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(in) verso

(in) verso


Esta paisagem merecia uma poesia como você merecia um mais bonito souvenir mas é o que posso dar-te, paisagem, uns versos pobres mas porque és uma amendoeira e tens o mar ao fundo HÁ QUEM TE PINTE UM QUADRO?

quanto ao meu souvenir, amor, tudo custa uns reais a mais e deve haver, ah, tinha de haver quem pintasse um quadro da minha alegria, com o mar ao fundo pra eu lhe dar de lembrança.


Passa o vendedor de bichinhos e algodão-doce. Buzina e me acorda na calçada. O vô olharia os pequenos balões – onça pintada, ursinho cor-de-rosa, elefantinho azul sorrindo sorriso de domingo. E remexeria os bolsos. Talvez não encontrasse umas moedinhas. E iria ao banco na correria, fazendo sinal pro moço buzinador. Onça pintada, ursinho cor-de-rosa...qual? Podia ser que o banco apitasse o sinal de que não há mais fundos. O vô ia dizer que pena. Indo embora onça pintada, ursinho cor-de-rosa, elefantinho azul buzinando o domingo. Quase choro, mas o vô não está aqui, e eu tive apenas uma ausência. Alguém chama o vendedor de dentro de uma casa e escolhe um algodão-doce. Trocam-se os produtos pelo portão – dinheiro, doce, troco. A criança do vô cresce longe bem alimentada, sorridente, vestindo um avental e pintando os dedos. Não há guerra no meu país e o último exame de sangue não apontou fatalidades. Aperto a bolsa contra o peito, jesus!, ainda bate. E eu que achei que nunca mais ia ser feliz.


A arte de suicidar-se todas as manhãs Ela deseja pôr as mãos nos botões da camisa do artista, o pintor do 205. Seu marido escova os dentes no banheiro ao lado. Ela finge que dorme. meia hora a separa do despertador que desolado gritará 5 vezes antes que levante. Ela vestirá meias finas. Sapato de bico fino. Rolará nos dedos a caneta fina que usa para deferir propostas de financiamentos que concede a microempresários do ramo de auto peças. Automóveis. Autômatos. Antes de levantar passa a língua nos lábios. Derruba perfume na pia. Prevê o dia. Flerta pela porta e anestesia-se do artista que perfuma o 205. Veste a droga do bico fino. Talvez fosse preciso suicidar-se usando o bico fino da caneta, alojando-o em algum ponto em que se pudesse encontrar o coração. A arte de nascer de madrugada Parece-me que toda cidade dorme. Uma ou outra luz acesa esquecida confidencia meus irmãos. É calor e há estrelas. Há estrelas. Aperto o coração no cinzeiro. A chama cresce e se apaga. Assim. Como as paixões. Acho que vou sorrir.


minha janela que não tem céu, meus dedos sem anéis, meu teatro sem papel. sem saber mais onde ficou a chave do por dentro. (não me esqueça quando pensar na chuva, quando passar na rua, quando pisar na lua. mas não me ame, lá sou quem se ame assim sem pasmo.. ) tu, lápis de cores, .. de que brisa teus cabelos rescendem que medos teu cenho franzido pressente que pele tua pele por debaixo geme querendo...? em sonho acordada, o peso do teu braço vaga nas minhas costas. (nas tuas costas, o tracejado de três pequenas sardas e uma cicatriz antiga. antiga como eu mesma sou, anciã que murmura um grito pela manhã, delibera entretanto à tarde e dorme sem memória – sem pares – sem céu, enquanto nas tuas costas uma constelação). na minha testa, rugas interrogam – deus? tu? eu? e mais trinta e três anos na boca tranco do riso trinta e dois dentes no olho, que há tempos, só três pontos .... piscam por tua via lactea adentro.


1. Penso em você Em longo prazo .. Nós ouvindo Poesias E comentando canções . Numa varanda florida /Você agora sentado discutindo qualquer coisa entre tango e luta armada E toda essa historia de ser vanguardista Anarquista Graças a deus Capturo o meu momento futuro Nossos netos E nos dois Debatendo qualquer coisa de bolero a marcas de patins - haverá patins para nossos netos? - oh... não haverá nossos netos Você nem olha o vestido que eu pus Gostaria de viajar a américa latina ao seu lado Ou o quarteirão...


2. Das janelas estendem-se em roldanas em fina língua as vidas privadas - as roupas de baixo, rendadas as meias, aos pares os lençóis, então nus de corpo e as fardas do labor diário Adentro vão as casas, atrás das cortinas Seus azulejos e verdades Viveiros, estes, de pássaros bípedes, míopes, e de asas que não se sabem.


sou faminta meu ego torto meu faro falho letra incorrigível embriagada trato meu sonho em calabouço atrás do meu olho assustado o exército aliado engraxa os calçados.


(In) verso