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fase

Adriana Versiani Ana Caetano Camilo Lara Carlos Augusto Novais Carlos Barroso Clô Paoliello Coletivo Benjamin Jacob Dana Paulinelli Dudude Herrmann Francesco Napoli Francisco Magalhães Gilberto de Abreu Hevecus Isaura Pena Julio Dui Karol Penido Kristoff Silva Márcio Almeida Márcio Oliveira Marco Scarassatti Marcus Vinicius de Faria Osvaldo André de Mello Rodrigo Campos Rosa Dornas Tábata Morelo Tomás Sousa Lara Ribeiro

Belo Horizonte julho/agosto

2011


o roteiro é este: as entradas portas de saída

expediente

editorial

Belo Horizonte, julho/agosto de 2011 Editores Adriana Versiani, Camilo Lara, Carlos Augusto Novais. Revisão Rogério Barbosa e editores. Capa Darlingtonia californica.

rua estreita papo tão antigo o inferno tão longe

(...) Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos — ai de mim! ai, ai de mim (...) Aceso, aceso — vasto, vivo: meu coração é teu. Caio Fernando Abreu

Capa Dezfacinhas Tomás Sousa Lara Ribeiro.

tão perto

Projeto gráfico, capa, direção de arte e formatação Glória Campos e Clô Paoliello/ Mangá Ilustração e Design Gráfico.

entenda o

do paraíso

número da página

poesia o quanto queira Sirva

total de fascículos

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Contatos Adriana Versiani driarroba@gmail.com Camilo Lara camilara@uol.com.br

número do fascículo número de página sequencial

Tiragem 1.000 exemplares Impresso na Gráfica Editora Jornal do Comércio.

a casa é sua

Carlos Augusto Novais carlosanovais@yahoo.com.br


prefácio para berenice

Versiani | Adriana

Berenice não presta para nada, merece mesmo morrer, mas não serei eu a selar o seu destino, não escreverei a sua morte, não a inventarei deixo para outro. Um dia ela pode se recuperar dessa vida ridícula que leva e encontrar quem a queira. Berenice casou-se, anuncia o leitor, teve um casal de filhos, abriu um sacolão na praia do Morro em Guarapari e viveu um pouco dessa mentira até morrer de morte natural. Pode ser que bem velhinha, ela se dê conta da sua mediocridade e se mate. Com setenta e quatro anos Berenice se matará, o que, dependendo da forma, será interpretado como morte natural. O fato é que eu não direi isso, já que essa aí não presta para nada e por pouco escapou do fogo. Um dia, um antigo amante lhe disse: — Você precisa de fogo! Você precisa nascer de novo! Pobre Berenice, nem chegou a ser pianista em uma escola de balet. No fundo, se pensava artista, mas seus dedos longos eram desprovidos de talento.

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Versiani | Adriana Paulinelli | Dana Paoliello | Clô

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conto colar — os eleitos da série o que é da história está guardado


immemor silveae

O nome dela é Sylvia Randow de Almeida. Ela nasceu no ano de 1908, em Divino de Carangola. Mudou-se para Mutum aos 09 anos de idade. Aos 25 anos, casou-se com Benedito Rodrigues de Almeida com quem teve sete filhos. Ficou viúva aos 81 anos de idade. Mudou-se para Belo Horizonte desde 1987. Atualmente mora no bairro Buritis com a filha Maria de Lourdes de Almeida (Marilu). A partir do ano de 1980, começou a apresentar sinais de arteriosclerose, agravada por uma anestesia, em decorrência de uma cirurgia para correção de uma fratura sofrida no fêmur da perna esquerda. Ela tem 155 cm de altura e pesa 47 Kg. Sua carteira de identidade tem o número M-5.486.100 Ela tem os cabelos brancos, dorme sempre em lençóis alvos. Seus pais foram Lucília e Adolpho. É a quarta entre as filhas e a oitava dentro do todo: Galice, Salomé, Salemo, Solon, Saul, Silvanira, Sirene, Salomão, Salén, Sindalva e Sebastião. Dos filhos nascidos, 14 sobreviveram e vivos na terra vingaram. Outros, gerados, foram natimortos. De Lucília, a mãe, pouco se sabe: era Gomes, de Campos. Falava pouco. Dizem que nunca foi vista a sorrir, nem a chorar. Viveu essa vida em silêncio, aquele que cabia às mulheres do seu tempo, contemporâneas no último quartel do século dezenove. Adolpho, o pai, criou os filhos conforme aprendeu. Humanista, trazia consigo a herança de uma educação europeia. Era da quarta geração de uma família de patriarcas. Era filho de Adolpho Alexander von Randow, que era filho de Heinrich Sylvius Friedrich von Randow, que o era de Georg Friedrich Adolpho von Randow. Quando jovem, exerceu a profissão de professor e, depois, posto como contador, partidor e distribuidor, pequeno cargo público no Fórum da então recém-fundada Comarca de São Manoel de Mutum. Ela tem os cabelos brancos, os olhos cinza. A névoa dos anos tomou-lhes a cor primeira da íris, e o tempo não nos revela mais

Magalhães | Francisco

que cor era essa. Alguns dizem castanho-claros; outros afirmam que eram quase negros. Ela tem os cabelos brancos, velha. Venceu no dia 03 de março o seu 87º ano de vida. Apesar da avançada idade, seu corpo miúdo guarda uma saúde excelente. Ela se alimenta bem, dorme bem; às vezes acorda em sobressalto e chora; nesses momentos, pergunta pelos que já se foram. Ela tem cabelos brancos, o matrimônio – o vestido. Benedito era o nome dele, o marido. O dito lhe deu filhos em número certo, perfeito. Sete foram: Maria, Zezito, Marilu, Ronaldo, Adolfo, Bené e Graça. Dos que vivos estão, certos eram e ainda o são. Ao Benedito, chama-lhe Dito, era coletor federal. Em matrimônio viveram, prata e ouro. Depois, Dito não pôde e se foi. Ela tem os cabelos brancos, a pele lívida. Nas mãos, no rosto, marcas senis: olheiras, pálpebras caídas, fendas, frisos, sinais. A vida gravada pelo rosto. Cicatrizes – as da alma não se veem. Ela tem os cabelos brancos, a alma. Ela é Filha de Maria. É Presidente do apostolado da Oração. Crê em Deus, no Divino Espírito Santo, no Senhor Jesus Cristo; faz caridade e quer aos outros como a si mesma. Leu os Evangelhos. Mas ela... o corpo não viu, não aprendeu. Não lho ensinaram. Agora, a vida chegando ao fim. Ela olha o rio, insuportável Aqueronte. Do outro lado o barqueiro acena. A alma vê quer ir, mas o corpo pesa. Não quer – um lastro, a desgraçada carne, o pecado. Ela tem os cabelos brancos, a memória. Ela tem os cabelos brancos, lisos. Alguém lhe penteia os cabelos em frente ao espelho. Ela se olha: os olhos vagam, e, aos poucos, ela vai se perdendo. Esquecendo a história, as coisas todas do mundo. Aos poucos, ela vai-se esquecendo de si. Aos poucos, ela não se reconhece mais.

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o que sylvia não lembra O que vocês fazem agora cantando o quê nós vamos aonde a mãe lá a salvina lá essa casa é de quem morreu morreu também é para mim pois eu fui para lá aí uai que acontece morreu lá em casa pois eu fui para lá fiquei um pouco sai para a casa ela estava estava diz que ela está passando mal muito mal mesmo pronto eu falei e agora eu disse e agora eu não posso sair e tenho eu estava já estou com isso mas isso foi tudo não pode deixar assim não olha se voce estiver com vontade põe arranja um guardanapo claro bege claro da cor que você quiser depois não é preciso saber se a pessoa sabe trabalhar pois se ela não souber costurar não ganha ora para um casa porque gente vai olhar vai lá comprar o lúcio pede o padre para arrumar um carteiro o que você quer me dar eu gosto de tudo eu gosto de todas as pessoas quando eu vejo eu fico quase doida vejo todas as pessoas são minhas ficam comigo que o dia que vocês vão benzer quando eu estava de cama então uma pessoa ouviu mas você então trabalha sozinha você trabalha lá primeiro você prepara o que eu preciso fazer de amanhã de manhã no caso né amanhã joga uma corda uma correia tanta coisa né você

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viu você viu o jogo nair aquele moço que morreu quem matou não sei de nada disso porque eu estava doente depois vim para cá quando vim peguei um carro fui entrei dentro do carro e pedi o moço falou assim mas porque a senhora não vai falou assim eu fiquei meio na dúvida se sabe né eu não saberia porque mas eu ia com o papai com o já jogador com um dos meninos lá de casa a gente quando vê isso a gente fica né cabeça da gente custa muito a consertar quando você passa mal quando você sabe que tem alguém pessoa doente na família deus me livre difícil que dia família vou te contar vocês verem então os outros passando ainda quer dizer que ainda existe entendeu mas eu quando fui menina passei lá que nem os outros meus única coisa dentro de casa e tirei ora não podemos fazer isso tudo que você e u o pai nos ensinou isso se a pessoa está doente a veja se tiver que só a água tem água também então eu vou buscar água vou buscar para você daí um mucadinho ela passa mal começa lá aí vem que foi uma dor terrível que não to aguentando vem andar o que foi tem menina dentro mas a gente o acho que a gente imitar cristo Jesus quere-

mos corrigir mas é muito triste também para ele né eu acho que Jesus tem direito conosco o seu que ele tem ele faz tudo conosco é para nós ele faz mas eu acho assim quando ele caminha para adiante o homem veio aqui em casa de manhã foi domingo passado aqui foi domingo estava aqui o dia que ele veio cá adoeceu doença grave que ele estava então contou contaram para ele que estava passando mal então não foi lá mas para viver com ela vem cá de maneira que ele falou que não tinha nada tava tudo nós tudo como ele né aquela comida uma sopinha um docinho um salgadinho tudo tudo que ela precisa tinha prontinho graças a deus agora com a empregada olha se você tomou essa resolução eu não sei como é que vai ser isso precisa ser muito sério porque a pessoa tem que ter coração para falar porque se eu para poder sentir uma dor aqui para depois não dá hoje cansei anteontem muito com ele com o dito com o porque como eu como meu você não andou comigo não é não trabalho para mim não é então não sei nossa senhora tudo está uma coisa diferente aí tira um sujo um machucadinho...


tarântula

Caetano | Ana tradução

bob dylan

Tarântula foi o único livro de poesias que Bob Dylan publicou. É um livro composto de prosa poética e poemas em versos, intercalados em uma estrutura bem acabada e sistemática. Os textos poéticos são sempre acompanhados de versos em unidades com títulos assinados por personagens imaginários (o homem de plástico, Benjamin Tartaruga, Popeye Squirm, Gumbo o Hobo) que completam a imagem da unidade como uma surpresa final e não simplesmente uma assinatura. Os seres que povoam o universo de Tarântula nos lembram os filmes de Fellini: imagens fortes de cenas circenses (“os dentes do tigre de papel são feitos de alumínio”) misturadas a fatos cotidianos que os tornam perfeitamente plausíveis (“Grace Kelly teve outro bebê... “). O livro Tarântula é contemporâneo de “Bringing it all back home”, “Highway 6th revisited” e “Blonde on blonde”, três álbuns que marcaram a ousadia elétrica de Dylan fundindo country music com o que havia de melhor no mundo do rock’n’roll. Tarântula é esse mesmo sincretismo improvável, dialoga com os “Cantos” de Ezra Pound e as batidas da poesia beat em uma vertigem própria, irreverente e irresistível. Os poemas aqui traduzidos foram selecionados como exemplares da parte em verso do livro.

what a drag it gets to be. writing for this chosen few. writing for anyone cpt you. you, daisy mae, who are not even of the masses … funny thing, tho, is that youre not even dead yet … i will nail my words to this paper, an fly them on to you. An forget about them … thank you for the time. youre kind.

love an kisses your double Silly Eyes (in airplane trouble)

que perda de tempo. escrever para uns poucos. escrever para alguem menos você. você, minha flor, que nem é parte das massas ... coisa engraçada essa, você nem está morta ainda ... vou pregar essas palavras nesse papel, e mandar pra você. e esquecer delas ... obrigada pelo seu tempo. gentileza sua.

amor e beijos seu dublê Olhos Tolos (com problemas de voo)

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translate this fact for me, dr. blorgus: the fact is this: we must be willing to die for freedom (end of fact) now what i wanna know about the fact is this: could hitler have said it ? de gaulle ? pinocchio ? lincoln ? agnes moorehead ? goldwater ? bluebeard ? the pirate ? robert e. lee ? eisenhower ? groucho smith ? teddy kennedy ? general franco ? custer ? is it possible that jose melis could have said it ? perhaps donald o’ connor ? i happen to be a library janitor, so could you please clarify things a little for me. thank you … by the way, if you do not have a reply to me by this coming tuesday, i will take it for granted that all these forementioned people are all really the same person … see you later. have to take down a picture of lady godiva as the mental students are touring here in an hour …

traduza esse fato para mim, dr. blorgus: o fato é esse: nós temos que estar prontos para morrer pela liberdade (final do fato) então o que eu quero saber sobre o fato é o seguinte: será que hitler disse isso? de gaulle ? pinocchio ? lincoln ? agnes moorehead ? goldwater ? bluebeard ? the pirate ? robert e. lee ? eisenhower ? groucho smith ? teddy kennedy ? general franco ? custer ? será que jose melis disse isto ? talvez donald o’ connor ? acontece que eu sou um zelador de biblioteca, então por favor deixe um pouco mais claro as coisas para mim. obrigado .... por falar nisto, se você não me responder até terça, eu vou assumir que todas essas pessoas mencionadas antes são na verdade a mesma pessoa ... até logo. tenho que tirar uma foto de lady godiva pois os estudantes mentais estarão visitando a biblioteca daqui a uma hora ...

considerately yours, Popeye Squirm

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afetuosamente seu, Popeye Squirm


i dont care what bob hope says – he aint going with you nowhere – also, john wayne might’ve kicked cancer, but you oughta see his foot – forget about those hollywood people telling you what to do – theyre all gonna get killed by the Indians – see you in your dreams

lovingly,

plastic man

não me importo com o que bob hope diz – ele não vai com você a lugar nenhum – e também, john wayne pode ter acabado com o câncer dele, mas você precisava ver o pé dele – esqueça esse pessoal de hollywood sempre te dizendo o que fazer – eles vão ser todos mortos pelos índios – te vejo nos seus sonhos

com amor,

homem de plástico

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here lies bob dylan murdered from behind by trembling flesh who after being refused by Lazarus, jumped on him for solitude but was amazed to discover that he was already a streetcar & that was exactly the end of bob dylan

aqui jaz bob dylan assassinado por trás por uma carne trêmula que depois de ter sido recusada por Lazarus, pulou nele por solidão mas ficou surpresa ao descobrir que ele já era um bonde & isso foi exatamente o fim de bob dylan

he now lies in Mrs. Actually s beauty parlor God rest his soul & his rudeness

agora ele jaz no salão de beleza da Sra. De fato Deus guarde sua alma & sua grosseria

two brothers & a naked mama s boy who looks like Jesus Christ can now share the remains of his sickness & his phone numbers

dois irmãos & um filhinho de mamãe nu que parece Jesus Cristo podem agora compartilhar seus restos de perversões & números de telefone

there is no strength to give away – everybody now can just have it back

não há mais forças para dar – todo mundo agora pode pegar de volta

here lies bob dylan demolished by Vienna politeness – which will now claim to have invented him the cool people can now write Fugues about him & Cupid can now kick over his kerosene lamp – bob dylan – killed by a discarded Oedipus who turned around to investigate a ghost & discovered that the ghost too was more than one person

aqui jaz bob dylan demolido pela gentileza Vienense – que agora vai dizer que o inventou o pessoal legal agora pode escrever Fugas sobre ele & Cupido agora pode deixar sua lâmpada de querosene – bob dylan – morto por um Édipo descartado que se virou para investigar um fantasma & descobriu que o fantasma também era mais que uma pessoa


Lara | Camilo

um poema pelo amor de deus! ah, o que é que há? um poema pra editar um poema pra rimar um poema pra acabar aquele nó, aquele papo ah, o que é que há? um poeminha, aquele, como sopa de letrinhas redondinho, acabadinho um poema pra arrasar só pra experimentar ah, o que é que há?

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de Mello | Osvaldo André

estudo corpo i, de hevecus

Hevecus escreveu, assim costumava proceder, no verso do Estudo Corpo I: O corpo desfalece em formas e cores em pleno voo!... No referido estudo, em técnica mista, sobressai de alguém o verde dos olhos que se confunde com a vasta cabeleira amarela e o azul do pássaro que vai bicar o pescoço daquele ser cujo sexo foi suprimido.

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Hevecus

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Scarassatti | Marco

música experiência (4) diálogo com a improvisação smetakiana

Improvisar é criar no instante e livremente, (...), como no ato do ilusionista Jorge de Lima Barreto

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A música improvisada, tanto na concepção da criação individual quanto na coletiva, lida com estruturas ordenadas ao mesmo tempo em que está aberta para processos imediatistas e efêmeros. O resultado é um quase devir musical, com aspectos expressivos e comunicacionais não-verbais na relação intérprete-criador, instrumento ou instrumental diverso e público, proporcionando a este, outras oportunidades de percepção e recepção, diferentes das escuta massificada. Koellreutter dizia que improvisar é coisa séria (BRITO, 2001) e de finalidade não só musical, mas também humana. Desenvolveu jogos de improvisação, tomando-os como fundamentais ao processo educacional. Do ponto de vista estético, tanto nos territórios da música autoproclamada erudita, quanto nas correntes ligadas ao jazz de vanguarda, a música improvisada coletiva caminha não para um experimentalismo vazio, mas para o desenvolvimento de uma expressão efêmera que se fortalece na relação musical do grupo através dos ensaios, na estruturação de uma forma aberta, que se complementa formalmente no instante da performance, reorganizando os fragmentos e passagens musicais executados, às vezes, em outra ordem durante esses ensaios. Paralelamente ao apogeu de um controle formal da composição musical, ocorrido no início da década de 1950, com as publicações de Boulez e Stockhausen (Structures e Kreuzspiel), uma forte tendência vinda, principalmente, do pensamento libertário-oriental de John Cage, passou a influenciar e modificar o paradigma composicional do século XX. Ao invés do compositor semideus, controlador dos eventos de sua obra, Cage renunciava ao ego-criador, propunha o acaso, a aleatoriedade e a inclusão despretensiosa dos sons de fora da sala de concerto. Christian Wolff (1934), compositor próximo ao grupo de Cage, experimentou em suas primeiras obras aleatórias a interação e comunicação entre os executantes de sua composição; para ele, esse gesto ia em direção à dignidade e à liberdade do intérprete oportunizando a ele, músico, e mesmo ao compositor a possibilidade de se surpreender com a performance e com o próprio resultado da música de maneira diferente a cada execução. Esse princípio descentralizador da criação musical, hoje, seja ele na música aleatória, experimental ou mesmo no jazz moderno, pensando especificamente no free-jazz e na chamada música improvisada, está, certamente, ligado aos princípios de liberdade individual no sentido e


busca de um coletivismo, suprimido pelo neoliberalismo, que defende o primado do indivíduo, recorrendo à projeção do protagonismo individual na busca do sucesso. Não deixa de ser interessante que, mesmo na década de 1960, esse princípio da liberdade individual desemboca não no individualismo, mas, sim, na coletividade como propósito criador desses artistas envolvidos nessa busca. Voltando a Cage, este salientava a necessidade de destruição da hierarquia existente entre compositores, executantes e espectadores.

feito pelo antropólogo Ken Hyder, na revista canadense Musicworks (nº 66, s/ data), e que discute o caráter xamânico da música de modo semelhante ao que ocorre nos rituais.

Cage acentua que, no caso de grande parte da música popular e de algumas

função da música nos rituais xamânicos não tem caráter coletivo: as constantes

músicas orientais, as distinções entre compositores e executantes nunca foram

flutuações temporais servem para tornar o próprio músico xamã cada vez mais

claras. A partitura não se interpõe entre o músico e a música. As pessoas sim-

sugestionável, de modo a favorecer as identificações com os espíritos convo-

plesmente se reúnem e fazem som. Improvisação. Que pode ocorrer dentro das

cados (2003:86-87).

limitações da raga e do tala hindus ou livremente, num espaço de tempo, como os sons do contexto, no campo e na cidade. E assim como o ritmo a-periódico pode incluir o ritmo periódico, as improvisações livres podem incluir as estritas, e podem até mesmo incluir composições (CAMPOS, 1998:130).

A violinista, violista e improvisadora La Donna Smith vai além desse pensamento des-hierarquizante e acredita que, por meio da educação, chegaremos ao cenário ideal para sermos todos praticantes e ouvintes: A prática musical pode ser extensiva a todas as pessoas, encorajando a sua participação numa escala global de forma recreativa, a exemplo de certos desportos que se tornaram passatempos nacionais. Para tal, é necessária uma reeducação massiva das populações que motive a sua vontade de fazer música como uma forma de lazer pessoal e, também, de terapia pessoal (PAES, 2003:57).

Para além da simples recreação, ela acredita, ainda, na improvisação como oração e deslocamento para um outro plano de referência. O fluxo contínuo do processamento de estímulos sonoros em um estado de devir musical, em uma atividade de comunicação pré-verbal em que os participantes se buscam, buscando a si próprios, libertando-os de suas personas, pode conduzir o músico que se encontra em uma improvisação livre a um estado de transe. Para que isso ocorra, é necessária uma preparação para o ato de criação, que ultrapassa a preparação musical, no sentido que busca atingir um estado de predisposição espiritual que fortaleça a territorialização da ação, como uma ação de alteridade, em que a música não é o fim, é o meio. Um exemplo interessante é descrito pelo crítico de música, o português Rui Eduardo Paes, acerca da experiência do músico Tim Hodgkinson a partir do relato de um ritual xamânico siberiano

Reparou (...) que os feiticeiros de Tuva não desenvolvem técnicas musicais enquanto tal, mas um ‘meta-virtuosismo’ que lhes permite formulá-las consoante as exigências do momento, o que ele pressupôs que dependia exclusivamente do estado mental dos mesmos durante o ritual. E tinha razão: antes de entrarem no ‘estado psicológico especial’ necessário ao procedimento mágico, os xamãs têm primeiro de se libertar de sua persona de todos os dias. (...) concluiu que a

Smetak interessou-se pela improvisação como uma ação transformadora e refletiu sobre ela em dois artigos em forma de ensaio, A arte transcendental da improvisação (1978) e Por uma improvisação artesanal (s/data). Esses trabalhos refletem o período em que vivencia sua maior experiência com um grupo fixo de músicos, o Conjunto de Microtons, dirigidos por ele próprio e com o qual desenvolveu, intensamente, durante cinco anos, sua criação a partir da improvisação. Para ele, a improvisação é uma forma livre de composição, a diferença é só que não há um autor, há muitos autores cujas mentes tem que funcionar simultaneamente (1978:8). O aspecto livre e descentralizado da prática em grupo guia-se, porém, pela sombra do próprio compositor. Estimulava o conjunto propondo uma pedra como partitura1 ou explanando sobre um assunto antes da prática. Interrompia, por vezes, as sessões quando percebia que os músicos estavam trilhando um caminho equivocado. O resultado da prática contínua do grupo, mesmo com algumas pequenas modificações, ao longo dos anos, proporcionou um entrosamento que o levou à criação de muitas músicas que acabaram por ser registradas em LP, Interregno. Não que elas já existissem daquele modo, mas a correspondência entre Smetak e os músicos levava a um tipo de condução musical de acordo com o transcorrer da improvisação. É como se houvesse um banco de ideias já experienciadas, armazenadas na memória individual e coletiva e, quando uma situação semelhante acontecia durante uma apresentação, o reflexo era o de buscar na experiência e na memória do coletivo, o norte da condução musical. Nas suas reflexões sobre a improvisação, o compositor valorizava o silêncio, considerando-o como a tela de fundo de uma composição.

Em seu depoimento, Thomas Gruetzmacher, lembra o fato de Smetak durante um ensaio, ter levado uma pedra que havia achado no caminho e sugerir que o grupo a tomasse como partitura. 1

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Esta imagem lembra o sfumato de Leonardo DaVinci, que se trata de uma névoa emergente nas áreas mais distantes de uma tela para dar a distância entre o fundo e os volumes em primeiro plano. Considerava o som como um adensamento do silêncio, um silêncio audível, interrompido por silêncios inaudíveis. Deve valer para sempre que o fundo da tela a ser pintada, que no caso da música deve ser branco, representa o silêncio sonoro dos nossos ancestrais e, sem eles, não podemos agir em forma alguma (SMETAK, 1977:1).

No ensaio Arte Transcendental da Improvisação, Smetak parece responder a uma proposição musical de um compositor ligado à música concreta que, segundo o autor, propunha uma música sem a melodia, harmonia e ritmo. Alguém neste mundo propôs uma ideia muito estranha: sugeriu desistir das 3 partes principais das quais é composta a música, ou melhor, todas as coisas de que é composto o mundo visível, tanto nas suas Trinidades como nas suas substâncias químicas, eletromagnéticas etc (1977:1).

Nesse momento, lembro-me da entrevista com Koellreutter em que este pondera que o compositor suíço, no fundo, era um homem tradicional, pois ainda pensava sobre alguns paradigmas da música tradicional ligada ao instrumento. Nesse caso, Smetak justifica de uma maneira mística sua crítica a esse pensamento, dizendo que desistir da trindade melodia, harmonia e ritmo, seria desistir, não aceitar a velha fórmula: movimento – tempo; tempo – melodia; espaço – harmonia (SMETAK, 1977:1). E continua se remetendo a uma fórmula hebraica que, se destruída, deixaria apenas o molde, ficaria sem conteúdo. A trilogia JOD – HE – VAU que é harmonia, jamais pode ser destruída. Ela sintetiza as 3 dimensões, das quais está extraída a possibilidade da 4ª dimensão: he; he é a elite que garante a continuação da evolução (SMETAK, 1977:1).

Em Smetak nenhuma operação, aparentemente, simples seria simples para quem não estivesse com condições de acompanhar sua capacidade de subjetivação dentro de uma percepção do real absolutamente própria e original. No entanto, constrói seu pensamento, meditativamente, improvisando com a imaginação dentro do seu campo de crenças. E, dessa forma, mais adiante na sua construção, pondera a respeito da proposição acima mencionada: Se fosse possível a realização deste alguém, nem a mente ficaria. Isto em si não fazia mal porque sobre a mente pairava ainda a alam e o espírito. (...) Com certeza ficaria uma coisa importante: a percepção que o som é pré-existente no silêncio (o antes-som; não confundir com anti-som). A impossibilidade de tocar o silêncio é evidente. O SOM então é um silêncio auditível de som (SMETAK, 1977:2).

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(continua)


fase

usto Novais Carlos Aug t in Constan m ja n e B o Coletiv veira Mรกrcio Oli as Rosa Dorn iro a Lara Ribe s u o S s รก m To

Belo Horizonte julho/agosto 2011


Rosa Dornas

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Coletivo Benjamin Jacob

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Carlos Augusto Novais

a par te estå sozinha como a per na do saci e somente a pir raça da imaginação e a por ta da poesia amarram apurezadetudonomundo

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o que é o que é? se toca tambor só faz tam-tam se toca surdo ninguém ouve.

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Márcio Oliveira

as plantas

Debaixo do pé de couve Tem um pé de jatobá Dos galhos do jatobá Brotam ramos de alecrim Das sementes de alecrim Nascem mudas de araçá Em cima do araçá Milhões de formigas capim

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Até o próximo número!


sentimento j

Penido | Karol

da série minipensamentos para pessoas avulsas

Ao mar pedi que me desse as sensações de um cuidado. Que não fosse nem menos nem mais poesia. Que a seiva tivesse o ponto exato do doce. E que, sem os sonhos da padaria da rua de cima, acordar não teria graça. Isso faz dos padeiros seres misteriosos e inquietantes. Despertam leves suspeitas. Parecem ser pupilos das feiticeiras e das fadas. Por isso, toda manhã, como sonhos com a gula que sento a beira da praia para os meus pés brincarem na água. Enquanto isso, observo cada detalhe de possibilidades nos traços do horizonte. Os movimentos profundos das palavras a se contorcerem dentro do meu peito excitando a língua. Infância. Sonho que se guarda no saquinho de pão para quando sentar debaixo de uma árvore, deixar a próxima folha se sobrepor no colo do tempo polvilhado de açúcar refinado.

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Almeida | Márcio

jazz e literatura

triviais. Porque o jazz não tem rotina. Ele vive do surto seguinte, performance improvisacional que o justifica sempre à frente de si mesmo. Sua estética momentânea convence pela experiência solo ou grupal, quando essa arrebata por si mesma a sinergia que rola em insights. O jazz é sempre metalinguagem sucedânea em trading, taking ou swapping fours, tenha o compasso quatro, oito ou nenhum tempo.

O jazz provoca a produção de uma literatura orgânica, visceral, via de regra sôfrega, misteriosa, detetivesca, dotada de senso de humor, uma literatura de vivência à margem do establishment, intro. Por sua conditio de improvisação, o jazz trabalha os sentidos no bas-fond do íntimo, do mesmo modo que desestrutura, num in the groove ou num trainwereck os sentidos desavisados ou habituados apenas ao corretamente sonoro dos apreciadores do mainstream, musak e fugazes momentos similares de comoção musical. O jazz não é dado a sentimentos amadores. Ao ouvi-lo, toma-se partido por uma diferença. Assume-se um comportamento conotativo, antiblasé, de curtição prazerosa individual, quase impossível de ser repassado em palavras

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A preocupação pelo tempo revelase em toda a arte, nos andamentos inquietos, ágeis e sincopados do jazz, e na libertação do acento da estrutura do compasso na música moderna. Está presente na busca dos poetas por ritmos mais livres em distinção aos padrões comparativamente fechados dos metros e estrofes tradicionais. Há artistas que tentaram veicular as impressões do tempo passando na pintura, isto é, do processo de movimento, não apenas do movimento aprisionado. Mas, em sua maior parte, deve sentir-se este interesse no romance. A.A. Mendilon — O tempo e o romance, 1972.

Ou que seja uma pausa para se ouvir no silêncio interior o fraseado ávido para surtir efeito noir ou no ar viciado de um Cotton Club, Minton’s, Blue Note, um Savoy, um Vanguard, um beiral de ponte, uma rua onde num dado momento só cruzam gatos respingados de sereno. As ideias pulsam porque há um arroubo con alma de um instrumento

dominado plenamente não apenas com técnica, mas com vida. E vida geralmente (muito) difícil que se expõe como uma obra aberta: sou o que toco. Foi só ver a porta do quarto para entender que Johnny estava na pior das misérias — Cortázar, em O perseguidor. O verbo tocar em sua essência polissêmica: seja o insight iluminado que estrutura frases líricas com(o) um processo de execução, seja o tsunami alucinado que jorra idiossincrasias ferozes quase sempre geniais e impenetráveis. So what? O jazz é valor intangível e sobrevive porque cada jam session, gravação, registro, pala ou canja é a procura de uma nova resposta para uma perseguição. O jazzista, com Cortázar, é el perseguidor: o imprevisível nutre a genialidade. O que se busca não é o que está prestes a ser descoberto ou de acontecer, de agradar ouvidos incautos. O que o jazzman persegue é a superação de si próprio, do seu limite, a transposição da fronteira concebida como um fim que ecoa de volta os mesmos riffs (enunciados vivos) na imprevisibilidade. Por isso o jazz é o que é.

O elo de ligação entre jazz e literatura tem a ver com a relação autoral e sua adoção definitiva como o ritmo de vida de quem escreve tendo-o por toque. O jazz é o toque que toca palavra. A literatura é a obra que toca verbos encarnados em compassos de síncope. A fúria lírica, o vulcão domado pela sofreguidão. O prazer hard de ser feliz. O ópio de emergência, como disse Drummond. Nesse ato quase copular, o pacto é


visceral e há uma cumplicidade de linguagem que exige maestria de repertório, memória de detalhes sonoros, analogia não pela preferência mas pela qualidade irrefutavelmente de consenso universal, o imprescindível hábito de ouvir jazz como quem se programa uma festa, não por consumo, modismo, coisa de habitué. A escritura jazzística gera a instituição de uma conversa (Lima Barreto – Revolução do Jazz, 1972). Creio que os músicos de jazz são um pouco como as pessoas que escrevem a história, a crônica do seu tempo. Eles contam o passado e o que vivem atualmente. O jazz é a história dos povos de cor. – Abbey Lincoln, cantora de jazz.

Músicos de jazz, autores que têm o jazz por tópica principal de suas obras, estabelecem um modus comunicandi através de fios dialógicos (Bakhtin), rizomas conceituais (Deleuze/Guatari), que por sua vez ensejam direções

donde a performance constituir sempre uma metassignificação conduzida pela relação performativa: tocar jazz é expor-se numa vitrine de competências. Não obstante ter seu início restrito à marginalização da práxis (Huergo) musical, o jazz impôs-se como kairós — resgate do tempo vivido, vivificação dos tempos pessoais de todos os envolvidos (Martin Barbero). É, analogicamente, um jazzman afirmando em um intervalo: É sempre tarde nos relógios que acompanham nossos ritmos. Está atrasado o tempo que nos veste. Nós somos antes do que vimos sendo (idem). O trompetista Wynton Marsalis em um de seus mais recentes livros (Moving to higher ground/how jazz can change your life, tendo por co-autor Geoffrey Ward, ex-editor da revista American Heritage) escreve: A relação do músico com o tempo pode ser de inestimável valia para ajudá-lo a: 1) ajustar-se a mudanças sem perder o equilíbrio; 2) dominar momentos de crise com pensamentos claros; 3) viver o momento e aceitar a realidade, ao invés de forçar todo mundo a fazer as coisas do seu modo; 4) concentrar-se numa meta coletiva mesmo quando sua concepção do coletivo não é a dominante; 5) saber como e quando gastar sua energia individual.

Talvez uma vida inteira dedicada exclusivamente à tarefa de pesquisar sobre o tema jazz e literatura não seja o bastante para completar uma referência bibliográfica em contínua produção em todo o mundo. Muito mais do que palpitar, o tema tem em si a paixão pelo movediças e criam um discurso transverso (Pêcheux), apoiado em gênero musical intelectual, provocativo, indomável; seus inter-relacionamentos marcados jazzmen bêbedos, drogados ou pelas intervenções dos músicos,

em crise passional por alguém, mas nunca politicamente corretos — envolvidos em histórias existenciais emblemáticas; seu ambiente anti-convencional cercado de mistério e sensualidade; e seu símbolo e exemplo para fertilizar a expressão das artes e da cultura: a liberdade. Escrever sobre o que se escreve tendo o jazz por tema literário é mais que um desafio; é uma honra intelectual, confissão de amor à vida em seu nicho criativo renovado em cada acorde e frase.

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Napoli | Francesco

sou também o osso e uma goela estridente mastigo o caroço e a semente e cuspo no fundo do poço

e toda aquela gente que me viu ainda moço hoje é diferente aqui, no fundo do poço

ouço tudo daqui e digo o eco de meus latidos sou o herói que foi vencido sou o que teria sido

e não me venham com entrelinhas minha sina eu não sigo digo tudo na lata não escrevo em artigo

sou a voz sensata sou o dito e não dito voo pra além do infinito

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Dui | Julio

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Campos | Rodrigo

diálogo transversal

Herrmann | Dudude

transverter/contaminar

Pena | Isaura Silva | Kristoff Versiani | Adriana

RC Linguagem e sensação estão ligadas, interconectadas. E formatam nossa compreensão do mundo. Como o surdo-mudo conversa com o cego? Precisarão de uma linguagem desenvolvida sobre um sentido e experiência comum, como o tato, uma linguagem de toques? Ou de um tradutor que enxergue e escute-fale, e que conheça a correspondência entre os códigos visual e sonoro, um tradutor sinestésico? Há quem diga que todos somos sinestésicos, percebemos um som escuro, um cheiro doce, uma cor fria. Não se trata de privilégio de poucos, surrealistas ou artistas, embora a maioria de nós não se dê conta. Pessoas chamadas sinestésicas, para quem cada letra do alfabeto ou cada nota musical tem uma cor exata, acham que são malucas até que encontram outro sinestésico, que percebe o mundo como ele. Acho que a ideia de procurar uma forma de comunicação entre artistas com sensibilidades diferentes, que trabalham sobre linguagens (e sensações) distintas, tem um pouco de conversa entre cego e surdo-mudo. No caso da proposta da 2a edição do projeto Arte Transversal, essa tentativa de comunicação ou contaminação se deu sem a intermediação de um tradutor-sinestésico, apelando portanto para a sinestesia existente em cada artista. Como dançar um verso? Como desenhar uma música?

Montagem com fotos de Elena Ciciliotti, Guilherme Lemos, Rodrigo Campos e Rodrigo Coelho.

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KS Eu cheguei ali no fim da tarde,

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camente a nós , essa raça, a função de inventores da existência. Pois se não somos nós, os que por aqui estão ou estiveram que criam cosmogonias, nomeiam todas as coisas, escrevem com seus restos e rastros o que foi sua história? O que aconteceu primeiro; a observação do cosmos, ou a linguagem? A linguagem do cosmos, ou os observadores da raça? O que gerou a primeira ideia, o primeiro som, o desenho que inaugurou a galeria de arte na caverna? Somos tão parecidos e ao mesmo tempo tão diversos que um som para esse se traduz em imagem e uma imagem para aquele se traduz em movimento e o movimento para o outro se traduz em desenho e o desenho para alguns se transformam em palavra. Somos linguagem, essa raça.

AV Desde os primórdios das civilizações, coube uni-

sabendo que Dudude iria dançar, e que isso era decorrência de algum contato dela com o texto da Adriana. Só disso eu sabia. Estávamos fora da cidade, o que permitia um relativo silêncio, ou seja, um ambiente silencioso desde que você não se disponha a escutar demais e descobrir pequenos sons. Mas não se pede a um músico para escutar de menos. Aliás, a ninguém isso deveria ser pedido. Então estávamos lá no silêncio ruidoso do Espaço Andante. RC Linguagem e sensação estão ligadas, interconecE os pés começaram a contar tadas. E formatam nossa compreensão do mundo. a estória. Como o surdo-mudo conversa com o cego? Precisarão O primeiro passo e o chão de uma linguagem desenvolvida sobre um sentido e DH Contaminação ou contaminações suspirou. Acolheu o carinho da experiência comum, como o tato, uma linguagem Contaminar pode ser contagiar, ser pego, contaminado, sola do sapato dançarino da de toques? Ou de um tradutor que enxergue e es- contagiado por algo, por alguém, por alguns alguéns..... Dudude e suspirou com ela, um cute-fale, e que conheça a correspondência entre os Sem querer, distraídamente, fui contagiada.... sinuoso ruído branco, um som códigos visual e sonoro, um tradutor sinestésico? Há E quando é propositalmente por querer, se deixa ser picado, de s. As roupas dela, Dudude, quem diga que todos somos sinestésicos, percebe- mordido, capturado pela contaminação de algo que lhe intetambém murmuraram a cada mos um som escuro, um cheiro doce, uma cor fria. ressa e que todos os seus sentidos treinados e não treinados abraço em si mesma ou nas Não se trata de privilégio de poucos, surrealistas ou estão a serviço e a postos para tal acontecimento. coisas ao redor (especialmente artistas, embora a maioria de nós não se dê conta. Pois então estou falando ou melhor escrevendo sobre esta as invisíveis). As paredes também Pessoas chamadas sinestésicas, para quem cada contaminação proposital, isto me interessa suspiraram. letra do alfabeto ou cada nota musical tem uma cor Saber por que vias de fato esta contaminação canaliza, Eu não sei por que, mas desexata, acham que são malucas até que encontram como cada ser corpo absorve, desenvolve e expressa o que de o começo eu segurava dois outro “sinestésico”, que percebe o mundo como ele. ficou de resíduo canos metálicos que, assim que Acho que a ideia de procurar uma forma de comuE como um telefone sem fio vai modificando os registros Dudude parou, eu os deixei cair. nicação entre artistas com sensibilidades diferentes, adquiridos dessa experiência Pronto, estava inaugurada uma que trabalham sobre linguagens (e sensações) distinDe uma poesia, restou uma imagem que se transformou nova continuidade. tas, tem um pouco de conversa entre cego e surdo- em movimento que adquiriu um estado de dança, uma dança A cadeira me ejetou, o chão mudo. No caso da proposta da 2a edição do projeto que falou sobre algo, uma emoção sutil talvez entregou para cantou pra mim, com sua voz Arte Transversal, essa tentativa de comunicação ou um músico que com seus sensores perceptéis capturou uma grave que eu tive que ouvir com contaminação se deu sem a intermediação de um melodia, sons ao acaso, foram se juntando, ele o músico pero ouvido bem pertinho, rente. “tradutor-sinestésico”, apelando portanto para a seguia uma estrutura musical ancorado na memória de uma E eu minei um canto aquoso e sinestesia existente em cada artista. Como dançar imagem dança para assim chegar a uma essência sonora que embebido em memórias não sei um verso? Como desenhar uma música? ouviu uma artista visual que imediatamente imprimiu tal imade quem. Talvez dela, Isaura. gem, plástica, aquosa, lembrava mar... foi aí então que chega A Isaura ouviu tudo que fiz a poeta e meio sem querer fecha a questão com o céu de sua com os olhos fechados. E assim boca. O olho da câmera orquestrado pelo ser cineasta costura que os abriu, minou água de os encontros completamente envolvido, contaminado pelos seus pinceis. encontros sensíveis que teve, sem dúvida uma experiência IP Ontem um professor da escola que trabalho, contou que temos uma aluna com um trabalho maravilhoso, e com uma historia de vida unica sinestésica, onde a via era sim se deixar contaminar incrível. Sua mãe e seu pai são surdos. ela nasceu em um sítio, longe de tudo, moravam só os três. até os oito anos ela viveu no silêncio. ela pelo outro e assim por diante, uma contaminação afirmativa, fez um trabalho lindo....... um aquário com um peixe dentro de uma gaiola de madeira. o peixe voa um silêncio absoluto!! criativa e poderosa.


Barroso | Carlos

mudar o mundo em volta do copo mudar a cabeça em volta da mesa ambas

redondas

para pensar mudar o governo mudar de amor até de sexo se assim queiras mudar o que não te alucina mudar o que se esconde o que revelas no abrir das cortinas só não mudar as ideias de mudanças discutidas em volta das mesas do Archangelo Maletta

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Novais | Carlos Augusto

poesiavida para cacaso

I a carne não está aí para ser lida a morte não está aí para ser prevista a felicidade não está aí para ser delícia a vida não está aí para ser escrita II a página sim está aí para ser triste a memória sim está aí para ser revista a utopia sim está aí para ser vertigem a poesia sim está aí para ser vivida

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pรกra-p ulo a

Morelo | Tรกbata

embarcando nos seus

recortes

cinematogrรกficos em bacantes ou no banquete os meus

decotes

emburacando nas suas lentes macro-bi-รณticas mar-mitamos o que vivemos mais amamos que podemos

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o silêncio que existe...

Lara | Camilo

Primeira audição de Amoroso lá pelos idos do final dos anos 70 na cidade de Divinópolis, apresentada por um amigo que apreciava a matemática e o som do violão do João. Juntar o que restava de um mês de salário mínimo, subir a Rua Goiás e adquirir o vinil como edição de colecionador. A cópia atual já é a terceira, agora em CD, com as anteriores quase vencidas pelos atritos e ranhuras da agulha, mas mantidas na estante como um dos discos, permanentemente, mais ouvidos. A primeira vez era cidade, com os seus fatalismos de paixões alegres e jovens embalados pelo cantar pessoal das estrelas que esquecemos de contar. Depois, a descoberta do gesto antropofágico: Gershwin em inglês, Consuelo Velásquez em espanhol, Bruno Martino em italiano e o Brasil brasileiro de Jobim, Chico Buarque, Haroldo Barbosa e Newton Mendonça. O tratamento dado a um dos clássicos mais gravados nos Estados Unidos, ‘S Wonderful, resulta numa interpretação-síntese traduzida na batida harmoniosa do violão combinada com a suavidade do sopro-sussurro do canto, que já levou Dylan a declarar: Eu já desisti de fazer qualquer tentativa de atingir a perfeição. Seguindo a trilha de

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Estate, Besame Mucho e as perólas do cancioneiro brasileiro, acompanhamos os registros dessas interpretações-sínteses, que seguem o risco traçado por João Gilberto em seu projeto estético: É preciso que a voz se encaixe no violão com a precisão de um golpe de caratê, e a letra não perca sua coerência poética. Assim, sedimentado o encaixe, a profusão de cordas — violinos, violas, violoncelos... — idealizada pelo arranjador alemão Claus Ogerman – não altera a performance completamente natural do canto e do violão, pois o artista chama para si a responsabilidade de manter o limite e a extensão do contraponto em relação ao fundo orquestral. Ele é o protagonista dos malabarismos de associação e dissociação com o orquestral, que soa, em muitos momentos, de forma magistral e épica. Interpretações definitivas, clássicas, de Wave, Caminhos Cruzados, Zingaro e Triste beiram o abismo do silêncio do som da poesia, anunciando: ó, vós que entrais, deixais o mundo pra depois. Incontáveis vezes, arrematado pelo excesso, pela exaustão de quem ouve tantas notícias de um mundo, que não para de girar ao redor de finalidades sem fim, foi tão justo e necessário buscar a fruição de João e seu amoroso repertório. O resto é mar, é tudo que eu não sei contar.


Amoroso (1977) Gravado no estúdio Rosebud, Nova York, de 17 a 19 de novembro de 1976 e no estúdio da Capitol Records, Hollywood, de 3 a 7 de janeiro de 1977. Voz e violão: João Gilberto. Bateria: Grady Tate e Joe Correro; baixo: Jun Hughart; teclados: Ralph Grierson. Orquestra com arranjos e regência de Claus Ogerman.

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de Faria | Marcus Vinícius

a folha pensa. a árvore, não. no entanto, o que o vento naturalmente lança ao chão?

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Ana Caetano Nasceu em Dores do Indaiá-MG, em 1960. Publicou Levianas (1984) e Babel (1994) com Levi Carneiro; e Quatorze (1997). Participou da coordenação dos projetos Temporada de Poesia, em 1994, e Poesia Orbital, em 1997; do CD Cacograma (2001); e foi co-editora da revista Fahrenheit 451. Camilo Lara Nasceu em Itaguara-MG. É professor e coordenador de Atividades Culturais do Cefet-MG. Tem dois livros de poemas publicados em co-autoria. Foi um dos organizadores da Coleção Poesia Orbital em 1997. Carlos Augusto Novais João Monlevade-MG, 1958. Poeta e professor de Literatura e Filosofia. Livros de poesia: A de Palavra, 1989; alvo. s. m., 1997; Antologia Dezfaces, 2008. CD de poesia: Cacograma, 2001 (em parceria). Participações: Alegria Blues-Banda, 1979; Salto de Tigre, 1993. Co-editor: Mostra poética de BH, 19941996; Poesia Orbital, 1997 (coleção de livros de poesia), Inferno, 2000.  Carlos Barroso Jornalista/escritor, trabalhou na Rede Bandeirantes, Hoje em Dia, Diário da Tarde e Estado de Minas. Prêmio Esso Regional em 2001. Atualmente, é comentarista político da BHNews TV e colunista da revista Fato Relevante. Do grupo fundador das revistas Cemflores, CemfloresPirata e AquiÓ, publicou: Poetrecos (Poesia Orbital/1997), Carimbalas, livro-objeto (Edições CemFlores/2008), Gelo (poemamóbile/2008). E os livros-objetos: Sãos, Usura e Livraria (Edições CemFlores/2010). Participou das Antologias Salto do Tigre (1993), Alécio Cunha (2009) e Pelada Poética II (Scriptum/2010). Poemas publicados nesta edição integram CunilínguaPátria (inédito). carlosbarrozo@ hotmail.com Clô Paoliello Faz uma sopa (de-li-ci-o-sa) de mugango com morango e, por isso mesmo, achou um tudo assinar junto com a Dana e a Adriana. Coletivo Benjamin Jacob Alunos do ensino fundamental da Escola Municipal Benjamin Jacob que participam do projeto O Lugar onde eu moro. Nesse número apresentamos os desenhos de Érica, Luiz e Weslaine.

Dana Paulinelli é filósofa e artista plástica. Edita a revista eletrônica imaginário poético (www. imaginariopoetico.com.br) Dudude Herrmann Nome de batismo Maria de Lourdes. Nasceu em Muriaé, na infância teve um enorme quintal para brincar e alimentar sua imaginação, fez muitos cozinhadinhos, e trepou em árvores de variados tamanhos. Na adolescência teve muitos amigos parecidos, adorava Mutantes, Ringo Star, John Lennon, Yoko Ono e muitos outros que ainda admira bastante, teve sua primeira experiência com comida macrobiótica. Aos doze começou a estudar seriamente dança, o que faz até hoje. Se tornou professora, coreógrafa, diretora de espetáculo em uma escola super bacana que não existe mais, o TransForma. Nos tempos de agora e isso já se faz desde os anos 80 trabalha com a linguagem da composição em tempo real, improvisação, performance, e ultimamente tem se transformado em escrevedora de algumas notas, composições, poesias. Sustratos devaneiantes de alguma coisa que quis dançar e migrou para o papel talvez para experimentar outro campo verdejante de criação. Francesco Napoli Poeta, compositor, guitarrista, pesquisador e professor de Filosofia e História da Arte; integra o projeto de performance biosonora neonão ao lado de wilmar silva; Integra o grupo de música de invenção zanzara; integra o grupo de dadamusic divergência socialista; apresenta o programa tropofonia da rádio ufmg educativa; tem dois livros de poemas publicados (sobre alguma coisa, sobre coisa alguma ou meta poesia sem meta - 2004 e árvore em v - 2011 e um disco de canções intitulado pausa para. Tem um blog: http:// pausallpara.wordpress.com Francisco Magalhães Senhor moreno, 49 anos, cabelo preto cinza do tempo, 170 cm (roubando prá mais), sapato número 40 (exatos), um tipo toco (queria ser judoca quando criança, ficou essa memória não vivida no corpo), mas agora sou mais pra magrinho, mestiçobrasileiro... Nem bonito, nem feio... Bem prá médio... Gilberto de Abreu Poeta, artista plástico e performer. É coautor e colaborador de livros de desenho e literatura, revistas e jornais, além de ter desenhos publicados em CDs, LPs e K7s de músicos brasileiros. Lançou os livros de poemas e desenho Acontece o qui a gente tece e Caiuaua (1997) e a revista em quadrinhos Avivar Sonorulândia. Em 2000 lança o CD João, Gilberto e Clarisse.

Hevecus Nasceu em Divinópolis, MG em 21/12/1952. Ainda na adolescência iniciou suas atividades em desenhos, pintura em madeira e tela. Participou do Salão de Arte Inspir’arte, Salões da I e II Semana de Arte em Divinópolis e muitas outras mostras em cidades mineiras. Na década de 80, se destacou pelos trabalhos em objetos, miniaturas e cartões postais. Faleceu em 1987. Isaura Pena Nasceu em Belo Horizonte, MG, 1958, onde vive e trabalha. Especialista em Arte e Contemporaneidade pela Escola Guignard-UEMG em 2009. Bacharel em desenho, formada pela Escola de Belas Artes – UFMG em 1983. Realizou várias exposições individuais e participou de coletivas e salões de arte em todo o Brasil, recebendo o Prêmio de Artista Convidada do II Salão Baiano (1989), o Prêmio Aquisição no X Salão Nacional de Artes Plásticas (1988) e o Prêmio no XIX Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte (1986). É Coordenadora do Curso de Artes Plásticas e professora de desenho na Escola Guignard – UEMG desde 1995. Julio Dui Nasceu em Belo Horizonte no dia 15 de junho de 1959, reside em São Paulo. Profissão: Artista gráfico. Karol Penido Hoje guardo dentro da minha gaiola, uma lâmpada acesa. É para alumiar o que tem de fora. Uma caixa de madeira rasgada, vencida no tempo. Onde guardo minhas bonecas de infância, alguns beijos e palitos de sorvete. O que faço dos dias? Emendo palavras nas estrelas e solto poemas ao vento. É tudo motivo para o ser. Vivo! Kristoff Silva Kristoff Silva é compositor especialmente dedicado à canção popular, mas atuante também em trilhas para dança, teatro e vídeo. Seu trabalho se caracteriza por amalgamar sons acústicos e eletrônicos numa trama artesanal e delicada. Possui um DVD (Ao Vivo na Casa da Ópera) e dois discos gravados (Em Pé No Porto e A Outra Cidade). www.kristoffsilva.com.br Márcio Almeida Mestre em Literatura, professor universitário, jornalista e crítico de raridades. Publica com regularidade no Cronópios, Germina, Caos e Letras, SLMG, Iniciação Científica, Pensar, Gazeta de Minas (Oliveira), Agora (Divinópolis) e diversas revistas virtuais do exterior. Autor, entre outros, de Estranhos muito íntimos (bilíngue, Multifoco, Rio de Janeiro, final de 2010), A minificção do Brasil — em defesa dos frascos & dos comprimidos (crítica literária, Sociedade dos Escritores, São Paulo, final de 2010), entre muitos outros. marcioalmeidas@hotmail.com

Márcio Oliveira Nasceu em Volta Redonda, tem onze anos, mora no Rio de Janeiro com seus pais. É estudante e coroinha da Igreja da Penha. Marco Scarassatti Nasceu em Campinas-SP, 1971. Compositor e artista sonoro, professor de prática do ensino de música na FaE-UFMG. Autor do livro Walter Smetak: o Alquimista dos Sons, Ed. Perspectiva/Sesc, 2009. Marcus Vinicius de Faria Publicou os livros de poemas Armadilha para hábil caçador pegar o bicho quanto antes, 1981. Desejo insano, 1987, e Outros tempos, 1997. Tem poemas e traduções publicados em diversos periódicos e antologias, dentre elas, Poesia jovem – anos 70 – Literatura Comentada.

minibiografias

Adriana Versiani Adriana Versiani dos Anjos. Nasceu em Ouro Preto–MG, 1963. Tem quatro livros de poemas publicados, dentre eles, A Física dos Beatles (2005), Conto dos dias (2007), o virtual Explicação do fato (2008. Germina literatura – Revista Virtual) e Livro de Papel (2009). Integrou o Grupo Dazibao, de Divinópolis/Belo Horizonte. Foi co-organizadora da Coleção Poesia Orbital e do jornal Inferno. Fez parte do conselho editorial da Revista de Literatura Ato.

Osvaldo André de Mello Divinópolis - poeta e diretor de teatro. Tem vários livros de poemas publicados, dentre eles, Meditação da Carne (1977). Participa de antologias, entre elas, Antologia da poesia mineira hoje (org. Assis Brasil). Rodrigo Campos Artista multimídia, atua profissionalmente nas artes cênicas (desde 1984) e na área audiovisual (desde 1998), principalmente como autor, diretor, roteirista, dramaturgo, produtor e diretor de arte. Diretor de documentários, dentre outros, Cidades Possíveis e Reis Negros. Dirige o Projeto Arte Transversal, que desde 2008 criou e produziu videoperformances e o curta Transverso (2010). Rosa Dornas 10 anos, Espaço Escola (Coopen). As coisas que mais gosto são estudar sobre a terra ao longo dos anos, também fazer pesquisa sobre animais e plantas. Gosto de estar ao ar livre, amo animais e ler histórias, textos e quadrinhos, jogar futebol, dançar jazz, desenhar e brincar na internet. Tábata Morelo Depois de passar setenta e cinco dias dormindo nas praias fluminenses, descobre o amor pelo kart e sai pelos bares em busca de patrocínio. a cerveja falou mais alto e as tardes passavam depressa. em uma clínica de tratamento começou a escrever. Tomás Sousa Lara Ribeiro Oi meu nome é Tomás eu gosto muito do meu pai Leonel da minha mãe Jamile e do meu tio Cássio e do meu primo João Pedro e minha tia Cláudia e das minhas irmãs Izabela e Olívia e das minhas tias Heloísa e Clô.

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de Abreu | Gilberto

poema para um pintor

PatrocĂ­nio

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DEZFACES 4  

revista do coletivo de poesia DEZFACES

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