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Primeira Fila Você perto da cultura

1ª edição - Outubro 2011

O centenário de jorge amado

Sete dias de paz e música Rock in Rio 2011 provou porque é um dos festivais mais conhecidos do mundo

TESOURO bAIANO

Micaretas tomam conta do país e se tornam um lucrativo negócio

Mochilão Um jeito divertido e econômico de viajar

MOda

As tendências do verão num ensaio fotográfico exclusivo

Cirque du soleil Os melhores do mundo vêm ao Brasil com o espetáculo Varekai


reportagem Larissa Maine Reportagem e diagramação Camila Oliveira Reportagem e Diagramação

Luciana Fraga Tainá Goulart

Lucas Gandia

Camila Franzoni

Mariane Bovoloni

Odelmo Serrano

Damaris Rota

colaboradora Lais Rodrigues Brunara Ascêncio

Isabel Namba 2

Natalia Dian Designer

Caroline Galhardo 3


Você perto da cultura

Primeira Fila

1ª edição Outubro 2011

teatro e cinema

literatura

música

etc,

O boom dos quadrinhos Cirque du Soleil: O melhor do mundo vem ao Brasil O humor dos palcos Desenhos que viraram filme Crítica

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Moda

Ensaio Fotográfico

No meio do caminho tinha um poeta

Tendências: dicas de Victória Ceridono, editora de beleza da VOGUE

O centenário de Jorge Amado A internet influencia o que você lê Crítica

Coleções Cobertura Rock in Rio Exaltasamba: será o fim? Micareta Bandas Indie

Mochilão, a forma mais divertida (e barata) de viajar Crônica: Na fila do Gargarejo 5


teatro e cinema

editorial Primeira Fila Você perto da cultura

Qualidade e entretenimento. Estas são as principais propostas da revista PRIMEIRA FILA. Aproximar você da cultura e informá-lo sobre as novidades da música, cinema, literatura e teatro serão os nossos objetivo durante o que esperamos ser uma longa jornada, que começa neste mês de outubro com a primeira edição da revista. A reportagem principal leva você até o Rock in Rio 2011 através de um diário de viagem feito especialmente pela repórter Damaris Rota para a Primeira Fila; na seção de Moda a repórter e modelo Tainá Goulart fornecerá ideias para inovar da produção no dia-a-dia; você poderá saber mais sobre as comemorações do centenário de Jorge Amado, o maior romancista brasileiro; conferir a agenda cultural para o final do ano, e viajar com a repórter Larissa Maine em uma matéria sobre mochilão na editoria ETC. Como não é sempre possível ir a um show ou assistir cada lançamento de filme (ou mesmo comprar roupas às cegas), a Primeira Fila pretende ser um guia, para tornar os acontecimentos culturais mais acessíveis ao nosso público e oferecer alguns bons momentos de leitura e reflexão. Pensamos em você com um convidado VIP nos eventos sobre os quais escrevemos. Nossa revista é o palco, e você, o ávido espectador que merece sempre o melhor da cultura e da atualidade. Seja bem-vindo a PRIMEIRA FILA.

1ª edição - Outubro 2011

O centenário de jorge amado

Sete dias de paz e música

Rock in Rio 2011 provou porque é um dos festivais mais conhecidos do mundo

TESOURO bAIANO

Micaretas tomam conta do país e se tornam um lucrativo negócio

Mochilão

Um jeito divertido e econômico de viajar

MOda

O melhor do mundo vem ao Brasil

As tendências do verão num ensaio fotográfico exclusivo

Cirque du soleil Os melhores do mundo vêm ao Brasil com o espetáculo Varekai

REDAÇÃO PRIMEIRA FILA 6

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alto! Os ingressos chegam a custar cerca de 200 reais, dependendo do local adquirido. Quanto mais próximo do espetáculo e da fantasia, maior o peso para o bolso. Para os organizadores do Varekai no Brasil, Time For Fun, o alto preço vale a pena. “Para nós, é importante oferecer um conteúdo diferenciado ao público brasileiro, cada vez mais exigente por grandes novidades. Varekai se encaixa nessa proposta, já que traz um Cirque du Soleil mais ousado em seus números e, ao mesmo tempo, atual em sua linguagem que conquista fãs no mundo inteiro. Vale a pena conferir.”, afirma Fernando Alterio, Presidente da Times For Fun.

Varekai A história se baseia em um rapaz, que é atirado nas profundezas de uma floresta mágica habitada por criaturas fantásticas. O jovem irá adentrar em seu psíquico e descobre muitos mistérios do mundo e de sua mente. O significado de Varekai na linguagem cigana é “onde quer que seja”, os eternos viajantes. O espetáculo é uma homenagem à alma nômade, ao espírito e arte da tradição circense. Ele nasce da fusão do teatro com a acrobacia. Um espetáculo fantástico, que vale a pena conferir!

Cirque du Soleil Tido como o melhor circo do mundo, o Cirque du Soleil preza pela qualidade e pelo quesito surpresa. Cada espetáculo inova ainda mais, com movimentos elaborados e um cenário de tirar o fôlego. Tanta perfeição exige muito treino e esforço, e um processo seletivo de alto nível. Somente os melhores podem fazer parte. Caio Matricardi, 25 anos, tentou por duas vezes entrar na equipe do Cirque du Soleil. Apesar de todo o preparo físico e dos cursos circenses que possui, ele não foi aprovado. “As provas são rigorosas e exigem muito além de um físico em ordem. Exigem concentração e controle psíquico. Fiquei chateado por não ter passado, entretanto foi uma honra ter participado da seleção. Talvez eu tente novamente, mas irei muito mais preparado desta vez.” O Cirque du Soleil possui 5.000 funcionários, incluindo mais de 1.300 artistas de 50 diferentes países, e no circo circulam cerca de 25 idiomas distintos.

Para saber mais sobre os shows, datas e locais acesse: www.cirquedusoleil.com

Cirque du Soleil está em cartaz em São Paulo e fará turnê em outras sete cidades até 2012 Mágico e encantador. É assim que a aposentada

Verônica Baliulis, 79 anos, descreve o espetáculo Varekai, do Cirque du Soleil, que acaba de assistir. Um show de luzes, cores, arcos e tecidos que tiram o fôlego de qualquer público. Assistido por mais de 6 milhões de pessoas em todo o mundo, Varekai será apresentado em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Recife, Salvador, Curitiba e Porto Alegre, terminando a turnê em fevereiro de 2012. O espetáculo inédito foi criado e dirigido por Dominic Champagne e já correu 60 cidades em mais de 15 países ao redor do mundo. A história se passa em uma floresta profunda, no cume de um vulcão, onde existe um mundo extraordinário em que tudo é possível. E para o 8

público tudo realmente parece possível. A leveza das acrobacias, a facilidade de fazer o que nós nunca imaginamos fazer, a delicadeza e beleza do melhor circo do mundo encantam olhos apaixonados de todas as idades. Verônica se emocionou durante a apresentação, assim como quase toda a plateia. “Parecia que eu estava dentro do vulcão e todos aqueles seres existiam. Foi muito bonito. Foi maravilhoso! Nunca pensei que um circo pudesse gerar tantas emoções, e em todas as idades.” Varekai mistura teatro, dança, música e acrobacias, em uma sincronia quase perfeita entre corpo e ambiente. Os artistas chegam a desafiar a lei da gravidade, como se fossem de papel ou borracha. Mas tanta perfeição tem um preço, e bem

Cena do espetáculo Varekai 9

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POR CAROLINE GALHARDO


O Humor dos Palcos Stand-up comedy está se tornando uma vertente crítica do humor e atrai cada vez mais o público jovem para o teatro

‘regras’ e explicações. Daí foi um passo para o ‘boom’ do gênero. Mesmo com características tão únicas, a produtora do espetáculo ImproRiso, coordenadora de produção do comediante Bruno Motta e fundadora do site Stand-up Comedy Brasil, Mya Pacioni, acredita que a maior dificuldade enfrentado pelo gênero é fazer o público entender e associar o que é de fato stand-up. “Aquelas coisas básicas de que as piadas tem que ser cotidianas, originais, não podem ser adaptadas, nem ter piadas prontas, o artista não pode usar adereços e sonoplastia, não há personagem, isso caracteriza um espetáculo de standup. Mas ainda tem muita gente que confunde e acha que tudo é piada.” E a importância do stand-up não é só na difusão do gênero no país. Esses espetáculos vêm trazendo o público de volta aos teatro com sua comédia inteligente, diferente e crítica. Jovens e adultos já aderiram à moda, e as casas de shows encontram-se cada vez mais lotadas.

POR CAROLINE GALHARDO

Um palco, um microfone, um artista

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Danilo Gentili (à esq.) e Oscar Filho (à dir.) começaram suas carreiras no standup e hoje fazem sucesso no CQC

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e muita comédia. Já dá para imaginar o que é? Isso é um resumo do que iremos encontrar em um espetáculo de standup comedy, o chamado “humor cara limpa”. A tendência, que veio dos Estados Unidos, está fazendo sucesso no Brasil e consagrando nomes como Bruno Motta, Danilo Gentili, Diogo Portugal e Rafinha Bastos nos palcos e na televisão. No Brasil, esse estirlo era conhecido como ‘contador de causos’. Muitos grandes humoristas como Zé Vasconcelos, Jô Soares, Chico Anysio, Ari Toledo, incorporavam o stand-up aos seus shows, contando histórias cotidianas ou sobre notícias atuais em meio às suas piadas prontas. Nos últimos 6 anos surgiram os ‘grupos’ de comédia stand-up, e o gênero começou a ser mais divulgado, difundido e apreciado. E então o nome ‘stand-up’ começou a ganhar forma e cor, com suas

O estudante Daniel Monteiro, 22 anos, acredita que o Standup é um atrativo a mais para os teatros. “Do stand-up básico estão surgindo vertentes, como noites de humor, duelos de comediantes, e muitos dos comediantes que fazem stand-up também estão em espetáculos de comédia, peças teatrais e de humor. Isso acaba tornando um atrativo a mais, chamando a atenção do público até mesmo para as peças convencionais.” E eu com isso? - Humor e crítica Um dos diferenciais do Stand-up que está sendo incorporado é a crítica nos espetáculos, característica de alguns artistas.” Com humoristas mais críticos a sociedade brasileira tem sido cutucada com maior freqüência, gerando polêmicas até que produtivas, como quando o Danilo Gentili fez um show criticando a política brasileira dois dias antes da votação pra presidente. E em Brasília!”, completa Mya. Alguns artistas que começaram nos palcos foram incorporados pela televisão, e fazem grande sucesso em programas humorísticos e críticos ao mesmo tempo, como o CQC, da Band. E é exatamente essa versatilidade do artista que torna o gênero ainda mais interessante. “Acredito que a incorporação da TV faz parte e é um sinal de que está dando certo. O artista de standup tem que ser versátil, isso é uma característica. Portanto, se estivermos levando a essência do stand-up estamos no caminho certo.” Vamos ao teatro? Jovem, ou nem tanto, não importa! O stand-up é feito para todos os gostos. Basta gostar de humor e querer dar umas boas risadas com um espetáculo inteligente. O jornalista e músico Elias de Freitas, 27 anos, já foi em três espetáculos de standup e recomenda. “Eu vi os espetáculos do Rafinha Bastos, o show do Marco Luque e do Ari Toledo, todos excelentes. Fui a um stand-up porque gosto de comédia e acho a proposta dos atores interessante. O que mais me chamou a atenção foi a capacidade de improviso dos artistas e como eles conseguem prender a atenção do público ao espetáculo. Eu recomendo.” “O fato de tratar fatos cotidianos com sarcasmo e ironia para fazer humor é o mais interessante, pois não é preciso muito para fazer rir. O stand-up é um tipo de humor que, por si só, tem um apelo mais jovial, por lidar com temas cotidianos da sociedade atual, muito voltada à internet. Então, majoritariamente, o público era de jovens universitários nos shows que fui. Mas acho que é uma questão de cabeça. O espetáculo é para todos os gostos.”, completa o estudante Daniel. 11


Sessão nostalgia Desenhos animados e programas infantis voltam com tudo nos cinemas

Os filmes já consagrados baseados em desenhos: Garfield e Zé Colméia

1954 – Vai ao ar o “The Junior Good Morning Show”, com as primeiras criações de Jim Henson.

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uma estratégia de sucesso seguro. “É uma forma de você reciclar ideias que já tenham um sucesso comprovado, não só na mídia e nos desenhos, mas porque são franquias consagradas. Então eu posso reativar os bonequinhos, os gibis e outras coisas. Acho que você pode atrelar esse uso a esse medo da indústria de investir em coisas novas”, diz Marco. O produtor de rádio Simon Hill, 27, é o criador de dois grupos de fãs no Facebook: um para Os Muppets e outro para Os Smurfs. Para ele, os fãs só têm a ganhar com a filmagem de seus desenhos animados e programas infantis preferidos. “Nós ficamos tanto tempo sem ter notícias, sem ter coisas novas para assistir. Então eu acho muito legal a iniciativa de trazer de volta esses clássicos. Eles com certeza vão me levar para o cinema”, afirma. Mas os críticos e fãs mais radicais reclamam de falhas nas adaptações e problemas de continuidade. Simon acredita que o único problema é quando os diretores e autores da nova versão “inventam” personagens ou

1976 – Estreia o “The Muppets Show”. No mesmo ano, o programa já tem seu primeiro fã-clube.

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Z

é Colméia, Os Smurfs, Manda Chuva, Os Muppets, As Aventuras de Tintin, Os Thundercats e He-Man. Pode até parecer uma lista de reprises, mas não é. Em 2011, uma enxurrada de personagens desses programas infantis antigos voltam com tudo. Mas, dessa vez, eles vão aparecer nas telonas. No começo do ano, o filme Zé Colméia, baseado na criação de 1961 da Hannah Barbera, levou milhares de pessoas ao cinema em todo o mundo e rendeu mais de 200 milhões de dólares para a Warner Bros. Os Smurfs, Manda Chuva e Os Muppets estão agora em cartaz e, ainda em 2011, também estão previstas as estreias de Thundercats e He-Man. As Aventuras de Tintin saem nos cinemas em janeiro de 2012. Mas as adaptações não acontecem de hoje. É o que afirma o professor de Rádio e TV da Unesp Marcos Américo. Para ele, este fenômeno já vem acontecendo há muito tempo, com a adaptação de quadrinhos, por exemplo. “Os blockbusters já vêm reciclando idéias a um bom tempo. É uma estratégia de você recuperar dois públicos: um público antigo, que vai levar seus filhos para ver esses filmes e quem acompanha as séries que têm uma certa continuidade”, afirma. Os estudiosos de cinema consideram as adaptações como filmes que utilizam

1979 – “Muppets, o filme” é a estréia dos personagens no cinema. O filme é sucesso de bilheteria nos Estados Unidos.

histórias novas: “Alguns fãs podem ficar chateados com desvios na história original. Eu mesmo não gosto de ver filmes vagamente baseados em um livro ou em um programa antigo. Gosto de fidelidade”. Mesmo assim, esses filmes continuam a levar tanto os fãs antigos quanto um novo público para o cinema, rendendo lucros para os estúdios que apostam nas adaptações. Para o professor Marcos Américo, isso acontece também porque ninguém tem como criticar sem antes conferir o filme nos cinemas. “Para aprovar ou não a adaptação, o fã vai ter que ver. Quer dizer, esse público vai ser levado ao cinema pra ver essa obra para depois falar mal. Não cabe aqui o ‘não vi e não gostei’”, diz.

2011 – O filme “Os Muppets” tem previsão de lançamento para dezembro. É o primeiro filme dos personagens desde “Muppets no espaço”, de 1999.

1958 – O cartunista belga Peyo lança os personagens Smurfs em uma série de histórias em quadrinhos. 1965 – Estreia na Bélgica o primeiro filme animado dos Smurfs, um longa em preto e branco. 1981 – A Hanna-Barbera lança na televisão americana o desenho animado “Os Smurfs”. 2011 – O filme animado “Os Smurfs” estreia nos cinemas com tecnologia 3D. É o primeiro filme de uma trilogia com os personagens.

POR LAIS RODRIGUES FOTOS DIVULGAÇÃO

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MODA

Crítica Filme: As Mães de Chico Xavier Duração: 108 min Direção: Glauber Filho e Halder Gomes Roteiro: Glauber Filho e Emmanuel Nogueira Elenco: Nelson Xavier, Herson Capri, Caio Blat, Via Negromonte, Tainá Muller, Vanessa Gerbelli, Gustavo Falcão

POR BRUNARA ASCÊNCIO Um filme com grande apelo emocional. Mães que perdem seus filhos, uma gravidez não planejada, um jornalista cético que vira adepto do espiritismo, pessoas que já morreram e entram em contato com seus familiares vivos. Essa é a trama que envolve o filme As Mães de Chico Xavier, lançado em abril deste ano, e que encerrou as comemorações do centenário do médium. Com direção de Glauber Filho, Halder Gomes e baseado no livro Por 14

Trás do Véu de Ísis, teve como atores principais Nelson Xavier, Herson Capri, Via Negromonete, Caio Blat, Gustavo Falcão, Vanessa Gerbelli e Tainá Muller. O fator emocional é o mais trabalhado no decorrer de toda a trama. Afinal, quem não se comove com Ruth (Via Negromonte), uma artista plástica que tem um péssimo relacionamento com o filho e o perde, vítima de dependência química? Ou então com Lara (Tainá Müller), uma simples professora que recebe a notícia de uma gravidez não planejada? E Elisa (Vanessa Gerbelli), uma mulher ignorada pelo parceiro, que perde o filho repentinamente. Quem não se identifica com a dor materna? Seja qual for sua religião ou crença; o sofrimento dessas três mulheres aproxima e envolve o público. A paz de espírito e o conforto só vem com as cartas dos mortos psicografadas por Chico Xavier, interpretado mais uma vez por Nelson Xavier. O tema do espiritismo não é novidade no cinema nacional. Já foi abordado nos filmes E a Vida Continua, de Paulo Figueiredo, Bezerra de Menezes – O Diário de Um Espírito, de Glauber Filho e Joe Pimentel, e no documentário As Cartas Psicografadas de Chico Xavier, de Cristiana Grumbach . Aliás, parece estar se tornando uma tendência no cinema brasileiro e, na maioria das vezes, de

grande sucesso comercial. Com As Mães de Chco Xavier não foi diferente; só no primeiro final de semana de estréia o filme registrou R$ 6,2 milhões. Caio Blat é um dos destaques da produção. Ele interpreta Karl, um jornalista cético contratado para fazer uma reportagem sobre Chico Xavier que, no decorrer de suas investigações, torna-se um adepto do espiritismo. Essa mudança na vida do jornalista é um dos recursos usados para dar credibilidade às atividades de Chico. É a mídia, representada por Karl, sendo convencida de que o espiritismo existe e deve ser seguido. Um dos grandes problemas do filme é o fato de deixar para o final os acontecimentos mais importantes, seguindo uma linha novelesca e não explorando recursos “flashback”, um dos mais utilizados em produções cinematográficas. A trilha sonora de Flávio Venturini parece não ter sido bem editada, pois em algumas cenas está muito alta, atrapalhando o entendimento da voz dos próprios personagens. O tema do aborto também deveria ter sido tratado de forma diferente. A ingestão de pílulas abortivas já se tornou algo comum nas telas de cinema. Por ser algo tão polêmico, poderia ter sido explorado de forma a despertar a reflexão das pessoas sobre a questão.

Aposta Moderna Não é atoa que, nesse entra e sai de temporada, as

saias continuam marcando presença nas passarelas e nas ruas de qualquer lugar do mundo. Seja longa, micro, lápis ou balonê, ela é a melhor alternativa para descontrair o seu dia- a- dia. Moderna e sexy, a peça se tornou a aposta de muitas it girls e, nesse verão, vem com tudo para refrescar as pernas femininas. Fotos: Isabel Namba/ Modelo: Tainá Goulart

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MODA

MODA

Saias longas e acinturadas ajudam a alongar a silhueta. Mas só para quem é alta. As baixinhas ficam ainda menores quando optam pelo saião. Saia longa: Marisa Blusa cinza e cinto: acervo Bolsa preta: Via Uno Sobreposições ajudam na hora de inventar um look novo. Para não errar, combine peças de mesmo material. Blusa de malha: Marisa Vestido vermelho: Renner Brincos: acervo 16

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MODA

MODA Acessórios de cores vibrantes vão bem com peças neutras. Aposte nos tons cítricos. Blusa cinza: Hering Saia midi: acervo Sandália vermelha: Melissa.

A partir de uma saia ou camisa leve neutra, você pode estilizar o look com acessórios mais encorpados. Camisa de seda, óculos, colares dourados e brincos: acervo 18

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Show de cores POR TAINÁ GOULART

Muitas vezes você deve pensar: Gente, o verão

Tendências de verão de acordo com Vic Ceridono, editora de beleza da Vogue

está chegando e eu preciso me preparar! Correto? Muitas mulheres correm para as academias, outras para as lojas em busca do biquíni perfeito e assim por diante. Mas não é só de corpo e moda que se vive a estação mais brasileira de todas. A maquiagem e cabelo são importantes e merecem (e muito) a nossa atenção. Por isso, a Primeira Fila conversou com Victória Ceridono, Editora de Beleza da Vogue e dona do Blog Dia de Beauté (www.vogue.globo.com/ diadebeaute) , para saber mais sobre o que estará no rosto, nos cabelos e nas mãos das mulheres no Verão 2012.

Quem deu as dicas: Victoria Ceridono, editora de beleza da Vogue

Outra tendência é o uso dos metalizados. Ouro, azul escuro, prata e verde estão por aí estampando campanhas como a da Lancôme. Saia da mesmice quando for fazer sua maquiagem: aposte nesses tons “preciosos” e saia arrasando na balada. Dica: Se quiser chamar atenção para o olho, use um batom mais discreto!

Gloria Coelho no SPFW 2011: Cabelos super lisos.

Vic aposta nos tons cítricos, como o laranja, o pink e o vermelho. Seja nos olhos, no blush ou nos lábios, esses tons vão bem nas morenas e nas branquinhas. Esmaltes também são válidos, pois essas cores se destacam nas mãos.

Cabelos lisos, bem chapados, são o que há de mais atualizado no mundo fashion. Mesmo que a estética do volume “sessentinha” esteja em alta, as madeixas serão bem lisas. Quanto mais esticado, melhor. No quesito penteado, o rabo de cavalo está entre os mais indicados. Dica: Desfie o cabelo com um pente e deixe seu rabo de cavalo texturizado.

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Reinaldo Lourenço no SPFW 2011 : Rabo de cavalo e cabelo liso.

Vic Ceridono acredita que o cuidado com a beleza é importante não só nos desfiles, mas também no nosso dia a dia. Por isso, aqui vão alguns itens indispensáveis para ter na necessaire: 1) Corretivo 2) Base 3) Blush 4) Lápis preto 5) Curvex 21


literatura

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Procura por e-books cresce no Brasil O lançamento “Poesia Traduzida” reúne 64 obras de Drummond

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professor da USP e editor da Cosac, que, depois de iniciado o projeto, me convidou para trabalhar com ele. Trabalhamos a partir de indicações de alguns estudiosos, como Fernando Py, autor de uma bibliografia da obra de Drummond, e sobretudo a partir de pesquisas no arquivo do poeta e na seção de periódicos da Biblioteca Nacional,” conta Julio Castañon, pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa. Ao lado de Massi, ele selecionou as traduções que seriam publicadas, além de fazer a introdução do livro. No entanto, Castañon esclarece que o Drummond tradutor não é assim tão diferente do Drummond poeta: “Talvez a contribuição desse conjunto seja a de salientar alguns aspectos da atividade do escritor, como o interesse por certos autores, e aí se pode encontrar um caminho para uma leitura que os aproxime”. POR CAMILA FRANZONI

Que

Carlos Drummond de Andrade (1902-1982) é um dos maiores poetas brasileiros todo mundo sabe. Mas quem realmente conhece a pessoa Drummond? Além de escritor, ele foi jornalista, se formou em farmácia e ainda traduziu para o português consagrados escritores estrangeiros. E é um destes aspectos desconhecidos de Drummond que está presente no livro “Poesia Traduzida,” publicação inédita lançada em 2011 pela editora Cosac Naify. Na obra estão traduzidos 64 poemas em inglês, espanhol e francês de autores como Bertold Brechet e Guillaume Apollinaire. “A iniciativa foi do Augusto Massi, 22

Comemorações E não são apenas os livros que pretendem mostrar diferentes vertentes desse mineiro de Itabira. Em 2012, se comemora os 110 anos de nascimento e os 25 anos de morte de Drummond, e o que não falta são homenagens ao escritor. O Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro se prepara para receber o acervo pessoal do poeta, com livros da biblioteca, resenhas de obras e desenhos do próprio Drummond. Samuel Titan Jr, coordenador executivo do IMS, explica que a coleção ficará com o instituto em regime de comodato por dez anos. “Esses documentos estavam sob a guarda da família de Drummond. Depois de fazermos os inventários e

catalogarmos todo o material, esses arquivos ficarão disponíveis para pesquisadores e quem se interessar em conhecer aspectos pessoais desse consagrado poeta.” A coleção estará disponível na Reserva Técnica Literária do IMS – RJ e na internet. Além disso, o instituto prepara o dia D, uma espécie de homenagem ao escritor. O evento será realizado todo dia 31 de outubro, data de aniversário do poeta. “O objetivo é transformar a data em uma discussão permanente da obra de Drummond, fazendo parte do calendário cultural do país. Exatamente o que já é feito com o ‘Bloomsday’ (dia em que se comemora a obra do escritor irlandês James Joyce (1882-1941),” explica Samuel. Para o evento, estão programadas palestras, leituras e exposições. Flávio Moura, editor do site e do blog do IMS e organizador do dia D, explica que o evento não se restringe ao instituto: “Além da programação no IMS de São Paulo e do Rio, também haverá eventos na Casa de Francisca e na Livraria Cultura, ambos na capital paulista.” Flávio ressalta que o principal objetivo do evento não é divulgar a obra de Drummond, poeta já bastante consagrado no Brasil, mas mostrar outras facetas do escritor.“Nós queremos que as pessoas vejam seu lado humano e entendam que ele não é apenas um poeta famoso, mas sim um homem extremamente sensível e preocupado com as questões políticas e sociais de seu tempo.”

POR CAMILA FRANZONI

P

oucos sabem quem ele foi, mas sua criação é uma das mais comentadas nos últimos tempos. Michael S. Hart, inventor do e-book, morreu no dia seis de setembro, aos 64 anos, em sua casa, nos Estados Unidos. A causa da morte não foi divulgada, mas a Universidade de Illinois, na qual ele trabalhava, publicou um comunicado afirmando que “a invenção do e-book não foi apenas uma inovação tecnológica. Eles são uma eficiente maneira de distribuir a literatura de graça.” Quanto a ser de graça, isso pode mesmo virar realidade no Brasil. A partir de 2012, a Biblioteca Nacional vai disponibilizar, gratuitamente, 100 livros digitais. O objetivo é fazer uma experiência para poder implantar essa tecnologia em todo o país. Ainda não se sabe qual modelo é o mais adequado à realidade brasileira, se o de downloads, ou o sistema nuvem, no qual o livro fica disponibilizado apenas por um período. Seria uma espécie de empréstimo, como o da biblioteca tradicional. Lobato é o preferido Monteiro Lobato é o autor com mais títulos adaptados para os tablets e smartphones. “A Menina do Narizinho Arrebitado,” o primeiro livro interativo do país produzido especialmente para tablets, já possui mais de 20 mil downloads. Erick Cardoso, editor digital da Globo Livros, responsável por essa publicação, afirma que a ideia é continuar convertendo livros tradicionais, enquanto se investe na produção de conteúdos exclusivos para o aparelho. “Acreditamos muito nesse segmento e já temos dois títulos lançados. ‘A Menina do Narizinho Arrebitado,’ e o mais recente na

Bienal Rio 2011, o primeiro livro em quadrinhos interativo brasileiro para o iPad, ‘As grandes histórias do Menino Maluquinho – O cara legal’, de Ziraldo,” afirma. Tablets também nas escolas O mercado de e-books está sendo dominado pela reedição de clássicos da literatura, principalmente os infantis. Uma das justificativas para essa demanda é o fato de que os tablets estão sendo adotados por escolas. Em São Paulo, o Colégio Dante Alighieri lançou o projeto “Dante Tablet”, que pretende conciliar o uso do aparelho com propostas pedagógicas dentro da sala de aula. “Como já temos a base tecnológica que permite a integração e a interatividade de conteúdos, o dispositivo poderá ser utilizado por todos os professores desde que haja uma proposta mínima,” explica Valdenice de Cerqueira, coordenadora do departamento de

Tecnologia Educacional do colégio. A escola já disponibiliza 100 títulos para serem acessados pelos estudantes, e o retorno tem sido positivo: “Os alunos tem se mostrado muito interessados no projeto como um todo, e estamos buscando promover atividades que sejam significativas tanto para eles quanto para os professores, o que aumenta o interesse,” afirma Valdenice. Com o crescimento do mercado de e-books nos mais diversos formatos, fica a pergunta: o que acontecerá com o livro tradicional? Para Erick Cardoso, da Globo Livros, a resposta é simples: “Historicamente, quando outros meios de comunicação surgiram, não substituíram os formatos anteriores, mas evoluíram e adquiriram seu espaço. O livro impresso não desaparecerá, mas talvez aquilo que o faz único, como o suporte em papéis diferentes para miolo e capa, serão mais explorados, diferenciando-o de outras formas de apresentar textos e imagens.” 23


O boom dos quadrinhos

E

les apareceram timidamente nos jornais. Foi a partir da década de 40, com o surgimento das revistinhas, que a produção de quadrinhos ganhou destaque e deslanchou de vez nos anos 60 com o lançamento das histórias de heróis da Marvel Comics, como O Quarteto Fantástico, Capitão América, X-Men, entre outros. Nesses anos dourados, as HQs chegaram a vender 200 mil exemplares, principalmente entre o público jovem. Nos últimos anos, embora a tiragem de revistas tenha caído muito, o mercado dos quadrinhos vem experimentando um boom de livros, que se diversificaram para agradar outros públicos e estilos: mangás, underground, eróticos, terror, biográficos, adaptação de outras obras, temáticos e muitos outros. Para Paulo Ramos, integrante do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da ECA- USP e dono do Blog dos Quadrinhos, esse boom partiu de um conjunto de fatores. “A produção de quadrinhos em formato de livro e a venda nas livrarias, que permite um retorno a médio e a longo prazo, a projeção de novos autores no cenário nacional e estrangeiro e até mesmo a compra de HQs pelo poder público favoreceram a expansão desse tipo de leitura”, explica. A adaptação de histórias famosas dos quadrinhos para o cinema, como as recentes superproduções Capitão

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América e Lanterna Verde, também contribuiu para que os livros e revistas em quadrinhos recebessem mais atenção. A exposição dos heróis no filme, na publicidade e em produtos comerciais incentivou os que não conheciam as histórias originais das HQs a buscá-las nas livrarias. Segundo Daniel Lopes, 26, um dos três donos do blog Pipoca e Nanquim - outra página divertidíssima sobre HQs - muito dessa diversificação de títulos vem do desaparecimento da ideia de que quadrinho é só para criança. “O respeito por essa arte cresceu e veículos como jornais e alguns programas de televisão passaram a abordar o tema como se deve. Isso invariavelmente

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POR LARISSA MAINE

Comparado a algumas décadas atrás, o consumo de HQs diminuiu. Mas a variedade de títulos e estilos aumentou como nunca

foi mudando a cabeça das pessoas, que passaram a perceber que HQ não é coisa só de criança”, afirma. A busca do mercado editorial por novos públicos fez com que as obras que não tinham o peculiar perfil humorístico dos gibis ou o perfil de aventura das revistinhas heróicas finalmente ganhassem mais destaque nas livrarias. Livros notáveis como Notas sobre Gaza, de Joe Sacco, que aborda as experiências do autor quando viveu em meio aos conflitos da região e a autobiografia da iraniana Marjane Satrapi, Persépolis, são exemplos que agora enchem nossos olhos e mentes com assuntos FOTOS DIVULGAÇÃO

Quadrinho de Persépolis, da escritora iraniana Marjane Satrapi

diferentes dos que estávamos acostumados a ler nos quadrinhos. Para o estudante Vitor Moura, 20, fã e colecionador de HQs, os lançamentos mais recentes inovaram não só nas temáticas, mas também na qualidade gráfica. “Li recentemente Sandman, do Neil Gayman. Achei muito bom mesmo. Conta a história do deus dos sonhos voltando à atividade depois de 70 anos de cativeiro. Ele tem muitas referências a várias mitologias diferentes e é muito simbólico, além do desenho que é excelente”, conta.

Em ‘Memória de elefante’, o quadrinista Caeto apresenta sua própria vida nesta intensa história de dissabores sucessivos, empregos miseráveis, lares inabitáveis e porres monumentais. Editado pela Quadrinhos na Cia, a obra traz a agitada vida noturna paulistana, as aventuras sexuais, o cachorro problemático, o calvário familiar, e a contribuição de cada uma das pessoas que o acompanharam em sua jornada desesperada rumo à redenção.

Craig Thompson retrata sua própria história, da infância até o início da vida adulta, numa cidadezinha de Wisconsin, no centro dos Estados Unidos. Seu crescimento é marcado pelo temor a Deus transmitido por sua família, colégio e pastor - o que se interpõe aos seus desejos, como o de se expressar através do desenho.

Série publicada originalmente na Folha de S.Paulo, Muchacha é o primeiro graphic-folhetim da carreira de Laerte. Tendo como mote os bastidores de um programa de tevê, Laerte, ao mesmo tempo em que cria uma elaborada e divertida revisão dos seriados de aventura da década de 1950, também faz uma espécie de resgate afetivo de suas memórias de infância. Combinando suspense, romance, memória e política, Muchacha vem para confirmar o papel de Laerte como um dos grandes artistas brasileiros em atividade. 25


Os 100 anos do maior FOTOS DIVULGAÇÃO

De trás para frente: Caetano Veloso, José Saramago e Jorge Amado. Gênios da música e da literatura

POR BRUNARA ASCÊNCIO

Escritor,

compositor, jornalista, deputado federal, líder comunista, poeta. Este é Jorge Amado de Faria, o mais consagrado escritor de romances ficcionais brasileiros. No dia 10 de agosto deste ano, foram abertas oficialmente, pela Secretaria da Educação do Estado da Bahia, as comemorações do centenário do escritor, que faria cem anos no dia 10 de agosto de 2012. A editora Companhia das Letras, que detém os direitos autorais da obra do escritor, criou um calendário para as Comemorações do Centenário, que vai de agosto deste ano até dezembro de 2012. Um período muito especial que conta com o lançamento do Filme Capitães de Areia em outubro de 2011. Jorge Amado também será tema de enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, e tema 26 do Carnaval de Salvador em fevereiro

de 2012. Estão também programadas a exposição Jorge, Amado e universal, no museu da Língua Portuguesa em março de 2012 e o Curso Jorge Amado, no II Colóquio de Literatura Brasileira em agosto, além de lançamentos de novas edições de suas obras. Segundo Myriam Fraga, da Fundação Casa Jorge Amado, a organização das Comemorações do Centenário de Jorge Amado começaram no início de 2010, quando membros da família do escritor, da Fundação Casa Jorge Amado e da Companhia das Letras se reuniram pela primeira vez. “Nosso objetivo era o de planejar as comemorações, de forma a não deixar passar em branco uma data tão importante, não só para o escritor, para a família de Jorge, como para todos nós brasileiros, que herdamos todas as suas obras. Ele foi uma pessoa incrível,

deixou centenas de obras, contribuiu para a política de nosso país quando foi deputado federal. Jorge Amado foi o melhor romancista ficcional que o Brasil já teve, portanto merece uma comemoração grandiosa”, disse Myriam. Gênio da literatura Jorge Amado nasceu no dia 10 de Agosto de 1912 em Ferradas, distrito de Itabuna – Bahia. Filho de João Amado de Faria e de D. Eulália Leal. Seu gosto pela leitura e escrita começou cedo. Com apenas dez anos, Jorge escreveu um jornalzinho chamado A Luneta, que foi distribuído para seus vizinhos e parentes. Aos 19 anos foi aprovado na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, e teve seu primeiro romance publicado, O país do carnaval, com tiragem de mil exemplares. Atuação Política Os ideais socialistas começaram a influenciar sua vida quando conheceu Rachel de Queiroz, também escritora e jornalista. Depois de alguns anos participando ativamente do Partido Comunista, o escritor foi preso em 1936, acusado de participar da Intentona Comunista. Seus livros foram considerados subversivos e queimados em Salvador por determinação da polícia. Em 1941, decidiu escrever o livro ABC de Castro Alves, sobre Luís Carlos Prestes, almejando uma possível anistia. Jorge foi eleito deputado federal pelo PCB em 1945, com 15 mil votos.Várias de suas emendas, como a da liberdade de culto religioso e a que dispõe sobre direitos autorais, foram aprovadas. Com o cancelamento, em 1948, do registro do Partido Comunista, o mandato de Jorge Amado foi cassado. Sem assento na Câmara Federal e tendo seus livros considerados “material subversivo”, o escritor saiu do país voluntariamente. O

romancista brasileiro escritor só foi deixar o Partido Comunista Brasileiro em 1956 porque queria voltar a escrever, e o seu engajamento no mundo político estava atrapalhando sua vida como escritor. Graciliano, amigo do peito Um de seus grandes amigos foi Graciliano Ramos, uma amizade que durou até a morte do escritor alagoano em 1953. Durante uma viagem, Jorge Amado foi informado que Graciliano estava muito doente. Voltou ao Brasil para rever o amigo, que morreu em seguida. Jorge então o substitui na presidência da Associação Brasileira de Escritores. Doença Em 1996, durante uma viagem a Paris, o escritor foi internado com um edema pulmonar e submetido a uma cirurgia. A operação mobilizou o país inteiro. Cada vez mais doente, enfrentando vários problemas de saúde, comemorou em agosto de 2000 seus 88 anos. Em junho de 2001, Jorge Amado foi internado com uma crise de hiperglicemia e teve uma fibrilação cardíaca. Após alguns dias, retornou à sua casa, mas no dia seis de agosto voltou a se sentir mal e faleceu, na cidade de Salvador. A seu pedido, seu corpo foi cremado e as cinzas espalhadas em torno de uma mangueira em sua residência no Rio Vermelho, Bahia. Publicações Jorge Amado é o autor brasileiro mais publicado em todo o mundo: suas obras foram editadas em mais de 50 países e traduzidas para 49 idiomas. Entre sua principais publicações estão: Gabriela Cravo e Canela, em 1958, que esgotou 20 mil exemplares em apenas duas semanas; Dona Flor e seus dois maridos, em 1966, romance que sai com a tiragem de 75 mil exemplares; Tieta do Agreste, em 1977. Todos esses livros, entre outros, viraram filmes ou novelas que fazem sucesso até hoje no Brasil e no exterior.

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Literários da UNICAMP, Jacqueline Lafloufa, acredita na possibilidade de se fazer literatura na internet. “Esse tema vai ser minha monografia no próximo ano.” Revela a estudante. “São diversos meios para se construir textos literários, e os blooks (blogs que depois viraram livros físicos) estão aí para provar isso. Os blogs podem ser o novo folhetim.” Comenta Jaqueline.

Ela quer influenciar o que você está lendo A relação entre a internet e a literatura não é

nova, mas a web não é mais conhecida somente como arquivo de livros digitais. Agora o mais comum é seguir o seu autor favorito

Siga-o! A literatura virtual se desdobrou entre as ferramentas que surgiram e surgem. No Twitter, os microcontos representam uma das tendências. Com a popularização do site e a exigência de mensagens rápidas, a literatura encontra espaço mesmo em 140 caracteres. No site, há também perfis voltados à divulgação de autores consagrados como Clarice Lispector (@ lispectorc), Carlos Drummond de Andrade (@drummondandrade), Fernando Pessoa (@ fernandopessoa), Shakeaspeare (@Wwm_Shakespeare) e Jane Austen (@JaneAustenQOTD). Os escritores contemporâneos também têm seu lugar no twitter, eles utilizam a

“Você lê uma frase com a qual você se identifica muito; provavelmente vai

POR CAMILA OLIVEIRA

A discussão sobre os e-books não acabou. O livro “de papel”

vai acabar? Os autores estarão desprotegidos com a ascensão dos e-books? Amado por uns, odiado por vários, o livro digital, ou on-line, popularizou-se na internet. “Sou contra ler em e-books. O máximo que eu faço com um livro ou outro é pegar o primeiro capítulo no site da editora” declara a estudante Luisa Freitas, 14 anos, de São Paulo. O e-book foi uma das primeiras manifestações intensas da literatura na internet junto com os blogs de conteúdo. Recentemente, e-books deixaram de ser sinônimo de literatura na internet. A digitalização de um livro com a simples transcrição comparase a fotografar uma pintura. Não se aproveita as oportunidades que a inovação técnica oferece. A estudante do terceiro ano de Estudos

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querer ler esse livro”

ferramenta para gerar uma aproximação com os leitores, numa atitude parecida com a das celebridades. A estudante Poliana Carvalho, de Porto Velho (RO) é uma das fãs dessa oportunidade. “É tão bom saber mais sobre as mentes por de trás das histórias, ou ter dicas sobre livros legais!” Poliana segue seus autores favoritos, Meg Cabot (@megcabot) e Eoin Colfer (@eoincolfer), e aponta outros benefícios da associação entre internet e literatura. “Com a internet conheci novas histórias e fiz amizades fantásticas!” O que você está lendo? Um dos pontos de encontro dos amantes da literatura é o site Skoob (HTTP://www. skoob.com.br), uma rede social que pretende o lugar para onde as pessoas boas foram. Essa é a explicação do objetivo no site, em seu “quem somos”. A idéia foi combinada

a música Good People, do Jack Johnson, que em certa parte fala “Para onde todas as pessoas boas foram?”. O site permite que você informe o que está lendo, o que já leu e também aqueles que gostaria de ler e os que aceitaria trocar. É possível avaliar os livros e fazer resenhas, além de ter uma seção para adicionar os livros que possui e os “abandonou”, ou seja, desistiu de ler. Ao compartilhar informações e indicações, é natural fazer amizades. Outra proposta do gênero é o site criado pela editora Record para seu selo jovem, o Galera Record (WWW.galerarecord.com.br), além de ser um portal para divulgação de lançamentos e notícias, o site tem um fórum de discussões, cujos temas extrapolam os livros da editora. Uma das freqüentadoras, Fernanda Xavier, de 20 anos, de Brasília adora ter se cadastrado no fórum. “Várias das meninas da “GR” [Galera Record] se encontraram durante a Bienal do Rio de 2009, fomos lá para conhecer a Meg Cabot, uma das minhas autoras preferidas, e acabamos tendo um encontro nacional da GR.” As editoras também investem na promoção da leitura através de portais dedicados a um autor específico, como é o caso do WWW.carlosdrummonddeandrade. com.br da editora Record, e do http://www. claricelispector.com.br/ da editora Rocco. Essas ações buscam estimular a leitura – e a compra de livros também – mas sua eficiência divide opiniões. A estudante Larissa Soares, 15 anos, de Brasília acredita na influência positiva desses projetos. Ela cita o twitter como uma das ferramentas. “Você lê uma frase com a qual você se identifica muito, você provavelmente vai querer ler esse livro.” A estudante Fernanda Xavier, 18 anos, também de Brasília não vê resultados em quem não está envolvido com literatura. “Geralmente quem acompanha os sites e segue os twitters são as pessoas que já eram fãs de leitura.” O professor João Batista Neto Chamadoira, membro da Academia Bauruense de Letras, acredita que pode ser feito um uso positivo da Internet. “Eu mesmo muito me servi da Internet para pesquisas sobre rádio, jornalismo, Televisão e Literatura” Mas ele destaca que não basta as ferramentas da internet se não houver interesse por parte da pessoa.

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Emma e Dexter são completamente diferentes um do outro e de tantos outros personagens dos livros convencionais desse gênero, por isso causam uma enorme identificação nos leitores

FOTO DIVULGAÇÃO

POR LUCIANA FRAGA Emma e Dexter se conhecem em 15 de julho de 1988 e passam juntos a noite da festa de formatura. Não há perspectivas de um novo encontro e o dia seguinte representa a nova fase que acompanha a vida adulta. A partir daí, cada capítulo mostra onde eles estão e o que estão fazendo nessa mesma data, a cada ano que passa, juntos ou separados. Essa é a história do livro Um Dia – Vinte anos, duas pessoas, de David Nicholls, que explora o amor, a amizade e tantas outras características que envolvem os relacionamentos entre as pessoas. São contados vinte anos da vida de Emma Morley e Dexter Mayhew, ano a ano, ao longo de 23 capítulos. Dividido em cinco partes, em que cada uma delas agrupa quatro anos da história dos dois, o livro tem uma continuidade peculiar, em que não se pode acompanhar o que aconteceu exatamente ao longo de cada dia ou ano da vida dos 30

personagens. Mesmo assim, é possível compreender o crescimento, a maturidade, as angústias, os momentos felizes e tristes, reunidos em pouco mais de 400 páginas que contam a trajetória de duas vidas. Os vinte anos mostram caminhos bem diferentes. Dexter é inconsequente, mimado. Viaja pelo mundo, sai com diversas mulheres, vira apresentador de televisão, vai ao fundo do poço e volta diferente, apaixona-se e enfim torna-se adulto. Emma é batalhadora, sensível. Trabalha em um restaurante mexicano, em uma companhia de teatro, vira professora, namora homens errados. Mas essas trajetórias se encontram constantemente numa relação de paixão, amizade e amor. A história é marcada por encontros e desencontros, escolhas, erros e acertos. Emma e Dexter são completamente diferentes um do outro e de tantos outros personagens dos livros convencionais desse gênero, por isso causam uma enorme identificação nos leitores já que, em vinte anos de história, é impossível não tecer comparações com a nossa própria vida. David Nicholls consegue fazer com que o passado seja contado de forma clara, como se o leitor visualizasse a cena no momento em que ela acontece. Narrado em flashes de acontecimentos, como diário de uma viagem, em um resumo dos últimos meses ou em um encontro de poucas horas, cada capítulo é inesperado e faz com que o seguinte seja imaginado e os fatos do próximo ano aguardados ansiosamente. Um Dia é um livro que inspira reflexões sobre as mudanças pelas quais as pessoas passam, sobre as decisões tomadas, sobre como um ato em um dia comum pode mudar duas vidas. Não é um daqueles livros que são lidos depressa para se saber logo como termina. Todas as partes podem ser apreciadas, a cada ano pode-se imaginar um final e o de verdade pode ou não ser um dos imaginados. Em dezembro de 2011, chega aos cinemas brasileiros o filme baseado na obra. Com Anne Hathaway e Jim Sturgess nos papeis de Emma e Dexter, o longa recebeu críticas animadoras nos Estados Unidos e foi recomendado por ser bem fiel ao livro. Se isso for verdade, vale a espera.

FOTOS BRUNO DE LIMA

Crítica

música

Sete dias de paz e música POR DAMARIS ROTA

Rock in Rio 2011 provou porque é um dos festivais mais conhecidos do mundo

Cem horas de festival, sete dias de shows, um público

de 700 mil pessoas, mais de 160 atrações e 180 milhões de internautas acompanhando tudo de 200 países. Isso tudo no Brasil, no Rio de Janeiro. O Rock in Rio teve esse balanço incrível, e poucas vezes na história da internet um assunto foi tão comentado. Mas o festival é história antiga com muita coisa para contar; talvez por isso tantos fãs de música quiseram enfrentar o desafio de horas de show em um dia: todos queriam fazer história. A primeira edição do Rock in Rio foi realizada em 1985. Na época, a Cidade do Rock era localizada perto de Jacarepaguá, em um terreno com 250 mil metros quadrados com capacidade para atender 1,5 milhão de pessoas, o equivalente a cinco Woodstocks. O sucesso do evento foi estrondoso, não só por causa de suas dimensões, mas porque o público brasileiro estava sedento por atrações internacionais, que quase nunca visitavam a América do Sul. Nessa edição o público vibrou com bandas como

AC/DC, Iron Maiden, Whitesnake e Queen, que deixou marcada uma apresentação emocionante com a imensa platéia cantando o hit “Love of my life” em uníssono, enquanto o vocalista Freddie Mercury regia a platéia. O sucesso da primeira edição levou à realização do Rock in Rio II, em 1991, mas dessa vez no Estádio do Maracanã, que recebeu 9 dias de evento. As bandas de mais sucesso dessa edição foram Judas Priest e Guns n’ Roses, cujo vocalista declarou que tal apresentação foi uma das melhores de toda a história da banda. A terceira edição do festival só foi realizada em 2001 e trouxe o famoso slogan “Por um mundo melhor”. Uma das intenções deste Rock in Rio era promover a paz, o que foi simbolizado pela libertação de pombas brancas e três minutos de silêncio antes do início dos shows do primeiro dia de evento. Tal edição trouxe um público mais eclético e provou que é possível reunir fãs de Britney Spears, Foo Fighters e Iron Maiden em um mesmo festival. Além disso, 31


a banda Red Hot Chili Peppers fez um sucesso estrondoso, atraindo 250 mil pessoas para o show. Em 2004, o Rock in Rio foi internacionalizado, com edições em Lisboa e Madrid. Tal inovação não foi bem recebida pelos brasileiros e a divulgação na imprensa do país foi mínima.

Muitos acreditavam que a ideia de um festival puramente brasileiro em solo estrangeiro não era respeitoso - e para falar a verdade, dizer “Rock in Rio Madrid” e “Rock in Rio Lisboa” não faz o mínimo sentido Por fim, este ano, o festival voltou! Para ele foi construída uma nova Cidade do Rock, na Barra da Tijuca, que contou com Palco Mundo (palco das apresentações principais), Palco Sunset (apresentações alternativas e Jam sessions), tenda eletrônica e a Rockstreet, com lojas, restaurantes e artistas se apresentando na rua. Mas a escolha das bandas dessa edição causou enorme polêmica, uma

vez que foram escaladas artistas pop como Katy Perry, Rihanna e Ivete Sangalo para se apresentarem no Palco Mundo. Tal decisão levou diversos fãs a desistirem do festival e reclamarem, na maioria das vezes em redes sociais como facebook e twitter, que o Rock in Rio de rock não tinha nada. Mas foi uma questão de escolher o dia que mais agradava ao próprio gosto musical. Por exemplo, quem curtia metal escolheu ir no dia 25 de setembro, com atrações como Sepultura, Motorhead e Metallica. Quem curtia pop, escolheu o dia da Katy Perry e Elton John ou o dia 29, que teve Janelle Monáe e Stevie Wonder. Foi um festival com programação tão distinta entre seus dias que é difícil encontrar alguém eclético o bastante a ponto de ter ido a todos os dias do festival. Na platéia no show do último dia, conversei com fãs de todas as partes do Brasil. Havia uma caravana de Porto Alegre, duas meninas de Manaus que já estavam no terceiro dia de shows e muitos cariocas que vinham conversar comigo e com minhas amigas ao ouvir nosso sotaque diferente (coisas do tipo “nossa, quantos ‘r’ tem na palavra ‘porta’ pra vocês?”). O gostoso do festival é isso: as pessoas da platéia se ajudam e conversam sobre tudo. A maioria das pessoas ficou na frente do palco por 10 horas para não perder o lugar – e esse tempo rende conversas e histórias que ficam marcadas. É uma experiência para contar aos netos. E aí, deu vontade de ir ao Rock in Rio em 2013?

FOTO SITE G1

Embora criticadas como “atrações que não combinavam com o Rock in Rio” as cantoras Katie Perry e Ivete Sangalo atraíram multidões

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FOTO BRUNO DE LIMA

FOTO DAMARIS ROTA

Diário de viagem Rock in Rio #Eu fui e conto como foi Dia 01/10 - 22h: Eu, a Duda e a Mi (ambas da revista Pingus), com mais vinte pessoas da excursão, saímos de Bauru rumo ao Rio de Janeiro. Alguns com camisetas do Guns n’ Roses, outros com camisetas do System of a Down, mas todos de preto, muito empolgados com o que estaria por vir. Fomos em um microônibus, e contando o tempo de ida e volta, passamos 25 horas dentro dele.

dos entrassem lá. Enrolamos um pouco no shopping, pegamos o circular do Terminal Alvorada e partimos.

posto. Enquanto comíamos, vimos uma parte do show do Maroon 5 na TV de lá – sem som, ouvindo “Eagles” no sistema de som do posto. Só aumentou nossa ansiedade. Depois voltamos ao ônibus e iniciamos nossa batalha contra os bancos desconfortáveis. Precisávamos dormir pra aguentar o dia, mas ninguém dormiu direito.

10h30: Chegamos na Cidade do Rock e já fomos para a fila. Para ser bem sincera, o lado de fora é feio e sujo, e o cheiro de esgoto que emanava de um córrego estava tirando a paciência de muita gente da fila. Mas tudo bem, porque o mais divertido de esperar na fila até que o portão se abrisse era ver as pessoas passando. Uma galera com uns penteados verdes, roxos, vermelhos; moicanos, blusas rasgadas e uns pecados fashion que davam até arrepio. Além dos muitos covers de Axel Rose e Slash, que eram na maioria das vezes cômicos ou bizarros (como o cara que estava de camiseta, jaqueta militar, bandana e cueca branca encardida. É, sem calças).

9h30: Chegamos no Rio antes do previsto. Para-

13h30: Começamos a ficar irritadas com a quantidade

mos no shopping Barra e recebemos orientações do chefe da excursão de como ir voltar da Cidade do Rock, uma vez que não era permitido que ônibus freta-

de pessoas que começaram a furar a fila. E mais indignadas ainda porque a segurança do evento não fez absolutamente nada para impedir. O pessoal que furou

Dia 02/10 - 1h: Fizemos a primeira parada em um

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a fila começou a criar tumulto e uma mulher nos acusou de ter furado. Tivemos que respirar fundo e ignorar para não dar briga.

A Cidade do Rock tremeu com o intenso show do System of a Down

14h30: Passamos para a revista de bolsas e entramos na Cidade do Rock, FINALMENTE! O lugar é muito bonito e logo de cara vimos a roda gigante – na qual não fomos, porque a fila estava gigantesca. Primeiro comemos e compramos o RioCard, para voltarmos de ônibus depois do evento. A atmosfera do lugar era legal, todo mundo sorrindo, tirando fotos e aproveitando os stands dos patrocinadores – se, é claro, tivessem a paciência de esperar pelo menos uma hora nas filas. Fomos até a Rockstreet e vimos malabaristas, bandas improvisadas, rodas de músicos tocando instrumentos de sopro e até um artista manipulando um boneco do Bob Marley. Demos uma voltinha e já partimos para a frente do Palco Mundo.

FOTOS SITE G1

16h: Achamos um lugar em frente ao palco e nos sentamos lá para esperar os shows, porque só assim para ficarmos bem na frente: acampando mesmo. Ficamos vendo os shows do Palco Sunset no telão, porque se fôssemos até lá seria praticamente impossível voltar para o lugar onde estávamos. Começou a escurecer e mais gente chegava, disputando lugar para ficar pertinho do palco.

18h50:

Começou o show do Detonautas. Eu não dava nada para o show, achava que ia ser chato e que eles seriam vaiados, mas que nada! Todos pularam e cantaram todas as músicas. Nós assistimos ao show bem na frente do telão esquerdo do palco, conseguimos ver tudo direitinho. O único problema de ficar tão na frente é que não dá para se mexer. Mesmo. Em alguns momentos, quando eu levantava o braço, não conseguia mais abaixá-los por falta de espaço.

20h: Aí veio o show da Pitty. Ela foi

Guns n’ Roses fechou o Rock in Rio em meio a muita chuva e com duas horas de atraso 34

incrível, muito simpática com a platéia. O melhor momento foi na música “Equalize”, porque todos estavam cantando juntos e ela deixou o público cantar sozinho muitas partes da música. Foi emocionante. Ela cantou as músicas do primeiro álbum e foi

um retorno à minha adolescência me dar conta de que eu ainda sabia cantar todas.

“Eu não conseguia parar de sorrir na Cidade do Rock. Estar lá é estar em um mundo paralelo” 21h50: No meio tempo entre o show da Pitty e do Evanescence comecei a sentir as dores no corpo de ficar em pé por tanto tempo: joelhos, pescoço, costas pedindo socorro. Mas a vontade de ver a Amy Lee de perto pela primeira vez na vida era maior. Quando a banda entrou e tocou “What you want”, novo single deles, eu comecei a chorar de maneira incontrolável. E quando eles tocaram “My Immortal” então? Foi maravilhoso, um momento perfeito. Eu olhava a minha volta e havia muitos fãs de olhos vidrados no palco, acompanhando as mãos da vocalista no piano e cantando a música toda.

23h20: Antes de começar o show do System, os fãs já estavam enlouquecidos. Ficavam gritando pela banda, tirando as camisetas e abrindo espaço para as “rodinhas punk”. Eu e a Duda estávamos com medo da morte lá no meio, mas decidimos ficar onde estávamos para não perder o lugar. Quando o show do System of a Down começou, percebemos que não sair de lá foi uma péssima idéia. Quando começaram a fazer as rodas de “pogo”, levamos uns bons socos e pontapés e quase caímos tentando sair de lá. Foi nessa hora que minha mochila abriu e eu perdi meus óculos de sol e minha capa de chuva – o que seria a minha ruína mais tarde. Fomos para um lugar mais tranquilo e assistimos o show. E foi sensacional. O vocalista da banda é incrível, tem uma voz impressionante e lida muito bem com o público. O show durou umas duas horas. No final, o baixista da banda se ajoelhou e reverenciou a platéia.

2h30: Agora chega a parte difícil até de escrever. Voltamos para perto da grade para ver o show do Guns n’ Roses e passamos a conversar com um grupo

de cariocas para passar o tempo. A banda estava demorando para entrar, e ouvíamos notícias vagas de todos os lados de que o vocalista havia perdido o avião e poderia não fazer o show. Foi aí que começou a chover. Muito, muito mesmo. Não encontrei minha capa de chuva e decidi que ia aguentar e ficar lá, firme e forte para ver o show. Passaram-se 15 minutos. Meia hora. Quarenta minutos. O show não começava e a passagem de som estava sendo feita naquela hora, muito depois do esperado. Quando já não havia um centímetro do meu corpo seco, decidimos sair de lá. Mais tarde o show começou, mas nós estávamos ofendidas pela falta de noção do vocalista Axel Rose, que deixou o público esperando à deriva – como ele faz em praticamente todo show. O cansaço tinha nos derrotado, e eu tremia tanto de frio que não conseguia mais nem falar. Vimos o show de longe e fomos embora antes de ele terminar. Andamos horrores para pegar o ônibus para o shopping onde nosso microônibus nos esperava. Saímos do Rio 7h da manhã, porque tivemos que esperar que todos voltassem para o ponto de encontro.

Aqui estou eu, de ressaca do Rock in

Rio, para dar meu parecer sobre o festival. Foi uma experiência incrível, mas devo dizer que a organização deixou a desejar. A Cidade do Rock claramente não tinha estrutura para mais de 100 mil pessoas. No final do dia, o lugar parecia uma cena de filme de terror: lixo por todos os lados, pessoas passando mal sem atendimento médico e o lugar todo cheirando a esgoto. Conselho para você, fã enlouquecido de rock que sonha em ir para este festival: vá sim, mas prepare sua mente, seu corpo e seu bolso: o copo de água vendido para o sedento público do Rock in Rio custava cinco reais. Apesar das dificuldades, vou levar essa experiência para a vida toda. Eu não conseguia parar de sorrir na Cidade do Rock. Estar lá é estar em um mundo paralelo. Tudo o que importa é a música.

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Será o fim? Dezesseis álbuns lançados, quatro DVDs e mais de

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dez milhões de discos vendidos ao longo de 25 anos de carreira. Os números do Exaltasamba não deixam dúvida do grande sucesso do grupo no cenário musical brasileiro. Por causa disso, no ano em que completa as “Bodas de Prata” na estrada, a notícia do recesso da banda surpreendeu muitos fãs. Tudo começou em 1986. Um grupo de sete pagodeiros se uniu e formou o grupo Exaltasamba. Péricles, Pinha, Thell, Brilhantina, Isaías, Tortonho e Marquinhos começaram tocando em bares e restaurantes da cidade de São Bernando do Campo, no ABC paulista. O talento era nítido e logo começaram a abrir shows de grandes nomes do samba como Almir Guineto e Jovelina Pérola Negra. Em 1992, o cantor Chrigor foi chamado para assumir os vocais do grupo. No mesmo ano, o Exalta lançou o primeiro álbum: Eterno Amanhecer. Em 1994, lançaram o CD Encanto, atraindo vários empresários e gravadoras. Mas foi em 1996 que o grupo fez um sucesso estrondoso com o disco Luz do Desejo, lançado pela gravadora EMI Music, com os sucessos “Telegrama”, “Luz do Desejo” e “É você”. O CD alcançou a marca de 750 mil cópias vendidas. Para a professora de Educação Física Luana Marcello, 26 anos, as músicas desse início são marcantes e fundamentais para o sucesso do grupo. “No começo o Exalta fazia sucesso pela qualidade da música, não porque o cantor era bonito. Além disso, foi esse início que abriu portas para essa carreira de tanto tempo”, avalia. O quarto álbum do grupo, Desliga e Vem de 1997, seguia o estilo romântico do anterior e alcançou um milhão de cópias vendidas em menos de seis meses. No ano seguinte, o disco Cartão Postal atingiu a marca de um milhão e 250 mil cópias, tendo uma das faixas (“Eu me apaixonei pela pessoa errada”) a música mais tocada das rádios do Brasil em janeiro e fevereiro de 1999. Depois de alguns anos sem conseguir o mesmo sucesso dos últimos CDs, o grupo teve sua formação modificada. Devido a problemas pessoais, o cantor Chrigor foi substituído pelo jovem Thiaguinho. Recém eliminado de um reality show (Fama, exibido pela Rede Globo), Thiago André Barbosa deu uma nova cara ao grupo e o conduziu ao auge desses 25 anos. Em 2006, os pagodeiros apostaram no ançamento do

Exaltasamba afirma que fará recesso por tempo indeterminado 11° álbum e primeiro DVD do grupo, o Todos os Sambas Ao vivo. Em 2007, lançaram o CD e DVD Ao Vivo Pagode do Exalta. O principal hit do DVD, a música “Livre pra Voar”, chegou a ter mais de 50 mil downloads pagos.

A expectativa dos fãs Foi nessa época que a estudante Thaís Oliveira, 20 anos, tornou-se fã do grupo. “Eu sempre gostei do Exalta desde quando o Chrigor era o cantor, mas depois que o Thiaguinho entrou no grupo, acho que ganharam uma nova cara. Um novo jeito de cantar”, afirma. Ao Vivo Na Ilha Da Magia é o 14° álbum e o terceiro DVD do grupo. Como último trabalho, em 2010, lançaram o álbum Exaltasamba – 25 Anos Ao Vivo gravado no Estádio Parque Antártica na cidade de São Paulo. Com o sucesso crescente e as críticas sempre positivas, o anúncio do recesso do grupo foi surpreendente. Para Thaís foi difícil entender a decisão. “A notícia do fim da banda foi muito deprimente, chocante, triste, um impacto muito grande. Mil coisas passavam pela cabeça naquele momento, afinal meus ídolos seguiriam caminhos diferentes”, admite. Segundo a assessora do grupo, Simone Catto, a decisão foi tomada em conjunto logo no começo do ano. “Essa decisão, tomada em comum acordo por Péricles, Pinha, Thiaguinho, Brilhantina e Thell, encerra um ciclo que teve seu ápice no dia 5 de junho de 2010, quando 38 mil exaltamaníacos estiveram presentes na gravação do DVD Exalta 25 Anos no Estádio Palestra Itália em São Paulo”, afirma. Para os fãs, resta acreditar na declaração de Thiaguinho. “Nós nos amamos muito, amamos nossos fãs, nossos colaboradores e nossos amigos que lutaram, sofreram, choraram, riram e, principalmente, venceram todos os obstáculos conosco. Nós vamos voltar”.

POR ODELMO SERRANO 37


divulgação externa, e administradores. “Fora isso, nos falamos diariamente por telefone, e-mail e Messenger”, observa. A jornalista estima que, antes do evento, a equipe de comunicação realiza cerca de 20 ligações diárias. “Nos três dias que antecedem o evento, essa média dobra. Enquanto a festa acontece, recebemos mais ligações do que realizamos”, calcula. “Os telefones realmente não param”.

TESOURO BAIANO Carnavais fora de época se espalham pelo Brasil e se tornam um negócio lucrativo no universo do show business

A

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lém do horizonte, é possível ver um caminhão se aproximando. À sua frente, mais de 10 mil pessoas o esperam ansiosamente. O veículo é um dos principais responsáveis por garantir a alegria e a festa da multidão ao longo das três próximas noites. Não é um automóvel qualquer. Trata-se de um trio elétrico, levando a bordo os dois maiores nomes do carnaval baiano: a cantora Ivete Sangalo e a banda Chiclete com Banana. Na cidade de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, uma micareta reuniu foliões do Brasil todo. Graças a uma parceria firmada entre os organizadores do evento e um site de compras coletivas, foram vendidos abadás (uniforme que funciona como ingresso) em mais de 50 cidades, como Belém (PA), Recife (PE), Pelotas (RS),

Fortaleza (CE), Maceió (AL), São Luís (MA), Curitiba (PR), Vitória (ES) e Campinas (SP). A diversidade da festa se traduz em hotéis, restaurante e bares lotados — para a alegria dos comerciantes locais. Aos olhos do folião, a micareta é apenas diversão e festa. Mas para que a animação seja garantida, centenas de profissionais atuam antes, durante e depois do evento. São milhares de empregos diretos e indiretos gerados em função da folia, que vão desde seguranças até assessores de imprensa. Elaine Madalhano é responsável por gerir a imagem do evento há 11 anos. Em função da micareta, é realizada uma reunião por semana entre os produtores, assessores de imprensa, profissionais de marketing, responsáveis pela

Personagens da folia Entre os “anjos da guarda” da festa, está Ana Luiza Poloni, 24 anos. Ela é uma das enfermeiras do ambulatório da micareta, onde são oferecidos cuidados de emergência, como curativos em casos de escoriações e cortes. Ana acredita que brigas e álcool ainda são os principais vilões da enfermaria. “A cada ano o pessoal abusa mais. Sem contar que atendemos jovens cada vez mais novos bebendo e usando drogas, como lança-perfumes”. Por noite, as enfermeiras atendem cerca de 50 pessoas. “Fazemos um trabalho de orientação e cuidados rápidos, senão o ambulatório não suporta todos que nos procuram”, pondera. Valdemir da Silva, 43, tem a micareta como fonte da sua renda há 15 anos. Ele é vendedor ambulante contratado para atender o público do setor não open bar do evento. Valdemir e seus colegas representam o trabalho braçal de um lucrativo negócio. O dono do evento “vende” o espaço a um distribuidor de bebidas, que contrata os ambulantes ao preço de 50 centavos por lata vendida. O vendedor, no entanto, observa que o negócio também é interessante para ele. “Consigo cerca de 2 mil reais por mês em eventos no noroeste paulista. Fora daqui, conseguiria no máximo a metade deste valor”, ressalta. “Sustento minha família tranquilamente com esse lucro”. Para manter a organização de um evento como a micareta, além dos policiais e bombeiros, há também outro tipo de profissional responsável pela segurança: o cordeiro. Eduardo dos Santos, 30, é chefe da equipe que separa o trio elétrico dos foliões. “Já presenciei casos em que foliões alcoolizados tropeçaram na frente do caminhão. Sem o nosso trabalho, o

A segurança é reforçada para evitar tumultos e drogas na micareta

Para comandar o trio, além de habilidade, Antero necessita de calma

Ratinho está presente em todas as apresentações da cantora Ivete Sangalo para garantir a qualidade dos shows

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Palco Andante Tão importante quanto os artistas, o trio elétrico possui uma agenda e um produtor responsável pela logística de suas apresentações. Determinar onde, quando e por quanto o gigante da folia se apresentará é umas das funções de André Oliveira, de 30 anos. Apesar de formado em psicologia pela Unesp de Bauru, o produtor não conseguiu deixar de lado sua paixão

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FOTOS DE LUCAS GANDIA E ODELMO SERRANO

dos foliões. “Já presenciei casos em que foliões alcoolizados tropeçaram na frente do caminhão. Sem o nosso trabalho, o número de acidentes seria muito maior”, afirma. Quando Ivete Sangalo chega escoltada pela Polícia Militar ao Recinto de Exposições, na noite de domingo, Patrícia Cristina, 27, além de segurar a corda do trio, tem que segurar a emoção. Fã da cantora baiana desde a época da Banda Eva, a cordeira nunca conseguiu chegar perto de seu ídolo. Para o evento em Rio Preto, Patrícia comprou um colar de presente para a artista. “Meu coração está saindo pela boca. Eu vou conseguir entregar meu presente para ela”, afirma. O trio começa a andar e a cordeira tem que assumir a postura de profissional. O lado fã fica apenas na imaginação, enquanto sonha se a lembrança chegará, algum dia, nas mãos de Ivete.

pelo show business. Após trabalhar nos bastidores de apresentações de artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Paralamas do Sucesso, há um ano e meio André se rendeu ao rentável universo do axé music. “Para acontecer toda a festa, há uma equipe focada em todos os detalhes. Por trás de todo grande artista, há uma equipe maior ainda”, ressalta. O Demolidor 3 — trio elétrico feito para Ivete Sangalo há dois anos e meio — é o palco móvel utilizado nos três dias da micareta riopretense. Os números deste caminhão com estrutura de alumínio são grandiosos: são 800 litros diários de diesel, 3 geradores de energia, 300 auto-falantes, 128 drivers e mais de 340 mil watts de potência para manter os 130 metros quadrados de palco. O trio possui aberturas nas laterais, na frente e na traseira, de onde saem caixas de som. O Demolidor 3 tem quatro banheiros (sendo um com chuveiro) e reservatório com dois mil litros de água. A bordo do seu caminhão de luxo, Ivete conta com TVs de LCD de última geração, home theater, 198 canais de TV a cabo via satélite, internet sem fio, ar condicionado, adega climatizada para vinho, geladeira, arara para figurino artístico e luz de cromoterapia. O custo total do mais moderno e luxuoso trio elétrico do carnaval: 2,5 milhões de reais.

Antero Felipe Nunes, 61, é motorista de trios há oito anos. O paulista com tranquilidade de baiano observa que paciência é fundamental na sua atividade. “É necessário olhar para todos os lados o tempo todo, além de ter uma sintonia com o artista”. Para se proteger do barulho, vidros da cabine fechados e protetores de ouvido. Antero não dirige o trio somente dentro dos circuitos fechados das micaretas. Ele é responsável por conduzi-lo nas rodovias entre as cidades onde é utilizado, à velocidade máxima de 60 km/h. “Para quem está acostumado com o Carnaval de Salvador, o resto é tranquilo”, afirma. Cláudia de Araújo, 38, é camareira de trio há seis anos. Em todas as cidades onde o palco andante se apresenta, ela está trabalhando. “Já

estou até acostumada com a loucura dos fãs querendo subir aqui para conhecer os artistas”. Assim como Cláudia, José Aparecido Santos, 51, já conheceu o país inteiro graças ao sucesso da música baiana. Ele é responsável pela limpeza e organização do trio. “Perdi as contas dos lugares que conheço. Já rodei o Brasil todo a trabalho”, brinca.

Rainha da Folia Nos três dias da micareta riopretense, atrações como o badalado DJ Gui Boratto e bandas de axé como “A Zorra” e “Chiclete com Banana” movimentaram o recinto de exposições da cidade. A noite mais esperada, no entanto, foi a de Ivete. Poucos artistas brasileiros conseguem se comunicar com os mais variados públicos como a cantora baiana.

Mas ela prefere não ser considerada uma unanimidade. Ivete sabe do seu poder de comunicação e brinca com as massas. No palco ou no trio, reina e mostra porque pode ser considerada a maior artista brasileira dos últimos tempos. Ao longo dos seus 18 anos de carreira profissional, a cantora dribla a crise no mercado fonográfico, é estrela no mercado publicitário e possui o cachê mais caro do show business brasileiro. Para que Ivete se apresente em uma cidade como São José do Rio Preto, por exemplo, são necessários meses de antecedência de negociação. Cerca de 200 pessoas dependem, direta e indiretamente, do seu nome. Talvez esta seja uma motivação a mais para que a cantora — intitulada de furacão baiano — não pare. E Ivete não para. Uma noite antes de se apresentar na micareta paulista, a baiana cantou no interior de Tocantins, no norte do país. Para que tudo esteja pronto na hora de subir no trio, a equipe que a acompanha trabalha intensamente. Marcos Becatini, 51, é um dos profissionais fundamentais nos shows de Ivete. Ratinho, como é conhecido na equipe, trabalha como produtor técnico da cantora há 13 anos. Sua tarefa não é pequena: ele é responsável, por exemplo, pela luz, pelo som e pelos geradores. “Não gostamos de imprevistos na hora do show. Viajo com um dia de antecedência para conferir se está tudo do jeito como solicitamos”, enfatiza. Para acompanhar Ivete em todos os shows do final de semana, Ratinho saiu de Tocantins às 4 horas da madrugada de sábado para domingo, viajou de ônibus até Goiânia, onde pegou um voo fretado, desceu em São Paulo, onde entrou em outro avião com destino em São José do Rio Preto. Às 16h30, já estava no local do show de domingo. “Todo mundo tem curiosidade por este ramo, mas é necessário preparo para se adequar a esta rotina. A vantagem é que é muito fácil trabalhar com Ivete, sempre muito atenciosa com todos”, 41


reforça. Desde que seu filho Marcelo nasceu, em outubro de 2009, Ivete mudou sua rotina e estabeleceu uma nova premissa em sua vida: não dorme fora de casa. Ao término de cada show, independentemente da cidade onde se apresenta, pega seu jatinho particular e volta para Salvador (BA). Apesar de ser a maior popstar brasileira, a cantora afirma reconhecer e respeitar o valor dos que também não gostam do seu trabalho. “Críticas são críticas, desrespeito é outra coisa. O respeito que eu tenho pela opinião alheia eu jamais vou perder, e acho que o contrário é verdadeiro”, enfatiza. “E eu acredito que, se foi dado a você o poder da crítica, não necessariamente você precisa gostar de mim. Por isso aceito sempre as críticas, desde que estejam aliadas à postura do respeito, que é a que eu aplico no meu trabalho”. Ivete mantém os pés no chão, uma postura discreta fora dos palcos. A cantora, que nunca foi protagonista de polêmicas na mídia, possui um relacionamento de proximidade com jornalistas e paparazzis. “A minha relação com a imprensa brasileira é de respeito. Nosso trabalho é feito baseado nesta troca: o meu trabalho,

“Críticas são críticas, desrespeito é outra coisa. O respeito que eu tenho pela opinião alheia eu jamais vou perder, e acho que o contrário é verdadeiro” (Ivete) vocês ajudam a divulgar, e o jornalista também precisa da notícia para trabalhar”, afirma. “Cabe a cada um saber da sua responsabilidade em relação à notícia”. Ao final do show de pouco mais de duas horas, Ivete sai do trio e, rapidamente, entra na van. No trajeto de menos de um metro, são mais acenos, sorrisos e fotos. De lá, parte para o aeroporto, com destino a Salvador. E assim termina mais uma noite de trabalho para a cantora. Para os foliões, a festa continua até a segunda-feira nascer. Quem tiver pique, que acompanhe a força da festividade baiana importada para o todo o país.

crítica

POR MARIANE BOVOLONI FOTO DIVULGAÇÃO

POR MARIANE BOVOLONI

produção de Max Viana, filho de Djavan, ou pelo próprio desenvolvimento da música de Thiago Varzé. Canções como “Vida e Verdade”, “1, 2 e...” e “Desse jeito” trazem um samba mais pop, mais dançante. “Avelã” é a mais romântica, com pitadas de bossa nova. Enquanto que “Pra curtir” traz a força da guitarra para uma música que só tem a pretensão de ser lírica. O sax soprano de Josué Lopes agrada os ouvidos e dá um toque diferenciado ao samba “Tudo vai dar certo”, canção que Thiago compôs em viagem ao Rio de Janeiro. A canção “Tudo” se destaca com louvor. Traz a suavidade da melodia à la Lenine, letra romântica e a participação especial de Jacques Morelembaum e de seu violoncelo. Nesses poucos meses que sucederam o lançamento de “Outros ares”, o álbum se tornou um dos mais vendidos em lojas virtuais. E não é para menos. Enfim, Thiago Varzé começa a ser reconhecido pela música de qualidade que produz, pela sua voz marcante e pela leveza e doçura de suas letras apaixonadas. Não é à toa a comparação entre seu disco e a tranqüilidade das tardes de domingo. Pois é. O título da canção “Tudo vai dar certo” está enganado. O correto seria dizer: Tudo já está dando certo! Se em “Avelã”, o artista diz “Eu quero me lançar nos seus braços”, eu diria a ele: se lance nos braços do samba e não abra mão do que faz!

Um álbum que traz o melhor do samba, da bossa

Eu diria a ele: se lance nos braços do samba e não abra mão do que faz! FOTO DIVULGAÇÃO

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nova, do soul, do jazz e da MPB. Uma bateria tímida, um piano bem colocado e um violoncelo dando o ar da graça na canção “Tudo”. Em um arremate, uma voz suave e melodiosa como tardes de domingo. É assim que defino o segundo CD do paulista Thiago Varzé, “Outros ares”. Natural de Itanhaém, litoral de São Paulo, Thiago Varzé teve os primeiros contatos com música ainda criança. Estudou saxofone e se formou em violão e canto popular. O início de sua carreira foi em São Paulo, cantando em bares e, já nesses anos, trazia em seu repertório clássicos da MPB e da bossa nova que tanto influenciaram a sonoridade de suas melodias. O lançamento do primeiro CD de Thiago, “Áudioretrato”, em 2005, foi tímido e, embora traga boas músicas, não foi mais do que um registro das primeiras canções escritas pelo músico. Após um hiato de mais de cinco anos, ele lança “Outros ares”, com a produção de Max Viana. São dez canções, seis autorais e quatro composições de amigos. Entre as autorais, “Avelã”, a quarta faixa, conta com a participação do músico Léo Nogueira. É um fato que “Outros Ares” é um disco mais maduro e mais brasileiro que o primeiro, seja pela

“Outros Ares”, novo CD de Thiago Varzé, traz o melhor 43 do samba


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O que é ser indie? Tulipa. Tiê. Vanguart. Holger. Apanhador Só... A lista tem muitos outros nomes. Sabe o que todos têm em comum? São indies. POR MARIANE BOVOLONI

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A palavra “independent”, da qual “indie” é abreviação, surgiu nos Estados Unidos para designar aqueles artistas que não estabeleciam vínculos contratuais com empresários ou estúdios de gravação. Eles pagavam a produção de seus trabalhos e depois os divulgavam em apresentações. Essa ideologia de produção, principalmente de discos, é uma forma de escapar do julgamento das gravadoras, que se preocupam mais em atender ao público e obter lucro. Rafael Fonseca é pesquisador e, em sua dissertação de mestrado, pesquisou a cena musical indie de Belo Horizonte,

Álbum “A coruja e o coração” da cantora independente Tiê, indicada a categoria Revelação no Prêmio Multishow 2010 44

Minas Gerais. Para ele, o acesso de bandas aos grandes estúdios, guiados pela lógica do mercado, sempre foi restrito. Por outro lado, há os artistas que não queriam vender seus produtos e vê-los adaptados às exigências comerciais. “Assim surgiu o termo indie: pequenos selos criados por produtores ou mesmo artistas que viabilizou a comercialização de discos fora do escopo das grandes gravadoras. Porém, principalmente nos anos 80 e 90, alguns desses selos são incorporados pelas grandes gravadoras”, explica. Por isso, contar com esse “selo indie” não é obrigatório. Muitos músicos, hoje, distribuem seus discos ou MP3 por meios próprios. A banda “Apanhador Só”, de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, é mais uma que segue a onda dos indies. Eles lançaram seu último cd “Sucateiro” neste ano. Este e o primeiro álbum, “Apanhador Só”, estão disponíveis para download gratuito no site da banda. Indies à brasileira O auge da música independente no nosso país foi nos anos 1980. Tudo começou com a criação de um pequeno teatro chamado Lira Paulistana, local de convergência para artistas independentes. Seu crescimento foi tamanho que, em pouco tempo, tornou-se um catalisador das atividades independentes. No final de 1982, o crescimento da Lira Paulista despertou o interesse de uma gravadora chamada Copacabana, permitindo importantes lançamentos. A produção independente era uma atitude incomum de artistas e passou a se tornar a mais viável. Neste início, o público resistia ao trabalho independente já que, por não contarem com o apoio tecnológico e financeiro de grandes gravadoras, eram considerados amadores. O primeiro artista indie do Brasil foi o

FOTOS DIVULGAÇÃO E Ariel Martini

A banda Apanhador Só. Da esquerda para direita: Fernão Angra, Felipe Zancanaro, Alexandre Kumpinski e Martin Estevez

À esquerda, capa do álbum da Vanguart, e à direita, primeiro álbum independente de Antonio Adolfo.

pianista, maestro e compositor Antonio Adolfo. Em 1977, ele produziu música instrumental por conta própria e criou o selo “Artezanal”, exigência para o lançamento do disco “Feito em casa”. Aqui, no entanto, não existiu o “movimento indie” enquanto tal, mas artistas que se tornaram seus próprios empresários e trouxeram novas propostas estéticas para a Música Popular Brasileira, ameaçada pelo aspecto mercadológico pelo qual as gravadoras se guiavam. Seu sucesso foi tamanho que o momento passou a ser considerado como a “virada paulista da MPB”, recebendo total aceitação do público. Depois do auge em 1982 e 1983, o movimento independente perdeu a força.

Tanto que a Lira Paulistana perdeu seus sócios e voltou a ser apenas um Teatro. A nova onda indie A partir dos anos 2000, a cena musical indie começou a ressurgir. A banda Vanguart, liderada pelo compositor Hélio Flanders, foi a precursora de uma nova onda que trouxe o indie folk e influenciou músicos como Tiê. Esta, com a voz mansa e sorriso de menina, mostrou que música boa se faz com melodias suaves e letras bem estruturadas, não com potência vocal. Tiê puxou Mallu Magalhães que, do início indie, foi engolida por uma grande gravadora que lhe permitiu “Faça seu disco como quiser”. Depois deles, vieram tantos outros que é impossível nomear.

Tanto que, hoje, a expressão indie vem sempre acompanhada de um gênero, na tentativa de melhor definir o movimento: indie rock, indie pop e indie folk. Em Belo Horizonte, segundo Rafael Fonseca, os músicos indies enfrentam o problema de falta de oportunidades para apresentar músicas autorais. “Seja na disponibilidade de estruturas físicas ou produção eventos, os músicos de bandas indie na cidade estão sempre às voltas com problemas de ordem prática”. Para ele, a solução está na articulação entre os músicos, desde a organização de eventos até empréstimo de instrumentos, oferta de auxílio em gravações caseiras, participações especiais em gravações uns dos outros. 45


agenda Cinema

Ciranda – Comédia drama O enfoque da peça é a relação entre mãe, filha e neta, é retratado em um período de 15 anos. Em dois atos as atrizes Tânia Bondezan e Daniela Galli se revezam nos papéis (primeiro mãe e filha, depois filha e neta), cada uma interpretando dois personagens. A relação conturbada entre uma dona de restaurante de 50 anos, solteira e sua filha de 33 executiva e casada com um estrangeiro, mostra ao público formas diferentes de ver a vida e como o choque de personalidades é dura e patética. Mas vê também que o bom humor é o melhor remédio para estas situações. O ingresso custa R$40,00, com sessões às 21 h no teatro Eva Herz (no Conjunto Nacional da av. Paulista).

Corações Sujos – Estreia 18 de novembro Em 1945, o Japão se rende aos Estados Unidos e assim termina a Segunda Guerra. Mas para a maior parte da colônia japonesa no Brasil, o Japão saiu vitorioso do conflito. Uma minoria que sabia e aceitava a derrota foi perseguida e muitos assassinados. Corações Sujos conta a trajetória da Shindo Renmei uma facção japonesa que não aceitava a derrota e mostra a transformação de um pacato cidadão em um assassino frio.

Ari Toledo à todo vapor – Comédia Com quase 50 anos de carreira, o humorista de 72 anos faz apresentações no teatro Sílvio Romero (zona leste de São Paulo). Um dos momentos de destaque é a “conversa” entre um garçom e seu cliente (Ari), o mais interessante é que o diálogo tem 522 palavras começadas com a letra F. O humorista oferece além do seu repertório tradicional que traz sátiras políticas e piadas, apresenta também músicas inéditas. O ingresso custa R$50,00, com sessões às sextas e sábados, 21h e aos domingos, 19h.

Os Muppets – Estreia 25 de dezembro Gonzo é contratado para dirigir um filme, mas acaba gastando todo o dinheiro. Jason Segel tem a missão de juntar os amigos (Muppets) e produzir o filme. Chris Cooper quer impedir o projeto, pois o seu maior interesse é colocar as mãos no petróleo que está debaixo do estúdio.

War horse – Estreia 6 de janeiro de 2012 War horse, de Steven Spielberg, mostra a história de amizade entre um menino (Albert) e o cavalo Joey. Durante a Primeira Guerra Mundial, Joey é levado a Europa para participar do conflito. A coragem de Joey acaba chamando a atenção dos soldados. O filme é uma adaptação do livro infantil de mesmo nome escrito por Michael Morpugo e publicado em 1982 no Reino Unido. “War Horse” também foi adaptado para o teatro em 2007.

Sherlock Holmes 2 – Estreia 13 de janeiro Nesta sequencia Holmes encontra um inimigo à sua altura, Dr. Moriarty inteligente e sem escrúpulo que deixa um rastro de morte e destruição por onde passa. Além de enfrentar o vilão, Sherlock ainda tem que desvendar o mistério do assassinato do príncipe da Áustria.

Top Gun – Ases indomáveis – Estreia início de 2012 Um clássico lançado em 1986, ainda hoje lembrado pela trilha sonora Take my breath away, de Berlin e pela atuação do jovem Tom Cruise será relançado nos cinemas. O filme que este ano completa 25 anos ganhará nova versão em 3D, de acordo com o site Hollywood Reporter. Robert Hummel, diretor da Legend 3D, empresa responsável pela conversão do filme, anunciou que a reestréia acontecerá no início de 2012.

teatro Minhas Sinceras Desculpas - Comédia

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Eduardo Sterblitch (o Freddie Mercury Prateado) fica em cartaz até o fim de novembro com o monólogo “Minhas Sinceras Desculpas”. Com texto e direção de Sterblitch, a peça mostra um ator frustrado tentando satisfazer suas próprias expectativas, os ingressos para outubro estão disponíveis a partir de quinta-feira (22) pelo site da Tickets for Fun. Os ingressos variam de R$60,00 a R$100,00, em sessões que acontecem em 3 e 24 de outubro e em 7, 14, 21 e 28 de novembro, no Citibank Hall (zona sul de São Paulo).

O Tom do Tom - Comédia Tom Cavalcante começa temporada do seu espetáculo no Clube Comedians, Centro de São Paulo, a casa de comédia de Rafinha Bastos e Danilo Gentili (CQC) e do empresário Ítalo Gusso. Além das imitações consagradas de Tom, há também uma boa dose de improviso. Os ingressos custam de R$50,00 a R$100,00 e estão à venda pelo site ingressorapido.com.br. As sessões acontecem às terça-feiras, começam às 21h. A temporada vai até 25 de outubro.

Shows Ben Harper O cantor californiano Bem Harper vem ao Brasil e fará uma turnê pelas cidades Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Florianópolis e Porto Alegre. Em São Paulo a apresentação acontecerá no dia 09/12/11 – sexta-feira às 22h, no Via Funchal. Ingressos Pista Premium: R$ 350,00 Pista: R$ 180,00 Mezanino: R$ 240,00 Camarote: R$ 350,00 Pontos de Vendas Pela internet: www.viafunchal.com.br Bilheteria oficial: Rua Funchal, 65, diariamente, das 12h às 22h

Deep Purple Para os amantes do rock clássico vem ai o show do Deep Purple, do começo do rock psicodélico, a banda transformouse num patrimônio do rock, sobreviveu a incontáveis mudanças na formação. Em Campinas o show acontecerá no dia 08/10/11 às 22h na Expo América. Ingressos Pista: R$ 120,00 Pista Premium: R$ 240,00 Pontos de Venda Pela internet: www.ingressorapido.com.br PDV´s: Ingresso Rápido

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Sem lenço

nem documento

excursão organizada por uma agência de viagens. A grande sacada é economizar trocando o hotel pelo albergue, ou hostel, como chamam os mochileiros. Não se tem tanto luxo em um albergue quando se teria em um hotel, mas o princípio é simples: menos luxo, mais economia; mais dinheiro, mais tempo de viagem. André Cella, 29, conheceu praticamente toda a América do Sul e a Europa ocidental fazendo mochilões. O primeiro foi aos 21 anos, a convite de amigos, quando estava na faculdade. A partir daí, não parou mais. De acordo com ele, as experiências positivas de um mochilão superam em grande número as negativas. “O interessante num mochilão é sair do lugar comum. Fazer coisas que poucas pessoas fizeram, ir a lugares que não aparecem no jornal todo dia, e mesmo quando for a esses lugares, fazer as coisas de um jeito diferente dos ‘turistas’.

A liberdade do mochilão é que ele permite ficar mais em um lugar, se você gostou dele, ou apenas parar lá por cinco minutos, se ele não pareceu legal”, afirma. A grande preocupação de viajar por conta própria é que o mochileiro tem que lidar com os imprevistos e resolvê-los sozinho. Se ele tiver algum problema com o transporte ou se adoecer, não terá o respaldo oferecido pelas agências de turismo quando se compra um pacote, por exemplo.

“A liberdade do mochilão é que ele permite ficar mais em um lugar se você gostou dele, ou apenas parar lá por cinco minutos se ele não pareceu legal”

Por causa disso, viajar de mochilão é recomendado para pessoas que têm espírito de aventura. “Quem tem medo de conversar em outras línguas, medo de se virar sozinho, não gosta de carregar peso ou de ficar em lugares que às vezes não são tão confortáveis, melhor mesmo é contratar um pacotão”, aconselha André.

André em Machu Pichu, Peru

Econômico e espontâneo, o mochilão é um dos meios mais divertidos de viajar POR LARISSA MAINE FOTOS ARQUIVO PESSOAL

Grande parte das pessoas, alguma

vez, já teve vontade de sair viajando pelo mundo só com uma mochila nas costas e dinheiro no bolso. Na vida moderna, em que a maioria das pessoas só vai da casa para o trabalho, sai aos finais de semana e almoça em família aos domingos, enfiar umas roupas na mochila e entrar no avião assim, sem muito planejamento, parece até surreal. Mas para quem já fez mochilão é esse 48

mesmo o objetivo: viajar com a liberdade de escolher para onde ir, ficar o tempo que quiser, conhecer lugares, pessoas e culturas novas, tudo sem muita bagagem. No Brasil, a cultura backpacker ainda não é muito difundida, mas na Europa e na Austrália, por exemplo, é um tipo de viagem bem comum em que os mochileiros podem passar meses viajando. Isso é possível porque um mochilão sai mais barato do que uma 49


crônica

O segredo do mochilão inesquecível: planejamento

Na fila do Gargarejo

A

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DE LAIS RODRIGUES

H

FOTO ARQUIVO PESSOAL

pesar da liberdade que se tem na escolha do itinerário, o mochilão também precisa de algum planejamento. Para quem vai viajar por conta própria, a internet é uma ferramenta essencial para descobrir mais sobre os lugares que se vai visitar, como clima, temperatura, hábitos culturais, albergues confortáveis, pontos turísticos, moeda e tudo o mais. Afinal, quando se viaja só com uma mochila, a pesquisa é indispensável para descobrir o que é estritamente necessário carregar. Já pensou ir para a Patagônia em julho sem blusa de frio? Além disso, blogs e fóruns sobre mochilão também podem ser ótimas fontes para conseguir dicas de viagem e bater um papo com outros mochileiros. De acordo com André Cella, levar consigo um bom guia turístico também poupa trabalho e dinheiro. “Cada real gasto num guia turístico economiza dez ao longo da viagem, além de tempo e aproveitamento do percurso. Há guias feitos para mochileiros que dão dicas boas do que vale a pena e o que não vale, como gastar menos, o que dá para fazer de graça, onde é perigoso, etc. Os próprios guias trazem os mapas básicos”, conta. Ele também alerta que sempre há um ponto de informações turísticas nos aeroportos e nas estações ferroviárias, onde é comum a distribuição de mapas geralmente gratuitos do local. Para quem quer fazer o mochilão, mas com um pouco mais de conforto, também existe a opção de contratar alguns serviços pela agência de turismo, como a reserva de hotéis, passagens aéreas e ferroviárias. A viagem encarece e fica um pouco mais engessada, mas o mochileiro conta com toda a segurança que a agência oferece, como o seguro de saúde, e viaja com a tranquilidade de saber que o transporte e a acomodação já estão garantidos. A estudante Eleanora Stefani, 19, é de Piracicaba e fez mochilão com uma agência da cidade em 2009. Ela contratou um pacote completo – com passagens aéreas e ferroviárias inclusas, os hotéis e alguns passeios – e saiu de mochilão para conhecer dez países da Europa. A viagem foi em grupo e contou também com a presença de um guia. Eleanora afirma que escolheu o mochilão por agência por causa da organização. “O roteiro é mais bem pensado, garante um aproveitamento do tempo e dinheiro, além de segurança. Não há pontos negativos em realizar a viagem com uma agência, desde que ela entenda o seu modo de querer viajar e respeite sua viagem”.

O pacote de viagem escolhido por Eleanora incluiu a visita a dez países da Europa, além de passagens e acomodações

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oras antes do espetáculo da vida dela. A maior fã da banda, era o que ela sempre dizia. Os ingressos estavam na mesinha de cabeceira do quarto de menina-moça. As paredes cor-de-rosa estavam cobertas por pôsteres e fotos dos músicos que ela adorava. Na prateleira, ao lado das bonecas empoeiradas, pilhas e pilhas de revistas com matérias sobre a banda. A penteadeira era um misto de maquiagens antigas e partituras, que faziam par com o violão usado que repousava sobre a cama. Em todos os seus 14 anos, ela nunca tinha estado em um show. Custara-lhe toda a manha do mundo para convencer os pais de que ela já tinha idade suficiente para sair por aí sozinha. Na noite anterior, mal dormiu, e nas poucas vezes que conseguiu pregar os olhos, sonhou com o show do dia seguinte. Sonhou, não, teve pesadelos. Em um, o show era cancelado. Em outro, ela perdia a van que a levaria para o estádio. Mesmo com pouco descanso, ela acordou cedo e passou a manhã checando e checando novamente se tinha tudo que precisava na bolsa. O ingresso já estava até meio amassado, de tanto que ela gostava de admirá-lo enquanto imaginava o dia perfeito. O sonho sempre acabava com ela conhecendo seus ídolos. A manhã demorou a passar. Depois, ela ia se lembrar de tudo aquilo como um instante só. Ela chegou cedo no ponto de encontro de onde a excursão ia sair. A viagem até o estádio pareceu durar dias. Saiu da van quase saltitando de excitação. Ela seguiu para a fila que já se formava e mal conversou com ninguém. De tão nervosa, quase esqueceu do lanche que tinha trazido para a espera de horas antes de os portões serem abertos. Então as catracas se abriram. Ela e mais uma enxurrada de fãs correram para a grade E lá

estava ela, na fila do gargarejo. Um lugar novo a ser desvendado. Pensou no nome diferente dado à expressão. Ela tinha muito tempo nas mãos e a ansiedade fazia sua imaginação voar. Já tinha ouvido falar que era porque, na época áurea do teatro, os apreciadores das peças sentavam tão perto do palco que podiam ouvir os atores gargarejando nas coxias, antes de as cortinas abrirem, enquanto se preparavam para o espetáculo. Também tinha ouvido uma vez uma outra explicação, mais simples. Na primeira fila de poltronas de cinemas, teatros e casas de espetáculos em geral, os espectadores são obrigados a espichar o pescoço, como quem estivesse fazendo gargarejo, para conseguir assistir ao show. Bem no meio desse devaneio, ela ouviu uma movimentação. A cortina tremeu e abriu pouco a pouco, lenta demais, se alguém perguntasse a ela. Alguns fãs começaram a gritar. Meninas nos ombros de amigos choravam de emoção. Ela não sabia se ria, se chorava, se pulava. A experiência toda foi surreal, ela tinha que ficar se lembrando de que não era sua imaginação fértil lhe pregando uma peça, e observava tudo com muita atenção para não esquecer de nada depois. Foi então que o show chegou a sua última música. Era a preferida dela. Ela ouviu cada nota de olhos fechados, apreciando o momento. As cortinas se fecharam, os olhos dela se abriram. De mansinho, como quem acorda de um sonho bom, ela foi se mexendo, reparando que todos ao seu redor faziam o mesmo. Sem nem perceber, foi empurrada para a saída com um baque. Quando viu, já estava na rua, junto com seus companheiros de van, sem nem tempo de pensar no momento marcante que tinha acabado de presenciar. O show da vida tem que continuar. 51



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