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ANO 8 - Nº 99 DEZEMBRO/2015

Opinião

www.jornalfalandodedanca.com.br ISSN 2237-468X

Ensaio

Não é brega dançar o Brega Nos dias 14 e 15 de novembro participei do Congresso Salão Brasil, em Belém - PA, promovido pelo Instituto Cultural Marina Benarrós em comemoração Marco Antonio Perna* de seus 20 anos. O instituto pertence a César Cordeiro e a filha de Marina Benarrós, Marina Benarrós Maués. O congresso propiciou um final de semana com muita dança de salão, entre elas o Samba de Gafieira, o Zouk (que descende da lambada), o Brega (o ritmo dançante do Pará), o Tango Argentino e diversas dan-

sentido do prazer, empenho, alegria, e sem se prender a regras. Tive a sensação de muitos anos confirmada: os brasileiros do Norte e Nordeste são muito mais dançantes que a maioria do Sul e Sudeste, tirando nós, cariocas, claro. Eles criam, modificam e dançam sem necessidade de aulas. É esse o Brega, uma demonstração de criatividade e constante evolução, como as danças de salão cariocas e nordestinas. Claro que em algum momento essas danças adentram a sala de aula, assim como aconteceu com as danças cariocas e o forró. O Brega, então, pode ser considerado uma das grandes danças nacio-

ças folclóricas paraenses. Fui ao congresso ministrar minha palestra sobre a história da dança de salão brasileira e saí com uma aula da dança do Brega. O congresso consistiu em bailes e workshops e teve como ponto alto o espetáculo “Contigo”, em grande palco com músicos interpretando desde sambas até tangos para que pudéssemos apreciar a performance dos dançarinos. O espetáculo contou com a execução de um tango argentino em especial, o “Interrogação”, composto pelo maestro Wilson Batista em 1936 e cuja letra é de autoria de Felisberto Sussuarana. O que o torna um raro tango “argentino” genuinamente brasileiro. Nos bailes pude assistir a apresentações de danças folclóricas como o Siriá e o Carimbó (que, por coincidência, tinha sido reconhecido pelo Iphan como patrimônio imaterial do Brasil poucos dias antes) e tive o prazer de conhecer de perto a tão famosa dança de salão paraense, o Brega. Pude até mesmo dançar um básico sem grandes problemas e ouvi relatos de que a dança atual do Brega evoluiu muito nos últimos anos. Notei que o povo paraense dança o Brega como o nordestino dança o Forró (ou as diversas danças que compõe essa manifestação popular), no

nais, pois é popular e se mantém graças ao poder dos bailes. Está em constante evolução e provavelmente foi influenciado por diversas outras danças no últimos anos, assim como foi o forró. Em vez de importar danças como Bachata ou West Coast, deveríamos aprender o Brega aqui no Rio. É brasileiro e não é uma dança importada sem graça. Bachata, eu até entendo que o universo salseiro goste, assim como gosta de merengue e outras correlatas. Mas tem danças aí completamente sem graça, sendo ensinadas. E tenho certeza que daqui a uns cinco anos ninguém vai se lembrar delas. Já o Brega… O nome é que não ajuda, mas é tão brega dançar o Brega como é dançar o Forró. E você dança, não? Entre na internet e assista a uns vídeos. Peça ao seu professor para dar aula de brega. Convide professores do Pará, quando eles estiverem por aqui fazendo aula de samba de gafieira, para eles darem uma aula de Brega. Vale a pena e a cultura brasileira agradece. _________________ Marco Antonio Perna é pesquisador, editor de site de dança e autor de livros de dança. Site: www.marcoantonioperna.com.br/ Blog: www.dancadesalao.com/agenda.

A Cara dos bailes

Capítulo inédito do livro “Tango para Iniciantes”, de Milton Saldanha, a ser lançado em breve Os bailes têm caras. Assim como somos diferentes dos argentinos, nos corpos e na personalidade Milton Saldanha (refiro-me a um padrão geral predominante, esqueça os rebeldes que fogem ao estereótipo), lá, como aqui, os bailes também são diferentes. Ou melhor dizendo, em qualquer ponto do mundo. Vou falar aqui um pouco sobre cada rosto e corpo, sem levar em conta onde moram. Os bailes descritos a seguir podem ser em qualquer cidade do mundo. Para facilitar, vamos associar a imagem desses bailes conosco mesmo, os seres humanos. Afinal, é disso que é feito o recheio de todos eles. O baile de um lugar suntuoso, com escadas de mármore, colunas e lustres, onde todos vão durinhos dentro de roupas finas, tem a cara de um senhor de bigodes, sempre sério. Daqueles que dá um pigarro forte, e os filhos peraltas já entendem tudo, chegou a hora de baixar a bola. Nesse baile, recomendo, não convém se arreganhar, ao contrário do que poderá fazer no baile que vem a seguir. Ali, um sorriso discreto, de canto de lábio, é o suficiente. Não se fala alto. Acho que nem preciso dizer como dançar. Mas vou dizer: muita calma. Tem o baile com cara redonda, gordão. A do sujeito bonachão e divertido, que não leva nada muito a sério. A iluminação é clara e normal, não tem esse negócio de meia luz. Todo mundo se diverte com ele, e releva suas gafes porque elas são mais humorísticas do que ofensivas. Este baile é atabalhoado, todos trombam na pista, e todo mundo ri. Falam alto. Em algumas mesas a turma mal olha para os lados e se atraca com a mão engraxada no frango a passarinho. Sempre tem um casal que é o rei do pedaço, monta seu showzinho e olha para as mesas em busca de olhares admirados. Se o pessoal ri, acham que é sorriso. Se aplaudem por farra, acham que abafaram. Mas são felizes assim, isso basta. Sempre é

gente de bom coração. Não se tira a fantasia dos simplórios, deixe viver. O garçom é sempre mal humorado, quase joga a garrafa na mesa e se afasta, vive correndo, atrasado. Nesses casos, se quiser dançar, tem que endurecer o corpo, cerrar os dentes, e enfrentar a turba. Mas na boa, sem encrencas, e sem partir para o ataque. Isso é só para se defender. Só cuidado com bêbados e eventuais valentões, desses que vivem falando que não levam desaforo para casa. Briga em baile é coisa raríssima, mas mesmo assim, em lugares assim, prefiro não dançar, não acho engraçado. Ou opto por me divertir só olhando da mesa. Existe o baile com face de velhinha de cara murcha e curvadinha para a frente. É o baile onde tudo é pobre e decadente. Há séculos não se investe ali um único centavo, mas os traços são de um lugar que já foi de certo luxo e requinte. Geralmente é um lugar de respeito. Todos ali se conhecem e se parecem com a velhinha. Seu oposto é o baile com cara de moleque, imberbe, quase parecendo o rosto macio de uma mocinha. Nesse baile, velho tá ferrado, não vai achar ninguém para cabecear. Se fizer isso com uma garota se sentirá um pedófilo. Ou não faltará quem ache. Nesse baile predominam os shortinhos das meninas e as roupas da moda dos meninos, com blasers curtos e justos, ou camisas coladas na pele para ressaltar seus dotes físicos. Verifique sua idade antes de entrar lá. Se o porteiro te chamar de tio, desista ali mesmo, na porta. O que sempre amei, mesmo, é aquele salão com cara bem brega, com cortina de franja colorida na porta do banheiro. Com cara de povão. Sem preconceitos. Guardo belas memórias desses lugares, algumas inconfessáveis. Lá tocavam grandes bandas, era maravilhoso dançar. Estão cada vez mais em extinção, não sobram nem os prédios. ____________ Milton Saldanha, jornalista e editor do jornal Dance (São Paulo)

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Jornal Falando de Dança, edição 099, dezembro/2015

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