revista. À medida em que a ditadura restringia cada vez mais os direitos individuais e a liberdade de expressão no Brasil, a Ovelha Negra perdeu popularidade rapidamente, devido principalmente ao seu conteúdo comprometedor que deixava os leitores temerosos de serem vistos lendo a revista. A revista passou a depender cada vez mais dessas propagandas para se sustentar. Essa aqui, de autor desconhecido, é um exemplo claro do desespero a que eles chegaram. Apesar do desenho aparentemente simples, se olharmos atentamente para esse mascote dos Cimentos Progresso, podemos ler em suas linhas trêmulas a agonia perturbada do artista, obrigado a perpretar uma ilustração tão anti-artística e kitsch que é difícil dizer até que ponto ele estava sendo irônico ou apenas seguindo as orientações da agência de publicidade.

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Encontrada no arquivo de Porfírio, essa página de livro infantil demonstra qual foi o destino de tantos artistas de quadrinhos não apenas da Ovelha Negra mas do mercado de quadrinhos em geral: fazer livros infantis, não-autorais, atendendo a encomendas prontas de editoras muito mais preocupadas com as vendas do que qualquer outra coisa.

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O estilo ao mesmo tempo controlado e dinâmico de Samuel Tristão lhe rendeu alguns trocados trabalhando com moda. Eventualmente ele abandonou a tira do Urubu Rei e a Ovelha Negra de maneira geral e passou a se dedicar exclusivamente a trabalhos de arte comercial. Aqui vemos alguns esboços de ilustrações que ele fez para revistas de moda a partir de 1970.

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Outra imagem de autoria desconhecida, encontrada no acervo da família de Porfírio Damasceno: uma xilogravura de William S. Burroughs copiada da famosa foto em que o escritor beat segura uma arma. Possivelmente presente de algum dos artistas da revista que fazia xilogravuras por contra própria, mostra que as influências literárias do grupo eram mais complexas do que poderia parecer.

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Uma das primeiras baixas da “Ovelha Negra” foi o músico e cartunista Sidney Barreto, autor da série “Os Meteoros”. Após lutar por muitos anos contra o alcoolismo, Barreto se entregou a vícios ainda mais perigosos quando, em meados de 1960, o LSD chega a Belo Horizonte. Anos de uso cada vez mais pesado de ácido trouxeram à tona sintomas de esquizofrenia que eram até então moderados e não eram vistos como problemas mentais graves. As drogas psicodélicas aceleraram em muito o processo de degeneração mental causado pela esquizofrenia, e em poucos anos Barreto passou de um dos mais importantes artistas da Ovelha Negra para se tornar um interno em um manicômio judiciário, depois de ter sido preso diversas vezes por seu comportamento errático e imprevisível nas ruas da capital mineira. Mesmo internado, Barreto continuou desenhando e fazendo quadrinhos, embora seu estilo de desenho tenha ficado irreconhecível. Sob efeito dos remédios e do eletrochoque, ele passa a desenhar todos os dias, e a arte-terapia ajudou em sua recuperação. Eventualmente ele voltou para casa, onde morou com familiares até morrer de complicações de sua diabetes, que já estava agravada pelo alcoolismo antes mesmo de sua internação. Nas páginas reproduzidas a seguir, vemos um pequeno trecho da extensa obra que Barreto tentou produzir ao longo de muitos anos. O protagonista encontra alienígenas e tenta aprender com eles alguns segredos do universo, mas também dá e eles uma lição. Apesar de tudo, aqui o trabalho de Barreto ainda apresenta alguns traços de genialidade, como quando ele desenha a mesma nave espacial em dois ângulos e pontos de vista diferentes na mesma página, para mostrar que a mesma é multidimensional. As naves de “pura luz e som” são objetos comuns no imaginário popular da época, quando temas místicos e esotéricos caíram no gosto da população em geral.

No início da segunda página aqui reproduzida, o protagonista pergunta: eram os astronautas deuses? - uma clara referência ao livro “Eram os deuses astronautas?” de Erik von Daniken, que fez enorme sucesso no Brasil. Finalmente, quando perguntado sobre seus líderes, o protagonista critica os alienígenas dizendo que esperava mais deles, porque o conceito de líderes é ultrapassado. Mesmo sob o efeito dos remédios, Barreto ainda conseguia fazer comentários sociais pertinentes, refletindo suas posições políticas da época nesse curto episódio do encontro com os alienígenas. Depois de demonstrar uma excitação quase infantil com a chegada dos seres, ele se decepciona por eles ainda pensarem em termos de líderes, enquanto ele é claramente um homem livre. Esse tipo de coisa apenas nos deixa pensando como teria sido a obra de Barreto se a doença não o houvesse consumido tão jovem. De qualquer forma, com sua aposentadoria forçada, Barreto deixou a Ovelha Negra - apenas o primeiro de tantos outros desfalques na equipe. 91


Caminhava pela noite, certo dia... Subitamente, eis que avisto naves estrelares de pura luz e som Multidimensional finalmente!!

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Eram os astronautas deuses?? Câmara de desintoxicação etérica! Como posso ajudá-los senhores? Som / Luz

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Leve-nos ao seu líder! Como poderia eu me deixar levar por líderes? Pensava que vocês é que teriam alguma novidade Viemos de alfa-centauri para aprender e ensinar sobre os poderes da luz

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O AGENTE ZERO-ZERO-ZÉ

por Alberto Parizzi

agente zero-zero-zé, sua missão do dia é censurado

então vá censurado e pegue o censurado

não é possível, nossa organização é censurado

senhor, não consegui entender a missão

senhor, acho que estamos sendo censurados

mas que censurado de censurado

calma censurado

No clima pesado da véspera do AI-5, Zero Zero Zé ainda conseguia fazer graça com a censura que já cerceava a revista. O texto e a piada são auto-explicativos, mas é emocionante ver o sangue frio dos artistas nesse período, sem contar a sua capacidade de manter o bom humor mesmo quando sob pressão.

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Crás, Bang & Boom

Paulo Guimarães Nem mesmo as inofensivas formas geométricas de Paulo Guimarães escaparam da censura. Nessa página, ele faz um comentário sutil sobre isso, mostrando formas negras que trocam de posição até que eventualmente cobrem por completo as formas originais, como se fosse um eclipse. A falta de texto também deixa clara sua intenção nesse comentário.

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Encontramos essas últimas tiras do Urubu Rei abandonadas em uma pasta que nos foi entregue pelos netos de Samuel Tristão. Misturando a letra de uma música de Bob Dylan e um personagem do Mago de Id, de Johnny Hart, Tristão mostrava o futuro sinistro do urubu: preso em um castelo medieval, à mercê de torturadores. A tira foi abortada antes de ser finalizada, por um Samuel Tristão que já não tinha mais motivos para fazer seus quadrinhos.

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“Ele nunca dorme, o juiz. Ele está dançando, dançando. Ele diz que nunca vai morrer.” -- Cormac McCarthy, “Meridiano de Sangue”


Jonas Cabral nasceu em Montes Claros, em 1939. Fã dos filmes de Walt Disney desde criança, veio para Belo Horizonte procurar trabalho na indústria cinematográfica ou de artes visuais. Além da Ovelha Negra, atuou como chargista e ilustrador, mas nunca conseguiu fazer cinema de animação, seu verdadeiro objetivo. Ao longo dos anos 1960, foi ficando cada vez mais decepcionado com o mundo cinematográfico, e passou a militar na esquerda, contra o cinema hollywoodiano. Em 1970 abandonou a vida na cidade grande e foi viver em uma comunidade auto-sustentável perto de Brumadinho, interior de Minas Gerais.

Samuel Tristão nasceu em Sabará, em 1940. Graduou-se em Filosofia na UFMG, mas sua paixão pelos quadrinhos o manteve no mercado de ilustração e arte comercial. Além da Ovelha Negra, colaborou com várias outras revistas de Belo Horizonte e outras cidades, chegando mesmo a desenhar revistas inteiras para editoras de quadrinhos de São Paulo e Rio de Janeiro. Sob diversos pseudônimos, publicou milhares de páginas de quadrinhos de terror, guerra, western e pornografia. Fumante inveterado, Tristão faleceu em 3 de janeiro de 1989, na casa de sua filha em Belo Horizonte, vítima de um acidente vascular cerebral.


A

G

A

orietni opmet o êcov me osnep ós ue atorag

Sidney Barreto nasceu em Belo Horizonte, no bairro Anchieta, em 1949. Guitarrista e vocalista do conjunto Os Selvagens, criou a tira “Os Meteoros” inspirada nas aventuras de sua banda e de seus por dentro dessa inocente chaleira esconde-se zero zero da zé,cena o agente colegas rockerprafrentex, mineira. Desempre uma poderosa arma de fogo capaz de perfurar depende das mais avançadas tecnologias para temperamento errático e auto-destrutivo, a lataria de um tanque de guerra. cumprir suas perigosas missões. Barreto sempre dirigiu em alta velocidade, bebeu além da conta, e experimentou as drogas mais variadas. Em 1968 travou o primeiro contato com o LSD, e finalmente entrou em uma espiral de decadência em direção à insanidade. Internado duas vezes em clínicas psiquiátricas de Belo Horizonte e de São Paulo, Barreto perdeu a batalha contra a loucura e passou a depender de enfermeiras e médicos para sobreviver. Depois de viver alguns anos em uma clínica rural para recuperação e tratamento de pessoas com sofrimento mental, no interior de Minas Gerais, aqui vemos uma com simplória caneta voltou a morar a família alguns G A você adivinhou. Aportinteiro, do tipo que se utiliza para assinar cheques meses antes de finalmente vir a contrair e pedir autógrafos deo celebridades... riehnab on éta e ,otrauq uem on uo alas an o óbito, em decorrência de complicações causadas pela diabetes e pelo alcoolismo.

ora, zé, o que é isso! desistiu de seus apetrechos de alta tecnologia e resolveu mostrar o jogo?

ded o tsoc n

rt nie isop e a ç oã nim d o hnid o e

Alberto Parizzi (née Liliane Oliveira) nasceu em Belo Horizonte em 1945. Morava no bairro de Santa Tereza e conheceu a Ovelha Negra através dos irmão mais velho. Ambos freqüentavam o auditório da TV Itacolomi, onde hoje fica o Teatro Alterosa, na Avenida Assis Chateaubriand. Liliane ia ver o programa Gurilândia, e seu irmão ficava para ver o Brasa 4, de Dirceu Pereira, onde toda a elite do rock-and-roll mineiro se apresentava. Devido ao machismo que imperava na época da Ovelha Negra, a própria Liliane preferia assinar suas tiras com um pseudônimo masculino, o que dificultou a pesquisa sobre seu trabalho durante décadas. Com o fim da revista, Liliane casou-se, teve três filhos, e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como ilustradora de fascinante... livros infantis nos anos 1970 e 1980.


Fernando Gabaglia nasceu em Nova Lima em 1938, bisneto de Eugênio de Barros Raja Gabaglia. Em 1958 tomou conhecimento da Ovelha Negra através de vizinhos que freqüentavam as festas de rock-and-roll da época. Em 1962 formou-se em História pela UFMG. Ávido colecionador de quadrinhos medievais, como “Príncipe Valente” e “Cavaleiro Negro”, Gabaglia chegou a produzir outros trabalhos além de Sir Roderick. Envolvido com o Partido Comunista através de colegas de faculdade, foi preso em 1971 e nunca mais foi visto novamente. Ele teria hoje 73 anos. A família Gabaglia se recusou a conversar com nossa equipe de pesquisa.

Desconhecendo a surpresa que o aguarda, Kid adentra o saloon...

Com mil diabos, finalmente vou poder rever minha pobre irmãzinha...

Sérgio Cardone nasceu em Belo Horizonte, em 1939. Neto de imigrantes anarquistas que fugiram para Belo Horizonte na época da fundação da cidade, Cardone trabalhou desde criança na gráfica do pai, no bairro Sagrada Família, que publicava de tudo, desde Ahh, minha doce Mabel... Quanto panfletos religiosos até jornais de tempo passamos separados! O que terá sido feito dela? Na certa se sindicatos e livros clandestinos sobre casou com algum rico banqueiro comunismo, socialismo e anarquia. ou um médico bondoso que ajuda os pobres... Influenciado por essas idéias, Cardone uniu suas duas paixões em quadrinhos que misturavam mensagens anarquistas e marxistas disfarçadas de simples histórias de bang-bang. Colecionador de armas de fogo, teria se envolvido com grupos de guerrilha urbana armada no final dos anos 1960, o que nunca foi confirmado. Em 1970, exilou-se em uma comunidade de ajuda mútua (anarquista) no litoral do Chile, e não voltou mais ao Brasil.

Olá, garotão... Seja bem-vindo aos aposentos da doce Mabelle, a rainha do amor à moda francesa... Por favor, coloque suas roupas em cima do baú e lave seu rosto e suas partes íntimas com aquela jarra... São 2 dólares adiantados, mais 2 se você quiser que eu finja que te amo...


a coisa mais bacana de ficar aqui na trincheira é que tem gente de tudo quanto é lugar do Brasil...

di Savassi nasceu em 1946 em veja Alfredo aquele rapaz, por exemplo. com Belo Horizonte, no Hospital Felício certeza veio Rocho. Completando 18 anos em 1964, do sul. prestou um ano de serviço militar bem durante a época do golpe. Dispensado por problemas de saúde, passou a desenhar para a Ovelha negra criando tiras que criticavam o exército brasileiro e o mundo militar de maneira geral. Segundo relatos da época, o artista era perseguido pelo exército, e foi preso para “averiguações” três vezes. Insistindo na publicação da tira, ele acabou desaparecendo em maio de 1970. A família se recusou a comentar.

nem precisa se esforçar ...

o zeferino até achou um jeito de usar a sua peixeira de baioneta!

para achar o carioca do pelotão!

cada um vivendo o seu estereótipo!

e aquele doidinho ali, veio de onde?

João Silvério nasceu em Barbacena em 1942. A família se mudou para Belo Horizonte quando ele ainda era criança, em 1948. Entrou no curso de Letras da UFMG em 1960. Aficcionado por ficçãocientífica, colecionava livros e revistas do gênero, e também escrevia seus próprios contos e romances sobre robótica e exploração espacial. Trabalhava em uma livraria, e eventualmente adquiriu seu próprio estabelecimento, abrindo um “sebo” de livros usados no Edifício Maletta, onde ficava a redação da Ovelha Negra. Em 1988 vendeu a livraria e foi morar com a família em Andrelândia.

varginha!


Boom & Bang

pelo sangue de jesus! nasceu em Carmo onde jáPaulo se Guimarães viu, um homem do Cajuru, perto de Divinópolis, em de cabelo comprido!

1942. Em 1959 veio a Belo Horizonte estudar Matemática na UFMG. Formado em 1964, começou a trabalhar como professor em um colégio estadual no bairro Floresta. Durante a década de 1960, quando foi colaborador da Ovelha Negra, o artista escondeu sua homossexualidade, até que eventualmente isso veio à tona, provocando um malestar entre alguns membros da revista. Paulo parou de publicar na revista em 1968. Segundo boatos, morou com sua irmã até 1993, quando teria cometido suicídio. A família não quis se pronunciar.

Wallace Silveira nasceu em Barão de Confesso que Cocais em 1941. Foiestranho criado no colégio achei meio interno da Congregação da Missão no começo, mas agora eu já estiox sija dos Padres Lazaristas na Serra do s8dha Caraça, próximo aoasouq2 município de Santa Bárbara. Em 1959, veio para Belo Horizonte estudar Filosofia na recémcriada Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, fundada por Dom Cabral onde antes ficava o Seminário Coração Eucarístico. Depois de formado, Silveira trabalhou fazendo bicos como redator publicitário e repórter do Diário do Comércio, antigo Informador Comercial. Em 1968, quando a ditadura começou a apertar o cerco contra seus adversários, alguns conhecidos de Silveira começaram a desaparecer ou a se perder nas drogas. No mesmo ano, quando o Colégio do Caraça é destruído em um incêndio, Silveira retornou à sua cidade natal, onde re-encontrou a vida religiosa. Hoje ele teria 70 anos de idade. Seu paradeiro é desconhecido.

ooopa, pera lá amigão! que história é essa de que cabelo comprido é coisa do papai aqui!

quer dizer, você não vai querer me confundir


Ronaldo Jordão foi o principal editor da Ovelha Negra entre sua criação, como um panfleto estudantil em 1954, até o fechamento da editora que levava seu nome, em 1970. Roteirista das histórias da personagem que levava o nome da revista, Jordão sempre pautou pelo bom humor, mesmo nos períodos mais sombrios da Ovelha. Preso e torturado na época da ditadura, nunca quis comentar o assunto e nem dar entrevistas sobre a revista. Morreu em 1999, aos 65 anos de idade, vítima de uma parada cardíaca. Sua filha Fernanda Alves Jordão é hoje dona de uma editora de livros infantis em Belo Horizonte.

Porfírio Alberto Damasceno foi diretor de arte da Ovelha Negra em quase todas suas edições. Além de desenhar a tira das ovelhinhas, também trabalhava como “desenhista fantasma” corrigindo erros dos colegas, ou até mesmo fazendo páginas inteiras quando os mesmos não conseguiam terminar o trabalho a tempo. Quando alguns artistas começaram a ser presos ou fugir para o exílio, provavelmente foi ele quem manteve as tiras todas na revista, reproduzindo o estilo dos amigos. Depois do fechamento da revista, foi trabalhar como ilustrador no mercado publicitário em São Paulo, e tornou-se animador e diretor de comerciais para a televisão. Morreu sem deixar filhos em 1997, divorciado quatro vezes.


Depois do AI-5, promulgado em 1968, o Brasil ainda passou muitos anos sob o controle de um governo totalitário. A nova Constituição Federal só foi aprovada em 1988, e a realização de eleições diretas para Presidente da República, em 1989.


O primeiro presidente eleito depois da ditadura, Fernando Collor de Mello, criou um programa econ么mico que praticamente destruiu o mercado de quadrinhos do Brasil. Mas isso 茅 uma outra hist贸ria...


Artistas que gentilmente colaboraram com a produção desse capítulo:

Alexandre Jr. flickr.com/photos/lagealexandre

Hemeterio oiretemeh.blogspot.com

Catarina Dall’Agnol Zidde 0catarina0.deviantart.com

Leandro Damasceno leandrodamasceno.wordpress.com

Cristina Eiko tinyeiko.blogspot.com

Lu Cafaggi lospantozelos.blogspot.com

Udan oswaldoaugusto.com

Luís Felipe Garrocho quadrinhosrasos.com

Danilo Beyruth evilking.net

Mario Cau mariocau.com

Diego Marinho oeremitadoiceberg.blogspot.com

Mateus Lima mateuserelima.daportfolio.com

Eduardo Damasceno quadrinhosrasos.com

Matheus Aguiar matheusilustra.blogspot.com

Edusá edusastudio.com.br

Nunes nunescartuns.blogspot.com

Evandro Renan flickr.com/photos/rabiscodelia

Rebeca Prado e Rafael Pires rdoispdois.wordpress.com

Fabio Dino projetofolks.com.br

Romulo Moraes romulocmoraes.deviantart.com

Flávio Alves P. flavioalvespaixao.wordpress.com

Shuma flickr.com/photos/paraopovoumabanana

Hamilton Júnior hamiltonafjr.deviantart.com

Vitor Cafaggi punyparker.blogspot.com

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Homenagens Quando decidimos fazer esse livro e anunciamos o projeto na internet e na imprensa, recebemos dezenas de mensagens de artistas brasileiros que queriam participar do livro de alguma forma. Foi algo bastante inusitado para nós: considerando o desconhecimento que o grande público tem da Ovelha Negra, a quantidade de quadrinistas e cartunistas brasileiros que conhecem a revista é bem maior do que esperávamos. Decidimos então criar esse pequeno segmento do livro para dar vazão a todas essas homenagens emocionadas que chegaram por e-mail, Facebook, Twitter, etc. São artistas os mais variados, desde profissionais bem estabelecidos até jovens iniciantes que aprenderam a ler a Ovelha Negra com seus pais ou até mesmo avós.

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Como Grilo Falante era para o Pinóquio, adotei o UrubuRei como voz da minha consciência depois de descobrir uma “Ovelha Negra” na coleção de meu pai. Na época ouvia metal e só andava de preto, e vivia isolada das meninas da escola, que ouviam New Kids on the Block e me chamavam de “urubu” pelas costas. Também só lia Marvel e mangá, e a Ovelha Negra abriu meus horizontes. Parabéns pela iniciativa de relançar a Ovelha Negra, é impagável a sensação de rever velhos amigos. Obrigada. - Cristina Eiko

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Só consegui ler a Ovelha Negra em coleções particulares, usando luvas brancas anti-poeira e me segurando para não roubar as revistas de páginas amareladas. Porque a verdade é que desde que vi uma edição da Ovelha pela primeira vez, sabia que estava diante de um produto raro. A qualidade do traço e a coragem daqueles autores em produzir o material que produziam em plena ditadura militar era invejável. Dentre a galera toda da revista, o trabalho de Sidney Barreto me foi especialmente importante. Tanto que, quando surgiu a oportunidade de participar dessa edição em homenagem à velha Ovelha, pensei em duas coisas imediatamente. A primeira foi "é claro que topo participar desse projeto" e a segunda: "vou desenhar Os Meteoros". Nunca tinha visto uma história em quadrinhos centrada numa banda de rockabilly e Os Meteoros me fascinaram. Lembro de passar horas pensando no som que os caras faziam e como seria legal ter uma edição da Ovelha Negra especial só com quadrinhos influenciados por música. Bem, nunca aconteceu. A revista acabou, quase foi esquecida, Os Meteoros nunca tocaram lá no quintal da minha casa (como eu sonhava) e por pouco a coisa toda não desaparece no ar. Felizmente, cá estamos, homenageando quem fez a diferença de verdade e relembrando que o verdadeiro rock nunca morre. Viva Os Meteoros e viva a Ovelha Negra! - Leandro Damasceno

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a doce mabel por Catarina Dall’Agnol Zidde colorado kid por nunes

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trincheira-17 por luis felipe garrocho zero-zero-zĂŠ por diego marinho

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adriano por fabio dino capitĂŁo raio-laser por flĂĄvio alves p.

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urubu rei e cristiano por Evandro Renan bruxa zuleika (sir roderick) por hemeterio

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o patato pateta por udan

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sir roderick por vitor cafaggi

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capitão raio-laser por Romulo Moraes

capitão raio-laser por edusá


Ovelha Negra por Mateus Lima sir roderick por Matheus Aguiar

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crรกs, bang & boom por Rebeca Prado e Rafael Pires capitรฃo raio-laser por alexandre jr.

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capitão raio-laser por thiago mendes crás, bang & boom por Hamilton Júnior

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ovelha negra por lu cafaggi

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adriano por Eduardo damasceno

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os meteoros por mario cau

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o canhoto canhestro nĂŞmesis e arqui-ri val do colorado kid por danilo beyruth

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Posfácio Caso você ainda não tenha percebido, esse livro é uma obra de ficção. Feliz ou infelizmente, nunca existiu nenhuma Ovelha Negra. Todos os artistas citados aqui foram inventados por nós, assim como suas obras. Nunca existiu um disco dos Meteoros nem um jogo de tabuleiro do Pato Pateta. No entanto, tudo o que está nesse livro foi baseado em fatos reais. Nossa inspiração foi, basicamente, a revista MAD. O ponto de partida foram as revistas de quadrinhos brasileiras dos anos 1970 a 1990, como Humordaz, Pasquim, Chiclete com Banana e Piratas do Tietê. Tentamos então imaginar como seria uma revista semelhante só que mais antiga. Com muita pesquisa, fomos aos poucos encontrando o formato da nossa história. Encontramos dezenas de artistas que queríamos homenagear, e nos aprofundamos em questão não apenas políticas, mas também filosóficas: qual é a diferença entre fazer uma história em quadrinhos hoje, e há 50 anos atrás? Qual a influência das técnicas sobre o processo criativo? Será que dois nerds que usam Photoshop todo dia conseguiriam desenhar como os cartunistas dos anos 1950 faziam? Nossa pesquisa obteve resultados razoavelmente satisfatórios, e apenas serviu para aumentar, e muito, nosso respeito por

esses grandes heróis do passado. Muitas páginas desse livro foram produzidas usando apenas materiais da época nanquim, pena, pincel, aguada, gouache branco, lápis, etc. Pesquisamos o estilo de design de personagem dos mais variados cartunistas, e procuramos criar um visual diferente para cada tira, na tentativa de reproduzir a sensação de estar lendo uma coletânea como era a revista MAD, onde cada 1 ou 2 páginas era desenhada por um artista totalmente diferente. O livro demorou aproximadamente 8 meses para ficar pronto. Tivemos a idéia em fevereiro de 2011. Em março já tínhamos as primeiras páginas prontas. A primeira de todas foi aquela do Pato Pateta contra o James Bond. Acho que ela resume bem o conceito geral do livro, e todo o resto foi construído a partir disso: imaginar como seriam quadrinhos feitos em Belo Horizonte nos anos 1950 e 1960 por pessoas que tivessem acesso à MAD e circulassem nos meios culturais underground da cidade. Não fizemos esse livro para ganhar dinheiro nem para ficarmos famosos, ou mesmo para massagear nossos próprios egos. Só queríamos fazer uma homenagem justa e sincera a esses heróis da resistência cultural dos meados dos século XX, e também a todos os quadrinistas analógicos de maneira geral.


Adriano RAIO-LASER

áctico, oso nados!

ção do sidade scuros

tômica eoros interrenos

desinfecção de setores invadidos por pestes

agente zero-zero-zé, sua missão do dia é censurado

estilo tradicional. Nanquim, canetas e A produção da Ovelha Negra foi então pincéis, mãos sujas e nada de control-z. uma experiência e tanto. Em todos os você está preso! vá censurado É um prazer único que eu já estava me aspectos a revista me trazia algo novo, EU!? comigo! esquecendo me fez admirar ainda mais algo que me desafiava a todo instante. venha e e pegue os artistas das gerações passadas. Começando pelo conceito da revista, que o censurado nos fez pesquisar muito da história das Por fim, a parceria com o Daniel histórias em quadrinhos, principalmente não poderia ser mais certeira. É aqui no Brasil, e descobrir inúmeras impressionante o quanto o cara conhece. revistas brilhantes que circulavam Aliás não só o quanto ele conhece mas por nosso país há algum tempo atrás. o quanto ele faz. O espírito punk rock Também foi uma oportunidade bastante somado a um bom gosto multiplicado gratificante no sentido de pesquisar as por muita cultura independente. E variáveis do humor nos quadrinhos, sempre com um bom humor sagaz. com suas infinitas facetas e discursos, muitas vezes influenciadas diretamente Só posso mesmo é agradecer por tudo o que por contextos bastante específicos e ao essa revista já me proporcionou. Foi como mesmo tempo tratando de problemas e viver algumas décadas em uma ficção tão provocações universais e atemporais. emburacamento de paredes ou real quanto um passado pode ser. E espero superfícies dificultadoras de verdade que pelo menos uma centelha É sempre interessante observar como de locomoção geográfica de tudo isso seja passada pra vocês. os quadrinhos podem ter um papel importante ao retratar a sociedade, em RICARDO TOKUMOTO suas formas de protesto e no engajamento obtenção de proteínas não não é possível, não, é político. Essa força de impacto saindo de para manutenção algo sutil e tantas vezes subestimado e nossa nada disso!.. de sistemas menosprezado sempre vai me fascinar. biológicos organização de alta

é censurado A outra parte da produção, que tambémcomplexidade me deu muito trabalho, aprendizado e diversão foi desenhar o próprio conteúdo. Isso porque eu vinha trabalhando apenas digitalmente por um bom tempo e grande parte do processo desse livro, praticamente todos os desenhos, foram feitos no melhor

o capet

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ficar aqui na trincheira é que tem gente de tudo quanto é lugar do Brasil...

TA E O GANSO MANSO Com mil diabos,

finalmente vou poder rever minha pobre irmãzinha...

Assim como todas as coisas mais simples do mundo, fazer quadrinhos é extremamente nem demora, custa caro difícil. É complicado, precisa para fazer, ainda mais se caro para imprimir, e o processo criativo é complexo e demanda esforçar muito tempo e esforço ... físico e mental. Sempre ouvi falar sobre tudo isso, mas foi só fazendo esse livro que aprendemos, eu e o Ricardo, o que isso significa na realidade. Foram vários meses de trabalho duro, espremendo as etapas do trabalho nos espacinhos que sobravam entre as tarefas chatas da vida adulta. Foram roteiros escritos no ônibus voltando do trabalho, páginas desenhadas no colo às 3 da manhã, arte-final produzida em parafestas de família. mesas de bar ou durante achar o foram Algumas páginas desse livro desenhadascarioca na maternidade, enquanto eu do esperava minha filha Aurora sair da barriga pelotão! da mãe dela. É uma pena que na cópia final do livro essas coisas não apareçam, mas nossos originais estão todos sujos, amassados, cortados, furados, colados com durex ou fita crepe, cobertos de gouache branco, e manchados de comida, um Coca-Cola, sangue,cada suor e lágrimas.

vivendo o seu

Para terminar estereótipo! o livro, aprendemos uma quantidade de coisas que precisaria de outro livro muito mais grosso do que esse para explicar e ensinar. Por mais que a gente estude e leia livros na vida, fazer as coisas

por exempl certeza do sul

Ahh, minha doce Mab tempo passamos sep terá sido feito dela? casou com algum ri ou um médico bon ajuda os pobres...

de verdade traz à tona uma quantidade enorme de aprendizados que não teriam acontecido que a gente tivesse ficado sentado esperando alguém nos ensinar. Sabemos muito mais sobre produção de quadrinhos hoje do que sabíamos Olá, garotão... Seja bem-vindo aos quando começamos o livro, e só isso já aposentos da doce Mabelle, a rainha do compensaria todo o trabalho que tivemos.

amor à moda francesa... Por favor, coloque suas emagora? cima do O que vairoupas acontecer Será baúque e lave seu rosto alguéme vai querer leríntimas nosso livro? Alguémjarra... suas partes com aquela ainda compra livros de papel? Alguém São 2 dólares adiantado s, mais 2 se você ainda lê quadrinhos? Essas e outras quiser que eu finja que te amo...

perguntas apavorantes passaram por nossas cabeças, mas decidimos ignorar o o medo que elas poderiam provocar. Nós não fazemos livros de quadrinhos porque zeferino a queremos ganhar dinheiro nem porque achou um je de usar a s queremos ficar famosos. Nós fazemos quadrinhos porque somos quadrinistas. peixeira d

baioneta

Simples assim. DANIEL WERNECK

e aquele doidinho ali, veio de onde?

varginha!


Esse li v ro foi inspi r ado p o r Angeli, Sergio Ar agon és, C a rl Ba rks, Edm ond Baudoin, K at e Be aton, Ga b rielle Bell, Dav e Berg, M a ry Bl a i r, Pres ton Bl a i r, Vaughn Bodé, Dik Bro wne, Ernes t Busch m iller, C a lpu rnio, Milton C aniff, Ren ato C anini, Al C a p p, Chiquinh a , Da niel Clo w es, Pau l Coker, Jo rdan Cr ane, Guido Crepa x, Ro bert Crum b, E va n Dah m , André Dah m er, Jack Dav is, Dan DeC a rlo, Mich a el Defo rge, Gene Deitch, Gu y Delisle, E van Do rkin, Mo rt Drucker, Gus tavo Dua rt e, Duck Ed wing, Ju les F eiffer, Al F eldts t ein, Bud Fisher, Irm ãos F leischer, New ton Foot, H a l Fos t er, Willi a m M . Ga ines, Tom Gau ld, Gipi, Sh ane Glines, F ern a ndo Gonsa les, Ches t er Gou ld, Rick Griffin, Pau l Gris t, M at t Groening, Ga ry Grot h, V. T. H a m lin, F letcher H anks, Johnn y H a rt, Milson Hen riques, Ja im e Hern a ndez, Gilbert Hern a ndez, Geo rge Herrim an, Sa m Hiti, Kev in Huizenga , U b I w erks, Al Ja ffee, Jagua r, Jason, Milt K ah l, K a z, W a lt Kelly,


H a nk Ketch a m , Kioskerm a n, Jack Ki rby, Annie Koya m a , Bern a rd K riegs t ein, Phil K rohn, Joe Ku bert, Pet er Kup per, Mich a el Ku p perm a n, H a r v ey Ku rt zm a n, L a ert e, Lélis, Liniers, Lous ta l, Don M a rtin, M At tot ti, M a x, Winso r McC ay, Dav e McKe an, Ot to Mesm er, Ton y Million a i re, Moebius, Al a n Moo re, F red Mo o re, V ic to r Moscoso, H ayao My i a z aki, Mich a el Neno, Ota , Ga ry Pan t er, C y ril Pedrosa , Pau l Pope, John Po rcellino, Pau l Pet er Po rges, Hugo Pr at t, An tonio Prohi as, Quino, Spa in Rodriguez, Johnn y Ryan, T. K. Rya n, Rich a rd Sa l a , F r ank Sa n to ro, Ch a rles Schu lt z, Ga b by Schu lz, E.C. Sega r, Set h, Sh ag, Gilbert Shelton, R. Siko ryak, M au ricio de Sousa , W a lt S ta nchfield, Pat Su lli va n, Jill T hom p son, André To r a l, Alex Tot h, Lewis T rondheim , Mo rt W a lker, Bill W at erson, S. Cl ay Wilson, Basil W o lv erton, W a ll ace W ood, Jim Woodring, Chic Young, Fá bio Zim b res, Zi r a ldo...


medo de mo

s para q inho

nao uem tem

r quadr rre

Editado por Daniel Werneck Belo Horizonte, 16 de outubro de 2011 Revisรฃo do texto: Ana Paula Santos Guilherme, Ricardo Tokumoto, Eduardo Damasceno. Impresso na grรกfica Formato, em Belo Horizonte, usando as fontes Sabon e Astro City, em papel Chamois 150g. IMPRESSO NO BRASIL

Ovelha Negra  

"A revista que o Brasil não leu!" Um livro de Daniel Werneck e Ricardo Tokumoto

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